Triunfalismo científico x pessimismo filosófico

07/07/2011

Foto de Walter Craveiro/Divulgação

O neurocientista Miguel Nicolelis (foto) e o professor de filosofia da religião Luiz Felipe Pondé protagonizaram hoje à noite, numa Tenda dos Autores lotada, uma das mesas mais cabeçudas da história da Flip, chamada “O humano além do humano”, com mediação da jornalista Laura Greenhalgh. Como água e azeite, não se misturaram, apesar dos esforços da mediadora, nem poderiam: o triunfalismo científico (não sem razão) de Nicolelis e o pessimismo filosófico (idem) de Pondé acabaram criando um curioso espetáculo de claro-escuro.

“Se a palavra milagre não tivesse sido adotada por outro ramo de negócios, deveria ser usada pela neurociência, porque estamos fazendo algumas coisas até melhores do que os velhos milagres hoje”, disse o primeiro. “O ser humano mata porque gosta”, afirmou o segundo. Foi divertido.

Autor do recém-lançado “Muito além do nosso eu” e apontado pela revista Scientific American um dos vinte pesquisadores mais importantes da atualidade, o paulista Nicolelis falou primeiro, caminhando de um lado ao outro do palco e ilustrando seu discurso com imagens no telão. Era claramente um discurso ensaiado, com floreios poéticos (“as linhas de poesia elétrica desses bilhões de compositores que formam a única orquestra conhecida”, disse, falando do cérebro). A mensagem, porém, era não só consistente, mas empolgante: “Estamos próximos do momento em que o cérebro dos primatas vai se libertar do corpo”.

As bem-sucedidas experiências de Nicolelis com macacos rhesus que controlam artefatos mecânicos apenas com ondas cerebrais, ou seja, sem o uso dos membros, o autorizam a ser otimista no ramo vanguardista das neuropróteses. Em tom patriótico, o cientista encerrou seu discurso anunciando o plano de, dentro de três anos, na cerimônia de abertura da Copa do Mundo, fazer com que uma criança tetraplégica entre em campo andando, movida apenas por seu cérebro e seu exo-esqueleto, armadura mecânica que ele e seu projeto Walk Again estão desenvolvendo, “marcando, no país do futebol, o primeiro gol da ciência brasileira para toda a humanidade”. Foi longamente aplaudido.

O pernambucano Pondé afirmou que “o projeto de eugenia ficou com má fama por seu uso pelos nazistas, mas faz parte da utopia ocidental. Construir pessoas melhores, mais bonitas, mais inteligentes, que ultrapassassem os limites da dor, da agonia, do sofrimento, é algo que está na própria matriz científica e filosófica do Ocidente”. No entanto, acredita, a raiz dessa busca está fincada em solo tenebroso: “A vida humana é um escândalo: você não sabe de onde veio, para onde vai, sofre, sente dor, perde as pessoas que ama, não pode confiar nem em si mesmo. É por isso que a utopia tem raízes tão profundas em nós”.

Para Pondé, “o movimento de ir além do humano cria uma série de novos problemas. Isso não significa que a gente deva parar, mas sim ter conciência de que somos uma nave espacial desembestada na velocidade da luz em direção ao nada”.

5 Comments

  • Maurício 08/07/2011 at 00:08

    Deus e o diabo na terra do sol. Sou mais o diabo. Pondé sempre incrível. Fala grande pra gente grande. Logo, pra poucos. Mas fazer o quê? Nada. Sigamos.

  • Norberto 08/07/2011 at 06:14

    Apostemos em João Ubaldo, que demorou a aceitar o convite, como a melhor das palestras na Flip. Mas deixo uma pergunta ao colunista e demais lkeitores: qual é o melhor livro da Flip?

  • camaleão 08/07/2011 at 14:37

    De que adianta falar para poucos, como faz Pondé. A sensação destes que se vangloriam de ser um destes poucos e “entender” o que o tal filósofo diz, não representa nada. É semelhante a ser membro de um clube exclusivo, só que mental, sem benefícios materiais, sem nada concreto, apenas filosofia, pessimismo e elocubrações inócuas.

    Pondé, na verdade, quanto mais pretende ser sóbrio e “adulto”, mais me parece pueril. A angústia, a culpa, os vícios nos fazem humanos, diz ele. Não sabemos para onde vamos, nem de onde viemos, dor, perda, confiança … bla-blá-blá.

    Por trás deste artifício retórico se esconde o verdadeiro espírito eternamente imaturo: a dor da impossibilidade, o medo e a fragilidade, a necessidade de um pai que te guie (e na ausência dele, a solidão e a angústia).

    Bobagem. O ser humano se tornará livre destas amarras, ainda neste século. Mas enquanto isso, as próximas 2 ou 3 gerações ainda terão de aguentar muitos pondés, muitos derrotistas e pessimistas empedernidos.

  • Jimmy Avila 09/07/2011 at 19:02

    Esse camaleao é uma lagartixa!

    Ponde foi super lucido, como sempre!

    Ele sim foi realista e soube desfazer dircursos triufalistas na ciencia ou
    em qualquer outra disciplina que use de tanta prepotencia .

    Gosto de Antonio Damasio, Steven Pinker e até de Dawkins justamente porque nao
    esquecem da dimensao humanistica da ciencia abarcando a esfera do pensamento de forma ampla e nao so pragmatico e limitado.

  • juliana 31/07/2011 at 16:05

    pra falar a verdade eu não gostei nem um pouco…

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