Uma flor para Drummond

04/07/2012

O poeta Antonio Cícero foi responsável pelos melhores momentos da mesa de abertura da Flip, a primeira das três previstas para homenagear Carlos Drummond de Andrade, encerrada agora há pouco. Ao fazer um inspirado exercício de close reading, isto é, de leitura detida, verso a verso, do poema “A flor e a náusea”, terminou por se aproximar mais – e ao público – do poeta mineiro do que o crítico Silviano Santiago conseguiu, com sua explanação de ambição totalizante, que ele mesmo se apressou a reconhecer como tarefa “inglória”, de uma obra extensa e multifacetada demais para tanto.

A noite começou com uma breve crônica de Luis Fernando Verissimo, escalado para saudar a décima edição da Flip – festival ao qual, certa vez, escreveu que aceitaria vir “até para trocar uma lâmpada”, como lembrou o curador Miguel Conde ao apresentá-lo. O cronista tratou de divertir o público com sua verve, lembrando que em 2008, ao entrevistar, nervoso, o dramaturgo inglês Tom Stoppard no palco da Tenda dos Autores, confundiu-se a chamou o evento de “Clip”. “O público não entendeu, mas o C era de celebração”, brincou.

Afirmando ter sido convidado para apresentar na Flip um “panorama da obra” de Drummond, Silviano Santiago leu um texto em que busca explicá-la pela chave da tensão dramática entre “razão e emoção, Marx e Proust, revolução político-social (…) e o gosto pelos valores familiares do clã dos Andrades”.

Silviano entrou com a prosa. Coube a Antonio Cícero introduzir a poesia na noite quente de Paraty, lendo e examinando com ênfase o belo “A flor e a náusea”, poema do livro “A rosa do povo” (1945), da fase marxista de Drummond, aquele do memorável verso “As coisas. Que tristes são as coisas consideradas sem ênfase”. Em crise com a coisificação da humanidade – que Cícero vê agravada hoje pela era digital – o poeta recupera o poder de se espantar quando uma flor sem nome, feia, nasce no asfalto. “Uma das funções da poesia é exatamente a desautomatização da linguagem”, concluiu o palestrante. “A flor é metáfora não para um acontecimento social, mas para a própria poesia.”

2 Comments

  • Marcelo ac 05/07/2012 at 11:31

    Sobre a A Flor e a Náuse, o poeta retrata o nascimento de uma flor no
    asfalto. Uma flor que não se abre, uma flor que não está nos livros,
    uma flor que nasceu feia, que furou o piche negro, e que é tudo isso
    porque justamente é essa sua crítica àquilo que nos
    transformamos: mercadoria. O melhor que ele pode dar de si, portanto,é o ódio. Se até os crimes ele disseca e escolhe o melhor para publicar, entre os mais belos ou os mais feios, só uma flor sem pétalas pode
    nascer disso, cara!! Cruel, Drummond, cruel drummond!

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