Textos com franjinha

26/09/2015

marlon-brando-em-julio-cesar

Num dos curtos ensaios de crítica cultural que escreveu entre 1954 e 1956, reunidos no livro “Mitologias” (Difel), o semiólogo francês Roland Barthes se detém com especial crueldade nas franjinhas exibidas por todos os personagens masculinos do filme “Júlio César”, de Joseph L. Mankiewicz, adaptação hollywoodiana da peça de William Shakespeare, com Marlon Brando (foto) no papel de Marco Antônio e James Mason no de Brutus.

Declarando o cabeleireiro o “principal artesão do filme”, Barthes registra a variedade das franjas exibidas pelos atores, dizendo que “umas são frisadas, outras filiformes, outras em forma de topete, outras ainda oleosas, todas bem penteadas; os calvos não foram admitidos, embora abundem na história romana”. No entanto, encontra para todas elas um propósito único, que chama de “ostentação da romanidade”:

A madeixa na testa torna tudo bem claro; ninguém pode duvidar de que está na Roma antiga. E esta certeza é constante: os atores falam, agem, torturam-se, debatem questões “universais”, sem que, graças à bandeirinha suspensa na testa, percam seja o que for da sua verossimilhança histórica.

Mas o que Barthes tem contra franjas romanas, afinal, se nenhuma representação artística pode prescindir de artifícios desse tipo ao propor seu jogo de faz-de-conta? A resposta é: o excesso. Um excesso que, acredita ele, é particularmente evidente para o público francês, que em sua opinião estranha os rostos americanos e “considera cômica esta mistura da morfologia do gângster-xerife com a pequena franja romana: trata-se, na verdade, de uma excelente gag digna de um music hall”.

Como se vê, é a mão pesada do diretor, do cabeleireiro ou do maquiador, combinada à inadequação dos traços fisionômicos “americanos” dos atores, que estraga para o crítico o efeito de verossimilhança que os arranjos capilares aspirantes à “romanidade” deveriam provocar, levando-os a resvalar na comédia. O problema não está na franja em si, e sabemos disso com certeza porque Brando, “a única testa realmente latina do filme”, escapa da implicância do crítico, pois “impressiona-nos sem nos fazer rir”.

Tenho me lembrado dessa maldade de Barthes com alguma frequência nos últimos tempos, ao ler textos literários que, digamos assim, carregam na testa o que se poderia chamar de “ostentação da literariedade”. Como as franjas do filme, que podiam ser frisadas, filiformes, em forma de topete etc., tais sinais também são bastante variados. Às vezes têm a concretude textual de uma insistência um pouco excessiva no mais-que-perfeito ou uma mania de empregar adjetivos em acepções que eles só podem assumir com boa dose de licença – ou violência – poética. Em outras, é mais um clima, um ritmo, uma quedinha pela ordem inversa, uma propensão ao sentimentalismo, à epifania ou ao experimentalismo pré-moldado.

Não há como evitar a vagueza nesse ponto, infelizmente. É impossível fazer uma lista objetiva dessas franjas literárias porque, como prova o papel desempenhado por Marlon Brando na crítica de Roland Barthes, o mesmo artifício que parece conspícuo, falso e involuntariamente cômico num texto pode cair bem em outro. De artifícios, afinal, ninguém se livra. Mesmo assim, acho que convém manter um certo estado de alerta. Num momento em que a literatura vem sendo posta em questão pela crítica (“o que é ela, afinal?”), a tentação de enchê-la de franjinhas ridículas (“ela é isso aqui, ó!”) tem tudo para crescer.

One Comment

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial