Vai uma regra aí?

18/08/2009

No ‘Para escrever’ de Luiz Antonio de Assis Brasil, a terceira regra básica é a seguinte: “Usar material de primeira qualidade: bom computador, bom papel de impressão, bons cadernos (sugiro o Moleskine), boas canetas, bons lápis”. Leia outra vez, por favor. Em outras palavras, preciso ter muito dinheiro para escrever, uma vez que tudo que foi listado aí custa caro (um Moleskine custa em torno de uns 50 reais). Não posso, por exemplo, escrever no meu caderno da extinta Papelaria União?! Ou na minha caderneta Tilibra?!

*

No ‘Para escrever’ de Marcelino Freire, a quinta regra básica é esta: “Ler e beber muito. E, no mais: viver”. Tudo bem quanto a ler muito. Mas e “beber muito”?! Beber água?! Coca-cola?! Chá?! Não. Acredito que “beber muito” se refira beber muita cerveja, vodka, tequila e etc. E “viver”?!. Até onde eu saiba nenhum morto é capaz de escrever. Viver é experimentar a vida?! Viver e “beber muito” estão, quase com certeza, relacionados a uma imagem de escritor junkie/beatnik/freak.

A reportagem (só para assinantes) sobre a onda das oficinas literárias publicada pelo caderno Mais! da “Folha de S.Paulo”, domingo agora, provocou o comentário acima no blog Pesa-Nervos. De fato, as “regras básicas” que o blogueiro aponta entre as que aparecem listadas no jornal por oficineiros disputados são bons exemplos de Febeali. Hemingway gostava de descascar laranjas antes de escrever, mas não consta que um dia tenha tentado impor sua mania como “regra básica” aos aspirantes. Conheço uma poeta que só consegue escrever pelada – problema dela. Transformar singelos gostos pessoais ou idiossincrasias cabeludas em lições universais é bobagem.

Fiquei pensando aqui se, apesar de tudo, eu teria uma “regra básica”, basicona mesmo, e de consumo rápido. Só me ocorre a seguinte: sempre leia o que acabou de escrever, mesmo que sejam cinco linhas para um box de matéria de jornal, com os dois pés atrás – as chances de aquilo (ainda?) não ser bom são de 99 em cem, e se você não descobrir os enguiços o leitor o fará. Observado esse princípio, acho que o resto tende a correr bem.

E já que se falou em preferência pessoal: a caderneta Tilibra nunca me decepcionou.

82 Comments

  • Saint-Clair Stockler 18/08/2009 at 13:17

    Hahahaha, o Sr. Assis Brasil me lembra o personagem escritor de um dos contos de Rubem Fonseca que só escrevia em papel feito à mão e trazido da Itália. Quanta viadagem, meu Deus!

    Deve ser porque na falta de talento (o que campeia por aqui; digo, no Brasil) as pessoas precisam se apoiar no exterior: boa cadeira, boa mesa, bons cadernos, bons lápis. Tudo, de preferência, importado.

    Vi na Fnac dia desses um Moleskine pequeno custando R$70,00, Sérgio. R$50,00 foi bondade sua…

    Já que há tantas regras de “como escrever”, acho que ninguém ficará chateado com a minha, né? Lá vai: “Para evitar de escrever mal, trepe bastante e gostosamente. Nunca conheci um escritor sequer mal-comido (ou pra quem deram mal) que escrevesse literatura de qualidade. É uma questão física: assim como a gente não pode escrever bem com dor de estômago, também não pode escrever bem com a libido dando berros ou reclamando, tadinha…

    P.s.: A sua regra é ótima, Sérgio.

  • RAQUEL 18/08/2009 at 13:30

    adorei esse çrimeiro e unico comentário entre em contato comigo

    Saint-Clair Stockler pelo meu email sraquelnaara@yahoo.com.br

  • RAQUEL 18/08/2009 at 13:31

    opa no lugar do p botei o ç me perdoem

  • Tom 18/08/2009 at 13:39

    Oficina com Marcelino Freire?
    Isso é uma fraude…
    Melhor assistir filme pornô
    que se aprende mais.

  • Antonio Neto 18/08/2009 at 13:44

    Agora é que não aprendo escrever mesmo. Como se não bastasse eu ter de ler muito, agora tenho a companhia dos custos nesta deliciosa aventura. Era só o que faltava.

  • Silêncio 18/08/2009 at 13:48

    Por essas e outras temos na presidência da República um apedeuto.

  • Jéssica 18/08/2009 at 13:52

    Não existem fórmulas, na verdade as pessoas tendem a encaixar e padronizar todas suas as ações. Acredito que pra escrever bem é preciso coragem. Coragem para estar sujeitos às críticas, inclusive a auto crítica que é e deve ser a mais rigorosa.

    http://www.blig.com.br/abreaspass

  • Josy 18/08/2009 at 13:57

    Hahahahahahahh mesmo!
    Que eu saiba nunca se precisou de papel tal para se escrever bem, falta de talento! Um bom escritor não precisa de regra nenhuma!!! Escreve-se bem até em papel de rasunho! Muita veadagem mesmo! Falta de competência e humildade!
    VÃO CRESCER E PRODUZIR!

  • Mr. WRITER 18/08/2009 at 14:06

    Usar o cérebro pode? E máquina de escrever da oliveti? E usar a parede do quarto e carvão pode?

    Espero que essa modinha de ser escritor acabe logo… Maldita hora que todo mundo com um computador decidiu ser escritor do dia pra noite.

    A propósito, tenho um bom cmputador emc asa, mas só uso para games. Afinal de contas uma placa de vídeo Gforce não melhora em nada o Word que funciona muito bem até num pentiun 3

  • Eliana 18/08/2009 at 14:20

    Piada. Só pode ser. Num país onde não se escreve corretamente a própria língua, a maior parte da população não lê um único livro por ano por inúmeros motivos, entre eles a falta de incentivo, disfiar regras como estas se não for piada é ofensa. Concordo com a Josy.

  • Eliana 18/08/2009 at 14:21

    “desfiar” , digo.

  • Fernando Torres 18/08/2009 at 14:33

    Ainda bem que descubro que essas coisas não incomodam apenas a mim. Quando terminei de ler a reportagem fiquei imaginando o que o Assis Brasil diria das minhas folhas A4 reaproveitadas.

    Pensei o que esses autores diriam da minha mania de rascunhar contos quando espero em filas intermináveis da bur(r)ocrácia invencível.

    As dicas desses professores de oficina apenas reforçam minha posição de me manter afastado delas.

    [ironia] Minhas regras para escrever:

    1. encoste a caneta (ou semelhante) no papel e risque-o. Tente fazer no código vernacular de forma que forme algum sentido. Se é que essa é a sua intenção.

    2. Releia e risque o que achar necessário. Para reforçar o sentido, ou afastá-lo por completo.

    3. ignore todas as regras que achar necessário. [/ironia]

  • Luiz Carioca 18/08/2009 at 14:36

    realmente, a regra é selecionar o que se escreve.

    certa vez me questionaram sobre uma regra ou ritual para escrever. respondi que minha regra era não ter regra. já escrevi em canto de jornal, caderninhos, papéis no trabalho, já escrevi na calma de casa, no ônibus, na praça.

    pra mim, a literatura é maior do que tudo isso, então é preciso deixá-la à vontade, pois é bicho arisco.

    já tive muitoa altos e baixos na vida. imagine se eu só escrevesse de pijama de seda e charutos cubanos? teria escrito só um ou dois poemas na vida toda.

  • Peter Zero 18/08/2009 at 14:40

    Antes de começar a escrever é necessário ler, e entender o que leu. Regrar atos dessa natureza parecem não surtir muito efeito, ou teríamos milhares de bons escritores produzindo por aí. Leia muito, escreva bastante e entenda as duas etapas. Se isso não o tornar um grande escritor, ao menos o transformará em alguém distinto da imensa manada.

  • Tibor Moricz 18/08/2009 at 14:48

    Regras minhas para escrever bem: sentar sempre de costas para o poente. Jamais cruzar as pernas em parágrafos ímpares. Em todo começo de capítulo coçar o queixo, mas o lóbulo direito só quando os finalizar. Nunca, eu disse NUNCA, atender ao telefone quando no texto fala um personagem feminino (dá azar). Ao terminar os trabalhos do dia, bater os pés quatro vezes no chão, suspirar e se erguer de uma vez só (as vezes a cadeira cai, mas faz parte). Com o tempo se acostuma. Recomendo aos iniciantes.

  • Elizabeth Maria Camillo 18/08/2009 at 14:57

    Quanta besteira, gente!!!!

  • Valdson Gonçalves de Amorim 18/08/2009 at 15:25

    Para se escrever bem, qualquer papel, lápis ou caneta singela serve, porque o que efetivamente faz a diferença é aquilo que está na mente ou no coração do autor. Um escritor medíocre não produzirá grandes obras somente porque tem a disposição o melhor papel ou a tal caneta que eu nem conheço e, por este preço, nem faço questão de conhecer. Com a minha velha BIC Cristal ainda consigo me expressar sem maiores problemas.

  • Rafael 18/08/2009 at 15:37

    Querem uma regra? Ei-la: não escrevam, fujam do papel, lancem a caneta o mais longe possível, esmigalhem o teclado com um martelo, deletem o editor de texto.

    Vocês não sabem escrever, não têm talento para escrever, não devem, enquando sobreviver o ideal da Civilização, escrever.

    O silêncio, ele é o único legado que convém a vocês deixar.

  • Rafael 18/08/2009 at 15:40

    Não leiam o caderno Mais! da Folha de S. Paulo.

  • Mr. WRITER 18/08/2009 at 16:02

    Não leiam o caderno Mais! da Folha de S. Paulo.

    Essa foi impagável, Rafael…

  • Rafael 18/08/2009 at 16:03

    Eu, de novo (a coisa está divertida).

    Desconsiderei a minha regra anterior (privilégio dos que formulam regras) e lá fui eu ler o Mais! de domingo.

    O Marcelino Freire, embora finja professor de literatura, não leva a sério a profissão. Criticá-lo, como fez o autor do Pesa-Nervos (cada nome…), é para quem não entendeu a mensagem do referido, que vou traduzi-la: oficina literária é estelionato; professor de oficina literária é estelionário; ser estelionário é uma das formas suplimes de ganhar dinheiro enquanto se diverte; confesso-me estelionário, encho as burras e sou ainda admirado e elogiado.

    O patético é que há alguns “professores” que, pasmem!, acreditam naquilo que apregoam. É o caso do desafortunado Luís Augusto Fischer. Percebe-se, nas entrelinhas das suas dicas, que ele gastou tempo e neurônios com a formulação de regras para serem divididas com os leitores do jornal. Ele o fez a sério, sem a ironia mal reprimida (seria antes sarcasmo?) do Marcelino Freire. E não é à toa que as dicas fischenianas são as mais mal escritas do conjunto. Exemplifico:

    “No concreto de uma leitura, pode acontecer que a fruição fique embaçada. ” (traduzindo: “às vezes, um livro se mostra chato para dedéu”)

    “Um texto literário, obra de arte que é (ou aspira a ser), tem direito de ser como é, em sua integridade. Isso alerta para a necessidade de a leitura ser respeitosa: o leitor deve dispor-se a receber as informações e as formas do texto tal como o autor as concebeu. Mas isso não impede que o leitor comum pule fora ao perceber que seu honesto empenho de leitura não está sendo recompensado.” (traduzindo: “já que não tem jeito de mudar aquilo que está escrito, o melhor é jogar fora o livro”)

    “Tenha sempre em conta que do outro lado de seu texto há, na melhor hipótese, um leitor; e que essa figura, preciosa e fugidia, pode abandonar o barco a qualquer momento. O autor tem todo o direito de radicalizar sua escrita, ser inventivo e ousado, mas também o leitor tem o direito de radicalizar por sua parte, caindo fora.” (traduzindo: “conforme-se: o governo não irá obrigar as pessoas a lerem seus desvairos”)

  • Fernanda 18/08/2009 at 16:08

    resposta para o SILÊNCIO.

    O apedeuto que governa o Brasil há 07 anos que você se refere consegue provar que não é preciso escrever bem para governar o Brasil, mas sim conhecer a carência do povo e reconhecer de que lado o Governo deve ficar…Morra de raiva!

  • Rafael 18/08/2009 at 16:11

    Tibor,

    Tenho a impressão que o tal Luís Augusto Fischer bateu os pés apenas três vezes. Coitado.

  • Francisco de Assis Rodrigues 18/08/2009 at 16:26

    Assis Brasil,
    Se liga, cara. Lembre-se que o Velho Graça (um dos maiores escritores da lingua portuguesa) escrevia em papel almaço, e achava um luxo. Escreveu Memórias do Cárcere em papel de embrunho, pedaço de papel higiênico, folha de caderneta avulsa, em cima de uma banqueta, ora em cima de um tamborete, e lhe rendeu um senhor livro de dar inveja a qualquer escritor. O ato de escrever não está nas frescurinhas: papel, computador, ambiente adequado, etc,. O ato de escrever se resume na hora em que se forma uma frase,seja lá aonde for. O resto é coisa de Boiola…

  • paulo 18/08/2009 at 16:29

    todos metidos a intelectual , besteira sobre besteira!

  • Rafael 18/08/2009 at 16:33

    Todos metidos a intelectuais, anta!

    Odeio gente metida a ignorante.

  • Tibor Moricz 18/08/2009 at 16:38

    O Rafael, hoje, está animado…rs

  • Fernando Torres 18/08/2009 at 16:43

    Acho divertido que tem gente que só entra aqui para: Xingar o presidente, defender o presidente ou xingar todo mundo. Mas sei lá, as vezes são microcontos e não percebi…

  • MARCOS NOVAES 18/08/2009 at 16:47

    REGRA BASICA PARA ESCREVER.
    USE O QUE TIVER A MÃO E JAMAIS DE OUVIDOS A IDIOTAS.

  • Rosaura Kader de Oliveira 18/08/2009 at 16:57

    Para ser piada, faltou o senso de humor.
    Para ser verdade, faltou a lógica.
    Para eu estar lendo isto, deve ser falta do que fazer mesmo.

  • Vinicio 18/08/2009 at 17:01

    Uai, eu nem sabia que esse tal de moleskinho escrevia!
    Cacete, sô!

  • Luri 18/08/2009 at 17:19

    Não sou escritora, entretanto acredito que o processo da escrita é um processo de criação. Enquanto arquiteta, durante a fase de criação eu me sinto mais a vontade com papel usado e rasgadinho, aquele material reaproveitado que só serve para o trabalho na solidão mesmo, que a gente não mostra a ninguém. É que desse a gente não tem vergonha, não fica intimidado, pode fazer feio que ele não “reclama”.
    Agora, reunião com cliente, eu marco na moleskine mesmo.

  • Juliano 18/08/2009 at 17:24

    Só achei as dicas do Assis Brasil ruins, chatas. Mas gastar mais tempo
    lendo que escrevendo acho que é um conselho razoável. Quanto a objetos
    bons, isso é uma palhaçada mesmo. As do Marcelino Freire são divertidas,
    no sentido que o comentarista ali em cima falou mesmo: o cara sabe que
    isso tudo é uma bobajada e quem tem talento escreve e pronto. As dicas
    do Fischer achei sensatas.

  • Renato BH 18/08/2009 at 17:37

    Não acredito! Eu que sou analfabeto, pensei que ler esse artigo melhoraria minha vida…Impossivel terminar! Meu estómago embrulhou. Melhor ler os comentários. Mas, acreditem, ele considera todos uns invejosos.

  • Deise A. Ritter 18/08/2009 at 17:40

    Bom… Cada um com seu jeito de passar seus sentimentos e pensamentos para o palel… Escrever faz bem a saúde, ao coração, e acima de tudo, faz bem a alma… Nossa vida é um livro, onde cada um faz sua história… “Você é o que quer ser”….

  • Renato BH 18/08/2009 at 17:43

    Não é politicamente correto atribuir a babaquisse do cara aos boiolas, gays, viados e afins.

  • Anderson Kleyton 18/08/2009 at 17:48

    Eu tenho uma regra !
    Lulês contemporâneo.

  • Z4nz1n 18/08/2009 at 18:13

    Para escrever basta um papel, lapis, ou uma esferografica e ser semialfabetizado… hauhuauahaha

  • jorge leal 18/08/2009 at 18:54

    A maior prova de que escreve-se muito mal nesse miserável país, são os comentários aqui “desovados”. Isso que nem falo das gentes das periferias (muitos não têm nem lápis e papel) e nem da coordenação de ideias sobre o tema em epígrafe (com algum esforço, as aqui postadas, podem ser compreendidas); refiro-me, exclusivamente, à ortografia. Poxa, como faz-se tão pouco caso da educação no Brasil, hein! E muitos ainda ridicularizam o apedeuta mór.

  • Inútil 18/08/2009 at 19:01

    Oficina de litaratura é que nem escolinha de futebol.

  • Inútil 18/08/2009 at 19:02

    corrigindo: …literatura, literatura…

  • Inútil 18/08/2009 at 19:03

    E aplicando a terceira regra do Sérgio, devo corrigir: é “literatura”.

  • cely 18/08/2009 at 19:05

    Interessante! As duas obras citadas são”Para escrever”.Onde foi que leram “Para escrever BEM”? Eu diria que escrever ,de qualquer modo se escreve,escrever bem,porém,haja casca de laranja pra salvar um mau escrevinhador!

  • re 18/08/2009 at 19:11

    ahhhhhhhhhhh tahhhhhhhhhhhhh

  • midraxe 18/08/2009 at 19:38

    É por isso que somos tão apaixonados por bruxinhos ingleses, ninguém dá valor no que é nosso, assim os outros ganham o seu realzinho.

  • Luciano Steffen 18/08/2009 at 19:38

    Bem, se for assim, como ficamos com aqueles que trazem novidades na forma de expor os textos??

    O negócio é escrever, escrever, escrever e escrever mais ainda. Depois, tornar a escrever, escrever e escrever mais.

    A idéia dos blogs é ótima!! Muita gente que nunca escrevia passou a “rabiscar” alguns textos! É isso aí…

    Um tempo atrás até escrevi (será?) um texto onde o tema é BLOGTERAPIA…

    A forma certa? tsc-tsc…é a forma que cada um expressa suas idéias!!!

  • Saint-Clair Stockler 18/08/2009 at 21:34

    Renato BH

    “Não é politicamente correto atribuir a babaquisse do cara aos boiolas, gays, viados e afins”

    Nem quando quem atribuiu também é boiola, gay, viado & afim?

    rsrsrsrs

  • C. S. Soares 18/08/2009 at 22:08

    Assis Brasil, um escritor experiente, daria mais importância ao papel e à caneta do que a mente que os controla e manuseia? Pouco provável. Abstenho-me de condená-lo à fogueira inquisitória.

    Escrever, sabemos, é processo iterativo, ou seja, escrevemos a versão 1, 2, 3, …, N. A cada uma delas, depura-se o que pudermos. Sempre será uma depuração inevitavelmente incompleta, logo, em algum momento deixaremos o texto seguir seu destino.

    Eu prefiro escrever em fichas, por um motivo simples (aprendido na minha época de “information architect”): textos podem e devem ter movimento.

    A caderneta e a caneta (ou o gravador) são importantes no sentido de nos permitir registrar ideias, anotar a vida (notatio diria Barthes).

    Acredito que as oficinas literárias podem ajudar. Stephen Koch que lecionou mais 20 anos em Columbia e é autor do excelente Oficina de Escritores (Martins Fonte, 2008) considera, muito apropriadamente, que os adeptos da crença de que escrever não se aprende na escola jamais achariam que um pianista devesse aprender seu ofício sozinho (espero, em breve, publicar outras dicas dele no Pontolit, estamos tentando).

    Escrever não significa apenas escrever ficção. Certos problemas durante o processo da criação literária só serão resolvidos solitariamente, mas certas coisas são básicas e por isso não precisamos, sempre, reinventar à roda.

    por fim, é sempre importante saber diferenciar com critério e método o que funciona ou não para cada um.

  • C. S. Soares 18/08/2009 at 22:46

    Não sou assinante da Folha, mas gostaria de ler a referida matéria. Alguém que tenha acesso ao texto on-line poderia fazer a gentileza de me copiá-lo? Meu e-mail: souza.soares@gmail.com. Obrigado.

  • Eduardo Barros 18/08/2009 at 22:52

    Ler bobagens como essas que esses “escritores” “ensinam” nessas oficinas me encoraja demais a escrever as primeiras linhas. Pelo visto, a base de comparação no “mercado do livro” está favorável… Sem mencionar esse espírito “merça” de ser. Pelo amor de deus… coisas desse tipo podem acabar fazendo muita gente trocar os livros pelo playstation…

  • Andre Araujo 19/08/2009 at 08:36

    Bem… cada um dá as dicas que quiser, e cabe a quem quiser segui-las. Eu não escrevo por pura falta de talento mesmo, mesmo quando me dizem que o e-mail que eu mandei sobre o quanto estou inconformado com o embarque que não se realizou ficou muito bom.
    Minha pergunta é simples. O que faz de um caderno Moleskine tão caro?

  • Daniel Brazil 19/08/2009 at 09:44

    Realmente, quando um apedeuta entra neste blog pra criticar o Lula e na única linha que escreve erra feio, a esperança de mudar alguma coisa fica mais distante.

    Mas, mesmo achando o Assis Brasil um chato, vou fazer uma defesa de sua “regra” (trocando o Moleskine por qualquer caderno nacional).
    Experimente fazer um bom prato num fogão sujo, com panelas amassadas, utensílios gastos, temperos vencidos e ingredientes de segunda.
    Depois tente fazer o mesmo prato num fogão limpinho, uma panela boa, ingredientes e utensílios novos. Se você entende minimamente de cozinha, vai errar menos, fazer menos sujeira, caprichar mais e certamente o prato sairá melhor.
    Mas se você não sabe cozinhar e não vê sentido nisso, vá fazer outra coisa.

  • Rodrigo 19/08/2009 at 10:03

    Cada um com sua regra, mas é curioso que todos esses escritores comentadores, que escrevem até debaixo d’água, juntos não somam o número de vendas da publicação menos vendida do Assis Brasil. Assim eu estimo que seja,embora posso ignorar que algum desses codinomes seja de uma sumidade discreta….pensando bem, não.

    Sim, eu sei, Paulo Coelho, tal e coisa…mas Assis Brasil não é um escritor de marketing pessoal e nem de literatura água-com-açucar, ele tem qualidade nos seus escritos, vai saber se não é o Moleskine…

  • Tibor Moricz 19/08/2009 at 10:21

    Quem sabe cozinhar, o faz dentro de uma lata, sobre brasas no chão.

  • Rafael 19/08/2009 at 10:24

    Pois é, Tibor. Há quem compare uma abstração (palavras, frases, períodos, capítulos) a uma coisa concreta, como comida.

    Não sei, não. Parece que perdi o apetite…

  • Dina Zagreb 19/08/2009 at 11:23

    Isso não pode ser sério. Não é possível…

  • Mariana Rezende 19/08/2009 at 12:20

    em algumas horas vale até a combinação guardanapo de boteco & lápis de olho.

  • Saint-Clair Stockler 19/08/2009 at 12:48

    Ah, sim: um reparo (inspirado no comentário do Rodrigo). Pois é: o Assis Brasil é um importante escritor brasileiro, claro. Ninguém aqui (ao menos que eu tenha reparado) meteu o pau em sua literatura, até porque ela é muito boa. Por sua Oficina Literária passou grandes nomes da literatura vindos do Sul (poderia fazer uma listinha dos que tenho na cabeça de lembrança, mas ia ficar chaaaato). O problema, repito, não é a literatura do gaúcho: é essa coisa de Moleskine & quetais. Ponto.

  • Pedro David 19/08/2009 at 12:48

    Saint-Clair,

    Há quem diga que Pessoa morreu virgem; Sua teoria da trepada, portanto, vai por água abaixo, embora divertida… rsrsrsrs

    Não achei os conselhos tão estúpidos: acho bacana ter um material que te agrade, seja ele velho ou novo, moleskine ou tilibra… O que é sim estúpido é isso ser ditado como regra numa oficina literária ( algo que também carrega sua dose de estupidez).

    O que foi dito era pra ser, no máximo, conversa de mesa de bar. Um escritor, inciante ou não, vira pra um amigo e fala: cara, é bacana isso, aquilo, etc… mas regra, realmente…

    Aliás, muito do que era pra ser conversa de bar tem virado não só conversa literária como literatura ultimamente…

    Uma vez o Portal Literal publicou umas dicas de alguns escritores. Não lembro quem falou que “literatura não combina com vida literária”. De todo modo, achei prudente e interessante. É simples: eu bebo num dia, fico de ressaca no outro. Vou escrever quando ? Afinal, tirante o ” gênero” psicografia, literatura demanda um certo trabalho…

  • Saint-Clair Stockler 19/08/2009 at 12:49

    “passaram grandes nomes”, please.

  • Saint-Clair Stockler 19/08/2009 at 12:55

    Pedro David,

    o Pessoa realmente morreu virgem: virgem de mulher. Mas do resto, sei não. Não nos esqueçamos de que Pessoa era amigo (bom, pra dizer a verdade, na maior parte das vezes “tolerava”) aquela bicha louquérrima que era o Mario de Sá-Carneiro… Duvido que o Sá-Carneiro não tenha dado em cima do Pessoa e o Pessoa tenha aproveitado a chance num esquema de “já que não tem tu, vai tu mesmo…”

  • Saint-Clair Stockler 19/08/2009 at 12:57

    Sem contar que o Pessoa estudou em colégio interno. Sempre rola uma meiinha nesses lugares… 😉

  • Carlos Magno 19/08/2009 at 13:12

    Cada maluco com suas manias. Quem disse que escritor literato ou poeta da cepa tem os pés no chão? Pra começar, pra ser escritor ou poeta, vá gostar de sonhar acordado lá na Terra do Nunca Jamais!

    Há os interessantes e inofensivos, – um montão deles que adoramos, – e os que de toda a sorte nos surpreendem pelo que eles dizem, ao contrário do que fazem. Aliás, o Congresso Nacional está lotado desse tipo.

    E os que escondem. Mas um dia, ao serem descobertos, provocam a caída de queixo geral, como a se darem conta de que eles também fazem!

    Aos perversos debitam-se, claro, ítens negativos. Na conta de Hemingway consta que o doido gostava de assassinar animais em caçadas cruéis, tirando fotos de seus feitos com poses heróicas, além de adorar as horrorosas, crudelíssimas, doentias e torturantes touradas, com as quais babava de prazer. Desse eu não leio nada!

    E por aí vai…

  • Pedro David 19/08/2009 at 13:18

    Não sei, não sei. Nunca estudei em colégio interno. De todo modo, talvez ao acordar de manhã, no dia seguinte, ele afastasse a ressaca moral:

    – Não fui eu, o pá. Foi o danado do Caieiros.

    OBS: isso tá virando papo de botequim. A exemplo do Zicartola, que reunia os bambas em tempos idos, poderiam criar o bar literário, só pra gente ficar falando essas besteiras…Se bem que ia ser meio chato e mal frequentado, pensando bem…

  • Rafael 19/08/2009 at 13:22

    Na realidade, nenhum sujeito está habilitado a escrever enquanto não souber, sem auxílio dos manuais, identificar a função sintática de “as armas e os barões assinalados” nas estrofes iniciais d’Os Lusíadas.

    Até lá, recomendo que estude.

  • ri ventura 19/08/2009 at 13:53

    também acho que isso não é sério!

  • Mr. WRITER 19/08/2009 at 14:38

    Escrever com sangue pode?

  • João 19/08/2009 at 23:45

    O artigo do Daniel Galera, na mesma matéria, é muito bom.

  • Daniel Brazil 20/08/2009 at 00:10

    Tibor,. diga qual o grande chef que deixou seu nome na história cozinhando com uma lata, sobre brasas no chão.
    Rafael, se você não reconhece uma metáfora, não entende nada de literatura…

  • ana 20/08/2009 at 09:50

    favor enviarem a matéria do Mais! para mim também!

    anacarolinabrasil.blogspot.com
    anacarolinabrasil@ig.com.br

  • Silêncio 20/08/2009 at 10:41

    Fernanda, esta semana, seu ídolo, que não sabe escrever, evidentemente, confessou que não lê muito porque ler provoca sono, sono este que não é propriamente uma necessidade fisiológica, mas vício a serviço da preguiça.
    A propósito, parei aqui no espaço do Sérgio Rodrigues recentemente para dizer, entre outras coisas, isto:
    Os ignorantes louvam entre si a falta de cultura; batem palmas para a preguiça de estudar.
    Você discorda?

  • Rafael 20/08/2009 at 11:52

    Meu caro,

    Recebi suficiente instrução para saber o que é uma metáfora; depois, pós-graduei-me e aprendi a distinguir uma boa metáfora da metáfora simplesmente estúpida.

    Se a correlação que há entre o sabor da comida e a qualidade do material de cozinha existisse também entre a valor literária de um texto e a qualidade do papel utilizado pelo escritor, o D. Quixote, livro escrito na prisão em condições não muito salubres, seria uma porcaria.

  • Tibor Moricz 20/08/2009 at 12:11

    Daniel Brazil, se você não reconhece uma metáfora, não entende nada de literatura…

  • chato 20/08/2009 at 14:57

    Se o cabra está preocupado com o tipo de caderno ou caneta com que vai dar suas escrevinhadas, é porque não tem o que escrever. Quem pensa, grava seus insigths até em gardanapo de restaurante por quilo.

    A regra do Sérgio é também a minha, e a mais básica (é isso que o Drummond queria dizer com “escrever é a arte de cortar palavras”): para sair um bom escrito, revise. A revisão, que formata o texto, é mais importante do que o simples despejo de palavras num pedaço de papel. É o buril que faz a estátua, não o caminhão que entregou o mármore.

  • Mr. WRITER 20/08/2009 at 15:04

    Dê para um gran chef francês os melhores utensílios culinários, colheres de ouro, travessas de prata, saleiros de cristal finíssimo e um bom bocado bosta…

    Que banquete resultará daí… não, obrigado.

  • Noga Lubicz Sklar 20/08/2009 at 17:33

    cheguei atrasadíssima aos comentários por falta absoluta de conexão banda larga, mas agora voltei a toda: brilhou, Sérgio! regra de ouro para todo texto, além, é claro, de um básico conhecimento da língua portuguesa, coisa que pelo que tenho visto (e editado em textos alheios) tem andado escassa: revisar, revisar, e revisar de novo. Abraço!

  • rodrigo 20/08/2009 at 18:14

    essa foi a (má) impressão que a abordagem da FSP causou.
    ‘a parte o show de baboseiras sobre o que fazer para escrever bem, ficou cristalina a falta de cuidado editorial do MAIS! em relação ao tema. cairam na tentação de mistificar o assunto…

  • Daniel Brazil 20/08/2009 at 23:41

    Rafael, vou te contar uma coisinha: Graciliano Ramos comparou o ato de escrever com a ação das lavadeiras na beira do rio. Espero que você não perca a vontade de andar com roupas limpas por causa disso…
    Tibor, esperava mais. Seja mais criativo nas respostas, pelo amor de Santo Onofre! Quando acerta, você costuma ser mais engraçado.

  • Rafael 21/08/2009 at 09:13

    Lá vem o outro com argumento de autoridade…

    Vamos lá: o Graciliano compara o ato de escrever à ação das lavaderias; e não a escrita à roupa. Percebe a diferença?

  • Eric Novello 21/08/2009 at 10:54

    Eu que só bebo água e tenho alimentação natureba, to ferrado então. Agora entendi a qualidade dos meus textos. Abss!

  • Daniel Brazil 21/08/2009 at 19:38

    Rafael, é claro que, a esta altura, você já deve ter percebido que não comparei literatura com comida, mas o ato de escrever com o de cozinhar.

    Quanto ao argumento da autoridade, você não parece ver problema em citar Cervantes, certo? Convenhamos que quando falamos de regras (e é disso que trata o post), lançar mão de exceções não é muito adequado.

  • jose carlos 17/01/2010 at 08:46

    As regras enchem o saco e tomam tempo de quem não sabe escrever como eu.Me pediram parta escrever um texto grande e tecnico.sou bom naquilo que faço mas não sei escrever o que faço.Imaginei-me no lugar dos alunos de faculdade quando lhe pedem para escrever uma tcc.”Deus o livre” ,como dizia minha vó.Fiquemos por alguns momentos no lugar de quem deve escrever.É o inferno:Colocada a tarefa de escrever a quem dificilmente escreve, em um momento de sua vida social ou acadêmica, pode ser um grande suplício.
    Como resolver ou cumprir tal tarefa sem a devida destreza? Como dar cabo dessa tarefa, sempre urgente, sem habilidade para tal? No geral não se questiona se a pessoa sabe escrever ou não; há apenas a ordem: Escreva.
    Um mecanismo de defesa do ego coletivo nesse momento aciona um pacto do silêncio entre aquele que pede o escrito e aquele que se pede o trabalho escrito.
    Parte-se do princípio errôneo que todos sabem, ou deveriam saber e se não sabem “se virem”.
    Vamos por algumas linhas conversar na primeira pessoa em tom de depoimento. Um exemplo:Alguém nos pede para escrever um artigo ou uma monografia. Sei que o que escreverei passará pelo crivo de um especialista. Não poderei enganá-lo ou esconder minhas deficiências.O que fazer para no mínimo cumprir o que foi pedido se não sei escrever bem.
    Sei que para ter um certo êxito, na medida do possível deverei me armar de dados sobre o assunto sobre o qual escreverei.. Sem informação não dá para fazer nada. Mas não basta a informação.Não adianta só pesquisar.Não vou construir uma sopa de palavras.
    Devo juntá-las com ordem, coerência, carinho e concisão, tudo em uma sequência bem disposta e inteligível, alinhando as idéias, com sentido, não esquecendo que o especialista/professor exigente deverá ser arrastado a uma escolhida direção por esses meus argumentos para uma conclusão definitiva.
    Só que há um problema, básico e crucial: Eu não sei escrever bem. Não sei e não consigo fazer isso,pelo menos a curto médio prazo. As idéias e dados que acumulei para montar o trabalho, juntamente com o plano que delineei para a construção do artigo ou TCC, não se alinham e cristalizam no papel.Quero mais não consigo.Entro em uma tautologia de escrever ,ler e deletar tudo.A coisa não se encaixa.enquanto eu escrevo parece que está saindo algo de valor ou pelo menos palatável à inteligência.Ledo engano.Deleta de novo.
    Por mais que me esforce, que ordene as idéias e faça anotações em separado, não consigo ter uma visão global de uma obra de várias páginas e capítulos. Não sou escritor. As várias tentativas me levam à exaustão. Meu cérebro, com mil pensamentos, gasta muita glicose e se torna caótico. Largo tudo. Aperto o botão do “que se dane”.
    Devido à urgência , volto no outro dia descansado. Leio tudo que escrevi ,nos vários dias de trabalho. Não há lógica. Não há coerência. Está um saco de gatos. Uma sopa de letrinhas ininteligível. Nada se aproveita desses fragmentos de parágrafos e frases desconexas, frutos do meu pensamento em desalinho devido ao esforço concentrado de tentar fazer o que não sei fazer: Escrever bem. No desespero e caminhando rápido para lugar nenhum ,penso desonestamente em comprar uma monografia pronta.Vem mais conflito e com isso descarto a possibilidade ,medindo prós e contras,e colocando-me diante de minha consciência
    Nesse caso, supra exarado,a pessoa do exemplo poderia tentar usar as regras de como escrever bem, em vez de sair buscando um caminho mais curto, movido pelo desespero?
    Será que as regras de como escrever bem funcionam mesmo? Essas regras e normas têm sua razão de ser? Elas poderiam minimizar as dificuldades existentes na hora de escrever, para não confeccionar um texto cheio de erros de ortografia, concordância, regência?
    E façamos a pergunta mais importante: vale a pena estudar essas regras? E o tempo e esforço despendidos, sem o devido ganho intelectual, se compararmos com o estudo sistemático da gramática?
    Bem, vamos olhar para as deficiências desse indivíduo – que não sabe escrever – e depois para essas regras, e só depois tentaremos responder essas questões.

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