Roberto Bolaño: ‘A pista de gelo’

20/04/2007

“A pista de gelo” (Companhia das Letras, tradução de Eduardo Brandão, 200 páginas, R$ 37), que chega às livrarias semana que vem, é um livro do chileno Roberto Bolaño. Isso bastaria para torná-lo um destaque entre os lançamentos da temporada. Um dos nomes mais citados aqui no Todoprosa, personagem de diversas notas nos últimos meses, Bolaño (1953-2003) vem se firmando no juízo da crítica internacional como o maior nome da literatura latino-americana pós-boom. Acontece que, além de tudo isso, este é o primeiro romance que ele publicou, em 1993, bem no início da torrente vertiginosa de lançamentos – romances, contos e poesia – que marcaria seus últimos dez anos de vida como expatriado em Barcelona. Nessa posição, se fica distante da grandiosidade de “Os detetives selvagens”, “A pista de gelo” tem um interesse especial para o admirador de Bolaño por apresentar pela primeira vez vários elementos de sua obra “madura” – adjetivo meio inadequado mas inevitável para o que o sujeito escreveria poucos anos depois.

Três narradores se alternam na condução da história, num prenúncio da megapolifonia que estava por vir. Um fundo de trama policial, mesmo passando longe de confinar o romance num gueto de gênero, fornece a eletricidade que move a narrativa e faz o leitor atravessar digressões, trechos “confusos” ou sujos, às vezes escatológicos (como este abaixo), com o passo firme de quem cumpre um percurso matematicamente calculado. Ah, sim, as obsessões semi-autobiográficas de Bolaño fazem de um dos narradores um poeta mexicano sem tostão que trabalha como vigia num camping da Catalunha. De alguma forma, já estava tudo lá, e ao mesmo tempo não estava. O livro é bom, mas a graça maior da leitura é procurar as fagulhas que em pouco tempo iam detonar a explosão, aquela que transformaria um escritor talentoso em excepcional. De Bolaño, a mesma editora publicou, em 2004, a novela “Noturno do Chile”.

Às vezes, quando eu ia até a cerca do camping, de madrugada, eu o via sair da discoteca do outro lado da rua, bêbado e sozinho, ou com gente que eu não conhecia, tampouco ele, a julgar pela sua atitude retraída, pelos seus gestos de astronauta ou náufrago. Uma vez eu o vi em companhia de uma loura, e essa foi a única ocasião em que me pareceu alegre, a loura era bonita e os dois davam a impressão de ser os últimos a sair da discoteca. As poucas vezes em que me viu nos cumprimentamos levantando a mão, e foi tudo. A rua é larga e nessas horas costuma ter um ar espectral, com as calçadas cheias de papel, restos de comida, latas vazias e vidros quebrados. De tanto em tanto você encontra uns bêbados que peregrinam para os respectivos hotéis e campings, e que terminam, a maioria, perdidos, dormindo na praia. Uma vez Remo astravessou a rua e me perguntou por entre as grades da cerca se o trabalho ia bem. Falei que sim e nos demos boa-noite. Não nos falávamos muito, ele quase não aparecia no camping. Bobadilla é que vinha todas as tardes, antes que eu começasse meu turno, e ficava um tempo olhando os livros e os arquivos. Com Bobadilla nunca cheguei a ter intimidade, cada quinze dias recebia meu pagamento e a isso se resumia nosso contato, um contato cortês, é verdade. Remo e Bobadilla, este em menor grau, eram apreciados por seus empregados: pagavam bem e sabiam se mostrar compreensivos se vez ou outra surgia algum problema. Os recepcionistas, uma moça de Z e um peruano que também era eletricista, e as três mulheres da limpeza, entre as quais havia uma senegalesa que em espanhol só sabia dizer olá e adeus, trabalhavam, dentro do possível, num ambiente descontraído que inclusive propiciava os romances: o peruano e a recepcionista tinham um caso. De todo modo, problemas entre empregados e patrões eram mínimos, e problemas entre empregados não existiam. Uma das causas possíveis dessa harmonia podia ser o caráter atípico do grupo que trabalhava ali: três estrangeiros sem visto de trabalho e três velhos espanhóis a quem em nenhum outro lugar queriam dar trabalho, e o quadro estava quase completo.

Não sei se nos demais negócios de Remo o pessoal tinha características semelhantes, suponho que não. Das mulheres da limpeza só Miriam, a senegalesa, dormia fora do camping. As outras duas, Rosa e Azucena, eram da periferia de Barcelona e dormiam numa barraca de dois quartos perto do banheiro principal. Irmãs e viúvas, completavam o orçamento com faxinas em domicílio arranjadas por uma agência de aluguéis de apartamentos. Aquele era o primeiro verão que estavam no Stella Maris; no ano anterior haviam trabalhado para outro camping de Z, do qual foram despedidas por causa do segundo emprego, que as obrigava a se ausentarem quando mais precisavam delas. Apesar de cada uma trabalhar uma média de quinze horas por dia, ainda lhes sobrava tempo, à noite, para tomar umas e outras à luz de um lampião a gás de botijão, sentadas em cadeiras de plástico à entrada da sua barraca, enquanto espantavam os mosquitos e conversavam sobre as suas coisas. Basicamente sobre como os seres humanos são porcos. A merda, maleável, quase uma linguagem que tentavam em vão deslindar, estava presente em todos os seus bate-papos noturnos. Por elas soube que as pessoas cagavam nos chuveiros, no chão, dos dois lados da privada e na borda desta, operação de equilíbrio preciso, não isenta de certo virtuosismo simples e profundo. Com merda escreviam nas portas e com merda sujavam as pias. Merda primeiro cagada, depois transportada para lugares simbólicos e visíveis: o espelho, o extintor, as torneiras; merda amassada, depois grudada formando figuras animais (girafas, elefantes, Mickey Mouse), lemas futebolísticos, órgãos humanos (olhos, corações, pênis). O cúmulo da indignação, para as irmãs, era que no banheiro feminino acontecia a mesma coisa, ainda que com menor incidência e com alguns detalhes significativos que faziam recair sobre uma pessoa em particular a autoria de tais excessos. Uma “porca malvada” que elas estavam dispostas a caçar.

10 Comments

  • Thiago Maia 21/04/2007 at 08:16

    É, se esse trecho é de um livro em certa medida desajeitado, se comparado aos livros seguintes, tenho ainda mais um motivo para ler o Detetives urgentemente.
    Belo recorte. Valeu, SR!

  • Cláudio Soares 21/04/2007 at 10:20

    Além de “Noturno do Chile”, a Cia das Letras
    perpetra a”operação Bolaño” (que até tem o seu valor, claro) com “Detetives Selvagens” (2006) e agora com “A pista de gelo”.

    Mas proponho uma reflexão.

    Quais livros do Bolaño foram lançados no Brasil antes de sua morte (em 2003)? Sinceramente, não me lembro.

    Mais: Qts livros do escritor chileno foram lançados no Brasil antes do seu reconhecimento nos EUA? E depois?

    O post 260 aqui do Todoprosa explica o que comentei no post “Ana Maria explode o Paiol”. E complemento: certas editoras nacionais não conseguem por si só avaliar escritores “excepcionais”. Vão à reboque (é mais fácil?), e qs sempre esse reboque atende pela sigla NYT.

    Mas é inegável que em termos de divulgação internacional às editoras argentinas e chilenas (e mexicanas, peruanas, etc…) dão mesmo um banho nas brasileiras.

  • Jonas 21/04/2007 at 12:18

    Não entendi por que lançar o primeiro.. eu gostaria que a Cia lançasse agora os contos dele, ou a novela Estrela Distante.

  • Cezar Santos 21/04/2007 at 14:48

    A prosa do Bolaño é saborosa, mas depois que li “Noturno do Chile” fui com tremenda sede ao pote e me decepcionei com “Os detetives…”, que achei excessivo no número de páginas, de palavras e na pretensão, mesmo não sendo um mau livro.
    Espero que o “Pista” esteja mais pro “Noturno” do que pro “Detetives”…
    Pela mostra, parece ser, de certa forma, o mesmo livro.

  • Marcelo Moutinho 21/04/2007 at 16:46

    Claudio, concordo totalmente com você. A preguiça reina por aqui. Nem para dentro os editores costumam olhar, com raríssimas exceções…

  • Sérgio Rodrigues 21/04/2007 at 17:40

    Cláudio, não sei o que isso prova, mas, já que você menciona esse tipo de precedência, a obra-prima “Os detetives selvagens” saiu no Brasil um ano antes de sair nos Estados Unidos. Quanto às editoras de países hermanos serem mais competentes do que as nossas no cenário internacional, bom, isso é fácil quando se tem o espanhol como base. Mas acho fundamental levar em conta – para que não nos acusem, aos escritores, de sempre jogar a culpa nos outros – que ninguém na literatura brasileira dos últimos vinte anos tem uma obra que se aproxime do vigor, do fôlego e da ambição de Bolaño.

  • Areias 21/04/2007 at 19:16

    Concordo com o Claudio que falta às editoras brasileiras uma certa independência e audácia. Algumas têm “olheiros” lá fora, mas que ficam olhando os suplementos literários, o que se poderia fazer daqui com o mesmo efeito. Mas discordo do Sérgio MC. Sem entrar no mérito do valor de Bolaño, não sabemos o valor do que foi escrito por aqui nos últimos 20 anos, conhecemos apenas o que essas editoras resolveram publicar e o que os jornalistas do ramo decidiram ler e aprovar.

  • Cezar Santos 21/04/2007 at 22:12

    Sergio,
    Concordo contigo. Não apareceu mesmo… Bolaño se propôs contruir uma obra e meteu os peitos. Realizou essa obra com o sentido de urgência que a consciência da morte o obrigou. E acho que foi justamente esse sentido de urgência que determinou um certa irregularidade perceptível nos “Detetives”, por exemplo, livro excessivo, ao contrário do “Noturno do Chile”, pura contensão enfeixada em parcas 109 páginas.

  • DANIEL PEARL 21/04/2007 at 22:27

    O blog “Desabafo País” quer ocupar o espaço para contribuir: não podemos aceitar a vida com giras que estimule a violência: “vamos arrebentar”; “é na porrada”; “o bicho vai pegar”; “se não tiver ação e sangue, esse filme não serve”, “esse menino é medroso, vai pra cima”… nosso dia a dia é repleto de cenas de violências, em casa, no trabalho, na escola, na faculdade, na rua, enfim, em toda parte dessa Nação, exala o odor de agressividade. Nossas línguas saem o veneno do ódio, do rancor, da raiva, da vingança e conseqüência: 38 mil vidas perdidas a cada ano, fruto da arma de fogo. Antes de tudo isso, a mente humana elaborou todo esse plano macabro, não deixando que o AMOR penetrasse em suas almas. O blog Desabafo País lança o convite: vamos plantar a SEMENTE DA PAZ, começando pela nossa BOCA e nos espaços dos blogs. É preciso fazer algo para frear em nós a cultura da violência. O Brasil precisa voltar a ser o país da PAZ. Vamos lá? Daniel Pearl.: http://desabafopais.blogspot.com/

  • roberto lima 22/04/2007 at 23:30

    Bolano é até personagem de um bom livro e durante algum tempo na lista dos mais vendidos na Espanha: “Soldados de Salamina”; pena que o personagem tenha sumido no também bom filme baseado no livro

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