Tudo em 5 capítulos: Julian Barnes na cama com Updike

02/05/2012

O site é visualmente modesto, baseado numa ideia simples, e abre mão até de ilustração, que dirá dos recursos multimidiáticos que a internet propicia. Apesar disso – ou por isso mesmo? – o FiveChapters.Com tem um charme dos mais distintos e duradouros da blogosfera literária anglófona. Com curadoria de David Daley, que já andou trabalhando com o pessoal da McSweeney’s, sua proposta é publicar um conto por semana em cinco capítulos, um por dia, de segunda a sexta, e deixar que o talento narrativo de bons escritores faça o resto. Tem sido assim há mais de cinco anos – desde outubro de 2006.

Abaixo, em tradução caseira, uma amostra de “Dormindo com John Updike” (aqui o conto inteiro, em inglês), de Julian Barnes, uma espécie de Sobrescrito psicologicamente sagaz e melancolicamente cômico sobre duas amigas, Jane e Alice, escritoras idosas de sucesso limitado às voltas com suas memórias – entre elas, a do caso que a última teve com o ex-marido da primeira, Derek, muito tempo atrás – no trem em que ambas retornam de mais um festival literário. Elas acabam de se irritar mais uma vez com o tópico eternamente repisado do velho triângulo quando Jane abre um novo horizonte na conversa:

Sem mudar inteiramente de assunto, ela se viu perguntando:

– Você vai escrever suas memórias, aliás?

Alice sacudiu a cabeça:

– Deprimente demais.

– Lembrar de tudo aquilo?

– Não, não lembrar. Nem inventar. Publicar, isso sim: por tudo na rua. Eu mal consigo me conformar com o fato de que um número nitidamente finito de pessoas quer ler meus romances. Agora imagine escrever sua autobiografia, tentando resumir tudo o que você soube e viu e sentiu e aprendeu e sofreu em seus cinquenta e tantos anos…

Cinquenta!

– Eu só comecei a contar aos dezesseis, você não sabia? Antes disso eu não tinha sentimentos, muito menos responsabilidade por aquilo que eu era.

Talvez fosse esse o segredo da infatigável, admirável compostura de Alice. De tantos em tantos anos ela traçava um risco embaixo do que tinha acontecido e se eximia de responsabilidade dali por diante. Como no caso de Derek.

– Continue.

– …só para descobrir que não há uma só pessoa a mais interessada em saber. E talvez haja até um público menor.

– Você poderia encher a coisa de sexo. As pessoas gostam da ideia de…

– Coroas assanhadas? – Alice ergueu uma sobrancelha. – Excêntricas?

– …coroas excêntricas como nós abrindo o jogo sobre sexo. Os velhos parecem fanfarrões quando relembram suas conquistas. As velhas parecem audazes.

– Seja como for, você precisa ter dormido com alguém famoso. – Derek jamais poderia ser acusado de ser famoso. Nem Simon, o romancista, para não mencionar o editor delas. – Ou isso ou ter feito alguma coisa muito repulsiva.

Jane achou que a amiga estava se fazendo de tonta.

– John Updike não é famoso?

*

Amanhã à noite estarei na Bienal do Livro Amazonas, em Manaus, para falar, ao lado da escritora Ana Paula Maia, do tema “Meu livro não é de papel”. Embora a rigor ele seja também.

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