A hipótese dos dez milhões de escritores

17/11/2010

É uma percepção mais ou menos generalizada que nunca houve no mundo tanta gente escrevendo a sério, isto é, não necessariamente escrevendo bem, mas com suficiente investimento emocional na atividade para sonhar com alguma medida de glória literária. Quantificar o fenômeno é praticamente impossível, claro, mas não creio que essa percepção esteja errada, por mais desconcertante que seja conciliá-la com o evidente declínio de prestígio social pelo qual passa a literatura há um punhado de décadas.

Na falta de métodos mais rigorosos – como a inclusão da questão no censo, por exemplo: “Quantos banheiros tem a casa? Quantos escritores?” – talvez se possa tomar como ponto de partida um cálculo meio maluco feito por Alix Christie, ela própria uma ficcionista inédita, para a revista More Intelligent Life: existiriam em todo o mundo dez milhões de pessoas escrevendo ou tentando escrever romances.

O número é uma invenção, mas sustentado por uma tosca matemática. Duzentos e cinquenta mil novos romances são publicados anualmente no planeta, dos quais cem mil em inglês. Isso representa, por sua vez, talvez um quarto dos manuscritos que os agentes tentam emplacar. Os agentes, como os escritores sabem, aceitam apenas uma pequena proporção dos trabalhos que lhes são enviados, talvez um décimo. Dez milhões de escribas em busca de um leitor podem não ser uma conta tão implausível assim.

É possível que o raciocínio fique irremediavelmente torto por recorrer aos agentes literários, personagens menos universais do que parece supor a autora. No entanto, isso pode acabar nos conduzindo à conclusão de que o número de dez milhões é modesto demais: e os aspirantes que nunca sequer submeteram seus originais a editoras, por meio de agentes ou não, como ficam?

A essa altura, cabe perguntar: “E daí?” Uma excelente pergunta. Enquanto não for conduzido algum estudo mais sério sobre o tema, esse tipo de sociologia da literatura não levará a lugar nenhum. Mas não consigo me livrar de uma impressão incômoda: se é verdade que nunca houve no mundo tantos aspirantes à glória literária, como certamente é verdade que um romance nacional que venda três mil exemplares pode ser considerado um sucesso, então estamos falando de uma epidemia no mínimo curiosa – a dos escritores que não leem.

11 Comments

  • Motumbo 17/11/2010 at 13:09

    Acho que é mais, como provam coisas como esta http://www.nanowrimo.org/

  • Tibor Moricz 17/11/2010 at 13:36

    Ler pra que? Uma ideia na cabeça e uma caneta na mão.

  • Felipe Holloway 17/11/2010 at 13:51

    Pois é, Sérgio. Eu me incluo entre os aspirantes à glória supracitada, mas obviamente reconheço na leitura compulsória (conquanto seletiva)um fator sine qua non para quem quer produzir algo de qualidade em literatura. A maioria dos autores iniciantes que conheço padece da síndrome de “minha obra será o marco da nova geração”, embora esta (devido às parcas — e pobres — leituras e à ausência de autocrítica)assemelhe-se mais àqueles calhamaços de infindáveis cacofonias e disparates que existiam para completar a biblioteca de Babel do Borges.

    Afinal, alguém tem de escrever as cacofonias.

    P.S.: parafraseando Lisa Simpson, em relação ao blog, estou me sentindo como Cristóvão Colombo: descobri algo fantástico que milhões de pessoas já conheciam antes de mim!

  • Vinícius Antunes 17/11/2010 at 14:29

    O grande problema não são os escritores desde que antes sejam leitores. Quanto ao número deles, acho que não é problema, que sejam 6 bilhões. Na Biblioteca de Babel há espaço para todos os livros.

  • Eric 17/11/2010 at 14:55

    Já pensou que susto os fotógrafos tomaram com a popularização das câmeras digitais? :) Abraços saudosos! Eric.

  • Ediney Santana 17/11/2010 at 16:52

    Deu-me uma vontade louca de não escrever mais, tanta gente e eu aqui na minha minúscula cidade invisível, com minha literatura invisível.
    http://edineysantana.zip.net

  • Gabriel 17/11/2010 at 20:23

    Nao necessariamente, Sergio. Os que escrevem podem simplesmente nao comprar livros de autores nacionais. E ca entre nos, pq o fariam?

  • Norberto 18/11/2010 at 06:29

    Artigo interessante e pergunta inteligente. Acho que os livros estão muito caros, exceto os de bolso, por isso pouca gente os lê. Aliás, sugiro um tema para o próximo post: por que os “pocket” não aparecem na lista de mais vendidos, se os vejo constantemente nas mãos de leitores nas minhas viagens de metrô?

  • Vinícius Antunes 18/11/2010 at 07:52

    Só um ponto muito positivo, Sérgio: a dessacralização do autor. Não acho que escrever seja Glória alguma.

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