Um personagem para chamar de eu

17/06/2008

Num artigo para a revista The Chronicle of Higher Education (via Arts & Letters Daily), o crítico americano Michael Dirda conta que, há algum tempo, perguntaram-lhe numa sala de aula que personagem dos livros gostaria de ser. A resposta esperada, diz ele, era certamente “literária”, algo como Odisseu (Ulisses) ou Huckleberry Finn. Mas ele respondeu: “Bond, James Bond”. E explica por quê: “Ele tem os melhores brinquedos, atrai mulheres lindas e vence em todos os jogos, seja golfe, bacará ou – em Devil may care – tênis”.

São todas boas e másculas razões, sem dúvida. Só faltou dizer que Bond tem que matar gente, muita gente, o que, para alguns de nós, basta para estragar tudo. Mesmo que os mortos sejam todos “malvados”, há quem prefira manter distância dessa prática.

Fiquei pensando se a literatura brasileira tem alguém que eu gostaria de ser. Houve um tempo em que talvez respondesse Mandrake sem hesitação. Hoje não sei. Será que nossa galeria de heróis, quase todos atormentados, não se presta a esse tipo de brincadeira?

Aceito sugestões.

33 Comments

  • Chato 17/06/2008 at 18:44

    Eu não gostaria de ser nenhum dos meus personagens prediletos, todos eles muito mais doidos e atormentados do que eu. Penso, como alguns, que a literatura de ficção serve (entre outras coisas) como laboratório humano, capaz de, muitas vezes pelo exagero, pôr em pespectiva a nossa vida. Daí que, para ser vivida, eu prefira mesmo a minha vida e não a vida expressionista dos meus heróis.

  • Tomás 17/06/2008 at 19:15

    Talvez o Bond tenha sido escolhido porque ele vive a vida sem se ater a grandes dramas ou crises existenciais. Matou tá morto, tomemos um bordeaux, ou um martini – batido não mexido.
    Isso o torna um personagem fraco literariamente ao mesmo tempo em que me deixa sem vontade de encarnar em qualquer atormentado herói das letras nacionais.

  • Rogério de Moraes 17/06/2008 at 19:21

    Leo, dos livros do Marcos Rey; amigo do Gino e da Ângela, sua “quase namorada”. Claro, isso são reminiscências de minhas leituras juvenis. Se for no grosso mesmo, preferia ser algum amante audaz e delicado de um verso de Hilda Hilst.

  • Ernani Ssó 17/06/2008 at 20:41

    Sejamos sérios, Sérgio: o coronel Ponciano de Azeredo Furtado.

  • Paulao 17/06/2008 at 23:31

    O alter-ego do Fernando Sabino em “O menino no espelho”

  • Pedro David 17/06/2008 at 23:59

    Bom, na verdade há os que a gente gostaria de ser os que efetivamente ” somos.” Eu queria ser Rodrigo Cambará, qualquer dos dois, mas estou mais próximo do Floriano, o último. Aceitaria ser Riobaldo, mas com documento registrado em cartório, em duas vias, garantindo que eu iria encontrar logo o Cumpade Quelemém, com as “palavras certas.” Eduardo Marciano também foi identificação à primeira página. Entre os que eu gostaria de ser, posso colocar também Mandrake…

  • Fernando Molica 18/06/2008 at 00:57

    O melhor de todos, Brás Cubas, já escreveu morto. Não vale.

  • Carlos Goette 18/06/2008 at 09:18

    Espírito vale? Eu gostaria de ser o Caboclo Capiroba, do “Viva o Povo Brasileiro”. Muitas encarnações para realizar façanhas mil nas terras bahianas.

    Brincadeiras a parte, os personagens literários são espiritos atormentados. Meu personagem ideal seria rico, muito rico, sem qualquer conflito com nada, gozando a vida em plenitude. Ou seja, um pé no saco.

  • Guilherme Montana 18/06/2008 at 09:48

    Riobaldo é uma opção. Ou, quem sabe, Vadinho, pra quem não é lá muito chegado nem em filosofias nem em trabalho, porque, querendo ou não, James Bond trabalha um bocado. Aposto que Vadinho é o sonho de muitos (inconscientes disso, na maioria).

  • Fernando Torres 18/06/2008 at 09:52

    Menino Maluquinho, de Ziraldo, ou Talvez um personagem de Guimarães Rosa.Vale o Menino Maluquinho? É literatura?

  • Isabel Pinheiro 18/06/2008 at 12:15

    Se vale literatura infantil, eu queria ter sido a Emília do Monteiro Lobato. Livre, inquieta, aventureira, politicamente incorreta e feliz.

  • Rafael 18/06/2008 at 13:06

    Se a pergunta fosse que personagem gostaria de ser da literatura da língua portuguesa, talvez respondesse Fradique Mendes, a irreverente criação do Eça de Queirós. Mas, pensando bem, nesta época em que vivemos, a elegância, a verve e o desassombro só trazem inimigos e a ojeriza geral da nação. Em termos práticos, se o objetivo for alcançar a ascensão social, o melhor é ser o grão-mestre dos medalhões, o pai que instrui seu filho, na madrugada em que atinge a maioridade, nas sutilezas do ofício de medalhão. Vulgar, de inteligência irrelevante e previsível: eis os predicados morais que recebem o aplaudo geral.

    A literatura brasileira é povoada quase completamente por criaturas vulgares, preguiçosas, sem imaginação. Ou são vítimas do destino, como Fabiano de Vidas Secas e Macabéa da Hora da Estrela, ou são seres desprezíveis, como os coronéis de Jorge Amado, ou são caricaturas grotescas, como Macunaíma e Policarpo Quaresma. Emília é uma boa sugestão; mas ela é apenas uma boneca de pano, a quem se perdoa a loquacidade irreverente por não compartilhar da condição humana.

    Agora, cá entre nós: considerando a qualidade e o número das Bond Girls, o homicídio até que não é tão ruim assim.

  • C. S. Soares 18/06/2008 at 13:32

    Machado (qual autor não é personagem de si mesmo?): pobre, mulato, gago, epilético e imbatível com a pena na mão.

  • kylderi 18/06/2008 at 14:13

    Seria João dos contos de Dalton Trevisan.

  • Chico 18/06/2008 at 14:28

    Depende…Jeronimo do Cortico e o Leonardo, o Sargento de Milicias; podem rir, mas Rubiao do Quincas Borba, mas tambem Julien Sorel e muitos herois e anti-herois do Sergio Faraco.

    Na minha juventude tive vontade de ser o Cobrador do Fonseca…, mas isso so funcionava na literatura… na vida real, os anteriores sao melhores.

  • Eric Novello 18/06/2008 at 15:34

    Eu seria o Ed Morte.
    Ou o cara que procura Dulce Veiga.

  • quemvem 18/06/2008 at 15:54

    Quincas Berro D’agua

  • Mr. WRITER 18/06/2008 at 17:33

    Olha, eu mataria muita, muita gente mesmo… sem broncas. Sabe aqueles dias de fúria? Ah eu em Brasília em um dias desses…

  • Raquel 18/06/2008 at 18:04

    Eu queria ser Bibiana Cambará… da avó, Ana Terra, eu já carrego o Minuano assoviando as lembranças que ainda hoje me assombram.

  • El Torero 18/06/2008 at 18:36

    O Major Toribio Cambará, aquele, como dizia o Veríssimo, bebia a vida aos baldes…

  • Tibor Moricz 18/06/2008 at 19:32

    Não gostaria se ser ninguém. Estou feliz comigo mesmo.

  • Tibor Moricz 18/06/2008 at 19:33

    “… de ser…”

  • Miriam 18/06/2008 at 22:19

    A gente sempre inventa um personagem. Se ganhar dinheiro com isso, melhor ainda.

  • T.S. 18/06/2008 at 23:22

    rola ser o tristram shandy?

  • vinicius jatobá 18/06/2008 at 23:25

    Vadinho, claro!

  • Gabriel 19/06/2008 at 01:07

    Qualquer malandro do cais dos parágrafos do Jorge Amado é uma vida e tanto.

  • Paulo Bentancur 19/06/2008 at 11:36

    Sérgio: Se eu fosse mulher, queria ser a protagonista adolescente de “Felicidade clandestina”. Sendo homem (heterossexualismo é foda: eu sou), porra, homem só se ferra ou é ferrado (o mesmo com as mulheres). Nossa literatura, afinal, de alguma forma, expressa o país de onde sai. Daí que… Tô aqui pensando… Pensando… Mandrake eu já quis ser, mas acho-o de uma afetação implícita, quase o James Bond, só que muito menos caricato. Sem matar ninguém fica difícil viver. Ser feliz soa tão piegas que ninguém teve coragem de pôr isso em literatura de qualidade. O que sobra? O escritor Tônio Santiago, do romance “O resto é Silêncio”, de Erico Verissimo. Primeiro, porque não me imagino outro personagem que um escritor. Segundo, porque há uma espécie de normalidade em Tônio em geral ausente nos escritores. Ele não é um neurótico ao extremo, como somos todos. Não é um grande escritor, de fato; mas ainda não está pronto. Quem sabe um dia…

  • Bruno Stern 20/06/2008 at 09:09

    Ninguém gostaria de ser o Bentinho???
    Eu seria mesmo o menino maluquinho. Ídolo.

  • Doida de pedra 23/06/2008 at 15:29

    A Aurélia Camargo (só não com esse nome) do livro Senhora de José de Alencar. A mulher era geniosa e poderosa, meu bem. kkkkk Bj

  • Albarus Andreos 26/06/2008 at 07:28

    Ao começar a ler os comentários, imaginei ser Pedrinho. Mas antes de chegar ao final, inseriram uma Emília (como sempre intrometida!). Com medo de não ser original, meu cérebro trabalhou rápido e achou uma razão para que eu não fosse Pedrinho: ele era um menino muito corajoso. Eu sou covarde, e não tenho vontade de ser corajoso. Estou bem como covarde. Depois alguém citou Vadinho, e mais alguém o recitou (posso escrever isso?) então vi que não precisaria temer ser repetitivo ou me preocupar com originalidade. Como bom covarde então declaro agora: Pedrinho, definitivamente.

  • Anna May 01/07/2008 at 16:58

    Til ou Aurélia, de Alencar, Emília de Lobato ou a Compadecida, do Ariano.

  • Victor 02/07/2008 at 09:12

    Rodrigo, Capitão Rodrigo!

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