Três histórias de crítica e fogo

23/05/2015

fogo-300x225FLAME WAR

Diante de seu computador velhusco, Adolfo Pinho Rosa, o famoso crítico literário, bufava. Maxilar rangendo, testa vincada de rugas profundas, olhar de maluco, dedilhava sua última bomba atômica na épica batalha internética que vinha travando há mais ou menos duas horas contra Berilo di Carlo, o jovem escritor. Flame war era como chamavam em latim contemporâneo aquilo em que se entretinham madrugada adentro, além de Berilo e ele, diversos internautas de nome inventado, alguns tomando um partido ou outro, a maioria só se divertindo com variantes do incentivo à pancadaria que aglomerações humanas tendem a jubilosamente manifestar.

E Adolfo Pinho Rosa escreveu:

“Para encerrar esta novela e irmos todos dormir, eu quero dizer o seguinte: Berilo di Carlo não chega a ser um escritor. Gostaria muito, se esforça de forma até comovente para isso, mas não chega. Falta-lhe o talento para transformar seu escasso mas (vá lá) intenso conhecimento literário em literatura. Falta gás. Seus romances, tanto Lava fria quanto Os estranhos habitantes de Marte, são patéticos simulacros de romance. Os personagens não convencem como gente, a prosa claudica, sintaxe e vocabulário abusam das contorções exibicionistas e se estrepam, a escolha do detalhe descritivo oscila entre o clichê e a originalidade inepta, as imagens não colam, o diálogo dá vontade de cortar os pulsos – enfim, um acidente ferroviário pavoroso é o melhor símile para cada uma das duas narrativas longas de ‘ficção’ que Berilo teve a imprudência de publicar (os contos são um pouco melhores, porque duram menos). Claro que nada disso o impede de continuar tentando: não faltam desses escritores de mentirinha por aí, e sempre haverá leitores de ouvido de lata para gabar, em troca de um interesse ou outro, seus méritos fulgurantes. Boa sorte ao ‘escritor’ Berilo di Carlo. Só não me venha posar de sabichão aqui no blog, viu, escritor de mentirinha, porque eu sou um crítico de verdade que gosta de literatura de verdade e tem um nome respeitável e não tem tempo a perder com eunucos intelectuais da sua laia.”

Releu, trocou “eunucos intelectuais” por “anões intelectuais”, ampliando dramaticamente o alcance estatístico da minoria que ofendia, e publicou o comentário.

Decidido mesmo a dormir, desligou o computador e se meteu na cama. Meia hora depois estava religando o computador e lendo os três comentários postados após o seu: “menos, adolfinho, menos: o berilo não é tão ruim assim, embora seja péssimo”, “issssaaaaa agora só no brasso!!!”, “Quem esse pedante f.d.p. pensa que é, Antonio Candido?”. Apagou correndo o terceiro: palavrão não. Estranhou o relativo silêncio, nem sinal de Berilo, e passou as próximas horas olhando para as brasas moribundas da sua flame war, lendo os comentários sem relevância que chegavam e lambendo um a um todos os que tinha postado, em especial o último, que releu setenta vezes. O dia já clareava quando desistiu de esperar a reação de seu oponente, certamente adormecido àquela altura, e foi dormir.

Passava do meio-dia quando o telefone o acordou, um amigo lhe dizendo que Berilo di Carlo tinha se matado aquela madrugada. Como? Cabeça no forno, e deixou um bilhete. Um bilhete? Um bilhete, e sabe o que ele diz? “Adolfo Pinho Rosa tem razão. Dedico a ele, com solenidade, a minha morte. Possa este último golpe narrativo finalmente impressionar Adolfo Pinho Rosa: neste livro, pestilenta criatura, você carrega meu cadáver na consciência até morrer”. O quê! Você só pode estar brincando comigo. Não brincaria com uma coisa dessas. Fala sério, o que o Berilo diz no bilhete de suicida dele? Espera aí, e se tudo for uma brincadeira, hahaha? Vem cá, o Berilo se matou mesmo? Lamento muito, Adolfo. Publicaram o bilhete na internet, já está com mais de quinhentos comentários. Ah, meu Deus. Cuidado, meu amigo. Eu não recomendo ler o que o pessoal está escrevendo a seu respeito, sabe como é a internet.

Leu tudo, absorveu tudo: cada insulto desmoralizante, cada imperativo escabroso, cada viscoso palavrão. Cada ameaça de morte. O suicídio de Berilo di Carlo e a implicação do crítico Adolfo Pinho Rosa na tragédia eram o assunto preferido da blogosfera brasileira e começavam a ganhar projeção internacional. Antes de cair a noite, #berilolives tinha emplacado como trending topic mundial do Twitter e, no Orkut, a comunidade “Morte ao crítico Adolfo Pinho Rosa” angariava adeptos em velocidade inédita. Logo apareceu alguém para encontrar em seu texto uma sugestão claríssima de suicídio com a cabeça no forno: “Falta gás”, frase que Adolfo, claro, tinha empregado de forma tão inocente quanto lhe permitia seu ódio de então, querendo dizer que faltava fôlego, capacidade. Mas o diabo da frase elevou ainda mais a altura das chamas que o mundo alimentava na ágora digital, onde um crítico literário de ex-excelente reputação ardia agora em mudo estupor.

Adolfo Pinho Rosa passou uma semana no inferno antes que Berilo di Carlo viesse a público para revelar a fraude. Hoax era como chamavam em inglês. Estava de férias em Jericoacoara, onde escrevia seu terceiro romance, e ria: “Primeiro de abril! kkkkkk, vê lá se eu vou me matar por causa de um mané desses”. Só então Adolfo foi prestar atenção na data daquela guerra, primeiro de abril, ora veja. Sentiu-se esvaziar de tudo num jorro, feito um saco rasgado de feijão. Era um alívio, sem dúvida, mas acabou oco. Boçal. Uma certeza solar iluminava as gargalhadas nervosas que subiam da ágora: sua ex-excelente reputação estava perdida para sempre.

*

UMA TARDE NA VIDA DO CRÍTICO

Dagoberto Castro de Menezes fechou seu Ovídio magro ricamente encadernado e o pousou na banqueta Joaquim Tenreiro ao lado da bergère, de onde tomou da xícara fumegante de darjeeling e de um Agamben que lia com apetite cada vez mais magalizesco, para citar Maurício.

Leu concentradamente por quarenta e oito minutos. De repente pôs o livro de lado e pulou da poltrona pensando no homo sacer. A tarde envelhecia. Puxou uma cordinha. Um minuto depois, quando o mordomo apareceu, comandou a carruagem para as seis em ponto. O recital seria às oito e meia, queria jantar antes.

A hora e tal que lhe restava ao ócio Dagoberto, ou Castro de Menezes, como ele preferia, a empregou em seu passatempo predileto, pequena extravagância que um dia, em momento de exasperação, tivera a fortuna de criativamente improvisar: dar de comer à lareira sólidos toros de literatura brasileira contemporânea.

Deitados lânguidos ao fogo, os livros iam mudando de estado no mundo da matéria num belo espetáculo de chamas coloridas, e Dagoberto Castro de Menezes (usemos o nome todo, para evitar confusão) se deu conta de que aquilo era puro homo sacer, sim, claro! Ficou feliz com a ideia, era isso mesmo: a literatura brasileira contemporânea é o homo sacer, o santo às avessas. Aquele que é tão desprezível que não tem direito nem à própria vida, qualquer um pode matá-lo impunemente, como ele fazia agora. Mas que nunca poderá ser morto em ritual sagrado no altar dos mais supinos valores críticos, sob pena de danação para o crítico e toda a humanidade que este representa. Ao fogo, pois, que assim ninguém corre riscos.

Uma hora depois, como sempre ocorria após uma sessão daquilo que havia batizado Bibliofilia Paradoxal Pírica, BPP, Dagoberto Castro de Menezes III, PhD, sentia-se leve e excitado. Pelo iPhone confirmou que Thiago, seu aluno mais burrinho e mais bonito, iria ao recital. Falaria do homo sacer a Thiago, ele como sempre não entenderia nada, mas falaria mesmo assim, para humilhá-lo. Será que Joaquim Nabuco também estaria lá? Uma foto ao lado de Nabuco na coluna do Joaquim, o outro, não faria mal à sua carreira.

Dagoberto Castro de Menezes, CEO de ONG, 1,67m, dago@hotmail.edu, consultou seu Patek Philippe: cinco e dez. Tempo para um breve banho de imersão com o prodigioso sel de bain à la menthe poivré de Marius Fabre. Depois, a carruagem, a noite, a vida!

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DOS ELOGIOS INCONDICIONAIS

Valério Schlondorf está relendo pela quinta vez a resenha que acabou de escrever. A caneta esferográfica em sua mão direita aplica rabiscos ocasionais nas folhas de papel sobre a mesa. Como sempre faz na hora de revisar seus escritos, tratou de imprimir este primeiro: apesar de jovem o bastante para ser considerado um dos valores da “nova geração de escritores brasileiros”, o capixaba Schlondorf é suficientemente velho para achar mais fácil flagrar deslizes, rimas indesejáveis, ideias inconsistentes e frases truncadas quando lê no papel, como se a fluidez da tela do computador mascarasse defeitos. Defeitos que, diga-se de passagem, ele não encontrou no romance que acaba de criticar. Nem para remédio: a resenha é francamente elogiosa.

Seu problema passa a ser então moderar os elogios para, num paradoxo apenas aparente, deixá-los mais potentes. Sabe que as pessoas desconfiam de loas demasiado rasgadas e não é para menos – no ambiente de compadrio, hipocrisia e baixo apreço ao profissionalismo crítico em que chafurdam as letras nacionais, faz bem o leitor em se precaver. Assim, em vez de “divisor de águas na literatura brasileira contemporânea”, Schlondorf opta pela sobriedade firme de “livro fundamental na literatura brasileira contemporânea”. No lugar de “gênio”, vai de “talento maior”, e “prosa em chamas” vira “prosa vívida”. Finalmente, ao trocar “o grande nome de sua geração” por “um dos grandes nomes de sua geração”, parece se dar por satisfeito. Repousa a caneta sobre a mesa e, batucando no teclado, transfere rapidamente as alterações para o computador. Em seguida alcança o telefone:

– Alô, Rafinha? Tô com o texto pronto aqui. Estou mandando neste minuto pra você e você encaminha pro editor como da outra vez, tudo bem? Isso, já vai com a sua assinatura. A grana é sua, claro, pena que seja aquela merreca de sempre, o pessoal é muito mão de vaca. De todo modo obrigadíssimo, amigão, fico te devendo mais uma. O título? Coisa singela: “A consagração de Valério Schlondorf”. Hehe, pois é. Mas isso nunca se sabe, às vezes eles mexem no título por problemas de espaço. Sabe como é jornal, é a ditadura do espaço, a honestidade intelectual que se dane. Este mundo tá perdido, Rafinha!

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Os contos acima foram publicados pela primeira vez na seção Sobrescritos deste blog, separadamente, entre agosto de 2010 e setembro de 2011.

One Comment

  • TÁCITO CORTES DE CARVALHO E SILVA 17/06/2015 at 20:19

    O primeiro conto é sensacional. Os outros ótimos. parabéns.
    Obrigado. Apareça sempre.

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