Três histórias de amor e literatura

22/11/2014

mulherlendo2POR GLORINHA

Maria da Glória Fagundes, conhecida como Glorinha, nascida no Irajá, não era muito inteligente mas era linda, linda. A coisa mais linda do mundo. O escritor, que até aqui não sabia ser escritor, se apaixonou por sua boca e seus cílios e seus tornozelos. Tinha quinze anos e desabrochou poeta romântico.

O jovem escritor recitava ribombantes versos de amor e morte para Glorinha, coisas de estremecer estátuas, mas ela achava pouco.

Então foi estudar. Em poucos anos tinha um título de bacharel em Direito e um romance realista urbano cheio de arestas e reentrâncias que alguns críticos enalteceram, falando em pós-noir. Glorinha Fagundes não se impressionou. Pós-noir é fácil, quero ver poesia provençal, disse uma tarde, distraída, comendo uvas.

Custou ao escritor nove anos de trabalho duro tornar-se a maior autoridade brasileira nos arcanos trovadorescos, com estudos publicados na Europa e nos EUA. Mas a essa altura a Srta Fagundes já tinha virado a Sra Wilson, mulher do famoso professor de semiótica, e estava em outra, vidrada nos irmãos Campos. Foi assim que o escritor se viu contando letras concretas para em alguns anos construir uma obra que se convencionou chamar pós-concreta e que, sendo absolutamente ilegível, fez grande sucesso com críticos universitários.

Assim, de fase em fase, o escritor foi se fazendo notar. Ao sabor dos caprichos de Glorinha, escreveu comédias teatrais de sucesso, adaptou clássicos da literatura de cordel para séries de TV, arquitetou ensaios profundos sobre política e estética, depois largou tudo e se dedicou a ser um místico, um mago, e vender milhões. Ficou muito rico.

E a outra lá, a essa altura separada e galinhando à beça, sempre achando pouco.

Nas décadas seguintes, Glorinha comandou do escritor poemas épicos e fesceninos, romances satíricos e formalistas, contos longos e contos curtos, novelas, noveletas, panegíricos, sermões, limericks, bruscas vinhetas com estética de pichador de rua, uma epopeia pós-modernista de novecentas páginas escrita de trás pra frente, tendo por tema central a cárie que duelava com o escritor por seu canino direito, e um compêndio de frases de filósofos clássicos segundo a neurolinguística corporativa – este, Se Platão trabalhasse para você, tornou-se seu livro mais vendido, superando os do mago. Agora o escritor está arquimilionário.

E Glorinha, evidentemente, nem aí. Não é com ela. Diz, por exemplo: Drama sueco, a perfeita tradução em prosa de um certo clima bergmaniano, isso sim é que é o bicho! Como não pensei nisso antes?

O escritor respira fundo, que remédio, e põe mãos à obra.

*

AQUELA TARDE EM LISBOA

Não era incomum que Esperidião Bastos, o poeta baiano, contasse sua vida a uma puta. Gostava disso, e como elas costumavam retribuir de bom grado com suas histórias lacrimosas, ocorria frequentemente um desabafo geral, caloroso e desprovido de riscos, que lhe dava algum conforto. Aquela tarde em Lisboa, no quarto de hotel ao lado de uma rameira bonita e não muito velha, morena magra com cara de moura, tudo parecia seguir como sempre. Depois de se aliviar, Esperidião recuperou o fôlego e, com a carcaça de meia-idade estirada na cama, barriga volumosa virada para o teto onde rangia um ventilador que já devia ter sido aposentado há anos, desatou a falar de Yolanda, das formas bafejadas pelos deuses de Yolanda, do fogo primordial que brincava nos cabelos rubros de Yolanda e do futuro comum que tinham planejado – futuro que ele mapeara em fina linguagem lírica na página de poesia d’O Berro dos Grotões, onde era sempre o convidado principal.

Foi quando apareceu o tal Medrado. Um forasteiro, cara do Sul – de origem incerta, portanto. Gerente comercial. Tinha um pente Flamengo no bolso e sabia assobiar inacreditavelmente alto com os dois indicadores nos cantos da boca. Viera trabalhar n’O Berro dos Grotões cercado de alguma fama angariada em revistinhas da metrópole. Foi o próprio Esperidião quem, desavisado, os apresentou num sarau: “Seu Medrado, minha Yolanda”. E a imediata faísca no olhar daqueles dois não lhe escapou, ou quase não lhe escapou, embora terminasse lhe escapando – por algum tempo, não quis acreditar. Como podia acreditar? Não quis, escolheu não.

Foi obrigado a acreditar quando Medrado estreou na página de poesia d’O Berro com “Meu ursinho panda”:

Ó Yolanda,
Você é meu ursinho panda.
Nosso casamento vai ser chique
Vai ter guirlanda
E empadinhas
E vamos gerar pandinhas!

Foi isso, sem dúvida, que o derrubou – o opróbio de ser preterido por um subliterato de quinta, de ver a joia de seus pentâmetros iâmbicos clássico-contemporâneos trocada por miçangas que um índio pré-colombiano recusaria. Sim, deve ter sido isso que tornou incurável sua maleita. Não era normal aquilo. Homem de recursos, artista consagrado num círculo certamente provinciano, mas nem por isso pouco influente, muitas mulheres já tinham entrado e saído de sua vida. Por que, então, não se curava de Yolanda?

Pandinhas gerou mesmo o impensável casal – um par de gêmeos nascido seis meses após as apressadas núpcias, o terceiro dois anos mais tarde. Enquanto isso, os amigos do poeta baiano cumulavam-no de receitas inúteis – religião, filatelia, política, outras mulheres, ioga, xadrez, pescaria – para a doença crônico-aguda que sequelara sua vida. Era um poeta incapaz de um único verso, um ex-poeta miserável a vagar de porre em porre, de bordel em bordel, buscando a sombra de Yolanda em tantas Madalenas de peitos tristes.

Estava ferrado, eis a verdade. Tinha dado àquela musa ruiva o que não se dá a ninguém: sua vida, a fonte mesma de sua energia vital. Sem Yolanda, nada jamais faria sentido. Esperidião Bastos contou então à puta de Lisboa ter levado anos para compreender isso. Viajou pela Europa, logo se entediou, esticou na Grécia, onde quem sabe conseguiria retomar na raiz o gosto por uma arte que já não lhe significava nada. Tudo em vão. Homero? Chato. Shakespeare? Engodo. Camões? Dava-lhe náuseas. Se a própria encarnação do Belo era capaz de, tendo escolha, se entregar inteira a um cantor tão primitivo e tão canhestro quanto Medrado, então todos os compêndios de estética eram excremento e a vida, uma piada sinistra.

– Vai daí que eis-me aqui – disse Esperidião, concluindo com um floreio seu relato. – Descrente da vida, despido de tudo, conversando com uma puta semianalfabeta de Lisboa.

Então a mulher, que até aquele momento estivera calada, falou:

– Se Camões te dá náusea, consulta um médico ou toma uma pílula. Eu por mim não me canso de navegar naquele oceano de linguagem, aquilo para mim tem uma qualidade amniótica.

E começou a vestir o sutiã. O poeta, de queixo caído, reparou que seus peitos não eram tristes, eram até bem alegrinhos.

– Mas esta é outra história. No teu caso – a mulher prosseguiu – o erro é supor que arte e vida possam ser refundidas de alguma forma, o poema equivalendo à sedução, a sedução encarada como arte e esta vista como razão de ser, raison d’être. Não é mais possível isto, naturalmente. Tal saber ficou perdido no Jardim do Éden ou na cultura clássica, como diria o Goethe. O pensamento moderno não tem acesso a este quintal.

Já de blusa e minissaia, calçou as compridas botas pretas de pistoleira e fechou cada uma delas com um movimento brusco do zíper dourado:

– Como tampouco tem acesso, o pensamento moderno, à grande tragédia, que ele deu um jeito de transformar em drama. É isto então, meu infeliz amigo: crês que protagonizas uma tragédia e só consegues, mal e mal, galvanizar a lâmpada circense de um dramazinho cômico.

– Espera aí – ocorreu a Esperidião protestar – dramazinho cômico também não!

– Burlesco – disse a puta – patético. Achas mesmo que só porque és melhor poeta vais ganhar a mulher? Sabes nada de mulher, não é verdade?

– Não foi o que pareceu meia hora atrás – ele replicou, simulando uma expressão entre a indignação e a mágoa, mas na verdade não sentindo nem uma coisa nem outra. Estava inteiramente submetido ao sortilégio da puta com PhD, pensando, será de Coimbra? Não teve tempo de lhe perguntar, ela já tinha catado a bolsa e se punha de pé.

– Queres saber? Para mim, o que fez a diferença foi o assobio.

– O quê?

– O assobio incrivelmente alto do Medrado – e deu um sorriso triste. – Estou a ir-me.

O poeta Esperidião Bastos não sabia o que dizer. Improvisou:

– Não vai querer receber em sonetos, suponho.

Cash – disse a mulher, calma.

– Seriam belos sonetos – ele encolheu os ombros, alcançando a carteira sobre o criado-mudo.

*

ESTUDO EM SOLFERINO

Se você acreditasse numa palavra do que está lendo, saberia que a escadaria era alta e larga, de mármore, e no centro dela descia lambida uma língua púrpura de veludo que vinha morrer aos pés de um cântaro de ouro velho, um tipo de cântaro de cintura alta que foi moda no Ancien Régime ou coisa assim, era o que estava escrito no verso do postal, mas cito de memória porque o postal se perdeu, Smirna o enfiou em sua famosa bolsa sem fundo e o levou, quando saiu da minha vida.

Agora, por um instante, você talvez considere a possibilidade de acreditar no que está lendo, mas que nada, logo fica esperto: Smirna é um nome tão inverossímil, só faltam lúgubres bares búlgaros, encontros em vielas de Saigon, ou fazer dela uma puta de luxo especializada naquele último grito da perversão – a tonushka dentata.

E no entanto, distante de todos esses lugares, atividades, a Smirna que eu conheci, que mergulhou em Fernando de Noronha, que fez concurso para a Receita Federal e não passou, essa Smirna levou para sempre o postal da escadaria de mármore lambida de um rútilo solferino que Smirna ou uma mulher muito parecida com ela descia lentamente, heráldica, com seu salto stiletto.

A caligrafia do postal corre na página diante de seus olhos incrédulos, e você se surpreende ao notar que as maiúsculas têm volutas de época e a tinta roxa da caneta cheira a bala de alcaçuz, embora você não faça a menor ideia de como cheiram balas de alcaçuz, enquanto Smirna, porque só pode ser Smirna, desce a escadaria hemorrágica em câmera lenta, ganhando tempo, punhal na mão.

E aí você entende e ao mesmo tempo perde por completo a capacidade de entender. Smirna é ela – é Ela. O brilho intuído da lâmina tira fino do seu gogó. Você acredita por fim.

*

Os contos acima foram publicados pela primeira vez na seção Sobrescritos deste blog, separadamente, entre setembro de 2010 e janeiro de 2011.

3 Comments

  • walter wollz 27/11/2014 at 21:25

    Ótimos…

  • walter wollz 27/11/2014 at 21:26

    Contos curtos e deliciosos…

  • C. Eliseu 28/11/2014 at 07:38

    “Aquela tarde em Lisboa” tem o mesmo corpo expressivo de “caía a tarde feito um viaduto”. Gostei do estilo, ou seja, sou capaz de procurar algum livro do autor.

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