As lições da senhora Ros, a ‘pior escritora do mundo’

30/01/2013

É possível que a romancista e poeta Amanda McKittrick Ros (foto), uma professora nascida em 1860 na Irlanda do Norte, não tenha sido a pior escritora do mundo. Com certeza foi a escritora ruim que mais sucesso fez justamente pela ruindade de sua literatura. Esbarro em sua história fascinante no ebook Epic fail (Fracasso épico), de Mark O’Connell, que teve um trecho (em inglês) reproduzido há poucos dias na revista eletrônica Slate.

O surrealismo involuntário da prosa absurdamente artificiosa de Ros já foi apontado por sua legião de admiradores-detratores – com hífen porque são as mesmas pessoas, a admiração sendo no caso uma forma de gozação. A novidade do enfoque de O’Connell é lançar a hipótese de que Ros também tenha inventado sem querer o pós-modernismo ou pelo menos um de seus traços mais marcantes, a elevação irônica da ruindade galopante a uma forma de arte.

Não se trata de fenômeno isolado. Ros está para as letras como Ed Wood está para o cinema e Pedro Carolino, autor do hilariante “Novo guia da conversação em portuguez e inglez” (Casa da Palavra), para os estudos linguísticos. Mestre insuperável da purple prose, como os anglófonos chamam o estilo empolado típico da subliteratura, foi estudada e ridicularizada com fascínio e horror pela intelectualidade britânica nas primeiras décadas do século 20, em grupos de leitura como o de C.S. Lewis e J.R.R. Tolkien. Em 1923, ganhou um ensaio sério de Aldous Huxley:

Na senhora Ros nós vemos, como nos romances elisabetanos, o resultado da descoberta da arte por uma mente não sofisticada e sua primeira tentativa consciente de produzir um efeito artístico. É notável como na história de todas as literaturas a simplicidade é uma invenção tardia. As primeiras tentativas de qualquer pessoa de ser conscientemente literária sempre resultam na mais elaborada artificialidade.

É provável, porém, que o autor de “Admirável mundo novo” não tenha feito inteira justiça ao caso único de Amanda McKittrick Ros, autora dos romances Delina Delaney e Irene Iddlesleigh, em que se lê um trecho como este (a tradução, certamente aquém do original, é minha):

Fala! Irene! Esposa! Mulher! Não fiques sentada em silêncio e permitas que o sangue que agora ferve em minhas veias verta por cavidades de paixão irrefreada e goteje para me encharcar com seu matiz carmesim.

O’Connell observa que “uma coisa que fica clara na prosa de Ros é sua aversão a chamar as coisas pelo nome. Olhos são ‘globos de intenso brilho’. Quando seus donos estão infelizes, esses globos ficam ‘plenos de pesar’” (familiar, não?). Em pequenas doses, diz ele, a coisa tem graça, mas seu efeito cumulativo pode ser perigoso: “Os escritos de Ros não são apenas ruins (…): sua ruindade é tão potente que parece minar a própria ideia de literatura, expor o empreendimento inteiro de fazer arte a partir da linguagem como essencial e irremediavelmente fraudulento – ou, pior ainda, tolo”.

E mesmo isso não dá conta do que tornou Ros um personagem ímpar na história da literatura. Para tanto é preciso incluir no retrato sua proverbial ausência de senso de humor e sua certeza, aparentemente nunca abalada, de que era uma romancista genial. Diz O’Connell:

Essa característica é comum a várias encarnações contemporâneas do Fracasso Épico (…): uma recusa a ser dissuadida da crença em sua própria grandeza pelo coro grego de ridículo que foi o pano de fundo permanente de sua carreira. À falta de senso de humor de Ros correspondia uma imunidade quase miraculosa à insegurança – essa praga das carreiras literárias. Pelo menos em parte, isso se devia ao fato de nunca ter lido Defoe, Eliot e Dickens, ou na verdade praticamente qualquer autor além de si mesma. Em 1930, ela escreveu para seu editor Stanley T. Mercer perguntando-lhe quais ele julgava serem suas chances de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. “O que você pensa desse prêmio? Acha que eu deveria fazer uma tentativa?”

Há algo de cativantemente cômico, claro, na ideia de um escritor que deve sua carreira ao fato de ser horroroso, e o pastelão intelectual das várias escaramuças em que Ros se meteu é de primeira qualidade. Mas – e digo isso sem o menor traço de ironia – há também algo de paradoxalmente inspirador na completa (e completamente deslocada) confiança na magnitude de seu próprio talento. Escritores são pessoas famosas pela egolatria, mas também costumam ser atormentados pela insegurança. Foi a suprema autoconfiança de Ros que a levou a produzir uma obra tão sedutoramente ridícula, mas também o que a tornou impermeável à zombaria que provocava. Ela pode ter sido um completo fracasso na tarefa que designou para si mesma, mas havia uma certa grandeza em seu caráter.

13 Comments

  • Saint-Clair Stockler 30/01/2013 at 12:43

    Que curioso, me lembrei de vários escritores brasileiros que conheço…

  • Claudio Faria 30/01/2013 at 13:18

    Sérgio, obrigado por apresentar essa figura cômica e, ao menos para mim, enternecedora, que foi Amanda McKittrick Ros. O caso dela é extremo, e por isso torna-se até cômico. Mas, se pensarmos bem, não é tão incomum encontrarmos escritores horríveis que julgam-se excelentes, porém incoompreendidos. E olha que alguns são campeões de venda, hem?

  • Rosangela Maria 30/01/2013 at 13:57

    No primeiro momento achei que a ruindade se referia a alguma maldade da autora, mas depois fui percebendo que a ruindade se referia a “obra” da mesma. Quando li a última frase… achei genial, afinal a mulher escreve mal mas tem grandeza de caráter. Meno male.Boba mesmo foi em querer ser grande na literatura. Vai ver que sua escrita era para dar recado, só isso. E se não era, bem que merece a ruindadeza referida. Quam manda?

  • Beverley de Graustark 30/01/2013 at 17:11

    hahaha, no interior de Santa Catarina só existem escritoras assim. Sério. Sem exceções. Publicam um por ano, não tem o costume de ler, e ligam de mês em mês às livrarias para saberem se vendeu algum livro. Naturalmente que não!!

  • Rosangela Maria 30/01/2013 at 21:42

    Hum! Esse “Ros” tá me incomodando. rsrs

  • Rosangela Maria 30/01/2013 at 22:28

    Futucando aqui o sugerido pelo Sérgio, encontro isso: “Jack Loudan menciona que ela considerou um ato de falta de educação escrever sobre um livro sem ter sido convidado a fazê-lo por seu autor. Críticas, em sua opinião, era uma forma de se intrometer nos assuntos dos outros.”
    kkkkk

  • Rosangela Maria 30/01/2013 at 22:29

    A “véinha” né fácil, não.

  • Rosangela Maria 31/01/2013 at 09:50

    Prometi para mim mesma que não viria aqui em série, mas esta postagem me faz pensar muito, e eu trago aqui algo sobre a “geração eu me acho” e essa “senhora Ros” já fazia parte desta geração. ( Deus me livre fazer parte desta geração).

  • Rosangela Maria 31/01/2013 at 09:50
  • Roberto Kenard 31/01/2013 at 22:59

    Veja você, meu caro! Se tirássemos o nome Ros de todos esses comentários e puséssemos o de Paulo Coelho, todos os leitores concordariam. Paulo Coelho leva-se a sério além da medida, acredita a sério que é um bom romancista. A única diferença: no Brasil quem considera Coelho uma senhora Ros é tido como alguém que detesta o sucesso alheio e/ou é um sujeito literariamente elitista. Por lá sempre souberam e sempre ridicularizaram na medida certa a senhora Ros. Já no Brasil de Paulo Coelho…

  • Microempresário 01/02/2013 at 20:51

    Mas que gente que não larga do Paulo Coelho…

  • Rosängela Maria 02/02/2013 at 10:48

    Ora veja só! Vou dar uma volta “pelo mundo” e olha o que encontro! Ela. A madame Ros. Até aqui, bruta ( interrogação).

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial