Toni Morrison: e a Virginia Woolf, hein?

11/08/2006

A palestra de Toni Morrison, que terminou há pouco, revelou uma mulher sedutora, brilhante e engraçada que, de forma evidente, poderia ter sido mais bem aproveitada pelo público se sua obra fosse mais conhecida no Brasil. Para compensar o pequeno número de perguntas enviadas pelo público, a mediadora Maya Jaggi, inglesa, conduziu boa parte da conversa com uma seriedade acadêmica que contrastou à beça com o calor de sulista americana da conferencista. Abaixo, uma seleção de frases de Toni, Nobel de Literatura e autora de Beloved, recentemente eleito o melhor livro americano dos últimos 25 anos pelo “New York Times”. Imaginando uma entonação musical e às vezes lânguida – como é a própria prosa da autora, aliás -, a leitura fica mais fiel:

Eu entendo o elogio implícito em dizerem que estou acima de questões de gênero e raça. O problema é que nunca ocorreu a ninguém dizer isso de Virginia Woolf, por exemplo. Prefiro me identificar como uma escritora mulher e negra mesmo.

A ficção pode falar de coisas que a história não pode nem deve (sobre a importância de reelaborar o passado em seus livros). Eu vivo num país que adora não se lembrar do que aconteceu 30 dias atrás, ou 30 anos. Lembrar é fundamental, para pessoas e para nações, mas ficar preso ao passado também pode ser paralisante. Você tem que manipular o passado para torná-lo útil.

No começo (falando sobre a integração de brancos e negros nos EUA), eu era criança e ficava confusa com a idéia de escolas integradas. Não entendia o propósito de me sentar ao lado de uma menina branca. Depois acabei entendendo que o que eles queriam era redistribuir dinheiro. As escolas negras eram piores, decadentes, abandonadas.

Não me sentia americana na maior parte da minha juventude porque eu não tinha direitos de cidadã. Mais tarde, quando viajei para outros países, é que percebi como eu era americana, e muito. E é por me sentir americana que a frustração, a raiva e, preciso dizer, a vergonha é tão absoluta com o comportamento recente da liderança do meu país no mundo.

Li muitos escritores (sobre quem a influenciou), mas é difícil falar em influência porque eu queria tanto ter essa voz específica, uma voz que ninguém mais tivesse e que fizesse qualquer um identificar um texto meu assim que começasse a lê-lo. Vaidade, com certeza. Mas é o que eu sempre quis.

7 Comments

  • João Paulo 12/08/2006 at 08:11

    Êste ano a FLIP ficou carente de bons nomes de verdade. E não me venham com empulhação dizendo o contrário. Ficou. Espero que não seja sinal de que a feira esteja murchando, já que é uma iniciativa das mais louváveis. Mas tb acho que os escritores, de renome ou não, gostam todos de um bom trago e francamente, cachaça ninguém merece. Então sugiro em caso de esvaziamento da feira, a sua mudança junto com Parati para as falésias da Escócia.

  • Paulo Lima 12/08/2006 at 08:24

    Sérgio, palpitante sua cobertura da Flip. Para quem queria estar aí, e não teve chance, como eu, está de ótimo tom. Mas cadê a foto da Toni Morrisson? Abraço.

  • Delsio 12/08/2006 at 13:48

    Parece ser mesmo muito simpática a Toni Morrison. E esta capacidade ,ou élan, não dá o direito de ela falar besteira pra cacete!!

    Abs.

  • Clara 12/08/2006 at 17:22

    Só tem fotos de escritores homens nesse blog?

  • Saint-Clair Stockler 12/08/2006 at 19:37

    Se eu estivesse lá, com certeza ela teria de responder um maior número de perguntas…

  • Palerma 17/08/2006 at 00:26

    Uau!!! Quer dizer que ainda tem gente que leva Toni Morrison a sério? Mundo estranho….

  • amanda nabas 26/08/2006 at 19:08

    palerma mesmo… quem não leva toni morrison a sério ou devia estar no hospício ou a sete palmos abaixo do solo….

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