Vaca-fria

18/10/2008

Nas últimas semanas brilharam nesta página as palavras juros, crise e pânico. Como a histeria financeira ainda parece longe de passar, é hora de voltar à vaca-fria – expressão que quer dizer retomar algo deixado para trás no atropelo da conversa, mas que não se considera devidamente resolvido. No caso, retomar o saudável ecletismo do papo sobre termos de nosso vocabulário. Como, por exemplo, vaca-fria.

“Voltar à vaca-fria” é uma locução misteriosa. Por que vaca? Por que fria? Isso não afeta sua popularidade no Brasil e em Portugal – talvez maior lá do que aqui –, como se pode comprovar numa rápida consulta ao Google. Dicionarizada desde que o lexicógrafo português Cândido de Figueiredo a registrou, em 1899, a vaca-fria é cercada de silêncio quando se trata de investigar sua origem.

Um silêncio que não é completo, felizmente. No oitavo volume de seu Grande Dicionário Etimológico-Prosódico da Língua Portuguesa, de 1968, o filólogo brasileiro Silveira Bueno vai buscar a seguinte história no colega e compatriota Teobaldo, pseudônimo de Francisco Mendes de Paiva, que em 1879 publicou o livro Provérbios Históricos e Locuções Populares:

“Com pequena variante de animais, ora o carneiro, ora a cabra, diz Teobaldo (…) que é muito velha a frase, prendendo-se, em português, ao fato de litigarem perante um juiz sobre a posse de uma vaca: a certa altura, quando o advogado da defesa fazia longas digressões, falando até de Faetonte e do seu carro ardente, atalhou o juiz: ‘Tudo isto é muito bonito, mas voltemos à vaca fria’.”

Legenda necessária: Faetonte é um personagem da mitologia grega, filho do deus Hélios, que um dia foi dirigir a carruagem paterna – o Sol – e ateou fogo ao mundo. É a essa figura desastrada, e ao calor da oratória que ela inspira ao advogado, que o sarcástico juiz contrapõe sua vaca-fria.

Publicado na “Revista da Semana”.

17 Comments

  • Pedro Curiango 18/10/2008 at 02:19

    Só um pequeno adendo: Encontrei o seguinte no livro “Collecção de Proverbios, Adagios, Rifãos Anexins Sentenças Morais e Idiotismos da Língua Portuguesa”, de P.[aulo] Perestrello da Camara: “”Tornar, ou, voltar á vacca fria. (Ao que era d’antes, ao costumado, ao mesmo, á materia que se tratava, &c.)” [pag. 231]. O livro foi publicado no Rio de Janeiro, em 1848, pela casa editorial de Eduardo e Henrique Laemmert. Inocêncio (vol. VI, pag. 371) informa que Perestrelo era português, da Ilha da Madeira, e morreu no Rio em 1854. Inocêncio sugere a possibilidade de que este livro seja uma edição aumentada de obra idêntica, publicada pela Tipografia Rollandiana, de Lisboa, em 1780. Como Inocêncio não tinha à mão o livro de Perestrelo e eu não tenho o de Rolland, não posso dizer se a expressão aparecia no volume de 1780.

  • Alberto Martinet 18/10/2008 at 07:31

    Prezado Sérgio,

    A tese que você apresentou sobre a origem da expressão «vaca-fria» é interessante, mas traz embutido um problema.

    Como é possível que uma expressão, ainda que genial fosse, lançada no decurso dum obscuro litígio sobre a posse de um ruminante, possa ter ecoado fora do tribunal e se alastrado a ponto de se a poder encontrar, aos milhares, hoje em dia, numa pesquisa google?

    Li, certa vez, que essa expressão faz alusão a um prato frio, servido habitualmente em Portugal como entrada, composto de carne de vaca. Assim, «voltar à vaca-fria» equivaleria, no imaginário popular, a recomeçar, a retomar um assunto desde o começo.

    Vendo-lhe o peixe pelo mesmo preço que paguei e não lhe garanto o frescor.

    Cordialmente

  • Sérgio Rodrigues 18/10/2008 at 09:13

    Curiango: interessantes essas pistas sobre a antiguidade da expressão, de resto mencionada por Teobaldo, segundo Silveira Bueno (“muito velha”). Mas nenhuma palavra sobre o porquê dela? É pena.

    Martinet: desculpe, mas o problema que você aponta não existe. O alastramento se deu (ou se teria dado) via anedota. Teobaldo não diz sequer que o litígio ocorreu de fato, e note que os animais variam conforme quem conta a história. Como piada, ainda que semi-erudita, é fácil imaginar a vaca-fria se espalhando.

    Quanto à história do prato frio, também já a ouvi. Infelizmente, ela sempre veio desacompanhada de qualquer evidência, prova documental, citação ou mesmo o nome da tal entrada. Como também não conheço uma entrada portuguesa nesses moldes, esse peixe eu prefiro não comprar.

    Isso não quer dizer que a tese de Teobaldo seja batata. É apenas a única tentativa decente de explicação que encontrei nas estantes. Pode também ser uma baita lenda, e fiz questão de não lhe dar tratamento de verdade provada (“vai buscar a seguinte história”). Etimologia é terreno traiçoeiro, aí está uma de suas graças.

    Abraços.

  • Caio Marinho. 18/10/2008 at 10:08

    Saramago também cita a tal vaca, embora não fale dela.

    http://caderno.josesaramago.org/2008/10/page/7/

  • Octavio Aragão 18/10/2008 at 10:15

    Prefiro a versão de tribunal à culinária. Quando a verdade é insalubre, sirva-se a lenda.

  • Sérgio Rodrigues 18/10/2008 at 10:47

    Octavio, concordo com sua preferência, mas a razão dela é estranha. Por que você chama de “verdade” (ainda que insalubre) a teoria culinária, que até aqui não tem uma linha de bibliografia a seu favor, e de lenda a versão do tribunal, que tem? Só porque uma parece cândida e a outra é cheia de rebuscamentos clássicos?

    O critério da candura, embora tenha sua utilidade, muitas vezes nos derruba do cavalo. Por ele, jamais acreditaríamos que nosso galo garnisé, tão invocado e tão caipira, deve seu nome à ilha britânica de Guernsey, de onde foi importado. E deve. Isso sim pode ser chamado de verdade sem susto. Um abraço.

  • Muito Estranho 18/10/2008 at 12:14

    Tem muitas firmas que passam anos e mais anos obtendo lucros enormes, e no primeiro tombo o mercado ja fica se dizendo preocupado com a possibilidade de falencia. Será que é todo mundo é ingênuo ou finge ser ingênuo. Tenho a forte impressão que “nervosismo de mercado” é igual a especulação ou seja gente ganhando dinheiro sem fazer nada.

  • Leoncio Kaminsky 18/10/2008 at 12:32

    Também prefiro a versão do tribunal à do restaurante. Mais sofisticada, erudita, me parece, mais consistente tambem. Quanto ao fato de ser menos “popular”, nao vejo nisso impedinto para que tenha se espalhado. Afinal, como sabemos, muitas das expressões da língua surgem de um fato isolado, aparentemente sem maiores desdobramentos, mas que se espalha como o chamado “marketing viral” da Internet dos nossos dias. Num desfile em Sao Paulo, a “trombada” do elefante vira batida de carro. O que dizer do escrúpulo, a pedrinha que os antrigos romanos usavam para equilibrar a balança e atravessou milenios até nõs? Tão minúscula e hoje com significado tão relevante – embora, infelizmente, um tanto demodê. Da mesma forma (Thanks God!), expressões que se difundem por muito tempo acabam às vezes esquecidas. Notaram que o “a nível de” anda sumido? E sei que muitos nao vao concordar e estou sendo otimista, mas tenho notado que o pessoal do telemarketing já começa a maneirar no gerundismo. No fim das contas, o povo acaba peneirando a lingua e mostra que sabe o que fala!

    Abs,

    LK

  • Rosimeire Oliveira 18/10/2008 at 15:59

    Minha vó costamava dizer : Todo mundo é muito bom! Meu chapéu de sol sumiu!!!!!
    Será que alguém aí consegue me dizer a origem deste dito?

    Desde já, agradeço.

  • Octavio Aragão 18/10/2008 at 22:19

    Sérgio, nada pessoal.

    Apenas questão de (possivelmente mau) gosto culinário de minha parte.

  • Sergio Rodrigues 19/10/2008 at 09:27

    Octavio, nunca me passou pela cabeça que fosse algo pessoal (?). Fiz a pergunta porque sempre me interessou muito o processo de formação de “verdades” no vale-tudo da – vamos chamá-la assim – etimologia pop. Tudo indica (há anos aguardo que me provem o contrário) que a vaca-fria como prato é tão inconsistente quanto o “coitado’ que deriva de “coito”, o “sincero” que vem de “sem+cera” e outras cascatas de ampla circulação.

  • sonia duarte alonso 19/10/2008 at 12:09

    Tambem prefiro a “vava quente” pra degustar… embora a Vaca Fria seja genial!

  • Octavio Aragão 20/10/2008 at 08:55

    Ou o *cuspido-escarrado* que deriva do *Esculpido em Mármore de Carrara*.

    Mas o que mais me fascina são as combinações fonéticas malucas das canções infantis. Dizem que o *De marré de si* seria uma corruptela da frase francesa *Demarré de ici*. Vá saber… não poderia ser uma grafia de onomatopéia parecida com o *Wop-bop-lula-belop-bam-boom* ou *Bumbum-praticucumbum-prugurundum*, em lugar da distorção de uma frase européia?

    Mistérios.

  • Pedro Curiango 20/10/2008 at 12:59

    Octavio: j’a ouvi também que o “de marré de si” viria do francês “Je m’en vais d’ici.” Não tenho opinião sobre a etimologia, mas pela simplicidade vocabular seria mais plausível numa canção infantil.

  • Octavio Aragão 21/10/2008 at 16:10

    É verdade, Pedro. Seria mais lógico mesmo, creio.

  • Microempresário 22/10/2008 at 22:34

    Ouvi esta versão de minha irmã, que a ouviu de sua professora francesa:
    ” Je suis pauvre, pauvre, pauvre
    Du Marais, Marais, Marais”

    O “Marré de si” pode ser qualquer outra coisa, que acabou igualado ao verso anterior.

  • luciana 05/12/2008 at 00:14

    je suis riche riche riche d’la Mairie D’Issy”( Marais e Mairie d’Issy são dois bairros de Paris). do blog de Rafael Galvão

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