#**}%#!!! Uma história escabrosa e sua lição inestimável

30/03/2011

Acendam uma vela por Jacqueline Howett, autora autopublicada e autodestruída em público, numa das histórias mais pungentes – e, para bom entendedor, didáticas – que a selva cheia de novos perigos da internet já propiciou nos domínios da literatura.

Os personagens principais do caso são praticamente anônimos. Ou eram anônimos até poucos dias atrás, quando começou a guerra internética que se espalhou feito um vírus de gripe suína pela blogosfera literária de língua inglesa. Jacqueline Howett, nascida em Londres e radicada nos EUA, autopublicou no Kindle um romance chamado The Greek seaman. BigAl, blogueiro de literatura, fez uma resenha do livro em que lamenta os inúmeros erros sintáticos e ortográficos que atravancam a leitura, cotando-o em duas estrelas.

Até aí, tudo normal. O problema é que a autora começou a bater boca com o crítico na caixa de comentários. Qualquer pessoa que já tenha acompanhado um desses acalorados “debates” online – e haverá alguém que não, a esta altura do furdunço virtual? – sabe como eles, por alguma razão que parece ter a ver com a própria atmosfera do meio, tendem a degenerar rapidamente num espetáculo muito, muito feio.

Quem estiver interessado nas minúcias do vale-tudo pode ler aqui, em inglês, o post de BigAl e os 307 comentários que gerou (antes que o thread fosse fechado, segunda-feira). Para resumir, outros leitores entraram previsivelmente na conversa, boa parte sob aquele véu de anonimato que deixa todo mundo mais corajoso e menos educado do que seria na vida real, e Jacqueline Howett, que já não parecia um modelo de equilíbrio, surtou. A partir de certo ponto, passou a martelar uma única resposta impublicável, ainda que, para sua danação, publicada:

#**}%#!!!

Aí a coisa virou um circo romano, com a infeliz autora no papel de cristã rodeada de leões gargalhantes. Seu maior erro foi não entender nada da dinâmica de um meio, como foi dito acima, perigoso. “Parabéns por destruir publicamente sua reputação e manchá-la para o resto da vida”, escreveu um Anônimo com evidente prazer. Pouco antes do fechamento da caixa de comentários, ocorreu a um comentarista recuar três passos e dizer algo embaraçoso para todos os envolvidos:

“Não entendo como entrar num blogue para se deliciar com ou rir de alguém que está tendo um colapso emocional público possa ser visto como um comportamento melhor do que ter um colapso emocional público. Os seres humanos não prestam.”

Moral da história para escritores presentes e futuros: quando sentir o impulso de responder a uma resenha negativa – e você vai sentir, pode apostar um milhão nisso – acorrente-se ao pé da mesa e atire bem longe a chave do cadeado.

(Via blog de livros do “Guardian”.)

20 Comments

  • Tibor Moricz 30/03/2011 at 12:14

    Na esfera da literatura de gênero tivemos um episódio desses uns dois anos atrás. O criticado esperneou tanto, tecendo argumentos de defesa tão ridículos (tão ridículos quanto o livro que publicou) que conseguiu manchar a própria imagem pra um monte de gente séria. Claro que a claque que o acompanha continua a lhe bater palmas. Sempre existirão leitores sem nenhum senso crítico para autores ruins.

  • zanzoreia 30/03/2011 at 12:23

    Gostei:
    “outros leitores entraram previsivelmente na conversa, boa parte sob aquele véu de anonimato que deixa todo mundo mais corajoso e menos educado do que seria na vida real.”

    E se não estiver no anonimato, for corajoso e menos educado, com certeza, surtou.

    Os de cara lavada são os loucos.
    Os anônimos são o quê?

  • Lollo 30/03/2011 at 12:34

    Moral da história 2: a falta que faz um editor (ou pelo menos um trabalho de revisão profissional) para alguns escritores.

    • sergiorodrigues 30/03/2011 at 12:56

      Verdade, Lollo.

  • André Alvarez 30/03/2011 at 13:16

    Ótima análise, Sérgio. Concordo muito. A abundância de comunicação que a rede permite é bastante espinhosa para as relações humanas. Os códigos de conduta antigos já ficaram caducos, e os novos ainda engatinha.

  • André Alvarez 30/03/2011 at 13:37

    … engatinham, claro. E todos chora, não tem jeito :-)

  • marcello fonttes 30/03/2011 at 16:15

    Sensatas palavras…

  • marcello fonttes 30/03/2011 at 16:30

    ” Os códigos de condutas antigos já ficaram caducos, e os novos ainda engatinham…” Eu heim?!!! Os códigos de condutas são assentados em equilíbrio, educação e ética. Esses predicados são verdadeiros, e a verdade simplesmente É, não admite fracionamento nem se presta a interpretações. Além disso é atemporal e o caminho escolhido pelo Criador. Não custa repetir o Cristo: ” Eu sou o Caminho a Verdade e a Vida, ninguém irá ao Pai se não for por mim… .”

  • Bruno 30/03/2011 at 23:35

    Exemplo geral citado em círculo vicioso = Processo no qual uma situação (ação, ideia etc.) conduz a consequências ou conclusões que acabam por levar à situação inicial, reiniciando-se o processo.

  • São para esses momentos que existem as palavras: “desculpe” e “obrigado”, que a maioria dos “superiores” faz questão de esquecer.

  • Ricardo D. 31/03/2011 at 08:06

    De fato, flame wars são inúteis. O anonimato que a internet oferece aflora a selvageria e a irresponsabilidade nos indivíduos. Por isso que a Constituição diz ser livre a expressão do pensamento mas veda o anonimato.

  • Robinson Crusoé 31/03/2011 at 10:25

    Caro colunista,
    Gostei da metáfora da corrente, vai lhe servir bem. Achei o artigo um pouco vil, de pouca monta para uma “história escabrosa e lição inestimável”. Outras frases prontas utilizadas no seio do artigo me pareceram infantis, v.g “Acendam uma vela por”; “selva cheia de novos perigos da internet”; “bater boca”; “furdunço virtual”; “para sua danação” e a “pior cristã rodeada de leões gargalhantes”. Enfim, não sei qual é o seu público, mas a mim não agradou.

    • sergiorodrigues 31/03/2011 at 11:12

      Beleza, Crusoé. Mas não se superestime, seu comentário passa longe de merecer corrente.

  • André Alvarez 01/04/2011 at 20:49

    Marcello Fonttes, quer que eu desenhe?
    Onde falei que caducaram os valores ou a ética? Caducaram os códigos de conduta, a etiqueta (pequena ética, não?), ou seja, as ferramentas (modos?) que utilizamos para transferir nossos valores para as situações cotidianas e corriqueiras da convivência humana.
    Falei que gosto disso? Não falei, pois não gosto. Mas é simplesmente um fato observável (pela narrativa do Sérgio, inclusive) que, nas novas situações e ambientes tecnológicos que se impõe à nossa comunicação, muita gente se mostra inábil para administrar nosso comportamento e nossos valores. E caem por terra o respeito, a educação, a cordialidade, o espírito esportivo.
    A etiqueta já estava demodé antes da internet nascer. Agora então, é preciso reinventá-la.
    E isso não tem nada a ver com relativismo, Marcello, o grande cão que você teme furiosamente. Mais modos, meu caro.
    E desculpem a verborragia.

  • Augusto Treppi 03/04/2011 at 22:03

    Imaturidade da tal escritora né? Resenhas e/ou críticas não pedem respostas. O autor recebe, reflete, e vê o que tira de proveito.
    O tal “editar por conta própria”, em voga pelas facilidades atuais, é também um enorme risco. Acho que quem se dispõe a publicar deve procurar se cercar de um mínimo de profissionais.
    Enfim, bem que eu gostaria que um certo expert se manifestasse quanto aos meus livros já publicados, mas tá difícil viu… 😉

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