Sem meritocracia

20/07/2012

"Superhomens" (1965), de Rubens Gerchman

– Imagine o futebol sem meritocracia. Imaginou?

– Não sei se estou entendendo.

– Um futebol sem meritocracia, ora. Sem hierarquia, sem mecanismos de aferição de valor. Imagine um ambiente em que não só o craque desapareceu como a própria ideia de que certos jogadores possam ser considerados craques é revoltante para a sensibilidade democrática de todos. Craque para quem, na opinião de quem? Com que autoridade divina alguém decreta que um jogador é craque e outro não?

– Mas isso não é evidente? Qualquer torcedor na arquibancada percebe a diferença na primeira matada de bola, no primeiro passe.

– Será evidente mesmo? Ou será que estamos falando de um olhar condicionado, adestrado pelos poderosos, construído por gerações de cronistas esportivos preconceituosos para cobrir de privilégios seus eleitos, seus amiguinhos?

– Você está brincando, né?

– De jeito nenhum. No futebol sem meritocracia, a violência e a arbitrariedade de todo treinador ficam grotescamente expostas. De onde ele pensa que tirou autoridade para decidir quem entra em campo, quem fica no banco, quem estará na próxima lista de dispensa?

– Do presidente do clube?

– Do presidente, claro, como personagem contingente, mas através do presidente fala uma força historicamente constituída chamada ideologia. A verdade é que não existe o craque, nunca existiu. Assim como não existe o medíocre e não existe o pereba. Essas categorias não passam de peças numa estratégia de dominação e manutenção da ordem editorial. Por que será que quase todos os jogadores da seleção são jornalistas, editores ou críticos acadêmicos?

– Hã? Você está passando bem?

– Desculpe, acabei entregando o jogo sem querer. É que o futebol era só uma metáfora, como você deve ter percebido. Eu estava falando o tempo todo da “Granta”.

– É mesmo? Nossa. Eu jurava que era do Flamengo.

12 Comments

  • Benjamin Cole 20/07/2012 at 11:06

    Haha, eu ouço essa conversa o tempo todo na faculdade. Mas no final o assunto é o Flamengo mesmo.

  • Afonso 20/07/2012 at 11:38

    O que seria do futebol… sem as metáforas?

  • Gunnar Kelsch 20/07/2012 at 12:07

    O Rubens é Gerchman.
    Opa, obrigado.

  • Pedro Leal David 20/07/2012 at 12:57

    Que susto. Achei que não era nem Futebol nem Granta. Sou muito sensível ao tema da meritocracia, que pra mim não é sinônimo de capitalismo, como querem certos sofistas em voga. Sobre a teoria da “primeira matada”, acho que na literatura somos muito castrados. No estádio, não tenho o menor pudor de entoar o coro mais cruel contra um técnico ou um perna de pau. Na literatura, ficamos arrumando desculpas para não ferir suscetibilidades, até de quem não conhecemos ou já morreu. Outro dia, um amigo deu umas 15 voltas pra dizer que achava o Cartázar brega. Falar que o José de Alencar é chato é heresia, mas não dá pra fazê-lo na primeira matada ? Ou ainda, (perdão, Senhor!) sem que ele nem entre em campo ?

  • Benjamin Cole 21/07/2012 at 05:29

    Em uma matada: José de Alencar é chato e Cortázar também.

    • sergiorodrigues 21/07/2012 at 19:10

      Para demonstrar o limite da metáfora futebolística, Benjamin: para mim, na parte do Cortázar você matou na canela feio.

  • Benjamin Cole 21/07/2012 at 21:09

    Para demonstrar o limite da metalinguagem futebolística, Sérgio: para mim, você acaba de me dar uma tremenda canelada. Mas nos pés do outro a minha jogada ainda termina em golaço…

    • sergiorodrigues 22/07/2012 at 11:47

      Caro Ben Cole, o que é isso, o que você chama de canelada eu chamo de desarme técnico. É aí mesmo que está o limite: a área reservada para a subjetividade aqui é bem maior do que nas quatro linhas. Um abraço.

  • Benjamin Cole 22/07/2012 at 17:52

    Pô Serjão, vou aceitar a decisão do árbitro, e dizer que é melhor mesmo tomar um passo para fora das quatro linhas: foram escritas por Cortázar.

  • Tiago Franco Correa 23/07/2012 at 08:46

    Taí uma crítica com mérito! Até mesmo a Granta se rendeu ao jeitinho brasileiro. Yes, nós temos bananas!

  • Cleber Moura 11/08/2012 at 00:10

    Muito bom, tenho um blog literário também se alguém se interessar. http://literariosnanet.blogspot.com.br/

  • Maria Valéria Mendonça 14/09/2012 at 10:36

    Puxa!Acreditei que estava falando do sistema de cotas para a universidade!

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