Wiki-fluxo de consciências

08/02/2012

Escultura do italiano Simone Racheli

A manhã entrava pelos seus milhões de olhos arrastando feito um tsunami lembranças de noites passadas em claro desde a infância pleistoscênica da espécie, tudo atropelado aos borbotões para ir desaguar na privada com estrias de alfabetos esquecidos que ele contemplava agora bem de perto, cabeças inumeráveis enfiadas ali.

Era como se quisesse desnascer útero adentro daquelas linhagens imemoriais de deusas gordas da fertilidade que contemplavam a cena espremidas holograficamente no banheirinho atrás da rodoviária, coristas glutonas da Broadway com seus sorrisos de domínio e castração.

Ele sente que todo o álcool que aqueceu, desinfetou e depois escalavrou seu tubo digestivo e os de seus mais remotos antepassados e mais imprevisíveis descendentes quer agora retornar, fazer o caminho inverso, vazar para o cosmo num rio de plasma que logo tentará afogar o sol.

Miríades de olhinhos piscam frenéticos, que agonia. O último suspiro escapa da alma do último personagem e se dissolve na indiferenciação de um universo hostil. Pronto, pronto.

O autor está morto, a subjetividade está morta, apregoam, com pequenas variações, quatrocentos quatrilhões de cartazes numa passeata silenciosa contra um inimigo que já não está lá.

No que você está pensando?, pergunta o algoritmo.

5 Comments

  • Tibor Moricz 08/02/2012 at 13:40

    Hã?

  • Vanessa 08/02/2012 at 14:09
  • Marcelo ac 08/02/2012 at 16:33

    A originalidade tem um preço, sempre teve. Aliás, já na crônica do domingo, colocada por sinal em lugar errado, eu me penitenciei por visto uma influência de Rubem Braga aonde, por certo, não havia tanto. Agora só comprovei o que havia pensado e me censurado: ali na crônica você tinha ido além, sem dúvida, e agora só comprova isso. Legal o Sobrescrito, como legal também é a imagem que o acompanha. Ressaca por alguma coisa nova, náusea pelo que já passou, pelo que está velho no discurso viciado e tantas vezes repetido: o autor não morreu,porra! Quer exemplo mais contundente!!

  • Marcelo ac 08/02/2012 at 18:49

    Jõao Gilberto Noll já tentou? Já, em Harmada e outros (não li todos), romance com pegadas de Robbe-Grillet e demais do nouveau roman francês. Mas aqui também tem um quê de expressionismo alemão, de Munch, de Metrópolis, e por aí vai. Esses “Sobrescritos”, como a imagem do texto sugere, inserem o contemporâneo do séc. XXI junto com uma nova ironia, uma nova proposta. E Isso tudo foi dito, e não me alonguei mais de propósito, para não deixar a impressão de um provincianismo mineiro entranhado nos meus comentários, isso em pleno século XXI, o que seria bem pouco lisonjeiro para o autor a que me refiro e para mim também, é claro.

  • douglas 08/02/2012 at 22:39

    “A manhã entrava pelos seus milhões de olhos arrastando feito um tsunami lembranças de noites passadas em claro …” quase engoli o “tsunami”. Realmente “maremoto de” não combinaria… será que nado contra a maré?

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