Um romance a dez mil mãos

03/02/2007

Imagine um romance escrito nos moldes da Wikipedia, com cada autor contribuinte tendo o poder de pôr e tirar, escrever e cortar tanto o seu trabalho quanto o dos outros. O “projeto” – como o chamam com certa pompa seus criadores, gente da editora Penguin em parceria com uma universidade inglesa – leva o nome de A million penguins (“Um milhão de pingüins”) e está no ar desde quinta-feira, aqui. (Se a página não abrir logo, dê um tempo e tente de novo. Volta e meia, o serviço tem andado “temporariamente indisponível”, num sinal de sucesso maior que o esperado: em dois dias, o romance já chegou ao capítulo 7.)

Não, claro que uma coisa dessas não tem a menor chance de dar certo num sentido, vamos dizer, estético. Mesmo tendo regras mais ou menos estritas e contando, como conta, com um time de “moderadores profissionais” escalado para zelar 24 horas por dia pela qualidade do material, editando a edição dos colaboradores, o resultado da empreitada tem tudo para ser pífio.

O primeiro parágrafo provisório do romance – isto é, no momento em que escrevo – sugere que “pífio” talvez venha a se provar um adjetivo pálido. Vai uma tradução livre:

Tonhão esticou o braço, bocejou e, preguiçosamente, trocou o canal do noticiário internacional para um documentário sobre a arte de fotografar modelos em trajes de banho em Laguna Beach. Sua libido estava latejando.

Um provável desastre literário não será surpresa. Os fãs dos modernos “coletivos” que me desculpem, mas quem já tentou escrever ficção a quatro, seis ou oito mãos – eu sou um desses – sabe que o material é volátil demais para permitir manipulações sociais, ainda que em escala reduzida.

É claro que não sou contra experiências de criação coletiva, adaptações, citações mútuas, variações coletivas em torno de um tema – tudo isso pode ser bacana, como é bacana a experiência de flexibilização de direitos autorais do Creative Commons. O nó que me parece irredutível nessa história é o do próprio texto no momento da escrita. Neste caso, a criação grupal pode até ser divertida, mas gera um nivelamento por baixo que termina por solar o bolo. Sim, sou daqueles que temem que, se um dia vier abaixo a conservadora idéia de “autoria”, a própria arte venha junto.

Como a idéia de “Um milhão de pingüins” é, evidentemente, experimentar, explorar terreno virgem, e não produzir uma obra-prima, vai ser interessante acompanhar essa brincadeira.

19 Comments

  • Macaco 03/02/2007 at 01:10

    Parece ser melhor que Paulo Coelho

  • Raquel 03/02/2007 at 01:49

    Sérgio,
    estive por lá, mas não tive coragem de ler… imaginei um milhão de pingüins vindo em minha direção como uma avalanche de palavras!

  • Batman 03/02/2007 at 09:26

    Aposto 1 milhão de pinguins que hoje já teremos outras iniciativas identicas a fim de garantir a vaga de pioneirismo

  • Saint-Clair Stockler 03/02/2007 at 10:04

    Pois eu proponho que a gente faça algo parecido aqui nas páginas do TodoProsa. Evidentemente, o veículo é muito menos “maleável” que a Wikipédia (não dá pra corrigir, cortar, reescrever on line), mas vamos ter um espírito lúdico. Aí vai a minha contribuição inicial:

    “A luz do sol, filtrada em raios pelo tecido da cortina, tocou primeiro a ponta dos dedos da mão dela. Dela? É certo que tratava-se de mão delicada, com dedos finos, bem-cuidada, sem calos ou cicatrizes aparentes: mão de quem não tinha por hábito lidar com tarefas braçais demasiado pesadas. Mas, a partir desses detalhes facilmente observáveis, extrapolar imaginando tratar-se de uma extremidade feminina é dar um passo perigoso apoiado unicamente na imaginação. Podia ser a mão de um homem, sim: um desses modelos de revista e passarela que a gente vê na TV, alguns tão andróginos (o gosto do tempo), cabelos longos, lábios finos, ar falso de inocência. A questão, nesse caso, poderia ser outra: não se se tratava de mão masculina ou feminina, mas o que estaria ela fazendo sobre uma cama de lençóis amarfanhados, num meio-dia de segunda-feira do mês de janeiro, num apartamento de décimo andar em Copacabana.”

  • Antônio Augusto 03/02/2007 at 11:44

    Mesmo texto ficcional escrito simultaneamente por diversos autores não passa de passatempo. Desculpem, passatempo inútil.
    Um exemplo da literatura brasileira, “Brandão entre o mar e o amor”, parceria de Jorge Amado, Aníbal Machado, Graciliano, Rachel de Queiroz, e outro escritor que não me lembro. Cada um escrevia um capítulo. Com time de primeira, resultado sofrível, verdadeiro samba do crioulo doido. Só escapou o capítulo do Graciliano, intitulado “Mário”, pois concentrado em apenas um personagem, com a categoria de sempre deste nosso clássico. Os outros saíram dando tiro pra todo lado, livro ininteligível, algaravia.
    Literatura como autoria é expressão individual. O contrário redunda em desastre estético. Na melhor das hipóteses, apenas brincadeira.
    Há outro livro no gênero, de dez autores importantes brasileiros, “O mistério dos MMM”, este bem mais conhecido que “Brandão entre o mar e o amor”, mas não li, talvez devido à experiência anterior. Aliás, o “Brandão” é tão ruim que larguei o livro pela metade, me limitei a folhear o resto.

  • Noga Lubicz Sklar 03/02/2007 at 12:52

    Concordo com Antonio Augusto quanto à literatura como expressão individual. Aproveito a deixa e faço meu, temporariamente, o divã do TodoProsa… para uma pergunta que tem me afligido a lida diária: o que há de tão cafona, tão sofrido, na associação do termo “latejante” à idéia de libido? A libido, é certo, não lateja, mas os agentes dela, sim. Tenho tratado a palavra como simples tradução da realidade. É opção literária sofrível? Ou simplesmente intimidante, sei lá por que motivo? Quem sabe pela raridade cultural do orgasmo?

  • Aurelino Ramos 03/02/2007 at 13:08

    disso tudo que foi dito, não entendi merda nenhuma

  • Marco Polli 03/02/2007 at 15:10

    Poxa, Sérgio, quanto preconceito… inclusive acho que você deveria tornar o TodoProsa um blog aberto, em que todo mundo poderia escrever.

    Agora falando sério, não houve no Brasil, uns 5 anos atrás, uma experiência em que alguns escritores já estabelecidos desenvolveram uma narrativa usando o retorno nos comentários dos internautas? Não me lembro dos detalhes, mas alguém se recorda dessa história?

  • Marco Polli 03/02/2007 at 15:12

    (quer dizer, ele já é aberto nos comentários, claro, mas eu estava brincando com os próprios posts)

  • Freddie Fernandes 03/02/2007 at 15:14

    Pois é, o comentário do camarada aí de cima é a síntese do que foi afirmado nos e-mails anteriores. Os outros disseram os porquês de não gostarem da ideía de uma obra escrita a mil mãos. Ele foi mais original, confessou não entender nada. É difícil acreditar em uma obra que não nos oferece nenhuma garantia de linearidade, onde milhares de perspectivas são depositadas em um texto de mil olhos para ser lido por um leitor. Não será a arte contemporânea com seu imã agregador nos chamando para construir de novo um novo estilo? Como diria o grande Quintana, ” se eu fosse acreditar em tudo que penso, ficaria louco”. Se o meu pensar já tem o poder de me enlouquecer, fico imaginando os muitos pensares reúnidos em uma obra… Só resumindo para entender a vontade humana de querer agregar tudo: necessidade de identificação.

  • Lucas Murtinho 03/02/2007 at 15:33

    Sérgio, escrevi um post sobre (entre outras coisas) essa nova iniciativa da Penguin em http://bonjourlafrance.blogspot.com/2007/02/sabedoria-das-multides-e-o-futuro-dos.html. Sim, shameless self-promotion. Espero que você não se importe.

    Ah, e “Pega pra kaputt!” é divertido.

  • André Pessoa 03/02/2007 at 18:39

    Talvez desse certo um livro onde um autor, moderador supremo, pudesse descartar quaisquer contribuições frágeis para o que ele estivesse escrevendo.

  • Cezar Santos 04/02/2007 at 10:38

    Isso é porcaria…. passatempo, infraliteratura, coisa típica de internet, como a literatura feitas nos blogs.
    Serve como curiosidade e só.

  • Doutor Gonzo 04/02/2007 at 13:37

    Continuando a proposta do Saint-Clair:

    “FIM”

  • Jonas 04/02/2007 at 13:59

    É, né, aquela coisa de que “ó, que interessante, a arte tornada democrática”. Importante, suponho. Só me pergunto: o tempo já não anda escasso demais, nesses tempos de tantos lançamentos e clássicos que ainda precisamos ler? Perder tempo com isso, ainda que seja um divertimento, parece-me um tanto dispensável.

  • marcusmartins 04/02/2007 at 16:21

    na linha de romances a quatro mãos, lembro de ouvir elogios a um livro escrito pelo Conrad com o Madox Ford, mas também aqui estamos falando de dois mestres da língua inglesa.

  • Joao Gomes 05/02/2007 at 12:24

    Isso é uma demonstracao de quanto bobo e insano pode ser os internautas. Ilusoes perdidas de grandeza.

    (Aqui no Brasil já teve a experiencia proposta por Mario Prata. É o único que me recordo agora.)

    Sempre acreditei que na Web sempre existiu e, quiçá, existirá os becos sem saida e as idéias mirabolantes de “inovacao”, “maravilhas democráticas da liberdade de expressao”. Liberdade essa tao mal-entendida ou confundida por libetinagem.

    Admira-me que uma editora de prestigio se dê a este trabalho. E mais estranho é que uma universidade esteja nesta parceira. (muito embora o IgNobel já atesta, tradicionalmente, uma vasta producao de superfluidades e bizarrices.

  • vqixy kpelitsw 01/03/2007 at 11:42

    eqids ypauikws prekdh txrkwne mvwps sakt tmpdgfe

  • dvtqn byfpw 01/03/2007 at 11:42

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