Terremoto

11/04/2009

O terremoto veio da Itália. E não apenas no sentido imediato de ter abalado o noticiário da semana, mas no etimológico também. A palavra italiana terremoto, cunhada no século 13, é considerada pela maioria dos estudiosos a matriz do vocábulo português, que fez sua aparição por aqui já no século seguinte, e também do espanhol, todos com grafia idêntica. O inglês earthquake e o alemão Erdbeben são traduções literais de terremoto. O francês prefere uma solução menos sucinta, a locução tremblement de terre.

Se o sentido da palavra fica evidente ao se examinar cada um de seus termos – terra + tremor, movimento –, o fato de ter raiz latina não é menos claro. Segundo o Houaiss, o termo terraemotus já aparece registrado antes de Cristo em Cícero, o grande orador e mestre da prosa latina, que após a morte de Júlio César foi apanhado num terremoto político (agora em sentido figurado, claro) e condenado à morte por Marco Antônio em 43 a.C.

Sismo, um sinônimo perfeito de terremoto, tem raiz também antiga no vocábulo grego seismós, mas sua introdução em nossa língua foi, por assim dizer, fabricada numa época bem mais recente: chegou por aqui na grande onda dos cultismos científicos de fins do século 19, inicialmente embutido em palavras como sismógrafo e sísmico e só num segundo momento como substantivo independente. A propósito, a escala Richter, medidor universal da intensidade dos abalos sísmicos, só foi adotada em 1935.

A popularidade da palavra terremoto fez com que ela desse origem, por analogia, ao nome de outra catástrofe natural com a qual está relacionada: maremoto. Ao contrário do que muitos acreditam, maremoto, termo registrado pela primeira vez em 1600 em nosso idioma, não designa o terremoto ocorrido no fundo do mar, mas a extraordinária agitação das águas que ele provoca.

Publicado na “Revista da Semana”.

7 Comments

  • Alberto Martinet 11/04/2009 at 06:42

    Olá Sergio,

    Só para ilustrar: a variante lusitana da língua portuguesa privilegia a forma ‘terramoto’. Por aquelas plagas, o uso de nosso ‘terremoto’ é marginal.

    Outra curiosidade: em catalão, dizem ‘terratrèmol”, perfeito decalque dos terremotos alheios.

    Cordialmente

  • kylderi 11/04/2009 at 09:19

    Na palavra marola de sua coluna, maremoto foi explicado como o abalo sísmico e suas ondas assustadoras, contudo no texto de hoje, a acepção de maremoto excluiu o abalo submarinho e referiu-se às ondas. Como fica essa filigrana?

  • Diego Viana 11/04/2009 at 18:39

    Esses franceses são incorrigíveis. Quando podem ser sucintos, dão um jeito de evitar o perigo. Outro dia, fui numa peça em que apareceu escrito “Mensch oder Schwein”, ou seja, Homem ou porco. Aí foi a atriz francesa traduzir: “Por um lado, podemos ser homens. Por outro, é bem possível que sejamos porcos.” Não tem jeito..

  • Marcel 11/04/2009 at 22:02

    Não sei não, mas acho que você se engana sobre a escala Richter. Me parece que ela não é mais aceita oficialmente como medida universal. Abraço,
    Marcel

  • Sérgio Rodrigues 11/04/2009 at 22:36

    Kylderi, engano seu. Releia a coluna sobre a marola e verá que a definição é a mesma.

  • Sérgio Rodrigues 11/04/2009 at 22:49

    Marcel, há de fato escalas mais modernas, como a de Mercalli, mas seu alcance é limitado ao círculo científico. A Richter, além de ter sido a primeira medida universal de sismos, permanece largamente utilizada em geral e, na linguagem comum, ainda parece bem longe de ser destronada. Outro abraço.

  • Pedro 13/04/2009 at 00:10

    Ja pensou se alguns vermes de hoje, assim como Julio Cesar, fossem apanhados em um terremoto politico, principalmente aquele que na decada de oitenta sentava a ripa no Jader Barbalho e com razao e agora dá aulas a todos os politicos letrados desse pais (aulas de como roubar é claro), transformando o filho dono de uma das maiores fortunas do brasil.

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