Temporada de polêmicas

19/05/2008

Anda quente a temporada de quebra-paus literários.

Primeiro foi a mãe de Michel Houellebecq, a senhora Lucie Ceccaldi, que decidiu se vingar do retrato ultrajante que o filho traça dela – sem sequer alterar seu nome – na hippie hedonista de “Partículas elementares”. Em sua recém-publicada autobiografia, “L’Innocente”, a encantadora velhinha de 83 anos promete, segundo o blog da revista “New Yorker”, ir às vias de fato: “Se ele puser meu nome outra vez em uma das suas coisas, vai levar uma bengalada na cara que lhe quebrará os dentes, isso eu garanto!”.

Mais educados, Salman Rushdie e a crítica Ruth Morse têm trocado insultos polidos ou nem tanto (em que categoria se encaixa “ataque feminista primitivo”?) na seção de cartas – aqui e aqui – do “Times Literary Supplement”. Tudo começou com a resenha negativa que ela publicou sobre o último livro de Rushdie, “The enchantress of Florence”.

Para não deixar o Brasil fora dessa, Marcelo Mirisola publica hoje um artigo desancando o psicanalista Contardo Calligaris, que na semana passada, em sua coluna na “Folha de S.Paulo”, fez aquilo que o intelectual Carlos Maçaranduba chamaria de “duvidar da masculinidade” de Ernest Hemingway. “Almanaque de psicanálise para analfabetos iniciantes”, sentencia Mirisola.

Polêmicas vãs, argumentará o leitor cansado dessas manifestações de som e fúria, quase sempre encenadas diante de uma platéia bocejante. Difícil discordar. Só desconfio que seja uma idealização do passado imaginar que as polêmicas literárias foram mais elevadas um dia.

28 Comments

  • Tibor Moricz 19/05/2008 at 18:38

    Foram mais elevadas, um dia? Duvido…

  • Gabriela 19/05/2008 at 19:52

    Ah, as polêmicas foram mais elevadas, sim. Hoje, o sujeito que critica não se preocupa ao menos em escrever bem. Rebater o texto do Calligaris a partir de uma visão particular é um direito do Mirisola. Mas rebatê-lo usando mau português é feio, né? Há dois erros só na frase inicial (“O psicanalista, e agora romancista Contardo Calligaris, escreve todas às quintas-feiras no jornal Folha de S. Paulo.) Fora a pobreza de estilo (“Já o filho e o neto do escritor…”) Abraço, Gabriela

  • Jonas 19/05/2008 at 21:00

    Acho que não eram mais elevadas, e sim mais divertidas – penso no sopapo que García Márquez levou de Vargas Llosa. Acho que bem que o Houellebecq poderia levar uma bengalada da mãe.

  • Renato 19/05/2008 at 22:08

    Se todos tivessem uma mãe como a de Rimbaud talvez não escrevessem tanta inutilidades…

  • Iran Di Valença 19/05/2008 at 22:18

    Creio que a briga é provocada pela decadencia da imprensa escrita diante da mídia televisiva acionada pela comunicação audível e a Internet ao dispor de todos atraveza de blogs e sites. No Brasil e no mundo há desinteresse pela verdadeira imprensa. Jornais e revistas se alimentam de escandalos, prato preferido pela maioria de leitores.
    Mesmo com brigas e provocação de escandalos, polemicas, etc. nada fará a imprensa se levantar.
    É o progresso da frivolidade.

  • RodgerFilho 19/05/2008 at 22:34

    Saudades do velho Bukowski… hoje o que temos? Brigas teatrais… e o resultado disso? virá no número de vendas… mas como o velho safado dizia lá nos Estados que nunca foram Unidos, faz do problema dilema; “o único direito que temos hoje é o de compra e venda”. Infelizmente o termo se aplica de maneira global.

    Trecho entre aspas acima: “O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio”, de Charles Bukowski.

  • Hefestus 19/05/2008 at 22:44

    Creio que não foram não… Parece-me que todas essas polêmicas literárias exacerbdas são demonstrações de testorena e flexão de músculos de quem na escola era fracote demais ou desajeitado demais para sair no braço…

  • Fernando Torres 19/05/2008 at 22:44

    Sérgio,

    a discussão entre o Mirisola e o Caligaris, não tem nada de literária. A Polêmica fica retrita à vida privada de um jogador de futebol, um escritor e do próprio psicanalista.

  • Cássio 19/05/2008 at 22:56

    Platéia bocejante. Não acabei de ler nenhum dos dois, e olha que eu sou daqueles que até rótulo de Maizena.

  • Manoel Messias Pereira 19/05/2008 at 23:04

    A nossa atual sociedade está em transição, e na questão sexual surgiram varios generos, esta dificil hoje definir quem é homem, quem é mulher, quem é branco quem é negro ou coisa assim as coisasa são estaão bem complicadas, tudo é transição e é preciso respeito, os escritores precisam viver esses novos tempo.

  • beto 20/05/2008 at 06:03

    adoro o comentário acima!

  • Saint-Clair Stockler 20/05/2008 at 08:45

    Adorei o texto do Mirisola! Ele é muito bom! Acho extremamente coerente tudo o que ele falou (com ou sem errinhos de português).

    Esse Contardo Calligaris é mais um espertalhão que se aproveitou do fato de ter se tornado um darlingzinho da inteligência burra nacional pra faturar unzinho escrevendo artigos opiniáticos sobre tudo & todos no jornal e, agora, dando um passo além, publicando um livro (todo membro da elite quer publciar um livro; dá um lustro, sabecomé? Se for pelo Clubinho Cia. das Letras, melhor). Acho que vou abrir o meu consultório psicanalítico.

    Parabéns, Mirisola! Vale a pena citar: “Literatura NÃO é sintoma” Dr. Calligaris! Volte para o seu gabinete e tranque-se lá. A literatura agradece.

  • Rosa Cálida 20/05/2008 at 12:10

    Gostei do cara do rótulo de maisena. Sou desse tipo, e também não perco tempo com “polêmicas Maçarandubescas” infelizmente muito presentes nos dias de hoje. O blogueiro se atém ao novo acontecimento literário. Mas o interesse das pessoas e da mídia no caso Ronaldinho não tem a mesma raiz??? (Sem trocadilho, por favor…)

  • shirlei horta 20/05/2008 at 12:17

    Meu comentário sumiu…

    Mas vou resumir: sobram editoras onde falta autocrítica.

  • Rafael 20/05/2008 at 12:26

    ZZZZ…..

  • Cris 20/05/2008 at 12:40

    Sérgio, como vc está bonito nessas fotos (capa e perfil)!! Os anos estão lhe fazendo muito bem!

    Bom, agora vou ver os links do post!

    beijocas!

    Cris

  • Sérgio Rodrigues 20/05/2008 at 13:35

    Cris, querida, não na frente das visitas…
    Bom ver que você continua na área.
    Beijo e não suma.

  • LILI 20/05/2008 at 14:48

    VC É UM BOM ESCRITO………

  • vania 20/05/2008 at 15:21

    oi sergio,
    voce tambem é músico com o markus f.?
    bons comentarios
    bjs

  • Noga Lubicz Sklar 20/05/2008 at 15:51

    teve quem criticasse, mas o engraçado é que enquanto eu lia, a primeira coisa que me veio à cabeça foi: como escreve bem esse Mirisola… polêmico ou não, ele é que deveria estar na Folha, e em página nobre. e por falar em inteligência brasileira… melhor deixar pra lá.

  • Tamara 20/05/2008 at 16:22

    Chatíssimo esse texto do Mirisola. Não tive paciência de terminar a leitura, mas, a julgar pelo que li, não há nada de propriamente literário nessa discussão.

  • gustavo oliveira 20/05/2008 at 16:50

    não acho que foi a coluna mais brilhante do contardo, bem pior no entando foi o texto do Mirisola

    projeção introspectiva à parte…so nao consigo perceber exatamente onde esta a polêmica “literária”

  • Sérgio Rodrigues 20/05/2008 at 17:20

    Tamara e Gustavo: qualidade da discussão à parte, acho bastante razoável chamar de literária uma polêmica em que se defrontam um psicanalista-ficcionista e um ficcionista em tempo integral, a respeito do que pode haver de psicanaliticamente bandeiroso (literatura é sintoma?) no texto de um dos escritores mais famosos do século 20. Me parece mil vezes mais literário do que o arranca-rabo na família Houellebecq, por exemplo.

  • ricardo 20/05/2008 at 17:23

    é divertido ou patético quando literatos calçam luvas de boxes?

  • Rodolfo 20/05/2008 at 17:31

    Fico com o Mirisola (e o cara escreve bem, sim). Também não entendo essa mania que alguns biógrafos de escritores têm de insinuar homossexualidades. Nada contra a homossexualidade, não me entendam mal. Só que uma coisa é saber que Rimbaud era gay, baseando-se em namoros e manifestações públicas. Outra é cogitar que Thomas Mann ou Dostoievski gostavam de homens porque mantinham boa relação com ou admiravam outros homens. Pode até ser que eles fossem, mas isso é forçar a barra, como é forçar a barra decretar que Hemingway era gay por ser macho demais. E a polêmica é literária, sim. Como diria uma professora, aliás, é “fofoca literária”, e faz parte do jogo.

  • Luís Nascimento 20/05/2008 at 18:14

    Polêmicas são boas quando envolvem gente interessante. A resposta do amigo do Khomeini, por exemplo, com aquela polidez raivosa, foi divertida, e como a digníssima crítica passou recibo de equívocos em seu texto, como o tal construtor do Taj Mahal, acho que ele ganhou a parada. Mas uma polêmica entre Mirisola e esse Calligaris, realmente, dá sono. E não, não tenho a menor saudade do ‘velho Bukowski’.

  • Cris 28/05/2008 at 18:11

    Acho que o Mirisola tá é com dor de cotovelo porque, segundo o Alexandre Inagaki, o Contardo é o novo Chico Buarque (no sentido de fazer sucesso unânime com a mulherada) :-)

  • Cris 28/05/2008 at 18:14

    PS: o que posso fazer se agora só encontro vc na frente das visitas? :-)

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