Saramago salazarista

06/11/2006

Chegou a hora de fazer a minha confissão. Eu pertenci à juventude salazarista, que se chamava Mocidade Portuguesa. Pertencíamos todos: alunos da instrução primária, do ensino secundário, do ensino superior, todos sem exceção. Era, por assim dizer, automático. Digo no livro como consegui escapar a usar o fardamento e creio que essa foi a minha primeira vitória contra o fascismo. Mais não podia fazer. E para a revolução ainda era cedo.

Em entrevista (acesso livre) a Antonio Gonçalves Filho no “Estadão” de sábado, a propósito de seu novo livro, “As pequenas memórias”, José Saramago se solidariza com o alemão Günter Grass. Seu colega de Nobel confessou ter sido hitlerista aos 17 anos.

12 Comments

  • Sei... 06/11/2006 at 14:12

    Aí é mole, né?

  • Paulo 06/11/2006 at 14:56

    Gênio do marketing literário mesmo! Saramago aprendeu uma coisa para a vida toda durante este seu período na tal juventude salazarista: o amor, a devoção ao totalitarismo. Tanto assim que, com a queda de Salazar, ele acabou assumindo o controle de um jornal em Portugal. Duvido que o caro Antonio Gonçalves Filho tenha perguntado sobre o velho funcionário que teve um fim trágico graças à intervenção do “nobre”, “democrático” e “altruísta” (para não dizer santo) Saramago.

    Enfim.

  • Voltairine 06/11/2006 at 15:05

    Isso foi inveja pura! Como o Grass teve esta ideia primeiro do que ele?
    O Homen de Lanzarote deve ter se torcido todinho.

  • Jonas 07/11/2006 at 00:38

    Corajoso era o Nelson Rodrigues, que não esperou as décadas passarem para dizer o que pensava.

  • Besouro Suco 07/11/2006 at 09:48

    O problema hoje é esse, o autor superar sua obra… o que importa se Saramago era ou não era algo na sua juventude, não interessa a celebridade, interessa é se ele é um bom autor, bom escritor… não me interessa sua vida pessoal, se me interessasse eu compraria um biografia dele… vá a merda se alguém é nazista ou seja lá o que for, o importante é não comprar esses regimes como algo que preste… sabemos muito bem o que foram para a humanidade… golpe marketing, puro e simples… chocar para estar em evidência. É a mesma coisa que a Madona dizer que é macumbeira… alguém vai ser macumbeiro porque ela diz que é? Nunca o mundo foi tão obcecado por celebridades, com seu recheio de pastel de vento e sua consistência de holografia…

  • BCK 07/11/2006 at 11:32

    A questão do Gunter Grass é que a obra toda dele foi em denúncia desse “esquecimento forçado” do nazismo por parte dos alemães, quando ele na verdade fez exatamente o que criticava.

    É como se descobríssemos que Graciliano Ramos na verdade era dono de um latifúndio e vivia sacaneando retirantes. Seus romances continuariam sendo formalmente impecáveis, mas duvido que a mensagem não perderia sua força, ou ao menos grande parte dela.

  • Clarice 08/11/2006 at 08:42

    BCK,
    O Gunter Grass tinha 16/17 anos quando fez parte de um braço da SS. Foi no início de tudo quando ainda se formava a SS que deveria tomar lugar do exército SA. Está parecendo que o cara era um nazista e não é nada disto.
    Eu concordo com o “Besouro” que a biografia não tem a menor importância para a avaliação da obra de ninguém.
    Se for assim a gente tem de trucidar Chico Buarque.
    Aos quatorze anos, influenciado por um professor de História, ele aderiu aos Ultramontanos que deu origem à TFP.
    E além do mais o cara que escreveu “Pedro Pedreiro” fez o maior alvoroço por que sua casa de campo deveria ter a praia exclusiva.

  • BCK 08/11/2006 at 12:45

    Eu não tô chamando ele de nazista, e sim de hipócrita. Ele passou uma vida inteira falando que os alemães não devem fingir que o passado não aconteceu enquanto ele escondia de todos o próprio passado.

  • Clarice 08/11/2006 at 14:24

    BCK,
    Você tem razão. É hipocrisia sim.

  • Tati 11/11/2006 at 10:37

    Me espanta que ainda achem que Saramago precisa de ‘golpe de marketing’ para estar em evidência. Ah, tenham dó! Ele podia viver retirado pro que lhe sobra de tempo nas Ilhas Canárias e nunca mais aparecer na mídia que ainda assim seria o que verdadeiramente é: um dos melhores autores que já li, e me perdoem os clássicos.

    Saramago inovou a língua portuguesa, recriou-a, coloriu-a. É ímpar.

    Não gosto de absolutamente tudo o que ele escreve, esse lance de comprar a verdade à vista não me agrada sob nenhum aspecto. Mas daí a dizer que um livro de memórias é golpe de marketing foi a coisa mais estúpida que ouvi nos últimos tempos. Como se sua leitura fosse fácil, se fosse fácil compreendê-lo e como se a população mais ‘manipulável’ tivesse acesso ao que ele escreve.

    Jogue a primeira pedra quem AQUI não tem segredos de juventude dos quais se esconde, os quais enterrou no fim do fundo. Sabe-se lá se viveremos até os 84 anos com a lucidez de Saramago para poder contá-los. Então, em vez de apontarmos este ou aquele, Chico ou Graciliano Ramos, façamos nós mesmos a nossa parte, apontemos os nossos dedos a nós mesmos e deixemos de fazer o que tanto criticamos.

    Lamentável.

  • Voltairine 12/11/2006 at 04:28

    Tati, voce conhece o Saramago ? Eu conheco. Te digo,ele realmente nao precisa de grandes golpes publicitarios, mas AMA estar em evidencia.

  • C. 13/11/2006 at 01:28

    Tati: perfeito!

    Biografismo é para quem não alcança o teor da obra. É para quem o estranhamento está no homem, e não na literatura que ele produz.

    Ao que me parece, a burguesia neo-liberal agora aproveita para achincalhar José Saramago, em razão deste não mais sentir-se à vontade com o comunismo cubano. Por que não o fizeram antes?

    E a crítica deste senhor na Folha teve ares de baba escorrendo verde pelo canto da boca. Seria algio pessoal com o velho escritor? Cartas para estes comentários.

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