‘Temperamento imperatriz’: a revolução da spam-literatura

10/05/2013

Recebi ontem, de um endereço comercial no Japão, este spam assombroso:

Grandes meios, elementar ?? ??? bolsa desimpedido, sem muita modificação, feminilidade esplêndida flor, uma força aliada, é manifestar a propensão pessoal ??? ?? e bondade, ela pode imediatamente invertido o seu ???? ??? imagem. Modelagem atmosférica, queda de galante, este pep-se, não há pintura unblended, o simples primordial refere ainda, notar ser adepto de extraordinariamente todas as vezes para manter ? ???? volta ótimo! Porque você não discernir a próxima segunda-lhe propósito colisão em encontro com quem! Temperamento imperatriz, linda interpretação quixotesca do discreto auto-indulgência ???? ????? posição pessoa, elegância de design polido, para fazer uma fuga através das necessidades avançadas de em voga ?? ??? as mulheres.

Todo mundo que tem uma vida online – ou seja, todo mundo – já terá esbarrado com casos semelhantes de algaravia produzida por tradutores automáticos sem noção (com perdão da redundância). No entanto, como tendemos, e não sem razão, a tratá-los como lixo, desconfio que não seja tão comum a epifania que experimentei quando, no início da manhã e ainda não completamente desperto, liguei o computador e fui atropelado.

Será delírio meu, ou achados verbais como “queda de galante”, “interpretação quixotesca do discreto” e o sublime “temperamento imperatriz” são rasgos poéticos selvagemente sintéticos, comentários de lucidez rara sobre a mercantilização da feminilidade (“feminilidade esplêndida flor”, na formulação irônica do poeta incorpóreo) na sociedade pós-industrial? Não creio ser por acaso que o texto termine com um substantivo e enigmático “as mulheres”.

Reconheça-se que a “elegância de design polido” não é o forte da obra, nem poderia ser, dadas as condições de sua produção. Pelo contrário: suas arestas incomodam, machucam. É nos sobressaltos de sua sintaxe transgressiva, convulsa e consciente (“propósito colisão”) e no enigma dos ideogramas que para o público-alvo permanecem indecifráveis que o texto encontra sua revolucionária “modelagem atmosférica”. O efeito estético buscado – e corajosamente explicitado perto do fim – é o de uma “fazer uma fuga através das necessidades avançadas”. O que mais restaria ao homem contemporâneo, perdido e paradoxalmente solitário em sua rede universal e infinita de conexões solipsistas?

Que tão acachapante obra-prima tenha sido engendrada ao acaso pelo desejo de vender bolsas de couro sintético fabricadas do outro lado do mundo é apenas mais um dos mistérios que a cercam. Talvez os ideogramas expliquem.

2 Comments

  • Douglas 10/05/2013 at 15:47

    ?? é carteira(lê-se saifu);????, mochila( lê-se ryuku, “r” com mesmo som que na palavra caricatura);???, masculino( menzu, do inglês e só utilizado em linguagem comercial para alguns produtos);??????, feminino( reidizu, idem anterior e com mesmo “r” já citado). O outro que aparece é chamado de mojibake, quando por problema ou incompatibilidade nos códigos gera uma letra errada, ou no caso chinesa.
    Sinto não trazer grandes respostas, talvez os ideogramas não expliquem muito.
    Ainda assim, a descoberta de uma conotação literária foi um tanto surpreendente . rsrs
    Obrigado, Douglas. Talvez a tradução dos ideogramas não acrescente nada ao lado literário, mas é sempre bom saber. Um abraço.

  • Homero Fonseca 10/05/2013 at 17:12

    Caro Sérgio
    Muita coisa considerada “boa literatura” publicada e elogiada por aí é mais hermética e não tem os “rasgos poéticos” que vc argutamente apontou, rssssss.

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