A ortographia de Paraty

30/06/2008

Não fui à primeira Flip, em 2003, uma edição que ficou na história da festa como mito fundador, o Éden de gatos pingados que veio antes da Queda na massificação. No entanto, como descobri ao revirar meus arquivos agora há pouco, não deixei o assunto passar em branco. Num de meus primeiros artigos para o extinto NoMínimo, com o título acima, em agosto de 2003, falei da festa pelo ângulo de um quebra-pau supraliterário – ou infraliterário, pode escolher – que, embora não seja do tipo que muda a vida de ninguém, também não merece ser tratado como se não existisse. Afinal, a cidade se chama Parati ou Paraty?

Como a dupla grafia domina a imprensa até hoje, confundindo muita gente, reproduzo abaixo a crônica de (homessa!) cinco anos atrás, que tenta encontrar resposta um pouco mais ilustrada para uma questão normalmente resolvida com o recurso simplório a leis federais, municipais etc. Em tempo, prefiro escrever Parati por uma razão simples: morro de medo de um precedente que inspire vereadores numerólogos e/ou caipiras a rebatizar suas cidades de Floreepa, Cuyabah, Seaureaukabba…

*

Falou em ortografia, o pessoal se empolga logo. Muita gente tem escassa disposição para enfrentar questões de língua até surgir um “como é que se escreve mesmo?”. E logo se organizam Fla-Flus em torno de palavras “com ou sem tracinho” ou algo do gênero, como se a alma de uma língua residisse na epiderme, na camada superficial que a ortografia representa.

Não reside. Tal percepção distorcida tem a ver com um certo ensino preguiçoso, mas isso não explica tudo. A ortografia nos oferece também o consolo das respostas definitivas. Como ela é, ao contrário da maioria dos assuntos lingüísticos, regulada por lei, costuma admitir sentenças inapeláveis: “Isso está certo, aquilo está errado”. Brande-se um dicionário e pronto, fim de papo, os derrotados saem para um lado, os vitoriosos para o outro. Exercer a mesma assertividade em questões estilísticas ou gramaticais é quase sempre impossível. No mínimo, é empobrecedor.

Isso quer dizer que a ortografia não tem importância? É claro que tem. Quem escreve gato com jota pode ser um escritor de talento, mas enfrentará problemas imensos para ser levado a sério (a menos que tenha a seu serviço um bom revisor, e nesse caso pode até entrar para a Academia Brasileira de Letras). Para todos os efeitos práticos, convém ter alguma intimidade com as prescrições da ortografia oficial aprovada na sessão de 12 de agosto de 1943 pela ABL, e posteriormente simplificada pela Lei 5.765, de 18 de dezembro de 1971.

Nem tudo é epiderme na ortografia: existe também uma dimensão profunda no problema do “como é que se escreve”. Foi nela que mergulhou o poeta português Fernando Pessoa ao combater tenazmente as simplifações ortográficas em curso no início do século 20. Pessoa queria continuar escrevendo “pharmácia” como forma de manter viva a tradição de um idioma que, acreditava ele, estava destinado a conquistar o mundo. Na pior das hipóteses, insistia no livre-arbítrio: “Cada um tem direito a escrever na ortografia que quiser”.

Não foi esse o espírito que prevaleceu, como se sabe. O que é uma bênção: já imaginaram os problemas de comunicação que o cada-um-por-si poderia provocar numa época de troca tão acelerada de informações? Mas o voluntarismo à la Pessoa continua a se engalfinhar de vez em quando com a uniformização da ortografia regulada pelo Estado. Veja-se o caso de Parati, por exemplo.

Será que eu deveria escrever Paraty? Eis a questão. Se consultarmos gente que mergulhou de cabeça na bonita cidade histórica por ocasião da recente Festa Literária Internacional, nem vamos precisar sair do âmbito do NoMínimo para ficarmos confusos. Flávio Pinheiro e Arthur Dapieve escrevem “Paraty”. Paulo Roberto Pires prefere “Parati”. Zuenir Ventura optou pela grafia mais simples e, não bastasse a crise de identidade que arrumou por lá ao ser confundido com Saramago e Millôr, foi repreendido por uma leitora paratiense zelosa de seu ipsilone.

O site oficial da cidade conta a seguinte historinha. A comunidade paratiense não gostou da reforma de 1943, aquela exterminadora impiedosa de ipsilones, e continuou em grande parte a usar a grafia “Paraty”, que fora oficial até então. Em 1972 o senador Vasconcellos Torres apresentou ao Senado um projeto propondo que cidades e monumentos históricos recuperassem a grafia que tinham na velha ordem. O projeto foi rejeitado, provavelmente pelo receio de que Nichteroy gostasse da idéia, mas Parati resolveu assumir de vez a desobediência civil. E nesse pé estamos até hoje.

Aqui sou obrigado a retocar uma afirmação feita acima. Nem sempre as polêmicas ortográficas admitem sentenças inapeláveis. Quem optar pelo enfoque legalista dirá que “Paraty” é apenas um erro, uma idiossincrasia provinciana. Não há como negar. Mas não é desprovido de interesse o argumento de que, sendo uma cidade de exceção, ela tem direito a uma grafia extraordinária que espelhe tal condição. Fernando Pessoa gostaria disso.

Pois é, Fla-Flu embolado. E segue o jogo.

17 Comments

  • Marina Morena Costa 30/06/2008 at 15:58

    Eu fui à primeira Flip. E era uma turma de gatos pingados mesmo. As mesas da hoje chamada Tenda dos Autores aconteciam na Casa de Cultura de Paraty — um casarão colonial com janelas grandes, tábuas de madeira e cheiro de história. A Tenda da Matriz ficava onde sempre ficou na Praça da Matriz, mas não havia cadeiras nem carpete no chão (muito menos headset com tradução simultânea). A gente levava canga de prais e jornal pra sentar em cima (e não precisava pagar nada pra entrar). Uma delícia.
    Hoje a FLIP virou um evento de proporções gigantescas. Mas ainda concerva seu charme e aquela áurea literária que nos envolve de uma forma indescritível e nos inspira a ler e escrever mais. E é isso que importa!

  • Marina Morena Costa 30/06/2008 at 16:01

    ops! Duas correções aí em cima: praia e conserva. Digitei errado… (que feio!)

  • Marcelo Moutinho 30/06/2008 at 16:33

    Também estive lá na primeira. E em todas as demais, desde então.

  • márcia aparecida marques de moraes 30/06/2008 at 16:34

    Já estive em Paraty duas vezes, me apaixonei pela cidade, nunca vi areia tão branca, um sonho…nunca fui a nenhuma Flip, mas amo ler e escrever…, só de me imaginar em um evento assim,e em um lugar como aquele, fico arrepiada…, não posso ir, por que se eu for, não volto, morro de emoção…..

  • Tathy 30/06/2008 at 17:18

    Olha eu acho Paraty charmoso e concordo com seu texto ressucitado, eu mesma, me considero vítima de uma alfabetização preguiçosa. Vivo em guerra por conta dos Porques, afinal tem um porque para cada coisa!
    Mas, tenho feito o possível para melhorar.

  • joao gomes 30/06/2008 at 17:27

    Pô! Sérgio! Caramba! Esse tipo de querela bizantina acaba tirando pontos de um estudante em vestibular ou em concurso público. Ao seguir “a manada” e o costume geral da nacao acaba encontrando sua danacao.

  • silvia marina del col 30/06/2008 at 18:11

    amo PARATY, não existe para mim, lugar mais belo
    um dia irei morar lá, então irei a todas flip.

  • Francisco de Sousa Vieira Filho 30/06/2008 at 18:57

    Genial o bate-bola do antigo com o novo… mas e como ficamos com a nova reforma ortográfica unificadora que foi ratificada pelo Brasil em 1990 e que entrará em vigor em 2009?! Dizem que nos deixará com coisa de três anos seguidos em que duas ortografias diversas – o antigo e o novo – irão “valer”?! Desobediência “civil” ou mudança “servil”? :)

  • josé de frança oliveira junior 30/06/2008 at 21:33

    gostaria de expor minha alegria quando se fala de paraty ou parati tanto faz. o lugar é magico tanto na serra como no mar. um dia eu e minha familia iremos morar em parati. obrigado paraty.

  • Anna May 01/07/2008 at 16:49

    Tinha dúvidas. Depois dessa explicação adotei Paraty, em solidariedade aos donos do nome, pelo menos oficialmente. Na minha casa é “Patati” , pois foi assim que minha filha, na época com um ano e meio batizo a cidade, na clássica pergunta antes da Flip: “Onde é que neném vai passear? e lá vai a mocinha num sorriso quase sem dente: “Patati”

  • Cássio 01/07/2008 at 20:15

    Sergio, a explicação que eu conhecia era a de que o padre Anchieta, em sua gramática de tupi, recomendava que o encontro das vogais “i”, como em paratii, fosse transliterado como “y”. Parati, cidade, seria paratii, ou água de parati. Parati seria o nome de um peixe. Si non è vero..

  • Jaconias Roque de Souza 02/07/2008 at 21:21

    “Omessa”! por que não PARATY, para não confundir com qualquer ipsilone estrangeiro? não basta os DISK isso e DISK aquilo, parecendo que não valorizamos o nosso vernáculo? ou valorizamos por demasia os gringos?
    Parabens Parati pela sua beleza (é com “z”?) e cultura inconfundíveis.

  • edith rizzo 03/07/2008 at 08:04

    Morar em Paraty é privilegio pra poucos e participar da Flip, nessa cidade maravilhosamente linda, ainda mais.
    Sou privilegiada em dobro e espero ansiosa o mes de Julho chegar, todos os anos, certeza garantida de aprendizado e novos conhecimentos. Paraty mexe com os sentindos. Volta no tempo e remete ao futuro. É pura magia.

  • Mariana 03/07/2008 at 11:12

    Gostaria muito de ir a Flip. Não sei se me encataria com a cidade fora da época da festa literária…
    Moro em Salvador e aqui também tem areias brancas e as ruas de paralelepípedo.
    Ano que vem tentarei ir a Paraty (acho mais bonito com Y)

  • fabiane viana g. piazza 11/02/2009 at 14:04

    também amei Paraty, ou será Parati ? pra mim tanto faz a grafia, o importante é que ela é realmente linda e compartilho o sonho de várias pessoas que escreveram aqui, também quero um dia ir para ti ó linda Paraty , morar nessa cidade romântica…

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