Três histórias de antigamente

25/04/2015

Elizabethan LoversERA UMA VEZ

Eram os dois maiores poetas de seu tempo, um tempo remoto em que os homens morriam cedo, mas em compensação os rios eram cristalinos.

O poeta do reino do norte era rico e famoso. Casado com a mulher mais bela e cobiçada do mundo, que o acompanhava aonde fosse, era autor de odes e epicédios que o rei encomendava para comemorar as datas cívicas e que o povo ouvia em meio a arrepios festivos ou contrito silêncio, conforme o caso, na praça em frente ao palácio.

O poeta do reino do sul, ao contrário, vivia sozinho numa choupana no meio do mato, ignorado por seus conterrâneos e encarado com desprezo ou hostilidade pela corte.

O poeta do norte usava como argamassa de sua obra velhas crônicas de atos heroicos ou traiçoeiros, amores cortesãos mal disfarçados sob pseudônimos burlescos, intrigas filosóficas fermentadas nos grandes centros de saber do reino. Para que a mistura não resultasse pesada, temperava tudo com um humor descrente que denunciava o olhar de um verdadeiro cidadão do mundo.

O poeta do sul era um caipira que não se cansava de escrever sobre os mesmos temas bucólicos: o pôr do sol, o nascer do sol, os cabritos que subiam o morro, depois desciam o morro.

O encontro entre os dois foi promovido por admiradores de ambos, um grupo de professores nativos de um terceiro reino, o do centro, que não tinha um único poeta digno de nota mas se destacava pela hermenêutica da poesia alheia. Foi este reino o campo neutro em que os dois maiores poetas de seu tempo finalmente se encontraram, a convite dos entusiasmados professores, por ocasião de um festival de artes.

O conclave entrou para os anais da época. Literariamente, foi uma catástrofe. O poeta do norte falava demais, o poeta do sul não falava quase nada. Logo na chegada cumprimentaram-se friamente, e não demorou a ficar claro que um nunca tinha lido nem estava interessado em ler o outro. Um dos professores, pressentindo o desastre e em busca de um território comum para onde conduzir o colóquio, perguntou-lhes sobre influências. O poeta do norte citou Homero. O do sul, os caracóis de seu jardim.

O encontro só não passou em branco na história da literatura porque, num lance inverossímil, a bela mulher do poeta do norte se apaixonou pelo poeta do sul e fugiu com ele para seu barracão no meio do mato, loucamente determinada a gastar entre cabritos e caracóis seu patrimônio intangível, mas aromático e curvilíneo, de mulher mais cobiçada do mundo.

Nenhum dos dois poetas nunca mais escreveu um verso que prestasse.

*

A VERGONHA DO REI

O rei tinha vergonha de escrever versos. A atividade lhe parecia claramente indigna de um monarca: catar palavras que andavam aos pinotes por aí, debochadas, malucas, incursas em crime explícito de lesa-majestade, e convencê-las sabe-se lá a que preço a contar em jogral tosco, num palco de palito e papel, o que era indizível de saída. Ocupação nada real, evidentemente. Vício de duque ou visconde, vá lá: que mal podia haver num soneto que rimava rosa com vaporosa se se perdoavam fraquezas até maiores nos nobres, havendo os mais fracos entre eles que davam mesmo para devassos, ladrões, assassinos, por que não poetas? Rei era diferente. Civilizar o mundo, manter coesa a massa dos homens para mais bem erguê-los da barbárie, isso era trabalho de rei. Anexar terras, matar a mancheias, ofuscar o sol era trabalho de rei. Só que o rei, mesmo morrendo de vergonha, não parava de escrever versos.

O rei tinha vergonha de sentir vergonha de escrever versos. A vergonha, sentimento de escravo, não ficava bem num rei. Este nada deve temer, nada falsear de sua natureza, pois esta cria a própria lei que rege o reino. Não se envergonhe o rei de nada do que sente, pois o que sente é justo e bom, ainda que mau na cartilha corrupta de bispos e filósofos. Nada o coage: imagine-se, por absurdo, o monarca de uma ilha do Pacífico que pratique o canibalismo ritual, alimentando-se exclusivamente, em quatro refeições diárias, de súditos e súditas assados lentamente em espeto giratório no pátio do palácio. Pois nem este monstro terá nada de que se envergonhar se for legítima sua coroa, bordada fibra a fibra na história de sua gente a grandeza augusta de sua casa, suas armas, seu sangue. O rei acreditava mesmo nisso. Não sabia por que, então, se envergonhava de ser poeta. Envergonhava-se de se envergonhar, o que, naturalmente, não o fazia se envergonhar menos, mas em dobro. Escrevia escondido.

Embora o rei seja por definição o mais solitário dos homens, porque ímpar, não são muitos os momentos de solidão literal em sua vida. A borboletear à sua volta há sempre uma nuvem de camareiros, conselheiros, pajens, lacaios, adulões, louvaminheiros. Querem vesti-lo, distraí-lo, dar-lhe de comer, banhá-lo em óleos aromáticos, manipular-lhe os divinos bagos. A solidão para rabiscar versos tinha que ser conquistada às cotoveladas, idiossincrasias de soberano: o rei fazendo questão de caçar absolutamente só na floresta, ele e a mata, deixando nobres e guardas a centenas de passos de distância por três horas, quatro horas, enquanto escrevinhava entre grunhidos, rubores de euforia e puxadas agônicas de cabelo um épico sangrento ou uma balada clássica de amor. Aqui e ali, descia dos andaimes da obra para disparar um tiro a esmo. Depois fazia uma fogueira e voltava sempre de mãos vazias, caçar não estava entre os talentos reais.

Também escrevia em seus aposentos, mas eram sessões mais nervosas, intermitentes. Os pajens e a rainha não ofereciam risco: o rei tomava graves apontamentos administrativos, era o que talvez imaginassem, o pajem comum e a rainha extraordinária, analfabetos ambos, se ao menos tivessem imaginação. Na cama ou no banho o rei pegava então uma folha, arriscava um verso ou uma estrofe, mas tinha que estar alerta para a irrupção inopinada de um ministro, um conselheiro, um arquiduque qualquer que, pousando os olhos na lâmina de papel em que seus dedos se crispavam, decifrassem num instante a imensidão do seu opróbrio. Era o papel que o condenava, a materialidade porosa daquela pasta vegetal seca, com seu condão de existir para além do ato, futuro adentro, posteridade afora, multiplicando por milhões as oportunidades de flagrante. Eis por que, tanto em casa como na floresta, e ainda mal nascidos, as chamas consumiam todos os poemas do rei.

Naquela tarde, absorto sobre sua escrivaninha, o rei buscava a chave de ouro de um soneto quando ouviu a voz atrás de si: “Que bonito! Vossa majestade é um grande poeta!”. Voltou-se lívido, o sangue empedrado nas veias: reconheceu um fidalgote chamado Robledo, que vinha a ser contraparente da rainha por intermédio de um tio-avô empobrecido. Recém-chegado de uma temporada boêmia em Veneza, o que fazia o jovem em seus aposentos? Lembrou-se vagamente: por instâncias de sua caridosa mulher, o chefe de cerimonial do palácio tinha acabado de empregá-lo como camareiro, lambe-botas ou coisa parecida. Estendeu-lhe a folha de papel:

“Me ajuda com o fecho, Robledinho? Empaquei.”

O fidalgote pareceu radiante. Murmurou um quem-sou-eu, mas tomou do poema com a mão direita, enquanto a esquerda se punha imediatamente a contar sílabas. O rei se ergueu da cadeira e caminhou até o quarto ao lado, de onde voltou com a espingarda carregada. Dessa vez não havia como errar.

*

O CURIOSO CASO DO PADRE SIMÃO

A dar fé ao viajante inglês William Boyd Sennett, que em 1819 teria tido diante dos olhos as memórias posteriormente perdidas do então recém-falecido bispo Antônio Simão das Neves

(e não vejo por que não lhe dar mais fé do que à arenga anticlericalista e factualmente vaga que no fim daquele século publicaria em São Paulo o anarquista Vicenzo Cucco, outra fonte habitualmente consultada pelos estudiosos da história de Simão),

a dar fé a Sennet, como eu ia dizendo, no rigoroso inverno mineiro de 1777 o então jovem padre baiano viu-se com a alma “toda em farrapos”, numa crise de fé que teria como fulcro o amor (se platônico ou carnal, nunca se pôde comprovar) por dona Maricota, esposa de um comerciante de pedras preciosas de Vila Rica chamado Olegário,

o que bem poderia configurar incidente banal ou ao menos não muito destoante das provações sensuais enfrentadas por tantos homens de batina ao longo dos séculos, porém

(ai, porém),

naquele instante demoníaco o futuro bispo se pôs a febrilmente deitar palavras ao papel em surto logorreico de todo semelhante a um transe de possessão, ao qual não faltavam olhos revirados, gemidos de dor excruciante e uma espuminha a borbulhar nas comissuras da boca,

episódio aterrador e jamais explicado pela ciência que durou (o relato do ilustre estrangeiro é preciso neste ponto) três meses, dezessete dias e nove horas, com breves intervalos para sono e alimentação, resultando nos quatro livros hoje lendários que implicariam gravemente o padre Simão com o Santo Ofício,

livros sequenciais que levavam, segundo Sennett, os títulos enigmáticos de Romanticismo, Modernismo, Post-Modernismo e Óbito da literatura

e que, se terminaram por não custar ao seu autor a morte na fogueira, tendo Simão escapado no último minuto graças a poderosos e insuspeitados pistolões, não puderam evitar as chamas eles mesmos e logo eram cinzas dispersas pelos ventos de Minas,

a que os poetas chamam postilhões de Éolo,

tudo o que restou de tais obras sendo a reminiscência fantasmal de um bispo arrependido em suas memórias de idoso, estas por sua vez também desaparecidas e conservadas apenas na lembrança de um viajante inglês, motivo pelo qual não estamos certos de haver fundamento na tese hoje sustentada por um ou dois eruditos mais trêfegos de que, tivesse aquela tetralogia de Antônio Simão das Neves sobrevivido à Inquisição,

seria inteiramente outra a história da literatura brasileira e universal.

*

Os contos acima foram publicados pela primeira vez na seção Sobrescritos deste blog, separadamente, entre abril e dezembro de 2012.

2 Comments

  • Mauro Pinheiro 26/04/2015 at 06:51

    Você já deve ter lido isso, mas one never knows.

    Abraço

    Le football et la vie

    “Nous étions les rois de la métaphore, les sultans de l’allégorie, les empereurs de l’hyperbole, des souverains dans la construction et la destruction des mythes”, tonne le vieux. Alors que Neto, membre de la “catégorie minoritaire et opprimée, mais moins rare qu’on ne le pense”, des Brésiliens qui n’aiment pas le football, attend des explications de son don Juan de père, celui-ci pérore et entraîne son fils sur les terrains abhorrés du ballon rond. Non sans démontrer, avec virtuosité, les liens entre le football et la vie, entre les grandes heures de la Seleção et l’histoire politique et sociale du Brésil.
    Bref, le machiavélique Filho dribble, esquive, feinte, laissant encore une fois sur le banc de touche Neto, alias “Tiziu” (espèce de petit oiseau noir), surnom de ce fils inapte au sport à onze et incapable de malignité.
    Visite après visite, de parties de pêche en visionnages de matchs, l’intrigue se noue, les métaphores se déploient, sous la plume habile de Sergio Rodrigues, talentueux journaliste et écrivain de 52 ans. Du grand art que même les réfractaires au foot sauront apprécier.
    Dribble, par Sergio Rodrigues, trad. du portugais (Brésil) par Ana Isabel Sardinha et Antoine Volodine. Seuil, 304p., 21€.

    En savoir plus sur http://www.lexpress.fr/culture/livre/sergio-rodrigues-match-a-deux_1673878.html#ZQGZ6SR3EUpkUVec.99

  • Nahílson Ramalho 27/04/2015 at 16:33

    Não gostei dos dois pontas.
    Porém vi no do centro
    Tiro justo, certeiro.

    Tento uma explicação: não encontro heróis no primeiro e no último conto, mas fui cativado pelo poeta-rei. Pensei mesmo em estender sua história até o dia em que o dito cujo reunisse a corte para ouvir o poema-decreto que exigiria dos súditos a morte do autor.
    Esse defeito de querer nos enredos um personagem que me desperte o desejo de, em algum sentido, imitá-lo, voltou-me faz já alguns anos. É o retorno da criança extasiada com o “TARZAN CONTRA O MUNDO”, visto em cinema improvisado na Escola Açude Público Estreito, lá na pontinha de Minas, fronteira com a Bahia. Uma das consequências desse meu novo velho gosto é que perdi a paciência com Machado de Assis. Ano passado comecei a reler “Memória Póstumas de Brás Cubas”, por muito tempo o meu preferido entre todos os livros, mas empaquei no capítulo XXI, “O Almocreve”. Cansei de Brás Cubas e Bentinhos, indivíduos para mim muito satisfeitos com a vida sem graça que levam. Não creio em suas queixas, vejo nelas pura farsa. Vai daí que considero o fato de Machado de Assis ser ainda hoje o nosso escritor mais respeitado a maior das tragédias nacionais. Pior mesmo que o domínio pelo Lulopetismo dos departamentos vinculados às ciências humanas em nossas universidades públicas.

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