Se é para consertar o Jabuti, valeu

29/11/2010

Bons ou ruins, antenados ou sem noção, criteriosos ou politiqueiros, todos os grandes prêmios literários têm um vício de origem. Estão para a literatura como a decoração de shopping está para um certo espírito de Natal: têm visibilidade e movimentam a ciranda dos interesses comerciais, mas passam longe de captar a essência da coisa. Tal convicção sempre levou este blog, em seus quatro anos e meio de existência, a oscilar entre o comentário breve e o silêncio significativo diante dos prêmios nacionais, mesmo reconhecendo seu papel na divulgação de livros e autores. Ocorre que essas cerimônias já fazem os tambores soar em alto volume por toda parte, restando assuntos mais relevantes a tratar se o seu negócio é literatura, esse nicho rarefeito, e não mercado editorial ou outros temas periféricos.

O Jabuti, então, pouco deu as caras por aqui. O mais tradicional de nossos galardões vem sendo também, de forma consistente, o menos artisticamente sério. Mas a celeuma em torno da premiação de “Leite derramado”, de Chico Buarque, que a princípio julguei conveniente submeter ao mesmo tratamento, chegou tão longe que altera a equação. Não porque tenha algo a ver com mérito literário: o último romance do grande compositor – um exercício machadiano meio esquemático e constrito, às vezes clamorosamente superescrito, embora tenha páginas avulsas de bela prosa – pouco esteve em questão. Os ingredientes do coquetel foram outros.

Nos últimos domingos, dois gigantes do mercado editorial, Companhia das Letras e Record, expuseram seus argumentos em artigos no caderno Ilustríssima da “Folha de S.Paulo” – Luiz Schwarcz defendendo seu autor e Sérgio Machado explicando a decisão de se retirar de um prêmio que acha normal conceder a láurea de Livro do Ano a um título que não foi o primeiro colocado em sua categoria (este, como se sabe, foi o livro de Edney Silvestre, autor da Record). Descontados os aspectos de guerra comercial ou de vaidades, esse raro confronto explícito é bom. Principalmente porque parece se encaminhar para a reforma de um prêmio que, justiça seja feita, é esquizofrênico há muito tempo, embora Machado só tenha resolvido reagir agora, além de comicamente inflacionado (não entendo por que nunca criaram a categoria Melhor Cafezinho de Editora).

O jornalista Paulo Werneck, editor do Ilustríssima, fez aqui uma boa síntese do clima de Fla x Flu comercial e político que cercou a premiação de Chico Buarque. Mas isso, como eu disse acima, é tema periférico. Só se aproximará de regiões mais artisticamente relevantes se, como parece provável, o quebra-pau servir para consertar o decadente Jabuti. Prêmios literários têm todos um vício de origem, mas isso não muda o fato de que um prêmio bom é melhor que um prêmio ruim. Se ele for muito bom, criterioso e ousado, ao mesmo tempo representativo das correntes estéticas mais vigorosas da cena literária e impermeável à politicagem, pode até transcender a condição de decoração natalina de shopping e contribuir de fato para o debate artístico. Por enquanto, o prêmio nacional que chega mais perto disso, pelo caminho da transparência, é o mais financeiramente pobre de todos: a Copa de Literatura Brasileira, que promete um retorno triunfal em 2011 após o hiato deste ano. Torçamos.

20 Comments

  • Adriana Lisboa 29/11/2010 at 16:43

    Sérgio, gostei muito do seu artigo. Temos uma pequena divergência no finzinho: salvo engano, na Copa de Literatura Brasileira cada “partida” é decidida por um único “árbitro,” não? Me corrija se eu estiver errada. Mas se estiver certa, isso acaba fazendo prevalecer a opinião e as preferências de uma pessoa. Uma só. Que decide: por isto, por aquilo e também por aquilo, o livro X é melhor do que o Y. O debate acaba acontecendo nos comentários – que são, porém, às vezes comicamente indignados e assustadoramente grosseiros… O anonimato da web cria esses comentários que me fazem pensar nos motoristas mal educados, protegidos do mundo atrás de seus volantes e para-brisas, fazendo ou dizendo coisas que jamais fariam ou diriam cara a cara.

    • sergiorodrigues 29/11/2010 at 16:48

      Oi Adriana, é verdade, a CLB tem essa estrutura futebolística de mata-mata. A vantagem que eu vejo aí é a da transparência, o jurado é um só mas tem que dar a cara a tapa, e cabe ao leitor julgar as eventuais injustiças que ocorram. Também já me incomodei lá com o nível do debate que o anonimato internético favorece (não muito diferente daqui ou de qualquer outra caixa de comentários, infelizmente), mas no geral ainda acho isso preferível, como método, à caixa-preta dos prêmios tradicionais.

  • Bastardo Inglório 29/11/2010 at 16:51

    Esses vícios são comuns a todas as premiações – seja o Esso, o Nobel ou o Oscar (em ordem de importância para a opinião pública, hehe) -, por isso acho todas as premiações superestimadas. São uma bela massagem no ego e, às vezes, na conta bancária de quem ganha, e só. As crítica ao Jabuti, portanto, são todas procedentes.

  • Bastardo Inglório 29/11/2010 at 16:51

    Aliás, faltou uma premiação entre as que citei abaixo: a Dança dos Famosos!!

  • Amarildo Bentes Salmaso 29/11/2010 at 21:27

    Reinaldo Azevedo, obstinado entusiasta e divulgador de um ridiculo abaixo-assinado que exige a devolução do “Jabuti” por Chico Buarque, afeta pruridos éticos ao afirmar que Schwarcz chamou o Silvestre de “apresentador”. Muito parecido com Reinaldo Azevedo, que insiste em — preconceituosamente contra o samba e mal informado (ou desonesto) sobre a diversidade do repertório musical do compositor — chamar o Chico Buarque de “sambista”.

  • Marcelo ac 29/11/2010 at 22:36

    Muito pertinente esse comentário do Sérgio. Também acho que a literatura precisa de prêmios, isso só ajuda o ambiente literário de um modo geral. É isso, e tudo o que está acontecendo ao redor, como as feiras, encontros, simpósios, festas, que prometem erguer um pouco essas letras meio amorfas. Precisamos de prêmio, sim, de politicagem tupiniquim acho que já está todo mundo cansado. São anos disso, né! Sempre os mesmos…

  • Norberto 30/11/2010 at 06:23

    Em tese, haveria maior interesse por “Leite Derramado”, o grande vencedor do Jabuti. Mas a polêmica se foi justo ou não Chico ter ganho o prêmio está favorecendo o livro de Edney Silvestre. Em seu primeiro romance, Silvestre investiga um crime brutal durante um dos períodos mais importantes da história brasileira. Em uma cidade da antiga zona do café do Rio dos anos 1960, dois garotos encontram o corpo de uma mulher mutilada às margens de um lago. O mês de abril de 1961 marca dois períodos importantes na obra –Yuri Gagarin deixa a órbita terrestre para alcançar o espaço pela primeira vez e o crime relatado por Silvestre.

  • Cidadã 30/11/2010 at 10:50

    Chico Buarque X Lula X situação X puxar o saco é bom e conserva os dentes X apoio à ditaduras cruéis X esquerda precisa de ideais X falta vergonha na cara.

  • Rodolfo 30/11/2010 at 16:12

    “o último romance do grande compositor – um exercício machadiano meio esquemático e constrito, às vezes clamorosamente superescrito, embora tenha páginas avulsas de bela prosa”. Engraçado. Quando você publicou um post na época do lançamento, vc escreveu que o mesmo romance tinha “trechos lapidares (…) prontos para ascenderem da página contingente que temos diante do nariz ao repositório atemporal da sabedoria do idioma, que sustentaram meu prazer de ler “Leite derramado”. Convenhamos que isso é um elogio maior do que dizer o mesmo livro tem “algumas páginas avulsas de bela prosa”. Mudou de patrão, mudou de opinião, Sérgio Rodrigues?

    • sergiorodrigues 30/11/2010 at 16:26

      Rodolfo, seu comentário é leviano ou desonesto. Esquece que as restrições ao livro do Chico já estavam no meu texto original: “Na estrutura, no arco tensionado da narrativa, sou obrigado a discordar da maioria dos exegetas e considerar “Budapeste” um livro muito mais instigante e coeso. Mas, se o leite às vezes fica meio aguado, não me parece um prêmio de consolação banal dizer que certas páginas ou frações de página exibem uma prosa que ousa passar uma cantada na perfeição”. Páginas avulsas de bela prosa, é isso aí. E olha que eu nem me lembrava das “frações”. Mas se ainda assim quiser acreditar que minha opinião está à venda, vá em frente. Talvez o mundo lhe pareça mais confortável assim.

  • Danilo Maia 30/11/2010 at 17:19

    Algumas pessoas alcançam tamanha pureza na sua imbecilidade que conquistam o direito de serem ignoradas para sempre.

    Reinaldo Azevedo é um desses exemplos.

  • João Athayde 01/12/2010 at 08:36

    Sérgio, já que você está falando de premiações, quero tocar num assunto muito estranho: ninguém levou o prêmio Leya! Eu participei do concurso com um pé atrás, sabendo que a disputa seria duríssima – afinal a soma de 100 mil euros atrairia traquejados ursos literários.Então vem a bomba: os membros do júri anunciaram que todos os 325 trabalhos inscritos eram, em outras palavras, um punhando de lixo. Se eu, que sou um escriba obscuro, senti-me esbofeteado, fico imaginando o que não aconteceu com os outros concorrentes de alto coturno.

  • Foguete de Luz 01/12/2010 at 10:48

    O Todo prosa fica quietinho… quietinho… quietinho… mas quando vem: GOL! e de bicicleta! E nem foi “só para contrariar…”

    Bem, já falei por aí, nem me lembro onde: Quem se envereda por caminhos de tribos de Benjamim sem discernimento, uma tribo que só não terminou no bagaço porque Deus é Fiel e Misericpordioso, só pode ser para si mesmo, um estorvo, derramando não só o leite mas também bons sucos que poderiam ser degustados com paz.

  • Tibor Moricz 01/12/2010 at 14:33

    João Athayde, você devia é ficar lisonjeado. igualaram o seu trabalho ao quilate dos outros concorrentes de alto coturno.

  • Harpia 01/12/2010 at 16:17

    De toda esta polêmica, entre acusações mútuas, politicagens rasteiras e similares, só faço uma constatação: que exemplo de cavalheiro, este Edney Silvestre.

    Ao meu ver, foi de uma elegância exemplar durante todo este processo.

  • Silvia 01/12/2010 at 19:39

    Pois é, Sergio, há discrepâncias enormes entre os nossos prêmios e as questões propriamente literárias que deveriam, pelo menos em algum grau, mobiliza-los, o literário sempre fica relegadas a último plano…
    Creio que os prêmios hoje são sobretudo parte de estratégias de marketing complexas em que muitos personagens do sistema de legitimação e do mercado literário propriamente dito são chamados a participar. E esse não é um privilégio do sistema literário brasileiro. Mas me intriga que nas falas dos editores da Record nenhuma frase tenha sido (me corrijam se fui eu que não vi) dita sobre a importância literária (ou importância, ponto) do romance de Edney Silvestre, falou-se em raiva, e de um modo um tanto quanto simplório e personalista, enquanto todos sabem que o que move essa queixa é uma luta por “território” entre editoras poderosas.

  • carlos augusto 02/12/2010 at 23:15

    Os arautos da lógica partiram de um raciocínio “brilhante”: Não li, nem vou ler, mas sei que Chico é mau romancista e não merece o prêmio. Perfeito, não é. Se isso é o mais refinado que aqueles caras podem proferir, imaginem o resto.

    Você só esqueceu de mencionar que o Werneck definiu muito bem a situação: bullying literário.

  • Bastardo Inglório 03/12/2010 at 16:24

    Tudo bem, mas o homem escreve mal, mesmo. É evidente que existe uma boa vontade excessiva por motivos alheios à literatura. E o Luiz Schwarz errou feio em seu artigo resposta, acusando Edney Silvestre de mau perdedor, sem que ele tivesse feito nenhum comentário sobre o prêmio, e acusando Sérgio Machado de tentar desqualificar a obra de Chico Buarque, coisa que ele não fez. Um editor deveria saber interpretar melhor um texto.

  • Altamiro Martins 03/12/2010 at 23:55

    Considero ridícula essa indignação acerca de supostos critérios injustos ou desvios — do mesmo modo, supostos — na aplicação das regras existentes. Se tanto, aos associados — e somente aos associados, posto que o prêmio é uma iniciativa da CBL, uma associação civil — caberia promover gestões internas para as mudanças desejáveis ou, simplesmente, por desaprovar tais regras e condutas que resistem às mudanças, deixarem de ser associados (no caso das editoras, poderiam também não submeter suas publicações ao “crivo infame”, em protesto). Pode parecer que a grita, por parte de editoras, não passa de defesa estrita de seus interesses comerciais. Quanto aos autores, a indignação é ainda mais descabida. E, finalmente, quanto aos demais sem qualquer vínculo ou interesse direto, protesto chega a ser manifestação de debilidade mental.

    Clubes são clubes!

  • Carlos Maduro 13/12/2010 at 21:40

    Para quem desejar ficar a conhecer um pouquinho mais o que é o Prémio Leya aconselho a visitar o meu Blog http://quintoimperiodomundo.blogspot.com/
    Escrito na primeira pessoa, com os nomes das pessoas deste grupo com quem contactei pessoalmente.
    Cada um fará o seu julgamento, o meu é simples, o Prémio Leya é unicamente uma máquina de publicidade, indiferente aos objectivos a que se propôs.

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