Se conselho fosse bom…

20/02/2012

Gosto dessa lista de conselhos literários de Henry Miller (1891-1980), que encontrei pela primeira vez duas décadas atrás e nunca esqueci por completo, embora só tenha voltado a esbarrar nela há poucos dias, por acaso, num corredor do hipermercado internético. “Esqueça os livros que quer escrever. Pense apenas no que está escrevendo” é um bom toque, não é? Coisa de quem já esteve no coração desse torvelinho e conseguiu sair de lá com um livro decente.

Gosto de Henry Miller. Tive naquele tempo uma fase de encantamento com a trilogia “Sexus”, “Plexus” e “Nexus”, memória que prezo com devoção suficiente para preferir não revisitar seus escritos. Cada coisa tem seu tempo no mundo da leitura, e acho que há sabedoria em reconhecer e respeitar isso. O fato é que, envelhecendo bem ou não, Miller é um escritor de verdade e sua listinha de conselhos, algo que pode trazer benefícios de verdade a quem vem depois. O que é bem mais do que se pode dizer da maior parte dos exemplares do gênero.

Listas de conselhos literários andam na moda. Mais até do que isso: listas de conselhos literários andam hiperinflacionadas. Tanto que este site resolveu fazer uma antilista (em inglês) de “dez péssimos conselhos literários” que, se também não deve ser seguida à risca, funciona bastante bem como antídoto ao festival de besteiras que assola a internet. O principal argumento aqui, irrespondível, é o seguinte: não existe procedimento ou truque que funcione para todo mundo em todos os momentos.

Também ajuda o fato de saber se o autor da lista tem realmente algo a ensinar. É um golpe baixo do filistinismo menosprezar críticas com o argumento de que o crítico não sabe fazer o que critica, pelo simples fato de que se trata de dois saberes diferentes. No entanto, esse álibi, por razões óbvias, não protege o autor de conselhos literários. Quem quer ensinar a escrever romances, contos ou poemas sem jamais ter escrito um romance, conto ou poema digno de nota deve ser solenemente ignorado. Não é o caso de Henry Miller.

Contudo, a principal vantagem de sua lista me parece ser outra: o autor de “Trópico de Capricórnio” a elaborou para uso próprio, não para fazer a cabeça de ninguém. Há algo de profundamente verdadeiro nisso. Eis o conselho dos conselhos, aquele que, por ser o mais pertinente e sincero, ninguém dá a quem se arrisca a criar arte com palavras: se vire, cara, e depois não venha choramingar; você está absolutamente sozinho.

4 Comments

  • lucio mota 20/02/2012 at 18:23

    Mas peraí,posso transcrever aqui algumas cositas que lí em Sexus,…….???? de Henry Miller.

  • Sérgio Rodrigues 20/02/2012 at 18:40

    Lucio, se tiver algum propósito intelectualmente nobre e literariamente elevado, pode. Se for só para reproduzir aqui cenas e palavras cabeludas, não. Mas o mesmo valeria para muitos outros livros, inclusive de autores bem mais canônicos.

  • Tiago Franco Correa 21/02/2012 at 18:46

    Aconselhando a si mesmo, Miller deixou ao menos 10 bons conselhos a quem quer escrever profissionalmente. Mas o conselho que encerra o texto é o mais útil nesses nossos tempos de muita criação e pouco trabalho: todo escritor de verdade é um self-made man.
    Todoprosa está aí para não deixar esquecermos disso.

  • Vanessa 22/02/2012 at 17:00

    tbm gosto do autor. vou ler os conselhos!
    http://garotadistraida.wordpress.com

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