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25/04/2007

O escritor imagina um personagem, também escritor, que à deriva diante de seu tablete de cristal líquido, em algum momento entre 1h15 e 4h30 de uma madrugada insone, descobre-se de repente num blog sem nome onde refulge um texto límpido e profundo como o mar em certos trechos mágicos do litoral, blocos de uma prosa poética que se encrespa, corcoveia, muda de forma enquanto o escritor, fazendo rolar a tela sob a ação de suas pálpebras estateladas, sente lhe subir uma excitação nada menos que sexual por ter desentocado tamanho tesouro, cuja obscuridade naquele endereço longo e cheio de barras só pode ser explicada pelo caos que a internet é, pandemônio capaz de abrigar lado a lado cordilheiras de bobagem e essa estranha jóia em que se fundem o sumo de vinte e cinco séculos e a última novidade petulante, veneno e antídoto, pedra e vento, como se não, de modo algum fosse apenas um sonho infantil o poder de destilar numa combinação de caracteres alfabéticos o ácido que dissolveria a desilusão do escritor, e por trás dela também a do escritor, desilusão com sua arte eunuca, seu talento nauseado, seus colegas oligofrênicos, angústia que explica a insônia desta noite e que, no entanto, continua lá quando ele acorda em seu escritório sob o sol alto, a ponta do nariz pressionando F7 no teclado, e não encontra mais o blog que o seduziu nem consegue recuperar na memória uma só das palavras que leu ou sonhou.

13 Comments

  • Tibor Moricz 25/04/2007 at 15:01

    Ai ele joga fora o uisque vagabundo que bebeu a noite toda, suspende o Valium que está fazendo mais mal que bem e sopra fora o resto daquele pó branco caríssimo que está espalhado sobre o teclado. Lamenta a noite mal dormida e promete a si mesmo que jamais vai voltar a procurar por boa literatura num site de pornografia hospedado no Azerbaijão.

  • joao gomes 25/04/2007 at 15:10

    isso ai é o Alef reeditado, versao rodrigueana
    2007.

  • Cezar Santos 25/04/2007 at 16:34

    E vai trabalhar, que a vida não tá fácil….

  • Analista 25/04/2007 at 17:04

    Vejo inspiração de Kafka nesse conto.

  • Zé Renato 25/04/2007 at 18:20

    Essa conexao nao cai…

  • Claudio Soares 25/04/2007 at 20:43

    Ctrl+H lhe ajudará a resolver o “enigma do blog perdido”

    Mas certamente o seu maior problema é com o F7.

    É provável que vc use (o ótimo) Firefox e tenha alterado o modo de navegação. Ou talvez (é o mais provável) o “nariz do escritor” (seria o simpático Nareba?) tenha esgotado o “buffer” do teclado.

    De qq forma é preciso ir no cerne do problema, atacá-lo sem compaixão e resolver a questão, doa a quem doer!

    Consultores de TI sugeririam: Arranque o F7! Jogue-o fora!

  • Tutty Vasques 25/04/2007 at 22:25

    essas coisas a oposição não vê – ô, raça!

  • artrópode escafandrista 25/04/2007 at 23:24

    Do F5 pra cima só tem tecla detestável. Se acham muito importantes – humpf! Quero que morram todas.
    Exceto F11.
    F11 é legal.

  • Pulguinha 25/04/2007 at 23:59

    A Lenda – título da crônica, conto ou seja lá o que tivesse sido, que li num site num dia qualquer, há muito tempo. Procurei um monte por esse texto. Precisava esclarecer porque havia me impressionado tanto. Como não espero encontrá-lo, virou o que era, uma lenda.

  • Daniel Brazil 26/04/2007 at 11:26

    Há textos boiando na Internet como mensagens de náufragos atiradas ao mar. Não sabemos quem enviou, mas temos a certeza de que não será lida uma segunda vez.

  • Mr. Ghost(WRITER) 26/04/2007 at 12:27

    Hum!!! Um texto fantasma? Um blog fantasma? Um escritor fantasma?
    O fantasma na máquina, o fantasma na casca…
    Ghost in the shell…

  • Malu 26/04/2007 at 17:38

    Vai escrever bem assim lá em casa!

  • Aunicasociopata 07/05/2007 at 11:32

    “um monstro, o sérgio rodrigues é um monstro. ” silêncio
    “um monstro careca que me provoca arrepios de reverência.”

    ô malu, “leim casa 3 vezes!

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