Uma tarde na vida do crítico

14/09/2011

Dagoberto Castro de Menezes fechou seu Ovídio magro ricamente encadernado e o pousou na banqueta Joaquim Tenreiro ao lado da Bergère, de onde tomou da xícara fumegante de Darjeeling e de um Agamben que lia com apetite cada vez mais magalizesco, para citar Maurício.

Leu concentradamente por quarenta e oito minutos. De repente pôs o livro de lado e pulou da poltrona pensando no homo sacer. A tarde envelhecia. Puxou uma cordinha. Um minuto depois, quando o mordomo apareceu, comandou a carruagem para as seis em ponto. O recital seria às oito e meia, queria jantar antes.

A hora e tal que lhe restava ao ócio Dagoberto, ou Castro de Menezes, como ele preferia, a empregou em seu passatempo predileto, pequena extravagância que um dia, em momento de exasperação, tivera a fortuna de criativamente improvisar: dar de comer à lareira sólidos toros de literatura brasileira contemporânea.

Deitados lânguidos ao fogo, os livros iam mudando de estado no mundo da matéria num belo espetáculo de chamas coloridas, e Dagoberto Castro de Menezes (usemos o nome todo, para evitar confusão) se deu conta de que aquilo era puro homo sacer, sim, claro! Ficou feliz com a ideia, era isso mesmo: a literatura brasileira contemporânea é o homo sacer, o santo às avessas. Aquele que é tão desprezível que não tem direito nem à própria vida, qualquer um pode matá-lo impunemente, como ele fazia agora. Mas que nunca poderá ser morto em ritual sagrado no altar dos mais supinos valores críticos, sob pena de danação para o crítico e toda a humanidade que este representa. Ao fogo, pois, que assim ninguém corre riscos.

Uma hora depois, como sempre ocorria após uma sessão daquilo que havia batizado Bibliofilia Paradoxal Pírica, BPP, Dagoberto Castro de Menezes III, PhD, sentia-se leve e excitado. Pelo iPhone confirmou que Thiago, seu aluno mais burrinho e mais bonito, iria ao recital. Falaria do homo sacer a Thiago, ele como sempre não entenderia nada, mas falaria mesmo assim, para humilhá-lo. Será que Joaquim Nabuco também estaria lá? Uma foto ao lado de Nabuco na coluna do Joaquim não faria mal à sua carreira.

Dagoberto Castro de Menezes, CEO de ONG, 1,67m, dago@hotmail.edu, consultou seu Patek Philippe: cinco e dez. Tempo para um breve banho de imersão com o prodigioso sel de bain à la menthe poivré de Marius Fabre. Depois, a carruagem, a noite, a vida!

8 Comments

  • Fedor 14/09/2011 at 15:48

    Sérgio, admiro seu esforço, mas menos que sua própria admiração pela literatura. Por isto, dói-me dizer que você, ou está com muita pressa, ou anda sofrendo de pouca criatividade. Grande abraço, nada obstante.

  • Regina 14/09/2011 at 17:05

    Vai mal o ilustre Dagô, periga acabar a noite na casa de orates!

  • Afrânio C. 15/09/2011 at 07:14

    Ficção humorística de fina cepa. Grata surpresa encontrar tal artigo no armazém digital. Parabéns.

  • Marta 15/09/2011 at 09:16

    Muito bom! Tenho só uma dúvida o Dagoberto usa iphone e anda de carruagem ao mesmo tempo????

  • Afonso 15/09/2011 at 11:00

    Fina ironia nas idiossincrasias do crítico Dagoberto Castro de Menezes… a misturar os tempos e a demonstrar que tudo muda para efetivamente permanecer o mesmo. Abraço.

  • Martha 15/09/2011 at 12:17

    Ah…eu já achei o anacronismo muito charmoso, ainda mais com esta oração final : ” Depois, a carruagem, a noite, a vida!”…. lembrou-me daqueles espirituosos personagens machadianos…

  • Rafael 15/09/2011 at 17:27

    A menção ao Patek Philippe mostra que o Sr. Dagoberto é deveras um homem de gosto muito cultivado, um gentleman legítimo. Não é de estranhar o estravagante hobby pirômano, coisa de quem tem espírito elevado e humour sutil e refinado. A mim, um rude bárbaro a quem não foi dado saborear tais prazeres mundanos, quando vejo um tomo de literatura brasileira, só me restava o gesto de desprezo pueril, parco recurso de que me valia por não ter tido, pobre de mim!, a sagacidade de aceder a pira. A partir de agora, graças ao augusto exemplo do Sr. Dagoberto, muito papel irá arder na chama implacável.

  • roberto almeida 16/09/2011 at 00:08

    tá cada vez melhor, sua fauna de bibliófilos e literatos.
    rola de juntar tudo em outro livro não?
    Obrigado, Roberto. Rola sim, acredito que não demore muito. Um abraço.

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