A insustentável leveza de um golaço

Um jornal de Belo Horizonte pisou na bola da linguagem e, em chamada de primeira página, classificou de “ontológico” o gol marcado por Neymar aos 39 minutos e meio do segundo tempo da partida entre Barcelona e Villareal pelo Campeonato Espanhol, domingo passado (8/11), no Camp Nou. Acertou sem querer, como aquele centroavante tosco que arma uma bomba e, errando o chute, roça na bola tão de leve que ela engana o goleiro e desliza para dentro da meta. A confusão entre antologia (coletânea) e ontologia (o estudo do ser enquanto ser, para além de todas as contingências) traz para a conversa um viés filosófico inesperado. O erro do diário mineiro é bem-vindo. Um daqueles momentos que nascem condenados à imortalidade no YouTube, será que o gol de Neymar aguenta o peso de ser lido e relido como uma demonstração concisa do que é ser, para além de todas as contingências, um gênio da bola? Sem a pretensão de substituir as imagens, obrigatórias para qualquer pessoa que não odeie futebol, vamos ao lance. A poucos minutos do fim, o Barcelona vence de 2 a 0 – o primeiro de Neymar, o segundo do centroavante uruguaio Luis Suárez – uma partida…

Desculpe, mas vou falar de futebol

Será que já eu já posso voltar a falar de futebol? A pergunta é dirigida a mim mesmo, e a resposta acaba sendo – obviamente, ou você não estaria lendo este texto – sim, mas um sim relutante. Falar de futebol foi o que mais fiz nos últimos dez meses, desde que lancei um romance chamado “O drible”. A Copa do Mundo em que o falatório culminou, e que me fez voltar com prazer maior do que eu imaginava possível aos velhos tempos de jornalista esportivo, teve, porém, o fim que se sabe: o inominável 7 x 1 de Belo Horizonte, 8 de julho de 2014, foi um peixe estragado goela abaixo quando o banquete já se aproximava do fim. Todos os pratos anteriores, por mais gostosos que tivessem sido no momento, passaram a embrulhar o estômago em retrospecto. Aí veio Dunga e… dizer o quê? Melhor mudar de assunto mesmo. Claro que não havia como sustentar o silêncio por muito tempo. Aquela tarde, os alemães ainda se esforçavam para, conservadores e polidos, manter sua contagem em cinco gols e eu já sabia que teria de tratar do massacre. Que provavelmente estava condenado, na verdade, a revisitar o momento por…

Pelé pilotava o carro de James Bond

Escrevi o artigo abaixo por encomenda da revista literária colombiana “Arcadia”. Com tradução de Camila Moraes, ele saiu no número que está nas bancas como parte de uma série de textos assinados por dez escritores, cada um de um país que disputará a Copa do Mundo: Argentina, Brasil, Colômbia, Espanha, França, Inglaterra, Itália, México, Portugal e Uruguai, em ordem alfabética na edição. A ideia era que cada um evocasse, “em forma de memória literária, sua relação com a seleção nacional”. * No livro “Febre de bola”, o escritor inglês Nick Hornby fala de como ficou impressionado quando, criança, viu jogar a seleção brasileira de Pelé, Tostão, Jairzinho e Rivelino na campanha do tricampeonato mundial, em 1970. Bem, ele não estava sozinho. A contribuição original de Hornby ao pasmo mundial diante da superioridade daquela equipe é uma metáfora infantil surpreendente: para ele, o futebol apresentado pelo Brasil no México lembrava “o Rolls-Royce cor-de-rosa de Penélope Charmosa e o Aston Martin de James Bond, ambos equipados com artefatos sofisticados, tais como assentos ejetáveis e armas ocultas, que os colocavam acima da banalidade entediante”. Não sei se leitores mais novos conseguirão captar o encanto singelo dessa imagem de futurismo datado. Para mim, nascido…

Por que o futebol é pouco presente na literatura brasileira?

A proximidade da Copa do Mundo e o fato de que publiquei um romance chamado “O drible” conspiram para tornar a pergunta acima a que mais ouço há meses. Tenho dado respostas múltiplas, como acredito ser uma exigência da questão, que não é simples. Este texto é uma tentativa – provavelmente condenada ao fracasso, mas fracassos também podem ser interessantes – de chegar a uma síntese que o bate-pronto das entrevistas não favorece. Em primeiro lugar é preciso descartar uma tese que encontra razoável apoio e que já vi formulada pelo antropólogo Roberto DaMatta: nossos escritores são elitistas e não admitem se rebaixar a tratar de um tema tão identificado com o povo. O raciocínio me parece furado. Há décadas convivo com um monte de escritores e jornalistas apaixonados por futebol, loucos pelo tema, e se essa fixação não se converteu em um punhado de obras memoráveis acho mais lúcido procurar a razão no oposto do esnobismo – um certo sentimento de intimidação, talvez, diante da gigantesca dimensão popular daquilo que velhos narradores de rádio chamavam de “violento esporte bretão”. Restam outras explicações. Acredito que uma das mais consistentes seja o fato de que o futebol e qualquer outro esporte…

Da arte de procurar no lugar errado

Nas entrevistas que tenho dado sobre “O drible”, meu romance mais recente, é comum que me perguntem – em geral de modo positivo, com admiração – sobre como cheguei à tese de que o estilo brasileiro de jogar futebol só se tornou o que é devido à ajuda involuntária dos velhos narradores de rádio, que com sua mania de embelezar exageradamente os jogos, fazendo “qualquer pelada chinfrim disputada em câmera lenta por perebas com barriga d’água” parecer “cheia de som e fúria”, obrigaram os atletas a fazer “um esforço sobre-humano” em campo para ficar à altura de suas mentiras. Não é tão simples responder a essa pergunta. Em primeiro lugar a tese não é minha: quem a expõe com entusiasmo, “parecendo satisfeito consigo mesmo”, é Murilo Filho, um dos personagens principais de “O drible”. Murilo é um velho e famoso cronista esportivo que, à beira da morte, busca se reaproximar de seu único filho, Neto, com quem brigou há um quarto de século. Trata-se de um excêntrico que Neto suspeita estar gagá e, mais do que isso, um personagem de princípios morais duvidosos (digamos assim, para evitar spoilers). Duvido que algum autor se sentisse confortável de escalar tal figura como…

Não deixe de ler ‘O negro no futebol brasileiro’
Futebol & literatura , Resenha / 07/12/2013

Aproveito a semana do sorteio dos grupos da Copa do Mundo para pagar uma dívida. Nas entrevistas de lançamento de meu romance “O drible” (Companhia das Letras), tenho cavado oportunidades para recomendar a leitura de “O negro no futebol brasileiro”, de Mario Filho (Mauad, 2003, 344 páginas, R$ 64,90). Trata-se de nosso mais importante título sobre o tema e, mais do que isso, um clássico sobre a formação da sociedade brasileira que – ainda que menos declaradamente ambicioso e muito menos conhecido – comunga do espírito de obras como “Raízes do Brasil” e “Casa grande & senzala”. Não se trata de um romance, mas de uma longa reportagem, com tintas ensaísticas, sobre os anos de formação do grande esporte nacional. Quem ler “O drible” vai entender desde a epígrafe o quanto Mario Filho – que me atrevi a escalar como personagem do romance – tem a ver com meu livro. Mas acredito que ele mereça elogios mais explícitos, menos cifrados, razão pela qual republico abaixo a resenha que escrevi em 2004, quando “O drible” ainda era um projeto vago, sobre a então recente reedição de “O negro…” que até hoje se encontra nas livrarias. * Algumas mentiras, de tão repetidas,…

O dia em que Pelé desafiou Deus

httpv://www.youtube.com/watch?v=-UzRsvCsC4c Adianto abaixo o primeiro capítulo de meu novo romance, “O drible”, que será lançado no dia 26 de setembro pela Companhia das Letras. Antes, durante ou depois da leitura, recomenda-se assistir (acima) ao mais famoso quase-gol da história do futebol. Outro trecho do livro foi publicado pela “Folha de S.Paulo” no caderno Ilustríssima de domingo passado, aqui. Para os leitores do Rio: estarei hoje às 18h30 no Placar Literário da Bienal do Livro para falar de “O drible” e os dribles que a literatura pode dar. Apareçam. * A TV é uma velha trambolhuda de tubo de imagem. O lance não deve ter mais de dez segundos, mas com as interrupções de Murilo enche minutos inteiros enquanto ele narra sem pressa, play, pause, rew, play, o que na época foi narrado com assombro. O que você vê primeiro é uma imagem parada que logo identifica como da Copa de 1970 pelo short da seleção brasileira, que é de um azul mais claro que o habitual, além de escandalosamente curto para os padrões de hoje. Tostão, cabeçudo inconfundível, número 9 às costas, conduz a bola observado a certa distância por um sujeito de camisa azul-clara e calção preto. Murilo solta…

O paradoxo do moleque no país do futebol
Futebol & literatura , Posts / 12/06/2013

Molecagem baiana. Capoeiragem pernambucana. Malandragem carioca. “Com esses resíduos”, escreveu o sociólogo Gilberto Freyre, autor de “Casa grande & senzala”, obra clássica sobre a formação da sociedade brasileira, “é que o futebol brasileiro afastou-se do bem ordenado original britânico para tornar-se a dança cheia de surpresas irracionais e de variações dionisíacas que é.” Atenção: o autor pernambucano não estava embriagado pelos vapores de uma grande vitória esportiva quando escreveu isso. O texto é de 1947. Além de ostentar como maior feito internacional um terceiro lugar na Copa do Mundo da França, em 1938, a seleção – algo que hoje parece mais grave – ainda envergava como uniforme uma camisa branca. Ou seja, o “país do futebol” ainda não o era. Hoje, depois de cinco títulos mundiais e da introdução da camisa amarela como um dos mais poderosos ícones da mitologia esportiva em todos os tempos, o problema é outro. Comenta-se pelas esquinas que o “país do futebol” já era. Será? A possibilidade não deve ser descartada. Dentro e fora do esporte, os destroços de potências decaídas entulham a história. Mas é curioso observar como a velha retórica otimista do sociólogo, com suas “surpresas irracionais” e “variações dionisíacas” (uma referência a…

Pelé e a aura do livro

O mais famoso ensaio do pensador alemão Walter Benjamin, A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, pode ter algo a nos dizer sobre este momento em que o povo do livro se divide em tribos, todas em pé de guerra, diante do avanço do livro digital. Há os que acham que o livro de papel logo estará extinto – entre estes, uns festejam, outros choram – e há os que apostam a reputação em sua eternidade, dividindo-se, por sua vez, entre moderados que acreditam numa partilha do mercado e radicais que zombam dos e-books como fogo de palha ou frescura para poucos. Penso em Benjamin enquanto folheio – e desfolho, e desdobro, entre outros verbos que não me ocorrem agora – o recém-lançado “Pelé – Minha vida em imagens” (Cosac Naify, tradução de Bernardo Ajzenberg, R$ 140,00). E se à “aura” da obra de arte original, única, sobre a qual Benjamin teorizava no ensaio de 1936, corresponder em nossa era de reprodutibilidade digital uma aura, não mais de coisa original, mas de coisa-coisa, material, tangível? Nada a ver com a turma que suspira por aí pelo “cheiro do papel”. O apelo sensorial aqui vai muito além do…

Ronaldo Helal: ‘Brasil se crê o mais entendido em futebol’

Se a ficção brasileira, como a de qualquer país, parece tímida ao retratar nossa maior paixão esportiva (veja nota abaixo), não se pode dizer o mesmo da literatura em sentido mais amplo. A produção cultural em torno do futebol, que tem na crônica esportiva seu gênero mais tradicional, vem ganhando nos últimos anos a contribuição da universidade, especialmente na área de sociologia. Em entrevista por e-mail, um dos representantes dessa tendência, Ronaldo Helal – doutor em sociologia pela New York University, professor de pós-graduação em comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e autor de “Passes e impasses: futebol e cultura de massa no Brasil”, entre outros livros – tem uma tese para o eterno choro sobre o relativo silêncio de nossos escritores diante do futebol, de resto semelhante ao dos escritores de países não menos vidrados no esporte: “A diferença é que os brasileiros se creem os mais apaixonados e entendidos no assunto”. 1. A imprensa e a crítica literária vivem estranhando que o Brasil nunca tenha produzido seu “grande romance do futebol”. Isso faz algum sentido? Literatura combina com esporte? – Veja que em 1919 Lima Barreto fundou a “Liga Anti-Futebol” e dois anos depois…

O Grande Romance do Futebol e outras lendas

Onde está o Grande Romance do Futebol Brasileiro? Por que nossos escritores perebas não conseguem fazer justiça a essa porção tão risonha e límpida da alma nacional? A questão vive rondando a fronteira entre a crítica literária e o departamento de vigilância da auto-estima brasileira. A cada Copa do Mundo, ressurge com ares de grande sabedoria para rechear cadernos literários, blogs e seminários. Convocados a explicar o fenômeno, os sábios de plantão costumam se dividir em dois times: o dos que consideram os escritores brasileiros elitistas demais para dar bola para o tema e o dos que consideram os escritores brasileiros competentes de menos diante da magnitude do tema. De uma forma ou de outra, culpados. Mas será que o Grande Romance do Futebol Brasileiro (daqui em diante GRFB, para facilitar) é essa grande lacuna porque, como diz o antropólogo Roberto DaMatta, os elitistas intelectuais brasileiros “detestam o futebol” – logo eles, com sua forte corrente populista encabeçada por ninguém menos que Jorge Amado? Ou seria porque, nas palavras do crítico Silviano Santiago, “o imaginário sobre futebol no Brasil é um espaço tão complexo, tão amplo e tão multifacetado” que provoca a falência dos projetos estéticos que dele se aproximam…

O grande romance do futebol

Naquele primeiro post da história deste blog, para o qual criei um atalho ontem, havia um link quebrado – irremediavelmente quebrado a esta altura, soterrado nos escombros do “NoMínimo”. Trata-se de uma resenha que publiquei no já distante ano de 2004 sobre “O negro no futebol brasileiro”, de Mario Filho. Em nome da sempre interessante discussão sobre literatura & futebol, decidi republicar o texto na íntegra: Algumas mentiras, de tão repetidas, passam por verdades. Uma delas aponta o que seria uma contradição a mais da vida brasileira, entre as muitas de que o país é feito: nosso futebol, com seu incomparável apelo de massa e sua qualidade aclamada em todo o mundo, nunca produziu na literatura uma única obra à altura dessa exuberância. Trata-se de uma quase-verdade. Só é mentira, e mentira clamorosa, porque o jornalista Mario Filho lançou em 1947 – e relançou, com o acréscimo de dois capítulos, em 64 – um livro chamado “O negro no futebol brasileiro”. Não se trata apenas do “maior clássico sobre o futebol brasileiro”, como costuma ser apresentado. É o único clássico digno desse nome, a mais acabada tradução da mitologia construída por um povo – fundada ou não, sonho ou realidade,…

Futebol e literatura em ano de Copa

Quem, como eu, já estava vivo quando Pelé marcou seu milésimo gol deve entender minha sensação de que esse número redondíssimo estará para sempre associado ao futebol. Daí eu me lembrar agora, quando o Todoprosa completa mil posts – o que não é nenhum feito de craque, claro, mas ainda assim merece comemoração – de como tudo começou, em maio de 2006: com uma discussão sobre o velho tema futebol & literatura, um dos mais recorrentes em nossa imprensa literária. A coisa toda parte de uma pergunta simples, embora talvez enganosa: por que nunca produzimos um romance sobre o esporte nacional que lhe faça justiça? Aquele era um ano de Copa do Mundo, como este também é. Alguém quer apostar que a pauta vai ser ressuscitada nos próximos meses?

Goleadores de letra
Futebol & literatura , Posts / 25/06/2006

Seleção brasileira de autores que escreveram sobre futebol, escalada pelo craque botafoguense Sérgio Augusto para o Portal Literal: Paulo Barreto; Coelho Neto, José Lins do Rego, Octávio de Farias e Vinicius de Moraes; Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues e Décio Almeida Prado; Mario Filho, Edilberto Coutinho e Luis Fernando Verissimo.

Esportes coletivos não dão liga?
Futebol & literatura , Posts / 08/05/2006

Impossível levar essa discussão sobre futebol x ficção a sério sem ampliar o quadro e tentar entender as relações entre os mundos esportivo e literário de forma mais geral. Não fiz nenhum estudo aprofundado – isso aqui é um blog, os estudos aprofundados ficam do outro lado da rua –, mas os dois universos parecem, com as exceções óbvias da crônica esportiva e de alguma poesia, manter relações frias. E não ficarei surpreso se, dos poucos exemplos de casamento feliz, a maioria envolver esportes individuais e não coletivos. Pense no que representa o halterofilismo para um conto extraordinário como “A força humana”, de Rubem Fonseca; a natação para o alter ego de Fernando Sabino em “O encontro marcado”; a tourada para o Ernest Hemingway de “O sol também se levanta”. O esporte como microcosmo da luta do homem – frágil, só, patético, magnífico – contra o mundo hostil. (Só depois de citar de memória esses três exemplos me dou conta de que dois deles falam de atividades que nem são consideradas propriamente esportivas.) Talvez seja difícil dar conta, literariamente, de trivialidades como o 4-3-3 e a disputa de pênaltis. Isto é, sem quebrar o encanto.

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