Rumo a Tralfamador

13/04/2007

“Onde estou?”, disse Billy Pilgrim.

“Preso numa outra bolha de âmbar, Sr. Pilgrim. Estamos onde temos que estar exatamente agora – a trezentos milhões de milhas da Terra, em direção a uma curva de tempo que nos levará a Tralfamador em questão de horas, em vez de séculos.”

“Como – como eu cheguei aqui?”

“Só um outro terráqueo poderia lhe explicar isso. Os terráqueos são os grandes explicadores, explicam por que este evento é estruturado da forma que é, dizem como outros eventos podem ser obtidos ou evitados. Eu, que sou um tralfamadoriano, vejo o tempo como um todo, da mesma forma que você veria um trecho das Montanhas Rochosas. Todo o tempo é todo o tempo. Não muda. Não se presta a alertas ou explicações. Simplesmente é. Observe-o momento a momento e descobrirá que nós todos somos, como eu disse antes, insetos no âmbar.”

“Para mim, você soa como se não acreditasse no livre-arbítrio”, disse Billy Pilgrim.

Comecei a reler Slaughterhouse-Five ontem à noite (“Matadouro 5” no Brasil; a L&PM tem uma edição de bolso baratinha, com boa tradução de Cássia Zanon). Dei boas risadas, feliz – e um pouco surpreso – de constatar que o livro não envelheceu um minuto para mim desde a primeira vez que o li, nos anos 80. “Todo o tempo é todo o tempo”, diria um tralfamadoriano.

Com a morte de Kurt Vonnegut, a cena acima, da abdução de Billy Pilgrim, se presta a metáforas óbvias, mas esta não é a única razão para reproduzi-la aqui (em tradução caseira, pois só achei na estante meu exemplar em inglês). Cheguei a ensaiar um discurso sobre como o cara fazia a literatura parecer o que ela deveria ser sempre: livre, abusada e divertida. Desisti porque uma pregação dessas não seria nada livre, abusada ou divertida.

Melhor jogar uma isca que, com um pouco de sorte, leve novos leitores a descobrir Kurt Vonnegut – o menos pomposo dos escritores, que por isso mesmo um dia foi chamado por Gore Vidal, o mais pomposo dos escritores, de “pior escritor americano”. Vindo de quem veio, um elogio e tanto. E aqui vai outra isca: de todos os vídeos relacionados ao homem que estão bombando desde ontem no YouTube, este é, disparado, o mais vonnegutiano: uma longa entrevista concedida ano passado pelo avatar do escritor – igual a ele, mas uns quarenta anos mais novo – numa bolha de âmbar chamada Second Life.

16 Comments

  • Tibor Moricz 13/04/2007 at 12:13

    Matadouro 5 é um dos melhores livros de FC que eu já li. Vale dizer que é o único livro de Vonnegut que eu li, também. Acho melhor ler mais alguns…

  • Noga Lubicz Sklar 13/04/2007 at 12:18

    Sérgio, essa não dá metáfora, mas tb é livre, abusada e divertida:

    Fred Bates Johnson me contou uma vez este caso, de quando ele, meu pai e eu, ainda menino, junto com alguns outros, estávamos caçando lá no condado de Brown. De acordo com Fred, um grupo de homens como nós estava caçando cervos e alces lá no Canadá. Alguém tinha que cozinhar, ou todos morreriam de fome.
    Eles tiraram a sorte para ver quem iria cozinhar enquanto os outros caçavam desde o amanhecer do dia até o pôr-do-sol. Para tornar a piada mais concreta, Fred disse que foi papai quem tirou a palhinha mais curta. Papai sabia cozinhar.
    Os caçadores entraram em acordo segundo o qual quem se queixasse da comida de papai seria o próximo cozinheiro. Por isso, papai preparava refeições cada vez piores, enquanto os outros se divertiam a valer na floresta. Por pior que estivesse o jantar, porém, os caçadores o declaravam delicioso, de lamber os beiços, dando tapinhas nas costas de papai.
    Um dia de manhã, depois que eles partiram, papai encontrou um monte de bosta fresca de alce ali perto. Ele a fritou em óleo de motor. Naquela noite, serviu aquilo como bolinhos fumegantes.
    O primeiro cara que provou cuspiu o bolinho longe. Não conseguiu se conter!
    – Puta merda! Isso tem gosto de bosta de alce frita em óleo de motor! – disse ele, atabalhoadamente. Mas acrescentou em seguida. – Mas está gostoso, gostoso mesmo!

    É de Timequake.

  • palhaço 13/04/2007 at 12:28

    É! De Timequake!!!

  • danielle coura 13/04/2007 at 13:45

    Ontem eu tambem tive meu momento Vonnegut e me diverti relendo Timequake.

  • Dank 13/04/2007 at 13:47

    Eu mordi a isca faz um tempo, na primeira vez que você falou dele por aqui. Ler Café da Manhã dos Campeões foi a minha melhor experiência literária do ano passado. E eu sou muito grato por isso. Vonnegut morreu. Coisas da vida.

  • Cláudio Soares 13/04/2007 at 14:20

    Não posso negar uma certa influência de Vonnegut (principalmente pelo M5) em “Santos Dumont Número 8”.

  • Mr. Ghost(WRITER) 13/04/2007 at 14:22

    Muito bom mesmo… é misto de começos inesquecíveis e homenagem… é isso Sérgio?
    Isca mordida há muito tempo…

  • Sérgio Rodrigues 13/04/2007 at 14:32

    Homenagem é, Ghost. Mas não é o começo do livro.

  • Raquel 13/04/2007 at 14:34

    Sergio
    Gostei do artigo intitulado “Farewell to a master of farting around”, by Nicholas Lezard no The Guardian Books.

  • Cláudio Soares 13/04/2007 at 15:04

    Pensando aqui um pouco mais sobre o assunto chego estupefato a uma conclusão (não havia parado para pensar nisso), vejam só como é a vida: é bem possível que o trabalho de Vonnegut, que me influenciou no SD8, possa ter sido influenciado (e bastante) pelos trabalhos dos doutores Bohm e Pribram (assistam “What the Bleep Do We Know?”, ou “Quem somos nós?”) que por sua vez tb influenciaram a minha visão do tempo no meu “SD8”. Tudo está interligado mesmo. No fundo, somo “links” ambulantes…

  • Crônicas Cariocas 13/04/2007 at 18:54

    ‘A Boa Terra: poderíamos tê-la salvo, mas fomos muito medíocres e preguiçosos.”
    (Kurt Vonnegut- 1922/2007)..
    http://www.cronicascariocas.com.br

  • ROBERTO SCHULTZ 13/04/2007 at 19:22

    Só “mordi” um charuto, hoje, no final da tarde, olhando para a luz de outono magnífica que incendeia esta Cidade de Porto Alegre, nesta época do ano. Ê realidadezinha mais ficção do que as besteiras que eu escrevo.

  • marcia 13/04/2007 at 19:52

    Permitam-me também enviar um trecho brilhante de Barba Azul. Já o tinha digitado, pois o enviei para um amigo que havia passado pelo estágio de não-epifania; aproveito a ocasião para dividi-lo com vc:

    “Depois da guerra, quando contei a Terry Kitchen algo sobre minhas três horas de amor ideal com Marilee, e de como me fizeram flutuar realizado no cosmo, ele disse isto:
    – Você está vivendo uma não-epifania.
    – Uma o quê? – indaguei.
    – É um conceito que criei – respondeu. Isto ocorreu no tempo em que ele era ainda um conversador em vez de pintor, bem antes de eu lhe ter comprado o impressor de pintura. E eu, nessa época, não passava também de um falador fãzoca de pintores. Ainda estava por me tornar um homem de negócios.
    – O problema com Deus não é que Ele se revele tão poucas vezes a nós – prosseguiu. – O problema com Deus é exatamente o contrário: Ele segura
    você, a mim e a todo mundo pela nuca quase o tempo todo. Disse-me que tinha acabado de passar uma tarde no Metropolitan Museum of Art, onde havia tantas pinturas sobre Deus dando instruções, para Adão e Eva, e à Virgem Maria, a vários santos agonizantes e assim por diante.
    – Esses momentos são muito raros, se você for acreditar nos pintores. Mas quem já foi tão estúpido a ponto de acreditar num pintor? – disse, e pediu outro uísque, lembro bem que eu ia pagar. – Esses momentos são quase sempre chamados de “epifanias”, e eu estou aqui para lhe dizer que eles são tão comuns quanto moscas – disse.
    – Entendo – respondi. Creio que Pollock estava ali escutando tudo isso, embora
    ele, Kitchen e eu ainda não fôssemos conhecidos como os “Três Mosqueteiros”.
    Ele era um pintor de verdade, por isso quase não falava. Depois que Terry Kitchen se tornou pintor de verdade, também passou a falar muito pouco.
    – Você “flutuava realizado no cosmo”, não é? – disse Kitchen. – É a perfeita descrição de uma não-epifania, esse raríssimo momento, quando Deus Todo-Poderoso solta sua nuca e deixa você ser humano por um tempinho.
    Quanto tempo durou essa sensação?
    – Oh… talvez meia hora – respondi.
    Ele se recostou na cadeira e disse com profunda satisfação:
    – Aí está.

  • marcia 13/04/2007 at 19:52

    Digo, com vocês!

  • LuizFernandoGallego 14/04/2007 at 07:58

    É consenso que a grande maioria dos filmes extraídos de bons livros deixam muito ou pouco a desejar, mas sempre frustram. Só que alguns poucos não fazem feio em relação à fonte original. Só fui ler Vonnegut depois de assistir ao filme dirigido pelo geralmente pouco mais do que correto e às vezes medíocre George Roy Hill (que fez sucesso com “Butch Cassidy” e “Golpe de Mestre”) e que também filmaria John Irving (“O Mundo segundo Garp”). A lembrança me diz que o filme era bom – e deu ao cineasta-artesão mediano um prêmio de melhor direção em Cannes – e acho que era raro, em festivais europeus da época, premiar diretores “comerciais” dos EUA. Pena que o filme não tenha saído no Brasil em VHS nem em DVD, embora tenha sido exibido há uns dez anos em uma de nossas TVs a cabo. Os atores principais nunca deslancharam, especialmente o que fazia o Billy Pilgrim, mas que estava adequadíssimo ao personagem. Valeria estar mais acessível para despertar em outros o mesmo interesse que despertou em muitas pessoas de minha geração para com Kurt Vonnegut. Foi ótimo ter visto o filme e depois procurar o livro e outros livros do mesmo escritor.

  • Mr. Ghost(WRITER) 14/04/2007 at 19:05

    Ok Sergio,
    Mesmo não sendo um começo inesquecível, é um trecho inesquecível… muito bom mesmo. Vai deixar saudades… E, que a obra que ficou possa sempre matar essa saudade…

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial