Três histórias de glória fugidia

11/07/2015

'O poeta pobre', pintura do romântico alemão Carl Spitzweg (1839)

‘O poeta pobre’, pintura do romântico alemão Carl Spitzweg (1839)

O CLUBE

Ele não saberia dizer ao certo como ou quando tinha entrado para o Clube. As cláusulas foram escritas com espirais de fumaça no ar frio sobre a calçada em frente a livrarias em noites de autógrafo, assinadas mais tarde com espuma de chope no tampo carcomido de mesas de latão, tudo tão vago que ele estaria desculpado se pensasse que tais recordações tinham a consistência de um sonho dentro de um sonho. Mas era concreta demais a resenha de página inteira que, menos de um mês depois, o chamava de gênio e seu último livro, de obra-prima incontornável, e mais concreta ainda a assinatura de prestígio vertiginoso a encimá-la. A esta crítica seguiram-se outras de tom semelhante espalhadas pelo país, numa orquestração que só poderia ser compreendida como o trabalho de um grupo coeso, um verdadeiro Clube, de forma que, quando atendeu o telefone com o coração disparado certa madrugada e ouviu do outro lado da linha uma voz rouca a lhe perguntar sem preâmbulo se estava satisfeito, resolveu agir com naturalidade e dizer que sim, estava satisfeito. O que era verdade, pois nunca, em muitos anos de carreira literária, fora alvo de tanta atenção, e embora se julgasse merecedor da maioria dos elogios, não era ingênuo a ponto de ignorar que o merecimento era a carta de menor valor naquele jogo. A voz lhe passou então um nome estrangeirado, o nome de um colega, e desligou. Dois dias depois o nome soprado pela voz estava na capa de um livro sobre sua mesa de trabalho, junto com a carta em que o editor do suplemento literário do jornal em que fora chamado de gênio o convidava a escrever uma resenha. E nesse momento, novato, ele errou. Profissional consciencioso, fez restrições de forma e conteúdo ao livro, todas meticulosamente embasadas, e por duas semanas aguardou em vão que o texto fosse publicado. O segundo telefonema no meio da madrugada o pegou desprevenido. Dessa vez a voz rouca não lhe perguntou se estava satisfeito, mas igualmente sem preâmbulo o chamou de moleque, de trapaceiro, de palhaço, e disse que abrisse o olho, pois tinham seu endereço. A voz desligou antes que ele tivesse a oportunidade de pedir, por misericórdia, uma segunda chance.

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O AMOR NOS TEMPOS DO CÓDICE

Não fazia tanto tempo que costumavam chamá-la de promessa vigorosa da nova literatura brasileira. Flipou, flopou, fliportou, festpoou, e por cinco ou seis anos, se não foi famosa, existiu inquestionavelmente, carta no baralho das antologias igrejísticas e nome no caderninho dos repórteres de metrópoles e grotões, a fazer aparições frequentes em telas e papéis a pretexto de polêmicas culturais aguadinhas que, sustentadas pelo acordo tácito de que o rei nu exibia vestes de alta costura, às vezes abriam caminho para a republicação daquela sua fotinho de dez anos atrás em que luz chapada, rímel e lábio inferior levemente mordido compensavam a escassa beleza de nariz adunco e pele áspera.

Ele, sim, era bonito, talvez até lindo, mas era um menino, um fedelho de cabelo desgrenhado e barba por fazer, quando se aproximou dela no fim do coquetel com jeito de fã encabulado e a presenteou com dois livrinhos que traziam na capa o logo de um desses selos editoriais inacreditáveis porque inexistentes, marca patética do amadorismo que agora brotava feito capim por todas as gretas do solo calcinado. Ela sorriu um sorriso de grande dama benevolente, ele se inflamou com o ímpeto kamikaze dos tímidos e, num sussurro ao pé do ouvido, disse que a literatura dela era um tesão, aí foi tudo rápido, difícil de reconstituir, mas de uma forma ou de outra se devoraram com gulodice aquela noite e mais quatro ou cinco noites nas duas semanas seguintes.

Foi ela quem cortou a onda sem mais nem menos, sem explicar sequer a si mesma o que nem saberia explicar direito. Parar de atender o telefone e responder aos emails dele parecia estar na ordem natural das coisas, uma promessa vigorosa da nova literatura brasileira seguindo seu caminho grave e atarefado depois de bafejar sua aura de esfinge sobre um mortal mais jeitosinho encontrado à beira da estrada, generosa mas no fim das contas realista, capaz de fingir por algum tempo que o selo editorial patético na capa dos livretos dele não era tão brochante quanto um arrotaço em dó maior num jantar à luz de velas, mas sabendo que era exatamente isso, claro, não tinha como não ser.

Naquele caminho grave a atarefado que lhe cabia, virando noite em cima de noite para terminar seu segundo romance, demorou a se dar conta de que ninguém mais a chamava de promessa vigorosa da nova literatura brasileira. A ficha só caiu no dia em que sua editora, selo magnífico de ouro e diamante, recusou os novos originais e inaugurou uma sensação quase onírica de estupor e incredulidade que a conduziu nos meses seguintes por uma espiral descendente tão humilhante quanto estéril, livro debaixo do braço, das casas editoriais mais prestigiosas às casas editoriais mais ou menos, das casas editoriais mais ou menos às casas editoriais fuleiras, enquanto seu nome, carta fora do baralho das antologias igrejísticas, ia desaparecendo aos poucos da agenda dos repórteres de metrópoles e grotões. A fotinho logo brilhava apenas em seu próprio blog desertado.

Uma noite ligou aos soluços para o menino de cabelo desgrenhado e, em meio a pedidos de perdão, precisou fazer um esforço enorme para não perguntar imediatamente pelo selo editorial patético dele, melhor guardar aquilo para depois que tivessem se devorado com gulodice mais uma vez, isto é, caso ele topasse reabrir aquele arquivo, e ele riu e falou que topava, então ela disse: Eu te amo, cara. E era verdade.

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O RELATO DE STAPFNUNSK, UM HOMEM DE BEM

A testemunha Olaf Stapfnunsk, natural de Estocolmo, naturalizado brasileiro, com quarenta e oito anos, empresário, residente à rua… da cidade de …, compromissada na forma da lei, respondeu: – que por volta das oito horas da manhã de quinta-feira, 7 de outubro deste ano, chegou à academia de ginástica de sua propriedade, situada em…, e foi direto ao escritório, quando então deu pela ausência de Totó, seu funcionário, de nome completo Alceu Gouveia Nunes, que lá já devia estar; que tal fato o deixou irritado, motivo pelo qual chegou a proferir um palavrão em sueco, e que o dito palavrão era subba, reputado intraduzível pelo depoente; que a irritação com a ausência do funcionário Totó o fez passar a mão no telefone e dar início ao trabalho agendado para todas as manhãs daquele mês, qual seja, o telemarketing pela vizinhança; que tal ação de telemarketing consistia em oferecer ao cliente em potencial uma semana de academia grátis, trabalho do qual não gostava, ainda que já o tivesse executado em outras ocasiões, sendo Totó um empregado pouco confiável; que pela próxima hora, até as nove horas da manhã, falou com cinco clientes em potencial, dos quais dois se interessaram por sua oferta e dois disseram não; que o quinto cliente, aliás cronologicamente o segundo, não disse nem sim nem não, guardou um silêncio que em seguida pareceu cortado por um baque, e não desligou o telefone; que o depoente ficou na linha por mais alguns segundos, repetindo “alô” sem obter resposta; que então cortou a ligação e partiu para as próximas, feitas as quais inspecionou o salão da academia por algumas horas e só depois, já pensando em almoçar, voltou ao escritório para espiar o computador; que nesse momento tomou ciência, num portal de notícias, da morte por infarto do famoso escritor Ettore Luxemburgo, encontrado duro no chão ao lado da cama, de pijama, telefone na mão; que, não sendo um homem de letras, admite nunca ter ouvido falar do famoso escritor Ettore Luxemburgo até aquele momento, mas identificou o nome como o de um dos clientes em potencial para quem ligara aquela manhã, servindo a estrangeirice da sonoridade de Ettore e Luxemburgo, ainda mais juntos, como garantia de memorização; que, no mesmo portal, leu a notícia do anúncio do Prêmio Nobel de Literatura, notícia na qual, mesmo não sendo homem de letras, passou os olhos e achou divertido ver que a outorgadora do prêmio se intitulava Academia Sueca, o mesmo nome de sua academia de ginástica; que viu-se, então, entre a gratidão àqueles conterrâneos pela publicidade espontânea e o rancor por ter seu nome copiado; que logo abandonou tal curso vadio de pensamento porque lhe ocorreu de repente com aguda clareza, ou “caiu a ficharada”, nas palavras textuais do depoente, aquilo que ocorrera aquela manhã no quarto do finado escritor Ettore Luxemburgo, sendo tais coisas que o telefone tocou e o dito escritor ouviu uma voz que falava português com sotaque nórdico dizer: “Sr. Ettore Luxemburgo? O senhor ganhou o prêmio da Academia Sueca!”; que, sim, abrira com a mesma frase todas as cinco ligações; que considera o ocorrido uma fatalidade, e assim espera que a Justiça o julgue, mas sua consciência de homem de bem não lhe permitiria omitir tal ocorrido das autoridades, visto saber-se, mesmo que involuntariamente, causador da morte de um homem; que se alguma coisa o consola de tais sentimentos sombrios, é pensar que Ettore Luxemburgo morreu feliz em seu engano, ainda que às custas de virar piada na posteridade.

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Os contos acima foram publicados separadamente entre julho de 2010 e maio de 2011.

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