Bukowski, alguém?

15/03/2007

Fiquei surpreso quando vi que o Babelia, suplemento literário do jornal espanhol “El País”, dedicou sua última capa a Charles Bukowski (1920-1994). Minha primeira reação foi suspeitar de exagero. Capa? Do Babelia? Páginas internas, vários pontos de vista, reprodução de cartas dele para uma editora, coleção de links sobre sua vida e obra? A princípio me pareceu descabido, como se o inegável mas restrito mérito literário do escritor americano nascido na Alemanha – recordista mundial em número de páginas dedicadas a porres e ressacas – não merecesse mais do que uma resenha ou artigo isolado.

Aí pensei melhor: me lembrei da força que “Cartas na rua”, na primeira edição da Brasiliense, teve para mim aos 20 anos, e de como passei um ano ou mais caçando tudo o que pudesse encontrar do sujeito. Depois pensei nas levas de jovens escritores e aspirantes influenciados pelo homem, que escreveram e continuam escrevendo sobre suas próprias bebedeiras e promiscuidade como se bebessem e trepassem apenas para escrever depois. É gente à beça, embora a maioria só saiba o que é fome quando a empregada atrasa o jantar, o que estraga um pouco a brincadeira.

Será que tudo isso é pouco para levar Bukowski à capa do Babelia? Claro que não. A discussão que rola por lá é boa e vale a visita. De todas as opiniões, a que mais se parece com a minha foi dada pelo argentino (radicado em Barcelona) Rodrigo Fresán, 43 anos, que estará na próxima Flip a bordo de seu romance “Jardins de Kensington” (Conrad):

Sua obra tem valor em si, como a de (Raymond) Carver, mas é uma leitura um tanto adolescente. Se você continua a lê-lo aos 50, é um pouco triste. O que não me interessa em absoluto é o mito, nem os seguidores do mito Bukowski, nem Sean Penn, nem Matt Dillon. O legado de Bukowski é em muitos casos lamentável. É um desses autores que abrem a porta para escritores-clones, que involuntariamente fazem cópias patéticas.

55 Comments

  • Tibor Moricz 15/03/2007 at 17:36

    Nunca li Bukowski. Nem sei quem é.

  • Saint-Clair Stockler 15/03/2007 at 17:49

    Tibor, leia então o “Hollywood”, dele. Nunca ri tanto na minha vida. A cena em que ele e a mulher entram numa corretora pra comprar uma casa é antológica! A cena dos negros debaixo e em volta (sim, é isso mesmo) da casa do amigo dele, para onde ele vai pra encher a cara, é outra que te faz chorar de tanto rir.

    O que eu mais gosto no Bukowiski é o seu senso de humor.

    E, ao contrário do que ele quis fazer os leitores pensar ao criar essa persona literária decadente e embriagada, ele era um cara muito cuidadoso com dinheiro. Não era miserável, como queria fazer acreditarem. Ao morrer, se me lembro bem, deixou dinheiro suficiente pra filha fazer uma faculdade (dinheiro que ele vinha cuidadosamente guardando há anos).

  • Cezar Santos 15/03/2007 at 17:50

    Sérgio,
    O Fresán (e vc) estão certos. O velho ébrio Bukas é leitura pra adolescentes, que ficam maravilhados. Eu também fiquei…
    Não é à toa que é o deus-pai pros blogueiros em geral, pois que estes emulam aquela subliteratura. Todo blogueiro se baba pelo velho Bukas (e também pelo Fante, um pouco melhor e o verdadeiro culpado da tal literatura beat).
    Na minha lembrança a tal de Clara Averbuck… meu deus, o horror, o horror…

  • Bernardo Brayner 15/03/2007 at 17:51

    É impressionante a maneira como ele é idolatrado por tantos blogueiros do mundo. Eu acho um escritor um tanto adolescente também.

  • Tibor Moricz 15/03/2007 at 17:58

    Vou procurar o dito. Prometo.

  • Saint-Clair Stockler 15/03/2007 at 18:00

    Peraí, gente: o Bukowski não tem culpa se a Clarah Averbuck (e milhares de outros) quer imitar ele! Acho que, dentro daquilo a que se propôs, ele é um excelente escritor. Basta ler o “Hollywood” pra gente perceber o grande artista que ele era (como soube perceber o lado terrível do sonho de fazer parte do Cinema). Eu acho que ele só meteu os pés pelas mãos quando acabou criando uma persona literária que talvez – eu disse TALVEZ – tenha prejudicado a recepção de sua obra, embora para todos os demais resultados práticos tenha funcionado de forma divertida. Ele virou uma espécie de bufão (mais ou menos o que aconteceu com o Oswald de Andrade), o que impediu que muita gente levasse a obra a sério.

  • Cezar Santos 15/03/2007 at 18:07

    Ok, Saint-Clair…
    Gosto é gosto. Vc gosta do cara e enumera razões pra isso. Respeito. Mas já passei da fase de gostar do Bukas, e não digo isso pra dar a entender que eu evolui ou algo assim. É simplemente uma questão de amadurecimento pessoal, e as pessoas amadurecem de forma diferente, concorda?
    Quanto ao comentário do Fresán, “disconcordo” dele colocar o Carver no mesmo balaio do Bukas, como um autor “adolescente”. Acho o Carver um tremendo escritor, ao qual leio com prazer desde sempre (e continuarei a ler, tenho certeza).

  • mausoléu 15/03/2007 at 18:20

    Eu gosto de Bukas. 12 anos, com gelo e club soda. Mas prefiro o Joãozinho Andarilho (=Johnnie Walker).

  • Bernardo Brayner 15/03/2007 at 18:20

    É, eu também não entendi a relação Bukowski/Carver feita pelo Fresán.

  • Sérgio Rodrigues 15/03/2007 at 18:33

    Bernardo e Cezar, é um pouco estranho realmente, porque há pouco em comum entre os dois além do gosto pela bebida e o cenários da Califórnia. A frase aparece assim mesmo no Babelia, sem contextualização. Mas não creio que tenha sido intenção do Fresán dizer que Carver também é leitura adolescente. Reparem: ele diz que Bukowski tem valor, como Carver, mas é adolescente.

  • anrafel 15/03/2007 at 18:42

    Bukowski pode ser acusado de muita coisa, mas aquele Mickey Rourke de “Barfly” não acredito que seja culpa dele.

  • Bernardo Brayner 15/03/2007 at 18:43

    É, sérgio, relendo eu percebi isso. Mas fica a pergunta porque Carver e não, digamos, Ryonosuke Akutagawa?

  • Saint-Clair Stockler 15/03/2007 at 18:44

    Cezar, acho meio estranho você dizer que gostar do Bukowski é sinal de pouco amadurecimento pessoal. O gostar de um artista pode envolver tudo, menos a questão do amadurecimento pessoal. Acho que questões de “amadurecimento” até são prejudiciais à Arte…

  • Cezar Santos 15/03/2007 at 18:54

    Saint-Clair,
    Reafirmo que as pessoas amadurecem diferente. Comecei a ler o velho Bukas na idade certa, ou seja, por volta dos 14, 15 anos, e amei, e posso dizer que li tudo dele que existia traduzido para português.
    Depois disso “descurti”, entende?
    Não me interprete mal, repito que não digo isso como se eu tivesse evoluído, insinuando que quem ainda goste do Bukas não tenha evoluído. Tenho amigos que conhecem literatura pra caramba, até professores universitários se é que o título significa alguma coisa, que adoram o cara.
    Eu amadureci num rumo diverso da chamada literatura
    beatnik (é assim que chama?), que já não me seduz.
    É apenas questão de gosto e gosto é uma coisa meio estranha mesmo, definitivamente idiossincrática, certo?

  • Pedro Curiango 15/03/2007 at 19:04

    Este Fresán, Sérgio, me parece meio tolo. Dizer algo como: “Sua obra tem valor em si, como a de (Raymond) Carver[…]” é tentar fazer uma frase de efeito na qual o nome de Carver poderia ser substituído por qualquer, já que o problema é este “valor em si”. Ora, tudo tem “valor em si”, a questão é dizer que tipo de valor é este. Bukowski consegue interessar a adolescentes que ainda se entusiasmam com quem toma porre e é promíscuo – é um valor… para adolescentes que sonham com isto. Agora aproximá-lo literariamente de Carver, um dos maiores contistas americanos do século XX (e isto não é dizer pouco!), já borda as raias da toleima. Quem leu algo como “What We Talk About When We Talk About Love” e vê como se reescreve minimalisticamente o “Banquete” de Platão, numa sociedade de classe média atual, ficaria de cabelos em pé só de ouvir colocar um autor deste nível intelectual ao lado de uma mediocridade maniqueísta como o autor de “Love is a Dog from Hell.”

  • Abell Achtervolgd 15/03/2007 at 19:23

    Pois eu digo com o teclado cheio(digamos assim) que Bukowski é DETESTÁVEL! Só “Misto-Quente” que se salva em sua produção, seus contos, porém, são recheados de palavrões(“Bu$%#@ por exemplo aparece à propulsão…), porres horríveis, descrições enojantes…aff

    Ele e John Fante são uma das grandes pragas que surgiram na literatura. Graças à esses dois é que tem coisas como Marcelo Mirisola, Clarah Averbuck e etc…

  • João Marcelo 15/03/2007 at 19:24

    Bukowski às vezes acerta. Quando é bom, as frases curtas se encadeiam bem, tem ritmo e vivacidade. “Cartas na Rua” tem passagens ótimas sobre o sub emprego no coração da América, e “Misto Quente” traz relatos pungentes sobre infância, família e isolamento social. Mas o enfileiramento sistemático de porres e trepadas podem ser tediosos e esquemáticos, sem contar sua visão sobre mulheres em geral. Lendo a biografia do cara (lançada no Brasil), dá para sacar que Henry Chinaski era fichinha perto do Buk “real”. Quando o texto é ruim, parece Bukowski “querendo ser” Bukowski, se é que me faço entender. Em resumo: escritor irregular, mas com trechos e obras que merecem leituras e releituras.

  • João Marcelo 15/03/2007 at 19:25

    Perdão pelo erro de concordância acima cometido, heheheh

  • Daniel Brazil 15/03/2007 at 22:04

    Que me perdoem os fãs inveterados, mas Bukowski tem a profundidade de um pires.

  • Pedro Durso 15/03/2007 at 22:30

    Eu tenho 18 anos e adoro o velho Buk, talvez seja pq eu sou um adolescente, neh… mas não acho que seja por isso, caso vc leia o ultimo livro dele, “O Capitão Saiu Para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio” é um testamento literário maravilhoso e mt reflexivo. Bukowski não é adolescente, eh um velho safado, que tem seu valor e contexto. As vezes para se espelhar, as vezes para mudar e ser o contrario do que ele fazia…
    E como foi dito, suas frazes curtas tem um grande valor. Numa Fria e Notas de um Velho Safado são excelente! Vale sempre a pena ler para rir muito e ver que a lama no fundo corre nas veias de todos nós!

  • Jonas 15/03/2007 at 23:04

    Mas é claro que Bukowski é tão bom quanto Carver. Não há dúvida disso. Talvez em um mundo em que, sei lá, a Malah Aversão é melhor que o John Cheever, por exemplo.

  • Jonas 15/03/2007 at 23:04

    E poxa Sérgio, 20 anos? Tudo isso? Eu li uns Bukowskis aos 17, 18. Hoje, aos quase-23, me parece ter sido há séculos atrás.

  • Black Jack 15/03/2007 at 23:11

    Todos os que criticam o Mestre Buka devem continuar sendo nerds, moralistas, velhos e chatos. Ah, continuem também lendo Clarice Lispector. Continuem procurando autores com “intelecto”. Eu só aceito os que escrevem com as vísceras.

  • vinicius jatobá 16/03/2007 at 00:30

    Acho válido, apesar de não ser fã: nenhuma literatura é feita de Cervantes e Voltaires e Goethes. Acho que tem espaço para tudo, para literatura de várias naturezas: policiais, filosóficas, pornográficas, escapistas, engajadas… E a Babélia pode se dar ao luxo de dedicar tanto espaço ao B. porque, afinal, é um suplemento sempre muito interessante e instrutivo, e tão democrático que me surpreenderia se não desse também espaço a uma literatura como a do Bukowski. Ele tem seu público, e os leitores são os verdadeiros patrões dos escritores, então nada mais justo que saciar a fome de todos: daqueles que gostam de Kerouac, e daqueles que gostam de Faulkner, por exemplo. Agora, é ótimo um Lobo Antunes ganhando o Camões. Ele é um grande escritor, sério e honesto e trabalhador, e colhe os frutos de seus calos – tempo para escrever mais livros e algum dinheiro para se alimentar enquanto os confecciona. E a lista do Camões é ótima: todos autores de primeira linha, dos críticos literários fantásticos – Cândido e Lourenço -, e reconhecimentos merecidos a autores injustamente colocados hoje de lado como Jorge Amado e Rachel de Queiroz. A lista é boa. O que me impressionou é a falta de interesse total da imprensa brasileira sobre um prêmio que deveria ser celebrado. Pelo que me foi contado hoje, não havia qualquer jornalista brasileiro esperando o resultado. Apenas portugueses. E se o prêmio saísse para um Raduan Nassar ou Ubaldo Ribeiro ou Ferreira Gullar… O que já falei nesse espaço e as pessoas foram grossas, e repito: a imprensa nacional não valoriza nossos escritores, as editoras nacionais não se importam com nossos escritores… Seria o caso das editoras terem representantes esperando o resultado para fazerem alguma primeira divulgação junto da imprensa que, acredito, deveria estar lá… Ou não? Imagine: o autor X ganha e não tem ninguém da sua editora lá, nem assessores de imprensa para ajudarem na primeira recepção da notícia… Eu aposto que se fosse uma palestra de um escritor médio de expressão inglesa jornalistas estariam disponíveis para reportagens e entrevistas exclusivas… O maior prêmio da língua portuguesa não mereceria maior atenção? Pelo que sei, em Portugal Lygia Fagundes Telles recebeu até cadernos especiais, foi badalada, enquanto aqui apenas notinhas saíram, ou uma reportagem de meia página aqui e ali… É uma tecla que já bati uma vez, e jurei não bater de novo: protocolos pouco profissionais entre editoras e autores, excesso de amadorismo até dos próprios escritores, um preconceito com o nacional somado com uma espécie de fetiche com qualquer palavra escrita em inglês… É só comparar a festa que a Espanha faz com o Prêmio Cervantes com a pífia participação brasileira em relação ao Camões para ter uma pequena noção do que estou falando… Pode parecer um detalhe, uma boabagem até, mas são nessas pequenas coisas que entendemos a mentalidade de um país…

  • Sérgio Rodrigues 16/03/2007 at 00:31

    Jonas: você precisa compreender as gerações mais velhas. O que eu posso fazer se tinha 20 anos quando Bukowski foi lançado no Brasil pela Brasiliense, em 1983? Antes disso o cara não existia, nenhum de nós nunca tinha ouvido falar.

  • Sérgio Rodrigues 16/03/2007 at 00:37

    Nenhum de nós, digo, da minha turma, que estava longe de ser desantenada. É difícil imaginar hoje como era precária a circulação de informações e bens culturais no mundo de 1983. E a revolução que a Brasiliense provocou com sua linha editorial pop. Mas essa é outra história.

  • “Todos os que criticam o Mestre Buka devem continuar sendo nerds, moralistas, velhos e chatos. Ah, continuem também lendo Clarice Lispector. Continuem procurando autores com “intelecto”. Eu só aceito os que escrevem com as vísceras”

    Nosotras no hacemos literatura con las visceras – hacemos mierda! Pero solo lunes, martes e miércoles!

  • Saint-Clair Stockler 16/03/2007 at 07:55

    Vinícius: falou e disse. Concordo 115% com você. Abraços!

  • raimundo carrero 16/03/2007 at 08:45

    A melhor coisa que ele escreveu, com certeza, é a introdução – ou algo parecido – a “Pergunte ao pó”, de John Fante. Maravilha. A busca de um jovem autor em busca de sua própria identidade.

  • raimundo carrero 16/03/2007 at 08:47

    Desculpem-me: a angústia de um jovem autor em busca de sua identidade.

  • joao gomes 16/03/2007 at 09:21

    Vinicius tem razao. A Imprensa precisa se profissionalizar. A “César o que é de César”. O Premio de Literatura da Telecom do ano passado parece que teve mais repercussao do que este.

    Cadê o espaco para os nossos escritores. Inclusive para os representantes dos 27 estados da Federacao e do Distrito Federeal? Alguem pode citar um nome, representativo, de peso, por cada Estado?

  • severo 16/03/2007 at 09:25

    não entendo o que quer dizer “literatura para adolescente”…muito menos amadurecimento intelectual…..desculpem, mas é pura balela….não consigo ver nada de mais o sujeito ler, por exemplo, Crime e Castigo na adolescência e depois sentir grande prazer em ler alguma coisa do velho Buk, na idade adulta.

  • Bernardo Brayner 16/03/2007 at 09:34

    Será que Fresán não confundiu Raymond Carver com Raymond Chandler? Faria um pouco mais de sentido.

  • Parada 16/03/2007 at 10:01

    As pessoas tem a impressão de que é fácil escrever como o Bukowski, que é o grande erro. Li muita coisa dele nos meus 20 anos, hoje não acho interessante mais. Porém, meu poema predileto de todos os tempos é dele, “O gênio da multidão”. Acho meio bobo chamar ele de imaturo, para jovens, etc. Dá pra achar isso até nos considerados grandes. Bukowski é bom em seu universo, e se falando de livros há muitos a serem explorados.

  • Guilherme Meirelles 16/03/2007 at 10:38

    A impressão que eu tenho é que Bukowski levou-se a sério e insistiu no ofício da escrita. Tornou-se repetitivo e deixou claro as suas limitações. Mas apenas pelo fato de algumas de suas obras continuarem a serem tratadas como referências para os adolescentes já faz com mereça ser discutido. Alcançada a maturidade, lê-se Bukowski com uma ponta de nostalgia de algo que um dia sonhamos, o que não deixa de ser gostoso, por que não?

  • Bernardo Brayner 16/03/2007 at 10:40

    Este outro texto de Fresán talvez deixe um pouco mais clara a referência a Carver:

    “Tal vez, pienso, Bukowski sea el eslabón perdido entre Henry Miller y Raymond Carver. Lo pienso ahora, claro. Porque leí a Bukowski antes que a Carver (en las ediciones de Anagrama que llegaban casi a escondidas a la Buenos Aires del Proceso; en la primera fase tan colorida y tan under de la colección Contraseñas con traducciones rebosantes de “coños” y de “pollas”); porque no he vuelto a leerlo desde entonces; y porque, probablemente, ya nunca más vuelva a leerlo.
    Tuve la suerte de encontrar a Bukowski en el momento exacto y a la edad justa: cuando la vocación literaria, el sexo, la noche y la alegría de ser un outsider de todo eran una sola cosa. Por lo tanto, Bukowski cumplió su justo cometido: hacer que me olvidara para siempre de Herman Hesse. No recuerdo quién me extirpó a Bukowski de mi organismo. Probablemente fueran Jack Kerouac y Bob Dylan actuando en tándem. O Thomas Pynchon y Kurt Vonnegut. Sí me acuerdo que lo primero que leí de Bukowski (con este tipo de autores iniciáticos el primer libro que se lee de ellos, sea cual fuere, siempre es el único que en realidad cuenta) fue Factótum. Y me sigue pareciendo el mejor aunque hoy se me confunda con todos sus otros libros. No sé por qué, pero podría jurar que a Bukowski le pasaba lo mismo.”

    Retirado do site Radar.

  • Bernardo Brayner 16/03/2007 at 10:43

    Penso, agora, que ele usou o minimalista Carver como um contraponto à literatura de Henry Miller. Bukowsky estaria entre os dois. Mas muito mais para o lado do último, acho.

  • George A. 16/03/2007 at 11:26

    Comentando o fato que Bukowski foi lançado pela Brasiliense nos anos 80, ao mesmo tempo que escritores como Ryu Murakami, Violet LeDuc e o marroquino Mohamed Choukri . Não teria a Brasiliense (en peu en retard) se fixado nos escritores que foram moda nos anos 70 e assim nos amestrado em uma literatura já datada na época? Francamente acho Bukowski datado hoje e toda essa discussão só é relevante historicamente Chama a atenção aqui a questão da idade apropriada para se ler um determinado escritor. Carver e Bukowski é bom para se ler quando se tem 15, 16 anos e blah blah blah. A questão é: como julgar o que é bom para se ler quando se é adulto ou quando se é adolescente? Se formos nos fixar nessa questão da idade, Machado seria bom para se ler somente depois dos 30 anos, certo? Mas eu li Machado com 14 anos e achei Dom Casmurro muito bom. Vinte anos depois minha opinião não mudou muito. Mas ler Bukowski aos 30 anos nos faz pensar em como éramos ingênuos ao gostar daquela literatura ‘nova’ que a Brasiliense nos apresentou. Só fico pensando se nosso Paulo Leminski um dia também não cairá nesse rótulo de literatura adolescente (Catatau anda tão esquecido)

  • Paulo 16/03/2007 at 11:28

    Li Bukowski aos 20, graças ao pioneirismo da Brasiliense com sua série “Cantadas Literárias”, que tinha por mote “literatura sem frescura”. Comecei com “Cartas na Rua”. Em seguida veio “Mulheres” – que ninguém citou aqui. Foi um deslumbramento. Porque, nessa idade, tudo que é transgressor, rebelde, nos interessa imensamente. A poeta Miriam Reyes, uma das entrevistadas por Babélia disse, se referindo a Bukowski: “Era una lectura que te exigía poco y te daba muchísimo”.

    Pois era bem isso. E é bom lembrar que Bukowski chegou ao Brasil ao mesmo tempo em que por aqui aterrisava a obra dos beats (“Pé na Estrada”, principalmente). Então, foi fácil, em idade tão vulnerável a influências, sermos engolfados tanto pela literatura de Bukowski quanto por sua persona truculenta, o “anti-herói do sonho americano”.

    Porém não sei se é correto rotular sua obra como algo com pegada apenas para “adolescentes”. O que se depreende de sua biografia, lançada no Brasil pela Conrad, é um escritor ciente de suas limitações literárias, tentando sobreviver -, inclusive a si próprio, ao seu péssimo gênio, a suas bebedeiras -, com seus escritos, mas jamais atrelado a um projeto de atingir tal ou qual público. Creio que soa cômodo rotular autores de acordo com nossos critérios, datando-os ou criando hierarquias. No fim das contas o que há é boa ou má literatura. O que há é humanidade.

  • clelio 16/03/2007 at 11:35

    Um pouco mais atrás falaram do Mirisola. Acho ele um bom escritor, nada adolescente, pelo contrário. Com certeza a obra dele é melhor que ele, muito embora tenha alguns equívocos, mas “Azul do filho morto” é um livraço.

  • Guilherme Meirelles 16/03/2007 at 11:56

    Li apenas “Azul do Filho Morto” e gostei da forma com que ele segura o leitor até o final. Sei que ele gosta de envolver-se em polêmicas e não entendo como ainda não foi chamado por um grande jornal como articulista. É bem argumentativo e sabe como demolir um oponente. Ser as demais obras forem do mesmo nível de “Azul….”, dá para dizer que é um tremendo escritor.

  • JP 16/03/2007 at 12:01

    Será que ninguém se toca que o Bukowski era, antes de mais nada, um poeta, e por tal ele começou a ser publicado e a gerar interesse da academia (retratado em diversos contos, nos quais ele vai a faculdades fazer leituras)?

    Os poemas do Bukowski são como as pinturas de Hitler: uma obra menor, sem relevância artística. Mas ambos ficaram conhecidos pelas outras atrocidades que fizeram (salvas as devidas proporções).

  • Pedro Curiango 16/03/2007 at 13:52

    PAULO diz: “E é bom lembrar que Bukowski chegou ao Brasil ao mesmo tempo em que por aqui aterrisava a obra dos beats (”Pé na Estrada”, principalmente).”
    ** Creio que os “beats” foram conhecidos no Brasil desde muito antes: partes de “On the Road”, de Kerouac, que tratam de jazz, foram muito lidas no Brasil, quando de sua publicação , em meados da década de 1950, por terem sido publicadas numa série antológica intitulada “New World Writing”. Por coincidência, o número da série, onde saiu a colaboração de Kerouac intitulada “Jazz of the Beat Generation” (e assinada com o nome que ele usava originalmente: Jean Louis), publicou também uma pequena coleção de traduções de poetas brasileiros: Drummond, Bandeira, Schmidt, entre outros. A curiosidade pela tradução dos brasileiros e o interesse pelo jazz fez com que o livro (e Kerouac) fosse lido no Brasil antes mesmo da publicação completa de “On the Road.” “Howl”, de Ginsberg, também teve muitos leitores naquela época. Aliás, o conhecimento da “Beat Generation”, que representa, de certa maneira, o momento de virada da influência francesa para a americana em nossa cultura literária, se dá, no Brasil, praticamente ao mesmo tempo que ele está acontecendo nos EUA. Outra leitura obrigatória, naquela época, aqui no Brasil, foi o artigo de Norman Mailer sobre os “hipsters”.

  • Paulo 16/03/2007 at 15:18

    Pedro, só para deixar claro que o Paulo aí de cima não sou eu – se é que me entendes.

  • Marcelo 16/03/2007 at 15:49

    Nem todo mundo tem a erudição dos comentaristas deste blog. Agora, não dá pra viver num mundo só de Faulkners.

  • Paulo 16/03/2007 at 16:05

    Pedro Curiango, muito enriquecedor o seu comentário. Fiquei curioso: a “New World Writing” chegava ao Brasil? Ou era preciso importar? Abs.

  • Mindingo 16/03/2007 at 16:28

    O valor de figuras como Bukpwski é justamente a sua figura. Um escroto que escreve, de modo que os que lêem ficam fascinados com aquele mundo-cão. Não se fascinam pelas construções do cara, até porque está mamado, mas com a ousadia, a postura, a “atitude” se quiserem, para usar a palavra da moda. Bukowski vale pelo Bukowski, sua obra, infelizmente, não vale por si.

  • Abell Achtervolgd 17/03/2007 at 00:01

    Gostei do comentário do mindingo

    agora, quanto ao Mirisola, eu não li o seu “O Azul do Filho Morto”, mas se for no mesmo nível de “Bangalô” e similares, eu nem vou perder meu tempo…

    e sr. Black Jack, eu vou desconsiderar seu argumento de “desafio” contra os “nerds velhos leitores de Clarice Lispector”(eu, mesmo tendo 20 anos, dev ser bem velho…). Só lembre que se pode escrever visceralmente mas com classe e conteúdo. Está aí Thomas Bernhard e Céline em “Viagem ao Fim da Noite” que não me deixam mentir.
    mas enfim, tem mal-gosto para tudo, não é mesmo?..

  • Pedro Curiango 17/03/2007 at 00:12

    Paulo: Não só o “New World Writing”, que tinha o formato de “pocket book”, mas até mesmo as edições da Grove Press, da New Directions e da City Lights. Como as livrarias eram mais independentes (não em cadeias como hoje) havia livreiros que se preocupavam com certas clientelas mais exigentes. Ainda hoje, às vezes se pode encontrar em sebos alguns destes livros que entraram aqui naquela época. O caso que citei acima é especialmente interessante por causa da presença brasileira no mesmo volume em que um fragmento de “On the Road” teve sua primeira aparição.

  • Simone 17/03/2007 at 02:38

    Detesto Bukowski desde criancinha. Para ser mais exata, desde que abri a edição de bolso de “Notas de um velho safado” e li uma página, aos 14 anos. E não, não foram as putarias que me chocaram; foi achar tremendamente chato e mal-escrito mesmo.

  • Saint-Clair Stockler 17/03/2007 at 17:41

    Oi Simone. Mal escrito, exatamente, em que aspecto?

  • Arnaldo 18/03/2007 at 11:02

    Me lembro de ler Bukowski – tipo aos 17? E chegar um moleque da minha idade dizendo: “Bukowski? Já superei isso”. Tomar no cu. Bukowski é engraçado barbaridade, geralmente quem “já superou” ou diz que é leitura para adolescente escreve livros chatos pra caralho. Menos a Simone 😉 que também não gosta de outros escritores que geraram cópias baratas que eu tô ligado.

  • Simone 19/03/2007 at 18:04

    Arnaldo – eu não o superei: nunca cheguei a gostar dele. A impressão que eu tenho – daquela página e pouco que eu li, e de outras que abri depois, pois pensei que “não era possível essa adoração para alguém tão ruim” – é que ele exagera na celebração do desregrado e não consegue ir além disso. Tem a implicância da falta de sentido, que é pessoal: “sim, você bebe à vera e vive na sarjeta. E que mais? E daí?” Tem autores que conseguem extrair leite dessa pedra (ciclos de auto-destruição repetitiva), como o escocês de “Trainspotting” (esqueci o nome), mas Bukowski não é um deles. É chato. E eu não tô nem aí pra vida de escritor: pode ser o Rimbaud ou a Emily Dickinson, que vou julgá-lo pelo que está no papel.
    E, sim, é possível haver adoração para alguém tão ruim.

  • Arnaldo 20/03/2007 at 00:50

    Tô ligado, Simone! Preciso conversar contigo sobre o seu livro, que não tem concorrentes na vizinhança. Quando puder, let me know.

  • HJosé 28/03/2007 at 00:10

    Eu gosto muito do Bukowsky e não o li na adolescência.
    Gosto mais de ver, por sua literatura, que é possível ser gente mesmo dentro do escracho.
    Seus livros são fáceis de ler, divertidos, bem escritos. Por isto só já bastariam.
    Cartas na Rua e Mulheres são ótimos.

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