Tezza, a universidade, o apocalipse e o conto do Laub

03/08/2012

Nos anos 1970, a pauta literária nacional se refugiou na universidade. (…) Se criou ali de certa forma o ‘pior’ de dois mundos. Surgiu a figura do professor-escritor. Eu fui um.

O discurso da universidade tem a pressuposição de verdade. A universidade é um lugar de organização do pensamento. A perspectiva de quem cria na literatura é substancialmente diferente. A verdade não interessa para a criação literária.

A ligação com a universidade brasileira criou essa relação esquizofrênica entre o discurso da ciência e o da arte, como se fosse uma coisa só. Isso teve um efeito devastador sobre a prosa brasileira. A prosa romanesca se apagou ao longo dos anos 1970 e 1980.

Achei boa e – mais uma vez – corajosa a entrevista do escritor e ex-professor universitário Cristovão Tezza à “Folha de S.Paulo” de ontem. Houve quem visse ali preconceito contra a universidade, mas fará algum sentido falar em preconceito quando quem emite tais juízos teve uma intensa vivência de mais de duas décadas no meio acadêmico?

O autor de “O filho eterno” pode se enganar no diagnóstico, naturalmente, e um certo exagero argumentativo me parece inegável em suas afirmações, mas seus conceitos nada têm de predeterminados. E são um bem-vindo contraponto ao barulho feito nos últimos tempos por críticos acadêmicos que apregoam – com evidente volúpia e não sem espírito marqueteiro – o fim da literatura em geral e da literatura brasileira em particular. Para gáudio de boa parte da imprensa cultural, aliás, pois esta é uma história de vícios compartilhados.

(A propósito: a leitura do conto de Michel Laub que abre a famigerada “Granta” dos jovens autores brasileiros, chamado Animais, basta para dar uma ideia da vertiginosa dimensão do equívoco cometido pelos apocalípticos.)

É curioso que a velha gramática prescritiva esteja em baixa enquanto, nos mesmos departamentos de Letras, uma aberração como a crítica prescritiva – “assim não pode, aquele autor nunca será bom, é preciso fazer assado” – goza de crédito. Eis por que “a verdade não interessa para a criação literária” é uma grande frase. A literatura instaura sua própria verdade, a crítica que se vire depois para dar conta dela. Ou não se vire, e torne-se irrelevante.

De resto, parece-me claro que essa conversa nada tem a ver com a baixeza do corporativismo ou da reserva de mercado profissional. Qualquer professor universitário – ou jornalista, médico, engenheiro, tatuador, stripper, gari etc. – que se dedique também à literatura sabe que esta é uma atividade fundamentalmente distinta daquela com a qual ganha a vida. Os que confundem as bolas não vão a lugar nenhum. Os que não as confundem, em sua maior parte, também não, mas quem disse que a brincadeira seria fácil?

8 Comments

  • Elis 05/08/2012 at 03:50

    Olá Sérgio, como vai?

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    Valew demais,
    Abs
    Lis

  • marcel 05/08/2012 at 11:24

    Caro Sérgio, esclareça uma coisinha pra mim. Algumas palavras em seu post me aparecem sublinhadas e com propagandas. Eu peguei algum vírus ou esses anúncios estão ai mesmo? Desculpe o incômodo e obrigado!

    • sergiorodrigues 05/08/2012 at 14:54

      Caro Marcel, nunca houve propaganda nem palavras sublinhadas por interesse comercial em nenhum de meus posts (no caso deste, há o negrito do link para a entrevista da Folha, de interesse jornalístico). Não sei a que você se refere, mas acredito que seja um problema da sua máquina. Um abraço.

  • Alfredo 06/08/2012 at 10:38

    Em “O espírito da prosa” o Tezza se mostra um pouco ressentido com a academia; ele se coloca como um estranho dentro dela, um “camponês xucro” com “uma juventude e anos de formação radicalmente não acadêmicos”. Ele repete diversas vezes frases assim. Acho que ele nunca se sentiu à vontade ali. Sobre a crítica prescritiva: o próprio “O espírito da prosa” prescreve a escola realista, não é mesmo? Toda essa generalização me parece muito infrutífera.

  • João Paulo 06/08/2012 at 13:47

    Sérgio,

    mais sobre a Granta, por favor. Que tal?

    Abraço.

  • roberto 06/08/2012 at 19:42

    Mais sobre a Granta… Ótima ideia. Estou no meio da leitura, no momento. Espantado, até agora, com a absoluta falta de sal da maior parte dos contos. Felipe Charbel escreveu uma boa resena no Globo… Seria bom ler mais por aqui tb

  • Arthur Tertuliano 06/08/2012 at 23:19

    Gostei bastante do conto de Laub. Disseram-me que é um trecho de romance, mas ainda teimo em não acreditar.

    “É curioso que a velha gramática prescritiva esteja em baixa enquanto, nos mesmos departamentos de Letras, uma aberração como a crítica prescritiva – ‘assim não pode, aquele autor nunca será bom, é preciso fazer assado’ – goze de crédito.” Spot on.

  • saraiva 08/08/2012 at 08:53

    Sérgio, você está sendo maledicente? (sorry, é que li primeiro o post posterior, então não resisti em ser maledicente… também ;o)

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