Tahar Ben Jelloun: ‘Partir’

08/06/2007

O romancista, poeta e ensaísta marroquino Tahar Ben Jelloun, nascido em 1944, foi educado em francês em sua terra natal e se mudou em 1971 para Paris, onde vive até hoje. Mais do que informação biográfica, a adoção do francês como língua literária é fundamental na obra de Ben Jelloun, pois o situa numa zona de fronteira cultural que o torna um dos escritores africanos de maior expressão da atualidade e, ao mesmo tempo, um alvo fácil para a parcela mais xiita da crítica internacional, que o acusa de traição aos valores autênticos da “Magreb de raiz” ou coisa parecida. Bobagem. Ben Jelloun não usa o deslocamento para fazer macumba-para-turista e sim para refletir, com real talento e sem proselitismo, sobre as muitas faces da guerra cultural surda que foi (re)inaugurada pelo mundo pós-colonial e globalizado entre a Casa Grande e a Senzala do planeta. O romance “Partir” (Bertrand Brasil, tradução de Mônica Cristina Corrêa, 288 páginas, preço a definir), que ele lançou ano passado, é mais um mosaico desse desenraizamento, denunciado no trecho abaixo pelo louco lúcido que faz as vezes de consciência crítica do livro – personagem retomado de outro título de Ben Jelloun, “Moha o louco, Moha o sábio”, lançado aqui pela Francisco Alves.

Moha, o velho Moha, Moha o louco, Moha o sábio, saiu de sua árvore, descabelado, a voz grave, o olho vivo, e se precipitou para Casabarata num café onde se fazem os tratos entre os passadores e os clandestinos.

No início, Casabarata era uma favela, mas, com o tempo, o lugar se transformou em feira para os pobres. Encontrava-se de tudo ali, de sapatos velhos furados a televisores.Vendia-se tudo que se pudesse imaginar. Progressivamente, os produtos chineses, as mercadorias falsificadas, foram invadindo tudo. Mas o que interessava Moha em Casabarata eram os homens que tomavam chá fumando cachimbos com kif.

Ele se apoderou de um jornal que estava sobre a mesa, pediu um isqueiro ao garçom, olhou fixamente dois homens com jeito abestalhado por terem fumado, sacudiu o jornal e depois o queimou.

Eu também estou queimando, estou queimando como este jornal que não conta a verdade, ele diz que está tudo bem, que o governo está fazendo tudo que pode para dar emprego aos jovens, diz que aqueles que atravessam o estreito são uns perdidos, desesperados, sim, há por que estar vazio de toda e qualquer esperança, mas a vida passa e nos deixa à margem, à margem de quê, vai-se saber, eu não direi, a vida, mas que vida, a que nos esmaga, nos dilacera? Peguem, juntem as cinzas das notícias que queimei, tem um monte delas, falsas notícias, como esta moça que escreve a coluna “coração no coração”, pé no pé, meu pé seu pé, para perguntar se deve deixar seu marido beijá-la nos lábios inferiores. Uma outra pergunta se a nossa religião autoriza colocar na boca o pênis do marido, mas que loucura é esta? Parece que essas cartas não existem, deve haver um cara cheio de imaginação que as escreve e envia ao jornal. Desde então, esse jornal de esquerda faz fortuna, é uma coisa de louco o quanto as pessoas têm vontade de saber como os outros se viram com seu sexo, bom, eu não vim aqui para dar lição de moral, se uma mulher quer se dar a seu marido, que o faça e não vá alardear nos jornais. Por isso vocês querem cair fora, partir, deixar o país, ir para o lado dos europeus, mas eles não estão esperando por vocês, ou melhor, eles os esperam com os cães, pastores alemães, algemas e um pontapé no traseiro, vocês acreditam que lá tem trabalho, conforto, beleza e graça, mas, meus pobres amigos, há tristeza, solidão, céu cinzento, tem também dinheiro, mas não para aqueles que vão sem serem convidados. Bom, vocês sabem do que estou falando, quantos caras partiram e se afogaram? Quantos caras partiram e foram mandados de volta? Quantos caras desapareceram no mato, não se sabe nem mesmo se ainda estão vivos, suas famílias não têm notícias, mas eu sei onde estão, estão aqui, no meu capuz, estão amontoados uns sobre os outros, emboscados como bandidos, à espera da luz para sair, isso não é vida. Ei você! O gordo com o gorro que esconde a testa e as sobrancelhas, você se acha esperto, embolsa dinheiro e os envia à morte, um dia você será devorado por todos esses afogados, eles virão encontrá-lo em sua cama e vão comer-lhe o fígado, o coração e os colhões, você vai ver, pergunte aonde foi parar o Sif, é, o que mandava que o chamassem de sabre porque manejava o sabre como um revólver, foi degolado por mortos, é, centenas de cadáveres se apresentaram e lhe pediram que prestasse contas, ele puxou o sabre, que derreteu sob os olhares vidrados dos mortos, e ele ficou colado na parece onde mãos tão cortantes quanto uma faca de açougueiro o despedaçaram.

Partir, sim, eu também tenho vontade de ir embora, olha, vou fazer a viagem na direção oposta, vou atravessar o deserto, vou atravessar o Saara como o vento, rápido, ligeiro, invisível, passarei entre as dunas, não haverá pegadas, cheiro, Moha passará por aí e ninguém o verá, mas aonde você vai, Moha? Vou à África, a terra de nossos ancestrais, a África é imensa, as pessoas têm tempo de olhar a vida mesmo que a vida não seja generosa com elas, mas elas arranjam tempo para fazer coisas gratuitas, a África, maldita pelo céu, a África, pilhada por negros de gravata, por brancos de gravata, por macacos de smoking, por gente às vezes até totalmente invisível, mas os africanos o sabem, eles não esperam que lhes expliquem o que está acontecendo, eu estou falando da África porque as pessoas de lá andaram dias e noites para chegar até aqui, em Tânger, disseram-lhes em Tânger que aqui já é a Europa, vocês sentem a Europa, vocês vêem a Europa e suas luzes, vocês tocam a Europa com os dedos, ela cheira bem, ela está esperando por vocês, basta atravessar quatorze pequenos quilômetros e estarão ainda melhor, vão a Ceuta e vocês já estão na Europa, sim, Ceuta e Melilla são cidades européias, basta escalar uma barreira de arame farpado, a Guardia Civil não pode controlar tudo, acontece-lhe de atirar a esmo, então, morrer nas águas geladas do estreito ou no asfalto da fronteira, vocês podem escolher, meus amigos, a África está aí e os caras acreditaram que a Europa fazia fronteira com Tânger, no porto, em Socco Chico, aqui neste café miserável, eles chegam como sombras vacilantes, homens da incerteza, homens esvaziados de sua substância, eles perambulam nas ruas, dormem nos cemitérios, comem gatos, sim, é o boato, eu acredito no boato, é uma maldade gratuita, os africanos perdem um pouco mais sua alma, nós, os árabes brancos, digamos, de pele mate, morena, marrom, nós nos sentimos superiores, estupidamente superiores, pensamos ter finalmente achado neles homens a desprezar, nosso racismo tinha necessidade de exercitar-se, já maltratávamos os pobres, mas quando os pobres são africanos de pele negra, não nos agüentamos, cremo-nos autorizados a olhá-los de cima, fazemos como alguns políticos europeus, eles nos olham de cima, e de fato eles nem mesmo nos olham, veja, eis o grande manitu, o supertira que não pára os passadores, perguntamo-nos por que ele os deixa tranqüilos, ah, não é um mistério, mas eu vou parar, eu não digo mais nada, me calo, fecho a boca, se vocês escutarem palavras, é que elas estão saindo sozinhas, elas vão para o alto-mar, se libertam, dizem a verdade, bom, me dê um copo d’água, a pequena Malika está precisando de mim, ela está tossindo, está doente de tanto descascar camarões no frio, ela pegou uma pneumonia, e é preciso achar-lhe medicamentos, os pais não têm dinheiro para comprar, vou fazer uma vaquinha, é preciso salvá-la, é uma bela moça que merece viver, rir, dançar, ir aos cumes das montanhas e falar com as estrelas…

Partir, partir! Partir de qualquer jeito, a qualquer preço, afogar-se, boiar na água, de barriga inchada, o rosto carcomido pelo sal, os olhos perdidos… Partir! É tudo o que vocês encontraram como solução. Olhem o mar: é belo em seu vestido reluzente, com seus perfumes sutis, mas o mar os engole e regurgita em pedaços…

Vou deixá-los, Malika está me esperando.

5 Comments

  • Saint-Clair Stockler 09/06/2007 at 00:56

    Adoro o Tahar! É um dos meus escritores em língua francesa preferidos. Tem livros maravilhosos, felizmente alguns deles já traduzidos para o português (mas não é difícil lê-lo em francês: juntamente com Patrick Modiano e Amélie Nothomb, ele forma a trinca de escritores de língua francesa cujas obras são as mais fáceis de ler no original que conheço).

  • Saint-Clair Stockler 09/06/2007 at 01:01

    Ah, sim: uma palavra sobre o conteúdo de suas obras: o que sempre me surpreende nos textos de Ben Jelloun é que, falando da sociedade árabe, a impressão fortíssima que tenho é a de que está falando do Brasil. Os mesmos problemas dos países árabes por onde se passam a maioria de suas histórias (sobretudo aqueles que formam o Maghreb), a corrupção endêmica, a fortíssima entropia, os dilemas morais, um certo cansaço… tudo, tudo me lembra o Brasil. Não seria exagero afirmar que leio seus livros também para entender o Brasil.

  • Areias 09/06/2007 at 11:49

    Também gosto do autor. Só li La nuit sacrée e Le dernier ami, por enquanto. E a capa desta edição está muito boa. E do Houellebecq, você não gosta, Saint?

  • Paulo (outro Paulo) 09/06/2007 at 15:45

    Houellebecq…pornochanchada da grossa esse cara…

  • Saint-Clair Stockler 09/06/2007 at 20:28

    Areias:

    ADORO o Houellebecq (os franceses chamam-no, de sacanagem, “Où est le bec”, ahahaha). Acho-o divertidíssimo. Nem sempre concordo com os seus pontos de vista, mas as análises que ele faz da sociedade ocidental doente são sempre fascinantes. E ele é um bom contador de histórias, sim.

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