A lição de Ishiguro: quanto menos vida real, melhor

10/01/2015

kazuo ishiguroEntre os temas sobre os quais os escritores são chamados a responder com frequência, o da “rotina de trabalho” deve estar no topo da lista ou bem perto dele. São muitas as perguntas que cabem nessa categoria. Você escreve todos os dias? Tem uma meta de produção? Um número fixo de horas? Manhã, tarde ou noite? Observa algum ritual, alguma superstição? Desconecta-se da internet para escrever? Desliga o celular?

Sim, o interesse por tal tipo de informação sobre os bastidores da escrita é em grande parte fetichista, uma forma de atribuir à criação literária uma aura mágica (“Como você consegue?”), recusando a ideia de que escrever é nada mais que um trabalho – com suas peculiaridades, claro, mas um trabalho. Como ocorre em todo ofício, cada trabalhador deve encontrar os métodos e rotinas que mais lhe convenham.

O risco do fetichismo é levar os incautos a se fixar no acessório e descuidar do principal. Dizem que Ernest Hemingway gostava de descascar um certo número de laranjas antes de começar a escrever, mas pode-se afirmar com absoluta certeza que nenhuma atividade envolvendo frutas cítricas jamais levou ninguém a desenvolver um estilo tão cortante e conciso quanto o do autor de “Por quem os sinos dobram”. Descascar lápis e mais lápis, apontando-os para escrever e reescrever até os dedos doerem, sim.

Em 2013, comentei aqui no blog um divertido texto em que a escritora inglesa Zadie Smith contava ter recebido de uma amiga, em seus tempos de aspirante, a informação de que Ian McEwan limitava sua produção diária a escassas quinze palavras. Era uma informação falsa, claro, mas Zadie ficou muito impressionada com aquilo. O limite absurdo a angustiou por anos a fio.

Nada disso quer dizer que não haja informações aproveitáveis nos bastidores da criação literária. O blog da Companhia das Letras publicou esta semana um texto fascinante do escritor nipo-britânico Kazuo Ishiguro (foto acima), chamado “Como escrevi ‘Os resíduos do dia’ em quatro semanas”, que recomendo a todos. Não se trata de receita: além de não haver dois escritores iguais, não há dois livros iguais do mesmo escritor, o que complica o jogo ao infinito. Mas o artigo tocou numa corda que para mim soou profundamente verdadeira.

Com o apoio de sua mulher, Ishiguro decidiu levar adiante o plano ousado de, por quatro semanas, isolar-se de tudo – telefone, correspondência, contato com amigos, afazeres domésticos – e escrever todos os dias, de segunda a sábado, das 9h às 22h30, parando uma hora para o almoço e duas para o jantar. A ideia era atingir “um estado mental em que o meu mundo fictício seria mais real para mim do que o real de fato”. Deu certo.

Reconheci imediatamente esse estado mental estranho como algo que experimentei nos momentos mais ricos da minha própria experiência de escrita: as semanas de férias que passei sozinho numa casa na serra fluminense, sem trocar uma palavra com ninguém, quando escrevi “As sementes de Flowerville” e, mais tarde, “Elza, a garota”; e sobretudo os quinze dias de solidão numa pousada em Paraty, entre setembro e outubro de 2012, que deram forma definitiva à maçaroca desconexa que “O drible” tinha se tornado.

Os livros não foram inteiramente escritos naqueles dias de isolamento – o de Ishiguro também não. Mas foi em tais momentos de atenuação induzida da realidade, de volume do mundo reduzido ao quase inaudível, que tive os maiores acessos de lucidez e tomei as decisões mais importantes sobre eles. Uma medida de desconexão com o real parece ter sido necessária para que eu mesmo passasse a acreditar nos meus “mundos fictícios”, deixando-os quase ao alcance dos sentidos – e se nem o autor acredita neles, como esperar que o leitor o faça?

Sem querer romantizar nada, muito menos a loucura, acho que o escritor americano E.L. Doctorow não se refere a nada diferente disso quando diz que “escrever é uma forma socialmente aceita de esquizofrenia”. É possível que contistas e poetas tenham histórias diferentes para contar. No caso dos romances, com o fôlego longo que exigem, fico tentado a enunciar uma lei universal: a de que alguma medida de alienação controlada é imprescindível ao processo criativo. Como conciliar isso com as demandas da vida real, eis o problema que cada um precisa resolver sozinho.

3 Comments

  • Alex R.F. 14/01/2015 at 09:54

    Sérgio, um dia, na falta de outra pauta, gostaria que explicasse se e como o domínio de outra língua o ajuda a escrever na nossa. E se nossos bons autores em regra dominam outras línguas – coisas do tipo.
    Abraço.
    Obrigado, Alex, sugestão anotada.

  • Francisco Sobreira 16/01/2015 at 19:24

    Com todo o respeito, Sérgio, acho uma bobagem o que esse escritor nipo-britânico fez. Se o cara tem talento, ele pode parir seus “rebentos” em condições e ambientes até mesmo desfavoráveis. Veja-se o exemplo de Graciliano, que teve, contra si, até a perseguição da ditadura varguista e escreveu São Bernardo, Angústia e Vidas Secas. Abraço.
    Caro Francisco: como eu disse, cada caso é um caso, mas não faz sentido chamar de bobagem o que deu um resultado magistral como “Os resíduos do dia”. Imagino que você não tenha lido o livro para dizer algo assim. Um abraço.

  • ramon moreira 04/02/2015 at 15:27

    Não sou escritor notável, tenho uns meros contos em antologias premiadas, e aqueles tantos livros na gaveta que todo projeto de escritor tem.
    Acredito piamente no modelo de Ishiguro.
    Se um dia fizer algo de notável, acreditem, foi porque me tranquei por um mês em algum sítio…onde é mesmo aquele do Drible?
    Ramon, a chácara de Murilo Filho fica no Rocio, no município de Petrópolis, bem perto da casa em que escrevi parte de Elza, a garota. Mas foi em Paraty que me recolhi quando comecei a escrever a versão definitiva d’O drible. Boa sorte com seus projetos.

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