Web 2.0 e literatura, feitos um para o outro

25/07/2008

O (ótimo) escritor japonês Haruki Murakami não gosta muito de entrevistas. A revista “Time” conseguiu convencê-lo a responder a perguntas dos leitores e começou a coletar pela internet a preciosa contribuição conteudística do ilustrado público. Alguns exemplos (via Slog e Gawker):

Cê é gay né.

Por que seus romances são tão horríveis?

Como será o seu funeral?

Quando está frio e chove fininho, quando o tempo parece congelado numa matéria viscosa e você está se sentindo meio melancólico, talvez recordando um dia da sua juventude em que as condições atmosféricas eram parecidas, tem algum disco específico que você goste de ouvir?

Pois é: se até na caixa de comentários do Todoprosa, famoso reduto de uma elite intelectual, o nível às vezes bate no chão, o que esperar da coitada da “Time”?

35 Comments

  • Tomás 25/07/2008 at 12:29

    Brilhantes as perguntas.
    Quanto da essência de um ser humano não pode ser deduzido a partir de sua orientação sexual, de sua postura diante da própria obra criticada, de suas expectativas para o próprio funeral e de suas preferências musicais num dia cinzento?

  • Tibor Moricz 25/07/2008 at 12:33

    A mediocridade está em todos os lugares.
    Gostei desse “reduto de uma elite intelectual”… faz a gente de sentir bem. Mas estou tão longe disso…rsrs

  • Cezar Santos 25/07/2008 at 12:40

    Hilário, hilário…

  • Pandora 25/07/2008 at 13:00

    Sérgio, o suave toque de ironia que tempera os teus textos é uma delícia.

  • Mila 25/07/2008 at 14:11

    Menino Adorável,

    Não é tão fim do mundo, assim! O leitor gosta que exala viscerais sentimentos, sangue escorrendo!
    Se eu te contar que estou em Salvador, que estou vestida de branco por que hoje é sexta-feira, que almocei muqueca de peixe, que bebi 2 verre de vin, uma chatice, né!!!!
    O negocio é sexo, drogas, rock in roll. O Mundo inteiro gosta!

  • Sérgio Rodrigues 25/07/2008 at 14:31

    Pandora, o chef agradece e a felicita pelo fino paladar. Mas ele acha que a ironia não é tempero, é ingrediente básico.

    Mila, diz aí a marca desse vin que você tomou.

  • Leonardo C. 25/07/2008 at 14:37

    Mas a Time decidiu deixar todas as perguntas visíveis, sem que passassem por alguma pré-aprovação antes?
    Aquilo lá ficou sendo um prato cheio para os “trolls” da internet…

    O ideal seria que as perguntas enviadas não ficassem publicamente visíveis a princípio, e num segundo momento apenas um certo número,”100 melhores” ou algo do tipo, fossem mostradas.
    Confesso não conhecer a obra de Murakami. Mas seja como for, se ele souber como as coisas na internet funcionam, dadas as circunstância a que foi exposto, já deveria estar esperando por ver retardados avacalhando nas perguntas.

  • Edielton de Paula 25/07/2008 at 14:50

    Adorei “o nível às vezes bate no chão”… sutil e divertido.

  • Sérgio Rodrigues 25/07/2008 at 15:26

    Lamento desapontá-lo, Max Aue/Rododendro/Pergunta com…, stalker da vez aqui no blog: sou não. E mesmo que fosse, você não teria a menor chance, se esgueirando assim de nick em nick. Coisa feia, rapaz.

    Edielton: às vezes, como você pode ver, depois de bater no chão o nível começa a cavar.

  • C. S. Soares 25/07/2008 at 15:28

    Tecnicamente, não é exatamente o que se convencionou chamar de web 2.0. Haverá um filtro da Time. O que é uma pena, se não permanecer a hilária pergunta do Rafael. Vejam:

    Posted by Rafael Souza in São Paulo, Brazil:

    Considering all these silly questions, have you already found an excuse to decline Time’s invitation for an interview?

  • Sérgio Franck 25/07/2008 at 15:32

    Como será o seu funeral?

    Essa, principalmente, ele deve ter tirado de letra: “Bom, né, depois de morrer de raiva, antes que seja da própria morte, eu deixo um bilhete contando, né!

  • Tibor Moricz 25/07/2008 at 16:06

    Até o “Time” tem momentos de Todoprosa.

  • Mila 25/07/2008 at 16:48

    Garçon adorable,

    O vinho veio da Grécia e é feito na região do Peloponeso. Chama antonopoulos Nea Dris-2003.
    Gosto muito do vinho e do azeite feito na Grécia. Não são tão badalados na mídia mas, para mim, é um prazer perfeito! Um dos meus irmãos, tem uma próspera agencia de viagem, em Sampa. Ele leva muitos turistas pra lá. Minhas duas adoráveis-sobrinhas-paulistinhas, passas férias duas vezes no ano, aqui em casa. Pelas suas estadias, meu irmão me paga com vinho e azeite.
    Um negocio do Peloponeso!!!!

  • Saint-Clair Stockler 25/07/2008 at 18:16

    A última pergunta é ótima! Não vi qual é o problema com ela…

    Haruki Murakami é um excelente escritor, um dos melhores do Japão, se bem que, talvez, um tantinho ocidentalizado demais em seus escritos. Mas estamos atualmente numa aldeia global, né? Tenho aqui o Kafka à beira-mar pra ler.

  • Saint-Clair Stockler 25/07/2008 at 18:21

    Outra coisa:

    Para um escritor que usa e abusa do fantástico em suas obras, a pergunta “como será o seu funeral?” não é assim tão despropositada… Acho que faltou (me desculpem a franqueza) maior conhecimento da obra do Murakami por parte da maioria dos comentadores aí em cima pra perceber a sutileza (e o humor) implícitos nesta pergunta, levando-se em conta para quem ela foi dirigida…

  • Pedro David 25/07/2008 at 18:22

    Outro dia minha irmã leu, não sei donde, algo sobre ócio produtivo na internet. São essas pessoas que ficam o dia inteiro on line, não fazem nada, mas julgam que fazem, porque comentam em cinqüenta mil blogs, sites, orkuts…É isso. A web 2.0 trouxe a possibilidade de se falar falar, falar, mesmo quando não se tem o que dizer. É realmente tentador. Eu mesmo, aqui no “todoprosa” , já perdi a conta das vezes em que escrevi um comentário e não o publiquei, pq não tinha a menor importência. Se é pra falar o que todos já sabem, pra perguntar sobre algo que eu já sei a reposta, ou me fazer de inteligente, é melhor calar.

  • Rodolfo 25/07/2008 at 18:34

    Um viva à inclusão digital! Que todos possam falar não significa que todos tenham algo a dizer. A internet me martela isso diariamente na cabeça, e eu insisto em comentar por aí. Maldita liberdade.

  • Rafael 25/07/2008 at 19:09

    C.S. Soares,

    Infelizmente, acredito que, entre tantas perguntas inteligentes, a minha não terá a mínima chance de ser escolhida. E é incrível como o nível intelectual vem subindo. Alguns exemplos:

    I impregnated a 9 year old girl… What should I do?

    How did you come up with the idea for super mario???

    A melhor de todos, em minha opinião, é esta:

    Does being an author get you laid?? Cos I need a new trick.

  • Pedro David 25/07/2008 at 22:50

    Rodolfo, não sou contra a liberdade. Acho ótimo que todos possam dizer, mas gostaria mesmo que todos fossem capazes de entender quando devem dizer e quando devem não falar nada. Afinal, quase sempre o não dito é mais importante que o dito. Sinceramente, muito mais livre é quem não diz, sabendo que poderia dizer.

  • NILZA AMARAL 26/07/2008 at 00:08

    Oúnico comentário que quero fazer é que odeio comentário.É como ser vice pessidente, não importa coisa nenhuma.Portanto, só me interessa escrever o texto

  • Pandora 26/07/2008 at 08:15

    Mensagem para o chef:

    Mal consigo esperar pela sobremesa…

  • Pandora 26/07/2008 at 09:09

    O clima de conversa despretensiosa da web é irresistível. A rede aproxima pessoas que provavelmente não estariam reunidas em um boteco.

    A mesma diversidade, que deveria ser interessante, começa a causar problemas de entendimento. Enquanto muitos se consideram escritores (de fato) ou críticos literários definitivos, outros nem sequer compreendem o texto. De permeio, observamos agressividade desnecessária e algumas gotas de conteúdo invejável. Vale o risco.

    Bem, não resisto a uma bagunça de vez em quando. Ainda mais quando o clima da casa é agradável. Lembrei do termo “conversa vadia” que o Sérgio usou em algum lugar e eu adorei.

  • matias florit llompart 26/07/2008 at 09:18

    Li e reli todos os comentários postados, e cheguei a conclusão: “Como tem gente fresca nesse mundo”. Mas acho interessante a necessidade de se sentir importante e ou inteligente. Espero não mais perder meu tempo aqui, estou no lugar errado. Agora vou tomar meu vinho importado á sombra da manhã, lendo meu best seller… afff!!

  • safta 26/07/2008 at 11:53

    po acorda cara , vc não sabe de nada , genocidio ja existe ha muito tempo, adorei os comentarios do matias , va se informar melhor , nem voui começar a escrever. vc me irritou profundamente

  • Sérgio Rodrigues 26/07/2008 at 20:35

    Meu Deus…

  • Fernanda 27/07/2008 at 13:40

    Nossa!!!!! Realmente concordo com Matias…estou no lugar completamente errado! Me irritei!!!

  • Márcio Teruel 27/07/2008 at 21:31

    Interessante… hehe

  • Rodrigo 27/07/2008 at 21:55

    Credo…

  • Briseida 27/07/2008 at 22:54

    Pedro David, adorei essa sua profundidade filosófica “…muito mais livre é quem não diz .sabendo que poderia dizer.” É sério, gostei!
    P.S. A propósito é a primeira vez que posto algo na internet.

  • Mr. WRITER 28/07/2008 at 01:17

    É incrível o que se pode encontrar em uma caixinha de comentários…

    Dá até medo de ler certas coisas, pois há aquelas que sabidamente são ironia, esse, como o Sérigio disse, não é tempero, é ingrediente básico. Mas ruim mesmo é ver certos comments completamente estranhos e não conseguir sequer supor que aquilo tenha tido alguma intensão de ser algo verdadeiramente séirio. Ou se só é verdadeiramente estúpido ao ponto de não deixar ninguém saber ao certo. dado seu alto grau de surrealismo.

  • Eduardo 28/07/2008 at 07:50

    Deve ser muito difícil ser intelectual sem ser “preconceitusoso” ou “descriminatório”???

  • Pedro Lobato 28/07/2008 at 10:46

    Concordo com o Tomás… são brilhantes as perguntas. Adoraria ser um escritor famoso para poder respondê-las. Eu responderia assim, hoje: 1) não, é só alegria mesmo 2) Eles não foram escritos para você 3) As pessoas vão cantar e beber e quero ser cremado e as cinzas para a composteira lá de casa 4) essa semana eu fico com egberto gismonti, mágico

  • Rodolfo 28/07/2008 at 11:29

    Pedro, também não sou contra a liberdade (agora numa versão sem ironia). Mas se “todos fossem capazes de entender quando devem dizer e quando devem não falar nada”, pense comigo, praticamente ninguém diria nada (eu, por exemplo, não teria escrito isto, e provavelmente metade da produção literária mundial não existiria). Certo? E onde é que fica a diversão num mundo desses?

  • Anna May 28/07/2008 at 14:34

    Essas perguntas muito inteligentes me lembram um certo programa de entrevistas que acompanhei neste sábado quase meia-noite, na TV aberta. O “jornalista” (?) perguntou a Frank Sinatra Jr. entre todas as mulheres de seu pai qual o teria marcado (a ele, o Jr.) mais profundamente??? Resposta deliciosa, e real: “Minha mãe. E aposto que as minhas irmãs dirão o mesmo sobre as mães delas!”

    E olha que o cara já ganhou um troféu de melhor entrevistador do Brasil…

  • GLADYS CASTANHO 28/07/2008 at 19:56

    EMBORA SEJA MUITO TRISTE CONSTATAR A QUE GRAU DE IGNORÂNCIA, IMBECILIDADE E ANALFABETISMO CHEGOU A HUMANIDADE, ESSE DECLÍNIO É INEVITÁVEL, PELA BAIXA QUALIDADE DO ENSINO. QUANTO A
    “CIVILIZAÇÃO AMERICANA”, ESSA CONTINUA A MESMA, MAS O PIOR É QUE ESTAMOS TENTANDO ALCANÇÁ-LA E JÁ NÃO ESTÁ MUITO DISTANTE DA NOSSA REALIDADE, ONDE ENTREVISTADORES,COMO O JÔ SOARES, QUE FAZ PARTE DA ELITE INTELECTUAL, PERGUNTA AOS SEUS CONVIDADOS INTERNACIONAIS, SEMPRE ?” É A PRIMEIRA VÊZ QUE VOCÊ VEM AO BRASIL?”;? “QUE LUGARES VOCÊ JÁ CONHECEU? ?”QUE PALAVRAS EM PORTUGUÊS VOCÊ JÁ APRENDEU A FALAR?”.? TEM MUITA DIFERENÇA DAS PERGUNTAS DA “TIME”? SE O MURAKAMI FÔSSE NO PROGRAMA TERIA QUE RESPONDER A ESSAS PERGUNTAS.

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