Zoé Valdés, Laferriére e o sexo na literatura

07/07/2012

Por Raissa Pascoal

Exilados de suas terras natais por ditadores, o haitiano Dany Laferrière e a cubana Zoé Valdés foram buscar na literatura o veículo para dizer que a liberdade – negada em seus países e adquirida no exterior – é impagável. Liberdade não só na escrita – agora sem censura –, mas também nos temas utilizados, que chegam a politizar até o sexo, tratado como provocação histórica, no caso de Laferrière, e de força identitária, para Zoé. “Escrevi para dizer aos ditadores: ‘Pode ficar no seu palácio em Porto Príncipe, mas você nunca vai ter a liberdade de um jovem numa cidade aberta”, disse. O encontro dos dois aconteceu na mesa O Avesso da Pátria, mediada pela jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho.

Há 30 anos, Laferrière escreveu o livro Como Fazer Amor com um Negro sem se Cansar, publicado agora no Brasil pela Editora 34. No romance, o escritor utiliza cenas de atos sexuais para denunciar o racismo – ele mostra que uma branca se permite entregar-se a um negro dentro de quatro paredes, mas em público jamais tomaria um café com ele. “Não existe cena de sexo no romance sem que haja um duelo de identidades cara a cara”, pontuou o haitiano. De acordo com o escritor, o livro era uma máquina de guerra contra o ex-ditador Francois Duvalier, o Papa Doc (1907-1971).

Zoé Valdés, que pouco falou na mesa sobre Cuba e Fidel Castro, temas que é sempre convidada a comentar, disse trabalhar o sexo em suas obras não de maneira política, mas como uma forma de identidade, uma vez que é uma partilha de sensações comuns a todos. “O que me interessa é escrever sobre o desejo, principalmente da mulher. Existem coisas que podemos falar, como o momento extraordinário do orgasmo, da ternura, do amor. Descrever tudo isso é um desafio.”

Além da questão do sexo em suas obras, os escritores falaram sobre como é escrever uma história passada em seu país de origem quando se está nele e como é quando se está longe, no exílio. Enquanto Lafarrière disse não ter vontade de voltar a sua terra pela literatura, que deseja livre, Zoé disse que revisita Cuba sempre que se senta em sua casa em Paris para escrever. “Todas as noites, eu volto para Cuba. Eu abro meu diário e posso sobrevoar a minha ilha e nadar em direção a ela”, disse.

Os escritores também apontaram os pontos autobiográficos de suas obras. “Não sei quantas vezes já respondi a essa pergunta. A personagem Yocandra, de O Tudo Cotidiano, tem coisas minhas, algumas experiências, mas tem coisas de outras pessoas também, de mulheres que eu conheci em Cuba. No momento que você escreve, o personagem é literário, não é você”, disse Zoé, que escreve livros sobre uma cubana que foi exilada e mora em Paris, assim como ela. Laferrière contou que utilizou sua própria experiência de uma quase repressão da sexualidade quando jovem para escrever Como Fazer Amor com um Negro sem se Cansar, além de possuir uma série de 15 romances com o título Autobiografia Americana.

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