Roberto Pompeu de Toledo: ‘Leda’

28/05/2006

LedaO jornalista Roberto Pompeu de Toledo, colunista que há anos toma conta da última página da revista “Veja”, é dono de um dos textos mais literários – no bom sentido – da imprensa brasileira. Era talvez inevitável que acabasse experimentando o romance, como faz agora com “Leda “ (Objetiva, 160 páginas, R$ 27,90). O livro, que conta a estranha relação entre um escritor famoso e seu biógrafo, tem um subtítulo saboroso: “Relato romanesco em 13 capítulos e epílogo, contendo uma versão condensada de ‘A Busca Vã da Imperfeição’”. A seguir, o trecho que abre o romance:

Chapéu… Sim, havia um chapéu, de fino feltro negro, elegante chapéu de proteger da friagem e do sol mas também de impor respeito, e os olhares em volta eram de admiração e reverência, quando não enamorados e suspirosos, ou… Não, não tão elegante, na verdade um chapéu pobre e roto, chapéu-coco à Carlitos, divertido, com que se brincava e ria, pondo e tirando, pondo e tirando, mas… eis que da última vez que pousa na cabeça ele começa a apertar, assim machuca, assim não é bom, tenta-se tirá-lo, e agora ele não sai… tenta-se de novo, puxa-se daqui e dali, experimenta-se um golpe mais forte, um arranco súbito, um tranco… Nada, não sai, grudou como cola, está firme como cal no muro, fixo como o pescoço do outro lado da cabeça, e o pior é que aperta e comprime, não é mais objeto de diversão e de prazeres, é instrumento de flagelo, tanto mais impiedoso quanto, num puxão mais forte, desesperada tentativa de fazê-lo ceder, ouve-se um rangido, como de porta mal azeitada, mas não é porta, é o rangido da pele que começa a rasgar, a pele querendo vir junto, o horror entre todos horroroso de um escalpo, o perigo de um destampamento, do desgarre de um cocoruto mais apegado ao chapéu que ao resto da cabeça, e a ameaça medonha de ficarem os miolos a descoberto. Horror, horror… Acordou. Sobressalto, suor, coração batendo forte. Aos poucos foi voltando a si. Alívio.

Era a primeira noite de Adolfo Lemoleme na Casa dos Quatro Ventos, e sem dúvida o cansaço da viagem, mais a estranheza de dormir num lugar diferente, contribuíram para o sonho mau. Ele olhou em volta, procurando na penumbra certificar-se da posição que ocupava em relação ao espaço pouco familiar do quarto em que se hospedava. Foi quando… De novo o ruído de um rangido de porta – mas desta vez era a porta mesmo, que se movia lentamente. Que está acontecendo comigo? Que está acontecendo neste lugar? A claridade que vinha do corredor era pouca, mas suficiente para discernir um vulto de homem, “Ber…”, balbuciou Lemoleme, mas não teve tempo de completar a palavra. A porta se fechou.

Que horas seriam? Três? Quatro? Lemoleme não quis acender a luz para conferir no relógio. A claridade espantaria de vez o sono, e sua intenção era dormir de novo, por mais que a dose dupla de sonho mau seguido de um vulto na porta prenunciasse um resto de noite inevitavelmente indormido, dali para a frente. Deu sede e ele, tateando, procurou a garrafa de água na mesa-de-cabeceira. Tentou sossegar. Pensou no sonho. Pensou no rangido da porta e no vulto. Será que o vulto na porta também não passara de um sonho? Tinha certeza que não. Ou melhor: não estava em condições de ter certeza de nada. Esticou o braço, apanhou o copo e tomou novo gole de água. Se não foi sonho, do que quase tinha certeza, então alguém invadira seu quarto? Talvez fosse engano. Esta casa tem vários quartos. Alguém errara de porta. Mas quem? Havia três pessoas na casa, ele, Veridiana Bellini e dona Gina. Ele era o único homem, e o vulto era de homem.Também não podia ser o caseiro, que habitava uma construção anexa. O caseiro era pequeno, e o vulto era alto, de ombros largos. Ombros largos como… como… “Ber…?”

Já havia quase uma década que Adolfo Lemoleme, professor de literatura na Universidade de Luzia B, estava envolvido em empreitada de hercúleas proporções: escrever a biografia do escritor Bernardo Dopolobo, o grande nome de seu tempo, aclamado pela crítica e querido pelo público, autor de obra extensa e original. Lemoleme mergulhou de cabeça naquele que elegera o trabalho de sua vida. Não era apenas questão de produzir a biografia definitiva do grande escritor. Não demorou para vislumbrar que tinha nas mãos a oportunidade de produzir a mais abrangente e profunda biografia já feita no idioma, em qualquer tempo. Seu biografado era mais do que talhado para o desafio, com sua vida de viagens e amores sortidos, momentos de glória e de infortúnios, e sua obra traduzida em múltiplas línguas, multiforme nos temas e nos gêneros e uniforme na qualidade. Um primeiro volume já fora publicado, grosso, substancioso, e ele agora trabalhava no segundo. Quando saiu o primeiro, o próprio Bernardo Dopolobo espantou-se. “Como você ficou sabendo disso tudo?”

Havia no livro muito, muito mais do que o material cedido, em entrevistas e documentos, pelo próprio biografado. Lemoleme revelara-se um prodigioso escarafunchador da trajetória do biografado. Num trabalho miúdo e paciente, pusera-se ao encalço de virtualmente todas as pessoas que, envolvidas com ele de uma forma ou de outra, nas várias fases de sua vida, teriam testemunhos a oferecer. Se descobria que este ou aquele já morrera, procurava o cônjuge ou os filhos. Talvez guardassem algum documento, alguma carta, um fiapo de lembrança conservada na tradição oral da família. Refez as viagens do biografado, com o cuidado de levá-las a cabo na mesma estação do ano, sempre que possível usando os mesmos meios de transporte, e recorrendo às mesmas hospedarias. Fincou-se no propósito de não deixar escapar nada que fosse relevante, e desde logo foi tomado pela convicção de que tudo era relevante.

14 Comments

  • Peter Blake 28/05/2006 at 13:50

    Sérgio, voltando ao assunto, que tal aquelas aspas enormes e vermelhas que o Pedro Dória tem usado para citações no Weblog? Fica bonito, distinto mesmo e destaca o texto.

    Veja que neste post você italicou (?) a sua voz e no post de baixo (sobre o PC) você italicou o reporter do Guardian. Sim, eu sei, sou chato.

  • P. Osrevni 29/05/2006 at 11:19

    O Roberto Pompeu de Toledo é a única coisa que presta naquela pilha de papel que é a Veja. É uma pena que o trabalho dele seja desperdiçado naquele espaço. Por que vocês do Nomínimo não o contratam? Salvem-no!

  • joao gomes 29/05/2006 at 11:30

    CONCORDO ABSOLUTAMENTE!
    A ULTIMA PAGINA DE VEJA
    TEM A ULTIMA PALAVRA DA
    RACIONALIDADE.

  • Pedro Curiango 29/05/2006 at 12:36

    Sérgio: que tal um comentário sobre o verbo “italicar”, usado aí em cima, com interrogação? Prefiro GRIFAR.

  • Pedro Curiango 29/05/2006 at 12:40

    Por que será que tanta gente detesta a VEJA mas continua a lê-la semanalmente, fazendo dela uma das maiores revista de notícias do mundo? Ainda agora vi uma pesquisa do “Portal Imprensa” concluindo que a “Carta Capital”, que talvez tenha apenas um décimo da circulação que tem a “Veja”, é a melhor revista brasileira. Considerando que leitores de revistas são todos pessoas de certa cultura, o caso é meio estranho. Será que os brasileiros, mesmo os mais cultos, preferem o que é pior?

  • Sirio Possenti 29/05/2006 at 13:41

    Pedro:

    Não há nenhuma dúvida de que os “cultos” brasileiros, em sua maioria, são conservadores. A frase feita “a elite é pior como eleite do que o povo como povo” é (quase) verdadeira.

  • Sirio Possenti 29/05/2006 at 13:41

    “como elite”, claro.

  • Daniel Brazil 29/05/2006 at 18:47

    Certas revistas vendem muito pelo mesmo motivo pelo qual certos programas de TV são mais vistos que outros, que certos escritores são mais lidos que outros, que certos filmes tem mais público que outros, q
    Isso não tem nada a ver com qualidade, infelizmente.

  • Daniel Brazil 29/05/2006 at 18:48

    Certas revistas vendem muito pelo mesmo motivo pelo qual certos programas de TV são mais vistos que outros, que certos escritores são mais lidos que outros, que certos filmes tem mais público que outros, que certas músicas tocam mais no rádio que outras.
    Isso não tem nada a ver com qualidade, infelizmente.

  • Shirlei Horta 30/05/2006 at 10:13

    Pedro Curiango, tal seria, se quem tem dinheiro para assinar ou comprar revista tivesse também, por dedução, cultura. Anos atrás, conversando com um gerente de multinacional, comentei minha dificuldade em valorar obras de arte (de fato, ainda acho difícil dizer se uma escultura ou tela é ou não uma obra de arte e qual seria seu valor pecuniário). O gênio respondeu: “simples [já reparou como esse tipo de pessoa acha tudo simples?], basta ler a coluna de artes da revista tal”. Ah, bom, e eu achando que tinha que pensar por mim mesma, santa ignorância!!

  • Shirlei Horta 30/05/2006 at 10:14

    Ô Peter Blake, você some, aparece correndo, some, aparece correndo… Eu não te alcanço!!

  • Carmela 30/05/2006 at 12:55

    não gosto e não leio. concordo com a Shirlei. é também para quem quer “ter assunto” numa mesa de bar e não possui outros meios para tanto…

  • Shirlei Horta 30/05/2006 at 23:39

    Clara, Letícia, Maria, Maria Vaz, Tete, Carmela e Shirlei. Tá aumentando a lista.

  • Claro! 31/05/2006 at 23:25

    Pois sim, Curiango, a julgar pelas pesquisas de intenção de voto para Presidente, a resposta para a última pergunta de seu comentário , é rigorosamente positiva.Sim, ai de nós, preferimos o pior.

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