Se…

28/07/2006

Se o Todoprosa falasse de poesia, seria o caso de me declarar surpreso e decepcionado com o dogmatismo exposto pelo escritor e agitador cultural paulistano Nelson de Oliveira em artigo para o jornal curitibano “Rascunho”. Oliveira não deixa escolha aos poetas aspirantes: exige que eles…

…inventem sua própria métrica, evitem o verso de medida fixa, fujam da rima. O poema regularmente metrificado e rimado pertence ao passado glorioso. Hoje seu ritmo mecânico e engessado (cafona até à medula) só faz sentido na música popular e no canto lírico de baixa qualidade. Pensando bem, nem mesmo aí. A literatura não deve ser tratada como passatempo de burocratas afetados e pedantes.

Se o Todoprosa falasse de poesia – mas não fala, não fala –, eu diria que, obviamente, metro fixo e rima são apenas recursos, não têm valor intrínseco para o bem ou para o mal. Vetá-los é tão absurdo quanto declará-los obrigatórios. Principalmente num momento em que, tendo sido tratados com um certo desprezo pelos bem-pensantes por décadas, eles oferecem enorme potencial para o drible na expectativa do leitor, para a obtenção do efeito que não se espera – função básica de qualquer boa literatura, pois não?

O artigo é desalentador porque, pelo menos nesse terreno, pensei que já estivesse estabelecido de uma vez por todas o valor de princípio constitucional do “é proibido proibir” que o jovem Caetano Veloso foi buscar no Maio de 68 parisiense. E que lhe valeu uma vaia consagradora no III Festival Internacional da Canção, em setembro daquele ano, rebatida com um discurso inflamado e genial contra a “juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem”.

30 Comments

  • Marcelo Moutinho 28/07/2006 at 10:53

    Concordo com vc. Métrica e rima são suportes. Mas conhecendo bem o Nelson, creio que o texto é uma bem-humorada provocação…

  • Sérgio Rodrigues 28/07/2006 at 11:12

    Caro Marcelo, posso lhe garantir que bem-humorada não é, longe disso. Quanto a ser provocação, concordo. Mas nem toda provocação é legal, essa aí eu achei retrógrada.

  • clelio 28/07/2006 at 12:14

    Sérgio,
    vamos combinar uma coisa: Ler muito Tolentino (o livro novo é uma maravilha), ler Alexei, reler Faustino e Gullar e deixar os concretinos e seus filhotes pra lá.

  • Quixote 28/07/2006 at 12:26

    Essa provocaçao é velha. Veja a semana de 22; Apesar disso, o verso rimado e bem burilado nunca perderá o seu lugar no coraçao dos bilaquianos.
    Ha lugar para todos. A boa poesia pode ser rimada ou não. Viva Joao Cabral de Mello Neto

  • CCX 28/07/2006 at 13:13

    O autor do artigo conseguiu o que queria: chamar a atenção. E para isso, as pessoas falam as asneiras mais inacreditáveis.

  • Rosa 28/07/2006 at 13:38

    Não conheço o Nelson de Oliveira, mas acredito que ele simplesmente tenha escrito o artigo num momento infeliz. Momento infeliz pode ser, por exemplo, quando a gente se compromete a escrever um artigo, os prazos estouram, o editor pressiona e a gente joga na telinha uma idéia bem bombástica, embora sem muito embasamento ou reflexão anterior. Um pouco como fazemos aqui nos comentários do blog … com a diferença de que, aqui, falamos bobagens espontaneamente … rsrsrsrs

  • Paulinho Assunção 28/07/2006 at 14:13

    Quem pode ficar contra a rima repentina, dentro ou fora, presente ou ausente, soante ou destoante, uma rima assim tal e qual estrela matutina, chispa ou fagulha no fim da noite de um poema, diamante ou esfera, uma rima tirada em fundo de mina, assim como a rima cabralina?

  • o lider de um grupo inexistente 28/07/2006 at 14:26

    Tenho uma pena desse Nelson de Oliveira… O coitado crê toda vida que é lider de um grupo… mas esse grupo sequer existe… Freud explica…

  • poetastro 28/07/2006 at 15:54

    sugiro fazer um acordo com ele: os poetas param de rimar e o nelson de oliveira pára de fazer antologias.

  • joao gomes 28/07/2006 at 16:16

    No artigo Oliveira afirma que “aos poetas que frequentam suas oficinas…” causa-me estranheza que poetas frequentem oficinas e sigam recomendacao de um guru. Francamente! Em minha modesta opiniao o poeta nao frequenta oficina. Ele nasce sob o signo da poesia. Um predestinado. Mal congênito. …ou bem.
    Abaixo Oliveira!

  • Clara 28/07/2006 at 17:19

    Estou totalmente de acordo com Sérgio Rodrigues.

    João Gomes, achei ótimo o seu comentário, e acrescento: os que frequentam oficinas de poesia devem ter uma falta de talento doentia.

  • ALFREDO GARCIA 28/07/2006 at 18:12

    Nunca li nada do Nelson. Achei pesada e fora do contexto a observação dele. Quanto às oficinas, frequentei algumas – a última de crônica com o ótimo Fabrício Carpi Nejar aqui em Belém – e procurei obter informações sobre Literatura para melhorar o meu texto, já que talento não se põe de pé sozinho.
    Sugiro a todos lerem também alguns poetas do Pará, em especial ANTONIO JURACI SIQUEIRA e MAX MARTINS em http://www.culturapara.com.br.

  • Luiz Fernando 28/07/2006 at 18:16

    Existem rimas ricas e pobres.
    Existem poêsias e poêsias.
    Existe forma e formalismo.
    Existe liberdade e facismo.
    Existe passado, presente e futuro…
    Negar que existe o sol é possivel, o que não é possivel é querer que as plantas vivam sem ele.
    Este nElSoN esta odarre….que deixe que eu fique pobre,mas digno.

  • Eu Héin! 28/07/2006 at 18:54

    Será que êsse “Cabra” nunca ouviu falar que o poeta e a poesia, não são forjados em uma oficina? Qual será a linhagem dêsse indigente para escrever tamanha asneira? Eu Héin!

  • Writing Ghosts 28/07/2006 at 21:57

    mas que nada.

    feliz o dia que viu nascer Nelson de Oliveira!

    porque também no anedotário popular está a historinha de outro Nelson que dizia que: “a unanimidade é burra”, e assim sendo é bom que o lugar do vilão seja ocupado por tralhas desta, que se ocupam da masturbation de inventar essas sandices.

    sobra o outro lado do front, pra gente babar que nem cão danado, sem saber da missa a metade. êta coro de hienas! parece até risada gravada de sitcom.

    e essa do “é proibido proibir” tá datada que só, hein, Sérgio? leio com a trilha d’algum filme brasileiro velho na cabeça (com a qualidade de som que só naqueles anos se sabia fazer)

    outros tempos, outros parâmetros, outros paradigmas. deixa isso pras traças, que elas gostam mais desse mofo que nós.

  • Sérgio Rodrigues 28/07/2006 at 22:29

    Tem data sim, cara. 68, como eu disse. Mas em literatura é proibido proibir mesmo, era antes disso, continuou sendo depois.

  • Shirlei Horta 28/07/2006 at 23:05

    Que ótimo! Coerência é a alma do negócio: SEJA criativo; NÃO FAÇA isso; NÃO FAÇA aquilo. Já podia dar logo o tema, título e versos. Ah, editora, leitores e o caminho pro Nobel de Literatura.

  • PoEtA Q... rimA. 29/07/2006 at 10:34

    O poeta…
    Profetiza entre quatro linhas,
    transformando o branco em letras e letras
    em RIMAS…
    Letras essas que transformao vidas…
    -Inexistenti em um papel,
    num complexo de impureza e solidao…
    No momento de pura inspiraçao.
    Poeta ou Poetiza,
    -PROFETIZA.
    Com pensamento inscensato,
    num futuro APAGADO. .SoUzA.

    O Poeta produz e seduz ,
    na magia que só ele possui. SoUzA.

  • sonho bom 29/07/2006 at 11:56

    “CADA DIA SEM GOZO…”

    Autor: FERNANDO PESSOA

    Buscar na Web “FERNANDO PESSOA”

    Quando: S/D

    “Cada dia sem gozo não foi teu Foi só durares nele. Quanto vivas Sem q. o gozes, ñ vives. Não pesa que amas, bebas ou sorrias: Basta o reflexo do sol ido na água De um charco, se te é grato. Feliz a quem, por ter em coisas mínimas Seu prezer posto, nenhum dia nega A natural ventura!”

    É tudo tão simples…não existe mais lugar para a complicação, o pedantismo…

  • sonho bom 29/07/2006 at 11:58

    Leia-se prazer; não prezer.

  • claudio 29/07/2006 at 14:06

    nelson de oliveira é o imbecil mais bem disfarçado da literatura brasileira. algum dia alguém vai pegar a obra desse infeliz e se dar conta: é tudo água, água, água. esse texto dele sobre poesia parece trabalho de aluno de primeiro ano de faculdade. tem os mesmos vícios, preconceitos e obviedades. que horror!

  • Paulo Lima 29/07/2006 at 14:22

    Polêmica boa e inegostável, na qual fico com o ponto de vista de Sérgio Rodrigues.

    A forma em poesia, assim como na literatura, não é uma fôrma ditada pelas prerrogativas dos seus praticantes.

    Não existe essa predominância de escolas, grupos, grupelhos ou igrejinhas. Há, sim, boa poesia ou boa literatura. Que fica ou que é banida pelo juízo do tempo.

    Mas nessa confusão toda eu prefiro mesmo é assinar embaixo a fina ironia de Mario Quintana: os poetas de verdade não lêem os outros poetas. Lêem as pequenas notícias.

  • jeanette roszas 29/07/2006 at 17:16

    Bravos, Sergio. Mais uma vez concordo com você em gênero,número e grau. Nada de xiitismo, não é?

  • PoEtA Q... rimA. 30/07/2006 at 09:50

    NOSSA disse tudo ….
    O VERDADEIRO POeTa,
    NÃO LÊEM O OuTrO!!!!!!!
    kArAcA…mArIo qUinTana AHuahAUhau

  • Writing Ghosts 30/07/2006 at 19:58

    ainda creio ser mais saudável existir a proibição, que leve a uma resposta necessariamente forte da resistência a ela (essa proibição), que por sua vez defenda com dureza sua posição – talvez expondo assim suas entranhas, e com elas a chave do seu argumento: e a possibilidade de enxergar aí seu “calcanhar de Aquiles” – que por fim devolva (a ‘Resistência’) com sua melhor e mais apurada argumentação, criatividade e tal.

    nestes relativamente ingênuos anos (around 68), talvez se tenha produzido, ao invés, boa parte do melhor da arte no século (como, de forma similar, em outros períodos de guerra) – visto que as circunstâncias exigiam essa aplicação, essa entrega apaixonada, esse tomar de posição.

    hoje é fácil “proibir o proibir”. qual tem sido o nosso grande testamento, nossa grande herança para o futuro?

  • Renato 31/07/2006 at 11:31

    Concordo com o Sérgio:

    “É Proibido proibir”

    Oficinas são para quem trabalha:
    Mecânicos,
    operários
    marceneiros
    escultores
    estetas
    escritores
    e até poetas
    oficina é onde se exerce um ofício
    A forma
    reta ou torta
    depende do contexto
    o conteúdo importa.
    o trabalho
    o texto.

  • joao 31/07/2006 at 15:52

    Renato
    que disse que poeta trabalha. Hahaha!
    Lamento dizer, mas este é um ledo engano.
    Cara, poeta nao trabalha. Sonha. poetizar é um sacerdocio. ocio sagrado, conforme dizia Oswald de Andrade.

  • Renato 01/08/2006 at 09:33

    Oswald trabalhava
    e muito!
    Assim como antes dele Bilac
    e Cruz e Souza
    Assim como Mário
    e Drummond
    e Quintana
    São escassos os poetas que não trabalharam sue texto
    Maiakowsky trabalhava muito
    Poe também
    (por mais que fosse taxado de bêbado e vagabundo)
    sacerdotes, todos foram.
    o ócio era ironia
    resposta àqueles
    que mascaram a semsaborice de suas existências
    taxando de loucos
    de vagabundos
    aqueles que ousam viver seus sonhos.

  • Jorge A. S. 02/08/2006 at 08:36

    Fujo destes arroubos altamente prescritivos como do Diabo. Sempre desconfiei daqueles que perdem o tempo deles, e o dos outros, advogando receituários num domínio onde por definição a única receita é criar. Rimas ou verso livre são apenas veículos…

    Grande blogue. Abraços do outro lado do charco.

  • joao 02/08/2006 at 09:40

    a ironia é que o conceito de trabalho é polissemico e ao mesmo tempo encarado como único. a ironia é que quem trabalha por prazer acaba tendo mais prazer (e convertido, a medida que o tempo passa, em lazer) transpõe os gilhões que a humanidade colocou sobre os trabalhadores da terra. Ao divinizar o trabalho e profanar/rebaixar o trabalhador- sacerdote que oficia o rito diario de labutar em prol de outros (pessoas ou coisas, industrias, comercio, servicos, etc.) afim de obter o sustento e manutencao de sua vida. Uma troca cada vez mais injusta pelos próceres da economia global. …ou exploracao global em massa e larga escala. Assim, Renato ao dizer que poeta nao trabalha nao estou dizendo que eles sao vagabundos. Mas que sao livres em seu mundo. Sao pessoas que encontraram prazer na vida apesar de tudo e dos horarios fixos das jornadas de trabalho, das férias pre-determinadas, das festas pagãs e cristãs previamentente (e, quiçá, milenarmente estabelecidas). enfim, são os verdadeiros herdeiros de Prometeus.

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