Três histórias de inimizade literária

08/08/2015

Harvey Keitel e Keith Carradine em 'Os duelistas' (1977), filme de estreia de Ridley Scott

Harvey Keitel e Keith Carradine em ‘Os duelistas’ (1977), filme de estreia de Ridley Scott

HISTÓRIA DE TRÁS PRA FRENTE

José Villoso, o escritor mais popular da história de Antares, a pequena ilha do Caribe, morreu aos noventa e um anos. Era gordo, rico e famoso, mas amargurado. Dizem que suas últimas palavras foram: “Os críticos que rezem bastante para a morte ser o fim de tudo. Porque, se não for, eu juro que volto para pegar esses cabrones”.

Villoso tinha sido a ausência mais notada no enterro, onze anos antes, de seu ex-amigo Juanito Penafort, o maior nome das letras de Antares. Ignorado pelo grande público, que passava longe de compreender uma arte rigorosa em que o experimentalismo se punha a serviço da ampliação das fronteiras do literário, Penafort morreu magro e pobre. Era considerado um deus pelos críticos.

O popular Villoso e o cultuado Penafort nunca mais se falaram depois de travarem uma polêmica amarga nas páginas do principal jornal de Antares, chamado justamente Jornal de Antares. Aos cinquenta e muitos anos, eram ambos nomes sólidos em suas respectivas praias literárias. Villoso escreveu um artigo em que chamava Borges de “ceguinho pomposo”. Penafort replicou com violência, houve tréplica, contratréplica, deu no que deu.

Até o episódio da briga, Villoso e Penafort tinham sido o Gordo e o Magro da imprensa antarense. Repórteres e leitores adoravam o contraste cômico entre eles – literário, financeiro e corporal – e se enterneciam com o fato de, apesar disso, serem ambos tão fiéis a uma amizade que vinha da infância. “José Villoso é o maior escritor de Antares”, dizia Penafort. “Nada disso, o maior escritor de Antares é Juanito Penafort”, dizia Villoso. E se abraçavam rindo.

Pouca gente sabia que os primeiros livros escritos por ambos, ainda nos tempos da Faculdade Antarense de Direito, e que tinham permanecido inéditos, apresentavam papéis trocados. O de Villoso era um romance cubista de quinhentas páginas que narrava, numa multiplicidade de pontos de vista e idiomas – alguns deles inventados – o período de um minuto e meio transcorrido entre dois sinais vermelhos em certa esquina da capital. O de Penafort era uma novela policial ensopada de sangue e sexo.

Quando tinham quinze anos, José e Juanito ganharam permissão dos pais para acampar durante um fim de semana no parque nacional próximo à capital, famoso por suas cachoeiras. Lá toparam com uma cabana na mata e ajudaram sua moradora, uma velha decrépita, a recuperar três cabritos que tinham fugido de um cercadinho tosco. Agradecida, a mulher serviu café aguado com pamonha de milho roxo em sua choupana. Disse que era feiticeira e que cada um tinha direito a um desejo.

*

A HORA DE TÉCIO ORDOÑEZ, ALTER EGO

Do vasto repertório de histórias acumulado pelas relações periclitantes entre autor e alter ego, não será uma das menos curiosas a de Técio Ordoñez, que acusou o escritor Sérvio Rodriguez de ser ele, o Sr. SR, alter ego de TO e não o contrário. O caso propiciou uma divertida troca de farpas entre os dois, com os comentaristas se dividindo no apoio a um e a outro, em blocos maciços cheios daquela ira mutuamente esculhambadora da internet.

As evidências concretas estavam contra Ordoñez, de quem se ouvira falar pela primeira vez no conto Todas as amoras deste lado da cerca, de Sérvio Rodriguez, publicado na revista manauara Noitenorim em 6 de fevereiro daquele ano. Rodriguez estava em aparente vantagem, portanto – visto ser obviamente preferível a condição de autor à de alter ego. Pelo menos ele, SR, era de forma textualmente comprovada o criador de Ordoñez. No entanto, os argumentos de Ordoñez em defesa da não existência de Rodriguez eram tão argutos, além de sensatos – filosófica no primeiro caso, literariamente no outro – que obrigavam o leitor a concluir que nenhum dos dois existia de fato, como se “de fato” quisesse dizer alguma coisa àquela altura da marcha dos fatos.

Foi aí que, daquele blog lá dele, o outro SR entrou no meio e tudo virou chanchada, como sói acontecer neste país. Mas algo ficou fermentando dentro de Ordoñez, aquela sombra da sombra da sombra. Dentro do personagem incipiente, natimorto, já quase e nunca mais que inteiro, no peito daquele zumbi grotesco os sonhos de existência plena não iam desistir tão facilmente. Logo medravam em expansões fúngicas multicoloridas pelas gretas craqueladas do que sobrou da realidade, onde escorre a seiva da linguagem pura: Técio Ordoñez tramando em silêncio a sua revolução. E um dia publicou o livro Sérvio, o servo das palavras, que o tornava indiscutivelmente autor e SR, seu alter ego.

A vitória sobre o fraudulento Sérvio Rodriguez foi tão acachapante que transformou Ordoñez. Antes um sujeito pacato e até gentil, recolhido à escrivaninha por timidez e talento, tornou-se um recluso rancoroso, violento e imprevisível. Dizia-se que estava trabalhando em um novo livro – não se sabia ao certo, uma vez que ninguém queria se aproximar muito – mas a polícia alega que não encontrou livro algum depois que Ordoñez saltou da sua janela no décimo terceiro andar, espatifando-se no asfalto de Copacabana. O que é um fim de história frustrante e até banal, reconheço, mas o que você esperava? Técio Ordoñez foi mais longe do que a maioria, e aqui vai uma sincera lágrima por ele, mas era preciso detê-lo, e para tanto não encontrei ninguém mais à mão do que ele mesmo.

Na vertigem da queda livre ainda lhe permiti pensar que o mergulho na própria extinção, em paradoxo típico dos alter egos, dava-lhe enfim a vida ansiada por seu coração de minério. Sentindo-me ao mesmo tempo misercordioso e vil, saí assobiando aquelo velho sambinha que diz: “O seguro morreu de velho, morreu do tempo que passa…”.

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EM TRINTA ANOS, SEREMOS TODOS AMIGOS (para Paulo Scott)

Ao entrar no bar, Rodolfo tem certeza de que ninguém sabe que está entrando um escritor. Ou ex-escritor, se é que existe essa condição. Às vésperas de completar setenta anos, os últimos vinte passados em silêncio e fora de todos os catálogos editoriais, ele acha que não faz diferença.

Numa mesa ao fundo, perto do banheiro, o também escritor ou ex-escritor Romualdo, de trajetória semelhante, está bebendo sozinho. Vê Rodolfo antes de ser visto por ele e, num velho reflexo, sente seu corpo se retesar na cadeira.

Rodolfo e Romualdo, companheiros de geração, nunca conversaram, embora tenham se visto e laboriosamente se ignorado meia dúzia de vezes em eventos literários do passado. Todas as suas trocas de ideias opostas se deram por meio de resenhas ácidas, artigos venenosos e maledicências variadas. Sempre se consideraram inimigos.

Rodolfo acaba de perder a mulher para um câncer fulminante de fígado, mas Romualdo não tem como saber disso. O único filho de Romualdo morreu há três meses num acidente de trânsito, mas Rodolfo também ignora essa informação. Se um dia tiveram amigos comuns que pudessem ser condutores de tais notícias, hoje a maioria está dispersa ou morta.

Rodolfo não consegue dormir mais de duas horas por noite desde que a mulher morreu. Romualdo recebeu do médico a ordem de parar de beber imediatamente, sob o risco de morrer em questão de meses, mas tem feito o possível para não pensar nisso.

Procurando uma mesa vazia inexistente, Rodolfo enfim vê Romualdo, que está olhando para ele. Sem se dar conta, ergue o braço numa saudação tímida.

Seguem-se alguns segundos de indecisão. Romualdo não retribui o aceno. Rodolfo está quase indo embora do bar quando se lembra de uma frase do Ricardinho, o doce Ricardinho, prosador fino e também esquecido, no auge daquelas datadíssimas batalhas literárias do início do século:

– Em trinta anos, seremos todos amigos.

É o eco da voz de Ricardinho, que morreu de infarto há quase uma década, que conduz Rodolfo até a mesa de Romualdo. Com a mão meio trêmula, agarra o encosto de uma das cadeiras vazias e tenta sorrir:

– Posso?

– Nem se atreva, seu verme, subliterato de quinta!

Rodolfo ergue o dedo médio e o sustenta no ar pelo que parece uma eternidade, encarando Romualdo, antes de dar meia volta.

Como era ingênuo aquele Ricardinho.

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Os contos acima foram publicados separadamente entre julho de 2011 e fevereiro de 2013.

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