A pesquisadora

16/06/2008

Ela deu um meio sorriso de olhos baixos, como se tentasse ler desígnios superiores nos volteios dos pedaços de limão esmagados no fundo do copo, e disse que a maior ofensa que se costuma fazer às de sua espécie é supor como móvel de sua busca sem fim uma ilusão vizinha da loucura ou da imbecilidade – a de que os homens que dedicam a vida a simular outras vidas por escrito são mais gostosos ou tesudos, mais misteriosos ou desafiadores do que os mortais comuns. O meio sorriso virou uma gargalhada seca, tão áspera e alta que metade do bar se voltou na nossa direção, inclusive todos os garçons. Ela aproveitou para erguer o copo vazio com a mão esquerda e bater nele com a unha comprida do indicador direito, esmalte carmim, três pancadinhas que tilintaram longamente dentro do segundo de silêncio instaurado por seu riso. O garçom mais próximo assentiu com a cabeça e fez meia-volta. Se houver alguma relação, ela prosseguiu, é bem o contrário, escritores tendem a ser piores de cama do que a média dos homens: mais broxas, mais ejaculadores precoces, além de mais inseguros, mais ciumentos, mentirosos, desleais, descuidados, caspentos, fedidos, barrigudos, egoístas, frios, estúpidos, babacas… Tudo aquilo que os homens em geral costumam ser, escritores têm tendência a ser um pouco mais. Eu posso dizer, ela disse, porque já fiz muita pesquisa de campo, qualitativa e quantitativa, e no entanto… Me fixou com seus olhos negros e acrescentou: Não pense que é por masoquismo que eu prefiro dormir com escritores. Muito longe disso. Fiquei aguardando ela me dizer por que, então, preferia dormir com escritores, mas o silêncio se prolongou. O garçom veio com a nova caipirinha. Ela retirou o canudo do copo, depositou-o sobre o guardanapo e tomou um gole longo. Aproveitei para observá-la: brincos em forma de serpente chegando quase aos ombros nus, sutiã corajosamente ausente. Tinha idade para ter conhecido a poesia marginal, calculei, tateando metáforas bêbadas: se existe algo como uma mão encarregada de passar o bastão entre as gerações literárias, então ela usa esmalte escarlate e está diante de mim bem agora. Apesar de sentir uma ponta de curiosidade, decidi não perguntar por que ela preferia dormir com escritores. Me intrigava mais naquele momento o fato de escritores toparem dormir com ela. Seria, talvez, porque assim se sentiam escritores na plenitude da palavra – escretores, excretores – essa condição fugidia e enganadora, vaidosa e mesquinha, que ao contrário do que se pensa é infinitamente mais fácil assumir perante o mundo do que na própria alma? Aí ela vinha e assinava embaixo: és escritor, sim; por que outro motivo eu estaria aqui fazendo o papel de tinteiro para a tua pena? Foi então que o teto do bar despencou sobre nossas cabeças. Com o corpo subitamente envolto num filme de suor gelado, joguei uma nota de vinte sobre a mesa e me levantei. Sabia que, ao proceder assim, puxava mais para baixo a nota dos escritores na pesquisa dela, mas não tinha escolha. Se corresse, talvez conseguisse chegar ao banheiro antes de vomitar.

14 Comments

  • Leandro Oliveira 16/06/2008 at 11:12

    Bloomsday!

  • Euterpe 16/06/2008 at 11:35

    O escritor ganhou, ao menos, no quesito coragem !

  • franklyn gallani 16/06/2008 at 13:17

    Texto afiado… Mas me intrigou mais as conjeturas reveladas nas entrelinhas.

  • shirlei horta 16/06/2008 at 13:47

    Tudo aquilo que os homens em geral costumam ser..

    Se a premissa é um patamar baixo… todo o resto perde em importância.

    A reação também parte de uma premissa de menosprezo:

    Me intrigava mais naquele momento o fato de escritores toparem dormir com ela.

    e é exagerada (suor frio, vomitar).

    Mas como a gente não sabe a história…

  • Fernando Torres 16/06/2008 at 16:18

    Vá passear na praia rapaz!

  • Júlio Mattos 16/06/2008 at 16:58

    Será que ela era?!?! Suspeita, pelo menos…indicativos de uma pessoa complicada…..mais do que todos os defeitos que elencou aos “brutos” da questão!!! Dez….gostei! A reação dele ao “tinteiro”….rs!

  • El Torero 16/06/2008 at 17:45

    As mulheres dos contos do Sergio estão sempre fazendo pesquisa, questionários, perguntas…
    É exagero claro, mas já houve uma que perguntou “…que livro você levaria para uma ilha deserta…”
    Mas gostei da cena, principalmente como ela pediu a segunda-ou terceira-caipirinha.

  • Paulo Bentancur 16/06/2008 at 18:48

    Enfim um texto que inverte os papéis, cansativos, de mulher feito um trapo e homem pontificando. Ou não? Sérgio Rodrigues combina ambas as condições. O trapo é ela e é ela quem pontifica. E escritor e pesquisadora (jornalista) viram personagens convincentes, consistentes. A saída precária, humana ao ponto do inadiável horror sem moralismo algum é um dos aspectos que fazem da prosa de Rodrigues, de longe, uma das mais certeiras da ficção de hoje no Brasil.

  • Sérgio Rodrigues 16/06/2008 at 19:16

    Caro Bentancur, obrigado pelas palavras generosas. Vindas de quem também está (e há mais tempo que eu) nesse páreo, têm muito valor. Apareça sempre. E espero que você não esteja numa solidão do diabo aí em Porto, rsrs… Abraço.

  • André Gonçalves 17/06/2008 at 11:46

    “tendem a ser piores de cama do que a média dos homens: mais broxas, mais ejaculadores precoces, além de mais inseguros, mais ciumentos, mentirosos, desleais, descuidados, caspentos, fedidos, barrigudos, egoístas, frios, estúpidos, babacas…”

    acho que não quero escrever mais não.
    Bom texto, Sérgio.

  • quemvem 17/06/2008 at 16:09

    “Texto afiado…”, “Uma das prosas mais certeiras da ficção de hoje no Brasil…” – é engraçado como os costumazes discípulos aprenderam a elogiar à moda das orelhas oportunistas.

  • Cezar Santos 17/06/2008 at 20:22

    quemvem (ou bemveja?), não é costumaz, é contumaz…

  • Tonho 17/06/2008 at 23:52

    Essa aí vai fazer a festa na FLIP e FLAP.

  • Chico 18/06/2008 at 14:34

    …conheco umas assim… gostei

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