Uma manhã na vida do poeta

16/09/2011

O poeta faz a barba, contente. O espelho lhe devolve isso: o poeta faz a barba. E acordou contente.

Se o poeta se enxergasse, se tivesse um espelho de mínima fidelidade diante de si, talvez não estivesse tão contente. O poeta é barrigudo, preguiçoso, solteirão, duro, meio dependente da mãe, bebe demais, fuma maconha demais, precisa tratar dos dentes. Além disso é dado a surtos de mau humor que, ao longo dos anos, já lhe custaram muitas e queridas amizades.

Só que o poeta não enxerga nada disso. O que o seu espelho lhe devolve é um poeta. De barba feita.

Desce para a rua e, na primeira esquina, o mendigo de todo dia lhe pede esmola. O poeta, como todo dia, finge que não ouve. Vê o primeiro carrinho de bebê a simbolizar a criação, tão harmônico com as manhãs. No sinal vermelho de pedestre aguarda civilizado, mas pensa: e se uma bomba de nêutrons explodisse agora, simbolizando a morte, o fim?

Tenta compor versos por livre associação. Bomba de nêutrons meio da manhã. Seios de Neuza rebentar de frutas. Nem bênção memória de lesmas restantes.

Distraído, quem será essa Neuza?, o poeta demora a perceber que o sinal abriu. Quando começa a andar é tarde, o retorno do sinal vermelho o surpreende no meio do caminho. O poeta se sente um patinho enguiçado de parque de diversões diante daquele pelotão de fuzilamento, a linha de carros a rugir.

Buzinas, correria, coração aos pulos. Um motorista sacana faz questão de tirar fino do poeta. Ele chega à outra calçada com os nervos na afinação mais aguda possível antes da ruptura. Está pronto para perder mais um amigo, tão logo cruze com um.

Certas manhãs, muito de vez em quando, o poeta pensa que gostaria de ser uma pessoa comum, com a sensibilidade de uma pessoa comum, de ser feliz e embotado numa palermice de pessoa comum, em vez de ser tão profundamente poeta.

8 Comments

  • Felipe Holloway 16/09/2011 at 11:48

    “…e se uma bomba de nêutrons explodisse agora, simbolizando a morte, o fim?”

    Hahaha! Enxergar simbolismos em toda a parte: eis o TOC supremo não só de poetas como de contistas, romacistas e escrevinhadores de porta de banheiros públicos em geral. São capazes de absurdos como interpretar o sonho erótico de uma amiga recém-abstinente do vicío de fumar como uma clara alusão ao charuto. Daí se sucede que a sinestesia dificilmente acometa esses profissionais. Um poeta sinesteta seria, além de uma rima infame, uma aberração, uma redundância e uma injustiça tão grandes da natureza como um homem com dois pênis funcionais. O excesso de sensibilidade o deixaria louco ou o faria destronar Shakespeare – quiçá os dois.

    A melancolia do parágrafo final ficou bonita, coroando a quebra do encanto representada pela ação do motorista sacana.

    Gostei.

  • Wilian Fernandes Pereira 16/09/2011 at 14:24

    Muito lindo, parabéns.

  • Jorge Otavio Daniel 16/09/2011 at 14:33

    Gostei, uma crônica, se realmente for crônica, muito agradável fiz uma boa leitura.
    Parabéns

  • marcelo ac 16/09/2011 at 17:35

    Sérgio, ficou faltando as preferências literárias do poeta. Duvido muito que ele se interessasse por Sidney Sheldon ou Morris West. Mas lhe pergunto, para ficar somente nos ficcionistas, e nada “The Waste Land” e coisa parecida – ele toparia um “O Som e a Fúria” de Faulkner?

  • Leonardo 17/09/2011 at 09:23

    Muito bom, belíssimo texto, Sérgio. É sempre uma satisfação acompanhar o todoprosa.

  • Rogério Ananias Barbaresco 20/09/2011 at 09:59

    Muito bom o texto, parabéns! Aproveito e deixo aos leitores do blog a sugestão do site Brasil ePub (http://www.brasilepub.com.br), que disponibiliza gratuitamente clássicos de nossa literatura em formato e-book (ideais para iPad, iPhone, Android etc..)

  • Caribó Xoxó 20/09/2011 at 21:20

    Belo texto. Parabéns! Espero-te lá:

    http://cariboxoxo.blogspot.com/

    Forte abraço, Xoxó

  • Vetrus Orion 24/09/2011 at 14:39

    Muito importatante falar sobre Poetas. Parabéns de um poeta Sorocabano

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