Twitter, o maior clube de leitura do mundo

29/04/2010

Este artigo (em inglês) de Viv Groskop no site do jornal “Daily Telegraph” defende bravamente uma tese com a qual, para minha surpresa, estou cada vez mais de acordo: o Twitter é o “paraíso dos viciados em livros”. O texto invoca em seu apoio uma frase de Margaret Atwood, aliás, @MargaretAtwood, ela própria tuiteira: “Fui tragada pela Twittersfera como Alice pela toca do coelho” – 67 toques no original, 60 na tradução.

A conclusão de Groskop tem tudo para surpreender os que, como eu mesmo até poucos meses atrás, ainda consideram o Twitter um modismo tolo e superficial, talhado para quem tem tempo demais e obrigações de menos, onde proliferam mensagens de importância capital como: “Bom dia, tô comendo granola com mel!” ou “O motorista do ônibus que eu peguei pra vir pro trabalho é os cornos do Léo Moura”. Não é que os recados irrelevantes não estejam lá. Provavelmente são maioria. O que os detratores do Twitter não percebem é que a coisa tem a cara do dono.

Tudo depende, claro, de quem você segue. O artigo do “Telegraph” lembra que a rede está cheia de escritores de verdade – @paulocoelho é um dos citados – tuitando e sendo seguidos por leitores ávidos, que por sua vez são seguidos por outros leitores, numa malha vertiginosamente vasta e intrincada pela qual circulam desde informações valiosas até fofocas e amenidades ligadas ao mundo literário, passando por dicas e impressões de leitura. Nunca houve um clube de leitura desse tamanho.

Aos escritores que tuítam, eu acrescentaria as publicações especializadas, os críticos profissionais, os leigos interessantes. Está quase todo mundo lá – até o @arthurdapieve, último bastião da resistência, capitulou esta semana. Seguindo-se as pessoas certas, o Twitter pode ser mesmo o paraíso das discussões sobre literatura. Ou, imagino, sobre qualquer coisa que exista ou não exista na face do planeta.

(Por falar no que não existe, o artigo também lista alguns escritores vivos ou mortos que se fazem presentes por meio de fãs ou zoadores: há 17 Hemingways, 14 Chandlers, pelo menos três Martin Amis…)

Vejo um único risco nisso tudo: o mesquinho tempo físico dos humanos. O buraco em que Margaret Atwood caiu é muito mais fundo que o de Alice. Se não tomar cuidado, o “viciado em livros” de que fala Groskop pode acabar vítima de um paradoxo carrolliano: logo, como numa troca de heroína por metadona, não lerá mais nada na vida além de tweets.

14 Comments

  • Isabel Pinheiro 29/04/2010 at 12:35

    Mas o meu medo é justamente esse, Sérgio: o vício. Eu mesma abri uma conta no Twitter, pra seguir só pessoas e corporações ligadas aos livros (você, inclusive). Abri a página acho que umas três, quatro vezes – porque a cada uma delas era um tal de clicar em link e começar a ler outras coisas, e ser direcionada pra páginas legais, ou ter que descartar as que não são tão boas assim… Ai, tempo.

  • Samuel 29/04/2010 at 12:43

    Biblioteca global.

  • Raquel 29/04/2010 at 12:49

    É um vício, mesmo que seja bom. Eu por exemplo, sigo você e no momento que pipocou “3 twitts novos” (o maldito avisa….) não resisti e cá estou comentando! E já me me fez lembrar que preciso dar um pulo no blog da Isabel Pinheiro.
    Tchau, estou atrasada!

    • Sérgio Rodrigues 29/04/2010 at 13:03

      Pois é, Raquel e Isabel. Cada vez gosto mais desse paralelo com Alice. Todo mundo seguindo o coelho que diz: “Eu tenho pressa, eu tenho pressa à beça!”

  • Vinícius Antunes 29/04/2010 at 13:15

    Excelente tópico, excelente debate. Só espero que o coelho que estejam seguindo não seja o Paulo, pois entrar no burcado do twitter pra isso, não vale a pena.
    Este post veio trazer à tona a bobagem que o Saramago falou quando o twitter apaceu. Sérgio, você poderia fazer uma postagem indicando alguns twitters de escritores de língua portuguesa? Abraço

    • Sérgio Rodrigues 30/04/2010 at 13:13

      São muitos, Vinicius. Recomendo entrar nas listas de seguidos e seguidores de um deles e ir puxando os fios. Um abraço.

  • Rafael 29/04/2010 at 15:18

    Também compartilho o receio de desperdiçar meu tempo demais com essa brincadeira (tempus fugit). Tenho duas filhas, tenho meu escritório, tenho clientes que exigem minha atenção e tenho minha esposa. Seria um louco se aderisse ao tal tuíter. Ademais, sinto uma certa repugnância por textos demasiadamente curtos e pela ligeireza que lhes é inerente.
    Ao tuíter prefiro o grosso tomo que atualmente ocupa o meu escasso tempo livre: Um Estudo da História, de Arnold Toynbee.
    Fica para a próxima, talvez.

    • celso 29/04/2010 at 23:02

      Desculpe, Rafael, mas essa declaração de amor pela longue durée, ainda mais por uma longue durée tão cheia de formas, de “repugnâncias” declaradas e tão taluda assim, é, realmente, tão importante pra você?

      Elucidativo isso, ainda que não sobre o Twitter… não tuíto, mas desconfio de certas coisas.

  • Davi B. 29/04/2010 at 18:53

    Sérgio, acho que tu tocas no ponto essencial, saber a quem seguir. Tenho, por exemplo, dois amigos que, além de ser inacreditável a quantidade de asneiras proferidas, ainda inundam minha página, sobrando pouco espaço para tweets mais relevantes aparecerem.

    Tirante este transtorno, percebi essa semana mesmo como o Twitter pode ser realmente útil. Tenho um carro velho, um corsinha 96 com um radiador furado. Sair com ele e ficar preso nos engarrafamentos é simplesmente uma temeridade, ninguém me garante que ele voltará para casa.

    Então, antes de sair, leio as mensagens de perfis criados exclusivamente criados para reportar as condições do trânsito da cidade. Leio, saio e volto feliz para casa.

    Só falta o Twitter me arranjar um jeito de juntar dinheiro para consertar o meu bólido branco.

  • C. S. Soares 30/04/2010 at 21:05

    Bom saber que mudou de opinião, Sérgio. No Twitter, melhor do que seguir é filtrar, mantendo foco no presente. O Twitter não diz respeito à tecnologia, mas a nós mesmos. Sua proposta influenciará a literatura, é questão de tempo e, claro, criatividade.

  • Ana 03/11/2010 at 15:24

    Interessante porém que horas, quando as pessoas lêem? Uma pessoa que trabalha sejam oito ou mais ou menos horas por dia e passa MUITO tempo no twitter pegando informação daqui e dali vai ler quando? Conheço pessoas que seguindo dicas do twitter compraram vários livros que estão onde? Na estante. Vê-se também uma certa sede de “aparecer”. Mais que a vontade e curiosidade pelo livor em si, quer lê-lo rápido para tecer seus comentários na twitteresfera.

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