Um defeito de cor (trecho)

11/05/2006

Ana Maria Gonçalves

Sentada sob o iroco, a minha avó fazia um tapete enquanto eu e a Taiwo brincávamos ao lado dela. Ouvimos o barulho das galinhas e logo depois o pio triste de um pássaro escondido entre a folhagem da Grande Árvore, e a minha avó disse que aquilo não era bom sinal. Vimos então cinco homens contornando a Grande Sombra e a minha avó disse que eram guerreiros do rei Adandozan, por causa das marcas que tinham nos rostos. Eu falava iorubá e eve, e eles conversavam em um iorubá um pouco diferente do meu, mas entendi que iam levar as galinhas, em nome do rei. A minha avó não se mexeu, não disse que concordava nem que discordava, e eu e a Taiwo não tiramos os olhos do chão. Os guerreiros já estavam de partida quando um deles se interessou pelo tapete da minha avó e reconheceu alguns símbolos de Dan. Ele tirou o tapete das mãos dela e começou a chamá-la de feiticeira, enquanto outro guerreiro apontava a lança para o desenho da cobra que engole o próprio rabo que havia, mais sugerida do que desenhada, na parede acima da entrada da nossa casa.

Os guerreiros conversavam depressa e aos gritos, decerto resolvendo o que fazer, enquanto eu e a Taiwo nos demos as mãos, sem entendermos direito o que estava acontecendo. A minha avó se atirou ao chão diante deles, implorando que fossem embora, que levassem tudo o que quisessem levar, que Olorum os acompanhasse. Eles não a ouviam e falavam de feitiços, de pragas e de Agontimé. Como se já não houvesse sombra sob o iroco, uma outra sombra ainda mais escura e no formato de asas de um grande pássaro passou sobre a cabeça da minha avó. Eu já tinha ouvido falar daquele tipo de pássaro, era uma das ìyámis, uma das sete mulheres-pássaro que quase sempre carregam más notícias.

Atraída pelo barulho, a minha mãe surgiu correndo da beira do rio, onde se banhava acompanhada do Kokumo, que estava pescando. Naquele dia, a minha mãe tinha acabado de voltar do mercado, lavado as pinturas com que enfeitava o corpo e passado ori nele. Eu nunca tinha visto a minha mãe tão bonita. Ela tinha peitos pequenos, dentes brancos e a pele escura que brilhava ainda mais por causa do ori. A minha mãe cuidava dos meus cabelos e dos cabelos da Taiwo como cuidava dos dela, dividindo em muitas partes e prendendo rolinhos enfeitados com fitas coloridas, que comprava no mercado. O Kokumo apareceu correndo atrás dela e foi pego por um dos guerreiros, que o agarrou pela cintura e o levantou, até que ele ficasse com os pés balançando no ar. Outro guerreiro pegou a minha mãe pelos braços e a apertou contra o próprio corpo, e, de imediato, o membro dele começou a crescer. Ele disse que queria se deitar com a minha mãe e ela cuspiu na cara dele. O Kokumo chutava o ar, querendo se soltar para nos defender, pois tinha sangue guerreiro, e foi o primeiro a ser morto. Um dos guerreiros, que até então tinha ficado apenas olhando e sorrindo, chegou bem perto do Kokumo e enfiou a lança na barriga dele. Eu me lembro do sangue que saiu da boca do meu irmão e espirrou na roupa do guerreiro, e continuou a escorrer mesmo depois que o jogaram no chão, com a cara virada para baixo. O sangue imediatamente formou um riozinho, daqueles turvos e de água espessa, como os que recebem muita água de chuva na cabeceira.

A minha avó continuava deitada na frente de um dos guerreiros, batendo a cabeça no chão e pedindo que fossem embora, mas eles não se importavam. O guerreiro que segurava a minha mãe, o que aos meus olhos era só membro duro e grande, jogou-a no chão e se enfiou dentro da racha dela. Ela chorava e eu olhava assustada, imaginando que devia estar doendo, imaginando que a minha avó, por ser grande, também já tinha feito aquilo e sabia que não era bom, pois ela também chorava e pedia que parassem, perguntando se já não estavam satisfeitos com o que tinham feito ao Kokumo. Eles continuaram fingindo que ela não existia. Na estrada que passava ao lado da nossa casa, algumas pessoas pararam para olhar, mas ninguém se aproximou. Dois dos guerreiros repararam em mim e na Taiwo. O primeiro pegou uma das mãos dela e apertou em volta do membro dele, e logo foi copiado pelo amigo, que usou a minha mão. Acho que a direita, porque a Taiwo estava sentada à minha esquerda e nem por um momento nos separamos, apertando ainda com mais força as mãos livres.

5 Comments

  • Amigo do Blergh! 12/05/2006 at 10:18

    Hummmm…a idéia do livro é interessante. Mas acho que os leitores podem ter problemas com os referenciais culturais. O que é ori, por exemplo? O que seria a Agontimé? Quem é/ o que é Dan?
    Um leigo em história não consegue identificar estes referenciais. Isto é otimo para reconhecemos nossa ignorancia sobre muitas questões de nossas matrizes culturais. Mas isso não pode complicar a leitura? Tem nota de rodapé?

  • Sérgio Rodrigues 12/05/2006 at 10:23

    AdB, tem notas de rodapé.

  • Voltairine 13/05/2006 at 11:39

    Se o leitor correr os olhos no trabalho de Alberto da Costa e Silva nao vai ter problema algum

  • Pedro Curiango 13/05/2006 at 17:59

    Que me perdoe o Millôr Fernandes (ele sim, um dos maiores escritores brasileiros!), mas este trecho não passa de prosa rasteira, com umas palavras exóticas metidas aqui e ali para esconder sua superficialidade. Se for assim por 952 páginas creio que poucos conseguirão chegar ao fim. Pelos comentários de quem leu – ou está lendo – isto se parece mais com aqueles folhetins românticos, tipo Alexandre Dumas, “modernizados” nas novelas da Globo. Creio que foi Paul Valéry quem disse que não podia escrever um romance porque não conseguiria escrever uma frase como: “A marquesa chegou (ou saiu, não sei bem) às cinco horas da tarde.” A autora deste livro parece ter feito isto em quase mil páginas…

  • Amigo do Blergh! 13/05/2006 at 23:29

    Nem sei porque pedir perdão ao Millor…É a sua perspectiva, Pedro, e até prova em contrário, o cara não paga suas contas, e a opinião dele não abaliza nada. Aliás, Millor é uma porcaria.

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