‘Se um de nós dois morrer’: existe vida após a arte

27/06/2011


Primo Levi publicou “É isto um homem?” em 1947. Vendeu 150 exemplares.

Depois da recusa de 27 editores, “Molloy”, de Samuel Beckett, foi publicado pelas Éditions de Minuit e vendeu 694 exemplares. “Malone morre” e “O inominável”, lançados logo em seguida, venderam 241 e 476 exemplares, respectivamente.

“Cidade de vidro”, parte da Trilogia de Nova York, de Paul Auster, foi recusado por 17 editores. “A amante de Wittgenstein”, de David Markson, sofreu 54 recusas.

Laurence Sterne pagou a primeira edição de “Tristram Shandy”.

José Rubem Fonseca concluiu seu primeiro livro aos 18 anos. Um editor de fundo de quintal recusou os contos e perdeu os originais, que não tinham cópia. Aos 38, lançou seu segundo livro.

Em seis anos, a primeira edição de “A interpretação dos sonhos” vendeu 351 exemplares.

Sob o título Estatísticas e fatos, as pepitas acima, ao lado de outras de teor semelhante, constam da pasta de textos avulsos que o escritor Théo, defunto, encarrega sua ex-namorada de fazer chegar às mãos do colega catalão Enrique Vila-Matas no romance “Se um de nós dois morrer”, de Paulo Roberto Pires (Alfaguara, 124 páginas, R$ 36,90).

O livro é uma sofisticada brincadeira literária que consegue a proeza de ser tão vila-matasiana quanto – ou talvez mais do que – a obra do próprio Vila-Matas, retratado por Pires como inspirador, nêmesis e, claro, nada mais que um personagem. Sim, estamos diante de um livro que se alimenta de livros, filão pós-moderno que pode parecer próximo do esgotamento. Mas “Se um de nós dois morrer” tem inteligência de sobra para, montado o engenhoso jogo especular, reduzir os espelhos a pedacinhos.

As informações sobre as agruras da vida literária que o desafortunado Théo coleciona têm dupla face: em geral, os autores das obras citadas acima viram a frieza da recepção imediata ser vingada pela perspectiva histórica. Assim, ao mesmo tempo que alimenta o ceticismo, essa cultura literária de almanaque serve de consolo. O fato mesmo de ter havido quem a coletasse prova que a literatura pode ser autolimpante, corrigindo as próprias injustiças – às vezes tarde demais, é verdade, mas o que é o tempo? Ocorre que Théo não terá a mesma sorte.

Das tentativas de escrever seu segundo livro, só restam escombros. Com notável economia de meios, o romance se ergue então sobre as obras abortadas de um sujeito que se perdeu no labirinto de buscar vida na arte e vice-versa. É um ambiente sufocante que cabe à narrativa retratar – e ultrapassar. “Se um de nós dois morrer” só se realiza na medida em que zomba da literatura a cada página, operando uma negação cumulativa até que, no belo capítulo final, de arte-na-vida ou vida-na-arte reste a vida, só. Só? Não surpreende que, paradoxalmente, seja o capítulo mais literário de todos.

9 Comments

  • saraiva 27/06/2011 at 20:00

    “Sim, estamos diante de um livro que se alimenta de livros, filão pós-moderno…” Joyce e Borges pós-modernos… tsc. “…que pode parecer próximo do esgotamento”: mais um jornalista prevendo o fim da literatura… tsc

  • sergiorodrigues 28/06/2011 at 10:03

    Saraiva: sim, é comum a crítica tratar Borges como o primeiro dos pós-modernos, mas isso não vem ao caso aqui. Fim da literatura? Errou de novo.

  • Fedor 28/06/2011 at 13:36

    Saraiva, o que o Sérgio quis dizer é que nós, leitores, estamos ficando mesmo saturados de livros livrescos e meta-meta-ficções. A literatura não tem fim: estamos fazendo-a agora.

  • Rafael 29/06/2011 at 10:00

    Sérgio,
    Não convivo muito com escritores, mas fico imaginando que esse tipo de estatística é o grande consolo daqueles que não conseguem encontrar seu público-leitor. Afinal, o grande Primo Levi, que escreveu livros essenciais para entendermos o Holocausto nazista, vendeu apenas 150 exemplares de sua obra-prima &tc e tal!
    Aqui vem a propósito uma observação do Jorge Luís Borges:
    “Conozco a alguien que se consuela pensando que también fueron ignorados los artistas A, B y C, que ahora son famosos. No piensa que también fueron ignorado escritores pésimos.”
    Vale

  • Wagner Bezerra Pontes 29/06/2011 at 22:42

    Como sempre esta pequenas obras têm o seu grande potencial, abalado pelas estruturas do ‘dindin’… eu assumo que só compor livros pela grossura e pela quantidade de páginas e os Dostoiévski estão cheios em minhas prateleiras… quando eu tiver dinheiro um dia eu compro este pra ler o ultimo capitulo ou quem sabe eu leia na livraria mesmo num fôlego só… Abraço!

  • Dina Z. 30/06/2011 at 18:50

    Achei esse livro bem fraquinho, bem bobo. Quando a pessoa não tem o que dizer, talvez resta a ela se contentar em ser leitor-comentador, o que não é pouca coisa. Nem todo leitor-comentador tem talento pra fazer boa literatura. Acho, com todo o respeito, que o PRP se enquadra nesse grupo.

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