Wilson Martins: concordando em discordar

15/03/2010

Eu quase nunca concordava com o crítico Wilson Martins. Ao longo de muitos anos, talvez se contem nos dedos de uma mão as ocasiões em que terminei de ler uma resenha sua sem ter com ela alguma divergência grave, um ou mais pontos em que nossos credos estéticos pareciam água e óleo. O que demorei mais a descobrir foi que, por baixo de toda aquela discussão, havia uma concordância maior, um pacto sem a qual ela, a discussão, cairia no vazio. Martins ousava falar da literatura de dentro, seu pensamento era inteiramente feito de literatura. Ele não partia do livro para chegar a outro lugar, nem vinha de outro lugar para abordar o livro. Morava ali, e quando saía era para inspecionar a relação do livro com… outros livros. Avesso a sistemas, a “verdades” importadas de campos fora das letras, arriscava o pescoço a cada resenha. É o que torna sua “História da Inteligência Brasileira” tão caótica e tão interessante: o pulso de vida real. A literatura para Martins nunca era sintoma, era o que importava, como deve mesmo ser, se você tem a pretensão de se declarar crítico literário. Quando o relativismo cultural começou a tentar nos convencer – e como a universidade embarcou! – de que a qualidade literária é pura ideologia, pura balela, sobrou pouca gente para manter a chama acesa. Wilson Martins foi um desses. Foi quando seu famoso conservadorismo adquiriu uma certa aura de vanguarda. E eu descobri que pouco importava se, contando nos dedos, eu quase nunca concordava com ele.

Artiguete escrito para a edição de março do jornal “Rascunho”, que dedica três páginas ao necrológio do crítico Wilson Martins. Miguel Sanches Neto e Rodrigo Gurgel assinam textos longos. Outros depoimentos curtos foram escritos por Luiz Antonio de Assis Brasil, Alcir Pécora e André Seffrin.

9 Comments

  • Daniel Brazil 15/03/2010 at 21:42

    Uma grandeza de caráter que deveria ser óbvia. Pena que tão poucos a cultivem.

  • pedro curiango 16/03/2010 at 01:52

    Discordei dezenas, centenas de vezes das opiniões de Wilson Martins, mas concordo totalmente com o que diz o Sérgio. E por isto é que disse, dias atrás neste blog, que com sua morte quem desaparecia era o mais importante crítico literário brasileiro.

  • helion 16/03/2010 at 06:28

    Olá, Sergio, um assunto lateral. Sempre que você dá o link para o Rascunho, eu vou lá e gosto muito. Você sabe se tem como pedir para ser informado das atualizações, via email ou via feeds? Já tentei algumas vezes e nunca consegui. Não gostaria de perder as atualizações dessa excelente revista.

  • Rafael 16/03/2010 at 09:21

    Excelente artigo, Sérgio, pois toca no ponto fundamental: a crítica literária do Wilson Martins era verdadeiramente literária, característica que a distinguia das críticas que empesteiam os encartes literários e as publicações acadêmicas, estas últimas tratados pseudo-sociológicos (seria “pseudossociológicos” na nova grafia?) que amesquinham o escritor, fazendo dele não mais que um cronista social. “Desmascara as relações de poder”, “faz crítica social contundente”, “descortina a hipocrisia da moral burguês” — toda vez que leio textos em que aparecem frases semelhantes, arrojo-os ao fogo!
    Wilson Martins nunca deixou-se seduzir por tais clichês, por essas idéias (recuso-me a escrever “ideias”) mortas, por essas paralisantes ladainhas, esse cemitério onde jaz a inteligência.
    Fará falta, sem dúvida, o grande crítico.
    Meu Deus! Agora, não nos resta senão engolir as batatas do Roberto Schwarz!

  • Miguel Carneiro 16/03/2010 at 09:42

    Sérgio,

    Alguém interessado no “Arquivo Implacável”, opa! Isto era de João Condé e a Revista O Cruzeiro, acessem sobre Wilson Martins:
    http://www.jornaldepoesia.jor.br/wilsonmartins.html
    Abraços.

  • Rosângela 16/03/2010 at 12:34

    Nunca nem sabia que existia esse Wilson Martins… mas amo ler o Rascunho! Ali morro de rir… e me espanto… e me encanto… e bebo… e fico bêbada… e fico boba… às vezes soberba… rsrs , e busco humildade… e fico pasma… e vejo que só sei que nada sabia…

    Só sentia. E sinto. Muito.

  • Rosângela 16/03/2010 at 12:35

    Tem muito mais coisitas…

    Mas … não é tempo…

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