‘Seus ignorantes…’

21/10/2008

Sabe aquela guerrinha literária entre Europa e Estados Unidos, que a Academia Sueca abriu de forma um tanto cretina ao atacar os escritores da terra de Philip Roth? Pode estar se deslocando – o que, pensando bem, talvez estivesse nos planos europeus o tempo todo – para um campo de batalha mais interessante: o da lendária inapetência do mercado editorial de língua inglesa diante das traduções. Segundo um estudo da Universidade de Rochester citado pelo “New York Times”, apenas 2% dos lançamentos de literatura no mercado americano este ano são de livros traduzidos.

Talvez estivesse faltando nesse conflito justamente um topete como o que desfilava Anne Solange, editora da Gallimard, na recém-encerrada Feira de Frankfurt. Encarregada de vender os direitos do nobelizado J-M.G. Le Clézio para outras línguas, a francesa se recusou de forma categórica a negociar seu último livro com editores de língua inglesa, temendo um lançamento meramente oportunista. Prefere esperar o aparecimento de uma editora que garanta um bom tratamento também aos títulos anteriores de Le Clézio. Sobre o assunto, Anne Solange deu esta antológica declaração (está no blog de livros do “Guardian”):

Em Frankfurt, eles [Estados Unidos e Grã-Bretanha] subitamente se deram conta de sua insularidade. Eu digo aos anglo-americanos: parem de dizer que o resto do mundo não merece ser traduzido para o inglês. Digam que vocês preferem ser ignorantes, mas não digam que nós não merecemos sua tradução.

16 Comments

  • Julio César Mulatinho 21/10/2008 at 18:19

    Como pode o mundo ser comandado por essa potência tão isolacionista?

  • Inácio 21/10/2008 at 18:45

    Mesmo isolados, a literatura norte-americana há décadas tem mais vitalidade do que a francesa. . E não se deve exagerar, Bolaño tem mais livros editados nos EUA do que aqui.

  • Tibor Moricz 21/10/2008 at 19:00

    Essa é a arrogância elevada à enésima potência. Típico de americanos.

  • Breno Kümmel 21/10/2008 at 20:52

    Chance de falar mal de americano e britânico? Oba, tô dentro!

  • Inácio 21/10/2008 at 21:10

    O artigo do NYT diz que os editores de lá dizem que livro traduzido não vende, não que não mereça ser traduzido. E francês reclamando da arrogância dos outros…hummm… sei.

  • Fernando Torres 21/10/2008 at 23:01

    Tem gente reclamando que o Brasil só traduz, tem gente reclamando que os Anglofonos não traduzem… Galera, se decide! Traduzir é bom ou não para o mercado editorial?

  • Drex Alvarez 21/10/2008 at 23:24

    É bastante irônico mesmo ver essa tal editora da Gallimard fazendo birra…

    Na verdade, o que ela quer dizer é “Vamos lá, seus ignorantes, nos traduzam pelo amor de Deus!, nos dêem pelo menos um pedacinho desse seu mercado anglófono!!, nos deixem tirar pelo menos um casquinha desses seus leitores idiotas!!”

    Enfim, me pareceu que por trás do discurso orgulhoso “não nos venderemos tão barato!!” na verdade se esconde um mendicante “Come on, show me the money!!”

  • Mr. WRITER 22/10/2008 at 00:21

    Uma coisa é certa, os americanos não gostam de filmes estrangeiros e legendados…

    Então fica a pergunta: Gostaria os americanos de livros traduzidos?

  • Tibor Moricz 22/10/2008 at 09:23

    Os livros são todos legendas. No dia que inventarem um dublado, acaba o problema.

  • Cláudio 22/10/2008 at 09:55

    Duas infinitudes: os números e a estupidez humana.

  • Eric Novello 22/10/2008 at 10:28

    Sobre filmes, tem muita coisa que passa lá que não passa aqui.
    Eles não gostam de legenda, mas vêem filme oriental até dizer chega. Se aqui 90% do espaço é para filmes hollywoodianos, lá existe espaço para filmes de todo canto. E o cinema “americano” também sofre com o cinema “hollywoodiano”. Eles disputam espaço com os tubarões do mesmo jeito. Tem outros segmentos dentro desse mar de prepotência (muito em breve, pós-potência, hehe).

    Literatura… acho a briguinha EUA x Velho Mundo muito saudável.
    Queria eu que o Brasil estivesse lá palpitando também sobre a ignorância alheia. Os EUA têm todo direito de decidir o que querem publicar. Se aqui importamos livros, os interessados lá devem fazer o mesmo e com maior facilidade. O que não podem é achar que o que não é publicado lá não existe ou não faz sucesso, coisa que costumam fazer com a música.

    Foram ensinados a pensar assim. Fazer o quê.

  • Djabal 22/10/2008 at 10:37

    Aqui vai um pouco de lenha na fogueira:
    “Falando de literatura americana, do problema de fazer literatura numa sociedade em que há bem-estar e na qual os problemas estão ainda todos para ser descobertos, diz coisas nada tolas. Mas lhe falta alguma informação sobre as literaturas européias, alguma desconfiança sobre o que se passou e se passa além do Atlântico. Não que seja totalmente destituído de interesse; ouve admirado qualquer informação óbvia que lhe fornecemos. Não sabe que na Espanha houve guerra civil. (Decerto há de ter lido Hemingway, mas da mesma maneira que nós lemos sobre as guerras entre os rajás dos mares do sul.) O professor de filosofia do mesmo college, quem esteve como ele não fui eu, mas Meged, conhece um único filósofo, Wittgenstein. De Hegel sabe apenas que é metafísica e que não vale a pena se ocupar disso, de Heidegger e de Sartre que são ensaístas e não filósofos.”
    Essa opinião é de Ítalo Calvino no Eremita em Paris.(Cia. das Letras). Sendo dele, as pessoas teriam um pouco mais de respeito e ponderação, antes de atacar com tanta fúria. Coisa que não ocorre com um simples secretário da Fundação.
    Finalmente, admitindo que ambos (americanos e europeus) têm razão, que um não conversa com o outro, poderíamos sem muita dificuldade, concluir que o prêmio é um primeiro passo para o diálogo. Já que o premiado é um itinerante de muitas culturas.

  • Camila 22/10/2008 at 10:52

    Eu adoro essa arrogância francesa (às vezes…). E ela está sendo muito esperta criando polêmica. Além de ser uma questão super pertinente, ela provavelmente ainda vai conseguir uma oferta muito melhor de uma editora americana, promentendo em contrato um investimento maior na divulgação do livro (que é o que basicamente faz com as traduções ‘não’ vendam por lá…).

  • Chico 22/10/2008 at 12:18

    Francamente, do que estao falando? Um frances falando de imperialismo e de ignorancia americana nao eh mais ou menos o sujo falando do mal lavado? Se alguem souber o que eh um soldado pied-noir eu dou uma maria-mole. Se alguem me disser o que eh um Afrikaner dou dois saquinhos de coco de rato.

    Nem sei quem eh Le Clezio. Adoraria saber. Mas de uma coisa estou certo, do ponto de vista empresarial a Solange eh uma estupida. Do ponto de vista de circulacao de ideias, reafirmo, a Solange eh uma energumena. Essa mulher devia estudar mais para aprender a vender livros – pois esse eh o oficio dela, ou nao eh?

    E para sustentar meus elogios a editora da Gallimard, e por falar em coco de rato, no mes de Cosme e Damiao a Boolmsbury – do pais do poeta imperialista Kipling – publicou o Epitaph of a Small Winner e o Chapter of Hats de um jovem e obscuro escritor brasileiro.

  • clelio 22/10/2008 at 16:13

    Esse Le Clézio é um mala, os americanos estão muito melhor em companhia de Philip Roth, Don de Lillo, entre outros… Enquanto o Nobel não premiar o Roth não merece respeito de ninguém…

  • Zimmermann 22/10/2008 at 17:50

    Grande Le Clézio.

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