Tchekhov e o conto moderno: e se a pistola não disparar?

25/08/2010

Os 150 anos do nascimento do escritor russo Anton Tchekhov (1860-1904), considerado o pai do conto moderno, motivaram uma bela edição do Babelia, suplemento literário do jornal espanhol “El País”. Um dos destaques é o artigo de abertura, “Pistolas e mares”, em que Luis Magrinyà reflete sobre o paradoxo que envolve aquela famosa tirada do autor – em referência ao teatro – sobre a pistola que se mostra no início da trama ter que ser disparada antes de cair o pano. Esse argumento poderoso contra a gratuidade, o mero adorno, foi em geral acatado como lei pela arte narrativa do século 20. O problema é que a frase da pistola, observa Magrinyà, acabou por obscurecer o fato de que os contos tchekhovianos tiram sua maior força de elementos aparentemente desamarrados, sugestões inconclusivas que produzem um efeito duradouro na cabeça do leitor. A pistola não dispara, mas escapa de ser gratuita porque, calada, ressoa ainda mais. A conclusão do autor do artigo é, numa paráfrase livre, a de que Tchekhov inventava assim o realismo que sucederia a onisciência do século 19, um espelho lacunar do que a vida tem de essencialmente amorfo e indomável, “como o mar”.

Outro atrativo da edição, este mais polêmico, é a lista dos 16 (por que 16?) “melhores contos do século 20”:

Raymond Carver: “Catedral” (1983)
James Joyce: “Os mortos” (1914)
Henry James: “A fera na selva” (1903)
Juan Rulfo: “Não ouves ladrar os cães” (1953)
Julio Cortázar: “Graffiti” (1981)
Ramón del Valle-Inclán: “O medo” (1902)
Truman Capote: “Deslumbramento” (1982)
Jorge Luis Borges: “O espelho e a máscara” (1975)
J.D. Salinger: “O homem risonho” (1953)
Francis Scott Fitzgerald: “Regresso a Babilonia” (1929)
Ingeborg Bachmann: “Problemas, problemas” (1972)
Katherine Mansfield: “A mosca” (1922)
Ring Lardner: “Campeão” (1924)
Medardo Fraile: “O álbum” (1959)
Flannery O’Connor: “A boa gente do campo” (1955)
Katherine Mansfield: “Na baía” (1921)

A lista é intessante e, como sempre, cheia de furos. Reconheço minha incapacidade de julgar, por absoluta ignorância, a propriedade de incluir nesse Olimpo a austríaca Ingeborg Bachmann e o espanhol Medardo Fraile. Mas estranho que Truman Capote e Ring Lardner sejam titulares da forte seleção americana (nada menos que sete dos 16 nomes são nativos dos EUA, embora o europeizado Henry James não caiba bem no figurino), barrando jogadores que considero indispensáveis nessa partida, como Ernest Hemingway (“Colinas como elefantes brancos”, talvez) e John Cheever (“O nadador”, quase certamente). E, para não sair do velho Império Austro-Húngaro, convocar Ingeborg Bachmann em vez de Franz Kafka (“Um artista da fome”, sem dúvida) não é meio como levar o Júlio Batista e deixar o Ganso?

Duas curiosidades: uma das herdeiras mais diretas de Tchekhov, a neozelandesa Katherine Mansfield é a única que comparece com duas histórias; e o país de Maradona brilha com um par de nomes, Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, que considero acima de contestação, embora a escolha de seus contos seja duvidosa. Nesse ponto confesso que me enchi de brios nacionalistas e tentei desencavar um Machado de Assis do século 20 para meter em campo. Fracassei por muito pouco: “Missa do galo” saiu em livro em 1899, maldição! Mas, se os espanhóis podem ir de Medardo Fraile, por que não poderíamos recorrer a Guimarães Rosa (“A terceira margem do rio”) ou Clarice Lispector (“Uma galinha”)? Qualquer lista, afinal, revela mais sobre quem a faz do que sobre o mundo.

De toda forma dá o que falar, como toda lista do gênero, o que é sempre bom.

12 Comments

  • Ricardo Costa 25/08/2010 at 14:07

    Olá Sérgio!

    Achei que faltou algum do Onetti. “O Inferno tão temido” talvez.

    Abraço!

  • Técio Couto 25/08/2010 at 15:37

    Impossível colocar Machadinho nesta lista. Seguramente ocuparia dez vagas. Injustiça com outros autores.

  • William Weber Wandelinde 25/08/2010 at 16:56

    Jorge Luis Borges tem que estar, mas a escolha do conto me parece bem aleatória. Kafka e Hemingway realmente fizeram falta. Será que Italo Calvino não merecia um espaço também?

    • sergiorodrigues 25/08/2010 at 17:33

      Caros William e Ricardo: Calvino e Onetti são belas sugestões. Não é sempre que a caixa de comentários complementa tão bem um post. Abraços.

  • luis nascimento 25/08/2010 at 19:28

    Tá meio fora de moda defender o cara (virou ‘best seller’, ‘amigo de ditadores’), mas A Última Viagem do Navio Fantasma, do Gabriel Garcia Marquez, não faria feio nesta lista…

  • Silvio 25/08/2010 at 20:42

    Gostei da menção ao absurdamente esquecido Ring Lardner. Minha modificação seria: colocar alguma coisa de O. Henry ou de Saki, grandes cultivadores do twist ending (popularmente, “final-surpresa”). Sobre Tchékhov, recomendo fortemente essa excelente seleção de contos lançada no início do ano pela L&PM: http://tiny.cc/00zib

  • Marco 25/08/2010 at 23:59

    E porquê não o pernambucano Osman Lins, acho que boa parte dos contos (narrativas) contidos em “Nove, Novena” poderia fazer parte de qualquer lista respeitável. Por exemplo “Um ponto no círculo”, “Conto barroco ou unidade tripartida”, “Pastoral”.

  • Thiago Maia 26/08/2010 at 03:17

    Alguém aí sente, como eu, algo especial por Os irmãos Dagobé, de Rosa? Acho esse outro conto de Primeiras estórias muitíssimo “subestimado”.

  • pedro curiango 27/08/2010 at 12:55

    Epigrama
    A vida é como um livro. O título, o baptismo. O índice, as esperanças vãs dos progenitores. O prólogo, a infância. O enredo, uma longa errata cheia de gralhas e erros. O apêndice, a velhice. O Epílogo, a morte. O pior é que não se pode fazer segunda edição.

    Livreiro anónimo (ideia tirada de um poema de R.J. Crespo)

    Publicada por Pó dos Livros em 8/27/2010

  • Flávia 27/08/2010 at 13:24

    Olá, gostaria que você conhecesse o novo lançamento da Balão Editorial: http://bit.ly/cMoX0e

  • mariana sanchez 30/08/2010 at 14:54

    Bizarra a escolha de Grafitti, quando o Cortázar nos presenteou com obras-primas como Casa Tomada, Continuidade dos Parques, O Perseguidor, etc. Para ficar nos latino-americanos, incluiria ainda o peruano Julio Ramón Ribeyro e o uruguaio Horacio Quiroga, cuja pistola nunca falhava. Abraços!

  • Denis 05/09/2010 at 12:36

    A única coisa bacana das listas são os nomes que desconhecemos nelas. Critério pouco importa, pois nunca darão conta. Depois, a única coisa que importa nos comentadores de listas são os nomes que eles dizem ter faltado. Eu adoro colecionar novos nomes, venham de onde vierem, não importa, pois minhas listas não possuem critério algum, a não ser esse :)

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