Pop de sexta: a morte de Diadorim
NoMínimo / 27/04/2012

httpv://www.youtube.com/watch?v=CWmoYRqVNLk A narração de Mário Lago e a direção de Walter Avancini fazem desse pequeno clipe – concebido como uma daquelas recapitulações sumárias dos folhetins televisivos, destinadas a situar o espectador na trama antes que comece um novo episódio – uma espécie bastante inspirada de resumo e, claro, também um spoiler de “Grande sertão: veredas”. Vi na época, em 1985, a minissérie da TV Globo baseada no clássico de Guimarães Rosa. Lembro-me de ficar incomodado com a beleza delicada demais, feminina demais de Bruna Lombardi no papel de Diadorim, que me parecia exigir bem mais ambiguidade, embora aprovasse Toni Ramos como Riobaldo e Tarcísio Meira como um canastroso Hermógenes. Revendo hoje este trechinho, com sua magia que dura até o surgimento daqueles hediondos créditos globais, até Bruna me pareceu uma escolha iluminada, como iluminada ela surge, nua, no clímax da revelação. Bom fim de semana a todos.

Meu pai
NoMínimo / 06/09/2010

Meu pai tinha uma coleção Clássicos da Literatura Universal, capa dura marrom com letras douradas, papel âmbar, graças à qual, aos dez anos de idade, passei semanas ou séculos (o tempo é diferente quando se tem dez anos) engalfinhado com a prosa opaca e vagarosa do “Ivanhoé” de Walter Scott, tentando entender palavra por palavra, crente que o que eu não entendia só me fazia melhor. Da mesma coleção li Flaubert, Tolstoi, Turgueniev, Wilde e Knut Hamsun antes dos quatorze. Quer dizer: muito cedo foi tarde demais. Tudo entremeado com Erico Verissimo, que também reivindicava seu metro e meio de estante nas obras então completas da editora Globo de Porto Alegre, capa dura azul. Os prefácios espirituosos que o pai de Clarissa tinha escrito para todos os volumes, desvelando os bastidores da literatura, deram o empurrãozinho que faltava: tarde demais, sem dúvida nenhuma. Para o bem ou para o mal, eu ia ser escritor e pronto. Meu pai ficou preocupado com a notícia. Meu pai tinha também uma edição inglesa de “David Copperfield” no fundo da parte de cima do armário de seu quarto, com assinatura na folha de rosto – uma assinatura espalhada e confiante de jovem, diferente do…

Leitura de escritores fecha a Flip
NoMínimo / 08/08/2010

Nada de debates de ideias. Nada de perguntas difíceis de responder. Tradicionalmente leve, a mesa final da Flip reuniu alguns dos escritores do evento para a leitura de trechos de seus autores preferidos. Confira abaixo uma relação com alguns dos convidados da mesa, hegemonicamente estrangeira, seus livros favoritos e as justificativas de suas escolhas. Beatriz Bracher . Leitura: trecho do romance Angústia, de Graciliano Ramos . Justificativa: “Foi o primeiro autor que me deu a noção clara de que escrever não tinha a ver apenas com aprender ou sentir, mas também com viver”. Reinaldo Moraes . Leitura: trecho de Memórias de um Sargento de Milícias . Justificativa: uma dos principais obras da literatura brasileira, foi escrita por Manuel Antônio de Almeida quando tinha menos de 21 anos. “Um certo prodígio”, disse Moraes. “E é um romance sobre um malandro do século XIX, que se apaixona por uma garota pobre, se liga a cinganos, vai a festas de negros, ele é da pá virada.” Lionel Shriver . Leitura: trecho de A Era da Inocência, de Edith Wharton . “Eu sei que parece inexplicável, mas eu sou admiradora de Edith, porque ela gosta de estilo e entende como convenções sociais podem levar…

Wendy Guerra, o culto à primeira pessoa e o paternalismo
NoMínimo / 08/08/2010

Teve um público modesto a mesa “Cartas, Diários e outras Subversões”, que reuniu as escritoras Carola Saavedra, chilena naturalizada brasileira, e Wendy Guerra, cubana nunca editada em seu país. Com mediação do também escritor João Paulo Cuenca, elas conversaram sobre como a figura paterna – ou a figura masculina forte – está presente em seus livros (Nunca Fui Primeira-Dama, de Wendy, e Flores Azuis e Paisagem com Dromedário, de Carola) e sobre a exposição do escritor em sua obra. Wendy, que foi apresentadora de TV em eu país – “Uma espécie de Xuxa cubana” – disse que tem preferência pela narração em primeira pessoa. “Tenho um trabalho performático em primeira pessoa”, reconheceu a escritora, que já posou e realizou performances nua em galerias de arte. Tudo pela arte, aliás. Wendy faz questão de dizer que não consegue separar a arte da vida, por ser filha e amigas de artistas – e possivelmente, vale a interpretação, por essa ser uma forma de transcender as regras restritivas do regime sob o qual vive. Sobre a presença firme de Fidel Castro em Cuba, Wendy revelou sentir tanto objeção quanto fascínio. “Eu sou dupla. Uma vez, estive em dúvida sobre a minha paternidade e disse…

Filme de Saramago é um longa sobre a morte, diz diretor, que ataca o governo português
NoMínimo / 08/08/2010

Uma edição especial de José e Pilar, com 40 minutos de imagens que foram incluídas e de outras que ficaram fora do documentário sobre a intimidade do escritor português José Saramago e sua mulher, a jornalista espanhola Pilar Del Rio, fechou a programação da Flip neste sábado. Um sábado sem grandes acontecimentos. A mesa dos cartunistas underground Robert Crumb e Gilbert Shelton, que era uma das mais aguardadas da festa, decepcionou. A do poeta Ferreira Gullar constituiu mais uma homenagem que um debate. Também a sequência de cenas de José e Pilar foi morna. O filme parte da ideia de mostrar a intimidade do escritor. E acaba tendo seu ponto mais interessante na abordagem da morte – não só porque Saramago já estava doente durante as filmagens, mas também porque o olhar do diretor, o português Miguel Gonçalves Mendes, o conduziu a isso. “O filme é sobre os dias atuais e como lidamos hoje com a morte”, disse Mendes. “Esse é um tema forte para mim. Morro de medo de morrer.” José e Pilar será contado em ordem cronológica, porque as 230 horas de gravação feitas por Mendes acabaram acompanhando o processo de feitura de A Viagem do Elefante, um…

Ferreira Gullar recapitula vida e obra
NoMínimo / 07/08/2010

Teve tom biográfico a mesa “Gullar, 80”, protagonizada pelo maranhense Ferreira Gullar no fim da tarde deste sábado, em Paraty. Numa conversa com o especialista em teoria literária Samuel Titan Jr., Gullar relembrou o início da carreira, com o livro Um Pouco Acima do Chão, que não reedita por considerar muito parnasiano, sua contribuição para o surgimento do movimento de poesia concreta, com que romperia depois, seu engajamento no neoconcretismo e o nascimento do Poema Sujo, o exílio, em Buenos Aires, quando as ditaduras grassavam na América Latina e ele se achava “sem saída, vendo as pessoas desaparecerem”. O Poema Sujo foi uma forma de “escrever o que restava dizer.” Segundo Gullar, o Poema Sujo foi escrito num jorro, mas ficou incompleto, porque a inspiração acabou. Até que um dia ele conseguiu talhar os versos finais do poema – a poesia, como ele mesmo diz, não se pode controlar, ela surge quando quer, ela vem do imprevisível. Numa visita à Argentina, Vinicius de Moraes ouviu do dramaturgo Augusto Boal, em um jantar, que Gullar havia feito um texto longo e que não o mostrava a ninguém. Vinicius insistiu em conhecer o poema e fez com que o maranhense o recitasse….

A literatura jornalística de William Kennedy e Colum McCann
NoMínimo / 07/08/2010

O processo criativo da escrita foi o tema proeminente da mesa “Albany, Nova York e outras Aldeias”, que pôs cara a cara o americano William Kennedy e o irlandês Colum McCann, neste sábado, na Flip. Jornalistas de formação, ambos fazem da investigação – da reportagem – o caminho para criar personagens e histórias. “Uma das minhas personagens era uma prostituta do Bronx, e minha mãe ficou curiosa para saber de onde eu a conhecia”, contou McCann. “Mas eu não a conhecia, claro, eu a criei a partir de meses de conversa com prostitutas reais, com policiais, com pessoas nas ruas. Eu pesquisei até ouvir a voz dela, até sentir que ela existia, que ganhava vida.” O irlandês disse que recomenda às pessoas que escrevam sobre o que não conhecem – o que as forçaria a investigar e encontrar surpresas. “Para escrever sobre Albany, eu comecei a entrevistar o meu pai, a minha mãe. Comecei a perceber como a minha cidade era grande, maravilhosa”, disse Kennedy, famoso pelo chamado ciclo Albany, uma série de sete romances ambientados na cidade natal do escritor. Kennedy destacou, porém, diferenças entre o processo de feitura do jornalismo e da literatura. “Ainda sou repórter, e sempre…

CONTAGEM REGRESSIVA
NoMínimo / 11/06/2010

Paciência, pessoal. O novo Todoprosa, uma das atrações do novo Veja.com, voltará a ser atualizado em breve neste endereço. Até lá!

Notícias de uma guerra literária
NoMínimo / 12/05/2010

Sob o título “Duas elites”, o “Rascunho” traz um bom artigo de Luiz Bras (mais conhecido como Nelson de Oliveira) sobre a guerra entre alta literatura e literatura de gênero. Trata-se – e o autor é o primeiro a admitir isso – de uma caricatura, um quadro em preto e branco que ignora “todas as gradações, todos os matizes”. Isso não diminui o valor do texto. Caricaturas são perfeitas para expor o ridículo de personagens e situações. Como se pode ver pelas listas de “critérios” dos dois lados que Bras expõe: Critério da elite acadêmica: 1. Linguagem original, conotativa, que não possa ser atribuída a outros escritores do presente e do passado, por vezes avessa à norma culta. O autor deve se expressar de maneira única, inaugurando seu próprio modo poético. 2. Subjetivismo. Narrador modernista, tortuoso ou fragmentário, psicológico, pouco confiável, às vezes delirante. 3. Enredo frio, pobre em ação, sem muitas peripécias ou surpresas, próximo da vida comum. A forma literária é mais importante do que o conteúdo. 4. O mundo interior do protagonista e das personagens é mais importante do que seu mundo exterior. 5. Fuga do gênero a que (supostamente) pertence. Faz parte do desejo supremo de…

Que livro você aprenderia de cor?
NoMínimo / 10/05/2010

No terreno cada vez mais batido da interatividade internética, o pessoal do Papeles Perdidos (em espanhol), blog do “Babelia”, encontrou um cantinho original: perguntar aos leitores que livro eles memorizariam para salvar do fogo, como se fossem aqueles heróis da resistência de “Farenheit 451”, de Ray Bradbury. Cerca de oitenta livros ganharam menção. O título mais citado, com oito votos, foi “Cem anos de solidão”. Em seguida vieram “O apanhador no campo de centeio”, “Dom Quixote” e “O jogo da amarelinha”, com quatro votos cada um. A turma dos três votos teve “A Divina Comédia”, “A ilha do tesouro”, “A origem das espécies”, a “Ilíada”, “Os miseráveis” e, sim, “O pequeno príncipe” – este, disparado, o mais fácil de decorar. Será que daria no mesmo perguntar simplesmente ao leitor qual é a sua obra literária preferida de todos os tempos? Talvez sim, mas tenho minhas dúvidas. O peso absurdo de eleger um único livro para aprender de cor – ou seja, de coração – e salvar do aniquilamento completo parece fazer com que a escolha seja no mínimo mais ponderada. Eu, por exemplo, ainda não consegui decidir o meu. E você?

‘Pornopopéia’ em Parati
NoMínimo / 06/05/2010

O escritor Reinaldo Moraes, autor do ótimo “Pornopopéia”, da editora Objetiva (leia aqui trecho publicado neste blog na época do lançamento), está confirmado na Festa Literária Internacional de Parati (Flip). Ainda não anunciado oficialmente, Moraes é o 18.º nome a garantir presença num elenco que tem como maiores estrelas Salman Rushdie, que já esteve na cidade em 2005, e Robert Crumb. Como Rushdie, Moraes também é reincidente. Em 2006, formou com André Sant’Anna e Lourenço Mutarelli uma mesa chamada “Do amor e outros demônios”, que explorava uma certa aura de marginalidade e “sujeira” comum aos três autores – Moraes pode ser considerado o patrono brasileiro do estilo por seu “Tanto faz”, lançado pela Brasiliense em 1981. Desta vez, não haverá rótulos mercadológicos. Melhor assim, pois “Pornopopéia” está acima disso.

A crítica de mal com a literatura
NoMínimo / 01/05/2010

O interessante artigo de Flora Süssekind publicado na última edição do Prosa & Verso, sob o título “A crítica como papel de bala”, investe contra o “conservadorismo” e o “beletrismo” que sua autora julga hegemônicos no atual cenário da crítica literária brasileira – ou talvez devêssemos chamá-lo de ambiente de recepção de livros, pois o pensamento crítico anda mesmo um tanto anêmico. Esse ambiente, argumenta ela, vive um momento de certa efervescência com seus festivais, prêmios, oficinas, blogs e resenhas breves, eminentemente jornalísticas, mas falta-lhe o tutano de um pensamento articulado e independente que resgate a “dimensão social” da literatura. O curioso é que, num caso clássico de ponto cego, Sussekind parece sincera ao deixar de perceber que o grande elemento faltante nesse ambiente, a crítica universitária de fôlego que ela própria representa, retirou-se do debate porque quis. Como bom exemplo do pensamento literário hoje dominante na universidade, inclusive no estilo árido e calibrado para afugentar leigos, Süssekind, reconheça-se logo, está de mal com a literatura contemporânea. Brigou com ela. Os exemplos de novidade estética que aplaude em seu artigo incluem, ao lado do poeta Carlito Azevedo e seu notável “Monodrama”, uma diretora de teatro, um músico e um artista…

Twitter, o maior clube de leitura do mundo
NoMínimo / 29/04/2010

Este artigo (em inglês) de Viv Groskop no site do jornal “Daily Telegraph” defende bravamente uma tese com a qual, para minha surpresa, estou cada vez mais de acordo: o Twitter é o “paraíso dos viciados em livros”. O texto invoca em seu apoio uma frase de Margaret Atwood, aliás, @MargaretAtwood, ela própria tuiteira: “Fui tragada pela Twittersfera como Alice pela toca do coelho” – 67 toques no original, 60 na tradução. A conclusão de Groskop tem tudo para surpreender os que, como eu mesmo até poucos meses atrás, ainda consideram o Twitter um modismo tolo e superficial, talhado para quem tem tempo demais e obrigações de menos, onde proliferam mensagens de importância capital como: “Bom dia, tô comendo granola com mel!” ou “O motorista do ônibus que eu peguei pra vir pro trabalho é os cornos do Léo Moura”. Não é que os recados irrelevantes não estejam lá. Provavelmente são maioria. O que os detratores do Twitter não percebem é que a coisa tem a cara do dono. Tudo depende, claro, de quem você segue. O artigo do “Telegraph” lembra que a rede está cheia de escritores de verdade – @paulocoelho é um dos citados – tuitando e sendo…

Wendy, Wendy
NoMínimo / 26/04/2010

A confirmação da cubana Wendy Guerra na Flip não poderia ofuscar a do lendário quadrinista americano Robert Crumb, mas, por razões alheias à qualidade artística, chegou perto. A autora de “Nunca fui primeira-dama” – seu primeiro romance traduzido no Brasil, a ser lançado esta semana – é uma ex-apresentadora de programa infantil de TV que já posou nua por amor à arte. É também uma escritora séria cujos romances permanecem inéditos em seu país. O posto de musa da Flip 2010 já tem dona.

A última fronteira literária ao alcance da mão
NoMínimo / 22/04/2010

Um post no blog de livros do “Guardian”, a propósito da recém-lançada edição temática da revista “Granta” sobre sexo, sustenta – meio a sério, meio brincando – que a masturbação é a última fronteira. Em outras palavras: que hoje, quando os leitores já não se chocam com quase nada, as imaginosas artes do amor-próprio sobrevivem como o último tabu literário. Segundo o autor do post, Chris Cox, muito pouca boa literatura foi feita sobre o assunto. (Cecilio Giovenazzi ficou indignado, mas deixa pra lá.) Claro que Cox cita o óbvio “Complexo de Portnoy”, de Philip Roth, como uma das exceções que confirmam sua suposta regra. Pensei em escrever para acrescentar um conto de Martin Amis, “Let me count the times”, mas imaginei que, diante do número incontável de exceções nomeáveis, isso seria perda de tempo. Por sorte, nem todo mundo pensou assim. Foi na caixa de comentários – um dos pontos altos do blog do “Guardian”, que, além de pré-cadastrar os comentaristas, faz uma boa triagem – que eu encontrei o tesouro do dia: um conto de Chuck Palahniuk chamado “Guts”, publicado na revista “Playboy” em 2004 e disponível na íntegra, em inglês, aqui. Uma pequena e crudelíssima obra-prima de…

Alice e outros bichos
NoMínimo / 20/04/2010

1. Minha contribuição ao (bem-vindo) tsunami de informação provocado pela estréia iminente da “Alice” de Tim Burton, hoje na home de Cultura do iG: Inspiradas nas histórias orais que Dodgson improvisava para uma amiguinha real, Alice Liddell, de 10 anos, as aventuras de Alice são uma das obras capitais da literatura infantil, com tradução para 125 línguas. Mas são mais do que isso: a fúria com que seu autor, matemático de prestígio, empacotou ali paradoxos, charadas, jogos de palavras e neologismos garantiu-lhes um cartaz talvez até maior com os leitores adultos. James Joyce e Jorge Luis Borges estão entre os grandes escritores influenciados por Carroll, que, sob muitos aspectos, foi o maior precursor do modernismo a escrever no século 19. 2. Meu Kindle está acabando de ler “Solar”, de Ian McEwan, e gostando muito. Assim que ele me contar suas impressões finais, prometo dividi-las com os leitores. 3. Claro e informativo este artigo de Claudio Soares, intitulado “Os leitores brasileiros e o livro digital”. 4. Um dos grandes mistérios do terceiro milênio: por que será que a internet predispõe tantos leitores, que na vida real talvez sejam flores de cidadãos, ao ataque histérico e ao insulto grotesco? 5. E o…

O revisor é da KKK?
NoMínimo / 19/04/2010

A Penguin australiana está recolhendo e destruindo 7 mil exemplares de um livro de culinária especializado em massas, “Pasta Bible”, por causa de um erro de revisão. Um erro gravíssimo: uma receita manda adicionar ao tagliatelle salt and freshly ground black people (“sal e pessoas negras recém-moídas”) em vez de black pepper (pimenta-do-reino).

O avô do e-book morou no Brasil
NoMínimo / 16/04/2010

O “avô dos e-books” (o honroso título lhe foi dado pelo “New York Times” neste artigo) chamava-se Bob Brown e viveu entre os anos 1930 e 1940 no Rio de Janeiro, onde fundou uma revista de negócios chamada “Brazilian American”. Seu nome completo era Robert Carlton Brown, nascido em Chicago em 1886. Trata-se de uma figuraça: autor de literatura popular, poeta, roteirista de cinema, jornalista, editor e artista de vanguarda com um círculo de amizades que incluía Marcel Duchamp e Gertrude Stein, Brown publicou em 1930 um manifesto chamado “The Readies”, em que declarava guerra ao livro de papel: A palavra escrita não acompanhou o tempo. (…) Para continuar lendo na velocidade dos dias de hoje, eu preciso de uma máquina. Uma máquina simples de leitura que eu possa carregar comigo, ligar em qualquer tomada velha e ler romances de centenas de milhares de palavras em dez minutos se eu quiser, e eu quero. A tal máquina, que chegou a ter um protótipo construído por um amigo, tinha uma fita de texto correndo por trás de uma lente de aumento a uma velocidade controlada pelo leitor. Está mais para um microfilme, mas Brown não queria parar por aí. Antevia o…

Bomba, bomba: o Google Translate funciona!
NoMínimo / 13/04/2010

Um amigo me dá a notícia que, confirmada, seria um dos mais eloquentes sinais do fim do mundo como o conhecemos: “O Google Translate virou uma ferramenta perfeita!” Como assim? Até outro dia mesmo, eu me lembrava bem, a burrice cômica dos tradutores automáticos e os textos pedregosos e repletos de armadilhas que eles produziam eram parte da paisagem virtual. Pareciam indicar um limite claro – e provavelmente eterno – para a automação, preservando uma área enorme para a ação humana: traduzir, como de resto escrever, é uma operação sofisticada demais para prescindir de um cérebro biológico, certo? E agora vinha o meu amigo, também ele escritor, dizer que o Google Translate tinha gastado rios de dinheiro em pesquisa e virado uma ferramenta perfeita! Cético, fui conferir. Logo descobri com alívio que não, o Google Translate está longe de ser uma ferramenta perfeita. Duvido que seja um dia. Mas, caramba, como melhorou! Sua relativa acurácia pode ser conferida neste quadro (em inglês) publicado mês passado pelo “New York Times”, que pega trechos em diversas línguas – inclusive de “O pequeno príncipe”, “Cem anos de solidão” e “A metamorfose” – e compara quatro traduções de cada um deles para o inglês:…

Robert Darnton na Flip
NoMínimo / 12/04/2010

Este trecho de um atualíssimo ensaio do historiador americano Robert Darnton, intitulado O Google e o futuro dos livros e publicado no número de estréia da revista “Serrote”, dá uma boa idéia de por que o diretor da Biblioteca de Harvard é até o momento, das atrações já confirmadas pela Flip para depois da Copa do Mundo, a mais atraente: O que acontecerá se o Google privilegiar a lucratividade ao livre acesso? Nada, se eu li os termos do acordo corretamente. Somente o representante legal, agindo pelos detentores de copyright, tem o poder de forçar uma mudança nos preços de subscrição cobrados pelo Google, e não há nenhuma razão para se esperar que ele se oponha, caso os preços fiquem muito elevados. O Google pode optar por ser generoso nos preços, mas poderia também empregar uma estratégia comparável à que se mostrou tão eficaz nas publicações acadêmicas especializadas: primeiro, atrair assinantes com preços iniciais baixos, e depois, quando eles estiverem fisgados, aumentar os valores até o ponto em que o comércio suportar. (…) Ninguém pode prever o que acontecerá. Podemos somente ler os termos do acordo e imaginar o futuro. Se o Google tornar acessível, a um preço razoável, os…

Este livro é um saco!
NoMínimo / 09/04/2010

É divertido este artigo (em inglês) de Jeanette Demain na “Salon” sobre os resenhistas amadores da Amazon que detonam clássicos da literatura. O que poderia ser até saudável – a candura de um olhar leigo servindo para balançar certos consensos enferrujados da crítica acadêmica – acaba se tornando um espetáculo deprimente em que o analfabetismo funcional (ou, nos casos menos graves, literário) se cruza com aquela disposição enfezadinha que a internet, por alguma razão, parece estimular em tanta gente. Alguns trechos selecionados por Demain: “Graças a Deus a Srta. Lee só escreveu este livro; o seguinte com certeza degradaria ainda mais a sociedade.” (Sobre “O sol é para todos”, de Harper Lee.) “Intermináveis descrições sem sentido. DESCRIÇÃO, DESCRIÇÃO, DESCRIÇÃO!!! O livro inteiro é escrito em metáforas estúpidas.” (Sobre “Jane Eyre”, de Charlotte Brontë.) “No começo eu gostei do livro. Aí ele começou a ficar um saco na altura em que Winston estava se envolvendo sexualmente com sua amiga. Eu odiei tanto o livro que esqueci o nome dela. Gostei das primeiras cento e poucas páginas, aí ficou muito chato.” (Sobre “1984”, de George Orwell.) “Rapaz, este livro é chato. Acontece um monte de coisas estranhas e é mais difícil de…

Três links mal passados, quase crus
NoMínimo / 07/04/2010

Correndo para pegar daqui a pouco o vôo para São Paulo, onde lanço hoje à noite o “Sobrescritos” na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, publico alguns links que, mesmo mal passados, espero serem capazes de preencher a cota diária de todoprosismo dos mais inveterados todoprosistas: 1. Em sua coluna (em inglês) sobre questões éticas da vida moderna no “New York Times”, Randy Cohen considera perfeitamente legítimo baixar de graça a versão digital de um livro se você já pagou por um exemplar de papel: “É como comprar um CD e depois copiá-lo para o seu iPod”. Pirateadores contumazes vão achar ridículo. Vindo de onde vem, significa muito. 2. “Quis o acaso, por exemplo, que Martin Amis, Paul Auster, Bret Easton Ellis e J. G. Ballard tivessem personagens de seus livros interpretados pelo canastrão James Spader.” Falando do livro “Da literatura para o cinema”, de Julio Alfradique e Carla Lima, Almir de Freitas cata pepitas de informação na fronteira entre duas artes que nunca deixaram de namorar – embora vivam adiando o casamento. 3. E, para completar, uma pitada de autopromoção: falando do “Sobrescritos” no Digestivo Cultural, Julio Daio Borges considera-o “um dos melhores livros de contos dos últimos tempos e…

Mulheres lendo
NoMínimo / 06/04/2010

Usar a beleza feminina para vender produtos é a mais velha das idéias publicitárias. Curioso que seja tão pouco empregada para promover livros ou o próprio hábito da leitura. Não é evidentemente irresistível o apelo de uma imagem que junta dois dos maiores prazeres da vida? (Sim, queridas leitoras: este é um post de gênero. Fiquem à vontade para adaptar o argumento com, sei lá, Paulo Zulu lendo “Out of Africa”.) O “Global Times”, de Pequim, informa (em inglês) que esta é justamente a onda do momento entre editores chineses: contratar belas modelos para, em situações de rua, aparentemente espontâneas, exibir seus dotes intelectuais de nariz enfiado num livro. Está certo que não são pequenas as dificuldades práticas por aqui. Em primeiro lugar, as editoras brasileiras quase não investem em publicidade. E convenhamos que nem toda modelo convenceria num papel desses. De todo modo, fica a sugestão para os formuladores de campanhas de incentivo à leitura. Vale ressaltar que a estratégia nada teria de gratuita: como se sabe, pelo menos quando se trata de ficção, as mulheres lêem mais que os homens. Quer ver mais mulheres e livros? O blog “Babes with Books”, de onde saiu a bela foto à…

Jornalismo ficcional
NoMínimo / 01/04/2010

Um repórter italiano chamado Tommaso Debenedetti tem o hábito de fazer entrevistas fictícias com ficcionistas americanos – e, claro, vendê-las como verdadeiras aos jornais com os quais colabora. Philip Roth, que apareceu numa delas descendo a lenha no presidente Barack Obama (que na verdade apóia), foi o primeiro a descobrir a fraude. John Grisham e Gore Vidal vieram em seguida. Por enquanto, só Grisham declarou pensar numa ação judicial. Roth contenta-se em imaginar que a carreira do falsário acabou. Outras vítimas estão sendo procuradas e, com o “email-denúncia” que a revista “New Yorker” lançou em seu site, imagina-se que a lista ainda vá crescer muito. Não se sabe se Debenedetti, que deu um jeito de desaparecer, vai invocar algum argumento pós-moderno em sua defesa.

Onde está a imaginação?
NoMínimo / 31/03/2010

Certo, todos nós amamos nossos lobisomens e vampiros, mas onde estão os novos monstros do nosso tempo? Onde estão os personagens que refletem a diversidade de nossas ruas e nossas vizinhanças? Quais são as histórias que acessam os terrores da vida moderna? A Campanha pelo Medo Verdadeiro, recém-lançada na blogosfera literária britânica, seria só uma bobagem – reação ao modismo tolinho de enfiar zumbis em todos os clássicos do mundo, provavelmente – se não servisse para nos lembrar, em sua candura, que esse “onde está?” é um dos cacoetes mais idiotas da crítica cultural. Quem pergunta onde está algo que sabe não existir – mas que gostaria tanto, ah tanto, que existisse – parece sensível, inconformista e obviamente superior à mediocridade da cultura contemporânea. Na verdade, é um reacionário sem imaginação. Aquilo que busca é uma restauração, ainda que disfarçada de modernidade: no caso, a restauração do “medo verdadeiro” que as histórias de terror provocaram um dia e, em nossos tempos decadentes, que saco, não provocam mais. Uma mudança real, que crie novas formas para novos conteúdos, está fora do seu horizonte. O adepto do “onde está?” é um saudosista delirante que quer se passar por visionário. Seu epítome é…

Philip Pullman separa Jesus de Cristo
NoMínimo / 29/03/2010

Abaixo, a tradução caseira de um trecho publicado pelo “Guardian” de The good man Jesus and the scoundrel Christ (O bom homem Jesus e o canalha Cristo), o novo livro de Philip Pullman, que está sendo lançado depois de amanhã na Inglaterra. Na história, o autor de “A bússola de ouro” – primeiro romance de uma série best-seller cuja suntuosa adaptação cinematográfica foi interrompida após campanha da direita cristã – imagina Jesus e Cristo como irmãos gêmeos antípodas. Se Pullman estivesse falando de Alá, seria fatwa garantida. Mesmo sem sentença de morte, porém, a vida do autor tem tudo para ser difícil nos próximos tempos, como comprova o humor seco deste encontro entre Maria e o “anjo”: Naquele tempo, Maria tinha cerca de dezesseis anos, e José nunca a havia tocado. Uma noite, em seu quarto, ela ouviu um sussurro vindo da janela. – Maria, você sabe como é bonita? Você é a mais adorável de todas as mulheres. O Senhor deve tê-la favorecido especialmente para que fosse tão doce e tão graciosa, e tivesse esses olhos e esses lábios… Ela ficou confusa e disse: – Quem é você? – Sou um anjo – disse a voz. – Deixe-me entrar…

O caçador de mitos do mercado editorial
NoMínimo / 25/03/2010

Não é um estudo científico, mas o resultado da pesquisa feita pelo blogueiro e autor americano de fantasia Jim C. Hines com 246 romancistas publicados – aqui e aqui – derruba alguns mitos persistentes no mercado: 1. O de que é possível fazer sucesso do dia para a noite: o grupo mais numeroso de entrevistados levou onze anos entre começar a escrever e publicar seu primeiro livro – e houve quem levasse mais de quarenta. 2. O de que, sem um pistolão, é impossível para um autor inédito arrombar a porta das grandes editoras. 3. O de que publicar contos em revistas abre caminho para a edição de narrativas longas (este é um mito mais americano). O subtexto é que, no fim, o que conta mesmo é a velha dobradinha: talento e suor. O trabalho de Hines é apresentado meticulosamente. Vale a pena conferir todas as tabulações.

Ah, você é escritor? E vive de quê?
NoMínimo / 24/03/2010

Um dos maiores prazeres da rede mundial de computadores é, no meio da barafunda de informações – que, dizem, logo vai nos afogar – encontrar aqui e ali convergências e cruzamentos, nós de concordância ou de tensão. Quando ligamos os pontinhos para destilar algum sentido da geléia geral, pagamos tributo à etimologia da palavra “inteligência” e adiamos mais um pouco a tal submersão. Isso acaba de ocorrer com a idéia de trabalho remunerado x expressão artística, que de repente parece estar por toda parte. Em outras palavras, como a necessidade de “ganhar a vida” influencia a produção desses bens simbólicos que, quase sempre, têm valor de mercado risível demais para garantir sua dose diária de nutrientes. Longe de ser uma discussão bizantina, trata-se de algo que qualquer escritor – com exceção dos ricos de berço ou de baú, uma fração tão pequena que chega a ser desprezível – precisa enfrentar desde cedo e provavelmente pelo resto de sua carreira. Um bom emprego público foi, por décadas a fio, a solução da cultura brasileira para o problema. Mas o serviço público já não é o que costumava ser. Atualmente, o dilema dos escritores tem sido posto com maior freqüência em termos…

Qual é a graça?
NoMínimo / 23/03/2010

É divertido, de um jeito constrangedor, esse vídeo em que o escritor inglês Geoff Dyer, num evento em Adelaide, tenta fazer uma piadinha de salão com seu anfitrião J.M. Coetzee. Explicação de The Elegant Variation, onde descobri a coisa: “Coetzee não tem músculos faciais”.

Mestres e discípulos: os casos Fonseca e Trevisan
NoMínimo / 19/03/2010

Os dois são famosos por sua reclusão. Os dois são contistas maiores com muitas décadas de carreira. E, curiosamente, estiveram no noticiário esta semana desempenhando papéis opostos: Rubem Fonseca, o de mestre fofo e feliz da jovem escritora Paula Parisot; Dalton Trevisan, o de ex-mestre rancoroso e arrependido do escritor de meia-idade Miguel Sanches Neto. As relações atribuladas entre mestre e discípulo no meio literário são tão antigas quanto a própria literatura. Virou lugar-comum recorrer a um enfoque psicanalítico – a necessidade de matar o pai, tal e coisa – para explicar por que tantas delas acabam mal. Como, em episódio relativamente recente, a do protegido Paul Theroux com o mestre V.S. Naipaul, que, consumado o rompimento, foi recapitulada pelo primeiro num livro nada lisonjeiro chamado Sir Vidia’s shadow. A posição de Theroux é semelhante à do escritor paranaense Miguel Sanches Neto, que acaba de publicar pela Objetiva o romance à clef “Chá das cinco com o vampiro”. Nele, com pouca sutileza, transforma seu ex-ídolo Dalton Trevisan no egocêntrico contista Geraldo Trentini. A briga entre Sanches e Trevisan é velha de meia dúzia de anos: ao tomar conhecimento dos originais desse romance, o escritor famoso chamou publicamente o ex-discípulo de…

Cavalo no obelisco, a vingança
NoMínimo / 18/03/2010

O lançamento de “Sobrescritos” em Porto Alegre, na próxima segunda, dia 22, na Palavraria, ganhou uma participação especialíssima: Claudia Tajes, fina cultora da ficção cômica, autora de “As pernas de Úrsula” e “A vida sexual da mulher feia”, vai bater um papo comigo antes da tradicional sessão de autógrafos. Colorados e gremistas estão todos convidados: Falando em ficção cômica, peço licença aos leitores para reproduzir um trecho da pequena grande resenha que Paulo Roberto Pires publicou sobre o livro em seu blog no site da revista “Bravo!”: As 40 histórias, originalmente postadas no Todoprosa, são machadianas até o talo. Mas quem se apresenta é o Machado reloaded, pois é com o pixel da galhofa e o toner da melancolia que o Sérgio vai desenhando sua versão ácida da vida literária 2.0 (…) A Belle Époque já teve sua crônica registrada em “A vida literária no Brasil 1900”, de Brito Broca. O século XIX foi contemplado por Ubiratan Machado em “A vida literária no Brasil durante o romantismo”, que acaba de ser lançado pela nova editora Tinta Negra. Pois nossos dias precários têm sua modorra transformada em comédia nos “Sobrescritos”.

O que seria da literatura sem o café?
NoMínimo / 17/03/2010

Quer virar escritor? Beba muito café. O aditivo é, disparado, o mais popular entre os trinta escritores brasileiros a quem Michel Laub, numa enquete divertida, perguntou sobre rituais, superstições e manias na hora de escrever – aqui. Eu mesmo não citei a maravilhosa infusão em meu depoimento, mas bem poderia ter citado. Pois é: as tais “portas da percepção” de Aldous Huxley já foram menos legais. Laub, que também é romancista, promete dar prosseguimento à série até chegar a cem nomes.

Para a Flip pegar fogo, só faltou a sincronia
NoMínimo / 16/03/2010

O crítico literário inglês Terry Eagleton é um bicho meio raro nos dias de hoje: um intelectual que, entre uma visão de mundo pautada no marxismo e a reflexão livre e iconoclasta, fica com as duas. Presença confirmada na Flip deste ano, em agosto, só resta lamentar que dois de seus maiores adversários intelectuais tenham vindo em outras edições do evento – Martin Amis em 2004 e Christopher Hitchens em 2006. Do contrário, poderíamos ver faíscas saindo daquelas pedras absurdas que em Parati passam por calçamento. E talvez ainda possamos: Salman Rushdie, que volta à festa após a participação de 2005, também entra na turma de “literatos iliberais” que Eagleton ataca em entrevista (em inglês, acesso gratuito) publicada há poucos dias pela “New Statesman”, da qual reproduzo o trechinho abaixo: Por muito tempo, eles [Hitchens e Amis] eram bastante divergentes politicamente: Hitchens ainda era uma espécie de socialista e Amis, veementemente anticomunista de uma forma desinteressante, estilo Guerra Fria. Mas desde então eles convergiram. E hoje são velhos chapas apoiando-se um ao outro, respondendo instantaneamente a qualquer ataque que o outro sofra. Me intriga o modo como todo um estrato de literatos liberais (Rushdie, Ian McEwan em certa medida, AC…

Wilson Martins: concordando em discordar
NoMínimo / 15/03/2010

Eu quase nunca concordava com o crítico Wilson Martins. Ao longo de muitos anos, talvez se contem nos dedos de uma mão as ocasiões em que terminei de ler uma resenha sua sem ter com ela alguma divergência grave, um ou mais pontos em que nossos credos estéticos pareciam água e óleo. O que demorei mais a descobrir foi que, por baixo de toda aquela discussão, havia uma concordância maior, um pacto sem a qual ela, a discussão, cairia no vazio. Martins ousava falar da literatura de dentro, seu pensamento era inteiramente feito de literatura. Ele não partia do livro para chegar a outro lugar, nem vinha de outro lugar para abordar o livro. Morava ali, e quando saía era para inspecionar a relação do livro com… outros livros. Avesso a sistemas, a “verdades” importadas de campos fora das letras, arriscava o pescoço a cada resenha. É o que torna sua “História da Inteligência Brasileira” tão caótica e tão interessante: o pulso de vida real. A literatura para Martins nunca era sintoma, era o que importava, como deve mesmo ser, se você tem a pretensão de se declarar crítico literário. Quando o relativismo cultural começou a tentar nos convencer –…

E-book: e se não for nada disso, hein?
NoMínimo / 12/03/2010

Nada como um espírito-de-porco ou advogado do diabo para nos fazer pensar com mais lucidez quando todo mundo fica histérico. Levi Asher, do Literary Kicks (via blog de livros da “New Yorker”), ousa insinuar que o rei está nu: Muitos observadores esperam que o mercado de livros eletrônicos acompanhe a velocidade do mercado de música, que se tornou subitamente digital no início dos anos 2000 e que hoje, provavelmente, guarda uma relação de 95% a 5% entre digital e analógico (uma diferença enorme para os 50% a 50% que eu prevejo para os livros dentro de vinte anos). Tornou-se lugar-comum dizer que o e-book será tão popular quanto o MP3, mas o MP3 solucionou alguns problemas reais, ao contrário do que faz o e-book. A equação sensorial/física de ouvir música é na verdade muito diferente da de ler. Um aparelho de MP3 desaparece quando você ouve música. Um livro não desaparece – nem no reino digital nem no impresso. Você olha para ele. Faz diferença que tamanho ele tem, de que cor é, se é duro ou mole, se é frágil, se marca a página em que você está. Ao ler um livro, todas essas considerações afetam seu prazer, de…

‘Fome de realidade’: oba, uma polêmica!
NoMínimo / 11/03/2010

O livro Reality hunger, a manifesto (“Fome de realidade, um manifesto”), do escritor e ex-romancista americano David Shields, saiu há apenas duas semanas nos EUA e já está provocando – tanto na internet quanto na imprensa tradicional – um dos debates estéticos mais quentes dos últimos anos. Sua intenção nunca foi outra, claro. O livro é uma coleção de seis centenas de aforismos e micro-ensaios (muitos assumidamente chupados de terceiros) que se revela, mesmo à mais diagonal das leituras, um ataque frontal à imaginação e à ficção em geral – que corresponderiam a uma sensibilidade passadista, destituída de vida. Ao mesmo tempo, faz uma defesa fervorosa do ensaio, da reportagem, da livre apropriação de idéias (que muitos chamam de plágio), do memorialismo que toma liberdades criativas com seu material, dos reality shows e do hip hop – estes sim, segundo o autor, gêneros e formatos afinados com o ar de nossos tempos. Que, como se sabe, está mais para vendaval. Por atingir seu objetivo de criar polêmica, palmas para Shields. Convenhamos que a polêmica mora no horizonte de qualquer manifesto, o gênero mais fácil e previsível para se chegar a ela, mas palmas mesmo assim. (Até um manifesto despretensioso como…

Post-mortem
NoMínimo / 10/03/2010

Imperdível: no blog de Paulo Roberto Pires, o escritor holandês Cees Nooteboom procura, no cemitério São João Batista, o túmulo do escritor brasileiro Machado de Assis. “Quem?” Tarefa imperdoavelmente difícil.

McEwan faz comédia com o aquecimento global
NoMínimo / 08/03/2010

Um livro novo do inglês Ian McEwan é sempre algo a ser aguardado com certa ansiedade. Afinal, estamos falando do sujeito que escreveu “Reparação”, que é sem dúvida um dos grandes romances deste início de século – ou o maior deles, dependendo da facilidade com que alguém se deixa levar pelos superlativos, mas dá no mesmo. O novo livro de McEwan se chama “Solar” e vai ser lançado no Reino Unido no próximo dia 18. Mantendo o movimento pendular entre o romance de época e o romance agudamente contemporâneo de sua carreira recente – “Reparação” (passado), “Sábado” (presente), “Na praia” (passado) – o livro tem como tema central a mudança climática. McEwan fez uma viagem ao Ártico como parte do trabalho de pesquisa e criou um protagonista, o físico Michael Beard, que é vencedor do Nobel e tem idéias sofisticadas sobre a salvação do planeta por meio da “fotossíntese artificial”. Mas o mais notável não é isso. Em entrevista ao jornal “Guardian” (em inglês, acesso gratuito), o autor – que pela crueldade de suas tramas ganhou de seus conterrâneos o apelido de Ian Macabro – confirma os rumores de que “Solar” é uma comédia: “Na verdade, eu acho os romances…

A chegada do ‘Sabático’ desafia a maré
NoMínimo / 05/03/2010

A reforma gráfica e editorial que o jornal “O Estado de S. Paulo” estreará no próximo dia 14 inclui uma novidade de grande relevância para o meio ambiente literário, especialmente num clima global em que os suplementos de livros da grande imprensa só fazem encolher ou morrer: um caderno dedicado à literatura – aos sábados, naturalmente – chamado Sabático. Está certo que o nome soa pernóstico, mas, antes mesmo de ver o produto, vale dizer: boa, Estadão! Será mais um sinal de que a imprensa que depende de celulose está menos moribunda do que tanta gente, principalmente gente que nunca arranjou emprego numa redação, anda apregoando alegremente nos últimos anos? É o que argumenta o escritor americano – e fundador da editora independente McSweeney’s – Dave Eggers, em defesa de seu recém-lançado jornal-de-um-número-só (mas a coisa mais linda do mundo) San Francisco Panorama. “Há um monte de coisas que a imprensa de papel pode fazer como ninguém e que a internet não pode”, diz Eggers com a autoridade de quem praticamente nasceu no ambiente digital, na equipe da revista eletrônica Salon.com. “As duas formas deveriam coexistir, em vez dessa situação de soma zero em que parecemos empacados hoje.”

‘Sobrescritos’, o filme. Filme?! É, filme
NoMínimo / 03/03/2010

Em primeiríssima mão, divido com os leitores do Todoprosa o teaser internético do meu livro “Sobrescritos ” (Arquipélago Editorial), nas livrarias semana que vem. A obra é de Leon Vilhena, jovem e talentoso profissional da animação carioca, que tem a Globosat entre seus clientes. O áudio vem a ser uma leitura minha, em versão ligeiramente editada, do conto que encerra o livro, chamado “Virtual”. Quem gostar e quiser espalhar não precisa pedir autorização. Lembrando: o lançamento carioca de “Sobrescritos” será na Travessa de Ipanema, na próxima quarta-feira. O gaúcho, na Palavraria, dia 22 de março. Deve rolar um sarau paulistano também, mas sobre este dou notícias mais à frente.

Adeus a Mindlin, apoio a Denise
NoMínimo / 01/03/2010

A melhor forma de homenagear o bibliófilo José Mindlin, que morreu ontem aos 95 anos, é com livros. Como os desta lista “de e sobre Mindlin” que o site O Livreiro publica. Certamente não é com a disputa açodada pela vaga que ele deixa na Academia Brasileira de Letras – iniciada ontem mesmo, segundo o colunista Ancelmo Gois, e tendo Fernando Henrique Cardoso e Ziraldo em posições de aparente favoritismo. * Está rolando, por iniciativa de quatro tradutores de primeira linha, um abaixo-assinado de apoio a Denise Bottmann naquela briga contra a editora Landmark, que tanto repercutiu aqui na semana passada. Eu já assinei. E para misturar os dois assuntos, bibliofilia e tradução, vale resgatar, com o gancho do aguardadíssimo filme de Tim Burton, este artigo de Gabriel Perissé sobre os brasileiros que se lançaram à difícil tarefa de traduzir os dois livros de “Alice”, de Lewis Carroll – entre eles, numa “adaptação” de 1931, Monteiro Lobato.

Aumenta que isso aí é Monteiro Lobato!
NoMínimo / 25/02/2010

Você já ouviu a voz de Monteiro Lobato? Eu nunca tinha ouvido até a Isabel Pinheiro, todoprosista de longa data, me enviar o link dessa entrevista ao “radiologista” (a piada é lobatiana) Murilo Antunes Alves, da Rádio Record, em 1948. O grande escritor tinha 66 anos, idade avançada para a época, e logo sofreria um derrame fatal. Atenção: se você ainda não ouviu isso, a visita é obrigatória. A entrevista tem outras duas partes, que podem ser acessadas aqui e aqui. Mais do que da voz propriamente dita – meio anasalada e pelo menos uma oitava acima do que suas sobrancelhas me faziam supor – o prazer maior vem da “voz” de Lobato, o tom mordaz em que expressa suas opiniões desiludidas e politicamente incorretas. “Todas as nossas experiências têm fracassado, não há razão para acreditar (no Brasil)… Só os céticos absolutos acertam”. Tudo, porém, sem perder a ternura e a auto-ironia jamais. “É isso o que pensa o velho Lobato com a sua longa experiência acumulada”, sorri. Do prazer interiorano de comer formiga torrada – que tem “um cheirinho que eu não digo do que é, para não escandalizar o público” – à conjuntura internacional do pós-guerra – “o…

Editora processa blogueira: pode plagiar esta notícia
NoMínimo / 23/02/2010

A tradutora e blogueira Denise Bottmann, do site Não Gosto de Plágio, precisa de ajuda. Caçadora mais ou menos solitária de picaretas editoriais, está sendo processada pela editora Landmark, que pede ao juiz indenização mais a retirada de seu blog do ar – informa Alessandro Martins, do blog Livros e Afins. Tudo por ter denunciado que a tradução de “Persuasão”, de Jane Austen, lançada pela Landmark com a assinatura de um de seus proprietários, Fábio Cyrino, seria praticamente um xerox de uma antiga – e fraca – tradução portuguesa da lavra de Isabel Sequeira, até em seus numerosos erros. A blogueira Raquel Sallaberry, do Jane Austen em Português, também está sendo processada pela editora. Caso a denúncia seja mesmo na mosca, como os exemplos citados em seu blog indicam (tem até uma mesma gralha cômica, “átrio” virando “trio” em ambos os textos), Denise terá exposto mais uma vez o golpe de requentar traduções sem pagamento de direitos, bandeira de subdesenvolvimento cultural que infelizmente está longe de ser novidade no Brasil. Se você também não gosta de plágio, ajude a espalhar a notícia.

‘Sobrescritos’: orelha, orelhas
NoMínimo / 22/02/2010

Não, o livro de papel não morre tão cedo, e a prova disso é que está nascendo mais um. Com o bicho na gráfica e o lançamento carioca marcado para a noite de 10 de março, uma quarta-feira, na Travessa de Ipanema, tenho o prazer de adiantar aqui o texto da orelha de “Sobrescritos” (Arquipélago Editorial), assinado por Arthur Dapieve: As pessoas coçaram atrás da orelha. Depois, porém, as pessoas coçaram atrás da orelha de novo. Por fim, as pessoas ficaram com o lado de trás da orelha inteiramente escalavrado. Quando os primeiros Sobrescritos apareceram, enigmáticos, na coluna Todoprosa, de Sérgio Rodrigues, no bom e velho site NoMínimo, as pessoas suspeitaram que eram minicontos à clef, dispostos a esculhambar de vez o mundo das letras. Quem seria o “escritor de barba espessa e fama rala?”, alarmaram-se alguns. E o inesquecível Lúcio Nareba, “lenda da blogosfera literária nacional”, quem haveria de ser?, sussurraram outros. Felizmente, houve também quem percebesse de cara que todas essas figuraças, incluindo Demóstenes Bastião, o que escrevia em preto e branco, ou o latinista Cecilio Giovenazzi, “o maior memorialista do onanismo no Ocidente”, habitavam era a interseção entre a capacidade de observação e o talento para fabular…

Não confie nesses caras
NoMínimo / 19/02/2010

Algo estranho aconteceu com os narradores não confiáveis em meados do século 20: eles se tornaram um pouco mais confiavelmente não confiáveis, e muito mais vis. Em fins do século 19 eles tendiam a ser pouco dignos de crédito por estarem escondendo alguma coisa sobre si mesmos ou não conseguirem enxergar a verdade, em geral devido a algum tipo de fraqueza psicológica. No entanto, à medida que o modernismo caminhou para o pós-modernismo e todos nos tornamos muito mais cínicos, esperava-se que os narradores em sua maioria fossem complicados. A falta de confiabilidade tornou-se inseparavelmente ligada à maldade – para não falar na duplicidade, no delírio e até na loucura. Naturalmente, o alargamento dos parâmetros também tornou os narradores não confiáveis muito mais divertidos, com o humor compensando com frequência seu lado negro. O desafio era tornar esses traiçoeiros narradores em primeira pessoa ao mesmo tempo intrigantes e divertidos. O escritor Henry Sutton faz no “Guardian” uma boa reflexão (em inglês) sobre o clássico tema do narrador não confiável, além de apresentar uma também interessante lista pessoal dos dez principais livros da língua inglesa cuja prosa é conduzida por um deles: “Lolita”, “A volta do parafuso”, “O apanhador no campo…

Plágio ou sampling?
NoMínimo / 18/02/2010

Onde termina o sampling e começa o plágio, eis a questão. Que não é inteiramente nova: pouca gente deve se lembrar, mas em maio de 2006 uma estudante de Harvard chamada Kaavya Viswanathan (leia post da época aqui) foi do céu ao inferno quando descobriram que seu badaladíssimo romance de estréia era na verdade uma colagem de diversas obras. A novidade do caso recente (em inglês) da alemã Helene Hegemann, 17 anos, de roteiro inicialmente parecido, é que a parte do inferno nunca veio. Seu romance de estréia vende mais que nunca e até ganhou um prêmio de prestígio depois que as acusações de plágio começaram a pipocar. Detalhe: Hegemann foi esperta – ou cândida? – o suficiente para incorporar à própria tessitura de seu livro o atualíssimo tema do sampling, do reprocessamento de retalhos alheios, do imediato domínio público em que cai ou deveria cair qualquer criação artística na era da informação digital. “Não existe a tal da originalidade, de qualquer maneira: apenas a autenticidade”, declarou ela em nota oficial. O que eu penso de tudo isso? O terreno é movediço, mas eu diria que – como comprova o chamado “caso dos escritores Jerominho” – o recurso pós-moderno do…

Conto de carnaval: A máscara
NoMínimo / 15/02/2010

Todo cuidado é pouco com essa máscara, viu, Vi? Não, sua boba, empresto com prazer porque você sabe que é a minha neta preferida, e além disso tem outras coisas, sinto um arrepio só de imaginar que a minha máscara negra veneziana nariguda vai se soltar por essas ruas outra vez depois de meio século guardada numa caixa de chapéu com a tampa afundada, devia andar triste, a coitadinha, olha só esses olhos vazados caídos, tão merencórios. Ah, esses olhinhos viram coisa, Vi. Claro que não era como agora, era melhor, era pior. Diferente: eu nunca fui de folia e nem podia ser, sempre fui certinha. Seu avô, sim, aquele se esbodegava inteiro, saía no sábado pra voltar na quarta-feira que nem na música da camisa listrada, só que a fantasia dele, infalível, era de arlequim – conhece a música da camisa listrada? Ainda toca isso? Em vez de tomar chá com torrada ele tomou parati, não, imagine se vai tocar. Agora é diferente, pior, melhor, depende. Por exemplo, quando você casar, duvido que agüente o que eu agüentei. Não agüenta, Vi, mudou demais. Para melhor, nesse ponto eu acho que foi para muito melhor, porque se o seu marido…

O ‘Babelia’ teve um filho
NoMínimo / 12/02/2010

O suplemento cultural (com ênfase em literatura) do jornal espanhol “El País”, chamado Babelia, que sai todo sábado, é um dos melhores do mundo no gênero e um velho conhecido, por meio de incontáveis links aparecidos aqui, dos leitores do Todoprosa. A novidade é que este mês a equipe que o produz estreou um blog coletivo, Papeles Perdidos, que desde já é parada obrigatória no roteiro da boa navegação literária.

It’s only rock and hoax!
NoMínimo / 11/02/2010

Duas notícias recentes no “Guardian” (em inglês, acesso gratuito) são mais que suficientes para, com o auxílio de algumas gotas de predisposição apocalíptica, fazer o sujeito calcular que as fronteiras entre realidade e ficção estarão definitivamente apagadas ali pela altura de setembro de 2019. A primeira nota fala do vexame sofrido pelo filósofo pop francês Bernard-Henri Levy ao dar crédito em seu último livro a um certo colega e conterrâneo quase esquecido, Jean-Baptiste Botul, que teria sido um crítico implacável de Kant. O problema é que Botul, criador do “botulismo”, nunca existiu, é só uma piada do jornalista e satirista Frédéric Pagès. O outro post informa que o jornalista grego Taki, da revista inglesa “Spectator”, escriba de certa popularidade entre os conservadores europeus, alega ter sido correspondente de J.D. Salinger, de quem teria “centenas de cartas”. “O único homem em quem confio e que jamais encontrei pessoalmente é Taki, o correspondente grego da ‘Spectator’”, teria escrito o famoso eremita numa delas (não fica claro por que Salinger achou necessário explicar ao próprio destinatário a identidade do destinatário). A “Spectator”, segundo o “Guardian”, não confirma a história do sujeito. Hoax – pegadinha, fraude – não é novidade no mundo das letras,…

Está rindo de quê, ô?
NoMínimo / 08/02/2010

“A comédia me parece ser tudo o que resta para um escritor trabalhar no mundo atual. Drama, romance, épico, tudo isso de alguma forma parece corresponder a outras épocas, a outras formas de ver o mundo.” A declaração do inglês Martin Amis, em entrevista que fiz com ele para o “Jornal do Brasil” em 2001, é categórica demais para não conter muito de exagero. Mesmo assim, nunca mais a tirei da cabeça. De vez em quando me divirto imaginando como se sairia, julgada por critério tão absoluto, a literatura brasileira contemporânea e sua irmã, a crítica, que parecem ter se esquecido por completo da lição de Machado e – num país basicamente absurdo, o que é mais absurdo ainda – tentam empurrar o humor e a ironia para fora de seus domínios, como se fossem recursos estéticos necessariamente menores. Amis, claro, é um provocador profissional. Parecia usar a mesma régua do humor, além de um certo ressentimento pelo Nobel alheio, quando declarou recentemente que o “depressivo” J.M. Coetzee “não tem talento” – o que é ridículo. Mas Amis é também um escritor inquieto e ambicioso que a meu ver, mesmo quando quebra a cara, dá um jeito de quebrá-la de…

Gabo, o político
NoMínimo / 04/02/2010

Pode-se argumentar que, aos 82 anos de idade, a reputação literária do colombiano Gabriel García Márquez está estabelecida. Sua cotação na Bolsa de Valores Literários deverá sofrer oscilações ao longo do tempo, como a de qualquer escritor que não seja simplesmente esquecido, mas poucas vozes – como a do exilado cubano Guillermo Cabrera Infante, um desafeto político morto em 2005 – deram-se ao trabalho de lamentar seu “folclorismo e exotismo realmente desnecessários”. Cem anos de solidão é um monumento cravado na história da literatura, ponto. E, como seus três ou quatro principais livros depois dele mantêm o sarrafo lá no alto, o solo sob os pés do escritor parece firme. No caso de Gabo, como o chamam os amigos próximos (e os jornalistas de qualquer distância), a reputação que falta fixar é a do homem público, a do “político” – papel que o ex-menino pobre e franzino de Aracataca passou a representar de modo praticamente profissional depois de se consolidar como celebridade planetária com o Nobel de literatura de 1982. Foi essa frente política – ou seriam fundos? – que a crítica internacional atacou com maior apetite na notável biografia autorizada que o inglês Gerald Martin publicou em 2008, após…

Mudando (mas não muito) de assunto
NoMínimo / 03/02/2010

Não me lembro de outra época em que a imprensa literária mundial tenha se ocupado tão pouco de… literatura. No lugar dela, fala-se de: 1. Tecnologia do livro digital: iPad x Kindle x etc.; 2. Política da difusão de literatura: a Amazon brigando de foice com a editora Macmillan, que aproveitou a nova concorrência da Apple para impingir ao grande varejista um aumento no preço do livro digital, enquanto os independentes vislumbram um futuro de ligação direta entre autor e leitor em que gigantes como Amazon e Macmillan virarão pó; 3. A nova estrutura legal que necessariamente emergirá dessa confusão, com o Brasil (onde ainda é proibido copiar uma obra intelectual mesmo para uso próprio, num pen-drive) discutindo uma reforma da legislação de direitos autorais; 4. Numa apoteose de tudo isso, uma certa metafísica da literatura, a perda de status cultural da ficção, o futuro da leitura de fôlego, o potencial que o meio digital apresenta para uma literatura “aberta e colaborativa”, o papel evolutivo da necessidade humana de se enredar em narrativas e outros esoterismos do gênero. São todos assuntos fascinantes, complexos, atualíssimos, dos quais o mundo inteiro e este blog, que não é autista e também respira o…

A rotina do adeus
NoMínimo / 01/02/2010

Depois de J.D. Salinger, em rápida seqüência, vão-se o crítico literário Wilson Martins (nascido em 1921) e o escritor e jornalista argentino Tomás Eloy Martínez (1934). Está ficando cada vez mais difícil entender a filiação estética desse coletivo de bruxas. Pero que las hay, las hay.

J.D. Salinger (1919-2010)
NoMínimo / 28/01/2010

Depois de passar décadas enterrado voluntariamente em vida, J.D. Salinger, autor de “O apanhador no campo de centeio”, está morto. Segundo comunicado da agência literária que o representa, o escritor morreu ontem “de causas naturais” e “sem dor” na casa de campo em que se isolou há meio século, em Cornish, no estado americano de New Hampshire. Salinger é praticamente o inventor do adolescente moderno – ou pelo menos seu maior porta-voz literário – na figura de Holden Caulfield, 16 anos, narrador e personagem principal de seu livro mais famoso, lançado em 1951 (disponível em português, em edição da Editora do Autor, aqui). Polêmico, “O apanhador no campo de centeio” virou um best-seller imediato, especialmente entre jovens, e vende regularmente até hoje. Seu alcance cultural transcendeu os limites da literatura para entrar no terreno do mito – a ponto de, para mencionar um exemplo maluco, o assassino de John Lennon, Mark Chapman, ter declarado que a explicação para o crime podia ser encontrada em suas páginas. Holden Caulfield se expressava de forma coloquial, era desbocado para os padrões da época e desconfiado de tudo o que se referisse ao mundo “fajuto” (phony) dos adultos. Um adolescente-mala como a ficção jamais…

Livros no iPad? Prefiro não
NoMínimo / 28/01/2010

O iPad, tablete da Apple anunciado ontem, está apanhando mais que o Cristo do Mel Gibson na comunidade geek. Sem multitarefa e sem entrada USB, acusam-no basicamente de ser só um iPhone gigante que, para piorar, não faz fotos e nem telefone é. Para o que vem ao caso aqui – a leitura de livros digitais – não se pode negar que é interessante o esforço investido na criação da iBookstore, a associação com grandes editoras e tal. O amadurecimento de um mercado em que absolutamente tudo está se definindo neste momento agradece. O probleminha chato é que, vamos falar sério, sem uma tela de tinta eletrônica (aquilo que o TechEBlog, na brincadeira acima, chama de matte screen, “tela fosca” – valeu, Polza!) não dá nem para se inscrever no páreo contra Kindle, Sony e similares. No meu modo de entender os leitores eletrônicos, o iPad é simplesmente outra coisa, habita outra categoria – no caso específico da leitura de fôlego, uma categoria inferior. Talvez seja mesmo o aparelho perfeito para passar os olhos em jornais e revistas à mesa do café da manhã, certo, mas livros? Nada disso significa que a possibilidade de um sucesso comercial deva ser descartada:…

Dane-se o leitor?
NoMínimo / 27/01/2010

Seria de imaginar que o rápido despejo da literatura das páginas das revistas comerciais fosse uma bênção para as revistas literárias, especialmente nos ambientes acadêmicos que se tornaram portos seguros para (e mecenas de fato de) escritores cujas obras não vendem o suficiente para gerar receita. Seria de esperar que os leitores leais de escritores estabelecidos promovessem um aumento na tiragem dessas pequenas revistas e que as universidades passassem a enxergá-las sob uma nova luz – não apenas como promotoras do prazer da literatura, mas como promulgadoras de uma nova era de escrita socialmente consciente nesses tempos pós-comerciais. Mas quanto menos comercialmente viável a ficção foi ficando, menos ela parecia se preocupar com seu público, que por sua vez tornou-a ainda menos comercial, até que, como uma estrela moribunda, ela parece à beira de implodir. Na verdade, a maioria dos escritores americanos parece ter esquecido como escrever sobre grandes temas – como se dar a mínima pelota para o mundo fosse algo que ficou esmagado sob a sola da bota do pós-modernismo. As reflexões amargas de Ted Genoways – editor da “Virginia Quarterly Review”, uma pequena e (cada vez menos) prestigiosa revista literária acadêmica dos EUA – merecem ser traduzidas…

Depois do Kindle, o Kandle
NoMínimo / 26/01/2010

Esta é para os leitores do Todoprosa que compartilham com o blogueiro a paixão pelo Kindle, um aparelho que, como se sabe, é tão brilhantemente bisonho e jurássico que não só se mantém cego, surdo e mudo diante do tumulto da internet como ostenta uma tela sem luz própria. Devemos estar mesmo na temporada dos acessórios engenhosos para leitura (pelo menos enquanto não chega o tablete da Apple, que, dizem, pode até dispensar o cidadão de ler, lendo tudo sozinho e apresentando um resumo desenhado depois): suspeito que o Kandle, abajurzinho portátil para Kindle, seja a maior invenção do planeta desde o Thumbthing. (Via Pontolit.)

Fala baixo
NoMínimo / 21/01/2010

Um dos segredos mais bem guardados do mundo literário é que, embora possam ser, individualmente, pessoas até adoráveis, escritores em comunidade são tão interessantes quanto dentistas em congresso.

Atenção: o autor está sendo sarcástico
NoMínimo / 18/01/2010

Parece ser sério: uma empresa chamada Sarcasm, Inc. está vendendo (?) um sinal de pontuação chamado “ponto de sarcasmo”. Me lembrei do velho ponto de ironia, uma exclamação de cabeça para baixo, inventado – se não me engano – pelo Ziraldo. Não é difícil entender por que o ponto de ironia não pegou, apesar de sua aparente necessidade, confirmada a cada vez que milhares de leitores deixam de captar a piada e se enfurecem com você pelas razões erradas: avisando, perde toda a graça.

Só no dedão
NoMínimo / 15/01/2010

Num momento em que a humanidade está mesmerizada pela leitura eletrônica, uma surpreendente e rudimentar invenção mecânica para quem ama os livros de papel (que não, NÃO vão desaparecer): o Thumbthing, que o blog de livros da “New Yorker” chama de “revolucionário” – meio de brincadeira, mas só meio. A idéia, claro, é segurar confortavelmente o livro com apenas uma mão, mantendo abertos aqueles volumes que insistem em se fechar sozinhos, enquanto com a mão livre se executa outra ação qualquer, como adoçar o café. Como um admirador do Kindle que valoriza sua capacidade – ainda pouco louvada – de ficar “aberto” sem precisar de nenhum tipo de calço (o que acabou com meus velhos problemas para ler às refeições), respeito quem se preocupa com os aspectos mais triviais, físicos, da leitura, e fiquei contente com esse contra-ataque do mundo analógico. Ah, o fabricante lembra que a coisa funciona também como marcador. Se vai pegar, não sei, mas achei bacana. Bobagem, certamente. Mas não mais do que a maioria dos aplicativos para iPhone.

ETs no sertão e outras idéias geniais
NoMínimo / 13/01/2010

Como no romance original, nossa história acompanha dois relacionamentos: o trágico caso de amor adúltero entre Anna Karenina e o Conde Alexei Vronsky e o casamento mais esperançoso de Nikolai Levin e a Princesa Kitty Shcherbatskaya. Esses personagens vivem num mundo de inspiração punk-retrô cheio de mordomos robóticos, autômatos desajeitados e aparelhos mecânicos rudimentares. Mas quando essas máquinas revestidas de cobre começam a se revoltar contra seus senhores humanos, nossos personagens contra-atacam usando tecnologia de ponta do século 19 – e um sofisticado novo modelo de ciborgues ultra-humanos que não se parece com nada que o mundo já tenha visto. Depois que juntaram Jane Austen com zumbis, abriu-se um filão que parece longe de se esgotar: Android Karenina (obrigado, Cris), com lançamento previsto para junho, é a novidade do momento. Confesso que não sei o que fazer disso: parei de rir cinco minutos depois da primeira notícia, mas a piada não acaba. Quando será que o Brasil, sempre atrasadinho, vai pular no bonde dessa vibrante forma de vanguarda literária? Seguem algumas pautas para autores/editores intrépidos: Grande sertão: aliens – ETs gelatinosos de meio metro de altura pousam no sertão numa nave de prata e, num pacto fáustico, ensinam o tímido…

A final da Copa, afinal: literatura nacional é para ler?
NoMínimo / 11/01/2010

Antes de ler “Flores azuis” e “Galiléia”, eu me perguntava por que as livrarias reservam uma parte toda especial, geralmente escondidinha e acanhada, para a literatura nacional. Confesso, envergonhado, que eu via isso com alguma revolta. Um resquício de patriotismo que não saiu no banho, talvez. “Flores azuis” e “Galiléia” me deram uma explicação para este fenômeno que não é só comercial. Na verdade, tudo é muito simples: literatura brasileira, em geral, não é livro que se queira ler. É livro que se pretende estudar, analisar, discutir. Aquilo que parece um romance é, na verdade, um objeto de estudo — um livro praticamente didático. Logo, convém mesmo deixar a literatura brasileira bem separadinha daqueles livros que a gente compra porque quer lê-los à noite, antes de dormir, ou na praia. Minha sugestão é que o mercado editorial comece a lançar promoções do tipo “Compre este livro e ganhe uma tese”. Pode dar certo. Paulo Polzonoff chuta o pau do ombrellone na partida final da Copa de Literatura 2009, em que “Flores azuis”, de Carola Saavedra, derrotou “Galiléia”, de Ronaldo Correia de Brito. Disputada por livros lançados em 2008, a competição termina em 2010, mas não creio que essa morosidade crítica…

Vamos nos concentrar só um pouquinho?
NoMínimo / 08/01/2010

A coisa explodiu. São tantos os e-readers e tabletes sendo apresentados por estes dias no Consumer Electronics Show, em Las Vegas, que este blog, depois de acompanhar o tema do livro digital com algum interesse por tanto tempo, entrega oficialmente os pontos. Está tudo muito bom, mas vocês realmente esperam que eu me informe sobre tudo aquilo? Exerço o meu direito de Bartleby: prefiro não. Que, não por coincidência, pode ser justamente o direito fundamental que a avalanche internética tem nos feito esquecer: prefiro não. Tentarei explicar. Mas para tanto peço desculpas e cito, depois de dizer que não o faria, uma das tais engenhocas recém-lançadas, que leva o insuportável nome de “enTourage eDGe” e pode ser conferida neste vídeo. Trata-se da primeira máquina que combina e-reader com netbook – tela de tinta eletrônica de um lado, tela de cristal líquido do outro. Para que você possa, até que enfim!, ler tranquilamente seu “Guerra e paz” com o olho esquerdo enquanto, com o direito, confere emails, comenta um status ou outro no Facebook e se diverte com aquele último vídeo imperdível no YouTube. Ah, você prefere não fazer isso? Bem-vindo ao clube. Ando apaixonado pelo Kindle, e de repente fica…

Palavras sem fronteiras
NoMínimo / 06/01/2010

A grande revista eletrônica “Words Without Borders”, a melhor fonte para literatura estrangeira em inglês, começa o ano de cara nova. Bonita e altamente navegável. Vale conferir.

O grande romance do futebol

Naquele primeiro post da história deste blog, para o qual criei um atalho ontem, havia um link quebrado – irremediavelmente quebrado a esta altura, soterrado nos escombros do “NoMínimo”. Trata-se de uma resenha que publiquei no já distante ano de 2004 sobre “O negro no futebol brasileiro”, de Mario Filho. Em nome da sempre interessante discussão sobre literatura & futebol, decidi republicar o texto na íntegra: Algumas mentiras, de tão repetidas, passam por verdades. Uma delas aponta o que seria uma contradição a mais da vida brasileira, entre as muitas de que o país é feito: nosso futebol, com seu incomparável apelo de massa e sua qualidade aclamada em todo o mundo, nunca produziu na literatura uma única obra à altura dessa exuberância. Trata-se de uma quase-verdade. Só é mentira, e mentira clamorosa, porque o jornalista Mario Filho lançou em 1947 – e relançou, com o acréscimo de dois capítulos, em 64 – um livro chamado “O negro no futebol brasileiro”. Não se trata apenas do “maior clássico sobre o futebol brasileiro”, como costuma ser apresentado. É o único clássico digno desse nome, a mais acabada tradução da mitologia construída por um povo – fundada ou não, sonho ou realidade,…

Futebol e literatura em ano de Copa

Quem, como eu, já estava vivo quando Pelé marcou seu milésimo gol deve entender minha sensação de que esse número redondíssimo estará para sempre associado ao futebol. Daí eu me lembrar agora, quando o Todoprosa completa mil posts – o que não é nenhum feito de craque, claro, mas ainda assim merece comemoração – de como tudo começou, em maio de 2006: com uma discussão sobre o velho tema futebol & literatura, um dos mais recorrentes em nossa imprensa literária. A coisa toda parte de uma pergunta simples, embora talvez enganosa: por que nunca produzimos um romance sobre o esporte nacional que lhe faça justiça? Aquele era um ano de Copa do Mundo, como este também é. Alguém quer apostar que a pauta vai ser ressuscitada nos próximos meses?

Post número 999
NoMínimo / 29/12/2009

Todo fim de ano é assim: não sei se é essa contagem regressiva surda que pulsa em cada esquina, ou quem sabe será apenas o calor. O fato é que os pensamentos vão ficando cada vez mais soltos à medida que avança dezembro, esgarçando-se como nuvens ao vento até que, ali em torno do Natal, o estrago está feito: como o fim, de tão aguardado, parece chegar antes da hora, sem contudo trazer ainda o recomeço, instaura-se um limbo em que o non sequitur vira lei universal e já nada leva a coisa alguma – fica tudo espalhado por aí feito milhões de tweets. Deve ser por isso que o pessoal gosta de bolar listas – de melhores, de piores, de presentes, de resoluções, listas de listas de listas. Como se sabe, listas são a maneira mais primitiva – no bom sentido – de organizar o caos. Mas aí você vai atrás do bálsamo das listas e descobre que o aguado “Leite derramado” – que tem algumas páginas brilhantes de entremeio, mas é um tanto contrafeito e bem inferior a “Budapeste”, do mesmo autor – vem sendo eleito o livro do ano no Brasil. Fica confuso. Nesse limbo, até que…

O romance morreu, viva o romance!
NoMínimo / 27/12/2009

O ensaio político “Anatomia de um instante”, de Javier Cercas, sobre o fracassado golpe de Estado de 1981 na Espanha, foi eleito por um time de críticos reunido pelo caderno “Babelia” o livro do ano no país – ou mais até do que isso, “uma das obras capitais da literatura de língua castelhana de nossa época”, segundo Alberto Manguel. Cercas, conhecido do leitor brasileiro por dois excelentes romances baseados em histórias políticas reais, “Soldados de Salamina” e “A velocidade da luz” (já citados neste blog, aqui e aqui), inverte desta vez – pelo que pude entender, sem ter lido o livro – o peso da balança para o lado da não-ficção. Estaríamos diante de mais um sintoma da tão alardeada crise do romance? Ou, ao contrário, de mais um sinal de que sua renovação se dá hoje no mundo inteiro – com o Brasil meio atrasado, como costuma ocorrer – no incontrolável contrabando que rola na fronteira entre os gêneros?

DeLillo & Kindle, tudo a ver
NoMínimo / 23/12/2009

O livro já estava na fila faz tempo, mas o empurrãozinho decisivo veio daquele ótimo artigo de Tim Adams no “Observer”, que escala Don DeLillo como uma espécie de antípoda dos e-books. Feliz proprietário de um Kindle natalino, decidi inaugurar o aparelho com “Underworld”. Queria ver sangue. Mas não é que eles se amam?

A volta de Sam Spade
NoMínimo / 22/12/2009

Joe Gores é um autor americano de literatura policial que teve um livro muito interessante lançado no Brasil, pela Graal, em 1986: “Hammett”, um romance do gênero hard boiled, tão rigoroso quanto divertido, em que o detetive é ninguém menos que Dashiell – que foi mesmo detetive (medíocre) antes de virar escritor (brilhante) e mudar para sempre o jeito de escrever sobre crimes. E não é que o cara continua preso em sua obsessão? Acabo de descobrir numa retrospectiva do ano da “New Yorker” que Gores lançou em 2009, com alguma discrição, um romance chamado “Spade & Archer”, que vem a ser uma prequel – a história anterior – de “O falcão maltês”. Sim, eu sei: os mais descolados entre vocês vão dizer que ninguém agüenta mais esse papo de intertextualidade – será que depois do pós-modernismo não vem nada, não? Compreendo o enfado, mas lembro um detalhe, ou melhor, dois: Gores é um escritor de verdade; o livro não tem zumbis.

Mix Leitor D, um fenômeno verde-amarelo
NoMínimo / 17/12/2009

A notícia saiu hoje no blog do “Prosa & Verso” e tem algo de enigma: como é possível que o e-reader nacional Mix Leitor D, produzido em Recife, já conte (segundo Murilo Marinho, diretor da empresa que o fabrica) com 150 mil encomendas antes mesmo de ser lançado, se o mercado do livro digital, sobretudo no Brasil, ainda é um pântano de incertezas? Catálogo, por enquanto uma grande interrogação, não é. Preço muito menos. Por R$ 1.100 na versão com 3G, o aparelho não leva vantagem competitiva sobre um rival poderoso como o Kindle – cujo design, aliás, copia. É preciso ler até o fim as linhas – e sobretudo as entrelinhas – de Miguel Conde para começar a decifrar o mistério: Bom, talvez os responsáveis por essas encomendas todas pudessem explicar melhor por que se entusiasmaram tanto com o aparelho. Marinho diz no entanto que não pode revelar quem fez as encomendas, mas afirma que “a parte governamental é uma área forte”. Não só escolas, mas também “órgãos do governo” se interessaram, diz. Uma única editora está no projeto desde o início. O Mix Leitor D é desenvolvido por meio de uma sociedade entre a Mix Tecnologia e a…

Livros de presente? Todo cuidado é pouco
NoMínimo / 16/12/2009

Livros, instruções de uso: declarar em público que não se leu o “Ulisses” e muito menos “Em busca do tempo perdido” (isso, que antes era inconfessável, agora se faz muito porque fala às claras de alguém que, de tanto que leu, pode declarar tal ignorância sem ser tachado de burro). Jamais dizer nada de mal sobre “Uma confederação de estúpidos”, de John Kennedy Toole (a mesma regra é válida para qualquer título de Hunter Thompson, quando se está na companhia de jovens jornalistas). Evitar as seguintes discussões, por perigosas, com companheiros queridos ou amigos próximos: a favor ou contra “Psicopata americano”, de Bret Easton Ellis; a favor ou contra “As partículas elementares”, de Michel Houellebecq; a favor ou contra “As correções”, de Jonathan Franzen; a favor ou contra “As benevolentes”, de Jonathan Littell. Mencionar em qualquer encontro, pelo menos uma vez, Berger, Sebald, Pessoa. Dizer, sempre que surgir a ocasião, que Sándor Márai é chato. Dizer, com o olhar perdido no fundo de um copo, que Truman Capote era manipulador. Dizer, com um suspiro, que os romances de Cortázar envelheceram mal, mas em compensação, ah, seus contos. É uma delícia de fino humor – e sob o mais banal dos…

Traduzam este livro!
NoMínimo / 15/12/2009

Já virou um clichê destacar a falta de interesse da indústria editorial americana por literatura traduzida, que responde por menos de 3% dos lançamentos literários daquele país culturalmente – quase – autista. (Um trabalho de mapeamento mundial como o da boa revista eletrônica “Words Without Borders”, que tem link permanente aqui no blog, é exceção.) A novidade imaginada pela “Quarterly Conversation” é ir além da mera lamentação e perguntar a tradutores americanos e autores estrangeiros quais livros, entre os que nunca foram vertidos para o inglês, eles consideram de tradução prioritária. O resultado completo pode ser conferido aqui e traz algumas curiosidades. Uma delas é que a maioria dos livros citados também não saiu no Brasil, um país que traduz proporcionalmente muito mais (mesmo porque, embora também autista em muitos aspectos, não anda lá muito interessado em ficção nacional). Outra é que não aparece nenhum autor brasileiro contemporâneo na relação dos entrevistados pela “Quarterly Conversation”. Em compensação, o tradutor Matt Rowe teve a idéia – que não deixa de ser excelente por ser óbvia – de incluir na lista os contos de Machado de Assis, sem dúvida um dos expoentes mundiais do gênero, que até hoje foram lançados em inglês…

Lugar de livro é no fogo
NoMínimo / 11/12/2009

Quem já tentou doar ótimos livros a escolas e até bibliotecas públicas e se estarreceu com o mal-humorado desinteresse do lado de lá, como se o candidato a doador estivesse pedindo um imenso favor, não vai se surpreender muito com a queima de livros promovida anteontem pela Escola Estadual Ernesto Monte, de Bauru, que um fotógrafo flagrou por acaso. O caso pode ter virado notícia, mas não foge tanto assim a um padrão nacional. O triste padrão do filistinismo. Em compensação, somos os maiores candidatos a potência mundial da vez, oba!

Os melhores livros de 1909
NoMínimo / 09/12/2009

Se não há como fugir do apelo jornalístico das listas de fim de ano, ainda mais inescapável é a necessidade de fundar juízos no distanciamento histórico – um século, por exemplo. Fiel a ditames tão contraditórios, segue uma lista dos cinco mais relevantes lançamentos literários de 1909, um ano desditoso para as letras auriverdes: o primeiro sem Machado de Assis e aquele em que Euclides da Cunha foi assassinado por Dilermando de Assis (nenhum parentesco). Note-se a ausência do prolífico Rui Barbosa, que andou ocupado demais com sua campanha à Presidência da República para publicar qualquer coisa: 1. “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto. Mal saiu de cena Machado de Assis, um mulato que não se via como tal, sobe ao palco um que se vê. Publicado em Portugal, este romance, que marca a estréia literária do autor carioca, pinta o retrato de uma sociedade brasileira corrupta e racista. A primeira frase, que algum compilador do futuro poderá incluir entre seus “começos inesquecíveis”, é de uma beleza sombria: “A tristeza, a compreensão e a desigualdade de nível mental do meu meio familiar agiram sobre mim de um modo curioso: deram-me anseios de inteligência”. 2. “Zeverissimações ineptas da crítica”,…

O livro, quando morre, vira ‘conteúdo’
NoMínimo / 07/12/2009

O artigo de Tim Adams no “Observer” de ontem (em inglês, acesso gratuito) versa sobre o tema-clichê do momento, para o qual confesso que minha paciência anda curta: o futuro dos livros na era do Kindle e tal. Mas faz isso de forma brilhante – e meio perturbadora. Segue seu naco inicial em tradução caseira: Duas observações isoladas sobre literatura atraíram minha atenção nos últimos dias e se recusam a me abandonar. A primeira é de uma entrevista de Don DeLillo, autor do grande épico moderno “Submundo”. DeLillo contava como continua escrevendo numa máquina de escrever, e disse o seguinte: “Eu preciso do som das teclas, as teclas de uma máquina de escrever manual. Os braços martelando a página. Gosto de ver as palavras, as frases, à medida que se formam. É uma questão estética: ao trabalhar, tenho um senso de escultor sobre a forma que as palavras vão adquirindo.” A segunda era um anúncio local em minhas páginas amarelas sobre um “game” para Nintendo DS que contém cem livros clássicos. O cartucho vende-se assim: “A Coleção 100 Livros Clássicos transforma seu Nintendo DS numa biblioteca portátil que contém romances de leitura obrigatória de autores icônicos como Charles Dickens, Jane…

Cormac McCarthy está vendendo sua Olivetti. Eu não
NoMínimo / 02/12/2009

A informação (em inglês) é só uma curiosidade: a combalida Olivetti Lettera 32 em que o escritor americano Cormac McCarthy escreveu ao longo de quase 50 anos e cinco milhões de palavras será leiloada pela Christie’s com propósitos beneficentes nesta sexta-feira, com expectativa de sair por algo entre 15 mil e 20 mil dólares. Para mim, porém, a notícia tem sabor de madeleine. Tenho em casa um modesto museu da máquina de escrever. Além da portátil Hermes 2000 que já comprei velhinha nos anos 1980, num antiquário, mas ainda cheguei a usar, conservo a pesada Remington que herdei de meu pai, na qual batuquei meus primeiros contos adolescentes, e desde o início deste ano a estrela da companhia: uma restauradíssima Olivetti Lexikon 80 (foto ao lado), maravilha dos anos 1950 que, naquele clima de balanço universal da virada do milênio, foi eleita por um júri internacional de design a melhor máquina de escrever de todos os tempos. Mas não é essa glória mundana, ou não só ela, que a conduziu ao lugar de maior destaque no centro da sala: ao mesmo tempo sólida e macia, a Lexikon 80 era a máquina de linha na redação do velho “Jornal do Brasil”…

O novo romance de Verissimo
NoMínimo / 30/11/2009

Luis Fernando Verissimo costuma ser esnobado como romancista por nossa crítica literária (vai sem aspas mesmo, mas falta claramente uma expressão melhor), embora tenha produzido algumas pérolas numa área em que a cultura brasileira sempre foi carente: a dos livros “leves” que as pessoas realmente lêem e que dissimulam sua sofisticação por trás da linguagem cristalina. Talvez porque essa operação seja oposta àquela que conta mais pontos em nosso meio intelectual – a dos livros “pesados” que ninguém lê e que dissimulam a falta do que dizer por trás de uma linguagem turva – Verissimo ainda aguarda uma vindicação que conceda um lugar menos marginal a, por exemplo, seu romance de estréia, o aliciante “O jardim do diabo”. Esse nariz-de-cera vem a propósito do novo livro do homem, “Os espiões”, que acaba de sair pelo selo Alfaguara. É o primeiro romance de Verissimo que não lhe foi encomendado por um editor – o que é sem dúvida auspicioso. Ontem, sem tempo para ler, abri o magro volume e dei uma espiada na primeira frase: “Formei-me em Letras e na bebida busco esquecer”. Seria uma barbada de começo inesquecível, se esta seção ainda existisse aqui. Depois conto mais. * Nota de…

O que acontece com as palavras quando as lemos
NoMínimo / 27/11/2009

Atenção, editor ou autor: procurando idéias para fazer um videoclipe promocional do seu livro, esse gênero que o YouTube pariu e que vai amadurecendo velozmente? (Bom, eu meio que estou…) É sensacional essa animação aí, produzida sem uso de computador por um estúdio britânico para o New Zealand Book Council, em cima – literalmente – de um livro chamado Going west, do neozelandês Maurice Gee. Bela dica do blog que o jornalista Almir de Freitas, editor da “Bravo!”, mantém no site da revista.

Tabucchi e a liberdade de expressão
NoMínimo / 26/11/2009

O escritor italiano Antonio Tabucchi está sendo processado pelo presidente do Senado de seu país, o berlusconista Renato Schifani, que pleiteia uma indenização de 1,3 milhão de euros. O crime do escritor: ter afirmado num artigo publicado ano passado pelo jornal “L’Unità” que Schifani precisa explicar suas relações com personagens já condenados como mafiosos. Tratado com descaso pela imprensa italiana, o caso está sendo transformado na França naquilo que realmente é: uma batalha pela liberdade de expressão. O jornal francês “Le Monde” publicou na semana passada uma espécie de manifesto chamado “Nós apoiamos Antonio Tabucchi”, com a assinatura de intelectuais do mundo inteiro – entre eles Philip Roth, Orhan Pamuk, António Lobo Antunes, Mário Soares e Antonio Munoz Molina.

Hay que sufrir…
NoMínimo / 23/11/2009

Quer ser um bom escritor? O primeiro passo é não ser feliz demais, sugere uma pesquisa recente (em inglês). (Via blog de livros da “New Yorker”.)

Sexo bom
NoMínimo / 20/11/2009

A propósito do Bad Sex Award, nosso tema de ontem, Sarah Duncan escreve (em inglês) no blog de livros do “Guardian” sobre o que faz uma cena ficcional de sexo funcionar. O assunto é interminável e, embora a moça defenda seu ponto de vista com bravura, não concordo inteiramente com ela. Como tudo mais num romance, o que dá certo ou não dá certo nada tem a ver com alguma idéia preconcebida que se possa adotar universalmente, e tudo com a moldura da obra em questão. Quem acha que descrições gráficas de sexo não podem ser excitantes nunca leu “História de O”. Mesmo assim, a ênfase de Duncan no clima, na sugestão e nas lacunas não me parece um mau conselho a quem se vê diante da tarefa insana de conjurar essa febre num monitor de cristal líquido: No meio do ato sexual eu não penso: oh, ele acaba de enfiar seu órgão pulsante em minha genitália, então por que o personagem deveria pensar tal coisa? Em vez de escrever sobre ações, eu me concentro nas reações, nas sensações mentais e físicas. Entre na cabeça do personagem e você conseguirá criar a ilusão de que, sim, aquilo é real, está…

Sexo ruim
NoMínimo / 19/11/2009

Quem se lembra do Bad Sex Award, aquele prêmio inglês para o livro que contém a pior cena de sexo do ano, que o Todoprosa acompanha com o maior interesse? Pois não é que nesta edição escalaram Philip Roth entre os finalistas, por uma cena de The humbling que envolve duas mulheres, um strap-on verde e um deus Pã que tudo observa, lascivo? Estava demorando.

Promover a leitura é alfabetizar de verdade
NoMínimo / 18/11/2009

Diz o escritor argentino César Aira em entrevista à revista “Letras Libres”, aqui: Acho que a literatura não tem uma função importante na sociedade. Por outro lado acho que a literatura sempre foi e é e continuará a ser minoritária, para poucos. E acho que a literatura tem que ser opcional. Há muitos colegas meus pregando a obrigatoriedade da literatura. Fazer os jovens lerem. Não gosto disso. Na nossa sociedade tudo vai se tornando aos poucos obrigatório, deixemos a literatura ser uma atividade optativa. Leia quem quiser. Quem quiser ler terá muita felicidade na vida, mas não querendo ler também se pode ser muito feliz. Não sou um evangelista da leitura. Agora isso está na moda, promover a leitura. Há até fundações que se dedicam a isso. Suspeito que todos os que fazem tal trabalho, e ganham um bom dinheiro ao fazê-lo, nunca lêem. Nós que lemos não somos tão inclinados a promover a leitura. Talvez por já termos aprendido que é a atividade mais livre que alguém pode exercer. Gostei. Sempre encarei com algum desconforto os “programas de incentivo à leitura”. Programa de incentivo à leitura que eu conheço, e parece que funciona, é alfabetização de verdade. Ensinar a…

Cafungadores e coveiros: vamos virar a página?
NoMínimo / 16/11/2009

Um maniqueísmo mais apaixonado que inteligente tem marcado as conversas sobre o livro eletrônico no Brasil, entre o pessoal que prefere morrer a abrir mão de uma cafungada no papel e o que prega simplesmente a morte do livro como o conhecemos. Nesse cenário, é uma boa notícia este artigo de Jerome Vonk, que o autor me enviou por email e que pode ser lido na íntegra em pdf em seu site. Não por conter novidades, mas por trazer um olhar lúcido e a certeza de que não estamos diante de um mata-mata: o campeonato se estende até onde a vista alcança e é disputado em sistema de pontos corridos. Um trecho: Examinemos de perto o livro eletrônico, e percebamos que ele não é apenas a versão digital do livro físico; é muito, muito mais! É o superlivro no modo mega hiper blaster total; confira aqui os acessórios originais de fábrica (variações existem de modelo a modelo): • busca de palavra ou expressão • dicionário embutido • imagens animadas, áudio e vídeo (multimídia) • hiperlinks e referências cruzadas com outros livros, revistas online, blogs… • realce de texto, marcação de página e anotações • empréstimo do livro e envio de…

Um Nabokov ‘devastadoramente triste’
NoMínimo / 13/11/2009

Quem acompanha este blog começou a ouvir falar no ano passado do projeto de romance que o grande Vladimir Nabokov deixou rascunhado em 138 fichas antes de morrer, em 1977 – e que, de acordo com seu desejo, deveria ter virado cinza há muito tempo. Como se sabe, seu filho Dmitri descumpriu a ordem paterna. “O original de Laura”, sobre um escritor que decide morrer pelo processo inaudito de “autodissolução”, começando pelos dedos dos pés, ganhou o subtítulo “Morrer é divertido” e começa agora a ser resenhado pelo mundo. De modo geral, não tem sobrado ficha sobre ficha, como neste texto (em inglês) de Aleksandar Hemon para a revista eletrônica “Slate”. Seria ridículo, claro, culpar o falecido pela venda de seu espólio. Nabokov não se limitou a ser inequívoco em seu desejo de que as fichas manuscritas fossem destruídas. Também era intransigentemente claro em seus pontos de vista sobre a arqueologia de manuscritos inacabados ou de rascunhos que precedessem versões finais e publicadas – e também sobre o valor absoluto de uma obra de arte pronta. Na introdução à sua tradução de “Eugene Onegin”, escreveu: “Um artista deve destruir sem dó seus manuscritos após a publicação, para evitar que eles…

Reificação da hegemonia pós-capitalista é a…
NoMínimo / 10/11/2009

Uma divertida ferramenta da Universidade de Chicago, chamada “Monte sua própria frase acadêmica” (em inglês), permite a qualquer pessoa escrever sentenças tão boas quanto – ou melhores que – as de muitos pós-doutores cascudos. Ou seja, coisas inteiramente destituídas de sentido, mas com aquele ar hermético de altíssima sabedoria que é fundamental para enganar trouxas. Funciona assim: você escolhe quatro substantivos cabeludos em quatro listas e recebe uma frase pronta. Se não gostar dela, basta um clique e os termos voltam numa nova ordem. Tanto faz, claro, porque nada quer dizer nada. Eis alguns exemplos traduzidos do que arranjei por lá: A reificação da hegemonia pós-capitalista revive (de forma paródica) a historicização da economia especular. A cultura dos valores normativos carrega em si a política da esfera pública. A poética da cultura pop pede para ser lida como a autenticação do poder/conhecimento. Uma única limitação impede a brincadeira de ser genial, como observa Macy Halford, do blog de livros da “New Yorker” (onde eu soube da novidade): as frases são curtas demais. Nenhum acadêmico que se preze seria tão sucinto. No entanto, com um certo jogo de cintura sintático, é possível emendá-las e corrigir o problema. Assim: Conquanto a reificação…

Como escrever um grande romance
NoMínimo / 09/11/2009

A reportagem do “Wall Street Journal” (em inglês, acesso gratuito) pergunta a um punhado de escritores qual é sua rotina ao escrever. Previsivelmente, aparecem métodos, hábitos, rituais e manias de todos os tipos – ou alguém achou que o título deste post, que é também o da reportagem, anunciava um passo-a-passo de validade universal? De qualquer modo, é sempre interessante saber o que se passa na mesa de trabalho dos outros. O que mais me impressionou foi descobrir que ainda existem tantos adeptos – Michael Ondaatje, Kazuo Ishiguro, Orhan Pamuk, Amitav Gosh – da velha caneta (ou lápis) no papel. Eu acreditava que esse tipo de escritor, com a óbvia exceção dos poetas, estivesse rumando para a extinção. Pelo visto, não está. Talvez a turma da caligrafia concorde com Graham Greene, que disse: “Meus dois dedos numa máquina de escrever nunca se conectaram com meu cérebro. Minha mão numa caneta, sim. Uma caneta tinteiro, é claro”. Ressalvado o direito sagrado de cada um escrever como bem entende, alguma coisa nessa tirada de Greene sempre me incomodou. Um dia descobri o que era: os dois dedos. O cara catava milho! Da minha parte, para retomar a feliz idéia de “conexão” com…

Eu vi o futuro, mas esqueci
NoMínimo / 06/11/2009

Este post ambiciona ser uma saudável ducha de humildade no caldeirão quente em que agora nos debatemos todos os que lidam com livros, da escrita à divulgação, empenhados – inevitavelmente, mas mesmo assim… – em prever o futuro do nosso negócio. Vale lembrar um axioma indestrutível: todas as grandes previsões sociais, econômicas e tecnológicas estão fadadas ao erro. Por definição, só o que não foi previsto pode acontecer. Mas continuamos prevendo, o que garante o ganha-pão deste divertidíssimo site, o Paleo-Future, que leva o seguinte subtítulo: “Um olhar sobre o futuro que nunca foi”. Trata-se de uma coleção – organizada por décadas e começando em 1870 – de prognósticos furados que em algum momento gozaram de crédito junto ao público e aos meios de comunicação. Como o automóvel voador (desenho acima) e a semana de trabalho de 16 horas (que chegaria em 2020 – alguém acredita que esta previsão ainda possa decolar?). A futurologia que cabe aos escritores de ficção científica também é desmontada por um deles, Cory Doctorow, neste artigo recém-publicado na revista “Tin House”: Todo escritor de ficção científica tem uma FAQ – Frequently Awkward Question, Pergunta Embaraçosa Frequente – ou duas, e para mim é esta: “Como…

Demorou: novo Rubem tem clipe, twitter, e-book…
NoMínimo / 05/11/2009

O primeiro bom exemplo brasileiro de como serão os lançamentos de livros no nosso futuro (presente) digitalizado é o que cerca o “O seminarista”, título de estréia de Rubem Fonseca na Editora Agir, que sai neste sábado – simultaneamente em versão de papel, para Kindle (que o próprio autor já disse detestar, como lembra oportunamente Lauro Jardim) e iPhone. Não é só: desde ontem, no twitter da editora Agir, uma saraivada de textos com menos de 140 caracteres espicaça a curiosidade dos leitores – coisas como “José só trabalha por encomenda. É conhecido como O Especialista”. E hoje, para arrematar, estreou no YouTube o clipe do livro, coisa caprichada, com arte de Cristiano Menezes (que também assina a capa) e uma narração rouca, em off, do próprio Rubem. “O seminarista”, embora tenha 184 páginas, é uma novela. Quem tiver uma sensação de déjà vu assistindo ao clipe não estará enlouquecendo: o narrador, o matador de aluguel e ex-seminarista José, surgiu em três contos de “Ela e outras mulheres” (2006): Belinha, Olívia e Xânia – no último, mata o personagem do Despachante, intermediário que contratava seus serviços. Corre por aí à boca nem tão pequena que “O seminarista” é, com muitos…

O livro, o celular e o mingau
NoMínimo / 03/11/2009

Uma empresa de pesquisa de mercado chamada Flurry acaba de anunciar (em inglês) que, em setembro deste ano, os aplicativos de livros para iPhone tomaram pela primeira vez dos aplicativos de games a liderança em número de downloads. A informação fica mais interessante quando degustada ao lado da reportagem (em inglês) que Joel Achenbach publicou na quinta-feira passada no “Washington Post”, sobre o futuro das narrativas longas na era digital: Para entender a mágica da narrativa, é preciso refletir sobre o surgimento no Japão dos “romances de celular”. Trata-se de romances escritos num teclado de celular. O leitor o baixa tela por tela. Os japoneses, sempre tecnófilos, andam lendo seus telefones do modo como os ocidentais costumavam ler o jornal diário. Há duas formas de encarar a situação. Uma é fazer da engenhoca eletrônica a estrela de uma história heróica chamada “A mídia cambiante”. Novos aparelhos podem fazer qualquer coisa! Não apenas põem você em contato com os amigos, mas também armazenam seu álbum de fotos, informam a latitude e a longitude e escrevem romances fabulosos. Mas outro modo de descrever a situação é dizer que não se pode abafar uma boa história. A história, não o aparelho, é que…

Crimes suecos, crimes brasileiros
NoMínimo / 30/10/2009

Por que não temos uma tradição de escritores dedicados à ficção policial? Logo o nosso país, com sua espiral incontrolável de violência urbana e enredos de crimes de fazer inveja às mentes mais febris. Tantos que basta esticar a mão e colher as histórias como se brotassem em árvores. Pode ser por isso? A gratuidade daquilo que permeia nosso cotidiano afastaria nosso interesse? As perguntas são feitas por Paulo Lima num artigo de anteontem para o site “Caos e Letras”. Na infinita câmara de eco da internet, uma resposta vem hoje de Londres, no ensaio de Nathalie Rothschild sobre o sucesso planetário do sueco Stieg Larsson, publicado no site “sp!ked” (em inglês, acesso gratuito): Talvez seja precisamente a força da imagem da Suécia como uma sociedade civilizada, democrática, igualitária e pacifista – uma boa menina situada imediatamente a oeste do antigo bloco oriental – que dá a seus autores de ficção policial, muitos dos quais se tornam best-sellers internacionais, seu apelo. Quanto mais calma a superfície, mais poder têm as revelações de suposta sordidez fervilhando abaixo dela. Um raciocínio parece confirmar o outro, mas será isso mesmo? Sabendo que questões desse tipo nunca têm uma resposta única e simples, Lima…

Três endereços
NoMínimo / 27/10/2009

Duas estréias recentes ajudam a elevar o QI médio da internet brasileira em seu maltratado departamento cultural: os novos sites da editora Cosac Naify, que inclui um blog bastante esperto, e do Instituto Moreira Salles. E já que estamos nesse assunto, o também noviço blog da “New York Review of Books” é outro que vale uma visita.

A cidade imaginária de Marlowe
NoMínimo / 23/10/2009

– Toca pra oeste – disse ela – passando por Beverly Hills e em frente. Engatei a primeira e dobrei a esquina para seguir rumo ao sul até Sunset. Dolores sacou um de seus longos cigarros marrons. – Você trouxe uma arma? – perguntou. Descubro na “Paris Review” Daylight noir: Raymond Chandler’s imagined city, livro da fotógrafa Catherine Corman sobre a Los Angeles do escritor, legendado por trechos das histórias de Philip Marlowe. O prefácio é de Jonathan Lethem.

Quando tudo parecia perdido…
NoMínimo / 19/10/2009

Achei “Cordilheira”, de Daniel Galera, um romance apenas correto – o que alguém poderia argumentar que não é pouco, e não é mesmo. Mas Paulo Polzonoff gostou muito mais. E assim começa finalmente, após longa espera e com menos semanas restantes em 2009 do que partidas na programação, mais uma edição da Copa de Literatura Brasileira.

E-book à moda alemã
NoMínimo / 16/10/2009

Como se esperava, o livro digital é a grande estrela da Feira de Frankfurt – se não em vendas de direitos (o setor corresponde a apenas 1% do mercado livreiro dos Estados Unidos, país onde está mais avançado), pelo menos como centro das atenções do setor. É o que se conclui lendo a cobertura que o evento recebeu até agora. Com exceção do leilão pelos direitos de um livro que reunirá os apontamentos e diários que Nelson Mandela colecionou a vida inteira, a ser lançado ano que vem com o título “Conversas comigo mesmo”, nenhum livro propriamente dito tem rendido tantas notícias e comentários na internet quanto o futuro do livro digital. Os gigantes do setor contribuem para isso. A Amazon programou o lançamento internacional do Kindle para a véspera de Frankfurt – sobre isso, vale a pena ler a entrevista de Jeff Bezos na “Veja” desta semana. E o Google esperou a feira começar para anunciar a criação, ano que vem, do Google Editions, uma plataforma de venda de e-books no atacado com um número de títulos entre 400 mil e 600 mil (a Amazon tem hoje 330 mil). Em compensação, o Google levou um puxão de orelhas de…

Duas capas para ‘Lolita’
NoMínimo / 14/10/2009

Um concurso internético de melhor proposta de capa para “Lolita” (obsessivo, eu?), com 155 inscrições de 34 países, teve como vencedora a proposta à esquerda, de uma designer búlgara, que inova ao transferir o foco da ninfeta para Humbert Humbert, o tiozão – provavelmente um sintoma de nossos tempos politicamente corretos, ao recusar o ponto de vista do narrador papa-anjo para contemplá-lo de fora. Mas a derrota do criativo quase-abstracionismo da capa à direita, de uma designer de Cingapura, provocou alguns protestos online. Que eu, aliás, subscrevo inteiramente.

A inveja que move o mundo
NoMínimo / 13/10/2009

Quando Kelly de Souza, repórter da revista da Livraria Cultura, me procurou (e a outros escritores brasileiros) para perguntar que livro eu gostaria de ter escrito, não imaginei que aquilo fosse dar numa matéria tão interessante.

Frankfurt digital
NoMínimo / 12/10/2009

Sem mudar de assunto: a Feira de Livros de Frankfurt, o mais importante supermercado mundial de direitos literários, que começa depois de amanhã, também está preocupada com o livro digital: Metade dos profissionais do setor entrevistados pelos organizadores da feira estimou que a venda de livros digitais em 2018 será maior do que aquela de edições baseadas em papel. Os editores estão tentando descobrir um modo de ganhar dinheiro com a tendência, uma vez que muitos internautas já se habituaram a baixar conteúdo de graça.

Calma: o Kindle vai salvar os livros
NoMínimo / 10/10/2009

Dois dias seguidos, duas cidades distantes cultural e geograficamente, e a mesma preocupação: o Kindle – ou um similar – vai matar o livro (de papel)? Falando na Feira de Livros do Sesc Paraná, em Curitiba, quinta-feira de manhã, e na Bienal do Livro de Pernambuco, em Recife, ontem à noite, encontrei a mesma dúvida, a mesma angústia. E me espantei um pouco de descobrir o quanto essa questão não me preocupa. Sim, estamos vivendo um momento de transição profunda nas formas de ler, escrever e veicular literatura. Sim, ninguém que seja minimamente ponderado pode se gabar de saber onde isso tudo vai dar. Mas uma coisa, à medida que eu tratava de improvisar respostas tateantes à preocupação do público, foi me parecendo cada vez mais clara: aqueles que temem uma revolução completa no formato do livro tradicional deveriam ver os e-readers como aliados, não como inimigos. Se a internet, com seus recursos de som, imagem, busca e interatividade, tem o potencial – ainda não realizado – de levar a narrativa a um hibridismo tridimensional em que provavelmente já não caberá falar de “literatura”, os Kindles e semelhantes trabalham no sentido contrário, o de preservar as formas literárias que nos…

Nobel para Herta Müller
NoMínimo / 08/10/2009

A vitória da ficcionista e poeta alemã (de origem romena) Herta Müller significa que, por dois anos seguidos, o Nobel de Literatura é concedido a um escritor premiadíssimo, respeitadíssimo, mas de reduzida projeção internacional, daqueles que pouca gente leu. Ano passado, para quem não se lembra (e é mesmo fácil esquecer), o ganhador foi o francês J-M.G. Le Clézio. Essa ignorância não é exclusiva de um Brasil periférico, onde apenas dois livros da autora são encontráveis: “O compromisso”, lançado recentemente pela Globo com tradução de Lya Luft, e o já remoto (de 1993) “O homem é um grande faisão sobre a Terra”, da editora portuguesa Cotovia. No site do Nobel, até este momento, uma enquete sobre quem já leu Herta Müller tem o resultado parcial de 92% x 8% a favor do não. A repetição desse padrão por duas edições seguidas é uma novidade nos últimos anos. Doris Lessing (2007), Orhan Pamuk (2006), Harold Pinter (2005), Elfriede Jelinek (2004) e J.M. Coetzee (2003) compõem uma galeria com a qual o público, na maioria dos casos, pode se relacionar. Talvez o Nobel, depois de brigar explicitamente com a literatura americana no ano passado, não queira ser pop – o que pode…

Vou ali e já volto
NoMínimo / 21/09/2009

Como a disputa agora é séria, e só elegeremos o melhor começo inesquecível de todos os tempos uma vez, que tal deixar a votação (no post abaixo) rolando por duas semanas? É o tempo que o Todoprosa vai tirar de folga. Dia 7 de outubro eu volto a atualizá-lo. Abraços a todos e até lá.

Na Bienal
NoMínimo / 19/09/2009

Esta é só para os leitores do Rio: amanhã, domingo, último dia da Bienal do Livro, estarei no Café Literário às 17h para falar, ao lado de Carlos Heitor Cony, sobre o tema “A política entre a ficção e a realidade” – no meu caso, leia-se “Elza, a garota”; no de Cony, leia-se uma obra inteira e, de forma mais diretamente ligada ao mote político, “Pessach: a travessia”. Quem quiser aparecer será muito bem-vindo. A mediação ficará por conta de Marcelo Moutinho.

À moda do Zózimo
NoMínimo / 17/09/2009

E a relação dos finalistas do Portugal Telecom, hein? Nos seis anos de existência do galardão (os quatro primeiros, é verdade, em âmbito apenas nacional), só um português – o luso-angolano Gonçalo M. Tavares, em 2007 – ganhou o primeiro prêmio. Tem muita gente apostando que chegou a hora de equilibrar um pouco mais o jogo.

Potterlândia
NoMínimo / 16/09/2009

O gigantesco parque temático de Harry Potter que abrirá ano que vem em Orlando, na Flórida, leva o blogueiro Alison Flood a especular (em inglês, acesso gratuito) quais as outras obras literárias que mereceriam essa glória mundana – ele fala de C.S. Lewis e de Stephenie Meyer, tudo meio óbvio. Gostei mais quando aquele estranho parque temático de Dickens inaugurado na Inglaterra há dois anos – comentado na época aqui – inspirou em colegas blogueiros fantasias irônicas como a de um aterrorizante Castelo de Kafka. É engraçado imaginar por dois minutos o tipo de empreendimento paraliterário do gênero que poderíamos ter no Brasil se houvesse por aqui mais dinheiro para gastar/apreço pela literatura/paixão por parques idiotas – sei lá qual é a melhor alternativa. Exercício para mentes desocupadas? Provavelmente sim. Mas que parece um desperdício nunca termos podido visitar o Sítio do Picapau Amarelo, comprar um potinho de purpurina com a marca Pirlimpimpim e almoçar uma galinha ensopada no Tia Nastácia, isso parece. (Sim, dizem que aquele que existe em Taubaté é simpático, mas parece estar mais para Museu Lobato, filho ilustre da terra, do que para parque temático.)

Se imprimissem a internet inteira…
NoMínimo / 15/09/2009

…numa única impressora a jato de tinta, o trabalho levaria 3.805 anos e produziria uma pilha de papel de 544 mil toneladas; e outros números igualmente inúteis – aqui.

Esse seu cachorro, não sei não…
NoMínimo / 11/09/2009

“Seu cachorro é gay?”, “Guerra nuclear: o que você pode ganhar com ela”, “Torne sua casa à prova de bombas”, “A vagina mal-assombrada” (“É difícil amar uma mulher cuja vagina é um portal para o mundo dos mortos”, diz a apresentação), “Caixões: faça você mesmo”, “Origami de toalha”, “A termodinâmica da pizza” e o sensacional “Como sobreviver a uma revolta dos robôs” (foto ao lado) são alguns dos títulos disponíveis na recém-criada seção de livros esquisitos do sebo online AbeBooks.com. Vale fazer uma visita com calma. (Via blog de livros do Guardian.)

Oficinas literárias, a discussão do ano
NoMínimo / 08/09/2009

Para quem nunca estudou letras nem gostou de ler crítica, é a chance de ter contato, mesmo que resumido, com as principais técnicas, discussões e correntes da história da literatura. Parece burocrático, mas evita a tentação de reinventar a roda. (…) Para quem está ansioso por mostrar seu trabalho, é a chance de evitar jogá-lo sem filtro num blog ou livro pago do próprio bolso, o que no futuro será fonte de culpa e horror. (…) oficina não dá talento a ninguém, e sim melhora a técnica, que é o instrumento para levar o talento à página em branco. Não imagino como possa acontecer o contrário, isto é, as aulas castrarem o potencial de alguém. O escritor gaúcho Michel Laub, que lançou este ano o romance “O gato diz adeus”, é freqüentemente citado como argumento vivo em defesa das oficinas literárias por ter passado, como Cintia Moscovich e Daniel Galera, pelas aulas de Assis Brasil. Agora ele verbaliza o argumento e o desdobra em dez partes, nesta lista sensata publicada pelo jornal “Zero Hora” e republicada em seu blog. Nunca passei por oficina nenhuma, mas tendo a concordar com tudo ou quase tudo. Bom motivo para soprar as brasas da…

Uma revista F…
NoMínimo / 04/09/2009

Na primeira missa do dia, ouviu o coro entoando o mais estranho dos latinórios: Membrum virile, mulier super virum, vas naturaaaalis… Vas prepooosterum! A voz de Alfombra ficou martelando em seus ouvidos as obscenidades extraídas de autos brutais pelo resto da manhã. Ocorreu-lhe a certa altura que o gordo ancião trocaria de bom grado uma galeota repleta de tonéis de vinho verde pelas confissões encadernadas em letra de fôrma. Vas prepooosterum! Lembrou-se que na noite anterior sonhara com Santo Agostinho, um Santo Agostinho invertido que começava a vida impoluto e a terminava se esbodegando em todas as orgias. No fim, Frei Alfombra o passava no espeto. Havia um outro condenado, Glauceste. Antes de marchar para a fogueira, o grande árcade soprara em seu ouvido: – É esta a nobre causa, Simão! Presta atenção: é esta a verdadeira Inconfidência! A edição F – isto é, a sexta – da bela revista de contos trimestral “Arte e Letra: Estórias” (96 páginas, R$ 18,50) traz um conto inédito meu, “Vas preposterum”, uma fantasia cívico-pornográfica ambientada em Vila Rica no tempo da Inconfidência Mineira. Lá estou na excelente companhia de, entre outros, William Faulkner, Antonio Tabucchi, Arthur Conan Doyle, Ryûnosuke Akutagawa, Luiz Vilela e…

O samba do bibliotecário doido
NoMínimo / 02/09/2009

O que os livros “A condição humana”, de André Malraux, “Killer in the rain”, de Raymond Chandler, “Christine”, de Stephen King, e “The complete shorter fiction”, de Virginia Woolf, têm em comum? Foram todos lançados no ano de 1899, segundo o Google Book Search. Onze anos depois de “A fogueira das vaidades”, de Tom Wolfe. E o pior é que esse tipo de disparate está muito longe de ser raro na Biblioteca Universal do Google, que chega a extremos bibliográficos hilariantes como o de classificar uma edição de “Moby Dick” na rubrica Computação – informa Geoffrey Nunberg em artigo (em inglês) publicado pelo “Chronicle of Higher Education”. Sim, em breve todo o conhecimento produzido pela humanidade estará online. Resta saber a que preço. (Via Arts & Letters Daily.)

O alto, o baixo e o preguiçoso
NoMínimo / 01/09/2009

Vejam Cormac McCarthy, que por anos parecia ser o mais velho modernista vivo em cativeiro, mas que inaugurou sua fase madura com um romance sobre um serial killer e o seguiu com uma obra de ficção científica apocalíptica. Vejam Thomas Pynchon – em “Inherent vice”, ele trocou suas pesadas acrobacias verbais de sempre pela estrutura mais manejável de um romance de detetive hard boiled. Esse é o futuro da ficção. O romance está finalmente despertando de um cochilo de pedra de cem anos. As velhas hierarquias de gosto estão desmoronando. Os gêneros se hibridizam. A balança do poder está deixando de pender para o escritor e voltando para o leitor, e pactos com o gosto do público vão sendo feitos por toda parte. O lirismo está em declínio, enquanto o suspense, o humor e o ritmo se livram de seus estigmas e assumem o lugar de tecnologias literárias centrais do século 21. De objeto de arte solene e hermético, o romance vai desabrochando em algo mais aberto e casual: uma literatura do prazer. Os críticos terão que acompanhar a mudança. Essa nova linhagem de romances é resistente à interpretação, mas não da forma como a escola modernista era. São livros…

E aquela história esquisita com a mãe, hein?
NoMínimo / 26/08/2009

“Édipo Rei” – Cotação média dos leitores: Quatro estrelas. Sófocles é um autor satisfatório que escreve numa prosa clara e ágil. Os jovens em especial podem aprender bastante imitando o Sr. Rei, até o momento em que ele sai um pouco dos trilhos perto do fim. Nada que vá fazer o chão tremer, mas a coisa tem tutano. Devo admitir que ainda estou meio confuso com a subtrama bizarra envolvendo a mãe do Sr. Rei. O satirista americano Joe Queenan consegue alguns momentos divertidos ao imaginar, no Wall Street Journal (em inglês, acesso gratuito), como seriam as resenhas de certos clássicos se em sua época já existissem os leitores da Amazon. Nada que vá fazer o chão tremer, mas… (Via Arts & Letters Daily.)

O Kindle é verde?
NoMínimo / 25/08/2009

Com este argumento eu ainda não tinha esbarrado: uma pesquisa (em inglês) sustenta que os leitores digitais de livros têm o potencial de reduzir as emissões de dióxido de carbono em quase 10 milhões de toneladas nos próximos três anos.

Começos (ainda) inesquecíveis: E.L. Doctorow

Ninguém tomava ao pé da letra as coisas que Martin Pemberton dizia; ele era melodramático demais, ou atormentado demais, para falar sem floreios. Por isso as mulheres o achavam atraente – viam-no como uma espécie de poeta, embora ele fosse mais crítico do que poeta, um crítico de sua própria vida e época. Assim, quando Martin começou a dizer que seu pai ainda estava vivo, nós que o ouvíamos falar e nos lembrávamos de seu pai tínhamos a impressão de que ele estava se referindo à persistência do mal, em termos gerais. Alguém, creio que Don DeLillo, já disse que o segredo da literatura está no modo como se enfileiram palavras, o resto é secundário. O que sugere um paradoxo: o que há de mais “profundo” na escrita estaria logo ali na superfície, numa combinação de sinais gráficos que leva o leitor a submergir naquilo – ou ir embora. O primeiro parágrafo de “A mecânica das águas”, do escritor americano E.L. Doctorow (Companhia das Letras, 1995, tradução de Paulo Henriques Britto), é um ótimo exemplo de como pode ser poderoso esse negócio de uma-palavra-depois-da-outra. Publicado em 1/5/2007.

Lendas etimológicas: Coitado
NoMínimo / 22/08/2009

A associação de palavras é um jogo curioso. De repente, surfando a onda dos debates exasperados sobre “judiar” e “denegrir”, são muitos os leitores que me perguntam ao mesmo tempo sobre “coitado”. Não chego a entender bem por que isso acontece, o fato é que a palavra se impõe. Querem saber se é verdade que vem de coito, cópula, e significa em sua origem “submetido a coito, fodido”. Não, não é verdade. Não encontrei em autor algum essa ligação, que tudo indica ser mais uma das lendas etimológicas que vicejam por aí. Reconheça-se que é uma das mais tinhosas: parece fazer o maior sentido, mas só parece. Coito vem de uma forma nominal do verbo latino coire – ir com, engajar-se em sexo com – que encontra eco numa expressão ainda popular como “ela vai com qualquer um”. Coitado, por seu turno, é só o particípio do verbo coitar (fazer sofrer, atormentar), hoje em desuso, descendente do latim vulgar coctare e inteiramente desvinculado de coito. É o que juram os sábios. Às vezes me sinto meio estraga-prazeres. Publicado no “NoMínimo” em 28/11/2005.

Uma criança no Inferno
NoMínimo / 21/08/2009

Devo a uma repórter que teve recentemente a desfaçatez de me fazer uma pergunta batida – “Qual foi o primeiro livro inesquecível da sua vida?” – o retorno de uma memória poderosa que se encaixa bem na discussão que andou rolando na caixa de comentários do último post, sobre a importância da embalagem e dos apelos extraliterários na descoberta dos livros. Porque foi exatamente isso, uma descoberta, o que eu fiz quando, aos sete anos de idade, decidi subir numa cadeira para alcançar aquele portentoso volume de capa dura na estante de meus pais, chamado “A Divina Comédia”. Calma, não vou dizer aqui que li Dante aos sete anos. Imagino que tenha no máximo passado os olhos pelas palavras, sem nada entender. O que me fisgou – e me fez voltar repetidamente ao livro, anos a fio – foram as ilustrações do francês Gustave Doré (1832-1883), principalmente as do Inferno. O Inferno de Dante segundo a visão gótica e romântica de Doré revelou aos meus olhos um território estonteante de terror e sensualidade. Imagino que o impacto não seria o mesmo para as crianças de hoje, com seu acesso mais ou menos livre a imagens fortes, mas, naquele finalzinho dos…

Os ventos uivantes do Zeitgeist
NoMínimo / 19/08/2009

Descubro no blog de livros do Guardian esta capa para uma nova edição de “O morro dos ventos uivantes”, de Emily Brontë, inspirada – para usar um termo gentil – na estouradíssima série de livros de vampiros para adolescentes de Stephenie Meyer, “Crepúsculo”. E para não deixar ninguém em dúvida, um aviso em letras brancas sobre um disco vermelho logo na capa explica que se trata do “livro preferido de Bella e Edward”, heróis da série. São os ventos uivantes do marketing, paciência. Por enquanto, não tem graça. Mas imagino que seja de rolar de rir daqui a uns tantos anos, quando (suponho ou torço?) os livros de Meyer estarão completamente esquecidos e o de Brontë, não.

Vai uma regra aí?
NoMínimo / 18/08/2009

No ‘Para escrever’ de Luiz Antonio de Assis Brasil, a terceira regra básica é a seguinte: “Usar material de primeira qualidade: bom computador, bom papel de impressão, bons cadernos (sugiro o Moleskine), boas canetas, bons lápis”. Leia outra vez, por favor. Em outras palavras, preciso ter muito dinheiro para escrever, uma vez que tudo que foi listado aí custa caro (um Moleskine custa em torno de uns 50 reais). Não posso, por exemplo, escrever no meu caderno da extinta Papelaria União?! Ou na minha caderneta Tilibra?! * No ‘Para escrever’ de Marcelino Freire, a quinta regra básica é esta: “Ler e beber muito. E, no mais: viver”. Tudo bem quanto a ler muito. Mas e “beber muito”?! Beber água?! Coca-cola?! Chá?! Não. Acredito que “beber muito” se refira beber muita cerveja, vodka, tequila e etc. E “viver”?!. Até onde eu saiba nenhum morto é capaz de escrever. Viver é experimentar a vida?! Viver e “beber muito” estão, quase com certeza, relacionados a uma imagem de escritor junkie/beatnik/freak. A reportagem (só para assinantes) sobre a onda das oficinas literárias publicada pelo caderno Mais! da “Folha de S.Paulo”, domingo agora, provocou o comentário acima no blog Pesa-Nervos. De fato, as “regras básicas”…

Começos (ainda) inesquecíveis: Sérgio Sant’Anna

Entre todas as histórias possíveis, certamente já terá acontecido alguma como esta. Um rapaz de dezessete anos, viciado em drogas (já chegou a roubar e prostituir-se para comprá-las) e com pretensões rimbaudianas a poeta maldito, tem um ciúme doentio da mãe divorciada, principalmente de um caso que ele desconfia que ela mantém com um homem muito mais jovem. Uma noite, a vê chegar em casa parecendo ligeiramente alegre de bebida, e com ares de quem veio de um encontro amoroso, usando uma blusa decotada e saia justa. Enquanto ela se despe em seu quarto, ele ali entra, abruptamente, vestido apenas com uma bermuda, e observa o sutiã vermelho e a calcinha preta que ela usa. – Isso é roupa de vagabunda. – Não fala assim da sua mãe. Ele puxa o corpo dela para si e o aperta: – Quem sabe você faz comigo também? E já que a seção entrou definitivamente na era do conto, aí vai o início do espantoso Um conto nefando?, um dos mais surpreendentes do excelente “O vôo da madrugada” (Companhia das Letras, 2003), de Sérgio Sant’Anna. Publicado em 7/11/2007.

Pulp Holmes
NoMínimo / 13/08/2009

Não é bacana essa edição pulp de um livro de Sherlock Holmes – “O vale do medo”, o último da série estrelada pelo detetive mais famoso da literatura – que será lançada em dezembro (em inglês, acesso gratuito) por uma editora popular americana? Para o comprador potencial não perceber que se trata de uma obra do “embolorado” Arthur Conan Doyle, que tem um certo ranço de clássico, o autor virou A.C. Doyle. A arte dispensa apresentações. Fiquei pensando se um truque parecido não poderia ser usado por aqui para vender, sei lá, “Grande sertão: veredas”, de J.G. Rosa, em bancas de jornal. Na capa, a fumaça dos clavinotes deixaria entrever, ao fundo, uma silhueta feminina tomando banho de rio. Sob o título, algo bem kitsch como: “O diabo lhe deu poder. Ela só queria lhe dar amor”. Ou coisa parecida. Sugestões são bem-vindas.

Ao internauta pára-quedista que atira antes de perguntar
NoMínimo / 12/08/2009

Está certo, você veio parar aqui por acidente. Estava atrás de Roberto Bolaños, um artista mexicano plural mais conhecido como Chaves, e ficou furioso ao saber que o tema era um tal de Roberto Bolaño, escritor chileno singular. Acontece – o armazém da internet tem prateleiras infinitas e nem sempre a sinalização ajuda. Conheço um sujeito que andava à procura de artigos sobre Francis Bacon, o filósofo, e vivia caindo em páginas sobre a Perdigão. A diferença é que ele nunca culpou a banha de porco por seus infortúnios. O assunto aqui é literatura, desculpe. Isso não quer dizer que o blogueiro e seus leitores não tenham outros prazeres na vida. Sei que parece difícil de acreditar, mas a grande maioria de nós trepa, vê séries de TV americanas, ouve música, vai ao cinema e até – sim, eu juro – tem paixão por algum time de futebol. Acontece que, como o fornecimento dessas mercadorias já é farto em outras bibocas da rede, há quem prefira investir neste nicho exótico. Não existem comunidades inteiras dedicadas à podolatria? À volta de D. Sebastião? À arte de cultivar maná-cubiu? Pois então. Esquisitices. Não fazemos por mal. Ninguém o julgará uma besta apenas…

‘Sobrescritos’, o livro, vem aí
NoMínimo / 11/08/2009

Sabe os “Sobrescritos”, aquela sessão deste blog em que pequenos contos ou crônicas ou rabiscos de gênero indefinido têm sempre como tema central o ato de escrever e seus periféricos – como ler, publicar, criticar, embolachar o crítico, fazer pose, iludir-se, desiludir-se, cortar os pulsos etc.? Pois é: uma reunião dos 40 melhores “Sobrescritos” desses quase três anos e meio do Todoprosa vai ser lançada em breve naquele engenhoso formato vintage conhecido como livro, com projeto gráfico bacana, pela pequena – mas cada vez maior – Arquipélago Editorial, editora gaúcha comandada pelo Tito Montenegro. Aguardem mais notícias. (A propósito: a Arquipélago está lançando neste momento o aguardadíssimo “O pai dos burros”, dicionário de lugares-comuns do jornalista Humberto Werneck.)

Começos (ainda) inesquecíveis: Elmore Leonard

– Ele está fotografando há três anos, dá só uma olhada no trabalho – disse Maurice. – Aqui, esse cara. Repara na pose, na expressão. Quem ele te lembra? – Parece um pilantra – disse a mulher. – Ele é um pilantra, o cara é um cafetão. Mas não é disso que eu estou falando. Aqui, essa. Dançarina de cabaré nos bastidores. Te lembra alguém? – A garota? – Dá um tempo, Evelyn: a foto. A sensação que o cara captura. A garota tentando parecer adorável, exibindo a mercadoria, que aliás não é nada má. Mas repara no camarim, nas tralhas brilhosas todas, essa pobreza de papel laminado. – Você quer que eu diga Diane Arbus? – Eu quero que você diga Diane Arbus, isso seria bem legal. Eu quero que você diga Duane Michaels, Danny Lyon. Eu quero que você diga Winogrand, Lee Friedlander. Quer voltar alguns anos no tempo? Eu gostaria muito que você dissesse Walker Evans também. – Seu velho chapa. – Muito, muito tempo atrás. Antes até do seu tempo. Não sei por que o diálogo que abre “LaBrava”, de Elmore Leonard, que li há uns vinte anos, nunca me saiu da cabeça – nem todo…

V. de voz
NoMínimo / 06/08/2009

E por falar em inutilidade (do tipo divertido, é claro): andam provocando comoção os rumores de que a voz que narra em off o vídeo promocional do novo livro de Thomas Pynchon, Inherent Vice, é do próprio reclusíssimo autor. A editora Penguin e a produtora do vídeo não negam nem confirmam. Hmmm, quem sabe? Mas que parece o João Ubaldo, parece.

O operador de retroescavadeira
NoMínimo / 05/08/2009

Não sei se os leitores habituais do blog terão percebido, mas o acaso produziu um efeito interessante por aqui no fim da semana passada. O post de sexta-feira, a propósito de um episódio de Twilight Zone, falava de uma certa atmosfera pesada de antiintelectualismo que sobrevive no Brasil. E os comentários deixados por vários leitores no post de sábado – que não pretendia ter nada a ver com o peixe, limitando-se a examinar certas curiosidades vadias sobre a origem do adjetivo “crasso” – trataram de ilustrar o anterior. A ira despertada em alguns leitores – em geral desavisados que caem aqui atraídos por uma chamada na capa do portal – pelas questões de língua e linguagem abordadas na seção “A palavra é…” é uma velha conhecida. “Inútil” costuma ser o qualificativo mais brando que esse tipo de texto lhes desperta. O que é compreensível, talvez: utilidade prática não é mesmo o forte da casa. Restaria esclarecer por que, a julgar pela virulência da reação, a croniqueta lingüística lhes parece mais “inútil” do que uma notícia sobre o pum que Miley Cyrus deu no táxi ou outras dessas informações que compõem 90% do show internético – mas deixa pra lá. A…

Sciascia, Zé Rubem
NoMínimo / 04/08/2009

(…) é evidente que ainda não se ressaltaram, conveniente e convincentemente, as qualidades que converteram a obra de Leonardo Sciascia em uma das mais importantes precursoras da profunda renovação da literatura policial ou romance negro que se produziu nas últimas décadas do século passado e que sobrevive até hoje. Às vezes, aliás, nem se recorda que, ao lado de autores como o brasileiro Rubem Fonseca e o americano Donald Westlake (em seu momento literariamente distantes entre si, mas conectados pelas exigências da época e o esgotamento de um certo tipo de escritura), Sciascia foi um dos encarregados de estabelecer, na década de 1960, os pressupostos estéticos e sociais do que seria a revolução conceitual que acabaria por conferir um caráter literário e social indiscutível à narrativa policial. Foi uma surpresa agradável ver que, fazendo no “Babelia” do último sábado uma defesa do excelente Leonardo Sciascia, seu xará Padura – um autor cubano de quem li apenas o bom “Adeus Hemingway”, daquela coleção Literatura ou Morte da Companhia – acaba por trazer de cambulhada em sua vindicação um velho conhecido nosso.

Começos (ainda) inesquecíveis: Campos de Carvalho

Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. E já que mencionei a sisudez da literatura contemporânea, aí vai o supra-sumo do contrário: o primeiro parágrafo do romance “A lua vem da Ásia”, lançado pelo grande Campos de Carvalho (1916-1998) em 1956 (José Olympio, Obra reunida, 2a. edição, 1995). Publicado em 10/2/2007.

Além da imaginação, ao alcance da memória
NoMínimo / 31/07/2009

Revi dia desses, graças ao Torrent, depois de um quarto de século, um dos episódios que mais tinham me marcado na velha e brilhante série americana de TV Twilight Zone (“Além da Imaginação”) – uma paixão que compartilho com Molina, protagonista de meu último livro. O filmete de meia hora se intitula Time enough at last e conta a história de um caixa de banco chamado Henry Bemis, uma caricatura de rato de livraria com seus óculos fundo-de-garrafa e seu jeito de perfeito bundão. Bemis não quer nada desta vida além de ler, ler, ler, mas habita um mundo de antiintelectualismo exponencial, filisteu até a raiz e violentamente hostil ao seu prazer – basta dizer que sua mulher, que o trata como o maior dos fracassados, o proíbe de ler em casa. Para encurtar a história, o episódio acaba com Bemis sobrevivendo sozinho ao holocausto nuclear e se vendo, enfim, com tempo e calma para devorar todas as letrinhas do mundo. Pena que, antes de abrir o primeiro volume, seus megaóculos se espatifem no chão, deixando-o para sempre cegueta entre as infinitas pilhas de livros. Bom, o reencontro com a história deu naquilo que costuma ocorrer nesses casos: enxerguei defeitos…

A Copa de Paulo Coelho
NoMínimo / 29/07/2009

Para quem ainda não sabe: semana passada foi divulgada a lista dos concorrentes à terceira edição da Copa de Literatura Brasileira, um divertido – e ambicioso na medida inversa de sua pompa – prêmio literário em formato de torneio esportivo mata-mata que sempre mereceu a torcida deste blog. Este ano vai ser diferente: pela primeira vez não tenho envolvimento algum na Copa. Depois de estar entre os concorrentes do primeiro ano (meu romance “As sementes de Flowerville” chegou à semifinal) e entre os jurados na temporada seguinte (minha resenha levou “O dia Mastroianni” à final contra “O filho eterno”, que acabou campeão), agora estou na posição de simples torcedor. Uma boa posição. De fora é mais fácil parabenizar o organizador da CLB, Lucas Murtinho, por ter desistido de levar em conta o “voto popular”, que ano passado transformou alguns escritores em candidatos a vereador e chegou perto de estragar a brincadeira. É também mais tranqüilo elogiar a lista de concorrentes, um interessante recorte no universo de romances brasileiros publicados em 2008: “Acenos e afagos”, de João Gilberto Noll. “Areia nos dentes”, de Antonio Xerxenesky. “A arte de provocar efeito sem causa”, de Lourenço Mutarelli. “O conto do amor”, de Contardo…

O fator maçã
NoMínimo / 27/07/2009

Talvez o Kindle nem precisasse caprichar tanto na arte de atirar no próprio pé, afinal: o leitor eletrônico da Apple – sonho ou pesadelo de muita gente, dependendo de sua posição nesse mercado ainda bebê – está finalmente com lançamento marcado para o primeiro trimestre do ano que vem, segundo o site AppleInsider. Seria um tablete multifuncional com cara de iPod Touch gigante, na proporção da ilustração (não oficial) ao lado. Se a notícia for tão quente quanto sugere sua fonte e vier por aí mais um produto do nível do iPod ou do iPhone, muda tudo no mundo dos livros virtuais. Fica uma dúvida fundamental: caso a tela seja mesmo tão luminosa quanto sugere a ilustração – e não de e-ink, como a do Kindle, que parece papel e é mais propícia a leituras longas – a chance da Amazon crescerá muito.

Começos (ainda) inesquecíveis: Michel Laub

Publicado em 28/8/2007: Hoje o futebol está morto, e duvido que alguém ainda chore por ele, mas não era assim no dia 12 de fevereiro de 1989. “O segundo tempo”, de Michel Laub (Companhia das Letras, 2006), um dos bons livros brasileiros do [então] ano passado, tem uma frase inicial ainda melhor. Digna de antologia ou manual para escritores, ela consegue condensar em pouquíssimas palavras, com a falsa simplicidade que a ocasião exige, uma apresentação clássica de tom, tema e marcos temporais (de passado e presente) entre os quais se estenderá a corda da narrativa. Não falta ainda uma sutil estranheza – como assim, o futebol está morto? – que fica zumbindo ao fundo enquanto nos damos conta de que o defunto pode ser outro.

Lendas etimológicas: Forró
NoMínimo / 25/07/2009

O post de hoje é a junção de duas colunas publicadas no NoMínimo em 9 e 11/11/2005. A leitora Natalia Vale Asari pega uma carona no tema do sucesso que fazem as teorias “etimológicas” pitorescas para tratar de outra palavra, esta bem brasileira: forró. “A sua discussão sobre ‘etimologia romântica’ lembrou-me do acesso de fúria que o meu avô teve ao saber da produção de um filme chamado ‘For All’”, diz a leitora. “Ele adquiriu uma certa antipatia pelos estadunidenses que trabalharam na base militar em Natal e não admitia que essa crença de que ‘forró’ vinha de ‘for all’ estivesse se espalhando. Preferia acreditar na versão (mais plausível) de Câmara Cascudo, de que ‘forró’ vem de ‘forrobodó’. Enfim, qual das duas versões tem mais embasamento histórico?” A resposta está na própria mensagem de Natália. Para a maioria dos etimologistas, forró é simplesmente a forma reduzida de “forrobodó”, que significa “baile popular, arrasta-pé” e também “confusão, balbúrdia”. A intromissão de for all nessa história parece ser mais um caso de excesso de imaginação. E mais um, também, em que a versão engraçadinha suplanta em popularidade, com muitos corpos de vantagem, aquela que procura manter os pés no chão. * Alguns…

O curioso caso do Wiki-Hemingway
NoMínimo / 22/07/2009

Como autor, fico preocupado com o envolvimento da [editora] Scribner nessa “edição restaurada”. Com tal remodelação como precedente, o que fará a Scribner se, por exemplo, um descendente de F. Scott Fitzgerald exigir que seja removido de “Paris é uma festa” o capítulo sobre o tamanho do pênis de Fitzgerald, ou se o neto de Ford Madox Ford quiser suprimir as referências ao odor corporal de seu ancestral? O lançamento de uma nova versão de “Paris é uma festa”, livro de memórias de Ernest Hemingway, com muitos cortes e acréscimos feitos por um neto do autor em nome de uma suposta fidelidade maior às suas “intenções”, é demolido com método e fúria neste artigo (em inglês, mediante cadastro) publicado no “New York Times” por A.E. Hotchner. O articulista exibe a autoridade de quem recebeu o manuscrito pronto das mãos do próprio Hemingway no início dos anos 1960, pouco antes de sua morte. A motivação por trás da nova versão feita pelo neto, acusa Hotchner, é escusa e mesquinha – poupar a imagem da avó de comentários desairosos. Mas esse episódio de aparente stalinismo editorial rende um debate mais profundo do que parece à primeira vista. Não exige muita imaginação enxergar…

1984, 2009
NoMínimo / 21/07/2009

A notícia anda circulando por aí, sobretudo em sites de tecnologia, entre risinhos e estupefação, e deve circular ainda mais. A princípio pensei que fosse piada. Não é. Quem baixou – e pagou, e começou a ler – uma versão eletrônica de “1984”, de George Orwell, para o Kindle, levou um susto no fim da semana passada. Aparentemente, houve um mal-entendido entre o editor e a Amazon sobre o licenciamento da obra. O que levou a maior livraria virtual do mundo a, sem aviso prévio, entrar sorrateiramente no Kindle de seus consumidores, deletar o livro e depositar um crédito em sua conta. O mesmo ocorreu com “A revolução dos bichos”, também de Orwell. Bonito, não? Se a idéia era atrasar em um punhado de anos a confiabilidade do livro eletrônico, um golpe de gênio. Embora talvez meio forçado nesse paralelismo óbvio com o Big Brother. Não seria preferível ser mais sutil? Pensando melhor, claro que a história só podia ser verdadeira: como disse Mark Twain, por que a realidade não seria mais inverossímil que a ficção? A ficção, afinal, tem que fazer sentido.

Começos (ainda) inesquecíveis: Suzana Flag

– Você não vem? – Vou já, mamãe. Mas não foi: nem iria nunca. “Coitada de mamãe”, pensou, numa tristeza maior. D. Margarida não sabia, não desconfiava de nada. Se soubesse, se pudesse imaginar! Disse baixinho: “Daqui a pouco estarei morta”. E repetiu, como se custasse a acreditar: “Estarei morta”. Assim, com a morte rondando o seio da família, começam as peripécias rocambolescas de “Núpcias de fogo” (Companhia das Letras), o quarto folhetim escrito por Nelson Rodrigues com o pseudônimo de Suzana Flag. “O Jornal” publicou-o em capítulos em 1948. A primeira edição em livro só saiu em 1997. Publicado em 18/11/2006.

Procura-se…
NoMínimo / 17/07/2009

…um autor contemporâneo que não tenha sido premiado ou, para dizer o mínimo, indicado a alguma honraria da praça. Detalhes aqui.

O caminho do vale-livro
NoMínimo / 16/07/2009

Na Flip, o mexicano Mario Bellatin contou como, estudante de comunicação em Lima, lançou sua primeira obra: vendendo vale-livros (ricamente impressos) para amigos e conhecidos em nome de uma editora fictícia, a fim de financiar uma edição do autor. A parte surpreendente da história é o sucesso que a estratégia fez, botando Bellatin no mapa definitivamente. Achei curioso voltar de Parati e descobrir que o blogueiro Alex Castro – que não conhecia a história de Bellatin até eu mencioná-la – está tramando em esquema semelhante de pré-venda o lançamento de seu primeiro romance de papel, “Mulher de um homem só”, que já andou disponível em pdf no site do autor. A editora, a independente Os Viralata, não é exatamente uma ficção, mas o resto bate. Num tributo ao fetiche da celulose, que não dá o menor sinal de agonia em meio a toda a fanfarra virtual, os primeiros compradores terão seus nomes listados na edição. Fica a dica para quem quiser se lançar no mercado neste momento em que o apetite das grandes editoras por novos nomes, após a voracidade do início do século, vai se aproximando da anorexia.

Philip Roth na pista de dança
NoMínimo / 14/07/2009

Chico Buarque ganhou uma nova e ilustre companhia naquela estrada entre a literatura e a música. Philip Roth acaba de estrear como vocalista – ou ululador – nesta vinheta dance que está virando um sucesso cult na internet, produzida pelo crítico James Marcus a partir de um trecho de entrevista em que o escritor ridicularizou, ganindo, a adaptação cinematográfica de “O complexo de Portnoy”.

Começos (ainda) inesquecíveis: Raymond Chandler

O vidro martelado da porta tem um letreiro em tinta preta trincada: “Philip Marlowe…. Investigações”. É uma porta razoavelmente decadente no fim de um corredor razoavelmente decadente, num edificio do tipo que era novo ali pelo ano em que o banheiro com azulejo até o teto se tornou a base da civilização. A porta fica trancada, mas ao lado dela há uma outra, com letreiro igual, que não fica. Pode entrar – não há ninguém aqui além de mim e de uma enorme mosca varejeira. Mas não se você for de Manhattan, Kansas. O início de “A irmãzinha” (The little sister, The Library of America, tradução caseira), de Raymond Chandler, o grande estilista da literatura policial americana hard boiled, já devia ser inesquecível quando foi publicado pela primeira vez, em 1949. Ainda mais inesquecível se tornou, porém, depois que milhares de escritores mundo afora fizeram questão de lembrá-lo, lembrá-lo e lembrá-lo de novo, numa avalanche de imitações, sátiras, pastiches, glosas e homenagens que encheriam bibliotecas. Um processo de lugar-comunização tão avassalador que, a esta altura, estará desculpado quem preferir esquecer o inesquecível. É estranho pensar que nunca mais será possível ler esse parágrafo sem ouvir os ecos de suas palavras…

O imortal Bulwer-Lytton
NoMínimo / 10/07/2009

A frase escrita pelo Snoopy com tanta dificuldade no post abaixo – “Era uma noite escura e tempestuosa” – foi de fato usada, e a sério, pelo escritor vitoriano Edward George Bulwer-Lytton para abrir seu romance “Paul Clifford”, de 1830. O que lhe valeu a glória de batizar o famoso concurso anual de bad writing promovido pela Universidade de San Jose, na Califórnia, em que os participantes inscrevem “começos inesquecíveis” escritos, de propósito, com o maior número possível de clichês literários. Pois bem: o resultado do Bulwer-Lytton Fiction Contest 2009 acaba de sair e os vencedores podem ser lidos aqui – vai um trechinho traduzido do grande campeão: Dizem que se você apurar bem os ouvidos quando a lua cheia está no mais alto do céu, o vento sopra no Estreito de Nantucket vindo do nordeste e os cães uivam por nenhuma razão terrena, conseguirá ouvir os gritos terríveis da tripulação do Ellie May…

‘Coetzee hath spoken’
NoMínimo / 08/07/2009

Ele vai com seu pai a Newlands porque o esporte – rúgbi no inverno, críquete no verão – é o mais forte laço sobrevivente entre eles, e porque atravessou seu coração como uma faca, no primeiro sábado após seu retorno ao país, ver seu pai vestir o casaco e, sem uma palavra, sair na direção de Newlands como uma criança solitária. Seu pai não tem amigos. Ele também não, embora por razões diferentes. Tinha amigos quando era mais jovem; mas esses velhos amigos estão agora dispersos pelo mundo e ele parece ter perdido o jeito, ou talvez a vontade, de fazer novos. Assim, viu-se arremessado de volta a seu pai, e seu pai arremessado de volta a ele. Como vivem juntos, aos sábados se divertem juntos. É a lei da família. Atenção, coetzeemaníacos: o New York Review of Books – que resenha muito mais ficção do que a publica, mas nos últimos anos tem andado mais soltinho – antecipa um trecho (de onde traduzi os dois parágrafos acima) do próximo romance do homem, chamado Summertime, que sai em breve por lá.

Um balanço impressionista
NoMínimo / 07/07/2009

A Flip 2009 – que para mim e muita gente foi uma das melhores da série, logo atrás da edição de 2004 – vai começando a desbotar em contato com a realidade, que aliás não existe, como proclamou por lá um autor que agora não recordo. E se a memória, como sabemos, tem uma vontade própria e meio insondável na hora de decidir o que será guardado e o que será posto fora, não custa fazer um exercício de futurologia para tentar antecipar algumas cenas e ditos públicos que têm tudo para ficar arquivados anos a fio, em meio aos muitos prazeres de que o fim de semana prolongado foi cheio. Por exemplo: alguém chamando o debate-lavanderia entre a artista francesa Sophie Calle e seu ex, Grégoire Bouillier, de “Márcia Goldsmith na Casa do Saber” – perfeito. Ou o historiador inglês Simon Schama, sessentão alucinado, se escangalhando de dançar, com direito a longas sessões de air guitar, na festa promovida pelo portal Saraiva na Casa de Cultura, sábado à noite. A mesma festa em que Alex Ross, crítico de música clássica da “New Yorker”, arriscou um rebolado ao som de Sidney Magal. Mas talvez o melhor de tudo seja a…

O Lobo não é bobo
NoMínimo / 05/07/2009

Depois do discurso com certo ranço de ensaiado de Gay Talese, o português António Lobo Antunes pôs a Flip 2009 no bolso ontem à noite. Com o humor dos grandes mal-humorados e aquela marra que é só dele mesmo, lançou ao auditório abarrotado da Tenda dos Autores uma quantidade acachapante de boas tiradas, anedotas e epigramas. Foi impossível colher tudo, mas aí vão alguns: “Um bom livro se faz sozinho. Só o que você tem que fazer é tornar sua mão feliz. Se a mão está feliz, o livro sai fácil.” “Quem quer ser escritor deve ver dez minutos de Garrincha a jogar bola. Didi é a cabeça e Garrincha é a mão. Para escrever, você precisa ter Didi na cabeça e Garrincha na mão.” “Escrever é sobretudo corrigir e reescrever. Você tem que ter uma atitude muito humilde em relação ao material. A prosa tem problemas oficinais e técnicos muito grandes. É óbvio que isto é um ofício, como o de pedreiro ou cirurgião.” “Há livros que gosto de ler mas não gostaria de ter escrito: Gabriel García Márquez, Graham Greene, Simenon…” “Só tenho um lema ao escrever: impor a mim mesmo desafios impossíveis. A divisa de um escritor…

Mais jornalismo, por favor
NoMínimo / 04/07/2009

Observações avulsas num fim de tarde de sábado, enquanto Gay Talese não sobe ao palco: Cristovão Tezza e o mexicano Mario Bellatin fizeram uma mesa estranhamente desequilibrada ontem à tarde. O brasileiro, que veio à Flip a bordo de um veículo raro – um best-seller aclamado pela crítica – chamado “O filho eterno”, se viu escalado no papel de coadjuvante do convidado estrangeiro, uma figura certamente curiosa, com sua prótese em forma de falo no braço direito, para quem o mediador, Joca Reiners Terron, levantou cerca de 70% das bolas. Senti algum desequilíbrio também na mesa que Milton Hatoum e Chico Buarque dividiram ontem à noite. Neste caso, não por falta de balanço entre os dois, que mostraram entrosamento ao se acusarem mutuamente de plágio (brincadeirinha), mas por uma concentração excessiva das perguntas do mediador Samuel Titan Jr. em detalhes de concepção e feitura de seus livros. Sobriedade e gentileza demais podem atrapalhar. Nada se perguntou a Milton, por exemplo, sobre sua polêmica condenação dos blogs literários. Nem se procurou saber de Chico como encara as críticas de machadianismo pesado feitas à sua novela “Leite derramado”. Conclusão provisória, para a qual contribuem ainda as ótimas entrevistas feitas por Silio Boccanera…

Bernardo e Atiq: universais, nós?
NoMínimo / 03/07/2009

A química da mesa de Atiq Rahimi e Bernardo Carvalho, no fim da manhã de hoje, não foi das mais potentes. Mas houve um momento em que, discordando, o afegão-francês e o brasileiro, dois bons escritores, iluminaram uma questão interessante sobre a circulação de livros e idéias pelo mundo: “Não existe uma literatura universal”, disse Bernardo, autor de romances em que o elemento estrangeiro é crucial, como “Mongólia” e “O filho da mãe”. E explicou: “Existe uma guerra geopolítica de imposição de literaturas. Na China, onde estive antes de escrever ‘Mongólia’, não existe o menor interesse pela literatura brasileira. Acho que ela nem seria compreendida lá, caso fosse lida. Posso estar sendo pessimista, mas vejo cada vez mais uma política de fechamento, cada bloco cultural defendendo seus interesses.” Respondeu Rahimi, cujos relatos baseados em seu passado afegão encontraram excelente acolhida na França (Goncourt incluído) e em outras partes do mundo: “Não digo que todos os escritores do mundo escrevam da mesma forma, mas que todos somos seres humanos. Temos em comum nossos limites em relação à morte, à família, ao amor. Li ‘Os Miseráveis’ quando tinha 14 anos, quando não sabia nada da França, e foi uma revelação.” Dirigindo-se ao…

Os cabeçudos
NoMínimo / 03/07/2009

Richard Dawkins, entrevistado com muita competência por Silio Boccanera, foi – como estava programado – a grande atração de quinta-feira. Articulado e com aquela fala claríssima dos ingleses educados, Dawkins me surpreendeu pela serenidade com que expõe seus pontos de vista, bem diferente do estilo inflamado de Christopher Hitchens, por exemplo, com quem vem dividindo o palco de uma certa cruzada ateísta. Foi engraçado quando ele disse que o fato de os cérebros humanos terem crescido enormemente nos últimos três milhões de anos não significa que essa tendência evolutiva se manterá nos próximos três milhões de anos. “Para isso, seria necessário que as pessoas cabeçudas continuassem a ter mais facilidade de se acasalar do que as pessoas não cabeçudas, o que já não parece ser o caso”, disse. Não fora de Parati, pelo menos. Ah, eu tinha prometido mais notícias sobre a mesa “Verdades inventadas”? Tinha. Mas descubro agora que é impossível resenhar um evento do qual participei, a não ser para dizer que correu tudo bem, muito bem, e que o alívio que sobreveio foi comemorado com um Cohiba.

O calor, a baleia e a promessa
NoMínimo / 01/07/2009

Primeiro dia de Flip, e a melhor notícia – além de que as coisas estão funcionando conforme o previsto, tudo calmo no front – é a temperatura agradavelmente tropical que resistiu ao cair da noite, coisa inédita por aqui em minha experiência: normalmente, mal o sol se esconde, o inverno de Parati exige casacos e pulôveres imediatamente, por maior que tenha sido o calor durante o dia. Não foi o caso desta quarta-feira. O show de Adriana Calcanhotto, daqui a pouco, promete ser o primeiro da história da Flip a ser degustado em mangas de camisa. Um bom prenúncio – apesar das previsões de chegada de chuva pesada, que variam entre amanhã e sábado, agourarem ruas enlameadas e um certo mau humor generalizado. Mas no momento, sentindo a brisa morna que assovia na boca da baleia branca alegórica que domina a Praça da Matriz – e que a princípio eu achei que fosse Moby Dick, mas é a do Pinóquio, que branca não era – meu ceticismo em relação aos meteorologistas é invencível. Amanhã é dia de encarar o público, o que é sempre uma provação, mas a esta altura parece um preço justo a pagar. Acho promissora a mesa…

Ih, chegou a Flip!
NoMínimo / 30/06/2009

Amanhã de manhã estou indo para a Flip, minha quinta em sete anos. Esta é diferente para mim. Em 2004 trabalhei como mediador em duas mesas – a de Jeffrey Eugenides com Jonathan Coe e a de Luiz Vilela com Sérgio Sant’Anna – mas é a primeira vez que, como autor convidado, viro uma vidraça propriamente dita. Vou abrir mão da piadinha previsível sobre telhado de vidro e escassez capilar, mas não posso fugir da constatação de que isso mudará um pouco o jeitão da cobertura que os leitores do Todoprosa – como todo ano – encontrarão aqui. Para começo de conversa, a agenda de um convidado tem lá suas incompatibilidades com a de um blogueiro integralmente dedicado a produzir posts em série. O que importa é dar aqui a notícia de que o blog vai continuar aberto e funcionando, com pelo menos um post por dia, diretamente das ruas de Parati. Talvez se pareça mais com o diário de um autor na Flip do que com uma cobertura convencional, o que pode ser uma variação interessante no cardápio todoprosaico. Seja como for – e quem quiser suspirar de alívio, pode – não me vejo gastando muitas linhas para resenhar…

Começos (ainda) inesquecíveis: Javier Cercas

Foi no verão de 1994, já faz agora mais de seis anos, que ouvi falar pela primeira vez do fuzilamento de Rafael Sánchez Mazas. Três importantes acontecimentos tinham então acabado de se produzir em minha vida: meu pai havia morrido, minha mulher me abandonara e eu abandonara minha carreira de escritor. Minto. Dessas três ocorrências, as duas primeiras eram exatas, exatíssimas; a terceira não era tanto assim. Na verdade, minha carreira de escritor nunca decolou; portanto, dificilmente poderia tê-la abandonado. Grande parte do apelo do romance “Soldados de Salamina”, sucesso internacional do espanhol Javier Cercas (Francis, 2002, tradução de Wagner Carelli), está no seu jeito – despretensioso só na aparência – de alternar constantemente o foco entre a História (mundial) e uma história (pessoal). O efeito ganha profundidade ao longo de 240 páginas, com outro par de opostos – realidade e ficção – para complicar. As primeiras linhas do livro expõem todo o projeto como miniatura. Publicado em 10/12/2007.

Twitteratura
NoMínimo / 26/06/2009

Tenho 140 caracteres para lhes provar que minha mulher me traiu sordidamente com meu melhor amigo, depois passo à “História dos Subúrbios”. Dois calouros da Universidade de Chicago venderam para a Penguin a idéia de um livro chamado “Twitterature”, que vai recontar alguns dos maiores clássicos da literatura mundial “em vinte tweets ou menos”. Rapazes prolixos: por que não em um? Virei chefe de homens, Deus esteja. Sou pactário? Mas Diadorim depois que morreu era mulher, mire e veja, viver é muito perigoso. Travessia.

Críticos na mira
NoMínimo / 23/06/2009

O site canadense Revenge Lit está organizando um concurso de minicontos (em torno de 250 palavras) com um tema que muita gente vai considerar irresistível: escritores que matam críticos literários. Confesso que não é um desejo que um dia eu tenha entretido – nunca fui além do impulso devidamente refreado de uns cachações – mas pode ser uma iniciativa saudável. Não disse o tio Nelson que “o personagem é vil para que não o sejamos”?

Começos (ainda) inesquecíveis: Herman Melville

Me chamem de Ismael. Alguns anos atrás – não importa precisamente quantos – tendo pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e nada que me interessasse particularmente em terra firme, decidi navegar um pouco por aí e ver a parte aquosa do mundo. É um jeito que tenho de espantar a melancolia e regular a circulação do sangue. Sempre que me pego ficando amargo, mandíbula tensa; sempre que em minha alma se faz um novembro chuvoso e cinzento; sempre que me vejo detendo involuntariamente o passo diante de agências funerárias e seguindo a cauda de todo cortejo fúnebre que encontro; e especialmente sempre que minha hipocondria leva a melhor sobre mim de tal forma que só um forte princípio moral me impede de sair à rua e, deliberadamente e com método, aplicar murros na cara dos passantes – nesses momentos, sei que está na hora de me fazer ao mar o mais depressa possível. Há uma única e melancólica razão para que o início de “Moby Dick”, de Herman Melville, o começo mais “inesquecível”, citado e parodiado da literatura americana, tenha demorado quase dois anos para vir parar nesta seção: a insistência com que os tradutores brasileiros que conheço vertem a…

Desista se for capaz
NoMínimo / 19/06/2009

Que conselho o senhor daria a alguém que deseja dedicar-se à literatura no papel de escritor? Meu conselho-padrão, que muita gente acha que é piada mas é sério, costuma ser o seguinte: desista se for capaz. O mundo da literatura parece charmoso e tal, mas a verdade é que o jogo é muito duro e nem sempre leal, as recompensas são fugidias e as chances de fracasso – não só comercial, mas estético mesmo – estão todas contra você. Agora, se depois de considerar tudo isso o sujeito ainda for incapaz de desistir do seu plano maluco, então é escritor mesmo, e nesse caso todos os conselhos se tornam fúteis. Cada um tem que encontrar seu próprio caminho. Ler muito, ler tudo, e não ter pressa demais de publicar talvez sejam recomendações úteis. Arranjar um jeito de sustentar seu “vício” também me parece um bom toque. A menos que seja rico de berço ou de baú, um escritor deve ter outra profissão, sob pena de ser levado pela ânsia do profissionalismo a vender seus escritos cedo demais, tornar-se um marqueteiro juramentado ou sair à caça de bocadas estatais – e nada disso é muito saudável para aquilo que realmente importa,…

Cadê o Instituto Machado?
NoMínimo / 18/06/2009

O Brasil não está a fazer o que Portugal está a fazer, por exemplo. Portugal tem o Instituto Camões cujo objetivo é exatamente o de promover a língua portuguesa no mundo e o Brasil não tem nada equivalente. O Brasil, por exemplo, não dá apoio às traduções de seus autores no estrangeiro. Portugal tem uma política eficiente de apoiar tradução, apoiando inclusive autores africanos também e o Brasil não tem esta política. De vez em quando, a Biblioteca Nacional apoia uma ou outra tradução, mas não há uma política definida. O Brasil tem que fazer isso. O Brasil tem que entender que a cultura traz muito dinheiro ao país. (…) Tem que compreender que sua afirmação no mundo passa também pela afirmação da língua portuguesa e tem que criar estruturas de promoção da língua e tem que começar a apoiar seus escritores, seus cantores e seus músicos. Sei que ninguém gosta de ver um estrangeiro apontando mazelas aqui dentro, mas está certíssimo o escritor angolano José Eduardo Agualusa, em entrevista à Rádio ONU. É imperdoável a miopia oficial para ações de afirmação cultural num momento em que o Brasil, embalado pela onda BRIC, quer ser reconhecido como potência mundial. Faltam…

Autografa o meu Kindle?
NoMínimo / 17/06/2009

David Sedaris, o autor de “Veludo cotelê e jeans”, que já andou passeando em Parati, foi recentemente visto – e fotografado – autografando as costas de um Kindle a pedido de um leitor. O “New York Times” diz que isso não é tão incomum, apenas um sinal dos tempos. E Sedaris acrescenta que a experiência é tranqüila comparada à do jamegão que certa vez pespegou na perna mecânica de uma leitora. Fica por minha conta a suposição de que a moda de autografar Kindles pode até pegar, desde que o rabisco absurdamente analógico na superfície do maior símbolo da leitura digital seja também ele digitalizado como fotografia, antes de ser sugado pelos poros de um Perfex.

Começos (ainda) inesquecíveis: Italo Calvino

Não se sabe se Kublai Khan acredita em tudo o que diz Marco Polo quando este lhe descreve as cidades visitadas em suas missões diplomáticas, mas o imperador dos tártaros certamente continua a ouvir o jovem veneziano com maior curiosidade e atenção do que a qualquer outro de seus enviados ou exploradores. A primeira frase de “As cidades invisíveis”, obra-prima lançada em 1972 por Italo Calvino (Companhia das Letras, tradução de Diogo Mainardi, 1990), pode não parecer, em si, inesquecível. É preciso ler esse espantoso conjunto de relatos de viagem por cidades imaginárias para descobrir que é, sim. Publicado em 4/6/2007.

Herr Donald
NoMínimo / 12/06/2009

Como alguém que aprendeu a ler – literalmente – com o Pato Donald, nas revistinhas que lançaram as fundações do império Abril, gostei de saber (via Arts & Letters Daily) que a decadência cultural do sobrinho de Patinhas e de todos os habitantes de Patópolis não chegou à Alemanha, onde ele continua sendo um gigantesco ícone pop. Mais engraçado ainda é descobrir que a tradução tedesca sempre fez de Donald um pato culto dado a citações de Goethe e Schiller. Quack!

Duas penas e dois martelos
NoMínimo / 09/06/2009

Dois casos inteiramente desconectados levam a literatura aos tribunais. J.D. Salinger, o recluso autor de “O apanhador no campo de centeio”, está processando um escritor – aparentemente sueco, embora só se conheça seu pseudônimo, John David California – que escreveu um romance chamado 60 years later: coming through the rye. Programado para sair em breve na Inglaterra e nos EUA, o livro de California seria uma seqüência não autorizada da obra mais famosa do eremita de 90 anos, que há 45 não publica uma linha. A ação requer o “recolhimento e destruição” do livro. Na revista eletrônica “Slate”, Ron Rosenbaum especula, só meio a sério, se California não seria um pseudônimo do próprio Salinger, que estaria processando a si mesmo. Menos graça tem o caso em que a escritora gaúcha Leticia Wierzchowski, autora de “A casa das sete mulheres”, processa por danos morais o blogueiro Milton Ribeiro, que, bem no estilo do meio, andou soltando alguns cachorros em cima dela. Um dos cachorros de Ribeiro tinha um latido comicamente duvidoso (“Vierschoschoten”) que muita gente pode condenar. Mas não foi para outra coisa que inventaram uma garantia chamada liberdade de expressão – se fosse para expressar sempre em termos moderados aquilo…

Começos (ainda) inesquecíveis: Gabriel García Márquez

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Muitos anos depois, quando lhe perguntassem por que o começo de “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez (Record, tradução de Eliane Zagury), um dos mais inesquecíveis de quantos possam ser assim chamados, demorou tanto a figurar naquela inesquecível seção, o autor do blog haveria de responder com um sorriso: “Não é óbvio?”. Publicado em 10/9/2007.

Oficina literária ensina a escrever?
NoMínimo / 05/06/2009

Algumas questões parecem voar no ar dos tempos. O “Rascunho” que começou a circular nos últimos dias (ainda indisponível online) traz uma longa entrevista comigo em que, entre outros assuntos, o editor Rogério Pereira lança o da eterna dúvida sobre a eficiência das oficinas de criação literária na formação de escritores. Por coincidência, e guardadas algumas proporções, a mesma questão anima um ótimo artigo da “New Yorker” (em inglês, acesso gratuito) publicado ontem pelo crítico Louis Menand. Vamos primeiro à pergunta do Rogério, seguida da minha resposta: Há uma grande quantidade de oficinas de criação literária espalhadas pelo país. O senhor acredita na capacidade destas na “formação” de escritores? Nenhum curso ou oficina jamais vai transformar um não-escritor em escritor, mas pode – nos casos de não-picaretagem, naturalmente, e para isso é preciso pesquisar bem o mercado antes de fazer a matrícula – ajudar a lapidar talentos, além de propiciar uma convivência com seus pares que seja muito produtiva. Por que não? Num esquema mais profissional e institucionalizado, os cursos de creative writing nos EUA podem se gabar de ter algumas estrelas entre seus ex-alunos, como Michael Chabon. No Brasil, ficaram quase lendárias as oficinas de Assis Brasil no Sul,…

O livro proibido de Tezza (final)
NoMínimo / 03/06/2009

Colocado no centro dessa fogueira de paspalhos, faço um apelo: por favor, não me adotem. Não sou um escritor de confiança. Cristovão Tezza, na “Gazeta do Povo”, comentando o caso do seu livro recolhido da rede escolar em Santa Catarina.

E o prêmio de maior perdedor vai para…
NoMínimo / 02/06/2009

Acho difícil entender por que alguém iria querer passar suas horas de leitura na companhia dos virtuosos, dos realizados e dos capazes quando o fracasso é tão mais interessante – e, infelizmente, muito mais comum. Hoje em dia nós os chamamos de anti-heróis (é mais educado), mas para mim eles sempre serão os perdedores da literatura. Gostei desta lista de grandes “perdedores” da ficção, publicada pelo BookForum e elaborada por Mark Sarvas, do blog Elegant Variation. Não conheço a turma toda, mas a julgar por Timofey Pnin, de Vladimir Nabokov, por Alec Leamas, de John Le Carré, e por Tommy Wilhelm, de Saul Bellow, a coisa faz sentido. E antes de perguntar quais seriam, na opinião dos leitores do Todoprosa, os principais candidatos brasileiros ao título, uma pequena questão tradutória: dividir a humanidade entre winners e losers, isto é, vencedores e perdedores, é coisa de americano, sim. O que talvez impeça a palavra de viajar bem, mas não a idéia. Aqui chamamos o loser de fraco, fracassado, pobre-diabo, otário, quem sabe bundão. O tipo nunca foi escasso em nossa literatura, pelo contrário. Trata-se apenas de decidir quem vence a disputa. Talvez o Amaro de “Clarissa”, de Erico Verissimo. Ou o…

Começos (ainda) inesquecíveis: Graciliano Ramos

Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho. Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira aceitou a pontuação, a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composição tipográfica; para a composição literária convidei Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, redator e diretor do Cruzeiro. Eu traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de agricultura e pecuária, faria as despesas e poria o meu nome na capa. O intrigante começo de “São Bernardo” (1934), de Graciliano Ramos (39.a edição, Record, 1983), apareceu aqui no blog no distante 20/6/2006. Já estava na hora de voltar.

O livro proibido de Tezza
NoMínimo / 29/05/2009

O caso do recolhimento, pelo governo de Santa Catarina, de 130 mil exemplares do livro “Aventuras provisórias”, do catarinense Cristovão Tezza, depois de adquiri-los para distribuição na rede escolar em licitação do ano passado, está bem contado nesta reportagem do “Diário Catarinense”, que ouve todos os lados envolvidos na história. Inclusive uma professora que justifica a proibição com ataques morais ao livro – “chulo e em alguns parágrafos a relação sexual é abordada de maneira banal” – e o próprio escritor, que, elegantemente, evita dar ao caso o tratamento de escândalo censório. Não creio mesmo que se trate disso. É claro que pedagogos têm o direito de escolher o que vão apresentar a seus alunos – mesmo que, no caso presente, a faixa etária de 15 a 18 anos permita supor que as cenas de sexo descritas no romance (a reportagem cita um trecho que menciona sexo oral) contenham pouca ou nenhuma novidade para a quase totalidade deles. O que o imbroglio catarinense me parece deixar evidente, com sua bateção de cabeças entre esferas do mesmo governo, é outro tipo de problema: a dificuldade extrema que o sistema educacional brasileiro tem para lidar com a literatura contemporânea, provavelmente bandeira de…

Noções de Alice
NoMínimo / 27/05/2009

Você já leu a contista canadense Alice Munro? Eu confesso que não, e convido quem tiver lido a se manifestar aqui nos comentários. O mais-que-prestigioso prêmio Man Booker International que ela ganhou hoje pelo conjunto de sua obra e “contribuição à ficção no cenário mundial”, concorrendo com nomes como Mario Vargas Llosa, V.S. Naipaul e Peter Carey, recomenda jogar logo alguma luz nas trevas da minha ignorância. Munro tem dois livros em catálogo no Brasil: “Fugitiva” (Companhia das Letras, 2006) e “Ódio, amizade, namoro, amor, casamento” (Globo, 2004). Quem tiver pressa e inglês para tanto pode preferir seguir este bom guia de contos disponíveis online, publicado pelo blog de livros do “Guardian”. Vou passear por lá, quem sabe volto ao assunto.

Pingos de ‘Leite’
NoMínimo / 26/05/2009

Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta. São trechos lapidares como esse, prontos para ascenderem da página contingente que temos diante do nariz ao repositório atemporal da sabedoria do idioma, que sustentaram meu prazer de ler “Leite derramado” (Companhia das Letras, 196 páginas, R$ 36), a nova novela – sim, novela, novelíssima, não romance – de Chico Buarque. Na estrutura, no arco tensionado da narrativa, sou obrigado a discordar da maioria dos exegetas e considerar “Budapeste” um livro muito mais instigante e coeso. Mas, se o leite às vezes fica meio aguado, não me parece um prêmio de consolação banal dizer que certas páginas ou frações de página exibem uma prosa que ousa passar uma cantada na perfeição, coisa rara na literatura brasileira contemporânea. Imagine-se que, ao trecho anterior, segue-se a comicidade do seguinte, para ter uma idéia do pêndulo que move todo o livro: O ciúme é então a espécie mais…

Rubem Fonseca é da Agir
NoMínimo / 22/05/2009

Rubem Fonseca fechou contrato hoje de manhã com o selo Agir, do grupo Ediouro. Participaram do animado leilão pelo passe do escritor, conduzido ao longo desta semana, oito editoras: além da Agir concorreram Record, Objetiva, Rocco, Leya, Globo, Língua Geral e Cosac e Naify. Segundo informações não confirmadas, a proposta vencedora ultrapassa a barreira de 1 milhão de reais. O anúncio oficial será feito pela Agir na segunda-feira, dia 25. Num episódio que permanece mal explicado, Fonseca se desligou há três semanas da Companhia das Letras, que publicava seus livros há vinte anos. (Corrigido às 17h58: a editora Planeta não participou do leilão.)

O desprazer de ler (II)
NoMínimo / 21/05/2009

Eu odiei O grande Gatsby quando o li na escola, mas achei-o glorioso ao relê-lo para meu curso na universidade, alguns anos depois. Suspeito que, aos 17, eu simplesmente não tenha entendido nada. Baixar o nível do currículo não é a solução, mas talvez tenhamos uma visão estreita demais do que deveria constar numa lista de leituras escolares. A sugestão dada por um editor, misturar clássicos com literatura contemporânea, foi descartada por muitos como um golpe de marketing, mas talvez seja um conceito que poderia se mostrar fértil nos contextos educacionais em que os estudantes fazem um grande esforço para descobrir naquilo que lêem algum tipo de relevância para a vida moderna. Diretamente do arquivo do “Guardian”, Jean Hannah Edelstein entra com este bom post de 2007 na discussão que andou rolando dia desses no Todoprosa. A causa é nobre, embora provavelmente perdida: fazer nosso sistema educacional entender a verdade ululante de que o prazer não é tudo na leitura, mas sem ele a leitura não existe.

Qual é o personagem mais famoso da literatura?
NoMínimo / 19/05/2009

Brincadeira divertida no blog de livros do “Guardian”: qual é o personagem literário mais famoso de todos os tempos? O ponto de partida é uma alegação assumidamente publicitária da editora Penguin de que Sherlock Holmes, o detetive de Arthur Conan Doyle (com um bocado do código genético de Poe, como já comentamos aqui), seria o detentor do título. O que leva a autora do post, cética, a lhe opor um adversário mais erudito como D. Quixote e em seguida coletar com conhecidos sugestões que incluem Hamlet, James Bond e Harry Potter. Quase todos transformados em figuras ainda mais populares graças a adaptações para outros meios, claro, em especial o cinema – o jogo é esse mesmo. Começou então uma discussão animada entre os leitores. Gostei especialmente de um palpite lacônico, mas com a maior pinta de campeão: “Deus”. E no Brasil, quem você acha que ganharia um concurso de celebridades entre os personagens da ficção? A boneca Emília? A escrava Isaura? Capitu? Mônica? E por que será que só tem mulher nesta lista? E aqui está mais uma: meu voto vai para Gabriela, aquela que um dia – meninos, eu vi – subiu no telhado para pegar uma pipa.

Corra que o corroteirista vem aí!
NoMínimo / 14/05/2009

Li no jornal, naquelas letras grandes que se usam em títulos, esta palavra espantosa: corroteirista. Senti vertigem. Asco. Deslocamento. Desviei os olhos rapidamente, mas não me livrei da imagem mental hedionda, que me acompanhou o dia inteiro. Corroteirista – de fora a fora no pára-brisa. Corroteirista – na hora do almoço, dentro do prato. Corroteirista – de olhos fechados. Sempre defendi, por uma questão de princípio, a unificação ortográfica (que só não adotei ainda neste blog porque estamos em fase de transição, pressa pra quê?). Também sempre critiquei esse acordo pobrezinho que os doutos negociadores dos dois lados do Atlântico levaram tantos anos para alinhavar, principalmente por sua incapacidade de desbastar o ridículo emaranhado que são as regras do hífen. Nunca achei, porém, que essas ressalvas pudessem ser mais que ressalvas, invalidando o argumento central de que é melhor ter uma ortografia tosca, mas única, do que ter duas. Mas isso foi antes de encontrar para nunca mais esquecer, na vida de minhas retinas tão fatigadas, o inominável corroteirista. O corroteirista rompe todos os cojones, corrói minhas convicções. Não sei de mais nada. Me limito a torcer para que, em nome do bom gosto, da elegância, da harmonia entre as…

Ganhou, ganhou
NoMínimo / 13/05/2009

Os vencedores do sorteio de exemplares autografados de “Elza, a garota”, entre os mais de 140 que se inscreveram, foram os leitores Carlos Marques, de São Paulo; João Athayde, de Londrina; e Mariana Sanchez, de Curitiba. Obrigado a todos os que participaram da promoção de aniversário do Todoprosa. E vamos aos próximos três anos!

O desprazer de ler
NoMínimo / 12/05/2009

A Bravo! atualiza – a propósito do lançamento do livro “A escola e a letra”, coletânea organizada por Flávio Aguiar e Og Dória – a velha mas interminável discussão sobre o que fazer para estimular nas crianças o gosto pela leitura. Por coincidência, algo em que tenho pensado muito nos últimos dias. Acontece que meu filho de 12 anos anda se engalfinhando com dois livros recomendados pela escola: “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna, e “The red badge of courage”, de Stephen Crane (isso mesmo, no original, para a aula de inglês). Bons e importantes livros, ninguém discute. Mas serão escolhas sábias para leitores dessa idade? Não vou fingir que entendo de pedagogia, mas literatura eu conheço um pouco. Uma peça teatral de Suassuna e um clássico americano do século 19 (que, mais do que ler, eu traduzi, e posso garantir que é datadíssimo) me parecem opções desastrosas – a segunda, então, beira a piada. Em sua aparente insensibilidade para os desafios que a palavra escrita enfrenta com a geração Playstation, chegam a ser desanimadoras. E estamos falando da “moderna” Escola Parque, no Rio. É claro que meu filho avança lentamente e de má vontade nas duas tarefas. E olha…

Todoprosa faz três anos e dá Elza
NoMínimo / 08/05/2009

Há exatos três anos, dois posts críticos sobre a velha questão da presença magra do futebol em nossa literatura inauguravam este blog. Naquele momento eu acharia graça se alguém me dissesse que o Todoprosa chegaria tão longe, sobrevivendo até ao site que eu editava na época, o saudoso NoMínimo, onde ele surgiu para preencher uma lacuna na área de literatura em meio à reforma editorial que criou uma série de colunas diárias no formato blog. A longevidade inesperada num meio tão volátil é motivo de festa. E como essa duração se deve antes de mais nada aos leitores, tentei bolar aqui uma forma de incluir todo mundo na celebração. Então aí vai a “promoção”, que é singela mas é sincera: vou sortear três exemplares autografados de “Elza, a garota”, um para cada ano de vida do blog, entre os leitores que se manifestarem na caixa de comentários desta nota até a noite de terça-feira (lembro que é preciso fornecer um email válido, que não será publicado – os vencedores serão informados através dele). Aos interessados, boa sorte!

Emma Bovary se despe na rede
NoMínimo / 07/05/2009

Dia desses, um estudante de Jornalismo de Belo Horizonte me mandou um pequeno questionário por email sobre as relações entre internet e literatura. Quase respondi que está na hora de arrumarmos uma pauta mais original, mas me contive – ainda bem. É verdade que já faz alguns anos que nossos papos andam um tanto obsessivos, mas talvez isso seja compreensível diante da vastidão do tema. Acabei respondendo o que sempre respondo, que a internet não me parece um ambiente muito propício para a criação literária em si, mas é sem dúvida o paraíso para todo o resto: divulgação, debate, circulação, descoberta, pesquisa, tietagem, compra, venda, o diabo. Um belíssimo exemplo disso é este site da Universidade de Rouen, na França, em que se pode ler o texto de “Madame Bovary” em francês e, clicando num trecho qualquer, abrir o fac-símile do original manuscrito – a maioria, como este aí ao lado, rabiscadíssimo por Gustave Flaubert em sua lendária caça à “palavra justa”. Escoltando a página com os garranchos há uma outra, limpa, com sua decifração/transcrição. À parte a utilidade óbvia para estudiosos de Flaubert, trata-se de um brinquedo genial. E um encontro emocionante entre literatura e internet.

O charme escandaloso de Edna O’Brien
NoMínimo / 06/05/2009

Essa moça aí ao lado é Edna O’Brien, escritora irlandesa que, salvo algum efeito Carlos Fuentes de última hora, estará na Flip. Mas não se trata do mais fiel retrato de divulgação que se pode encontrar: Edna está hoje com 78 anos e só veio parar aqui no blog, em foto de 1965, como porta de entrada para a divertida galeria de velhos anúncios publicitários de literatura disponível no site do “New York Times”, quase todos com a carinha do autor (uma Susan Sontag gatinha entre eles) e uma série de blurbs que, em sua previsibilidade e seus clichês, talvez sejam a única coisa que não tenha mudado absolutamente nada desde então. Edna é pouco conhecida no Brasil. Tornou-se um ícone do feminismo nos anos 60 depois que teve seu livro de estréia, The country girls, proibido na Irlanda por conter descrições supostamente livres demais da vida sexual das personagens femininas. Por aqui, além da biografia de James Joyce lançada nos anos 90 pela Objetiva – e programada para relançamento em breve pela mesma editora – saíram a coletânea de contos “Uma mulher escandalosa”, pela Francisco Alves, no distante 1982, e o o romance “Dezembros selvagens” pela Bertrand Brasil, em…

Em pé ou deitado?
NoMínimo / 30/04/2009

Para quem se identificou com meu TOC brando em relação às lombadas que não sabem se sobem ou descem, essa estante, digamos, multidirecional do designer espanhol Jordi Milà pode ser uma solução. Em pé, deitado, mais ou menos? Que tal todas as alternativas acima? A Árvore da Sabedoria – é esse o nome da peça – tem engenhosidade e bastante charme decorativo, suponho, embora me incomode imaginar o quanto os livros podem se sentir desconfortáveis ali. De qualquer maneira, é evidente que a coisa foi feita para quem tem poucos, muito poucos volumes em casa. Eu precisaria de uma floresta inteira de Árvores da Sabedoria – o que, obviamente, não seria nada sábio. (Via blog de livros da “New Yorker”.) E antes que o Rafael, nosso bravo latinista, proteste novamente contra a leveza da pauta, lembro que estamos na bica de mais um feriadão, que talvez fosse lamentável desperdiçar com debates circunspectos. Sempre haverá tempo para voltarmos a ser graves.

A volta do ponto de exclamação!
NoMínimo / 29/04/2009

Scott Fitzgerald disse que usá-lo é como rir da própria piada! Mas agora ele vive uma renascença, segundo este post de Stuart Jeffries no blog do “Guardian”! E a culpa – adivinhem – está sendo atribuída mais uma vez à internet! (Vão acabar descobrindo que a gripe suína se espalha pelo Twitter!)

Subindo ou descendo?
NoMínimo / 28/04/2009

Trata-se, sem dúvida alguma, da descoberta mais idiota e inútil que já fiz em minhas estantes. Resolvi compartilhá-la com os leitores por dois motivos: primeiro, me intriga que, sendo óbvio, o padrão tenha me escapado em tantos anos de convivência com livros; segundo, nunca se sabe que sentido ou proveito alguém poderá tirar de detalhes como esse. Mas depois não digam que eu não avisei: Na imensa maioria dos meus livros, os nomes de autor e obra aparecem escritos na lombada de cima para baixo, isto é, descendo. Isso parece ser uma regra das editoras, com poucas exceções. Acontece que duas das exceções são notáveis pelo perfil e pela constância: nos livros da Companhia das Letras e da Alfaguara, os nomes vêm sempre de baixo para cima! (Sim, há certos volumes mais grossinhos em que os nomes aparecem na horizontal, mas são estatisticamente desprezíveis.) E com licença, que agora eu vou contar os azulejos da cozinha.

A cor do estrelismo é púrpura?
NoMínimo / 24/04/2009

A intrigante nota que o diretor de programação da Flip, Flavio Moura, publicou há poucos dias em seu blog sob o título “Proposta indecente” fala de um autor americano que fez exigências descabidas para vir à Flip – passagens de primeira classe para ele e seu assessor e 65 mil dólares de cachê. Discreto, Moura não dá o nome, mas adianta que o principal livro da figura ganhou um prêmio relevante há cerca de vinte anos, “teve papel importante na luta pelos direitos civis e alguma visibilidade recente por conta da eleição de Obama”. Foi o bastante para despertar o Dupin que dormita em meu cérebro habitualmente confuso. Juntando as pistas – e transformando aquele “autor” em genérico de “autor(a)” – tudo aponta para Alice Walker, de “A cor púrpura”, romance que foi adaptado para o cinema por Steven Spielberg e levou o Pulitzer de 1983.

O fim do Nobel? Sem essa, Arana!
NoMínimo / 22/04/2009

Quem se lembra da guerrinha cultural entre Europa e EUA iniciada de forma idiota pela Academia Sueca às vésperas da entrega do Nobel de Literatura do ano passado? Algumas conseqüências já se tinham feito notar, como esta, mas nada que se compare ao artigo infantil publicado neste domingo por Marie Arana, crítica do “Washington Post”, propondo simplesmente a extinção do prêmio. Seu argumento? Ah, em primeiro lugar (beicinho) os caras não gostam dos americanos; em segundo, consagram tantas mediocridades e esquecem tantos escritores brilhantes… Como observa o ótimo The Elegant Variation – que chama de “estridente e tolo” o texto de Arana – se escolher sua cota de mediocridades fosse motivo razoável para extinguir um prêmio literário, não sobraria um único de pé.

Ballard e a matéria vivida
NoMínimo / 21/04/2009

Você escreve porque escreve, não porque tenha necessariamente algo interessante a dizer. Provavelmente escreve bastante bem, mas seu negócio é estilo, não substância, porque você nunca chegou a fazer grande coisa na vida além de escrever. O importante em Ballard é que ele tinha estilo e substância. Como escritores da estirpe de Joseph Heller e Kurt Vonnegut, Ballard pagou seus tributos à vida real, e sua literatura tinha profundidade psicológica e vivencial por causa disso. Comentando hoje no blog do “Guardian” a obra do escritor inglês J.G. Ballard, que morreu domingo, de câncer, aos 78 anos, John Crace defende a importância fundamental da experiência de vida do autor de “O império do sol” e “Crash”, que foi prisioneiro de guerra e vendedor de enciclopédias antes de se tornar escritor. Ótimo pretexto para o blogueiro alfinetar a suposta falta de vivência extraliterária dos escritores de hoje, característica que seria responsável por uma literatura mais aguada e menos autêntica. Hmm. E hmmmm de novo. Embora à primeira vista seja tentador dar razão ao raciocínio do sujeito, recomendo pensar um pouco mais no assunto. Não dá para negar que imaturidade e umbiguismo são defeitos irritantes de boa parte do que se publica hoje,…

Elza em Parati
NoMínimo / 16/04/2009

Mais três autores brasileiros estão confirmados na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip): Arnaldo Bloch, Sérgio Rodrigues e Tatiana Salem Levy. Durante o evento, que vai de 1 a 5 de julho, eles participarão de um debate sobre pesquisa e invenção. O furo foi dado hoje pelo repórter Miguel Conde no blog Prosa Online. Só me resta confirmar a informação e dizer que considero essa mesa sobre “pesquisa e invenção” um achado. Não só porque o tema é um fio realmente comum aos três livros em questão, de resto tão diferentes, mas porque não há nenhum outro aspecto de meu romance que me interesse tanto discutir.

O poder da leitura
NoMínimo / 13/04/2009

Creio que pelo trechinho abaixo já dê para sentir a qualidade da resenha que o escritor Ernani Ssó publicou hoje sobre meu romance “Elza, a garota” em sua coluna no site gaúcho Coletiva.net. Quem acha que escritores valorizam elogios — mesmo ocos — acima de qualquer coisa não conhece o poder das leituras capazes de iluminar aspectos de um livro que se mantinham penumbrosos até para o autor: Não há uma simetria de tipo matemático entre as duas partes. Isso poderia ser bonito, talvez prazeroso, certamente tranquilizador. O que há são sombras, sonhos, lacunas, mentiras e assombrações ligadas às vezes de modo imprevisto, ou desagradável. O que se pode dizer, por exemplo, sobre os conspiradores da Intentona assessorando a guerrilha pós-64 com a mesma competência política e militar demonstrada anteriormente? Ou o reflexo de Elza — uma boba alegre, no mínimo — sobre a cunhada adolescente de Molina? Ou os Rios de Janeiro: o de antes e o de agora? Não exatamente a cidade, mas o que foi feito dela, o que foi feito do mundo, o que foi feito de nós. Para os que suspiram aliviados porque os sonhos comunistas continuaram sonhos, o romance ergue esse Rio de Janeiro…

Sigam o Xico Sá!
NoMínimo / 08/04/2009

“Acordei, fui ao banheiro…” E eu com isso, meu amigo, você diria, ai na sua moita existencial, nem aí para o que se passa na vida de seu ninguém. “Dei a descarga…” E daí, colega, não fez mais que o recomendável pela boa educação materna. “Bebi um copo d´água…” (…) E por aí segue a narração, tintim por tintim, de tudo que se passa na vida da tal criatura. Só não comunica das suas humaníssimas ventosidades intestinais e traques do gênero. O resto vale na miudeza cotidiana. Eis o espírito da mais nova modinha da Internet, meu jovem, o tal do twitter, que você, novidadeiro por excelência, já deve ter enfadado de ouvir falar. Xico Sá, em seu blog, entre pasmo e irritado com o Twitter, a nova doença infantil da internet. Sei não, estou pensando em seguir esse cara.

Julho está aí mesmo
NoMínimo / 03/04/2009

Lobo Antunes, Carlos Fuentes, Atiq Rahimi, Simon Schama, Sophie Calle e, caramba, Gay Talese… Na expectativa de uma das boas edições da curta história da Flip, já reservei a pousada. O preço dá saltos em torno de 20% a cada ano, mas o que se pode fazer?

Elza manda mais notícias
NoMínimo / 02/04/2009

Em reportagem publicada hoje no Último Segundo do iG, Mauricio Stycer me faz uma pergunta tão boa quanto difícil – e até agora inédita – sobre o papel do pensamento relativista em “Elza, a garota”, um romance feito de meios-tons em que heróis e vilões se confundem. E me faz explicar por que, apesar disso, eu considero o livro anti-relativista. Pena que minha conversa com Carlos Herculano Lopes, publicada ontem em página inteira no jornal “Estado de Minas”, só esteja disponível online para assinantes. Em compensação, está a um clique de distância a resenha generosa que Paulo Polzonoff Jr. publicou em seu blog. E a entrevista para o “Espaço Aberto” de Edney Silvestre e o papo com Maria Beltrão no “Estúdio i” – este com participação de João Paulo Cuenca – já podem ser vistos no portal Globo.com.

Serrote iluminista
NoMínimo / 31/03/2009

Quando olho para trás, fixo-me no século 18, no Iluminismo, em sua fé no poder do conhecimento e no mundo de idéias em que ele operou – aquilo a que o iluminista se referia como República das Letras. O século 18 imaginava a República das Letras como um reino sem polícia, sem fronteiras e sem desigualdades, exceto as determinadas pelo talento. Qualquer um podia juntar-se a ela exercendo os dois atributos principais da cidadania: escrever e ler. Escritores formulavam idéias e leitores as julgavam. Graças ao poder da palavra impressa, os julgamentos se estendiam por círculos cada vez mais amplos, e os argumentos mais fortes venciam. Este trecho do ótimo artigo do historiador Robert Darnton, chamado O Google e o futuro dos livros – que consegue fazer um alerta progressista e não tecnofóbico sobre a avalanche do Google Book Search – estabelece um diálogo sutil com a revista-livro em que é uma das atrações: a inteligentíssima “Serrote” (224 páginas, R$ 29,90). Publicação quadrimestral do Instituto Moreira Salles, ela mal foi lançada e já é uma das melhores provas disponíveis no mercado brasileiro de que os ideais (utópicos?) do Iluminismo não se apagaram por completo. Um produto para a elite? Sem…

Espaço Aberto
NoMínimo / 27/03/2009

Hoje às 21h30 estarei no programa “Espaço Aberto”, da GloboNews, conversando com Edney Silvestre sobre “Elza, a garota”. Horário ingrato, eu sei. Mas rolam reprises amanhã em três horários (1h30, 8h30 e 16h30), domingo às 6h05 e, por fim, segunda-feira às 12h30.

É hoje!
NoMínimo / 26/03/2009

Todos os leitores do Todoprosa estão convidados a comemorar comigo:

A Batalha da Praça da Sé
NoMínimo / 24/03/2009

Atendendo a pedidos, segue um trecho do capítulo 5 de “Elza, a garota”. Quem conta esta história é Xerxes, um velho comunista de 94 anos que conheceu (biblicamente, será?) a moça do título: Na noite de sábado, peguei o trem para São Paulo com mais três camaradas, dois que eu nem me lembro e o Guarani. Descemos na Estação da Luz na manhã do domingo, o domingo em que seria a passeata, junto com gente que vinha de tudo quanto era lado, de Santos, do Sul, do Rio, de Minas, estivadores do tamanho daquelas estátuas realistas-socialistas ao lado de funcionários públicos com óculos fundo-de-garrafa e musculatura de louva-deus – tinha de tudo. Na estação, já começamos a sentir o clima. Estava um dia bonito, e como tínhamos algumas horas para matar antes da passeata propus um passeio pela cidade, que eu não conhecia, mas o Guarani disse que o combinado era irmos direto para a casa de um camarada nosso, um gráfico chamado Enzo, que morava no Brás. Lá seria a concentração de alguns companheiros, almoçaríamos de graça antes de seguir num grupo maior para a Praça da Sé. Chegamos antes das dez e a casa já estava cheia. Era…

Garoupa
NoMínimo / 23/03/2009

Posso vender meu peixe mais um pouco? É esta semana só: mais uns dias e a gente vira o disco, melhor dizendo, passa para a próxima lista de reprodução. Quem estiver interessado numa entrevista mais lenta e profunda sobre “Elza, a garota”, e transcrita de uma forma fascinantemente literal que expõe a gagueira mental do autor (como diria Silvio Romero), não deve perder a versão integral da conversa que tive com Miguel Conde, do “Prosa & Verso”, publicada no blog homônimo. Sobre a versão condensada de pingue-pongue que, no último sábado, escoltava a densa resenha de Sérgio de Sá no “Globo” de papel, ela leva a vantagem nada desprezível do espaço virtual ilimitado. E quem morar no Rio e não tiver programa melhor para esta quinta-feira, dia 26, será muito bem-vindo para tomar um prosecco e trocar dois dedos de prosa comigo na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, onde estarei autografando o livro a partir das 19h.

Começos inesquecíveis: J.M. Coetzee

A primeira coisa que a parteira notou ao ajudar Michael K a sair de dentro da mãe para dentro do mundo foi que tinha lábio leporino. O lábio enrolado como pé de caramujo, a narina esquerda fendida. Escondeu a criança da mãe por um momento, enfiou o dedo no botãozinho de boca e ficou agradecida de ver que o palato estava inteiro. O começo de “Vida e época de Michael K” (Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira), romance de J.M. Coetzee lançado em 1983 e premiado com o Booker, marca também o início da consagração internacional do grande escritor sul-africano.

‘Memórias póstumas de Brás Cubas’ é um livro espírita?
NoMínimo / 19/03/2009

Algumas das melhores perguntas que me fizeram até agora sobre meu romance “Elza, a garota” partiram do jornalista e escritor Luciano Trigo, que acaba de publicar a entrevista em sua coluna no G1. Não pretendia voltar ao assunto agora, mas o quebra-pau político que se esboçou aqui na caixa de comentários esta semana me convenceu da pertinência de abusar mais um pouco da autopromoção e publicar esta amostra do papo: G1: Você não teme que seu livro seja “apropriado” pela direita? Acredita que haverá reações negativas por parte da esquerda? Isso causa preocupação? SÉRGIO: Qualquer pessoa que leia o livro vai perceber logo nas primeiras páginas que ele não pode ser apropriado pela direita. A direita brasileira sai muito mal disso tudo. Isso não quer dizer que a esquerda saia bem. Acredito mesmo que essas categorias, pelo menos em termos tão absolutos, estejam virando relíquias da Guerra Fria, o papo hoje é um pouco diferente. Mas, mesmo quando elas faziam todo o sentido, julgar uma obra de literatura por esses parâmetros sempre foi má idéia. E espero que o “Elza” seja julgado como literatura, porque é o que ele é. Dito isso, claro que me preocupa um pouco o uso…

Orwell: É a política, estúpido!
NoMínimo / 18/03/2009

Todos os escritores são vaidosos, egoístas e preguiçosos, e bem no fundo de suas motivações jaz um mistério. Escrever um livro é uma luta terrível, exaustiva, como um longo padecimento de alguma doença dolorosa. Algo que nunca se deve fazer, a menos que se seja movido por um demônio irresistível que não se pode compreender. Até onde nos é dado saber, esse demônio é o mesmo instinto que faz um bebê se esgoelar por atenção. No entanto, também é verdade que ninguém escreverá nada legível a menos que se esforce constantemente para apagar sua própria personalidade. A boa prosa é como uma vidraça. Não posso dizer com certeza qual dos meus motivos é o mais forte, mas sei qual deles merece ser seguido. E lançando um olhar retrospectivo sobre minha obra, vejo que é invariavelmente quando me faltava um propósito político que eu escrevi livros sem vida e fui traiçoeiramente atraído por passagens pedantes, frases sem sentido, adjetivos decorativos e bobagens em geral. Dica do leitor Diego Hartmann, esse texto (em inglês, acesso gratuito) de George Orwell sobre o que o levava a escrever ficou ressoando por um bom tempo aqui em casa. “Propósito político”, diz o pai do Big…

Notícias de ‘Elza’
NoMínimo / 16/03/2009

“Elza, a garota” (Nova Fronteira, 240 páginas, R$ 29,90), meu novo livro, começou a chegar às livrarias neste fim de semana e já nos próximos dias deve estar com boa distribuição nacional. Para quem ainda não sabe, trata-se de um romance histórico que mistura de forma pouco convencional pesquisa jornalística, ensaio e, claro, ficção para contar a tragédia de Elvira Cupello Calônio, codinome Elza Fernandes, uma menina de 16 anos que ficou sob suspeita de traição ao PCB e, condenada à morte pelos companheiros, foi estrangulada com uma cordinha de varal. Isso ocorreu em março de 1936, quando o governo Vargas caía de sarrafo na oposição após o fracasso da chamada Intentona Comunista. Foi um erro histórico da esquerda e um momento de apoteose do anticomunismo canarinho, com conseqüências que marcariam os rumos do país por todo o século 20. Como diz Zuenir Ventura na orelha, “acabar com o comunismo foi fácil; difícil é se libertar do anticomunismo”. O caso Elza é notícia velha, mas recalcadíssima. Mais do que fechar o foco no crime em si, que alimentou sua cota de manchetes histéricas na época, o que me interessa no livro é investigar as décadas de silêncio que o Brasil…

Começos inesquecíveis: James Baldwin

Estou em pé à janela de um casarão no sul da França enquanto a noite cai, a noite que me conduzirá à manhã mais terrível da minha vida. A primeira frase de “O quarto de Giovanni” (Giovanni’s room, Penguin Books, 1990, tradução caseira), novela lançada em 1956 por James Baldwin, está entre os começos mais singelos e perfeitos – no sentido de conjurar de saída um clima, uma voz e uma expectativa na cabeça do leitor – que se pode encontrar na literatura em qualquer tempo. Há quem considere a trágica história de amor entre o americano David e o italiano Giovanni, ambientada na Paris dos anos 1950, um dos pontos mais altos de uma certa “literatura gay”. O rótulo é reducionista e desnecessário, mas o resto da frase continua valendo.

Papo de mulher
NoMínimo / 13/03/2009

Este artigo de Katha Pollitt para a revista eletrônica Slate (em inglês, acesso gratuito), a propósito do livro A jury of her peers – American women writers, de Elaine Showalter, lida de forma inteligente e pouco previsível com um assunto que a moda dos estudos culturais transformou nos últimos tempos em algo bastante burro: a questão do gênero na literatura. O texto passa longe de defender a compartimentação do mundo em prateleiras rotuladas (gay, negra, feminina), uma visão em que, de modo um tanto bizarro, universidade e indústria editorial têm se dado as mãos. Mas também não deixa de reconhecer que descartar o debate com um simples muxoxo – como quem diz “é tudo literatura, só me interessa a qualidade” – seria fechar os olhos para aspectos importantes da questão. Vale a pena ler a resenha inteira. Gostei principalmente do exercício de imaginar uma certa Janet Franzen, autora de “As correções”: Muitas escritoras já se queixaram de que a ficção escrita por mulheres é subestimada porque nós subestimamos os temas domésticos e pessoais em oposição aos grandes assuntos masculinos como guerra e caça à baleia. É um argumento importante, mas eu acho que ocorre algo mais profundo. Na verdade, há…

Começos inesquecíveis: Mario Filho

Há quem ache que o futebol do passado é que era bom. De quando em quando a gente esbarra com um saudosista. Todos brancos, nenhum preto. Foi uma coisa que me intrigou a princípio. Por que o saudosista era sempre branco? O saudosista sempre branco, nunca preto, dava para desconfiar. E depois, a época de ouro, escolhida pelo saudosista, era uma época que se podia chamar de branca. Os jogadores claros, bem brancos, havia até louros nos times, ia-se ver: inglês ou alemão. Poucos morenos. Os mulatos e os pretos, uma raridade, um aqui, outro ali, perdiam-se, nem chamavam atenção. A prosa hipnoticamente despojada de Mario Filho, talvez o encontro mais feliz entre tom coloquial e expressão artística de toda a literatura brasileira, diz a que veio já nas primeiras linhas de “O negro no futebol brasileiro” (Mauad/Faperj, 4ª. edição, 2003), a épica reportagem-tese do homem que batizou o Maracanã. Ah, mas se o livro lançado em 1947 (e revisto e ampliado em 1964) pelo irmão menos famoso de Nelson Rodrigues não é um romance, o que está fazendo aqui? Hmmm. E quem disse que não é um romance? “O negro no futebol brasileiro” pode – e, acredito, deve –…

Não vem por quê? Por que não vem?
NoMínimo / 05/03/2009

Foi anunciado ontem que o escritor dominicano-americano Junot Díaz, que tinha confirmado presença na Flip, desistiu da viagem. “Não se perde grande coisa”, já vejo alguns leitores dizendo, mas não se trata disso. O fato provocou um post interessante no blog de Flavio Moura, diretor de programação do evento, que eleva a um novo patamar a transparência (estamos em tempos de Obama, afinal) com que as negociações pré-festival vêm sendo tratadas na edição deste ano. Um trecho: A recusa chama a atenção para um lado curioso da atividade de organizar festivais: o acesso a dimensões comezinhas do dia-a-dia dos escritores. Verdadeiros ou não, os motivos que os levam a recusar muitas vezes são divertidos e dizem algo a respeito da personalidade de cada um. Em 2008, o mesmo Junot disse que não podia vir porque tinha “um casamento na Itália”. No mesmo ano, Lobo Antunes – que segue confirmadíssimo para 2009 – não pôde vir em razão da formatura da filha, na mesma data da Flip. A família é também o ponto de apoio de Kazuo Ishiguro, autor de Vestígios do dia, e do crítico James Wood, de How fiction works. O primeiro se diz pouco à vontade para viajar…

Começos inesquecíveis: Henry James

A história havia nos prendido em suspense suficiente ao redor da lareira, mas exceto pela observação de que ela era horripilante, como, na véspera do Natal em um casarão antigo, qualquer relato estranho devia ser mesmo, não me lembro de nenhum comentário ter sido feito até calhar de alguém dizer que, em sua experiência, aquele era o único caso em que a aparição havia surgido para uma criança. O caso, devo mencionar, envolvia uma assombração numa casa velha exatamente igual àquela em que nos reuníamos na ocasião – uma aparição tenebrosa para um garotinho que dormia no quarto com sua mãe e que a acordou aterrorizado; acordou-a apenas para vê-la, antes que pudesse dissipar seu horror e pô-lo para dormir novamente com palavras tranqüilizadoras, encontrar ela também a visão que o abalara. Foi essa observação que levou Douglas a dar uma resposta – não imediatamente, mas mais tarde – que teria a interessante conseqüência para a qual eu desejo chamar atenção. Outra pessoa contava àquela altura uma história não muito bem-sucedida, que, eu notei, ele não estava acompanhando. Interpretei isso como um sinal de que ele mesmo tinha algo a relatar, e que não precisaríamos aguardar muito. Na verdade, tivemos…

Quando todo mundo acordar escritor…
NoMínimo / 27/02/2009

Peço licença para, correndo o risco de parecer obsessivo, citar mais um trecho do brilhante “O livro do riso e do esquecimento”, de Milan Kundera, que andou por aqui há pouco tempo. A atualidade destas palavras escritas em 1978 – muito antes, portanto, de haver sombra de internet no horizonte – tem algo de dolorosamente profético: Aquele que escreve livros é tudo (um universo único para si mesmo e para todos os outros) ou nada. E porque nunca será dado a ninguém ser tudo, nós todos que escrevemos livros não somos nada. Somos desconhecidos, ciumentos, azedos, e desejamos a morte do outro. (…) A irresistível proliferação da grafomania entre os políticos, os motoristas de táxi, as parturientes, os amantes, os assassinos, os ladrões, as prostitutas, os prefeitos, os médicos e os doentes me demonstra que todo homem sem exceção traz em si sua potencialidade de escritor, de modo que toda a espécie humana poderia com todo direito sair na rua e gritar: Somos todos escritores! Pois cada um de nós sofre com a idéia de desaparecer, sem ser ouvido e notado, num universo indiferente, e por isso quer, enquanto é tempo, transformar a si mesmo em seu próprio universo de…

NoMínimo, vida após a morte
NoMínimo / 25/02/2009

Para quem ainda se lembra com saudade do NoMínimo, eis uma página boa de visitar. O site se espatifou em meados de 2007, mas a cola virtual junta os caquinhos. Obrigado à Shirlei Horta pela lembrança.

Começos inesquecíveis: Javier Marías

Eu não quis saber, mas soube que uma das meninas, quando já não era menina e não fazia muito voltara de sua viagem de lua-de-mel, entrou no banheiro, pôs-se diante do espelho, abriu a blusa, tirou o sutiã e procurou o coração com a ponta da pistola do próprio pai, que estava na sala de almoço com parte da família e três convidados. Quando se ouviu a detonação, uns cinco minutos depois de a menina ter abandonado a mesa, o pai não se levantou de imediato, mas ficou alguns segundos paralisado com a boca cheia, sem se atrever a mastigar nem a engolir nem, menos ainda, a devolver o bocado ao prato; quando por fim se levantou e correu para o banheiro, os que o seguiram viram como, enquanto descobria o corpo ensangüentado da filha e levava as mãos à cabeça, ia passando o bocado de carne de um lado ao outro da boca, sem saber ainda o que fazer com ele. Eis o início de “Coração tão branco” (Companhia de Bolso, 2008, tradução de Eduardo Brandão), romance lançado em 1992 pelo espanhol Javier Marías. Sem comentários.

O blog é meu, ninguém tasca, eu vi primeiro!
NoMínimo / 19/02/2009

De vez em quando eu dou para os outros, vocês, o endereço informático e depois me arrependo. Um blog ainda contém certos resquícios gutenberguianos. Feito a revista que a gente assina, recebe em casa e não empresta para ninguém, nem deixa exposta em cima de coffee table na sala de visitas. Nós, ou ao menos este criado que vos fala, quer exclusividades. Não estou aqui também, sou franco, para dar hit e page impression para malandro nenhum. Podem me fazer de dado estatístico, mas minha alma informatizada, nem que seja apenas para as aparências, continua sendo minha, só minha. Ivan Lessa encontra paralelos insuspeitados entre o papel e a tela do computador. Imaginei um conhecido meu, com seu português de legenda de filme, interpelando o homem: “Mas, senhor Lessa, a internet é sobre compartilhando!” Mas fiquei bem curioso para saber: será que mais alguém aí tem ciúme e sentimentos de posse em relação a seus blogs favoritos?

A recusa de um manuscrito em 99 versões
NoMínimo / 17/02/2009

O livro mais engraçado que leio em um bom tempo é o recém-lançado “A arte de recusar um original” (Rocco, tradução de Pedro Karp Vasquez, 144 páginas, R$ 24), do escritor canadense de língua francesa Camilien Roy. A idéia é simples: Roy enfileira 99 cartas de recusa de originais, nos mais variados estilos, todas enviadas ao autor por editores a quem ele submeteu pelo correio o manuscrito de seu primeiro romance. Algumas dessas peças, supõe-se, devem ser baseadas nas que o autor de verdade recebeu um dia – como se diz no prólogo, ninguém, nem Proust, escapou disso –, mas o caráter furiosamente ficcional da brincadeira não demora a ficar claro. A vida real pode ser tão cruel quanto aquilo, sem dúvida. Mas não é tão divertida. Em meio a uma variedade quase inimaginável de tocos editoriais, do mais rebuscadamente insultuoso (“O pântano pestilento que lhe serve de cérebro, e do qual o senhor extraiu a inspiração para essa nauseabunda aberração, me paralisa de desgosto”) ao mais cinicamente modesto (“Nossos recursos são insuficientes para enfrentar as responsabilidades decorrentes do estrondoso sucesso que lhe é predestinado”), passando por cartas em verso e em forma de peça teatral, aparecem de repente umas…

Começos inesquecíveis: Milan Kundera

Em fevereiro de 1948, o dirigente comunista Klement Gottwald postou-se na sacada de um palácio barroco de Praga para discursar longamente para centenas de milhares de cidadãos concentrados na praça da Cidade Velha. Foi um grande marco na história da Boêmia. Um momento fatídico que ocorre uma ou duas vezes por milênio. Gottwald estava cercado por seus camaradas, e a seu lado, bem perto, encontrava-se Clementis. Nevava, fazia frio e Gottwald estava com a cabeça descoberta. Clementis, muito solícito, tirou seu gorro de pele e o colocou na cabeça de Gottwald. O departamento de propaganda reproduziu centenas de milhares de exemplares da fotografia da sacada de onde Gottwald, com o gorro de pele e cercado por seus camaradas, falou ao povo. Foi nessa sacada que começou a história da Boêmia comunista. Todas as crianças conheciam essa fotografia por a terem visto em cartazes, em livros ou nos museus. Quatro anos mais tarde, Clementis foi acusado de traição e enforcado. O departamento de propaganda imediatamente fez com que ele desaparecesse da História e, claro, de todas as fotografias. Desde então Gottwald está sozinho na sacada. No lugar em que estava Clementis, não há mais nada a não ser a parede vazia…

Livros no celular… e sem sotaque
NoMínimo / 12/02/2009

Estava nu e do lado de fora do apartamento. Situação difícil em qualquer lugar do mundo. Mas aqui não é qualquer lugar. Aqui é o Rio de Janeiro. E no Rio é tudo praia, sol, Cristo, bunda, bala. Homem pelado aqui não é problema. – Que porra é essa, meirmão? O corredor vazio. Nove da manhã. Apenas o pelado e um careca. – Meu senhor, a porta bateu. Fiquei na rua. Compreenda. O sujeito ajeitou a calça e entrou no apartamento. Minutos depois, voltou com um calção vermelho. – Agora vê se não vacila. – Ô amigo, sem palavras. Despediram-se com um leve sinal de cabeça. O dia correu normalmente. O continho paródico acima, uma boa zoação com Fernando Sabino, chama-se O homem vestido e faz parte do livro “Histórias mal contadas”, de Bruno Germer e Maurício Azevedo. A novidade é que o livro está disponível para ser baixado gratuitamente e lido no celular, um dos sete títulos – todos inéditos – que a recém-criada Editora Plus, de Porto Alegre, lançou neste formato que os japoneses adoram. Enquanto as grandes casas editoriais não querem nem ouvir falar em livro digital, fingindo enquanto podem que o tempo parou, as pequenas se…

A volta das cartas manuscritas?
NoMínimo / 11/02/2009

Apesar da turbulência financeira, as vendas de canetas e papel estão disparando. Pode chamar de retro chic ou de esnobada nas engenhocas eletrônicas, mas as cartas e cartões estão vivendo um renascimento. E já era tempo, porque ninguém deixa de se impressionar com uma nota manuscrita. Hmmm, será? O excelente The Elegant Variation, onde eu achei o link para esse artigo do “Daily Telegraph” (em inglês, acesso gratuito), acha que ele pode ser mais a expressão de um desejo do que o retrato de uma tendência. Além de serem frágeis os fatos apresentados para sustentar a tese, eu confesso que não consigo me lembrar de ninguém que ainda escreva cartas à mão. Você consegue?

Cortázar redescoberto
NoMínimo / 10/02/2009

Na próxima viagem, sem dúvida, irei a Montparnasse, à Pont des Arts onde a Maga passeia, comerei a sopa de lentilhas de sempre do Pollydor onde, descubro hoje, se passa “62 modelo de armar”, um livro que não li. Mas aí já será uma outra Paris, soma fantasmagórica das que conheci em outros tempos e mais a dele, que, assim como quem não quer nada, voltou às prateleiras, às leituras, à vida. A redescoberta de Julio Cortázar em Paris inspira uma bonita crônica de Paulo Roberto Pires em seu blog no site da “Bravo!”

Começos inesquecíveis: Ralph Ellison

Sou um homem invisível. Não, não sou um fantasma como os que assombravam Edgar Allan Poe; nem um desses ectoplasmas de filme de Hollywood. Sou um homem de substância, de carne e osso, fibras e líquidos – talvez se possa até dizer que possuo uma mente. Sou invisível, compreendam, simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Tal como essas cabeças sem corpo que às vezes são exibidas nos mafuás de circo, estou, por assim dizer, cercado de espelhos de vidro duro e deformante. Quem se aproxima de mim vê apenas o que me cerca, a si mesmo, ou os inventos de sua própria imaginação – na verdade, tudo e qualquer coisa, menos eu. Assim começa o prólogo de “Homem invisível”, romance lançado em 1952 com grande sucesso por Ralph Ellison (Marco Zero, 1990, tradução de Márcia Serra) e em geral considerado o ponto mais alto da literatura negra americana – o que bem pode ser verdade, embora eu confesse um fraco pela prosa mais fina de James Baldwin. Quando se fala em romance de tese (como acredito ser o caso aqui, com um “homem invisível” e sem nome que simboliza todos os negros vivendo numa sociedade racista), é…

As cinco (ou seis) regras de Updike
NoMínimo / 04/02/2009

Dias de luto por John Updike, trezentas mil reportagens e artigos pipocando na internet, eu – que nunca fui fã do ficcionista, que li de forma incipiente e há muito tempo – me lembrei das ótimas (e pouco observadas) cinco regras para uma boa crítica jornalística que ele, resenhista prolífico, escreveu há décadas. Faz uns dois anos que esbarrei com elas e nunca esqueci. Resumindo (a íntegra, em inglês, pode ser lida aqui), trata-se do seguinte: 1. Tente entender o que o autor quis fazer, e não o culpe por não conseguir fazer aquilo que não tentou. 2. Transcreva trechos da prosa do livro em extensão suficiente – pelo menos uma passagem mais longa – para que o leitor da resenha possa formar sua própria impressão. 3. Confirme sua descrição do livro com uma citação do próprio, mesmo que só uma frase, em vez de fazer apenas um resumo vago. 4. Vá devagar com o resumo da trama, e não entregue o fim. 5. Se o livro for considerado deficiente, cite um exemplo bem-sucedido de outro que vá na mesma linha, seja ele tirado da obra do mesmo autor ou de outro. Tente compreender o fracasso. Tem certeza de que…

Millôr e o presidente do Senado
NoMínimo / 03/02/2009

Em homenagem à eleição de José Sarney para a presidência do Senado, tomo a iniciativa de republicar, para refrescar a memória das velhas gerações e implantar memórias fresquinhas nas novas, um dos textos em que, em 1988, em seu “quadrado” no “Jornal do Brasil”, Millôr Fernandes dissecou o livro “Brejal dos Guajas”, do imortal maranhense. Millôr não ficou nisso: a série crítica completa pode ser lida aqui. As opiniões divergem. Alguns brilhantes e cultos intelectuais (…) afirmam, audaciosamente, que Brejal dos Guajas é um livro. Eu garanto que não. É uma anedotinha “socialzinha” tolinha (já contada mais de um milhão de vezes) da briguinha de dois coroneizinhos de uma cidadezinha perdidinha no interiorzinho do Maranhão. O autor deve ter lido umas 20 páginas de Jorge Amado (Marli, que socialismo!) e umas cinco de Guimarães Rosa (Zezinho, que linguagem! E que difícil, Murilo!) e isso, claro, lhe causou uma indigestão na cabeça. Reacionário desde sempre, deve ter achado fascinante e lucrativo ser um escritor do povo. Sem jamais ter entendido a realidade em volta, naturalmente fundiu diante do realismo mágico. Incapaz de juntar sujeito e predicado em português escolar, se perdeu na aventura da linguagem que é Guimarães Rosa – e…

Começos inesquecíveis: Roberto Bolaño

2 de novembro Fui cordialmente convidado a fazer parte do realismo visceral. Claro que aceitei. Não houve cerimônia de iniciação. Melhor assim. 3 de novembro Não sei muito bem em que consiste o realismo visceral. Tenho dezessete anos, meu nome é Juan García Madero, estou no primeiro semestre de Direito. Não queria estudar Direito, e sim Letras, mas meu tio insistiu e acabei cedendo. Sou órfão. Serei advogado. Foi o que disse ao meu tio e à minha tia, depois me tranquei no quarto e chorei a noite inteira. Assim, com uma piadinha simples (“claro que aceitei”, “não sei em que consiste”) e no embalo aparentemente despretensioso do diário juvenil de Madero, aspirante a poeta, o leitor é suavemente puxado pela mão para dentro do monumental turbilhão de vozes e tramas que torna o romance “Os detetives selvagens” (Companhia das Letras, 2006, tradução de Eduardo Brandão), do chileno Roberto Bolaño, uma das obras fundamentais da literatura contemporânea.

Sei lá, mil livros… (II)
NoMínimo / 30/01/2009

Crise séria no mercado editorial turco, o secretário-geral do sindicato nacional dos escritores aparece com uma proposta que, embora pareça fadada a ser ignorada pelo governo de lá, tem tudo para frutificar em certos setores da literatura brasileira: “Poderia ser um primeiro passo se o ministério (da Cultura) comprasse mil exemplares de cada livro publicado”. Atenção, isso é só uma notícia: depois não vão dizer que eu dei a idéia. Via blog de livros da “New Yorker”.

Prefácio do autor à edição portuguesa
NoMínimo / 29/01/2009

“Tudo aquilo que o malandro pronuncia com voz macia é brasileiro, já passou de português.” Assim cantava o grande Noel Rosa, um dos gênios da música brasileira, num samba-crônica dos anos 1930 chamado Não tem tradução. Apesar dos óbvios pontos de contato entre a canção – que diz a certa altura que “as rimas do samba não são I love you” – e o livro que você tem em mãos, não foram tais semelhanças que trouxeram o velho sambista para esta página. Noel está aqui para ser publicamente desautorizado diante do leitor lusitano. Porque o idioma falado no Brasil é o português, ponto. Um português à brasileira, claro, como não podia deixar de ser. No entanto, com todas todas as suas liberdades, ousadias, alfinetes espetados no umbigo, influências indígenas e africanas, plasticidade dos pronomes e paixão pelas vogais, nunca “passou de português” e não creio que algum dia passará. E por que deveria? Se a língua de Fernando Pessoa é estrangeira para mim, então já não sei quem sou – “fico sem poder ligar ser, idéia, alma de nome a mim, à terra e aos céus”. Da língua de Luís de Camões, com seus gerúndios de sabor tão brasileiro quanto…

John Updike (1932-2009)
NoMínimo / 27/01/2009

A morte de John Updike, hoje, aos 76 anos, de câncer no pulmão, deixa Philip Roth como o último remanescente dos Grandes Machos Narcisistas (obrigado, David Foster Wallace) que dominaram a literatura americana na segunda metade do século 20: Norman Mailer, morto em novembro de 2007, era o terceiro da trinca. Prosador excepcional e romancista por excelência do subúrbio americano, o narigudo Updike passou a vida criando alter egos mal disfarçados como Henry Bech e Rabbit Angstrom, homens solitários – ainda que às vezes (mal) casados – fixados em sexo. Escritor prolífico, foi também presença constante na imprensa como crítico literário. Dos cerca de cinqüenta livros que publicou, a Companhia das Letras tem 14 em catálogo. O mais recente deles, lançado ano passado, é “Cidadezinhas”. Aqui, em inglês, mediante cadastro gratuito, o obituário do “New York Times”.

Sei lá, mil livros…
NoMínimo / 27/01/2009

Quem gosta de se sentir angustiado ao contemplar toda a montanha de livros que ainda não leu vai se divertir, mesmo que perversamente, com a lista de mil romances que “todo mundo precisa ler” publicada pelo “Guardian” na semana passada (em inglês, acesso gratuito). Bobagem, claro, como toda lista do gênero. A própria idéia de que existam mil livros de leitura “obrigatória” é absurda – seja porque, como diria Nelson Rodrigues, bastam dois ou três, seja porque a relação de cada leitor deve ser sempre profundamente pessoal e idiossincrática, sob pena de ser tão vazia quanto aquelas lombadas decorativas em estante de novo-rico. Mas vale uma olhada. Dividida em categorias temáticas, a relação exige fôlego do leitor, mas tem lá suas compensações. Como encontrar “Dom Casmurro” na prateleira Amor e “Grande sertão: veredas” na rubrica Guerra e viagem. Ou constatar que José Saramago só comparece com “Ensaio sobre a cegueira”, o que faz pensar sobre o papel espúrio desempenhado pelo celulóide numa lista que deveria ser só de celulose. Ou ainda ficar perplexo diante de nomes obscuríssimos (talvez apenas para o leitor brasileiro ou quem sabe para mim, acho que não importa muito nesse caso) e, naturalmente, imaginar quais são…

Começos inesquecíveis: Cormac McCarthy

Mandei um garoto para a câmara de gás em Huntsville. Foi só um. Eu prendi e testemunhei contra ele. Fui até lá conversar com ele duas ou três vezes. Três vezes. A última foi no dia da execução. Eu não tinha que ir, mas fui. Claro que não queria ir. Ele tinha matado uma garota de catorze anos e posso te dizer hoje que nunca tive muita vontade de conversar com ele, muito menos de ir à sua execução, mas fui. Os jornais diziam que tinha sido crime passional e ele me disse que não havia paixão nenhuma naquilo. Andava saindo com essa garota, mesmo tão jovem como ela era. Ele tinha dezenove. E me disse que estava planejando matar alguém desde quando era capaz de se lembrar. Disse que se o soltassem ia fazer de novo. Disse que sabia que ia para o inferno. Disse isso para mim com sua própria boca. Não sei o que pensar disso. Não sei mesmo. Achei que nunca tinha visto uma pessoa assim e fiquei me perguntando se ele seria de uma nova espécie. Fiquei observando enquanto amarravam ele no assento e fechavam a porta. Ele talvez parecesse um pouco nervoso, mas era…

Enquanto o lobo não vem
NoMínimo / 22/01/2009

Depois de orgulhosamente confirmar as presenças de Carlos Fuentes e do historiador Simon Schama, a organização da Flip anuncia seu (provavelmente) maior trunfo, o português António (com acento agudo, pois não?) Lobo Antunes. Recluso, mal-humorado, irascível, o lobo solitário que escreve a prosa mais luxuriantemente musical do português contemporâneo costuma ser confrontado com seu compatriota José Saramago por quem acredita que só pode haver um vencedor nas batalhas infinitas da literatura. Eu, que não concordo com essa bobagem, só posso adiantar que a festa deste ano em Parati está ficando imperdível.

É grave a crise
NoMínimo / 21/01/2009

Quem assina a epígrafe desse convite virtual, com a venerável chancela da PUC-RJ, é a escritora brasileira Clarisse (sic) Lispector. O lado bom é que pelo menos acertaram o sobrenome. Não faltam Clarisses Linspector por aí.

Internet, diálogos e monólogos
NoMínimo / 20/01/2009

As possibilidades democratizantes da internet estão acelerando a degeneração da esfera pública numa proliferação de nódulos insulares, cada um combatendo uma guerra que nunca poderá ser vencida. Não se vencem nem se perdem batalhas na rede. O que resta é uma política solipsista de EU, EU, EU: meus pontos de vista, minhas verdades, meus fatos, minha dor, minha raiva. Convencer os outros e mudar o mundo ficou esquecido em favor da perpetuação da perspectiva individual. O artigo escrito a quatro mãos por Keith Kahn-Harris e David Hayes para o Open Democracy (em inglês, acesso gratuito) parte da guerra virtual que Gaza acirrou, mas acaba tocando em alguns pontos que dizem respeito aos “debates de idéias” em geral na internet. Quem ainda não sentiu um profundo desalento e achou que perdia seu precioso tempo diante de uma discussão internética típica, ou seja, tão cheia de ofensas e certezas inabaláveis de parte a parte quanto vazia de argumentos? Mesmo aqui no Todoprosa, com suas taxas de civilidade muito acima da média, de vez em quando temos uma amostra do que parece ser uma – paradoxal? – vocação do meio para os múltiplos monólogos paralelos. A solução? Sei lá. Só não acredito que…

Começos inesquecíveis: Carlos Heitor Cony

Positivamente, meu irmão foi acima de tudo um torturado. Sua tortura seria interessante se eu a explorasse com critério – mas jamais me preocupei com problemas do espírito. Belo para mim é um bife com batatas fritas ou um par de coxas macias. Não sou lido tampouco. A única atração que tive por livro limitou-se à ilustração de um tratado de educação sexual que o vigário do Lins fez o pai comprar para nosso espiritual proveito. Uma mulher nua, devorada por cobras e chamas, nas profundezas do inferno. Segundo o texto, era essa a imagem da luxúria e demais safadezas que atentam de uma forma ou outra contra os mandamentos da Santa Lei de Deus. O livro fez sucesso em nossas mãos. Cometeu-se muita masturbação por causa dele – algumas páginas ficaram emporcalhadas. Se não cheguei a tanto não foi culpa da mulher, bem merecia o pecado, culpa das cobras, sempre me inspiraram repugnância. Só creio naquilo que possa ser atingido pelo meu cuspe. O resto é cristianismo e pobreza de espírito. Assim começa “O ventre” (Alfaguara, 2008, 12.ª edição), romance de estréia de Carlos Heitor Cony, escrito em 1955 e finalmente publicado em 1958 pela Civilização Brasileira. É impressionante…

Salada da casa
NoMínimo / 16/01/2009

A Flip anuncia a vinda do escritor mexicano (nascido no Panamá) Carlos Fuentes, de 80 anos. Pela importância histórica, um cachorro grande em Parati. * Khaled Hosseini e Ken Follett foram os autores mais lidos do ano passado, numa consolidação das listas de mais vendidos de nove países (de fora da Europa, só EUA e China). Paulo Coelho aparece em vigésimo lugar. * “Cada sentença é tão simples e verdadeira quanto o sangue.” Hã? O nível estilístico não é grande coisa, mas o entusiasmo do crítico por The taker and other stories, de Rubem Fonseca (uma coletânea americana pinçada de diversos livros e puxada por “O cobrador”, com tradução de Clifford E. Landers), vale a leitura do texto publicado este mês na revista eletrônica Words Without Borders. * Da editoria de bizarrices divertidas: quando você imaginou que veria Gustave Flaubert lendo um trecho de “Madame Bovary”? E tem muitas outras animações (toscas, mas…) com escritores mortos de onde saiu esta. * Michel Laub voltou a blogar, o que é ótimo. Mas prefere se abster de juízos sobre autores nacionais – o que é compreensível e talvez até sábio, mas uma pena assim mesmo.

Shakespeare no iPhone
NoMínimo / 14/01/2009

E enquanto os smartphones se tornam mais disseminados, em parte graças à popularidade do iPhone da Apple, também se espalham as ferramentas que facilitam para o usuário a tarefa de baixar um livro por uma fração do custo de adquiri-lo de outra forma. Usuários do iPhone e de seu primo, o iPod touch, baixaram as obras reunidas de William Shakespeare mais de 300 mil vezes da loja virtual iTunes, de acordo com a Readdle, a empresa novata baseada na Ucrânia que criou o aplicativo gratuito que torna isso possível. A seção de livros conta com cerca de setecentos títulos; sozinha, a Apple oferece também 72 audiolivros. Na guerra dos leitores eletrônicos, a tela pequena do iPhone não parece ter munição para enfrentar a do Kindle ou similares, mas há quem acredite que a multifuncionalidade do aparelho vai compensar tudo isso – como andamos comentando aqui em julho do ano passado. O artigo recente (em inglês, acesso livre) de Olga Kharif, da “BusinessWeek”, de onde foi extraído o trecho acima, reforça essa tese. Não deve ser por outra razão que editoras graúdas como Random House e Simon & Schuster estão entrando na onda. Não, eu não tenho um iPhone (ainda?) nem…

A literatura e o sonho
NoMínimo / 13/01/2009

Você já sonhou que estava dentro de um livro, vivendo aquela história? Ou fora do livro, mas convivendo com seu autor? Chas Newkey-Burden, que escreve no blog de livros do “Guardian”, jura que já, e os comentaristas que reagiram à sua provocação sugerem que o fenômeno é menos raro do que eu imaginaria. O sujeito conta que foi a julgamento em “O sol é para todos”, tomou porrancas épicas com os personagens de Kingsley Amis e até esquiou em companhia de Shakespeare. Confesso que isso me deixou bem desconcertado. Que eu me lembre, e apesar de tudo o que já li, os sonhos nunca me levaram para dentro de livro nenhum. Será uma falha de caráter? De imaginação? Nesse departamento onírico-literário, mas em chave bem diferente, o máximo que eu posso relatar é o fato de ter escrito um romance inteiro num sonho especialmente realista e detalhado em que a felicidade que se seguiu ao ponto final (o livro era muito bom) foi proporcional à infelicidade de acordar e me descobrir incapaz de recordar uma única frase da obra-prima. Nada mais. O que é uma pena. Deve ser uma experiência e tanto perambular por Paris à procura da Maga. Ou,…

EPÍGRAFE
NoMínimo / 03/01/2009

“Não me diga que a lua está brilhando; mostre-me o seu reflexo num caco de vidro.” ANTON TCHECOV

Enquanto 2008 agoniza
NoMínimo / 29/12/2008

Antes que o ano vire, transformando o talão de cheques numa armadilha para o automatismo da mão apegada ao passado recente e, em sábia compensação, tornando cada vez mais raro à medida que o século envelhece o próprio uso desse mico-leão-dourado analógico chamado talão de cheques; Antes, portanto, que seja tarde demais para dar a uma frase longa e convulsa como a do parágrafo anterior o desconto do urgente espírito retrospectivo impressionista que baixa todo fim de ano sobre escribas dos mais variados estilos e confissões; Antes, enfim, que estourem fogos e rolhas e sacos, declare-se aqui com a clareza permitida pela ressaca do último espumante que, das leituras que fiz em 2008, não só o já mencionado “Austerlitz” merece citação nominal pela capacidade de se manter na memória; Pois haveria grande injustiça em não lembrar livros como “Sem sangue” (Companhia das Letras), de Alessandro Baricco, e “Black music” (Objetiva), de Arthur Dapieve, duas novelas curtas tão diferentes e ao mesmo tempo tão curiosamente conectadas, com seu recheio de violência extrema e suas cenas finais de sexo carregadas de uma simbologia estranha, de uma luz triste mas ainda redentora – no caso do italiano, a cópula reinventada como agridoce vingança;…

O trema vai-se tranquilamente
NoMínimo / 26/12/2008

Fique tranquilo: não são tão frequentes assim as palavras que têm sua grafia alterada pelo novo acordo da língua portuguesa, que estreia oficialmente na virada do ano. Se a ideia o deixa paranoico, temendo uma sequência de erros que acabe em quiproquó, recomenda-se aguentar firme. Um parágrafo como este, com seus oito exemplos de alteração em poucas linhas, seria um acidente raro se não fosse deliberado. Dos exemplos acima, a maioria tem a ver com a morte do trema. Abolido em Portugal desde 1946, esse sinal diacrítico tem seus simpatizantes, mas representa o menor dos problemas que aguardam os brasileiros nessa fase de transição ortográfica. Isso porque se trata de uma regra cristalina e, sobretudo, sem exceção: cinquenta, linguiça, delinquente, equidade, sequestrador… Basta abolir os dois pontinhos horizontais de tudo (menos, claro, de vocábulos estrangeiros, que estão sujeitos a outras regras) que não há como errar. Vale lembrar que a pronúncia dessas palavras permanece a que sempre foi. A reforma é ortográfica, ou seja, limita-se à forma de escrever. Os demais exemplos do parágrafo de abertura se referem a outra mudança de impacto, no sentido de afetar um grande número de palavras, mas também de fácil assimilação por sua clareza….

Harold Pinter (1930-2008)
NoMínimo / 25/12/2008

O dramaturgo inglês Harold Pinter morreu ontem, de câncer, aos 78 anos. Nobel de Literatura de 2005, Pinter, muito doente, não pôde comparecer à cerimônia de premiação, mas gravou um discurso que foi exibido em Estocolmo. Então ficou claro que a saúde debilitada não tinha enfraquecido sua combatividade. O discurso incluía este irônico monólogo para George W. Bush – que àquela altura, convém lembrar, ainda tinha pencas de defensores ferrenhos por aí: Deus é bom. Deus é ótimo. Deus é bom. O meu Deus é bom. O deus de Bin Laden é mau. É mau o deus dele. O deus de Saddam também era mau, a não ser pelo fato de que ele não tinha um. Ele era um bárbaro. Nós não somos bárbaros. Nós não cortamos cabeças. Nós acreditamos na liberdade. Deus também. Eu não sou um bárbaro. Sou o líder democraticamente eleito de uma democracia que ama a liberdade. Somos uma sociedade compassiva. Aplicamos eletrocussões compassivas e injeções letais compassivas. Por mais que seja revoltante confrontar dessa forma um dos grandes escritores do século 20 com um anão moral, não deixa de ser tentador pensar que, agora que Bush está (espera-se) politicamente morto, Pinter pôde finalmente se deixar…

O Natal de Rubem Braga
NoMínimo / 23/12/2008

Às sete horas da noite, chegaram com os trapos encharcados de chuva a uma fazendinha. O temporal pegou-os na estrada e entre os trovões e relâmpagos a mulher dava gritos de dor. — Vai ser hoje, Faustino, Deus me acuda, vai ser hoje. O carreiro morava numa casinha de sapé, do outro lado da várzea. A casa do fazendeiro estava fechada, pois o capitão tinha ido para a cidade há dois dias. — Eu acho que o jeito… O carreiro apontou a estrebaria. A pequena família se arranjou lá de qualquer jeito junto de uma vaca e um burro. O “Conto de Natal” do maior cronista brasileiro está muito longe de ser daqueles que aquecem o coração. Mas é bom. Feita essa advertência, clique aqui se quiser ler a história inteira, publicada no site Releituras. Feliz Natal.

O ano de Sebald
NoMínimo / 22/12/2008

Eu tinha decidido não fazer uma retrospectiva este ano – não uma convencional, pelo menos, daquele tipo que elege os três ou cinco ou dez melhores livros que me passaram pelos olhos entre janeiro e dezembro. E não só porque o formato me parece meio cansado, mas porque 2008 para mim foi um ano de leituras atípicas. Li muito, mas de forma dirigida e sobretudo obras de não-ficção, como pesquisa para o romance histórico que estava escrevendo. O resultado foi que boa parte dos romances e contos que teriam me interessado em condições normais engarrafou numa fila monumental. Foi o convite do Daniel Lopes, editor do Amálgama, que me obrigou a revirar a memória para buscar o livro mais marcante que li em 2008 – e só então descobri que o ânimo retrospectivo que assola a imprensa todo fim de ano tem lá sua razão de ser. Sem essa pauta, acho que eu não teria me tocado de algo que parece, mais que óbvio, necessário: meu romance (agora pronto) não passou o ano cercado apenas de velhos volumes de História e montanhas de recortes de jornal. Reproduzo abaixo o textinho que saiu hoje no Amálgama. Para ler as indicações dos…

Começos inesquecíveis: Jonathan Littell

Irmãos humanos, permitam-me contar como tudo aconteceu. Não somos seus irmãos, vocês responderão, e não queremos saber. É bem verdade que se trata de uma história sombria, mas também edificante, um verdadeiro conto moral, garanto a vocês. Corre o risco de ser um pouco longa, afinal aconteceram muitas coisas, mas, se calhar de não estarem com muita pressa, com um pouco de sorte arranjarão tempo. Além do mais, isso lhes diz respeito: vocês verão efetivamente que lhes diz respeito. A voz metálica de Max Aue, o ex-nazista monstruoso – mas, ele tem razão, humano – que carrega uma história “um pouco longa” de 900 páginas e 6 milhões de mortos para contar, preenche o início de “As Benevolentes” (Alfaguara, 2007, tradução de André Telles), de Jonathan Littell, com uma ressonância sinistra que, entre modulações mais ou menos violentas, persiste até o fim. Quem se interessar em saber mais sobre o romance, um grande livro grande, pode ler a resenha que publiquei na época aqui.

O ‘talk show’ de Philip Roth
NoMínimo / 19/12/2008

Desconfio das palavras “pessimismo” e “otimismo” – diz Milan Kundera. – Um romance não afirma nada; ele busca e formula questões. Não sei se minha nação vai morrer e não sei qual dos meus personagens tem razão. Eu invento histórias, ponho uma em confronto com a outra, e dessa maneira faço perguntas. A burrice das pessoas vem de elas terem uma resposta para tudo. A sabedoria do romance vem de ele ter uma pergunta para tudo. Quando dom Quixote saiu pelo mundo afora, esse mundo se transformou num mistério diante de seus olhos. É esse o legado que o primeiro romance europeu deixou para toda a história subseqüente do romance. O romancista ensina o leitor a compreender o mundo como uma pergunta. Nessa atitude há sabedoria e tolerância. Num mundo baseado em certezas sacrossantas, o romance morre. O mundo totalitário – seja ele baseado em Marx, no Islã ou em qualquer outra coisa – é um mundo de respostas e não de perguntas. Seja como for, creio que em todo o mundo as pessoas hoje em dia preferem julgar e não compreender, responder e não perguntar, de modo que a voz do romance é difícil de ouvir em meio a…

Fala, Nabokov
NoMínimo / 17/12/2008

Presente de Natal do YouTube, esse Papai Noel moderno: Vladimir Nabokov falando longamente de literatura em seu inglês de forte sotaque russo num documentário narrado em francês (via Omnivoracious, o blog da Amazon). Além de ler as primeiras linhas de “Lolita” em seu idioma natal e naquele que adotou, o grande escritor despeja diante da câmera, com uma marra monumental que me pareceu temperada por uma leve mas inequívoca sugestão de molecagem, strong opinions mais devastadoras que as de qualquer personagem de Coetzee. Como estas: Fico perplexo e me divirto com as idéias fabricadas sobre supostos “grandes livros”. Que, por exemplo, o asinino “Morte em Veneza”, de Mann; o melodramático e pessimamente escrito “Doutor Jivago”, de Pasternak; ou as crônicas caipiras de Faulkner possam ser considerados obras-primas, ou pelo menos aquilo que os jornalistas chamam de “grandes livros”, é para mim o mesmo tipo de ilusão de quando uma pessoa hipnotizada faz amor com uma cadeira. Nunca é demais lembrar: ano que vem a Alfaguara brasileira participa do lançamento mundial de The original of Laura, um Nabokov inédito.

A cidade dos livros
NoMínimo / 15/12/2008

É bem bonitinha essa animação – uma cidade toda feita de livros, pela qual transitam personagens de papel – que o selo editorial americano Fourth Estate, da HarperCollins, lançou na internet para comemorar seus 25 anos. (Dica do blog de livros da “New Yorker”, que recomenda o filminho para quem anda cabisbaixo com a morte anunciada do livro de papel.)

Começos inesquecíveis: Raduan Nassar

Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo; eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão interiorana, quando meu irmão chegou para me levar de volta; minha mão, pouco antes dinâmica e em dura disciplina, percorria vagarosa a pele molhada do meu corpo, as pontas dos meus dedos tocavam cheias de veneno a penugem incipiente do meu peito ainda quente; (…) Nunca, na literatura brasileira, teve a velha quiromania, o onanismo, a punheta, o cinco-contra-um tratamento verbal tão suntuoso quanto no início – aqui em corte arbitrário, pois os pontos-e-vírgulas ainda vão longe – do romance “Lavoura arcaica” (Companhia das Letras, 3a. edição, 1989), obra-prima publicada em 1975 por Raduan Nassar.

Soa o apito final
NoMínimo / 11/12/2008

Encerra-se aqui, pelo menos para este blog, o capítulo da Copa de Literatura Brasileira 2008. E se encerra com festa. Saiu hoje o resultado da final: “O filho eterno” 11 x 3 “O dia Mastroianni”. A festa fica por conta da orgia de opiniões que o formato da competição proporciona, com todos os juízes (bom, quase todos) entrando em campo ao mesmo tempo para justificar seus votos. Todas as atrações do circo estão lá, numa diversidade bonita de ver. Melhor ainda quando se constata que, no balanço final, o ambiente conserva uma sanidade básica, que também pode ser chamada de inteligência coletiva. Por mais que se deva – e se deve mesmo – desconfiar das consagrações unânimes, se o grande livro de Cristovão Tezza deixasse de levar mais esse “título”, perdendo para o livrinho apenas bom de João Paulo Cuenca, haveria motivo de preocupação. Houve até um bônus inesperado: Nelson de Oliveira compareceu mais sério, suando a camisa de árbitro, em contraste dramático com sua primeira atuação na Copa. Enfim, não sei se isso tem a ver com o efeito embriagante de toda festa, mas termino minha participação na CLB com vontade de retocar as críticas à edição deste ano…

Millôr, o trocadilho e a barguilha
NoMínimo / 09/12/2008

A entrevista que fiz com Millôr Fernandes para a “Bravo!” deste mês – e que pode ser lida no site da revista – deixou de incluir, por razões de espaço, algumas histórias impagáveis do genial humorista-escritor-desenhista-dramaturgo-e-o-escambau. Felizmente, os cinco minutos e pouco de conversa que estão disponíveis em arquivo sonoro no site incluem, entre outras delícias, uma veemente defesa milloriana do trocadilho da qual consta esta frase que o crítico literário Agrippino Grieco endereçou a seu desafeto Menotti del Picchia: Menotti del Picchia, fecha a barguilha do teu nome!

Começos inesquecíveis: James Ellroy

Jamais a conheci em vida. Ela existe para mim através dos outros, como prova dos caminhos em que a sua morte os lançou. Voltando ao passado, buscando apenas fatos, eu a reconstruí como uma menina triste e uma prostituta, quando muito alguém-que-poderia-ter-sido, rótulo que também poderia se aplicar a mim. Gostaria de lhe ter concedido um final anônimo, de tê-la relegado a breves palavras de detetive, num relatório sumário de homicídio, com cópia carbono para o legista, e mais papelada para enterrá-la em vala comum. O único erro em relação a esse desejo é que ela não teria gostado que fosse assim. Por mais brutais que sejam os fatos, ela gostaria que fossem todos revelados. E como lhe devo muito e sou o único que sabe a história inteira, incumbi-me de escrever essas memórias. Dois começos em um: o de “Dália negra” (Record, 2006, tradução de Cláudia Sant’Ana Martins), romance lançado em 1987, e o da carreira brilhante de James Ellroy, um escritor que, embora a tentação seja grande, não dá para enfiar no escaninho “policial” – pelo menos não sem esquartejá-lo antes.

Valêncio Xavier (1933-2008)
NoMínimo / 05/12/2008

Nenhuma outra experiência de aliar imagem e texto foi tão contundente na literatura brasileira quanto a de Valêncio Xavier. O autor de O Mez da Grippe (1981) e de várias outras histórias morreu às 11h30 da manhã desta sexta-feira (5) devido a complicações ligadas a uma pneumonia. Ele tinha 75 anos e passou 82 dias internado no Hospital São Lucas, mais da metade deles na Unidade de Tratamento Intensivo. Notícia da “Gazeta do Povo”, de Curitiba, que pode ser lida na íntegra aqui. Curitibano nascido em São Paulo, Valêncio Xavier Niculitcheff era um desses escritores radicais para quem o texto linear seria uma camisa-de-força. Mais – ou menos – que um experimentalista, era um brincalhão, um Homo ludens atraído tanto pelo trágico quanto pelo cômico. Quando descobri aquelas charmosas fotos antigas que W.G. Sebald mistura à sua ficção, a primeira coisa que pensei foi: “Já vi isso em algum lugar, mas era diferente”. Sim, era diferente: as fotos vinham ao lado de reclames antigos de jornal e velhos postais na literatura fragmentada de Valêncio Xavier. Para quem ainda não o conhece, uma boa porta de entrada é a bela edição que reúne “Minha mãe morrendo” e “O menino mentido”, lançada…

Se Tezza fosse afegão
NoMínimo / 04/12/2008

Os leitores deste blog sabem que sou um fã de primeira hora de “O filho eterno”, de Cristovão Tezza. Nessa condição, é claro que me alegra o balaio de prêmios que ele angariou num desempenho que, em minha memória, não tem paralelo – o único que ameaçou chegar perto foi Milton Hatoum. Verdade que os prêmios, mesmo tendo acertado este ano, não são uma medida lá muito rigorosa de qualidade: erram à beça, freqüentemente traem motivações mais políticas que estéticas, isso todo mundo sabe. Mas não é menos verdade que dão aos livros uma exposição que eles não costumam ter. Aí vem a má notícia, que tem me deixado pensativo: nem com esse massacre, digamos, esportivo – e o resultado da Copa de Literatura, o menos importante mas talvez o mais divertido dos prêmios, ainda nem saiu –, nem assim “O filho eterno” aparece nas principais listas de mais vendidos da imprensa brasileira. Nem ganhando tudo que um livro pode ganhar. E o que me parece ainda mais espantoso – nem mesmo tendo, na relação do autor/protagonista com seu filho Down, um tema de fortíssimo apelo, do tipo que costuma arrastar às livrarias uma massa de leitores mais interessados em…

Os livros vivos de Bournemouth
NoMínimo / 03/12/2008

A notícia do “Guardian” podia tanto estar na seção de literatura – como está – quanto na editoria que mais cresce em nossos tempos internéticos, a de esquisitices. Uma biblioteca pública de Bournemouth, cidade turística no sul da Inglaterra, está em campanha (em inglês, acesso gratuito) para que seus freqüentadores peguem emprestados “livros vivos”, isto é, pessoas com quem podem conversar. Entre as atrações atuais estão uma jovem muçulmana, uma mulher cega e uma pregadora batista, todas voluntárias. Com objetivos restritos à troca de idéias (ler na banheira ou fazer anotações nas margens, nem pensar), elas podem ficar à disposição do “leitor” por até uma hora. Trata-se da apoteose daquela velha crença popular: “Minha vida daria um livro”. Na quase totalidade das vezes, não daria nem um conto, quando muito um haicai. Por outro lado, chamar os conversadores de Bournemouth de “livros vivos” é obviamente usar uma metáfora – ainda que a metáfora seja bastante esticada pelo fato de tudo se passar numa biblioteca. Bater papo não é o mesmo que ler, mas bater papo, especialmente com pessoas imersas em culturas e experiências diferentes das nossas, é muito bom, pois não? Nada errado com a idéia. Descubro também que a…

Começos inesquecíveis: Virginia Woolf

Ele – pois não havia a menor dúvida a respeito de seu sexo, embora a moda da época contribuísse para dissimulá-lo – empenhava-se em desferir golpes de espada numa cabeça de mouro que pendia das vigas do teto. Faltava Virginia Woolf nesta seção. Não mais: eis a primeira frase do magnífico “Orlando”, romance publicado em 1928 (Grafton Press, 1986, tradução caseira). O gancho de suspense plantado ali entre os travessões só vai se explicar lá pelo meio do livro, quando Orlando acorda de um sono mórbido de dias: Ele se espreguiçou. Levantou-se. Ficou de pé diante de nós, inteiramente nu, e enquanto as trombetas ressoavam, Verdade! Verdade! Verdade!, não nos resta outra saída senão confessar – era uma mulher.

Vamos falar de sexo
NoMínimo / 27/11/2008

O Bad Sex Award, aquele prêmio britânico de gozação para o livro que contém a pior cena de sexo do ano, é um evento literário que o Todoprosa acompanha com atenção. A última edição foi das mais, digamos, excitantes, com a honraria conferida postumamente ao americano Norman Mailer por “O castelo na floresta”. Para quem não leu aqui na época ou não se lembra, o último romance de Mailer contém uma inacreditável descrição de trepada em que o narrador diz a certa altura, referindo-se ao membro (pouco) viril do personagem, que “titio estava tão mole quanto um rolo de excremento”. Um trecho maior da cena pode ser encontrado aqui. A má notícia é que o BSA 2008, divulgado esta semana em Londres, não teve o mesmo apelo: a vencedora, Rachel Johnson, é um nome de pouco peso por lá e inteiramente desconhecido entre nós. A boa é que, certamente cientes disso, os organizadores resolveram fugir do script e atribuir também um prêmio especial – pelo conjunto da obra, lifetime achievement – a John Updike. Fiquei pensando se haverá suficiente material em nosso mercado para sustentar uma versão brasileira do BSA. Suponho que sim, mas não tenho certeza. Conto com a…

Contra James Wood
NoMínimo / 26/11/2008

Mas, para além de suas preocupações teológicas, Wood nunca demonstra muito interesse naquilo que os romances querem dizer. Sua crítica oscila entre o plano mais aberto e o mais fechado, o desenvolvimento da técnica ficcional ao longo da história do romance e as particularidades miúdas do estilo autoral. Seu brilhantismo ao descrever ambos os quadros é inigualável, mas ele ignora praticamente tudo o que existe no meio do caminho. Ignora o amplo meio-campo da forma romanesca – estruturas narrativas, padrões de personagem e imagem, símbolos que conectam diferentes momentos e níveis de leitura num texto – e ignora os sentidos que os romancistas propõem por meio desses recursos. (Isso explica seus erros factuais e deslizes interpretativos; ele simplesmente não presta a devida atenção ao que está num determinado plano.) Wood pode discorrer sobre um narrador de Flaubert ou o estilo de Bellow, mas não se mostra muito curioso a respeito do que esses escritores têm a dizer sobre o mundo: sobre tédio, dor, morte ou qualquer outra coisa no vasto e estrelado universo da experiência humana. Agora que está na moda – e com algum fundamento, não se pode negar – considerar James Wood, da “New Yorker”, uma espécie de…

Vidraça
NoMínimo / 24/11/2008

Clique aqui para ler minha resenha na Copa de Literatura Brasileira, que aponta o primeiro finalista deste ano. Publicada agora há pouco, envolve “O dia Mastroianni”, de João Paulo Cuenca, e o repescado “Cão de cabelo”, de Mauro Sta. Cecília.

Começos inesquecíveis: Ernesto Sabato

Bastará dizer que sou Juan Pablo Castel, o pintor que matou María Iribarne; suponho que o processo esteja na lembrança de todos e que não seja necessário dar maiores explicações sobre minha pessoa. E assim, violentamente, entramos no túnel, ou melhor, em “O túnel” (Ballantine Books, edição bilíngüe, espanhol-inglês, 1988 – aqui em tradução da casa), romance lançado em 1948 pelo argentino Ernesto Sabato. Festejada por Albert Camus e geralmente classificada como “existencialista”, a narrativa seca e muitíssimo bem escrita do amor infeliz do misantropo Juan Pablo por María – “só existiu um ser que entendia minha pintura” – ainda conserva uma força sinistra. Luz no fim do túnel? Não tem nenhuma. A última frase, não menos inesquecível que a primeira, é prova disso: E os muros deste inferno serão, assim, cada dia mais herméticos.

A morte não é gramatical
NoMínimo / 21/11/2008

O Oxford Book of Death reúne “últimas palavras” famosas. Não sei muito bem por quê, mas achei as do escritor francês André Gide (1869-1951), aparentemente banais, de cortar o coração: Temo que minhas frases estejam ficando gramaticalmente incorretas.

Essa ironia que nos tiraniza
NoMínimo / 20/11/2008

Então como foi que a ironia, a irreverência e a rebeldia se tornaram debilitantes, em vez de libertadoras, na cultura sobre a qual a vanguarda de hoje tenta escrever? Uma pista pode ser encontrada no fato de que a ironia ainda está aí, maior do que nunca, depois de trinta anos como modo dominante de expressão dos artistas antenados. Não é um recurso retórico que envelheça bem. (…) Porque a ironia, embora prazerosa, tem uma função quase exclusivamente negativa. É crítica e destrutiva, boa para limpar o terreno. Com certeza era assim que nossos pais pós-modernos a viam. Mas é particularmente inútil quando se trata de construir alguma coisa para pôr no lugar das hipocrisias que expõe. (…) Eu acho perversamente divertido ouvir o discurso de ironistas talentosos em festinhas, mas sempre saio dali com a sensação de ter sido submetido a várias intervenções cirúrgicas radicais. Sem falar em atravessar o país de carro ao lado de um ironista talentoso, ou ler um romance de trezentas páginas em que não há nada além de sarcasmo espertinho, experiências que nos deixam não apenas vazios mas, de alguma forma… oprimidos. (…) Não há dúvida: a ironia nos tiraniza. A razão pela qual…

Beijos de língua em tempos bicudos
NoMínimo / 18/11/2008

Mario Vargas Llosa prevê (em inglês, acesso livre) uma fase áurea e “muito estimulante” para a literatura, agora que, em sua opinião, o mundo será inteiramente mudado por uma crise financeira que está “apenas começando”. O escritor peruano defende a tese de que “grandes traumas” estimulam a criatividade dos escritores. Isto é (ele não acrescentou, mas acrescento eu), dos que conseguem sobreviver. * Acho que não era bem isso que Vargas Llosa tinha em mente, mas, por ocorrer no meio do derretimento mundial da grana, tem provocado controvérsia no mercado editorial americano uma epidemia de adiantamentos milionários (em inglês, acesso livre) para humoristas da televisão. Tina Fey, a imitadora de Sarah Palin, levou 6 milhões de dólares por uma “coletânea de ensaios cômicos”. Sarah Silverman, aquela que “comeu o Matt Damon”, teve que se contentar com 2,5 milhões, mas especula-se que Jerry Seinfeld vai embolsar 7 milhões. * Leitura recomendada: Fome, de Knut Hamsun. (Mas também pode ser a do Tibor Moricz.)

O baú de Thomas Bernhard
NoMínimo / 13/11/2008

Baús de escritores devem ser esquecidos no sótão, pegando poeira? Bom, depende do escritor. Esta notícia do “Austrian Times” (via blog de livros da “New Yorker”) tem tudo para deixar muitos leitores em alvoroço: será lançado ano que vem um manuscrito inédito do celebradíssimo austríaco (nascido na Holanda) Thomas Bernhard. Escrito em 1980, nove anos antes da morte do autor, com o título de Meine Preise – “Meus prêmios” em tradução literal –, trata-se de um “texto em prosa” do autor de “Extinção”, “O náufrago” e “Origem”, todos lançados aqui pela Companhia das Letras. A nebulosa indicação de gênero dada pelo jornal não diminui a festa nas províncias bernhardistas. Não custa aproveitar a deixa para lembrar que, também no ano que vem, em setembro, o Brasil vai participar do lançamento mundial de The original of Laura, inédito de Vladimir Nabokov cuja publicação seu filho levou uma vida para autorizar, como já foi comentado aqui. A casa será a Alfaguara, novo endereço da obra de Nabokov em nosso país.

Afeganistão literário
NoMínimo / 12/11/2008

O prêmio Goncourt para o romance Syngué sabour, de Atiq Rahimi, anunciado segunda-feira, é a prova que faltava de que o atributo mais valioso para um escritor do Terceiro Mundo, hoje, é ser afegão. Exilado, claro. De Rahimi, li apenas a bela novelinha “Terra e cinzas”, lançada aqui em 2002 pela Estação Liberdade e mais tarde adaptada para o cinema por ele mesmo. O suficiente para saber que, nacionalidade da moda à parte, o sujeito é um escritor de verdade. A mesma editora publicou também, no ano seguinte, o romance “As mil casas do sonho e do terror”. Os dois livros ainda estão disponíveis nas livrarias online.

Carta aberta aos leitores da Copa
NoMínimo / 11/11/2008

Reproduzo aqui o comentário que publiquei no site da Copa de Literatura Brasileira, da qual sou um dos jurados este ano. Um reconhecimento de derrota que é ao mesmo tempo uma tentativa de salvar o que for possível. A luta continua. Caros, Enquanto minha resenha não vem (o que fazer, se já tinha me comprometido?), gostaria de explicar por que considero a Copa 2008 um fracasso. Divertida, pode ser, num sentido meio espírito-de-porco. Mas um desperdício e uma tristeza. Não é de hoje que o clima por aqui andava beirando o das torcidas organizadas, mas o fator decisivo para o bolo solar foi a não-resenha dadaísta de André Sant’Anna. Ao investir corajosamente contra uma cidadela imaginária, desconstruir o que está em farelos há décadas, ela ganha leituras como a de Isaac, entre tantas semelhantes – “todo julgamento é estúpido, tudo é válido, viva a liberdade total etc.” Topei participar da Copa porque via nela um belo fórum para provar – democraticamente, mas provar – justo o contrário. A saber: 1. Que precisamos reaprender a julgar, reencontrar uma linguagem comum para debater mérito. Devemos isso a nós mesmos e principalmente aos leitores. O preço do fracasso é a irrelevância. 2. Que…

Começos inesquecíveis: Ricardo Piglia

Dá uma história? Se dá, começa há três anos. Em abril de 1976, quando é publicado meu primeiro livro, ele me manda uma carta. Com a carta vem uma foto, eu no colo dele: nu, estou sorrindo, tenho três meses e pareço um sapinho. Ele, em compensação, saiu bem na fotografia: paletó cruzado, chapéu de aba fina, o sorriso franco – um homem de trinta anos que olha o mundo de frente. Ao fundo, apagada e quase fora de foco, aparece minha mãe, tão moça que no início quase não a reconheci. A foto é de 1941; atrás ele havia escrito a data e depois, como se quisesse orientar-me, transcreveu as duas linhas do poema inglês que agora serve de epígrafe a este relato. O começo do romance “Respiração artificial”, lançado em 1980 pelo crítico e ficcionista argentino Ricardo Piglia (Iluminuras, 2006, tradução de Heloísa Jahn), marca o fim – ou seria a suspensão temporária? – do clima de retrospectiva que tem dominado esta seção nos últimos meses. Os tais versos da epígrafe, que obrigam o leitor a voltar duas folhas rumo ao passado do volume, são de T.S. Eliot, do terceiro de seus “Quatro quartetos”, e estão em inglês…

Dos poderes da ficção
NoMínimo / 07/11/2008

A ficção é tão boa ou melhor do que estudos acadêmicos em “representar e comunicar as realidades do desenvolvimento internacional”, concluiu um estudo conjunto da Universidade de Manchester e da London School of Economics, segundo notícia publicada ontem pelo jornal “Daily Telegraph” – em inglês, acesso livre. O argumento é que a ficção (o que, para efeitos do estudo, inclui poesia e dramaturgia) “não é comprometida pelas questões de complexidade, política ou legibilidade que às vezes afetam a literatura acadêmica”. O romance “O caçador de pipas”, de Khaled Hosseini, um best-seller mundial, é citado como exemplo: teria feito “mais para educar os leitores ocidentais sobre as realidades da vida no Afeganistão sob o jugo dos talibãs e imediatamente depois do que qualquer campanha governamental de mídia, relatório de organização de direitos humanos ou pesquisa de ciência social”. Muita gente vai dizer que os caras endoidaram ou querem aparecer, com essa conclusão tão contrária à nossa era de crença suprema na ciência e nos “fatos”. Outros, lembrando que contar histórias sempre foi – e não tem por que deixar de ser – parte indissociável daquilo que fez da humanidade, humanidade, dirão que os pesquisadores ingleses estão redescobrindo a pólvora. Fico com…

Michael Crichton (1942-2008)
NoMínimo / 05/11/2008

A família acaba de anunciar que o escritor americano Michael Crichton, autor de best-sellers como “Jurassic Park” e “O enigma de Andrômeda”, morreu ontem de câncer, aos 66 anos. Leia aqui (em inglês, mediante cadastro) a notícia no site do “New York Times”. Crichton foi fartamente traduzido no Brasil, com livros lançados por diversas editoras, mas sobretudo pela Rocco. Nos últimos anos, sua carreira estava em declínio. Seu último livro, Next, lançado em 2006, foi mais comentado na imprensa americana por um detalhe nada lisonjeiro: incluía um covarde acerto de contas do autor com um jornalista que o criticara, e que aparece transformado em um personagem pedófilo. Na época, comentei o caso aqui no blog, concluindo: “Tudo indica que Crichton pirou”. Next saiu ano passado pela Rocco com o título de “Next: o futuro (bem) próximo”.

Como se não bastasse, Obama sabe escrever!
NoMínimo / 05/11/2008

Barack Obama tem tudo para ser um grande presidente porque escreve muito bem. No blog de livros do “Guardian” de hoje (em inglês, acesso gratuito), o escritor Rob Woodard admite que pode haver deformação profissional em julgamentos desse tipo, mas não o suficiente para fazê-lo descartar o raciocínio. Em busca de precedentes históricos, cita entre outros Abraham Lincoln, que teria sido, em sua opinião, “um dos maiores escritores de seu século”. Obama ainda não chegou lá, mas para Woodard seu primeiro livro, Dreams from my father: a story of race and inheritance, lançado em 1995, é “de longe o mais honesto, ousado e ambicioso volume publicado por um político americano de primeira linha nos últimos 50 anos”. Também acredito que haja deformação profissional nesse juízo, além de um tanto de euforia pela vitória histórica de Obama e, evidentemente, de zombaria com a notória limitação intelectual de George W. Bush. Feitas todas essas ressalvas, a idéia continua me parecendo interessante. Como se sabe, um dos requisitos para escrever bem – talvez o mais importante – é pensar com clareza, ou seja, mobilizar as idéias certas e articulá-las na ordem correta. O que não garante o sucesso de político algum, claro, mas…

‘Gente inteligente, de muito discernimento…’
NoMínimo / 03/11/2008

RASCUNHO: Recentemente, no blog do jornalista Sérgio Rodrigues, “Viva o povo brasileiro” foi o vencedor de uma enquete sobre o principal romance brasileiro dos últimos 25 anos. O sr. concorda com a votação ou escolheria outro livro? JOÃO UBALDO RIBEIRO: Uma pergunta dessa é novidade pra mim. Vou até anotar, porque gosto de elogio, gosto desse tipo de coisa (risos). Eu concordo (risos). Não sei se houve outro livro, é cedo pra dizer. É cedo e até pretensioso dizer, mas já que vocês perguntam e já que não tenho outros elementos, a não ser os que estão aqui na minha cabeça no momento, concordo com essa escolha, sim. Fico muito lisonjeado com ela. Acho que os leitores ou os freqüentadores, não sei como se diz, desse blog têm muito discernimento, são gente inteligente. E quero cumprimentar o Sérgio Rodrigues pela feliz e tão bem-sucedida iniciativa. Por meio desta, ficam oficialmente transmitidos os cumprimentos de João Ubaldo aos leitores do Todoprosa. Aqui e aqui, as notas sobre a enquete vencida por “Viva o povo brasileiro” ano passado – da qual participaram cinco dezenas de escritores, editores, críticos e jornalistas. Para ler a entrevista completa do vencedor do Prêmio Camões ao jornal…

Começos (ainda) inesquecíveis: Graciliano Ramos

Eis um belo exemplo de como (não) começar um livro. Publicado em 20/6/2006: Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho. Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira aceitou a pontuação, a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composição tipográfica; para a composição literária convidei Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, redator e diretor do Cruzeiro. Eu traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de agricultura e pecuária, faria as despesas e poria o meu nome na capa. “São Bernardo” (1934), de Graciliano Ramos (39a edição, Record, 1983).

Jabuti.com
NoMínimo / 31/10/2008

Uma boa novidade marca o aniversário de 50 anos do velho Jabuti: a solenidade de premiação, daqui a pouco, em São Paulo, poderá ser acompanhada em vídeo pela internet a partir das 19h30 neste link. Além da entrega de troféus aos três primeiros colocados de cada uma das vinte categorias do prolixo prêmio (o que bastaria para encher a Sala São Paulo), serão anunciados os Jabutizões para os dois livros realmente laureados – um de ficção e um de não-ficção. Cristovão Tezza já está se dirigindo para o local.

Por que Tezza ganhou o Portugal Telecom
NoMínimo / 30/10/2008

A vitória de Cristovão Tezza no Portugal Telecom, confirmada ontem à noite em São Paulo, foi uma das mais previsíveis da curta história do mais importante prêmio literário do país. Isso é chato? Não, isso é muito bom. Se, no método científico, a capacidade de sustentar previsões é prova fundamental da validade de uma teoria, no discurso sobre a literatura, que de científico não tem nada, previsões que se confirmam podem nos dar a sensação quase eufórica de que ainda somos capazes de falar a mesma língua após (ou no meio de?) um longo inverno de cada-um-por-si pós-modernista, com sua galeria de luminares que não dura(va)m mais que uma Flip, dois meses ou três quarteirões. Romance em que o experiente escritor catarinense, no auge da forma, se transforma em personagem para tematizar com coragem e sem pieguice sua relação com Felipe, seu filho com síndrome de Down, “O filho eterno” (Record, trecho aqui) foi, disparado, o livro brasileiro lançado em 2007 que equilibrou com maior sucesso os pinos malabares freqüentemente antagônicos da legibilidade (aquilo que ganha o público) e do rigor estético (aquilo que ganha a crítica); da alta voltagem emocional (que atrai leitores) e do trabalho maduro de linguagem…

Agora vai, né?
NoMínimo / 28/10/2008

Regozijai-vos, ó militantes do livro eletrônico! A apresentadora americana Oprah Winfrey decretou em seu programa de TV que o Kindle, o aparelho de leitura digital da Amazon, é uma maravilha: “Não sou uma pessoa de engenhocas eletrônicas, mas me apaixonei por esta aqui”. (Via blog de livros da “New Yorker”.) Depois que Oprah transformou Cormac McCarthy em best-seller, pôr um Kindle em cada lar americano não deve ser tão difícil.

A volta de uma pequena obra-prima
NoMínimo / 27/10/2008

Contos recontados – covers literários, talvez se possa chamá-los assim – por autores diversos para coletâneas comemorativas não estiveram em falta no recente centenário de Machado de Assis. É até possível que, no meio da oferta claramente excessiva, tenha passado despercebida uma ou outra maravilha que um dia, para o bem de nossa inteligência coletiva, teremos que aprender a valorizar. Mas pelo menos uma pepita eu posso apontar desde já com o maior entusiasmo: uma pequena obra-prima do conto chamada “Lembranças de dona Inácia”. Trata-se da parte que coube a Antonio Callado numa diversão a doze mãos intitulada “Missa do galo – Variações sobre o mesmo tema” (José Olympio, 112 páginas, R$ 24), uma coletânea que tem ainda histórias curtas de Autran Dourado, Julieta de Godoy Ladeira, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon e Osman Lins, todas baseadas no conto “Missa do galo”, um dos mais famosos de Machado. Lançado em 1977, o livro não se confunde com a recente supersafra machadiana – embora se deva à efeméride a bem-vinda reedição de um título esgotado. Se bem me lembro da leitura feita há anos, a qualidade média dos contos baseados na menos natalina das histórias de Natal é razoavelmente alta, mas…

Começos (ainda) inesquecíveis: Rodrigo Lacerda

Publicado em 10/12/2006: Eu, Valfredo Margarelon, subscrevo esta declaração no intuito de recolocar a justiça acima dos boatos e restaurar a fachada honrosa do brasão de minha família, sordidamente maculada por três elementos nocivos à ordem e aos bons costumes do reino inglês. Meu espírito simples, desabituado à lida com as palavras, vem a público para desmentir as ignominiosas calúnias feitas contra minha prima, Maria Margarelon, por um desclassificado de nome João Manningham, em conluio com o autor teatral Guilherme Shakespeare, integrante da companhia Homens do Lorde Camarista, e outro chamado Ricardo Burbage, ator na mesma companhia. Juntos, os três espalharam boatos deturpados e desonrosos, que alteram o curso da verdade e mancham a honra de minha prima e irmã de criação. Eu afirmo, perante Deus e a justiça real, que tais aleivosias nasceram de suas mentes imundas e tiveram divulgação a partir de tavernas e bordéis, sítios tão infectos quanto indecorosos. Provarei aqui como sua versão dos fatos é caluniosa, além de muito deturpada pela arrogância que caracteriza o círculo teatral e os que nele perambulam. O primeiro parágrafo anuncia com todas as letras a delícia que é a novelinha farsesca “O mistério do leão rampante” (Ateliê Editorial, 1995),…

Frente e verso
NoMínimo / 24/10/2008

A web acaba de ficar mais inteligente com duas adesões quase simultâneas ao mundo virtual: Tina Brown com sua revista eletrônica, The Daily Beast, e Lúcia Guimarães, ex-“Manhattan Connection”, com seu site. Ao mesmo tempo, para nos lembrar que a guerra vai ser longa e difícil, uma idéia brilhante como a da Copa de Literatura Brasileira, que teve início promissor ano passado, corre o risco de atolar na lama das torcidas organizadas.

Informação demais
NoMínimo / 23/10/2008

Autores que admiramos nunca devem ser tratados com intimidade excessiva – um risco sempre presente em nossa era de superinformação. Que Virginia Woolf, uma escritora e tanto, era também uma intelectual londrina enfarada e esnobe (com perdão da múltipla redundância) eu já sabia. Mas acho que preferia não ter ouvido isso corporificado em sua voz.

‘Seus ignorantes…’
NoMínimo / 21/10/2008

Sabe aquela guerrinha literária entre Europa e Estados Unidos, que a Academia Sueca abriu de forma um tanto cretina ao atacar os escritores da terra de Philip Roth? Pode estar se deslocando – o que, pensando bem, talvez estivesse nos planos europeus o tempo todo – para um campo de batalha mais interessante: o da lendária inapetência do mercado editorial de língua inglesa diante das traduções. Segundo um estudo da Universidade de Rochester citado pelo “New York Times”, apenas 2% dos lançamentos de literatura no mercado americano este ano são de livros traduzidos. Talvez estivesse faltando nesse conflito justamente um topete como o que desfilava Anne Solange, editora da Gallimard, na recém-encerrada Feira de Frankfurt. Encarregada de vender os direitos do nobelizado J-M.G. Le Clézio para outras línguas, a francesa se recusou de forma categórica a negociar seu último livro com editores de língua inglesa, temendo um lançamento meramente oportunista. Prefere esperar o aparecimento de uma editora que garanta um bom tratamento também aos títulos anteriores de Le Clézio. Sobre o assunto, Anne Solange deu esta antológica declaração (está no blog de livros do “Guardian”): Em Frankfurt, eles [Estados Unidos e Grã-Bretanha] subitamente se deram conta de sua insularidade. Eu…

Começos (ainda) inesquecíveis: James Joyce

Era uma vez um post publicado em 6/8/2007: * Era uma vez e uma vez muito boa mesmo uma vaquinha-mu que vinha andando pela estrada e a vaquinha-mu que vinha andando pela estrada encontrou um garotinho engrachadinho chamado bebê tico-taco. Seu pai lhe contava aquela história: seu pai olhava para ele através dos óculos; ele tinha um rosto peludo. Não deixa de ser uma prova de que não há palavras proibidas, apenas maior ou menor habilidade no uso delas, o fato de “Um retrato do artista quando jovem” (Alfaguara, 2006, com bela tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro), romance lançado por James Joyce em 1916, começar com a mais batida das fórmulas, “era uma vez” (once upon a time). Technorati Profile

De prêmios, jaguares e tigres
NoMínimo / 16/10/2008

O jornal português “Diário de Notícias” estranha o fato de não encontrar grande repercussão por aqui a vitória de um brasileiro na primeira edição do gordo prêmio da editora lusa Leya (para romance inédito, em português): A conquista do primeiro Prémio Leya pelo brasileiro Murillo António de Carvalho, autor do romance “O Rasto do Jaguar”, surpreendeu os portugueses. No seu país de origem a situação não foi muito diferente. É verdade que os sites dos principais jornais brasileiros referiram a vitória do seu conterrâneo, mas não deram grande destaque ao prémio. Durante a tarde de ontem, o DN tentou contactar alguns jornalistas brasileiros, que preferiram continuar anónimos, pois não conheciam sequer o escritor. Em declarações ao DN, José Menezes, o director de comunicação da Leya, admitiu que a vitória de um nome pouco sonante é uma mais valia para o novo título. No seu entender, “a possibilidade de qualquer pessoa ganhar o prémio”, no valor de 100 mil euros, é um dos aspectos mais interessantes. Fora o fato de que a matéria aproveita para estranhar também a supremacia dos brasileiros – que eram seis entre os finalistas, contra dois portugueses –, a recepção discreta me parece compreensível. Pouca gente conhece…

Asimov e o Nobel de Economia
NoMínimo / 15/10/2008

Esta é para fazer a festa daquela turma de freqüentadores do Todoprosa (Tibor e Saint-Clair à frente) que leva a sério a ficção científica – como ela merece ser levada mesmo, por mais que a dinâmica anti-renascentista do novo século, com sua ultracompartimentação do mundo em gôndolas de supermercado, tente trancafiar o gênero num gueto. Numa das entrevistas que deu à imprensa americana no dia em que foi anunciado seu Nobel de Economia, segunda-feira, o excelente Paul Krugman declarou o seguinte (via blog de livros da “New Yorker”) quando lhe perguntaram como tinha surgido a idéia de virar economista: Ah, é um pouquinho embaraçoso. Eu estava… Não sei quantos de seus espectadores assistem a ficção científica, lêem ficção científica, mas existe uma série muito antiga de livros do Isaac Asimov, “Fundação”, na qual os cientistas sociais que compreendem a verdadeira dinâmica da civilização a salvam. Era isso que eu queria ser. O que não existe, mas a economia é o mais perto que se pode chegar. Apenas como registro, embora nada tenha a ver com a notícia: li uns dois títulos de “Fundação” há vinte anos, não me perguntem quais, e achei de uma chatice intergaláctica. Mas cabe controvérsia, como…

Começos (ainda) inesquecíveis: Ernest Hemingway

Post publicado em 1/10/2006: * Robert Cohn fora campeão de boxe na categoria dos pesos-médios em Princeton. Não pensem que esse título me impressione. Mas significava muito para Cohn. Os jabs em seqüência com que Ernest Hemingway (1899-1961) abre seu primeiro romance, “O sol também se levanta” (Bertrand Brasil, 2001, tradução de Berenice Xavier), são mais do que o começo de um livro. Desferidos em 1926, quando o autor tinha 27 anos, marcam a fundação de um mito pessoal e outro coletivo, o da “geração perdida” de escritores americanos que viveram em Paris nos anos 20. Mas isso é marketing literário, não literatura. Importa mais reconhecer que a prosa do homem, tão seca que faz o adjetivo “seca” soar úmido, continua poderosa. Lamento que esteja meio demodê apreciá-la, mas sei que essas coisas de prestígio literário são cíclicas. Acho difícil que qualquer escritor, mesmo um de estilo barroco, diluvial, chegue muito longe se não tiver em algum momento da vida trocado com Hemingway uns golpes desses de quebrar o nariz – como Robert Cohn quebrou o dele.

O Nobel de Le Clézio e a regra idealista
NoMínimo / 09/10/2008

Se a notícia do Nobel de Literatura é recebida com certa frieza no Brasil, onde pouca gente leu o francês J-M. G. Le Clézio, 68 anos, a culpa desta vez não pode ser atribuída às editoras. A Brasiliense foi a pioneira, lançando “À procura do ouro” e o clássico “Deserto” – seu livro mais premiado. Depois vieram a Companhia das Letras, com “O peixe dourado” e “A quarentena”, e a Cosac Naify, com “O africano”. Revelado em 1963 com narrativas de caráter experimental, identificadas com a rebeldia intelectual da década, Le Clézio caminhou progressivamente nos anos seguintes para um terreno mais clássico, mas sempre teve seu nome associado a uma literatura refinada. O que, com alguma boa vontade, talvez ajude a entender o elogio desajeitado que lhe fez a Academia Sueca – “um explorador da humanidade além e abaixo da civilização atual”. Uma pesquisa feita em 1994 pela revista “Lire” revelou que 13% dos leitores franceses o consideravam o melhor escritor vivo da língua. Ou seja: Jean-Marie Gustave Le Clézio é um escritor de verdade, “além e abaixo” (como diria o Nobel) de qualquer dúvida. Se você nunca o leu, problema seu. É o meu caso. Quem tiver algum tipo…

Da série ‘Mark Twain tinha razão’
NoMínimo / 08/10/2008

Entraram em exposição há poucos dias num museu de Jerusalém 37 páginas saídas diretamente do inferno – tudo o que restou do diário do astronauta israelense Ilan Ramon, morto na explosão do ônibus espacial Columbia, em 2003. Ninguém sabe explicar como o caderno, encontrado em campo aberto no Texas, não virou fumaça como o resto da nave. Agora experimente pôr uma história como essa num romance, em chave realista, para ver o que acontece. Como disse o sábio Mark Twain: “Por que a verdade não seria mais estranha que a ficção? A ficção, afinal, tem que fazer sentido”.

Começos (ainda) inesquecíveis: Ivan Ângelo

Post publicado em 22/4/2007: Quem estivesse na praça da Estação na madrugada de hoje veria um nordestino moreno, de 53 anos, entrar com uns oitocentos flagelados no trem de madeira que os levaria de volta para o Nordeste. Veria os guardas, soldados e investigadores tangendo-os com energia mas sem violência para dentro dos vagões. E veria que em pouco mais de quarenta minutos estavam todos guardados dentro do trem, esperando apenas a ordem de partida. E, a menos que estivesse comprometido com os acontecimentos, não compreenderia como o fogo começou em quatro vagões ao mesmo tempo. Apenas veria que o fogo surgiu do lado de fora dos vagões, já forte, certamente provocado. Assim começa, pegando fogo literalmente e num tom de “jornalismo literário” que logo será explicitado, o romance “A festa”, lançado em 1976 pelo mineiro Ivan Ângelo (Summus Editorial, 4a edição, 1978). Na página seguinte, a explicação: “Trecho da reportagem que o diário ‘A Tarde’ suprimiu da cobertura dos acontecimentos da praça da Estação, na sua edição do dia 31 de março de 1970, atendendo solicitação da Polícia Federal, que alegou motivos de segurança nacional”. Forte candidato a melhor retrato literário do Brasil nos anos da ditadura militar e…

A literatura como coisa de doido, ou Adriana Calcanhotto
NoMínimo / 03/10/2008

Matéria de capa da Ilustrada de hoje revela (só para assinantes) que a excelente cantora Adriana Calcanhotto, por causa de um surto psicótico – induzido por medicamentos – que sofreu durante viagem a Portugal, descobriu-se escritora. Com objetivos terapêuticos, enquanto era sitiada por ataques de pânico e delírio, Adriana começou a escrever feito uma doida e quando reparou, olha só, tinha nas mãos um livro chamado “Saga lusa”. Um livro que está prestes a ser lançado por uma editora nanica. Adriana brinca, já se imaginando na Academia Brasileira de Letras, mas no fim volta a falar sério e decreta que a canção “é superior” à literatura. Tudo muito leve, divertido. Daria uma boa nota de coluna social, quem sabe até uma materinha de interesse humano, daquelas que os nacionalistas mais ferrenhos chamam de feature. Pena que, tendo ido parar no espaço nobre da capa da Ilustrada, o surto psicótico-logorréico de Adriana Calcanhotto em Portugal deixe de soar como uma anedota para se tornar sintoma de uma síndrome grave: a da transformação da arte, qualquer arte, num acessório cada vez mais desimportante – e às vezes até ridículo, merecedor de todos os achincalhes – no magnífico desfile da Fama. Vale a…

A hora do eremita?
NoMínimo / 02/10/2008

Sabe aquela tirada do sujeito do Nobel de que os escritores americanos não têm chance de ganhar o prêmio porque são “isolados demais” e “não participam do grande diálogo da literatura”? Ia comentar isso aqui, depois desisti. O que dizer? Certas afirmações são tão estúpidas que têm a capacidade de contaminar com sua burrice qualquer resposta, seja contra ou a favor. Em silêncio eu ficaria se não tivesse esbarrado há pouco num boato que, embora tenha um certo jeito de maluquice, ou talvez por isso mesmo, é a única coisa aproveitável que li em reação às declarações do síndico da Academia Sueca: todo esse antiamericanismo literário não passaria de um plano extremamente bem elaborado para desviar as atenções do fato de que J.D. Salinger é um dos favoritos ao prêmio este ano. Hein? Alguém mencionou “escritor isolado”?

Auto-Ajuda Picareta e Caricata (AAPC)
NoMínimo / 01/10/2008

Uma vez, falando aqui no blog sobre o escritor suíço (radicado em Londres) Alain de Botton, autor de “Como Proust pode mudar sua vida” (Rocco), eu disse que ele tinha praticamente inventado um novo gênero literário, que batizei de Auto-Ajuda Podre de Chique (AAPC). A leitura que se faz do gênero é a mesma da auto-ajuda mais rasteira, isto é, uma leitura utilitária: “Como este livro pode adiantar o meu lado?”. Ao mesmo tempo – eis o golpe de mestre – há uma aura de refinamento intelectual que impede o leitor de se sentir um filisteu. Contudo, estou reavaliando meu juízo sobre o homem depois que li esta notícia no “Mais!” do último domingo (só para assinantes). Alain de Botton é sócio de uma certa Escola da Vida, que acaba de ser inaugurada em Londres com uma proposta espantosa. Como diz o texto assinado por Pedro Dias Leite: A idéia é a seguinte: o cliente preenche uma ficha com informações sobre sua história, suas aspirações e seus hábitos e, a partir de uma consulta com um especialista, recebe indicações de leitura que o ajudem a enfrentar uma nova fase, encarar uma etapa importante ou simplesmente aproveitar um momento da vida….

O melhor do centenário Machado
NoMínimo / 29/09/2008

Hoje, como todo mundo deve estar cansado de saber, faz cem anos que morreu Machado de Assis. Entre os incontáveis eventos comemorativos, cadernos especiais, exposições, tombamentos, livros sobre esse ou aquele aspecto de vida e obra do escritor genial, é bom tomar cuidado – o risco de enfado é grande. Vale a pena resistir a esse sentimento para ouvir a melhor notícia da temporada: o lançamento da nova – revista e ampliadíssima – edição das obras completas de Machado pela Nova Aguilar. O que antes cabia em três volumes agora precisa de quatro, depois do acréscimo de 66 contos (a melhor novidade), uma atualizada fortuna crítica (que corrige o maior defeito da edição anterior) e mais uma enormidade de crônicas, cartas e peças de teatro. Passada a espuma da efeméride, são esses quatro livros de capa dura que deixarão o Brasil melhor do que era antes de 2008. Pena que o pacote só seja vendido inteiro, nada de volumes avulsos, e custe R$ 550. Mais detalhes sobre o lançamento podem ser lidos no “Globo” de hoje – lamentavelmente, com acesso fechado no site do jornal. Mas para não deixar o blog alheio ao único assunto literário possível nesta segunda-feira, e…

Começos (ainda) inesquecíveis: Jorge Luis Borges

Uma dobra no tempo traz de volta este post publicado em 18/10/2006: * Devo à conjunção de um espelho e uma enciclopédia o descobrimento de Uqbar. A primeira frase de “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, o primeiro conto da coletânea “O jardim de caminhos que se bifurcam”, lançada em 1941, resume Jorge Luis Borges. Ou pelo menos o Borges dos labirintos, da erudição absurda, lúdica e ardilosa, dos tempos paralelos – tudo aquilo que daria origem ao borgianismo. O livro ganhou três anos depois o acréscimo de outros contos fundamentais, entre eles “Funes, o memorioso”, e o nome de “Ficções”. O melhor título do escritor argentino, na minha opinião. (Cito aqui a tradução que consta das “Obras completas”, editora Globo, 1998, mas com uma liberdade: no título do livro, prefiro “caminhos” a “veredas”, que pode até ser uma tradução mais precisa do original senderos, mas soa meio pesado.)

O tamanho do luto
NoMínimo / 25/09/2008

O choque, o luto e o avassalador sentimento de perda que dominaram a comunidade da Stock Car após a morte, aparentemente por suicídio, do escritor David Foster Wallace levou a NASCAR a cancelar o restante da temporada de 2008 em respeito ao aclamado mas atormentado autor de Infinite Jest, A Supposedly Fun Thing I’ll Never Do Again e Brief Interviews With Hideous Men. (…) “Estou sendo invadido por sentimentos de – à falta de um conceito melhor – incongruência”, disse Jimmie Johnson, piloto do Chevrolet número 48 da equipe Lowe, que é conhecido no mundo das corridas por seu hábito de presentear os fãs com exemplares dos livros de Wallace. O trecho acima é do jornal satírico The Onion, um “Planeta Diário” americano que se recusa a morrer. Beirando o mau gosto, como de hábito, acerta, também como de hábito, na mosca ao ampliar pela lente da caricatura um sentimento generalizado de luto pela morte do escritor americano de 46 anos. O Arts & Letters Daily de hoje compila 22 links, entre eles o do “The Onion”, que dão uma idéia do alcance dessa epidemia de tristeza, confusão e – sim, parece ser o caso – leitura e releitura de…

O primeiro de uma série para ‘O filho eterno’?
NoMínimo / 23/09/2008

O prêmio Jabuti de melhor romance foi anunciado agora há pouco para “O filho eterno”, de Cristovão Tezza, que sempre foi tratado aqui como o grande livro brasileiro do ano passado. A notícia merece comemoração: não é sempre que prêmios acertam assim. É meio chato lembrar isso, mas há menos de três semanas fiz um exercício besta aqui no blog, constatando que apenas três romances lançados no Brasil em 2007 eram finalistas tanto do idoso Jabuti quanto do jovem Portugal Telecom: além do de Tezza, favoritíssimo, eram eles “O sol se põe em São Paulo”, de Bernardo Carvalho, e “Antonio”, de Beatriz Bracher. Uma magra faixa de interseção em meio a tiros para todos os lados. E não é que o galardão quelônio escalou os três títulos no pódio, nessa ordem e tudo? O que isso prova? Talvez nada. Mas torço para que reflita uma revalorização da convergência crítica, da busca de um solo comum de referências em que o debate literário possa voltar a rolar direito. Nada a ver com consensos autoritários, mas, depois de tantos anos de w.o. acadêmico e pulverização blogueira, um idioma comum tem nos feito falta.

Uma certa Copa
NoMínimo / 22/09/2008

Com a partida entre “O amor não tem bons sentimentos”, de Raimundo Carrero, e “O sol se põe em São Paulo”, de Bernardo Carvalho, um clássico apitado por Nelson de Oliveira, começou finalmente a segunda edição da Copa de Literatura Brasileira.

Começos (ainda) inesquecíveis: H.G. Wells

Como esquecer o dia em que Marte atacou? Post publicado em 14/4/2007: * Ninguém teria acreditado, nos últimos anos do século XIX, que este mundo era atenta e minuciosamente observado por inteligências superiores à do homem e, no entanto, igualmente mortais; que, enquanto os homens se ocupavam de seus vários interesses, eram examinados e estudados, talvez com o mesmo zelo com que alguém munido de um microscópio examina as efêmeras criaturas que fervilham e se multiplicam numa gota d’água. O começo do clássico de ficção científica “A guerra dos mundos” (Alfaguara, tradução de Thelma Médici Nóbrega, 2007), romance lançado em 1898 pelo escritor inglês H.G. Wells (1866-1946), impressiona pela precisão “científica” da prosa. A frieza do tom torna ainda mais sinistra a ameaça de invasão marciana que prenuncia.

Deus da literatura? O Paul Auster?
NoMínimo / 18/09/2008

Na América Latina e na Espanha, o mais próximo que temos de um Deus da literatura se chama Paul Auster. Essa frase do escritor boliviano Edmundo Paz Soldán em seu blog no site “Boomeran(g)” me fez engasgar com a pipoca. Está certo que opinião é mercadoria baratinha – um dos dramas da blogosfera. Está certo também que, do ponto de vista literário, o Brasil não fica exatamente na América Latina, embora faça fronteira com ela. Por fim, não é menos certo que o escritor do Brooklyn merece mais respeito do que ultimamente tem recebido da crítica: mesmo tendo parado de acompanhar seus lançamentos há alguns anos, quando seu lado mais pesadamente alegórico – seu pior lado, a meu ver – começou a prevalecer, já tive minha fase austeriana compulsiva; até hoje considero “Leviatã” um grande romance e “Trilogia de Nova York”, um livro-chave para entender a literatura dos anos 80. Feitas todas essas ressalvas, estarei exagerando ou “Deus da literatura”, com inicial maiúscula e tudo, soa como um dos maiores despautérios dos últimos anos? Em tempo: um amigo meu, que de bobo não tem nada, gostou muito do último livro de Auster, “Homem no escuro” (Companhia das Letras). Estou coletando…

O acidente da ‘Arte e Letra’
NoMínimo / 17/09/2008

A elegante revista literária “Arte e Letra”, de Curitiba, estreou em maio deste ano e, como tem periodicidade trimestral, está apenas no número dois – ou edição B, como preferem os editores. Mas já é um desses milagres ou acidentes editoriais que, sendo inteiramente imerecidos por nosso mercado leitor, só nos resta torcer para que não se acabem depressa demais. (O critério alfabético sugere uma expectativa de vida de no máximo vinte e poucas edições, ou seja, em torno de seis anos. É coisa à beça no gênero, mas acho que eu consideraria a infinitude dos números mais reconfortante.) Embora o timing seja obviamente fortuito, o fato de a edição B trazer uma rara tradução de David Foster Wallace para o português é também eloqüente. Num momento em que o luto pesado pela morte prematura do talentoso escritor americano vai se espalhando para nublar o horizonte até de quem nunca o leu, os fragmentos do ensaio sobre o cineasta David Lynch (que consta do livro A Supposedly Fun Thing I’ll Never Do Again), com tradução de Caetano Waldrigues Galindo, lembram a importância de uma coisa chamada edição inteligente – ou inteligência editorial, tanto faz. Nunca é demais lembrar que DFW…

The Ax of Asisi
NoMínimo / 16/09/2008

Nem foi preciso citar Woody Allen entre os admiradores americanos de Machado de Assis. Outro Allen, o Ginsberg, cumpriu para minha surpresa esse papel, com uma frase de 1961 em que compara o escritor carioca a Kafka – no que discorda de Philip Roth, que prefere o paralelo com Samuel Beckett. A esses nomes bastou juntar os suspeitos de sempre, como Susan Sontag e Harold Bloom, além de algumas vozes brasileiras, e o resultado foi a honesta e otimista reportagem sobre Machado que o “New York Times” (cadastro gratuito, em inglês) publicou na última sexta-feira. Com o gancho da Semana Machado em Nova York, em que seminários se alternam com exibições de filmes para lembrar o centenário da morte do autor, o título “Depois de um século, uma reputação literária enfim floresce” anuncia um texto em que o correto Larry Rohter, o homem que Lula quis expulsar do Brasil, trata Machado como o gênio que ele é e especula sobre as razões de sua demora em penetrar no cânone internacional – por internacional entenda-se anglófono, of course. Quando digo que a reportagem é otimista, refiro-me à presunção de que a longa batalha esteja vencida, como se, um século depois, Machado…

David Foster Wallace (1962-2008)
NoMínimo / 14/09/2008

Essa página do “Los Angeles Times” reúne algumas entrevistas de David Foster Wallace disponíveis no YouTube – imagens que estão destinadas a serem vistas e revistas pelos fãs em busca de uma inexistente “explicação” para o fato de o escritor americano de 46 anos, um dos mais festejados de sua geração, ter se enforcado em sua casa na sexta-feira. Se David Foster Wallace já era um tipo de escritor que, mais que leitores, tinha seguidores, adeptos, conversos, o culto a seu nome deve ter vida longa garantida pelas circunstâncias de sua morte. Seu único livro lançado no Brasil é a coletânea de contos “Breves entrevistas com homens hediondos” (Companhia das Letras, 2005). O romance que o transformou numa estrela da nova literatura americana dos anos 90, Infinite Jest, permanece inédito por aqui. Talvez por ser um tijolo de mais de mil páginas, ou quem sabe pelo mesmo motivo que, antes da página cem, me levou a abandonar – ou adiar para um futuro indeterminado, o que dá no mesmo – sua travessia: dono de um talento inegável, exuberante, Wallace era tão apaixonado por sua própria voz que fazia da auto-indulgência uma arte. Há quem goste, mas, definitivamente, sou de outra…

Começos (ainda) inesquecíveis: Antonio Tabucchi

Quando morre um poeta, todos choram. Post publicado em 12/11/2006. * Antes tenho de fazer a barba, disse ele, não quero ir ao hospital com uma barba de três dias, por favor, vá chamar o barbeiro, mora na esquina, é o senhor Manacés. Mas não temos tempo, senhor Pessoa, replicou a zeladora, o táxi já está na porta, seus amigos já chegaram e estão à sua espera na entrada. Não importa, respondeu ele, sempre há tempo. Ajeitou-se na poltronazinha onde o senhor Manacés habitualmente lhe fazia a barba e pôs-se a ler as poesias de Sá-Carneiro. O singelo início da novelinha “Os três últimos dias de Fernando Pessoa”, do italiano Antonio Tabucchi (Rocco, tradução de Roberta Barni, 1996), talvez não seja memorável para qualquer um. É para mim. E o que vem em seguida não é menos: no hospital, Pessoa é visitado por um séquito de heterônimos antes de morrer.

Seu bolso
NoMínimo / 11/09/2008

O conto A fruta por dentro, inédito em livro, que publiquei na “piauí” deste mês, está com acesso livre no site da revista.

O prémio do António
NoMínimo / 10/09/2008

Quem levantou a bola foi o Pedro Curiango, leitor das antigas aqui do blog: o prêmio Juan Rulfo concedido ontem ao escritor português António Lobo Antunes teve até agora na imprensa brasileira um tratamento semelhante ao da morte de Luciana Stegagno Picchio – algo que talvez se possa chamar de escola Bartleby de jornalismo, eufemismo para essa indiferença espessa, bovina, que vai transformando nossa imprensa cultural num mero puxadinho das seções de celebridades. É possível que aquele meu pesadelo recorrente – um mundo pautado, iluminado, fotografado e paginado à semelhança da revista “Caras” – tenha, mais uma vez, me levado a acordar apocalíptico. Peço desculpas se estiver cometendo alguma injustiça, mas o que encontrei nas folhas que percorri hoje foi um bruto silêncio. Um silêncio confirmado pelo Google, que traz incontáveis páginas sobre o fato. Todas da imprensa e da blogosfera de Portugal (com uma única exceção para confirmar a regra). E, na boa, ainda que um ou outro escriba brasileiro tenha repicado a notícia, o resultado até o momento é, na melhor das hipóteses, anoréxico. Sim, óbvio: o Todoprosa também silenciou ontem, mas ele tem um álibi – notícia nunca foi o negócio do blog. Quando se divulga algo…

Luciana Stegagno Picchio (1920-2008)
NoMínimo / 10/09/2008

Luciana nos deu uma “História da Literatura Brasileira”; o Brasil retribuiu com um silêncio ensurdecedor na hora de sua morte, em 28 de agosto. Soube da notícia por um leitor do blog de Luis Nassif e, na rede, há o emocionado texto da professora Vera Lúcia de Oliveira, que ensina na Itália. Em Portugal, o presidente Cavaco Silva pronunciou-se oficialmente lembrando seu papel para a cultura portuguesa. E eu, mais atrasado ainda, só soube agora, por esse post no blog-por-um-mês que o editor e escritor Paulo Roberto Pires está tocando no site da revista “Bravo!”, que morreu a professora italiana Luciana Stegagno Picchio, apaixonada organizadora da poesia completa de Murilo Mendes e uma das maiores divulgadoras da literatura de língua portuguesa na Europa. Sua “História da Literatura Brasileira”, lançada nos anos 70 na Itália e, revista, publicada aqui em 1997 numa bonita edição da Nova Aguilar, é um livro que vale a pena conhecer. Não por conter análises originais, que nunca foram seu objetivo, mas por uma ambição de dar conta de tudo, todos os séculos e escolas, em apenas 744 páginas – algo que talvez só um estrangeiro pudesse ousar. O silêncio em torno da morte de Luciana no…

Sinais dos tempos
NoMínimo / 09/09/2008

Você sabe que as coisas estão mudando depressa quando… A TV Record anuncia que vai adaptar contos de Machado de Assis e Guimarães Rosa. A relação dos seis finalistas do Booker Prize não inclui o último livro de Salman Rushdie. Uma mulher jovem (que já andou flertando com a censura de livros) é a grande esperança do velho obscurantismo americano.

‘The eternal son’
NoMínimo / 08/09/2008

Cristovão Tezza emplacou um capítulo de seu romance “O filho eterno” (Record), favorito deste blog para ganhar o Portugal Telecom, na revista eletrônica americana Words Without Borders, em caprichada tradução da australiana Alison Entrekin. A WWB é a maior referência em literatura não anglófona na web. Gostei de ver que o capítulo traduzido, o quarto, é o mesmo que eu escolhi para apresentar o livro aos leitores do Todoprosa na época do lançamento, há pouco mais de um ano. Quem ainda não conhece pode ler o original aqui.

Começos (ainda) inesquecíveis: Jorge Amado

Cada qual cuide de sua memória. Post publicado em 1/4/2007: * Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro Dágua. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Não há clareza sobre hora, local e frase derradeira. A família, apoiada por vizinhos e conhecidos, mantém-se intransigente na versão da tranqüila morte matinal, sem testemunhas, sem aparato, sem frase, acontecida quase vinte horas antes daquela outra propalada e comentada morte na agonia da noite, quando a Lua se desfez sobre o mar e aconteceram mistérios na orla do cais da Bahia. Presenciada, no entanto, por testemunhas idôneas, largamente falada nas ladeiras e becos escusos, a frase final repetida de boca em boca representou, na opinião daquela gente, mais que uma simples despedida do mundo, um testemunho profético, mensagem de profundo conteúdo (como escreveria um jovem autor de nosso tempo). E já que andamos falando por aqui de novela, que a preferência do mercado editorial por romances anda transformando numa espécie de “formato que não ousa dizer seu nome”, eis o começo da pequena obra-prima “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua”, novelinha lançada em 1958 por Jorge Amado (Record, 41a edição,…

Marketolândia
NoMínimo / 05/09/2008

O blog de livros do “Guardian” informa (em inglês, acesso gratuito) que a escritora americana Lynn Brittney está oferecendo um prêmio de 5 mil dólares a quem apresentar a melhor idéia de enredo para seu segundo romance – que terá os mesmos personagens do primeiro, uma história de Natal infanto-juvenil. Além do prêmio, o feliz ganhador do concurso também terá direito a ver seu nome na capa do novo livro (o tamanho da letra não é mencionado no regulamento). Ah, sim: junto com o resumo de sua história, cada concorrente precisa apresentar uma prova de que comprou o primeiro livro de Lynn Brittney. Pegar emprestado não serve. Assim todos ganham, não é mesmo? Na boa, deviam dar um prêmio para essas coisas.

Quando o Portugal Telecom encontra o Jabuti
NoMínimo / 03/09/2008

A lista dos dez finalistas do Prêmio Portugal Telecom, o mais importante da literatura no país, divulgada ontem à noite, inspira um exercício meio besta, mas quem sabe interessante: cruzá-la com a lista dos dez romances finalistas do Jabuti, também publicada recentemente. Se a convergência dos juízos críticos ainda tem algum valor nesses tempos de pulverização, talvez não seja descabido ver na – magra – área de interseção dos dois conjuntos o território de um certo favoritismo. Apenas três romances lançados no Brasil em 2007 constam das duas relações: “O filho eterno”, de Cristovão Tezza; “O sol se põe em São Paulo”, de Bernardo Carvalho; e “Antonio”, de Beatriz Bracher. Só o último, que não li, traz alguma dose de surpresa. Os outros dois, sobretudo o magnífico romance de Tezza, são obrigatórios em todas as listas formais ou informais que tenho visto. Como eu disse, o exercício é meio besta, inclusive por comparar coisas que não são inteiramente comparáveis. O Portugal Telecom se pretende um prêmio da lusofonia (embora apenas os gatos pingados Lobo Antunes, português, e Ondjaki, angolano, estejam lá para confirmar a tese) e joga no mesmo balaio poesia, contos e romances. O Jabuti se multiplica – ou…

Filosofia da (de)composição
NoMínimo / 02/09/2008

Esses dias, enquanto tento pôr um ponto final na narrativa mais longa que já escrevi, tem me vindo à cabeça – ou o pouco que resta dela a essa altura do processo de escrever um romance – a questão da extensão, da duração supostamente ideal dos textos literários. Aquilo que Edgar Allan Poe quantificou com segurança admirável no caso da poesia em torno de cem versos. E fez “O corvo” com 108. Tudo bem, mas – e a prosa? Cem linhas? No mesmo ensaio, o brilhante “A filosofia da composição”, ao qual nunca me canso de voltar, Poe admite que em certos casos (ele cita “Robinson Crusoé”) a prosa pode tirar proveito da longa extensão. Mas acrescenta que isso seria vedado à poesia, que a seu ver sempre perde ao abrir mão da “totalidade ou unidade do efeito” advinda da leitura que se faz de uma só tacada, sem interrupção. Eis enfim a medida de Poe: a capacidade de leitura do leitor. Para o escritor americano, essa capacidade pode ser esticada, pois textos excessivamente curtos reverberam pouco, mas jamais rompida, uma vez que textos longos demais precisam ser lidos em várias etapas e isso atenua seu efeito geral. Aí estaria…

No papel
NoMínimo / 01/09/2008

Com os “Sobrescritos” momentaneamente fechados para balanço, quem aparecer por aqui atrás de ficção pode recorrer à revista “piauí”. A edição de setembro, que chegou às bancas no fim de semana, traz um conto meu chamado A fruta por dentro.

Começos (ainda) inesquecíveis: Albert Camus

Logo depois de seu primeiro aniversário (hoje está perto de completar dois anos e meio), o blog zerou uma dívida importante. Post publicado em 23/5/2007: * Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem. O Todoprosa completou um ano no início deste mês e paga agora uma dívida que tem a mesma idade: foi nas férias, pensando na vida, que me ocorreu o absurdo (palavrinha apropriada) de ainda não ter publicado nesta seção o primeiro parágrafo de “O estrangeiro” (Record, tradução de Valerie Rumjanek), novela lançada em 1942 pelo escritor franco-argelino Albert Camus (1913-1960). Parece que todo esse atraso teve algo a ver com a determinação de fugir do óbvio ou coisa parecida. Desculpa porca. Mais do que proporcionar ao leitor um começo realmente inesquecível, o narrador Mersault, ao anunciar a morte de sua mãe em tom tão frio, está escrevendo a epígrafe de uma época que ainda é a nossa.

Patos em extinção
NoMínimo / 28/08/2008

Sabemos que uma era geológica mental está chegando ao fim quando a revista do “Zio Paperone” (Tio Patinhas) deixa de ser publicada na Itália, um de seus maiores santuários – mote para a contextualização assinada por Marcus Ramone no site Universo HQ: Ainda é cedo para afirmar que Donald, Tio Patinhas, Pateta, Mickey e demais personagens clássicos cairão de vez no limbo, preteridos por criações contemporâneas da Disney – incluindo as egressas dos desenhos animados 3D. Mas o número de cancelamentos de suas revistas vem acontecendo em um ritmo muito maior do que se imagina. Em Portugal e em quase toda a América Latina, outrora contumazes mercados consumidores dessa turma, os personagens já não são mais publicados. E os exemplos continuam. Por muito tempo populares no Egito e em outros países do Oriente Médio, os gibis Disney retornaram àquela região em 2005, após dois anos fora de circulação. Mais de dez títulos foram lançados na época, dos quais apenas quatro conseguiram sobreviver aos novos cancelamentos (um deles, para o público feminino, mostra somente as aventuras de Branca de Neve, Aurora, Bela e outras – as Princesas, que vêm fazendo sucesso no mercado de licenciamento ao redor do mundo). Quando a…

L’Éducation Digitale
NoMínimo / 27/08/2008

Quanto mais experiência eu ganho em minha arte, mais ela me atormenta. O problema é que a imaginação fica estacionada enquanto o gosto amadurece. Poucos homens, eu creio, terão sofrido tanto quanto eu pela literatura. POSTED BY GUSTAVE FLAUBERT, 4 NOVEMBER, 1857 Se George Orwell conseguiu virar blogueiro 58 anos depois de morto, por que não?

O Modesto Diagrama Universal da Arte
NoMínimo / 26/08/2008

Para ser mais ambicioso, só se invadisse o terreno do divino. O diagrama acima busca dividir em tribos e agrupá-las em relação a eixos definidos por pares de valores opostos todos os praticantes de todas as formas de arte que jamais existiram. Ridículo, não? No entanto, depois que se começa a brincar com a idéia, não dá vontade de parar. Em nome da justiça é preciso esclarecer que o tal diagrama, atração de hoje no blog de livros do “Guardian” (em inglês, acesso gratuito), não se apresenta com a pompa sugerida no parágrafo acima. Foi bolado por Scott McCloud, um estudioso de histórias em quadrinhos, aparentemente em veia lúdica, como instrumento para animar palestras. Mas é impossível olhar para ele sem cair na tentação de catalogar o mundo. Para melhor apreciar o brinquedo, convém saber que a tribo dos “animistas” é definida como a dos artistas intuitivos, mais ou menos naïfs, que não têm – ou fingem não ter – consciência dos filtros que se interpõem entre a matéria bruta que arrancam das entranhas e o produto final. Aparecem no diagrama como cultores do “conteúdo” não tanto por escolha, mas porque mal enxergam outros valores na arte. Majoritária entre artistas…

Começos (ainda) inesquecíveis: Machado de Assis

Para que 2008 fosse o ano do homem também por aqui, faltava republicar este post de 3/9/2006: * AO LEITOR Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião. Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor…

Nada será como antes
NoMínimo / 22/08/2008

Trechos dos romances finalistas do Booker poderão ser lidos – ou ouvidos – de graça no celular. Definitivamente, este é o ano em que o tradicional prêmio britânico decidiu desbundar de vez em forma e conteúdo: como comentado aqui, a “lista longa” dos finalistas inovou ao incluir um thriller assumido, “Criança 44”. Acessíveis por celular estarão apenas trechos dos livros da “lista curta”, a dos finalistas entre os finalistas, que será anunciada dia 9 de setembro. É improvável que as frases frondosas de Salman Rushdie, considerado o favorito, façam tanto sucesso numa telinha de celular quanto a prosa escrita especialmente para o novo meio que causa furor no Japão. Em todo caso, para quem ainda duvida, é mais uma prova de que o chão está se mexendo.

Ponto-e-vírgula; morto?
NoMínimo / 21/08/2008

Num artigo recente para o “Boston Globe” (em inglês, acesso gratuito), Jan Freeman comenta a queda em desgraça do ponto-e-vírgula, que não vem de hoje. Segundo um estudo restrito à língua inglesa, sua incidência teria despencado de 68,1 para 17,7 (por mil palavras) entre os séculos 18 e 19. O século 20 não é mencionado, mas suponho que um levantamento semelhante encontraria esse sinal de pontuação – “que indica pausa mais forte que a da vírgula e menos que a do ponto”, segundo o Houaiss – chegando perto de encostar no zero à medida que nos aproximássemos do 21. Kurt Vonnegut, que chamava o ponto-e-vírgula de “travesti hermafrodita”, foi apenas um dos escritores que ajudaram a difamá-lo como figurinha pedante, esnobe, cricri, desprovida de sentido e até, na formulação machista de um de seus detratores, mariquinhas. Acho um exagero. Embora procure usar o ponto-e-vírgula com a maior parcimônia possível – basicamente em enumerações em que um ou mais elementos contenham vírgulas internas, caso em que ele é indispensável à clareza – e não o recomende efusivamente a quem está em busca de um estilo, prefiro pensar nele como mais um recurso no arsenal da língua. Se até a insuportável mesóclise…

Ainda Kafka: a barata que não era
NoMínimo / 20/08/2008

A recente aparição de Franz Kafka neste blog, embora talvez motivada por interesses menores (de um crítico inglês, não meus, como se pode conferir aqui embaixo), teve pelo menos um efeito divertido: o leitor Eric Novello explorou num comentário certa ambigüidade semântica característica do português brasileiro para declarar: Nunca mais verei a barata do Kafka da mesma forma! Claro que a piada seria inviável se Gregor Samsa tivesse virado um besouro. Acontece que virou – e agora estou falando sério. A discussão sobre qual bicho é aquele da novela “A metamorfose” não é brincadeira. No primeiro parágrafo do livro, em que o Samsa insetificado faz sua brusca entrada em cena, Kafka é vago. O original fala em ungeheueren Ungeziefer, que quem conhece alemão – não é o meu caso – garante ser algo como “monstruoso inseto repulsivo”. Em outros pontos da narrativa, porém, ligeiras pistas morfológicas parecem indicar que Kafka se refere a um inseto da família dos coleópteros, sem maiores detalhes além de suas dimensões avantajadas de monstro. Essa família inclui diversos tipos de besouro, joaninhas e vagalumes. Baratas não. Para se ter uma idéia da gravidade dessa questão líterário-zoológica, ninguém menos que Vladimir Nabokov, admirador de “A metamorfose”,…

Começos (ainda) inesquecíveis: Franz Kafka

E já que falamos no homem… Post publicado em 23/9/2006: * Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado, viu que se transformara, em sua cama, numa espécie monstruosa de inseto. Eis o primeiro parágrafo de “A metamorfose” (Civilização Brasileira, tradução de Brenno Silveira, 5.a edição, 1988), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Sem comentários.

O que Kafka fazia no banheiro
NoMínimo / 15/08/2008

É mais enrolada do que parece a última polêmica “literária” européia, que põe de um lado uma tropa de críticos de língua alemã e do outro, sozinho, o acadêmico e escritor inglês James Hawes, que publicou ontem a biografia “Excavating Kafka”, sobre o escritor tcheco (aqui, em inglês, acesso livre). Sem ler o livro é impossível opinar sobre quem tem razão, se é que alguém tem, mas o resumo do arranca-rabo, em três tempos, é o seguinte: 1. Hawes dá destaque ao fato de Kafka ter sido assinante de revistas pornográficas chiques, algumas, segundo ele, de arrepiar. 2. Os kafkólogos de língua alemã se unem para acusar Hawes de puritanismo, marquetagem e até, de forma que parece um tanto obscura, anti-semitismo. Alegam que as revistas eram adultas, mas traziam imagens estilizadas, “artísticas” e não pornográficas. 3. Hawes contra-ataca falando em “conspiração de censura” e dizendo que seu foco não é bem o gosto de Kafka por pornografia, mas o fato de que gerações de críticos e biógrafos, tendo examinado com lupa cada bilhete banal jamais escrito pelo gênio de Praga na tentativa de decifrar sua personalidade esquisitona, tenha feito silêncio sobre um dado tão suculento. Hmm. Em primeiro lugar, mesmo…

O pensamento voa, as palavras andam
NoMínimo / 14/08/2008

Gosto de livros de citações. Seria cômodo dizer que minha eterna busca de frases espirituosas sobre o ato de escrever, provocada pela necessidade de renovar pelo menos uma vez por semana a epígrafe do Todoprosa, me levou a uma convivência íntima com eles. Mas é mais honesto reconhecer que não foi essa a ordem dos fatores. Há um modo melhor e um modo pior de apreciar um livro desses. O pior é transformá-lo em algo próximo do vire-um-super-algo-em-dez-lições, um depósito de sabedoria concentrada que vai “direto ao ponto” – sendo o ponto, naturalmente, o aprendizado, o lucro ou a redenção do leitor. Para muita gente, não faz sentido ler coisa alguma se tal perspectiva contábil ou salvacionista não estiver no horizonte. E se os manuais de auto-ajuda são mais úteis pelo lado prático, coleções de frases gozam de boa reputação como instrumento aplicador de verniz e repositório de lições de moral. Provêm o cidadão de uma erudição de laboratório nada insatisfatória quando se sabe que a erudição propriamente dita dá um trabalho danado, além de poder tornar o sujeito um ermitão, um esquisito. Já a maneira melhor de ler um livro desses é ver nele um jogo, um jogral em…

De Kindles e boitatás
NoMínimo / 12/08/2008

As conversas sobre o livro na era eletrônica, tema da reportagem que recomendei no post de ontem, têm muito a ganhar com esta nota do site nova-iorquino “Gawker” sobre o Kindle, a maior aposta – ao lado do Sony Reader – de quem acredita, discordando de Steve Jobs, que aparelhos eletrônicos dedicados à leitura vão revolucionar a indústria editorial em poucos anos: Já houve dezenas de supostas aparições, mas você ou alguém que você conhece já viu realmente um Pé-Grande – ou uma pessoa de verdade usando o leitor eletrônico de 400 dólares da Amazon? Sim, o Citigroup informa que as vendas estão “melhores do que se esperava” e prevê que “a Amazon venderá até 380 mil Kindles em 2008, bem acima da previsão inicial de 190 mil”. Pensamento positivo? Papo de maluco? Nós exigimos provas fotográficas autênticas. Sim, o “Gawker” tem um tom venenoso, bitchy, no limite da irresponsabilidade – essa é uma de suas atrações. Erra bastante. E acerta muito também. (A propósito: de maluco ou não, e ao contrário do que sugeriu um leitor ontem, essa conversa toda me parece bem distante do seminário dedicado a discutir a “web literária”, blogs de escritores etc., que o site…

Link para o ‘Link’
NoMínimo / 11/08/2008

O caderno de informática do “Estadão”, o Link, traz hoje, em quatro páginas, a mais completa e arejada reportagem que já vi na imprensa brasileira sobre todas as questões que envolvem o livro na era digital, assinada por Bruno Galo.

Começos (ainda) inesquecíveis: Will Self

Nem só de clássicos vivem os começos inesquecíveis. Post publicado em 11/3/2007: * Bull, um rapaz encorpado e musculoso, acordou certa manhã e não levou muito tempo para se dar conta de que, enquanto dormia, adquirira uma outra característica sexual primária: a saber, uma vagina. A vagina brotara atrás de seu joelho esquerdo, dentro da covinha macia e flexível localizada no ponto onde terminam os tendões. É quase certo que Bull não a perceberia tão cedo, não tivesse ele como prioridade, logo ao despertar, o hábito de se inspecionar, explorando cuidadosamente todas as suas curvas e fendas. Qualquer semelhança com Kafka não é coincidência. Nem plágio. Este é o início do primeiro capítulo, chamado justamente A metamorfose, da novela “Bull, uma farsa”, que compõe com “Cock, uma noveleta” o livro “Cock & Bull – Histórias para boi dormir”, do escritor inglês Will Self (Geração Editorial, tradução de Hamilton dos Santos, 2.a edição, 2002). Em “Cock”, em perfeita simetria, é a protagonista que um belo dia descobre entre as pernas um recém-brotado pau. Satirista feroz e, nos melhores momentos, brilhante em sua mistura de erudição, grosseria e delírio pop, Self é um autor bem estabelecido na literatura britânica, mas nunca deu…

Vallejo queria ser Bernhard
NoMínimo / 08/08/2008

Vallejo não consegue, salvo em uma ou outra passagem, fazer com que seus argumentos mereçam ser ouvidos como mais do que uma piada de mau gosto. Pior: não convence de que sua argumentação é tão sólida e fundamentada quanto a de um pré-adolescente. E não é que seus alvos mereçam muito crédito. (…) Só que a prosa de Vallejo é pobre demais para fazer valer suas idéias. Ora, da mesma forma que um ditador pode chegar ao poder apenas com seu talento oratório, para subjugar quem o escuta, um romancista depende de seu talento para converter o leitor em seguidor.(…) Vallejo se limita a clamar e insultar, a vomitar bravatas sem se preocupar com qualquer forma narrativa. Há poucas variações de tom; o texto segue um ritmo monocórdio e modorrento.(…) Se a intenção era ser um Thomas Bernhard, Fernando Vallejo não conseguiu ir além de Marcelo Mirisola. Trechos da resenha de Jonas Lopes sobre “O despenhadeiro”, do colombiano Fernando Vallejo, no “Rascunho” de agosto.

Dan Brown, personagem de Umberto Eco?
NoMínimo / 07/08/2008

PARIS REVIEW: O senhor leu “O código Da Vinci”? UMBERTO ECO: Sim, sou culpado disso também. PR: Esse romance parece um subproduto bizarro de “O pêndulo de Foucault”. ECO: O autor, Dan Brown, é um personagem de “O pêndulo de Foucault”! Eu o inventei. Ele tem as mesmas fascinações dos meus personagens – a conspiração mundial de rosa-cruzes, maçons e jesuítas. O papel dos Cavaleiros Templários. O segredo hermético. O princípio de que tudo está interligado. Suspeito que Dan Brown nem exista. Essa é a parte mais divertida da entrevista de Umberto Eco à “Paris Review” (em inglês, acesso gratuito à primeira parte). Gostei de saber que o livro de Dan Brown parece um subproduto daquele romance decepcionante que Eco lançou depois do ótimo “O nome da rosa”. Se o original já era duro de engolir, “O código Da Vinci” não me pega mais. (Ou será que, aliviado da carga de pretensão que verga o livro do escritor italiano, ele pode ter ficado até mais simpático? Eis um mistério que prefiro não investigar.)

Soljenitsin, o dissidente giratório
NoMínimo / 04/08/2008

A morte do escritor russo Alexander Soljenitsin, aos 89 anos, domingo, fez a imprensa lembrar em coro que o vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 1970, autor de “Arquipélago Gulag”, foi o maior adversário do extinto regime soviético no campo das letras, o mais famoso dos dissidentes. O que, acrescento eu, é ao mesmo tempo sua glória e sua danação. Morto o regime, e descontado o interesse histórico que seus livros possam gerar, por que alguém leria Soljenitsin? Eu nunca li, nunca senti falta. Está certo que tenho lacunas enormes na estante, mas também já li coisas tão datadas quanto A.J. Cronin e José Mauro de Vasconcelos. Parece que não estou sozinho. O “Moscow Times” diz que as novas gerações russas também não o lêem. Mas existe um lado menos, vamos dizer, programático, previsível e politicamente correto em Soljenitsin, um lado que o torna ao mesmo tempo mais intratável e mais interessante. O homem não era apenas um dissidente soviético. Era também um dissidente do Ocidente. Com aquela loucura bem russa, nacionalista e mística, não muito diferente da de Dostoiévski, proferiu em 1978 um famoso discurso na Universidade de Harvard em que enunciou, entre outras, as seguintes pérolas liberticidas, que…

Começos (ainda) inesquecíveis: Vladimir Nabokov

Pensamento ameno para alegrar o domingo: é claro que um dia – daqui a trezentos anos? três mil? – os começos inesquecíveis serão todos esquecidos. Mas este deverá ser um dos últimos. Post publicado em 24/7/2006: * Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita. De uma família aristocrática que deixou a Rússia fugindo da Revolução de 1917, Vladimir Nabokov (1899-1977) se mudou para os Estados Unidos em 1940, depois de passar por Berlim e Paris. Já então um escritor maduro – e finíssimo – em sua língua materna, embora pouco conhecido do grande público, dedicou-se tanto a dominar literariamente o inglês que em 1955 lançou nada menos que “Lolita” (Companhia das Letras, 1994, tradução de Jorio Dauster). O escandaloso teor sexual…

E por falar em alta cultura x cultura de massa…
NoMínimo / 31/07/2008

A lista dos 13 finalistas do Booker 2008 (em inglês, acesso gratuito) está provocando algum estupor por incluir “Criança 44”, de Tom Rob Smith, uma história de serial killer ambientada na Rússia de Stálin que a Record acaba de lançar por aqui. Não, o romance – que já teve seus direitos para o cinema comprados por Ridley Scott – não deve ter a menor chance de levar o prêmio. Sim, o favorito é um velho conhecido da casa: Salman Rushdie, com “The Enchantress of Florence”. Mesmo assim, Smith, um estreante de 29 anos, já fez história. É a primeira vez que um thriller assumidão, desavergonhado, penetra nesse clubinho.

Vila dos Confins 2008
NoMínimo / 30/07/2008

Nelson chegou com dois caminhões apinhados. Entregou os títulos: cinqüenta e sete. Entrou na venda a correr, e levou Paulo para o quarto: – Compraram o meu pessoal, deputado! Mais de trinta! Quis acudir, mas foi tarde. Graças a Deus, eu tinha recolhido a maioria dos títulos. Se não, ia tudo de embrulho… Deram dez contos para o Armando da Várzea Limpa. Dez contos por oito eleitores! Soltaram dinheiro mesmo. Mas o pior foi que tive de prometer também; caso contrário, nem a metade embarcava nos caminhões. Estamos perdidos… Paulo ouvia a má notícia resignado. Procurava animar o companheiro: – Se você trouxe estes cinqüenta, podemos garantir mais de trezentos, fora o pessoal que já veio, e o da cidade. Nenzinho chegou com trinta e nove; Bilico ainda não veio, mas deve trazer também uns trinta… e os protestantes não apareceram ainda. Podemos pôr mais uns vinte, por baixo… Ah, e tem o João Soares! Do Fundão vêm mais de cem, com certeza. Mais de trezentos, não, mais de trezentos e cinqüenta! A eleição é nossa, Seu Nélson! Mas o candidato a vereador pelo Brejal estava desanimado: – Sei lá, doutor! Se compraram títulos na minha zona, compraram também nas…

O monstro Banville contra o médico Black
NoMínimo / 29/07/2008

Esta reportagem (em inglês, acesso gratuito) do “Washington Post” de ontem sobre o médico e o monstro que habitam o premiado escritor irlandês John Banville, 62 anos, pode ser lida como pura diversão. Como nunca foi segredo, mas permanece pitoresco, o autor de “O mar” (Nova Fronteira, 2007, tradução de Maria Helena Rouanet), vencedor do Booker 2005, tem duas personalidades literárias. Uma é o próprio Banville, um escritor perfeccionista, angustiado, ambicioso, torturado, um tanto esnobe e, com exceção de “O mar”, pouco lido. A outra é mais recente e atende pelo nome de Benjamin Black, um autor assumidamente comercial, que já está em seu terceiro romance policial – nenhum deles traduzido no Brasil por enquanto. Não chega a ser tão surpreendente que, para Banville, o monstro seja o primeiro, que leva cinco anos para terminar um livro, e o médico o segundo, que o faz em cinco meses. “Tenho orgulho dos livros de Benjamin Black da mesma forma que um marceneiro tem orgulho de uma mesa bem feita”, diz. “Já os livros de John Banville eu abomino, desprezo e odeio. São uma afronta para mim.” Um leitor mais cínico poderia definir assim as duas personalidades de Banville: um autor de…

Viva Ubaldo
NoMínimo / 27/07/2008

Em homenagem a João Ubaldo Ribeiro pela conquista do prêmio Camões, que ele achou merecido e eu também, lembro a vitória de “Viva o povo brasileiro”, seu romance mais importante, na eleição de melhor livro da ficção brasileira em 25 anos – de 1982 a 2007 – que o Todoprosa promoveu em abril do ano passado ouvindo escritores, críticos, editores e jornalistas da área. Aqui, o resultado geral da enquete. E aqui, uma modesta tentativa de entender o encanto duradouro desse romanção.

Começos (ainda) inesquecíveis: Leon Tolstoi

Os começos são bons cada um à sua maneira. Post publicado em 21/8/2006: * Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira. A frase de abertura de “Ana Karenina”, obra-prima do romance que Leon Tolstoi começou a publicar na imprensa em 1875 (Editora Nova Aguilar, Obra Completa, volume 2, 2004, tradução de João Gaspar Simões), conseguiu virar aquilo que a maioria dos escritores só ousa perseguir em sonho: máxima, aforismo, provérbio, dito popular, pérola de sabedoria que parece não ter dono, mas brotar diretamente do inconsciente coletivo.

Web 2.0 e literatura, feitos um para o outro
NoMínimo / 25/07/2008

O (ótimo) escritor japonês Haruki Murakami não gosta muito de entrevistas. A revista “Time” conseguiu convencê-lo a responder a perguntas dos leitores e começou a coletar pela internet a preciosa contribuição conteudística do ilustrado público. Alguns exemplos (via Slog e Gawker): Cê é gay né. Por que seus romances são tão horríveis? Como será o seu funeral? Quando está frio e chove fininho, quando o tempo parece congelado numa matéria viscosa e você está se sentindo meio melancólico, talvez recordando um dia da sua juventude em que as condições atmosféricas eram parecidas, tem algum disco específico que você goste de ouvir? Pois é: se até na caixa de comentários do Todoprosa, famoso reduto de uma elite intelectual, o nível às vezes bate no chão, o que esperar da coitada da “Time”?

Littell, o melhor estrangeiro
NoMínimo / 23/07/2008

Até o momento, não havia no Brasil nenhum prêmio que contemplasse os melhores livros estrangeiros. Eis um grande paradoxo no país da literatura “antropofágica”. Cunhambebe (nome de canibal) é esse prêmio. Num mercado em que o fato de ser estrangeiro parece fazer qualquer autor largar com algumas voltas de vantagem sobre a indiada, a iniciativa – mesmo se levarmos em conta o caráter simbólico da premiação – é curiosa. O primeiro vencedor, escolhido por uma comissão julgadora de respeito, é As Benevolentes, de Jonathan Littell (Alfaguara).

O Google está mexendo no seu cérebro
NoMínimo / 22/07/2008

Já não penso da mesma forma que costumava pensar. Percebo isso com maior nitidez quando estou lendo. Mergulhar num livro ou num artigo de fôlego era fácil. Minha mente era conduzida pela narrativa ou pelos contornos do argumento, e eu ficava horas passeando por longas extensões de prosa. Isso raramente ocorre agora. Hoje minha concentração quase sempre começa a se perder depois de duas ou três páginas. Fico inquieto, perco o fio da meada, começo a procurar outra coisa para fazer. Sinto-me como se sempre tivesse que arrastar meu cérebro rebelde de volta ao texto. A leitura profunda que costumava me vir naturalmente tornou-se uma luta. Acho que sei o que se passa. Por mais de uma década, tenho ficado muito tempo online, pesquisando, surfando e às vezes contribuindo para o crescimento dos grandes arquivos da internet. À primeira vista pode não parecer, mas vai muito além do tolo alarmismo anti-web o artigo – “de fôlego” – publicado por Nicholas Carr na revista “Atlantic Monthly” (em inglês, acesso gratuito), com o título O Google está nos deixando burros?. O autor especula sobre como a rede mundial de computadores, ao mudar nossa relação com a leitura, estaria reprogramando nossos cérebros. O…

Começos (ainda) inesquecíveis: Jeffrey Eugenides

Como esquecer as irmãs Lisbon? Post publicado em 9/7/2006. * Na manhã em que a última filha dos Lisbon decidiu-se também pelo suicídio – foi Mary dessa vez, e soníferos, como Thereza –, os dois paramédicos chegaram à casa sabendo exatamente onde ficavam a gaveta das facas, o forno, e a viga no porão à qual era possível atar uma corda. Saíram da ambulância, como sempre andando mais devagar do que gostaríamos, e o gordo disse entre dentes: “Isso não é a TV, gente, mais rápido não dá.” Carregava o pesado equipamento cardíaco e o respirador, passando pelos arbustos que haviam crescido de forma monstruosa, pisando o gramado transbordante que fora liso e imaculado treze meses antes, quando os problemas começaram. Assim, entregando o fim para garantir desde a primeira linha que o leitor só abandonará o livro antes da hora se for ruim da cabeça, tem início a viagem poética e mórbida – praticamente neo-simbolista, pensando bem – de “Virgens suicidas” (Rocco, 1994, tradução de Marina Colasanti). Para quem se interessa pelas engrenagens da escrita, o belo romance de estréia do americano de ascendência grega Jeffrey Eugenides merece destaque ainda por um recurso inusitado: a narração é toda feita…

Escritores e zumbis
NoMínimo / 18/07/2008

Toda semana, desde o início do mês passado, um capítulo do romance The living, uma história de zumbis, é publicado nesse site (em inglês, acesso gratuito), terminando com algum gancho típico de folhetim ou telenovela – uma bifurcação no enredo. E aí, o cara vive ou morre? Como estamos na internet, quem decide de que forma a pergunta será respondida no capítulo seguinte é o leitor. Só depois de computados os votos é que o autor, o americano Kealan Patrick Burke, pode dar prosseguimento à história, e assim começa tudo de novo. (Dica do blog de livros do “Guardian”.) A coisa é tão singela que tem sua simpatia, e o charme para quem vive buscando exemplos de casamento entre web e ficção é evidente. Mesmo assim, devo admitir que acho cada vez mais difícil entender o fascínio exercido por esse tipo de interatividade. Uma coisa é a experiência com histórias abertas, tridimensionais, que permitam ao leitor navegar em diversas direções – um modelo narrativo prenunciado por Julio Cortázar em “O jogo da amarelinha” e que a web parece equipada para levar a conseqüências interessantes um dia, embora ainda esteja longe disso. Algo bem diferente é submeter o próprio processo de…

As quinhentas palavras de Nooteboom
NoMínimo / 17/07/2008

Passou a Flip, passou a ressaca da Flip, e eu me pego pensando insistentemente em algo que, no calor da hora, julguei trivial demais para comentar aqui no blog: o limite de quinhentas palavras por dia que o escritor holandês Cees Nooteboom se impõe. Convém deixar claro: o que me impressionou não foi a disciplina de Nooteboom, o fato de que ele se obriga a escrever todo dia, em qualquer estado de espírito. Isso é rotina de escritor. O que me impressinou foi ele escrever tão pouco. “Se por acaso perco a conta e chego a seiscentas palavras, fico nervoso”, disse. Ir além disso, para ele, seria correr o risco de perder qualidade, densidade literária. Fiz umas medições: quinhentas palavras equivalem a cerca de 45 linhas ou 3.000 toques com espaços. Em linguagem de velho jornalista, uma lauda e meia. Mesmo considerando a hipótese – delirante, porque não entendo nada de holandês – de na língua de Nooteboom as palavras serem mais compridas, mesmo que ele use uma única palavra composta para dizer, sei lá, “céu cinzento com nimbos a oeste”, ainda assim parece pouco. Mas se todas as quinhentas forem boas, dá um livro por ano. Dos gordos.

O melhor livro e o pior sexo
NoMínimo / 16/07/2008

Sim, eu sei: Salman Rushdie levou dias atrás o prêmio de melhor Booker entre os Bookers, no aniversário de quarenta anos do prêmio, por “Os filhos da meia-noite” (Companhia das Letras, tradução de Donaldson M. Garschagen). Quem sabe agora eu perco o preconceito, tiro da cabeça que ele é só um epígono de “realista mágico” e dou uma chance ao homem. Alguém aí se anima a deixar na área de comentários uma recomendação convincente que vá além de “ganhou o Booker dos Bookers”? Bacana, importante e tal, mas esses premiozões costumam ter alguma coisa de entediante, não? Basta dizer que o mesmo livro já tinha vencido a eleição de 1993, quando se comemorou o 25.° aniversário do galardão britânico. Puxa. Deve ser só um estado de espírito momentâneo, mas, prêmio por prêmio, os que demarcam o outro lado da apreciação crítica – o lado de baixo, o fim da picada – têm me parecido mais relevantes. Em termos de balizamento estético, não dá para negar que a função do “pior“ é tão indispensável quanto a do “melhor”. Com a vantagem de nos fazer rir um pouco. Excelente exemplo é o Bad Sex Award, concedido todo ano pela Literary Review de…

Enfim, o MacLivro Eletrônico
NoMínimo / 15/07/2008

Quem se lembra da esnobada que Steve Jobs, da Apple, deu no livro eletrônico depois que a Amazon lançou o Kindle? Disse o homem que sua empresa não se interessava por esse mercado porque “as pessoas não lêem mais” – e não estava falando da classe média brasileira. Na época, comentei aqui no Todoprosa que Jobs podia estar disfarçando, enquanto se preparava para lançar um aparelho matador. Acho que me enganei. Tudo indica que o aparelho já estava no mercado àquela altura, embora só agora comece a ficar mais clara sua vocação – entre muitas outras – para a leitura. Acaba de ser lançado o eReader Pro for iPhone, algo que os fãs do iPhone aguardam faz tempo. O vídeo demonstrativo disponível no endereço aí atrás é promissor, ainda que meio mambembe, mas convém esperar para saber como a novidade passará pelo teste de fogo a que a temida brigada dos blogueiros de tecnologia a submeterá nos próximos dias. Tamanho da tela, superfície brilhante x fosca, disponibilidade de títulos para baixar em cada um dos formatos, são muitas as variáveis que precisam ser levadas em conta. Uma coisa parece certa: é bem mais condizente com o espírito do tempo ter…

Começos (ainda) inesquecíveis: Marguerite Duras

Depois de um domingo flípico, esta retrospectiva volta ao lugar que é seu. O post abaixo foi publicado em 21/1/2007. * Certo dia, já na minha velhice, um homem se aproximou de mim no saguão de um lugar público. Apresentou-se e disse: “Eu a conheço há muito, muito tempo. Todos dizem que era bela quando jovem, vim dizer-lhe que para mim é mais bela hoje do que em sua juventude, que eu gostava menos de seu rosto de moça do que desse de hoje, devastado.” Penso freqüentemente nessa imagem que só eu ainda vejo e sobre a qual jamais falei a alguém. Está sempre lá no mesmo silêncio, maravilhosa. É entre todas a que me faz gostar de mim, na qual me reconheço, a que me encanta. Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais. Assim, de forma bela e estranha, começa o belo e estranho “O amante” (Nova Fronteira, 1985, tradução de Aulydes Soares Rodrigues), pequeno – na extensão – romance memorialístico com o qual Marguerite Duras (1914-1996) conquistou o prêmio Goncourt de 1984 e o sucesso comercial em escala planetária.

O maior intelectual do mundo?
NoMínimo / 11/07/2008

O religioso turco Fethullah Gülen venceu a eleição online de mais importante “intelectual público” do mundo, promovida pelas revistas – pesadamente intelectuais e ocidentais – “Prospect” e “Foreign Policy” (via Arts & Letters Daily). Todos os dez primeiros colocados são de países muçulmanos. Só na 11.ª posição aparece o primeiro do Ocidente, Noam Chomsky, vencedor da edição de 2005 do prêmio. Tom Nuttall, editor de internet da “Prospect”, explica em tom meio constrangido (em inglês, acesso gratuito) o que aconteceu: uma intensa e inédita mobilização dos internautas muçulmanos, principalmente na Turquia. O que é um direito deles. Bobagem é ainda promover qualquer tipo de votação “séria” online e esperar que o resultado diga alguma coisa sobre o mundo além de quem tem a mais azeitada máquina de propaganda e a maior disposição para usá-la.

Pornografia em dois tempos
NoMínimo / 09/07/2008

“Tentei ser oswaldianamente pornográfico… folclorizam-me”, diz Xico Sá em seu blog, considerando incompreendida sua participação numa mesa flipesca que, também por causa da licenciosidade do cronista, o Todoprosa achou inesquecível. Só não entendi uma coisa: pornografia oswaldiana é folclore puro, Xico. Folclorizar o quê? Mas para quem não agüenta mais ouvir falar em Flip – eu, por exemplo –, boa mesmo é essa história do blogueiro americano que comprou de uma respeitável senhora um lote de livros usados que o marido lhe deixara de herança e, chegando em casa, descobriu que vários volumes tinham sido escavados por dentro, transformando-se em perfeitos estojos. Até aí, tudo bem. Já vi esse truque no cinema, livros que contêm pequenas garrafas de bebida e até pistolas. Mas os estojos que o blogueiro comprou da boa viúva acomodavam outra coisa: um grande número de polaróides de pornografia caseira, estrelando o falecido, na época bem vivo, com todo tipo de mulher – menos a própria, supõe-se. Esta, presumivelmente avessa à leitura, nunca descobriu o segredo cabeludo, todos aqueles lombos por trás das lombadas. Nada como conhecer a cara-metade.

Flip 2008: altos, baixos, médios
NoMínimo / 06/07/2008

A Flip 2008 teve altos, baixos e, sobretudo, médios, mas termina como um bom filme hollywoodiano: deixando no freguês a impressão de que, se a redenção do herói é possível, então existe justiça no mundo. O que, como se sabe, é apenas uma ilusão, mas disso também se vive. Se o colombiano Fernando Vallejo, rei dos marqueteiros, tivesse conseguido roubar a cena de um escritor sério como o holandês Cees Nooteboom, na tarde-noite de sábado, o mundo estaria perdido. Ele bem que tentou, dizendo asneiras do tipo “toda literatura escrita em terceira pessoa é mentirosa; como o narrador pode saber o que se passa na cabeça de alguém?”. Nooteboom não perdeu tempo com isso: “O escritor é um mentiroso por natureza”. No fim Vallejo foi reduzido ao seu verdadeiro tamanho, e o sábado pôde caminhar para a apoteose da aula de Stoppard, que apresentei abaixo. O domingo também teve sua nota redentora. A mesa sobre futebol, compartilhada pelos dois intelectuais brasileiros que dedicaram mais horas de reflexão ao assunto, Roberto da Matta e José Miguel Wisnik, foi uma espécie de confraternização final que ajudou a borrar com o diluidor da “paixão nacional” a geografia política de um evento que, mais…

A Flic e a Clip
NoMínimo / 06/07/2008

Depois de Luiz Melodia chamar a Flip de “Flic”, foi a vez de Luis Fernando Verissimo, em sua primeira frase da conversa com Tom Stoppard, ontem à noite, chamá-la de “Clip”. Ao contrário do músico, o escritor percebeu imediatamente o erro e se corrigiu. Cáspite! Coincidência, com certeza. Contudo, cabe a conjetura: e se a letra cê estiver cavando um convite para o convescote?

Aula de inglês
NoMínimo / 05/07/2008

Vou resumir aqui, mais em espírito que literalmente, o que foi a aula dada pelo dramaturgo inglês Tom Stoppard na mesa mais nobre da Flip, a das 19h de sábado. Aula? Sim, foi nisso que consistiu a primeira metade do programa, quando, depois de apresentado por Luis Fernando Verissimo, Stoppard pediu licença para ficar em pé no palco e passou a se dirigir diretamente ao auditório lotado, expondo uma espécie de cartilha de princípios artísticos. O segundo ato da peça, se assim podemos chamá-lo, em que o autor de The Coast of Utopia respondeu perguntas do mediador e da platéia, foi irregular, como costumam ser essas coisas. Mas a aula foi ótima. Stoppard dividiu o que entendemos por texto “bem escrito” em duas categorias: o que revela um poder magistral de manipulação da língua, no modo como as palavras se organizam, por assim dizer, arquitetonicamente, para expressar do modo mais eloqüente possível uma idéia forte; e aquele que, embora repleto de lugares-comuns e fórmulas convencionais, usa-os com tamanha precisão e em contextos tão perfeitos que tira deles o máximo de expressão artística. A primeira categoria é, naturalmente, aquela que costuma ser compreendida pela maior parte das pessoas como a mais…

O cabelo de Stoppard, segundo Gaiman
NoMínimo / 05/07/2008

A coisa mais notável sobre Tom Stoppard (deixando de lado toda essa história dele ser um gênio e tal) é que ele é vinte anos mais velho, e tem o mesmo cabelo que eu! Neil Gaiman, estrela da mesa de 11h45, sobre Tom Stoppard, estrela da mesa de logo mais, em seu blog pessoal (dica de Marcelo Tas). Ter se dado bem nos bastidores da Flip com Stoppard, um sujeito que ele quer ser “quando crescer”, é apenas um dos assuntos relacionados com o Brasil que Gaiman aborda. Parece estar adorando tudo.

O diálogo de Gaiman e Price
NoMínimo / 05/07/2008

Foi perfeita a mesa que reuniu Neil Gaiman e Richard Price. Além da qualidade da obra dos dois e da lucidez com que falam dela, acho que algumas questões de formato, digamos assim, ficaram bem claras. Em primeiro lugar, mesas com três convidados não funcionam. Dois é o número ideal para que cada um tenha tempo de dar o seu recado. Um, se o cara for uma grande estrela, tudo bem. Três é demais. Segundo: o mediador é mais importante do que parece. Marcelo Tas desempenhou seu papel com rara competência. Conhecia a obra dos entrevistados, mas, nem tímido nem exibido, entendeu que não estava ali para defender uma tese de doutorado, mas para apresentar um pequeno show ao vivo. O timing de televisão ajudou. Terceiro: a química entre os convidados costuma ter muito de imponderável, mas não precisa ser encontrada em grandes questões políticas ou existenciais. A discussão sobre a técnica do diálogo, por exemplo, bastou para que Price e Gaiman, tão diferentes, encontrassem solo comum suficiente para garantir à mesa uma certa coerência. “O diálogo real é um pesadelo num livro, como um mau filme de Andy Warhol. Bom diálogo é diálogo falso”, disse Price, jogando uma pá…

O humor, o humor…
NoMínimo / 04/07/2008

O americano David Sedaris encerrou a programação de sexta-feira da Flip dando o que pensar. Depois da mesa gelada sobre uma certa (e nebulosa) “estética do frio”, Sedaris, mestre naquele tipo de humor bem americano em que o sujeito ri cruelmente de si mesmo antes de rir dos outros, conseguiu soar simpático até quando disse que, no Brasil, tinha dois desejos: comer carne assada em espadas (espetos de churrasco) e ver macacos. Fez o público flipesco dar gargalhadas com o absurdo da vida e sair de coração aquecido para disputar a cotovelaços lugares em restaurantes lotados e agüentar o serviço baiano que a cidade oferece por preços tão nova-iorquinos quanto a estrela da noite. Depois de uma quinta-feira dominada por Ovalle, fica a pergunta: só o humor salva?

Começos inesquecíveis: Martín Kohan

O caderno de anotações estava aberto no meio da mesa. Tinha só uma frase escrita nessas duas páginas que ficavam à vista. Dizia: “A partir de que idade se pode comesar a torturar uma criança?” O fortíssimo começo de “Duas vezes junho” (Amauta Editorial, 2005, tradução de Marcelo Barbão), do argentino Martín Kohan, que comprei ontem na tenda montada pela Livraria da Vila em Parati, fez crescer meu interesse pela mesa que começa daqui a pouco (e que terá ainda Nathan Englander e Vítor Ramil). A novela de Kohan aborda a violência da ditadura argentina de forma original já a partir de seu começo estarrecedor: o erro de ortografia representado por “comesar”, uma bobagem, será prontamente corrigido; a barbaridade demencial, mas ao mesmo tempo burocrática, de torturar um recém-nascido para obrigar sua mãe a falar, não.

Botequim em festa
NoMínimo / 03/07/2008

Pronto, aconteceu: a Flip 2008 teve sua primeira mesa para ser lembrada por muitos anos. “Você estava naquela mesa do Ovalle?”, muita gente perguntará ano que vem, dedicando então, em caso de resposta negativa, um olhar de pena ao interlocutor. E por que foi tão boa a tal Conversa de Botequim entre Humberto Werneck e Xico Sá, com mediação de Paulo Roberto Pires? Bom, qualquer tentativa de dissecar friamente esses momentos de alegria, e ainda por cima no calor da hora, é arriscada. Mas vamos lá: Para começar foi seguramente a mais engraçada de todas as que já vi em Parati. A mais desaconselhável para menores de dezoito anos também. Xico Sá, cronista famoso pela verve, começou pegando um pouco pesado nos palavrões para os padrões flipescos, e um bom punhado de sobrancelhas erguidas refletia o temor de que aquilo pudesse desandar. Não desandou: decolou. Jayme Ovalle tem muito a ver com isso. O personagem-tema do livro de Werneck, “O santo sujo” (mais sobre ele aqui), é uma figuraça que por si só estimula o clima de conversa vadia. E o autor, jornalista de renome, se revelou um exímio contador de casos. Mineiramente elegante, com um humor mais baseado no…

Vallejo contra Ingrid
NoMínimo / 03/07/2008

O escritor colombiano Fernando Vallejo, cujas opiniões contra tudo o que aí está são uma chatice abominável, deu sorte. Como fala baixo, num espanhol enrolado, e não havia tradução simultânea, a entrevista coletiva que deu hoje na Flip foi tão pouco compreendida pela maioria dos repórteres presentes que ele pôde se safar sem um arranhão quando foi além da chatice habitual, entrou pelo terreno da teratologia e, irritado, lamentou a libertação de sua compatriota Ingrid Betancourt. Prisioneira na selva, segundo ele, ela era “menos uma praga para nosso país”.

Novos, seminovos e uma velha sabedoria
NoMínimo / 03/07/2008

Na já tradicional mesa dos “novos autores”, sempre a primeira de quinta-feira, terminada há pouco, o mediador João Moreira Salles se confessou em grande dificuldade para encontrar o “mínimo denominador comum” entre quatro escritores que, além de terem estilos diferentes, nem mesmo no tempo de carreira se parecem: de um lado Michel Laub e Adriana Lunardi, quase veteranos com seus três livros cada um, e do outro os calouríssimos Vanessa Barbara e Emilio Fraia, autores de “O verão do Chibo” (Alfaguara), um romance escrito, coisa rara, a quatro mãos. Um dos pontos de contato que Moreira Salles descobriu entre eles – além de gozações como “sobrenomes iniciados por consoantes” – me chamou a atenção: todos têm bem-sucedidas carreiras paralelas à literatura, Adriana como roteirista de TV, os outros três como jornalistas. Pode parecer a maior das banalidades, mas numa mesa de novos e seminovos achei muito significativo. Talvez indique que está passando aquele sarampo neo-romântico que acometeu muita gente nos últimos anos: tratar a literatura como se ela simplesmente devesse ao escritor sua subsistência, ainda que precária, e que qualquer desvio dessa rota é uma sórdida traição à arte.

Melodia esquenta a 'Flic'
NoMínimo / 03/07/2008

Luiz Melodia fez um showzaço ontem à noite em Parati, misturando sambas antigos com sucessos de seu próprio repertório. Pouca gente se animou a mexer as cadeiras, apesar da banda afiada: intelectual é fogo. Mas o coro de centenas de vozes da platéia nos primeiros versos de “Estácio, holly Estácio” compensou. Para ser tudo perfeito, só faltou Melodia acertar o nome da festa, que chamou, repetidas vezes, de “Flic”. Uma espécie de Flip com soluço.

Machado na cabeça
NoMínimo / 02/07/2008

A Flip começou cabeçuda, densa, talvez um pouco fria, com a conferência do crítico Roberto Schwarz sobre “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, o homenageado da festa este ano. Schwarz é um analista brilhante da obra machadiana, ponto. A leitura que faz do velho Joaquim Maria como o mais ácido crítico das relações de dominação de um país patriarcal e escravocrata é tão luminosa que, para mim, mais do que jogar novas luzes sobre o autor, ajuda a espantar as próprias sombras de irrelevância que costumam rondar a literatura. Mas quem já leu seus dois livros essenciais sobre o tema, “Ao vencedor as batatas” e “Um mestre na periferia do capitalismo”, não encontrou muita novidade na mesa terminada agora há pouco. A não ser, talvez, quando Schwarz terminou a leitura de seu ensaio e passou a responder perguntas da platéia. O clima de improvisação fez bem à noite. É interessante sua tese de que a virada ocorrida no conceito de Machado, de jóia do conservadorismo brasileiro a autor subversivo, coincidiu com o golpe militar de 1964, quando, na opinião dele, os últimos resquícios do otimismo modernista foram soterrados e “todo mundo perdeu a ilusão com a elite brasileira”. De repente,…

Stoppard, o astro que ninguém leu (nem viu)
NoMínimo / 01/07/2008

Não gosto muito de ler teatro. Acho que pouca gente gosta – aquilo é feito para ser encenado, não é? Foi apenas no interesse da pesquisa que fazia para meu novo livro, de tema correlato, que há seis meses mandei a Amazon entregar aqui em casa um exemplar de The Coast of Utopia, a premiada trilogia de Tom Stoppard sobre a geração de intelectuais russos de meados do século 19 em cujas cabeças germinou com força a idéia de uma revolução feita pelas massas. Algum tempo depois, ainda estava lendo o livro quando soube que o dramaturgo inglês de origem tcheca viria à Flip. Meu primeiro pensamento foi: “Que coincidência”. E o segundo: “Que maluquice”. Stoppard é uma presença inusitada por algumas razões. Seu único livro em catálogo por aqui, lançado pela Rocco, é o roteiro do filme-pipoca “Shakespeare apaixonado”, do qual é co-autor – um projeto definitivamente menor, ainda que competente e divertido. Suas peças não são encenadas em nossos teatros, o que talvez faça sentido: jogos intelectualizados e referenciais, tapeçarias em que se juntam fatos históricos, debates filosóficos, personagens reais, as peças de Stoppard são dramas de idéias. Não têm nada de chatas ou cinzentas – seu senso…

A ortographia de Paraty
NoMínimo / 30/06/2008

Não fui à primeira Flip, em 2003, uma edição que ficou na história da festa como mito fundador, o Éden de gatos pingados que veio antes da Queda na massificação. No entanto, como descobri ao revirar meus arquivos agora há pouco, não deixei o assunto passar em branco. Num de meus primeiros artigos para o extinto NoMínimo, com o título acima, em agosto de 2003, falei da festa pelo ângulo de um quebra-pau supraliterário – ou infraliterário, pode escolher – que, embora não seja do tipo que muda a vida de ninguém, também não merece ser tratado como se não existisse. Afinal, a cidade se chama Parati ou Paraty? Como a dupla grafia domina a imprensa até hoje, confundindo muita gente, reproduzo abaixo a crônica de (homessa!) cinco anos atrás, que tenta encontrar resposta um pouco mais ilustrada para uma questão normalmente resolvida com o recurso simplório a leis federais, municipais etc. Em tempo, prefiro escrever Parati por uma razão simples: morro de medo de um precedente que inspire vereadores numerólogos e/ou caipiras a rebatizar suas cidades de Floreepa, Cuyabah, Seaureaukabba… * Falou em ortografia, o pessoal se empolga logo. Muita gente tem escassa disposição para enfrentar questões de língua…

Começos (ainda) inesquecíveis: J.M. Coetzee

A retrospectiva da seção dá um salto no tempo para ir entrando no clima da Flip. Esse sul-africano esquisitão aí ao lado foi responsável pelo momento mais polêmico – para mim e outras cinco pessoas o melhor, para a maioria do público um desastre – da festa paratiense do ano passado. O post abaixo foi publicado em 3/3/2007. * Para um homem de sua idade, cinqüenta e dois, divorciado, ele tinha, em sua opinião, resolvido muito bem o problema de sexo. Nas tardes de quinta-feira, vai de carro até Green Point. Pontualmente às duas da tarde, toca a campainha da portaria do edifício Windsor Mansions, diz seu nome e entra. Soraya está esperando na porta do 113. Ele vai direto até o quarto, que cheira bem e tem luz suave, e tira a roupa. Soraya surge do banheiro, despe o roupão, escorrega para a cama ao lado dele. “Sentiu saudade de mim?”, ela pergunta. “Sinto saudade o tempo todo”, ele responde. Acaricia seu corpo marrom cor-de-mel, sem marcas de sol, deita-a, beija-lhe os seios, fazem amor. E já que andamos falando do homem, vai aí o começo do tétrico romance “Desonra”, obra-prima do escritor sul-africano J.M. Coetzee (Companhia das Letras,…

A ‘gratuidade magnífica’ de Jayme Ovalle
NoMínimo / 27/06/2008

Muso, personagem e guru de Manuel Bandeira e uma penca de nomes estelares do modernismo brasileiro, Jayme Ovalle (1896-1955) é a mais curiosa figura daquela geração. Artista sem obra – ou quase isso, embora fosse compositor talentoso e tenha emplacado um clássico, “Azulão” –, encarnou como ninguém o espírito de gratuidade, boemia e improvisação dos que fazem da própria vida matéria de arte e estão, bem, bebendo e andando para organizar essa bagunça em nome da posteridade. Virou mito, mas pagou um preço alto: por trás da lenda, quase sumiu. Não é exagero dizer que só agora, ao ganhar uma biografia, sua obra-vida fica completa. “O santo sujo – A vida de Jayme Ovalle” (Cosac Naify, 400 páginas, R$ 55) está saindo numa daquelas edições primorosas que viraram a marca da editora paulistana depois de custar a seu autor, o jornalista mineiro Humberto Werneck, quase duas décadas de trabalho – um trabalho repleto de interrupções e adiamentos, naturalmente, como o biografado seria o primeiro a compreender. Werneck, autor também de “O desatino da rapaziada – Jornalistas e escritores em Minas Gerais” (Companhia das Letras), estará na próxima quinta-feira numa mesa da Flip, ao lado de Xico Sá, para falar de…

Os mais traduzidos
NoMínimo / 26/06/2008

Em primeiro lugar, Walt Disney. Em segundo, Agatha Christie. Para provar que a língua inglesa é forte mas não é tudo, o pódio é completado por Jules Verne. Em quarto lugar, à frente de Shakespeare, uma surpresa saborosa: Lênin. A lista completa dos cinqüenta autores mais traduzidos do mundo desde 1932 segundo a Unesco, com o número de edições em línguas estrangeiras de cada um, pode ser consultada aqui. (Via blog da “New Yorker”.) Como curiosidade, está valendo. Não tenho nada contra essa promiscuidade de ficção e não-ficção, literatura “literária” e de massa. Mas que há algo de profundamente injusto em pôr a corporação do empresário Disney para brigar com autores de verdade, há.

Lendo ‘Chiquita’ em Havana
NoMínimo / 25/06/2008

Graças aos amigos que colhi através deste blog, chegou às minhas mãos o romance “Chiquita”, ganhador do Prêmio Alfaguara deste ano. É provável que eu tenha um dos poucos exemplares que há na Ilha, o que me obriga a lê-lo depressa e passá-lo à fila de amigos que esperam por ele. As mais de quinhentas páginas escritas por Antonio Orlando Rodrigues são atraentes não só pela história que narram, mas pelo círculo de mistério que envolve o próprio livro. Basta dizer que os meios oficiais cubanos ainda não anunciaram que um compatriota ganhou tão importante galardão. Os encantos do festejadíssimo – com razão – blog Generación Y, da cubana Yoani Sánchez, brotam da superposição de dois mundos inconciliáveis: a vida em Cuba, com seus milhões de anacronismos, e a consciência planetária de sua autora, uma jovem cevada na blogosfera sem porteiras do século 21. Essa superposição, livre de deslumbramento capitalista ou ranço programático, está na base do leque de efeitos que Yoani obtém: patéticos, cômicos, às vezes tristes de doer, em outras surpreendentemente ternos; quase sempre amargos, mas nunca derrotistas. Fidel Castro acaba de passar recibo. O post sobre o romance “Chiquita” (nada a ver com as “Chiquititas” da TV)…

Palavras jogadas fora
NoMínimo / 23/06/2008

Há risco de um autor como Guimarães Rosa ser esquecido ou ficar elitizado? Penso que é o contrário: o que não fica é o que é superficial, fraco e ruim. O dicionário “Houaiss” tem 400 mil palavras. O rádio, a televisão, o jornal, a literatura que se faz hoje não chegam a 20 mil: estão jogando fora 380 mil. Em entrevista (só para assinantes) à “Folha de S.Paulo”, a crítica literária Walnice Nogueira Galvão defende uma causa justa, a permanência de Guimarães Rosa, com o inacreditável argumento acima. Para começar, o “Houaiss” tem apenas “cerca de 228.500” verbetes, segundo a apresentação de Mauro de Salles Villar, da Academia Brasileira de Filologia, um dos diretores de sua equipe editorial. Mas isso não é o mais importante. A lógica quantitativa da autora de “Mínima mímica” (Companhia das Letras), recém-lançada coletânea de ensaios rosianos, me fez pensar num depoimento de Josué Montello sobre Machado de Assis, arquivado na Academia Brasileira de Letras: Certa vez, um mestre meu, Lourenço Filho, resolveu fazer o levantamento do vocabulário do “Dom Casmurro” e teve essa surpresa: não passava de 2 mil palavras. Com essas 2 mil palavras, Machado de Assis conseguira dizer tudo, só não disse –…

Começos (ainda) inesquecíveis: Rubens Figueiredo

Este post foi publicado pela primeira vez em 24/11/2006: * Não não. Papel, não. Ninguém vai falar de papel aqui. Não é coisa que se fale. Papel. Mas já reparou como tem papel por aí, espalhado, empilhado, grampeado, no mundo inteiro, um mundo de papel. Olha bem. Papel de parede, lenço de papel, papel-moeda, toda hora a gente está pegando ou olhando para um papel. Que nem você aí parado. E não precisa nem se mexer porque é aqui perto, bem pertinho, nessa página mesmo, que tem uma pessoa a um passo e a poucas páginas da maior complicação da sua vida por causa de um punhadinho bobo de papel. Não conheço muita gente que concorde comigo, mas lamento que Rubens Figueiredo tenha abandonado tão definitivamente o estilo efervescente de seus três primeiros livros, “O mistério da samambaia bailarina”, “Essa maldita farinha” e “A festa do milênio” – em que brincava desvairadamente com a linguagem em farsas rebuscadas e divertidíssimas –, para se dedicar aos meios-tons melancólicos de obras como “As palavras secretas”, “Barco a seco” e “Contos de Pedro”. Sim, foi esta segunda fase, sem dúvida competente, que tornou Rubens respeitado pela crítica brasileira. Mas eu, que sempre tive…

Bolaño + metrô = Porsche?
NoMínimo / 20/06/2008

O subtítulo da reportagem de Leon Neyfakh para “The New York Observer” (via Gawker) torna a leitura simplesmente obrigatória: “Carregar ‘2666’ de Bolaño é como dirigir um Porsche conversível”. Como? Onde? Que paraíso é esse em que a prova de um romance charmoso que ainda não foi lançado (lá, claro) tem o mesmo poder de atração sobre o sexo oposto que os maiores símbolos de status jamais fabricados pelo engenho humano? Segundo a reportagem, o metrô de Nova York. Um lugar tão coalhado de belos jovens livrescos de ambos os sexos que um livraço inédito discretamente exibido vale mais que uma rebuscada dança do acasalamento. Bom, acaba que a história não é bem assim. O texto é muito divertido e sai testando sua hipótese com homens e mulheres, todos ligados à indústria editorial ou ao jornalismo cultural – quem mais teria acesso a provas tipográficas que valem por um carrão? O resultado é o retrato de um mundo de sonhos para ratos de livraria: quem disser que a literatura não tem nada a ver com sedução (como demonstra a pesquisadora) está mentindo. Excitante, mas alienígena. Não adianta tentar repetir o truque entre Botafogo e Central. De qualquer forma, a hipótese…

Por que os leitores se mudaram para Cabul
NoMínimo / 19/06/2008

Li o esboço de um debate interessante, embora incipiente, nas entrelinhas do “Rascunho” de junho. De um lado, o carioca Nelson Motta, de cuja literatura não sou propriamente um fã, diz numa longa entrevista coisas sensatas como esta: Faço uma literatura de entretenimento, uma literatura pop. Minha grande ambição é alegrar, divertir as pessoas, emocioná-las um pouco, esclarecer uma coisa ou outra. É para isso que eu rezo literalmente, todo dia, antes de escrever: para que meu trabalho possa alegrar, divertir e esclarecer. (…) Já é muito difícil você conseguir essas coisas. Muita gente que quer fazer arte não consegue sequer fazer um bom entretenimento. E, às vezes, naquilo que tem o espírito de entreter com leveza, você também encontra arte e profundidade. Do outro lado – num artigo que, a meu ver, acaba atirando em alvos demais – o pernambucano Raimundo Carrero, escritor de vôo estético mais longo e ambicioso, passa em certo momento por um caminho que corta o de Nelson Motta num ângulo inesperado. Carrero parte de um lugar-comum: fala de uma ficção “que se dilacera entre a obra de arte e a obra voltada apenas para o leitor, transformada em mercadoria”. Chega a criticar de passagem…

Um personagem para chamar de eu
NoMínimo / 17/06/2008

Num artigo para a revista The Chronicle of Higher Education (via Arts & Letters Daily), o crítico americano Michael Dirda conta que, há algum tempo, perguntaram-lhe numa sala de aula que personagem dos livros gostaria de ser. A resposta esperada, diz ele, era certamente “literária”, algo como Odisseu (Ulisses) ou Huckleberry Finn. Mas ele respondeu: “Bond, James Bond”. E explica por quê: “Ele tem os melhores brinquedos, atrai mulheres lindas e vence em todos os jogos, seja golfe, bacará ou – em Devil may care – tênis”. São todas boas e másculas razões, sem dúvida. Só faltou dizer que Bond tem que matar gente, muita gente, o que, para alguns de nós, basta para estragar tudo. Mesmo que os mortos sejam todos “malvados”, há quem prefira manter distância dessa prática. Fiquei pensando se a literatura brasileira tem alguém que eu gostaria de ser. Houve um tempo em que talvez respondesse Mandrake sem hesitação. Hoje não sei. Será que nossa galeria de heróis, quase todos atormentados, não se presta a esse tipo de brincadeira? Aceito sugestões.

Começos (ainda) inesquecíveis: Hilda Hilst

Publicado pela primeira vez em 7/9/2006: * Deus? Uma superfície de gelo ancorada no riso. Isso era Deus. Ainda assim tentava agarrar-se àquele nada, deslizava geladas cambalhotas até encontrar o cordame grosso da âncora e descia em direção àquele riso. Tocou-se. Estava vivo sim. Quando menino perguntou à mãe: e o cachorro? A mãe: o cachorro morreu. Então atirou-se à terra coalhada de abóboras, colou-se a uma toda torta, cilindro e cabeça ocre, e esgoelou: como morreu? como morreu? O pai: mulher, esse menino é idiota, tira ele de cima dessa abóbora. Morreu. Fodeu-se disse o pai, assim ó, fechou os dedos da mão esquerda sobre a palma espalmada da direita, repetiu: fodeu-se. Assim é que soube da morte. Começa assim “Com os meus olhos de cão” (Editora Globo, 2001), novela lançada em 1986 pela escritora paulista Hilda Hilst (1930-2004). Ou assim começa sua parte em prosa: tomei a liberdade de excluir os doze versos curtos que a antecedem para ir direto a esse monumental, enigmático Deus “ancorado no riso”. Observa Alcir Pécora, organizador das obras reunidas de Hilda, que “o obsceno é nome do cordame grosso com que se desce a este fundo”. Acrescentar alguma coisa? Eu não. Ancorado…

Escritores de crachá
NoMínimo / 13/06/2008

O projeto de regulamentação da profissão de escritor, de autoria do deputado federal Antonio Carlos Pannunzio (PSDB-SP), leva cascudos unânimes dos três escritores que Jonas Lopes ouviu para o post publicado hoje em seu ótimo blog Gymnopedies: Milton Hatoum, Antonio Fernando Borges e eu. Fiquei contente de ver minha opinião tão bem acompanhada, claro, mas ao mesmo tempo preocupado: se algum escritor não se levantar em defesa da coisa urgentemente, vou concluir que nossa tradição burocrática e cartorial é tão forte que dispensa até o apoio daqueles que teoricamente busca favorecer.

O diálogo e o diálogo de Richard Price
NoMínimo / 12/06/2008

Para quem, discordando de Moacyr Scliar, trata o diálogo literário com o respeito que ele merece, é imperdível o artigo (em inglês, acesso livre) publicado na New Yorker de abril por James Wood, o mais influente crítico literário americano deste início de século. Wood fala de Richard Price, a esta altura um nome já ascendido – mais do que em ascensão – na literatura policial de seu país. (Parêntese incontido: um crítico erudito que entende e respeita a literatura “de gênero”, que inveja!) Embora dois livros de Price tenham sido traduzidos há alguns anos no Brasil, “Clockers” e “Freedomland”, ambos pela Rocco, ele permanece meio obscuro por aqui. É possível que isso mude em breve, com sua vinda à Flip e o anunciado lançamento de Lush life por uma editora mais afeita à construção de reputações, a Companhia das Letras. De qualquer maneira, a edição não ficará pronta para a festa. Price será um autor sem livro em Parati. A dificuldade maior que sua obra enfrenta fora de casa, porém, tem tudo a ver com o que James Wood considera sua maior qualidade: o talento para a reinvenção literária de uma fala cheia de gírias, imagens e achados poéticos cria…

Diálogo de surdos
NoMínimo / 11/06/2008

Espantosa esta intervenção do escritor e médico gaúcho Moacyr Scliar num festival de literatura no interior de São Paulo, semana passada. Em vez de uma arte fina e difícil, que frustra a maioria dos que nela se aventuram para premiar uns poucos com ouro puro, o diálogo literário, segundo ele, seria enchimento de lingüiça: Para Scliar, o diálogo é apenas um recurso para preencher espaço em uma história. “Quando me deparo com um livro, busco descobrir a quantidade de diálogos que estão ali. Se forem muitos, não acredito que seja um bom livro.” Descartada a possibilidade de que Scliar se referisse aos diálogos de seus próprios livros, caso em que teria um argumento respeitável, resta a conclusão lógica de que, lá de sua tumba em Stratford-upon-Avon, Shakespeare está clamando aos céus: Lord, what fools these mortals be!

Um ingresso, meu reino por um ingresso…
NoMínimo / 10/06/2008

Aconteceu de novo. Algum dia um pesquisador terá que investigar por que nós, brasileiros, temos essa incompetência atávica para organizar uma simples venda de ingressos. Quem não tiver paciência para detalhes escatológicos deve pular este post, breve resumo de uma manhã tensa – no fundo besta – de terça-feira. O site da Flip anunciava a venda pela Ingresso Rápido a partir de hoje às 9h. Um amigo que ligou antes dessa hora conseguiu, após esperar numa fila de cinqüenta pessoas, ser atendido – “um momeiinnnto!” – pelo call center da empresa, no (11) 4003-1212. Foi informado de que a venda começaria às 10h e o obrigaram a desligar. Depois disso, claro, só encontrou linhas ocupadas. Observação importante para que o suspense de thriller fique completo: as mesas mais concorridas, como vimos em outros anos, costumam se esgotar em poucos minutos. Nessa situação, cada ligação telefônica que cai é acompanhada de acordes funestos, cada segundo de espera na porta de um servidor superlotado cai como grão de areia na ampulheta do Juízo Final… Àquela altura, o site ingressorapido.com.br não mencionava Flip nenhuma. Não mencionava às 9h. Continuou não mencionando às 10h. Às 10h31, finalmente, apareceu uma página dedicada ao evento. Uma…

Flip, as preliminares
NoMínimo / 09/06/2008

O Todoprosa estará na Flip, é claro. Não tendo mais idade para acampar ou dormir no carro, reservou pousada há um mês – no escuro, como sempre. A programação oficial só foi divulgada semana passada e não fez disparar o coração de ninguém, mas sem dúvida é sensata, consistente. Não antecipo nenhuma revelação-com-trombetas do tipo que me emplastrou numa cadeira da Tenda dos Autores ano passado, ouvindo Coetzee ler trechos de Diary of a bad year – sim, fui uma das cinco pessoas que gostaram, e na época expliquei por quê. Mesmo assim, quero ver e ouvir Roberto Schwarz, Humberto Werneck, Martín Kohan, Nathan Englander, Neil Gaiman, Richard Price, Cees Nooteboom e Tom Stoppard. E mais alguma coisa que calhar. (Adendo às 12h23: o cancelamento da participação do historiador inglês Tony Judt tem peso considerável, mas, como se vê, não afeta meus planos.) E só vou perder o bate-bola entre José Miguel Wisnik e Roberto da Matta sobre futebol porque ele foi escalado para os 44 do segundo tempo, digo, 17h de domingo, quando Parati já terá sido desertada por quase todo mundo que trabalha para ganhar a vida e correrá sobre as ruas de pés-de-moleque, arrastando filipetas de festinhas…

Começos (ainda) inesquecíveis: Dashiell Hammett

Domingo é dia de relembrar o inesquecível. Este post foi publicado pela primeira vez em 23/6/2006. * O maxilar de Spade era largo e ossudo, seu queixo era um V muito pronunciado, abaixo do V mais suave formado pela boca. As narinas se arqueavam para trás para formar um outro V, menor. Os olhos amarelo-cinzentos eram horizontais. O tema do V era retomado pelas sobrancelhas um tanto peludas que se erguiam a partir de duas rugas gêmeas acima do nariz adunco, e o cabelo castanho-claro tombava – de suas têmporas altas e retas – em uma ponta, por cima da testa. De modo bem ameno, ele parecia um satã louro. Disse para Effie Perine: – O que é, meu bem? O início de “O falcão maltês” (Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo, 2001), obra-prima lançada em 1930 por Dashiell Hammett (1894-1961) e fortíssimo concorrente ao título de maior romance policial da história, marca o momento – não desprovido de choque – em que a descrição da literatura realista encontra o grafismo econômico dos gibis.

O Estado deve incentivar escritores a escrever?
NoMínimo / 05/06/2008

O André Gonçalves sugere um excelente tema de debate: Como disse, está havendo o Salão do Livro, aqui em Teresina. E 9 entre dez “escritores” reclamam da falta de apoio, da falta de incentivo, etc, etc, etc. Pergunto: até que ponto é obrigação/responsabilidade do Estado ou da iniciativa privada bancar/financiar livros (considerando-se que 90% deles, eu inclusive, ou mais, sejam de interesse único e exclusivo do autor e sua família, ou fruto de vaidade, ou qualidade literária sofrível)? Como incentivar novos escritores? Concursos premiam um de cada vez, e olhe lá. Enfim, qual o papel do Estado nisso tudo? Bem, se acreditar que isso pode ser um bom tema, ótimo. Senão, ao menos pode-se discutir por aqui. Isso me fez lembrar de um link sugerido ontem na caixa de comentários do post da “Granta” por outro leitor: uma reportagem do “Jornal do Brasil” de três semanas atrás – que tinha me escapado por completo – sobre as insatisfações que começam a pipocar no bonde literário da Petrobras, o mais gordo e populoso do país. O tema, que a partir deste momento está aberto para debate, é controverso. Vou gostar de ler as opiniões dos dois lados. Mas não digam que…

O sucesso do Bond ‘falsificado’
NoMínimo / 04/06/2008

“Devil May Care”, o novo romance de James Bond escrito por Sebastian Faulks, tornou-se o livro de ficção de capa dura de venda mais rápida na história da Penguin, com a marca de 44.093 exemplares nos quatro dias desde que o título chegou às prateleiras. Os números se seguem a uma campanha promocional de proporções comparáveis às de “Harry Potter”, inclusive, na fase pré-lançamento, com notícias do trabalho de Sebastian Faulks como dublê de Ian Fleming publicadas em todos os maiores jornais. Confesso que não poderia estar menos interessado no livro de Faulks. Mas a notícia (acesso livre, em inglês) é representativa da nova ordem que há alguns anos se anuncia no mundo editorial. Neste tempo, uns poucos livros recebem de seus editores um tratamento de marketing até então dispensado apenas a certos filmes de Hollywood. Os outros 99,88% disputam as migalhas e um cada vez mais improvável papel de azarão. A comparação com Harry Potter deve ser feita com muita cautela: o último livro da série do mago vendeu 3 milhões de exemplares em seu primeiro fim de semana. Apesar de infinitamente mais modesto, o caso da nova aventura de James Bond acrescenta um dado instrutivo ao panorama ao…

Machado, o Pelé das letras? E vice-versa?
NoMínimo / 02/06/2008

A discrepância aparentemente aberrante da comparação entre o escritor e o jogador de futebol contém nela mesma o xis do problema: ambos são necessários para que se formule a trama de um país mal letrado e exorbitante, cuja destinação passa pelas reversões entre a “alta” e a “baixa” cultura, pelo confronto e pelo contraponto das raças, pela palavra e pelo corpo, e cuja “formação” não poderia se dar apenas na literatura: o ser brasileiro pede minimamente – para se expor em sua extensão e intensidade – a literatura, o futebol e a música popular. (Aliás, uma certa intangibilidade enigmática, comum aos dois, pode ser reconhecida também em João Gilberto.) Se Machado de Assis tornou-se quase inseparável – depois da interpretação de Roberto Schwarz – do equacionamento das “idéias fora do lugar”, isto é, dos desnivelamentos e disparates entre a escravidão cotidiana e a pretensão universalizante do liberalismo burguês que pautou as nações modernas, o futebol brasileiro e Pelé são inseparáveis do “lugar fora das idéias”, o vetor inconsciente por meio do qual o substrato histórico e atávico da escravidão se reinventou de forma elíptica, artística e lúdica. Os ensaios de fôlego que compõem o recém-lançado “Veneno remédio: o futebol e…

Começos (ainda) inesquecíveis: Juan Rulfo

A retrospectiva desta seção está aqui todo domingo. Este post foi publicado pela primeira vez em 17/9/2006. * Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo. Um dia a dúvida tinha que aparecer nesta seção: será que o começo de “Pedro Páramo” (Record, 2004, tradução de Eric Nepomuceno), romance publicado em 1955 pelo mexicano Juan Rulfo (1917-1986), só é inesquecível porque o livro todo é? Ou existirá alguma coisa na primeira linha dessa obra-prima da literatura latino-americana que a faria reverberar mesmo sozinha, no ar seco de um México mítico, sustentada entre o tema ancestral da busca do pai e a sonoridade estranha de nomes como Comala e Páramo?

‘Granta’: perto daqui
NoMínimo / 31/05/2008

Outra boa notícia para quem se preocupa com o coeficiente literário do país (a semana está pródiga): a edição brasileira da “Granta” conseguiu manter sua promessa de semestralidade, feito digno de festa num mercado em que, quanto menor e mais sofisticado o público, mais tudo tende a virar devezenquandário – quando não a sumir de vez. Franquia da revista trimestral britânica que acaba de chegar ao número 101 e tem a reputação de ser uma das principais publicações literárias do mundo, a “Granta” brasileira, editada pela Alfaguara/Objetiva, estreou em novembro do ano passado com um número inteiramente traduzido do inglês, dedicado a escritores americanos com menos de 35 anos. O número 2 chega às prateleiras com o “preço sugerido” de R$ 36,90 – o que é mais uma boa notícia: o número de estréia era onze reais mais caro – e é o primeiro em que a revista põe em prática seu compromisso de misturar conteúdo traduzido (60%) e nacional (40%). Traz como tema as viagens, sob o título “Longe daqui”. Os primeiros brasileiros a saírem na “Granta” são os cineastas Cacá Diegues e Arnaldo Jabor, com relatos memorialísticos; os ficcionistas Ignácio de Loyola Brandão e Ricardo Lísias, com contos;…

1968, 1975, 2008 e além
NoMínimo / 30/05/2008

Tentar estabelecer relações entre momento histórico-social e literatura é pedir para derrapar em terreno traiçoeiro. Claro que as relações existem, mas jamais serão simples e diretas. É possível que só uma distância mínima de, sei lá, cem anos permita enxergar sem óculos ideológicos mais grosseiros os mecanismos desse relógio. Feita a ressalva, achei inspirador esbarrar hoje, no blog do “Guardian”, com um pequeno artigo (em inglês) de Gary Younge em que, a propósito de celebrar mais uma vez (alguém ainda agüenta isso?) o que teve de revolucionário o ano de 1968, ele se espanta que os reflexos daquela agitação não tenham aparecido de forma fulgurante nos livros dos anos subseqüentes: …em termos de literatura os anos 70 produziram relativamente pouco que tivesse um grande e duradouro interesse. Será que os 60 deram maior voz a uma geração de escritores – mulheres, de países em desenvolvimento, negros, gays e assim por diante – que ainda precisariam de uma década para amadurecer? Sim, o cheiro de “estudos culturais” dessas linhas é forte. E também não estou convencido de que, no quadro da literatura internacional, os anos 70 tenham sido tão fracos assim. Se achei o artiguete inspirador foi porque ele me levou…

Enfim, o nosso Booker?
NoMínimo / 29/05/2008

A Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo vai lançar nos próximos dias o mais bem pago prêmio literário do Brasil. O Prêmio São Paulo de Literatura pagará R$ 200 mil para o melhor livro de ficção do ano, mais R$ 200 mil para o melhor livro estreante, também ficção. A primeira edição levará em conta livros de autores brasileiros publicados no ano passado. A quantia ultrapassa com folga os valores máximos de outras láureas já concedidas no país, como o prêmio Portugal Telecom (R$ 100 mil), o Zaffari & Bourbon (R$ 100 mil), da Jornada de Passo Fundo, e o Jabuti (R$ 30 mil), o mais antigo e tradicional de todos. A matéria de Eduardo Simões publicada hoje na “Folha de S. Paulo” (só para assinantes) é uma ótima notícia, e não apenas pela grana. Outro dia eu comentava aqui que não temos no Brasil um prêmio literário que chegue perto do peso cultural do Goncourt ou do Rómulo Gallegos, do tipo que vale manchete e faz os leitores correrem para as livrarias. Agora teremos, pelo menos, mais um concorrente à vaga. A inspiração para o prêmio, segundo o secretário paulista de Cultura, João Sayad, é o britânico…

Um escritor no hospício
NoMínimo / 28/05/2008

Os cursos de escrita, especialmente quando envolvem a palavra “criativa”, são os novos hospícios. Uma das coisas que se nota é que, toda vez que ligamos a televisão e um estudante enlouqueceu com uma metralhadora em algum campus dos Estados Unidos, é sempre um aluno de um desses cursos. Hanif Kureishi, autor do roteiro de “Minha adorável lavanderia” e do romance “O buda do subúrbio”, estava atacado em sua palestra no Festival de Hay, matriz galesa da Flip – notícia completa no “Guardian”, em inglês. Professor de um dos cursos que criticou, na Kingston University, Kureishi deve saber o que diz. E diz o seguinte: A fantasia é que todos os estudantes vão se tornar escritores de sucesso, e ninguém os desilude. Quando você usa a palavra “criativo” e a palavra “curso”, há algo de enganador nisso. Os chutes de Kureishi não miraram apenas o pau da barraca das oficinas de ficção. Outros alvos foram a superficialidade da imprensa… Vêm e tiram fotos das escrivaninhas dos escritores. Eles não vêm e tiram fotos das suas escrivaninhas, vêm? É como se o talento estivesse na escrivaninha. …e sua própria vida, quando revelou o que pensa ao se sentar para escrever, a…

Risoto de cavaquinha na Pomerânia
NoMínimo / 27/05/2008

Por que tenho de diminuir as minhas horas em frente à televisão e começar a ler alguma coisa? Não tem, não. Apenas deveria. Pela mesma razão que deveria comer menos cachorro quente e mais risoto de cavaquinha ao limão siciliano. Se livros são tão bons, por que ninguém dá bola pra eles? Não dar bola é relativo. Conheço um monte de gente que mataria por um conto, pularia no abismo por um poema. Quem não conhece os livros tende a lhes dedicar um desprezo semelhante ao que sentimos pela Pomerânia. É uma região historicamente fascinante, mas como saber disso se nunca estivemos lá? Entre a ficção e a realidade, com quem você se casaria? Com a realidade, sem dúvida. Não só me casaria como me casei. Ficção é para ler e, além disso, com suas Bovarys e Capitus, pode tornar sua vida um inferno. Gostei muito da entrevista de bolso que Henrique Araújo fez comigo para o jornal “O Povo”, de Fortaleza. Não é séria, mas é.

Uma revolução em dez capítulos
NoMínimo / 26/05/2008

O jornalista Robert McCrum, que assumiu o cargo de editor de literatura do jornal inglês “Observer” em 1996 e acaba de deixá-lo, escreveu um artigo (acesso livre, em inglês) em que tenta explicar como e por que o mundo literário “virou do avesso” ao longo desses anos: Tudo isso foi alimentado por uma mistura explosiva de comércio global e tecnologia. Em termos simples, pode-se dizer que Amazon mais Microsoft é igual a uma nova estratosfera literária. Dois fatores complicam essa equação. Primeiro, apesar da consistente evolução da tipografia para a digitalização, o livro impresso conseguiu se manter firme frente às opções eletrônicas. É como se, depois da decolagem, a missão Apollo se revelasse não uma nave espacial, mas um Spitfire. Em segundo lugar, continua sendo um paradoxo da rede mundial de computadores que, se esta foi a década em que milhões encontraram uma voz por meio da internet, apenas uma minoria descobriu uma platéia. A auto-expressão se democratizou, mas livros e escritores continuam enfrentando a mesma velha batalha ancestral para conquistar leitores. Como chegam lá ainda é um mistério, mas na alquimia do sucesso literário o “boca-a-boca” permanece essencial. Em seguida vem uma lista de dez tópicos – “capítulos”, segundo…

Começos (ainda) inesquecíveis: Charles Dickens

Todo domingo, o leitor encontrará aqui uma retrospectiva da seção mais querida do blog. O post de hoje foi publicado pela primeira vez em 30/6/2006. * Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário (…) Eis o melhor dos começos, o pior dos começos: o começo de “Um conto de duas cidades”, lançado em 1859 por Charles Dickens (Nova Cultural, 2002, tradução de Sandra Luzia Couto).

O choro de Saramago
NoMínimo / 23/05/2008

O link já anda circulando por aí, mas merece circular mais. José Saramago chorou quando terminou de assistir ao filme “Blindness”, baseado em seu romance “Ensaio sobre a cegueira”. Enquanto rolavam os créditos finais, disse que estava tão feliz quanto ao terminar de escrever o livro. O diretor Fernando Meirelles, ao seu lado, sapecou-lhe um beijo na careca. O alívio de Meirelles foi tão evidente que parece ter valido mais que uma possível – embora improvável, a julgar pelo mau humor da crítica internacional – Palma de Ouro em Cannes neste domingo. A bonita cena está no YouTube (dica de André Gonçalves, do Farinhada).

A ira implosiva de Fernando Vallejo
NoMínimo / 22/05/2008

Será que só eu achei uma chatice sem tamanho a iconoclastia marqueteira de Fernando Vallejo, escritor colombiano que virá à Flip? Vallejo tem despejado na imprensa brasileira vitupérios em série contra tudo o que se move: de Chávez a Uribe, do papa a Fidel, da Colômbia ao Brasil, de García Márquez ao que você quiser imaginar – isto é, se a essa altura o tédio não tiver congelado sua imaginação. Tudo com mão tão pesada, tão obviamente calculado para épater le bourgeois – um burguês que não está nem aí, claro – que fiquei pensando: terá a literatura chegado a tal ponto de rebaixamento frente ao mercado que, como uma puta velha, precisa desses atavios cada vez mais espalhafatosos, desses esgares grotescos que tentam se passar por sorrisos? Ou o cara é assim mesmo? Como sei que Vallejo já ganhou o prestigiado prêmio Rómulo Gallegos e é levado a sério pelos críticos de língua espanhola, não me espantei de ver que o “Estadão” de sábado embarcou em sua conversa sem o menor traço de distanciamento irônico, mencionando sua “ira explosiva”. “O Globo” de ontem não ficou atrás e disse que Vallejo “atirou, com cinismo e humor, contra as hipocrisias”. Entre…

Mais polêmica: Machado, o enganador
NoMínimo / 20/05/2008

O Sr. Machado de Assis passa atualmente pelo mestre incomparável do romance nacional. (…) Mas é preciso romper o enfado que me causa este romântico em desmantelo, despi-lo à luz meridiana da crítica. Esse pequeno representante do pensamento retórico e velho no Brasil é hoje o mais pernicioso enganador, que vai pervertendo a mocidade. Essa sereia matreira deve ser abandonada. Está bem, pode ser que as polêmicas literárias já tenham sido mais elevadas. Mas não eram necessariamente mais lúcidas e inteligentes. E nem é preciso ler motivações sexuais reprimidas nessa história de “despi-lo à luz meridiana da crítica”. Em 1885, três anos depois das espantosas narrativas curtas de “Papéis avulsos” – entre elas O alienista – e quatro após “Memórias póstumas de Brás Cubas”, talvez Machado de Assis já tivesse produzido o suficiente para ser considerado o maior escritor brasileiro da história. Mesmo que dali até sua morte, exatamente cem anos atrás, não fizesse o que fez. Mesmo que não existisse Capitu. Pois foi naquele ano que um dos mais renomados críticos brasileiros de todos os tempos, o sergipano Sílvio Romero, que não era um idiota, resolveu pregar em si mesmo um nariz de palhaço, pendurar no pescoço uma sineta…

Temporada de polêmicas
NoMínimo / 19/05/2008

Anda quente a temporada de quebra-paus literários. Primeiro foi a mãe de Michel Houellebecq, a senhora Lucie Ceccaldi, que decidiu se vingar do retrato ultrajante que o filho traça dela – sem sequer alterar seu nome – na hippie hedonista de “Partículas elementares”. Em sua recém-publicada autobiografia, “L’Innocente”, a encantadora velhinha de 83 anos promete, segundo o blog da revista “New Yorker”, ir às vias de fato: “Se ele puser meu nome outra vez em uma das suas coisas, vai levar uma bengalada na cara que lhe quebrará os dentes, isso eu garanto!”. Mais educados, Salman Rushdie e a crítica Ruth Morse têm trocado insultos polidos ou nem tanto (em que categoria se encaixa “ataque feminista primitivo”?) na seção de cartas – aqui e aqui – do “Times Literary Supplement”. Tudo começou com a resenha negativa que ela publicou sobre o último livro de Rushdie, “The enchantress of Florence”. Para não deixar o Brasil fora dessa, Marcelo Mirisola publica hoje um artigo desancando o psicanalista Contardo Calligaris, que na semana passada, em sua coluna na “Folha de S.Paulo”, fez aquilo que o intelectual Carlos Maçaranduba chamaria de “duvidar da masculinidade” de Ernest Hemingway. “Almanaque de psicanálise para analfabetos iniciantes”, sentencia…

Começos (ainda) inesquecíveis: Italo Calvino

A seção que se tornou a maior marca registrada do Todoprosa está perto de completar dois anos, mas não é só por isso que dou início hoje a uma retrospectiva dos mais inesquecíveis começos inesquecíveis. A razão principal é que os leitores que estão descobrindo o blog agora, no iG, merecem ser inteirados do que passou. Mesmo porque os começos são inesquecíveis mas não infinitos – embora sejam imortais enquanto durem. Coube a este aqui, publicado em 13/06/2006, abrir a série. * Você vai começar a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido. É melhor fechar a porta; do outro lado há sempre um televisor ligado. Diga logo aos outros: “Não, não quero ver televisão!”. Se não ouvirem, levante a voz: “Estou lendo! Não quero ser perturbado!”. Com todo aquele barulho, talvez ainda não o tenham ouvido; fale mais alto, grite: “Estou começando a ler o novo romance de Italo Calvino!”. Se preferir, não diga nada; tomara que o deixem em paz. Você acaba de ler o primeiro parágrafo de “Se um viajante numa noite…

O romance o que é?
NoMínimo / 17/05/2008

O romance é um gênero flexível, tolerante e magnânimo em que cabe tudo, menos o que é aborrecido. Tentar delimitá-lo ou direcionar seu curso carece de sentido histórico e evidencia apenas fanatismo intelectual ou um afã mercantil de notoriedade. O romance carece de regras. O romance é por excelência o último bastião da liberdade criativa do indivíduo. O romance é o território da fantasia, a imitação impossível da realidade, o big bang do pensamento livre e o instrumento com o qual o mundo se reinventa sempre uma outra vez. Pura catarse, puro caos, pura paixão. Me irritam os que pretendem erguer portas em campo aberto para restringir suas soluções habitacionais. Me enfastiam os doutrinários da primeira pessoa do singular, os atestadores do óbito do texto clássico e todos os que esperam ser modernos jorrando ketchup na cona de Madame Bovary. Se manifestos literários, a essa altura do furdunço vinte-e-único, são mais tediosos que bula de remédio com seus esqueminhas mentais bipolares – isso-sim, isso-não –, antimanifestos como este publicado hoje pelo escritor espanhol Fernando Royuela no “Babelia” (acesso livre, em espanhol) ainda são capazes de proporcionar um certo prazer. Não vão além da volúpia de desmascarar gênios do papo furado,…

O acordo ortográfico é bom para o Brasil
NoMínimo / 16/05/2008

As reações assimétricas ao acordo ortográfico da língua portuguesa que têm se observado aqui e em Portugal dizem alguma coisa a respeito do abismo cultural sobre o qual a reforma busca construir sua pinguela. Do lado de lá do Atlântico, um abaixo-assinado online contra o acordo – e “em defesa da Língua Portuguesa”, naturalmente com ênfase no “Portuguesa” – chegou em duas semanas a 33 mil assinaturas, inclusive de intelectuais de peso. Isso não impediu a matéria de ser aprovada hoje no Parlamento (vale a pena ler os comentários furibundos no site do “Público” – como queríamos demonstrar). Aqui prevalece uma resistência quase sempre silenciosa, próxima do puro mau humor. Como, por princípio, ninguém gosta quando vem uma autoridade mexer no que é estabelecido e funcional, uma certa rabugice seria de esperar. Curioso é agirmos como se, dando um gelo no assunto, ele fosse desaparecer. Não vai. Hoje parece seguro considerar inevitável a adoção do acordo. Há pouco mais de um mês puxei uma discussão sobre o tema aqui no blog. Volto a ele porque desde então tenho ficado cada vez mais favorável à idéia, que, convém deixar claro, poucos meses atrás eu também combatia. Meus argumentos de então –…

Notícias da Bolsa de Valores Literários
NoMínimo / 14/05/2008

Concordo com o crítico italiano Franco Moretti, autor do provocante A literatura vista de longe (Arquipélago Editorial, tradução de Anselmo Pessoa Neto, 160 páginas, R$ 34), um dos melhores lançamentos recentes na área, sobre o qual espero falar mais detidamente tão logo consiga digerir seus altos teores de novidade: o estudo de literatura tem muito a lucrar se absorver ferramentas e modelos das ciências exatas. (Relendo essa frase, me dou conta de que, poucos anos atrás, eu teria reagido com violência à idéia de Moretti, que agora acho brilhante. Mudaria o Natal ou mudei eu?) Um exemplo simples de como uma abordagem quantitativa pode contribuir para a compreensão do fenômeno literário acaba de ser publicada no blog americano The Millions (dica do blog de livros do Guardian): o que começa como uma série de estatísticas – sobre a quantidade de livros estrangeiros laureados em sua língua de origem que foram traduzidos para o inglês – acaba por traçar um quadro curioso das cotações de diversos idiomas nas Bolsas de Valores Literários de Nova York e Londres. Nada que mereça uma tese de doutorado, é claro: estamos no terreno das curiosidades blogueiras. Mas se não valer um bom post vadio, não…

O desastre de ganhar o Nobel
NoMínimo / 13/05/2008

A escritora inglesa Doris Lessing disse em entrevista a um programa de rádio veiculado ontem à noite em seu país (via The Independent, em inglês) que ganhar o Prêmio Nobel de Literatura de 2007 foi um “tremendo desastre” – se alguém tiver uma tradução melhor para bloody disaster, que obviamente não inclua o adjetivo “sangrento”, aceito sugestões. Ah, mas essa velhinha (88 anos) não está só fazendo tipo, ensaiando uma cara cool para mostrar diante das câmeras? Não creio, Doris Lessing nunca foi assim. Está certo que talvez exagere um pouco, esquecida do milhão de dólares do prêmio – que ela diz já ter gasto inteirinho com filhos e netos. Mesmo assim, tudo indica que sua angústia é real e tem a ver com o medo de nunca mais escrever. A energia, queixou-se, está acabando: “A única coisa que faço é dar entrevistas e posar para fotos”. Ué, mas dar entrevistas e posar para fotos não é o máximo a que qualquer ser humano pode aspirar neste mundo de celebridades? Foi preciso Doris Lessing externar sua bronca para nos lembrar, como devia ser óbvio desde o início, que não.

Livro raro ao alcance de todos
NoMínimo / 12/05/2008

Esta notícia não é lá muito nova, mas esteve longe de merecer a devida fanfarra, confinada a notinhas discretas aqui e ali. E os leitores deste blog que apreciam a seção “A palavra é…” vão entender que ela merece muito mais: no fim do mês passado, o Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo pôs no ar em sua versão integral, para qualquer um consultar online e sem necessidade de cadastro, uma das obras mais cobiçadas por amantes de dicionários raros – o “Vocabulario Portuguez e Latino” do padre Raphael Bluteau, a primeira grande obra de lexicografia da língua portuguesa, publicada em dez volumes entre os anos de 1712 e 1728 (quando esta página abrir, clique em “dicionários on-line” na coluna da esquerda). É difícil exagerar o valor da notícia. Volta e meia, em meus escritos sobre palavras, recorro à obra pioneira, ambiciosa e deliciosamente imperfeita de Bluteau, seja para confirmar a antiguidade de um vocábulo ou acepção, seja para dar cores pitorescas a algum tópico mais árido de etimologia. Para tanto, eu contava até agora com um CD-ROM lançado há alguns anos pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em edição limitada e quase secreta, que consultava…

A literatura e o sexo
NoMínimo / 11/05/2008

Depoimento de um famoso machadiano: Para mim, Capitu. Nos encontramos na casa de campo emprestada por um amigo meu, diplomata atualmente fora do país, adido cultural em Varsóvia. A casa fica no alto da Gávea e não poderia ser mais discreta, a fachada cochilando atrás de uma cerrada fileira de buganvílias. Faz três ou quatro meses que Escobar morreu no mar – tempo suficiente para que a saudade do adultério e suas vertigens, aliada à casmurrice do marido, empurre Capitu a esse encontro perigoso com alguém que mal teve tempo de conhecer. Fechada a porta, as poucas horas de que dispomos ganham imediatamente a plenitude de dias e a intensidade de segundos. Como descrever aquilo? Capitu se entrega e se nega ao mesmo tempo, cada negação explodindo numa entrega maior, como se lutasse consigo mesma. Dor, prazer, vergonha, febre. É mandona tanto na luxúria quanto no recato: aqui! pára! aperta! chega! mais! Saio exaurido, com um sorriso idiota nos lábios, feito um bebê farto do leite materno. Melhor que a encomenda. E você, que personagem da literatura levaria para a cama?

O jovem geninho morreu
NoMínimo / 10/05/2008

O modismo da juventude foi muito conveniente para jovens como eu, que fizeram dele seu ganha-pão, mas acho que está na hora da crítica adotar algum parâmetro mais significativo. O escritor inglês Evelyn Waugh escreveu essa frase em 1932, quando, beirando os 30 e já em seu terceiro livro, via-se como um ex-enfant terrible das letras britânicas. Poderia estar falando do Brasil dos últimos anos. Muita gente na literatura nacional – e nos arredores, sobretudo nos arredores – andou ocupada recentemente com o velho mito do jovem gênio, também conhecido, em sua encarnação 2.0, como escritor-blogueiro. Na falta de um mercado leitor significativo para a ficção escrita no país, criou-se uma espécie de bolha de marketing em que, uns por ingenuidade, outros por esperteza, parte da imprensa e da crítica empenhou-se em vender aos leitores uma mistura maluca de continente e conteúdo. De repente, dois únicos critérios pareciam nortear a busca de relevância literária: a idade (pouca) e a virtualidade (enorme). Bastava ler com olhos livres para perceber que, como é natural, raros daqueles nomes justificavam o burburinho. Não se revoga por decreto a severidade da relação ancestral entre quantidade e qualidade na arte. Acontece que olhos livres são mercadoria…

Duas entrevistas
NoMínimo / 05/05/2008

Os leitores deste blog já sabiam da novela. Agora ela chega oficialmente ao fim – e se isso não for motivo para gritar “parem as máquinas!”, não sei o que será. Trinta e um anos depois de sua morte, Vladimir Nabokov está lançando livro novo. Dmitri, seu filho, levou todo esse tempo para decidir contrariar o último desejo do pai, que queria ver o manuscrito queimado, e publicar, mesmo inacabado, o romance The original of Laura. Ingenuidade deste blogueiro? Por que não tratar o caso como mais um episódio daquela oportunista e interminável série “Os baús”? Bom, há algumas razões. Primeiro, Nabokov foi, acima de qualquer dúvida, um dos maiores escritores do século 20. Segundo, consta que ele apostava alto nesse livro. Terceiro, era um perfeccionista que trabalhava o texto num nível de acabamento tão estratosférico que seu primeiro rascunho tem tudo para ser mais polido que a maioria das versões finais que circulam por aí. E em quarto lugar – bom, não tem quarto lugar. A não ser, talvez, a resposta que Dmitri, 73 anos, deu em sua entrevista de ontem ao “New York Times” (em inglês, cadastro gratuito), quando lhe perguntaram se a principal motivação para sua decisão…

Começos inesquecíveis: Raymond Chandler

O vidro martelado da porta tem um letreiro em tinta preta trincada: “Philip Marlowe…. Investigações”. É uma porta razoavelmente decadente no fim de um corredor razoavelmente decadente, num edificio do tipo que era novo ali pelo ano em que o banheiro com azulejo até o teto se tornou a base da civilização. A porta fica trancada, mas ao lado dela há uma outra, com letreiro igual, que não fica. Pode entrar – não há ninguém aqui além de mim e de uma enorme mosca varejeira. Mas não se você for de Manhattan, Kansas. O início de “A irmãzinha” (The little sister, The Library of America, tradução caseira), de Raymond Chandler, o grande estilista da literatura policial americana hard boiled, já devia ser inesquecível quando foi publicado pela primeira vez, em 1949. Ainda mais inesquecível se tornou, porém, depois que milhares de escritores mundo afora fizeram questão de lembrá-lo, lembrá-lo e lembrá-lo de novo, numa avalanche de imitações, sátiras, pastiches, glosas e homenagens que encheriam bibliotecas. Um processo de lugar-comunização tão avassalador que, a esta altura, estará desculpado quem preferir esquecer o inesquecível. É estranho pensar que nunca mais será possível ler esse parágrafo sem ouvir os ecos de suas palavras…

Machado e Rosa (não os que você está pensando)
NoMínimo / 28/04/2008

No “Rascunho” de março, o bom escritor Rubem Mauro Machado, autor, entre outros livros, do premiado mas pouco conhecido romance “A idade da paixão”, investia contra a mistura de despreparo e descaso do jornalismo cultural brasileiro para lidar com o crescente volume de livros de autores nacionais: Vamos ser bem sinceros: a grande mídia (embora ela não possa ou não ouse confessar isso abertamente) está se lixando para a cultura brasileira e, dentro dela, especialmente para a literatura brasileira. (…) E no entanto é importante que se proclame: avaliar a obra de um autor brasileiro não é um favor que se faz a ele – é um direito legítimo que ele tem, do mesmo modo que o público tem todo o direito de saber que existe essa obra na qual ele poderá se refletir, ou não; o leitor deve ter acesso à informação, embasada e isenta, para decidir. Como os suplementos se transformaram em larga medida numa ação entre amigos (“você me elogia, depois retribuo”) ou numa extensão dos departamentos de mídia das editoras, a reproduzir releases, quase toda crítica que trazem vem hoje eivada de suspeição. Pode ser verdade, mas, como costuma ocorrer, não toda a verdade. Quem se…

Como falar dos blogs que lemos
NoMínimo / 21/04/2008

Sobre “Como falar dos livros que não lemos?”, do francês Pierre Bayard (Objetiva): Faz diferença enfrentar Ulisses, algo que vai nos consumir meses ou anos, se o que “importa” é saber sobre o que o texto trata, qual sua relevância, quais foram suas inovações de linguagem, que lugar ele ocupa na história da literatura? Se tais perguntas fossem realmente a sério, uma crítica inevitável a Como falar… seria a de que seu autor esquece aquilo que move a maioria dos leitores. Ou seja, o prazer, o medo, o impacto, o encantamento e todas as sensações que tiramos de um livro em si, concomitantemente à sua fruição, o que é imediato e anterior a qualquer elaboração intelectual. É isso o que ficou para mim, por exemplo, dos romances de mistério da Coleção Amarela que li pelos 12 ou 13 anos, dos quais é difícil lembrar até os títulos. Ou dos gibis de terror da editora Vecchi. Ou de centenas de histórias de Tio Patinhas, Bolinha e Marvel que deixaram a infância gloriosamente autista e colorida. Mas Bayard está longe de ser tão óbvio. Mais que uma tese, seu livro é um exemplar acabado de prosa irônica, que usa um cinismo falso…

Crônica da agonia carioca
NoMínimo / 16/04/2008

Existe uma cidade, uma cidade belíssima, que está indo para as cucuias. Mas, coisa curiosa, a literatura que nela se produz não parece muito interessada em refletir isso. Consciência do próprio caráter de artifício, alergia a temas que possam ser considerados políticos, esteticismo, cinismo ou apenas vocação para outros tipos de olhar, o fato é que a maioria dos escritores do Rio (e eu me incluo aí) tem adotado um certo ar blasê enquanto o velho espírito carioca estrebucha na calçada. Como se, sei lá, precisássemos fingir que é dor a dor que deveras sentimos. Fernando Molica é uma exceção. Sendo também jornalista, e dos bons, há anos se ocupa de traduzir os signos mais vistosos dessa queda, que na imprensa são rasos e febris, ruído puro, para a linguagem saturada de sentido da literatura. Correndo os riscos embutidos em seu projeto – inclusive o de ser visto como herdeiro do populismo literário de um José Louzeiro, coisa que não é –, divide sua fé em doses iguais entre realidade e ficção, sem fazer caso excessivo da desconfiança que nossa época devota a ambas. A sobriedade desse olhar realista mas bem-humorado, que repudia esquemas absolutos e tramas mirabolantes, é uma…

A voz de Vonnegut
NoMínimo / 14/04/2008

Edições do tipo “baú do fulano”, que raspam as gavetas de defuntos ilustres para faturar uns cobres a mais, não costumam ter muita serventia – a menos que você seja um fã roxo, do tipo que compraria no eBay um lenço de papel usado por fulano, caso em que o “baú do fulano” é uma delícia. Mas toda regra tem exceção. A julgar por esse artigo de Steve Almond na revista eletrônica “Salon” (em inglês, acesso livre), o livro Armageddon in retrospect, coletânea póstuma de escritos de Kurt Vonnegut, dá ao leitor o raro vislumbre do momento em que um grande escritor encontra sua voz – mais especificamente a voz inconfundível, mordaz e cara-de-pau que conduz “Matadouro 5”. É nas cartas escritas para a família quando estava na Europa, lutando na Segunda Guerra, que Vonnegut soa mais parecido com o narrador de sua futura obra-prima, e não nos primeiros contos realistas e sérios que produziu após voltar para casa, determinado a se tornar escritor profissional. Não deixa de ser uma lição para jovens (ou nem tão jovens) escritores que estejam à procura desse tesouro fugidio chamado “voz própria”: depois de muito procurar, experimente ficar distraído.

Começos inesquecíveis: Rodrigo Fresán

Começa com uma criança que nunca foi adulta e acaba com um adulto que nunca foi criança. Algo parecido. Ou melhor: começa com um suicídio adulto e uma morte infantil e acaba com uma morte infantil e um suicídio adulto. Ou com várias mortes e vários suicídios em idades variáveis. Não tenho certeza. Não tem importância. Como se sabe – se desculpa e se perdoa –, os números, os nomes, os rostos costumam ser os primeiros a se atirar do navio ou a saltar da plataforma durante o naufrágio dessa memória sempre a ponto de ser aniquilada sobre os trilhos do passado. Uma coisa está clara: no fim do começo, no começo do fim, Peter Pan morre. Assim começa o romance “Jardins de Kensington” (Conrad, 2007, tradução de Sérgio Molina), do escritor argentino – radicado na Espanha – Rodrigo Fresán. O narrador é um escritor fictício, Peter Hook, mistura de herói e vilão a partir do nome em que se fundem Peter Pan e o Capitão Gancho. Hook, uma cria dos anos 60, alimenta uma obsessão por J.M. Barrie, autor da famosa fantasia vitoriana, e despeja seu drama sobre um ouvinte menino em condições peculiares. A história intrincada e maluquete…

O desacordo ortográfico e a literatura
NoMínimo / 07/04/2008

Um capítulo decisivo dessas relações transnacionais foi a consagração de García Lorca em Buenos Aires, em 1932, não evitando, porém, que Jorge Luis Borges o antagonizasse e chamasse de “andaluz profissional”. Borges, por sua vez, freqüentava grupos literários argentinos de vanguarda, influenciados por Darío. Na ocasião, Lorca acolhia Neruda, que reconheceria a importância desse encontro em sua Ode a García Lorca. Neruda, por sua vez, hostilizava César Vallejo, acusando ainda Vicente Huidobro de contribuir para essa ruptura. No início da guerra civil espanhola, emergia para a vida literária Octavio Paz, em um momento em que se confundiam criação e resistência antifascista. Por conta de divergências na organização de uma antologia de autores hispano-americanos, Paz e Neruda acabariam pegando-se em um banquete (o registro desse e outros episódios, em Sombras de Obras de Paz). Uma geração de espanhóis influenciada por um nicaragüense; o poeta de maior prestígio dessa geração hostilizado por um argentino, o que não o impediu de fascinar a um chileno rompido com um peruano, em um ambiente literário que logo receberia a um mexicano. Tais episódios podem parecer um registro menor, da petite histoire. Mas a série de aproximações e afastamentos entre poetas de diferentes países, porém da…

De Steinbecks e Alencares
NoMínimo / 31/03/2008

Mas se toda a obra de Steinbeck está em catálogo quarenta anos depois de sua morte (em 1968), e apesar da dieta forçada de seus livros imposta a centenas de milhares de estudantes – e da canonização oficial pela Library of America –, por que será que ele está tão decisivamente excluído do mapa literário? Além de Brad Leithauser, que em 1989 publicou uma perspicaz homenagem ao qüinquagésimo aniversário de “As vinhas da ira”, quem nos Estados Unidos o leva a sério hoje, com exceção de meia dúzia de acadêmicos steinbeckianos e alguns entusiastas locais em Monterey? O duro artigo de Robert Gottlieb em “The New York Review of Books” (via Arts & Letters Daily), a propósito da conclusão, pela Library of America, da “consagradora” edição da obra de John Steinbeck, me deixou aqui pensando se algum escritor brasileiro estaria em papel semelhante – ao mesmo tempo literariamente morto e respirando por aparelhos nos currículos escolares. Alguém disse José de Alencar? Tá legal, passa no mínimo perto. Só não vou assinar embaixo com entusiasmo irrestrito por reconhecer meu fraco kitsch e quase lacrimejante por aquela prosa poética de Iracema, “Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia…

Perdoem-nos por nos trairmos
NoMínimo / 26/03/2008

Não sei se o sobrenome tem algo a ver com isso, mas vira e mexe eu preciso tomar a bênção do Nelson. Começou quando publiquei em 2000, no livro “O homem que matou o escritor”, um conto chamado O argumento de Caim, que tem o cara como personagem. O primeiro conto do meu primeiro livro, que bandeira. Angústia da influência? Não, prefiro influência da angústia. Ou só brincadeira, como nesta crônica escrita de encomenda semana passada: . O político sobe ao palco com solene lentidão, acompanhado da mulher. Uma saraivada de flashes torna a cena estroboscópica. Ele pára diante da tribuna de madeira maciça, dá duas pancadinhas para testar o microfone, pigarreia e diz: – Bom dia. Tive experiências extraconjugais. Traí minha mulher e não me orgulho disso. Minha mulher também me traiu. Mas nunca gastamos um centavo de dinheiro público para nosso deleite pessoal. O bordel de high school girls foi pago com meu salário suado, Madame Luba Jones está aí para comprovar. Venho confessar tudo de público antes que… Um murmúrio percorre a platéia composta de dezenas de jornalistas. Bloquinhos, gravadores e câmeras ondulam como um mar revolto. – Quem traiu primeiro? – grita uma moça ruiva na…

Literatura digital subindo a escada
NoMínimo / 24/03/2008

Fundir literatura e internet – uma fusão profunda que use as ferramentas digitais para revolucionar o próprio modo de narrar e não apenas para divulgar textos lineares – é, para muita gente, uma obsessão. É possível que esse caminho acabe levando cedo ou tarde a uma obra-prima. Embora eu não consiga ver o texto-texto se tornando obsoleto, nada impede que novas formas de contar histórias ganhem vida própria, sem precisar tomar o lugar das já existentes. O certo é que as freqüentes tentativas de acelerar essa fusão in vitro têm sido, na melhor das hipóteses, esforçadas. A última é um projeto inglês chamado We tell stories (Nós contamos histórias), patrocinado pela Penguin. Seis jovens escritores foram convidados a criar, ajudados por programadores de games, “web-histórias” inspiradas em livros tradicionais. A primeira experiência já está no ar: assinada por Charles Cumming, chama-se The 21 steps e se baseia no livro “Os 39 degraus”, de John Buchan, que Hitchcock transformou num filme homônimo de 1935. Se eu gostei? Longe disso: achei canhestro, tatibitate e colossalmente chato. É claro que novas formas de narrar criam novos tipos de leitores e, bem, eu jamais serei um deles. Mesmo assim The 21 steps deixa a…

Arthur C. Clarke e os limites da razão
NoMínimo / 22/03/2008

…quando se trata dos textos canônicos da moderna ficção científica, e da assombrosa geração de proféticos inovadores formada por seus contemporâneos – Isaac Asimov, Robert A. Heinlein e Ray Bradbury – os escritos do Sr. Clarke eram os mais bíblicos, os mais prontos a amplificar a razão com a convicção mística, os mais religiosos no sentido mais amplo da religião: especular sobre começos e fins, e como fazemos para ir de uns aos outros. Demoro um pouco a saber o que fazer dessa observação de Edward Rothstein em seu artigo sobre Arthur C. Clarke (1917-2008) no “New York Times” (em inglês, acesso gratuito). Passada a surpresa inicial, ela me ajuda a acertar contas com minha própria admiração adolescente – esquecida por décadas, mas essas coisas não morrem – por um escritor cujas fabulações me pareciam, naquele tempo, infinitamente superiores ao lirismo piegas de Bradbury e ao vale-tudo imaginoso, mas meio tosco, de Asimov. Paro por aqui as comparações, reconhecendo os limites estreitos de minha erudição no gênero. No meu caso, a paixão pela FC arrefeceu com a idade adulta, e o que dela restou já tinha migrado para as graphic novels quando chegou a vez de minha própria geração revolucionar…

Copa etc.
NoMínimo / 17/03/2008

Entrou no ar neste fim de semana o site da segunda edição da Copa de Literatura Brasileira. Como um dos jurados deste ano, tive direito a voto, mas nem por isso me considero suspeito para elogiar a lista dos dezesseis concorrentes, que me parece sensata, eclética e representativa. Não faltará quem torça o nariz, alegando que a literatura brasileira não produz dezesseis bons romances por ano. Concordo. Mas o que importa é que os livros realmente relevantes estão lá. E se a Copa for tão divertida quanto a do ano passado, terá valido a pena. * Muito bom o texto do crítico Alcir Pécora na “Folha” de sábado (só para assinantes) sobre o livro de contos “Putas assassinas” (Companhia das Letras), de Roberto Bolaño: De repente, percebe-se que a paisagem é de horror, na iminência tensa de um desastre. A natureza do desastre é potencializada na injustiça e crueldade da América Latina, acumulada sobre um fundo primitivo de traição, dor e vingança. A violência contra mulheres, índios, velhos e crianças são evidências da devastação em curso, mas não é para os políticos que Bolaño aponta em primeiro lugar o dedo acusador, e sim para a cumplicidade que a literatura estabelece…

Fim de semana: sustos
NoMínimo / 03/03/2008

Lendo o Babelia (em espanhol, acesso gratuito), encontro uma reveladora entrevista de Ian McEwan: “Muitos acreditam que o romance perfeito é ‘Madame Bovary’. Eu o reli há dois anos e pensei: não é. ‘Madame Bovary’ morreu. (…) Dizem que quando Emma morre, Flaubert chorou. Agora entendo por que não gosto. Ele estava envolvido demais com a história. Deveria ter permanecido muito mais frio, distante, com algo de gelo”. Meu susto nada tem a ver com a frieza que o escritor inglês confessa. Mais prosaico, deve-se ao fato de que só agora On Chesil Beach está chegando ao efervescente mercado editorial espanhol, oito longos meses depois de dar as caras por aqui. A propósito: para McEwan, o romance que mais se aproxima da perfeição é “Ana Karenina”. * Lendo o Prosa & Verso (só para assinantes), o susto é com as seguintes palavras do jornalista José Castello sobre a novelinha “A morte e a morte de Quincas Berro D’Água”, de Jorge Amado: “jóia até hoje desprezada que, lançada seis anos antes de ‘Cem anos de solidão’, de Gabriel García Márquez, antecipa o realismo mágico”. Hein? Promovido abruptamente de maior nome da “escola” que se costuma chamar de realismo mágico a seu…

Começos inesquecíveis: Elmore Leonard

– Ele está fotografando há três anos, dá só uma olhada no trabalho – disse Maurice. – Aqui, esse cara. Repara na pose, na expressão. Quem ele te lembra? – Parece um pilantra – disse a mulher. – Ele é um pilantra, o cara é um cafetão. Mas não é disso que eu estou falando. Aqui, essa. Dançarina de cabaré nos bastidores. Te lembra alguém? – A garota? – Dá um tempo, Evelyn: a foto. A sensação que o cara captura. A garota tentando parecer adorável, exibindo a mercadoria, que aliás não é nada má. Mas repara no camarim, nas tralhas brilhosas todas, essa pobreza de papel laminado. – Você quer que eu diga Diane Arbus? – Eu quero que você diga Diane Arbus, isso seria bem legal. Eu quero que você diga Duane Michaels, Danny Lyon. Eu quero que você diga Winogrand, Lee Friedlander. Quer voltar alguns anos no tempo? Eu gostaria muito que você dissesse Walker Evans também. – Seu velho chapa. – Muito, muito tempo atrás. Antes até do seu tempo. Não sei por que o diálogo que abre “LaBrava”, de Elmore Leonard, que li há uns vinte anos, nunca me saiu da cabeça – nem todo…

Um Oscar literário
NoMínimo / 22/02/2008

É literário como poucos o Oscar deste domingo. Não apenas porque três dos cinco candidatos a melhor filme são baseados em romances, mas também – e principalmente – porque pelo menos dois deles são adaptações muito acima da média de livros excelentes. O “pelo menos dois” da frase anterior cumpre a função de evitar uma injustiça com “Sangue negro”, de Paul Thomas Anderson, baseado no livro Oil!, lançado em 1927 pelo escritor americano Upton Sinclair. Destes nada posso falar, nem livro nem filme, pois não vi um nem li o outro – o professor Bayard que me desculpe. Posso falar de “Desejo e reparação”, de Joe Wright, baseado no romance “Reparação” (Companhia das Letras), do inglês Ian McEwan, e de “Onde os fracos não têm vez”, adaptação feita pelos irmãos Coen do thriller “Onde os velhos não têm vez” (Alfaguara), do americano Cormac McCarthy. São dois belos e raros filmes, que bagunçam por completo aquela velha máxima – maldosa, mas freqüentemente aplicável – de que quanto melhor o livro, pior o filme e vice-versa. “Reparação” é forte candidato a grande romance deste início de século. O longa-metragem não chega perto disso, mas é notável como consegue ser fidelíssimo a um…

Isso lá é Carnaval?
NoMínimo / 01/02/2008

Fujo do carnaval há muitos anos, mas mesmo a indiferença tem gradações. Dando uma espiada no arquivo do Todoprosa, constato – não sem surpresa – que ano passado fiz alguns acenos para Momo, entre eles uma discussão sobre a presença do ziriguidum na ficção brasileira e, passando da teoria à prática, nada menos que um conto de carnaval feito em casa. Mas não, este ano não vai ser igual àquele que passou. A menos que se considere como parte do delírio carnavalesco a história bizarra de Philip M. Parker (em inglês), que já publicou mais de 85 mil livros e diz que leva em média vinte minutos para escrever cada um. Aproveito que saí de fininho do salão para tirar umas curtas férias. O blog volta a ser renovado dia 13. Até lá.

A Amazon e o mito do resenhista amador
NoMínimo / 28/01/2008

Li este artigo do escritor e blogueiro Garth Risk Hallberg na revista eletrônica Slate (em inglês, acesso gratuito) como se estivesse diante de uma ótima peça cômica: entre uma risada e outra, um incômodo zumbido de apreensão ao fundo. O artigo é curto e o assunto rende pelo menos um livro – que provavelmente não demorará a ser escrito. Mas basta para indicar alguns caminhos para a desconstrução do mito dos “resenhistas amadores” da Amazon.com. De uns anos para cá, essas figuras desalojaram críticos profissionais como os principais “produtores de conteúdo” da megalivraria virtual e foram saudados pela vanguarda do deslumbramento tecnológico como guerreiros da geração Web 2.0, aquela em que profissionais embolorados são varridos do mapa por gente-como-a-gente, leitores-escritores cujo diletantismo radical é garantia de integridade e frescor. “Que monte de esterco!”, diriam os menos ingênuos numa tradução pudica. Hallberg delineia os previsíveis jogos de interesse, luta por prestígio, troca de favores, lobby editorial, desonestidade intelectual gritante e outras trapaças que, sob a falta de transparência patrocinada pela própria Amazon, transformam a recente instituição dos principais resenhistas amadores (sim, há um ranking) num puteiro de alta produtividade. Basta dizer que a número 1 da lista, chamada Harriet Klausner, detém…

Para quando é o Mac E-Reader, Mr Jobs?
NoMínimo / 21/01/2008

Steve Jobs, da Apple, no blog de tecnologia do “New York Times”, falando sobre o Amazon Kindle e por que devem esperar sentados os que aguardam para breve o lançamento de um Mac E-Reader: Não importa se o produto é bom ou ruim, o fato é que as pessoas não lêem mais. Quarenta por cento das pessoas nos Estados Unidos leram um livro ou menos no ano passado. A concepção como um todo está corrompida de saída, porque as pessoas não lêem mais. Há quem lamente, há quem concorde. Mas há também os que apostam, lembrando que alguns anos atrás Jobs declarou os telefones celulares igualmente fora dos planos da empresa, que a engenhoca está quase pronta.

Começos inesquecíveis: Herman Melville

Me chamem de Ismael. Alguns anos atrás – não importa precisamente quantos – tendo pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e nada que me interessasse particularmente em terra firme, decidi navegar um pouco por aí e ver a parte aquosa do mundo. É um jeito que tenho de espantar a melancolia e regular a circulação do sangue. Sempre que me pego ficando amargo, mandíbula tensa; sempre que em minha alma se faz um novembro chuvoso e cinzento; sempre que me vejo detendo involuntariamente o passo diante de agências funerárias e seguindo a cauda de todo cortejo fúnebre que encontro; e especialmente sempre que minha hipocondria leva a melhor sobre mim de tal forma que só um forte princípio moral me impede de sair à rua e, deliberadamente e com método, aplicar murros na cara dos passantes – nesses momentos, sei que está na hora de me fazer ao mar o mais depressa possível. Há uma única e melancólica razão para que o início de “Moby Dick”, de Herman Melville, o começo mais “inesquecível”, citado e parodiado da literatura americana, tenha demorado quase dois anos para vir parar nesta seção: a insistência com que os tradutores brasileiros que conheço vertem a…

Da importância de ‘Macunaíma’
NoMínimo / 14/01/2008

“Se for um livro, eu não li, não estudei, ou estudei e não lembro”. Essa é a resposta de uma aluna do terceiro ano do curso de Relações Públicas da Universidade de São Paulo para a seguinte pergunta: “Quem escreveu Macunaíma?” Para a mesma questão, outros palpites: “José de Alencar”, diz um aluno de Engenharia Agrícola da Unicamp; “Guimarães Rosa”, arrisca uma estudante de Publicidade e Propaganda da Faculdade Cásper Líbero; “João Cabral”, afirma uma jornalista formada pela FIAM; “Camilo Castelo Branco”, aposta um jovem engenheiro mecânico recém-graduado pela Unicamp. Um aluno de Economia da Faculdade de Campinas responde com outra pergunta: “Tem opções?” Dos 30 jovens que entrevistamos nessa pequena pesquisa, apenas oito souberam dizer que Mário de Andrade era o autor de Macunaíma, um dos mais importantes títulos da literatura nacional. Começa assim o texto publicado por Luísa Pécora no site da revista “Cult” a propósito dos 80 anos de “Macunaíma”, em que a autora ouve professores para tentar entender por que o romance, “um dos mais importantes títulos da literatura nacional”, é tão pouco lido hoje. As intenções são nobres, como se vê, mas o início dificilmente poderia ser mais equivocado. Paremos para pensar. Se oito universitários…

As razões de Orhan Pamuk
NoMínimo / 09/01/2008

Já que a pergunta “por que você escreve, escritor?”, mote de um pequeno conto (ou coisa que o valha) na nota anterior, parece ter furado um inesperado veio de polêmica entre os leitores do Todoprosa, cai bem lembrar um trecho marcante do discurso do turco Orhan Pamuk (aqui em inglês) na cerimônia do Nobel de 2006 – mais tarde publicado em forma de livreto pela Companhia das Letras, ao lado de dois outros discursos do homem, com o título “A maleta do meu pai”. A releitura desse trecho me levou a duas constatações, a primeira óbvia, a outra nem tanto: o jornalismo glória-maria não é exclusividade do Brasil; é possível, sim, levar a sério essa “pergunta de mil respostas”, de preferência enumerando, como Pamuk, uma infinidade de razões parciais em que a força do conjunto e de certos achados parece ter o poder de anular a banalidade dos lugares-comuns que lá vão de cambulhada. Aproveitem: A pergunta que, com maior freqüência, é dirigida a nós, escritores, a pergunta favorita, é: por que vocês escrevem? Escrevo porque tenho uma necessidade inata de escrever. Escrevo porque não posso ter um trabalho normal como as outras pessoas. Escrevo porque quero ler livros iguais…

O dostoievskiano Sr. C.
NoMínimo / 04/01/2008

O ótimo crítico James Wood discorre (em inglês) sobre Diary of a bad year, de J.M. Coetzee (Señor C é o personagem principal do livro, alter ego do autor): No último verbete do romance, “Sobre Dostoiévski”, Señor C escreve: “Li mais uma vez ontem à noite o quinto capítulo da segunda parte de Os irmãos Karamazov, o capítulo em que Ivan devolve seu ingresso para o universo que Deus criou, e de repente me vi soluçando incontrolavelmente.” Não é o poder da argumentação de Ivan, diz ele, que o arrebata, mas as “entonações da angústia, a angústia pessoal de uma alma incapaz de suportar os horrores deste mundo”. Podemos ouvir a mesma nota de angústia pessoal na ficção de Coetzee, mesmo que essa ficção sustente que não está nos oferecendo uma confissão, mas apenas a representação de uma confissão. Seus livros fazem todos os barulhos pós-modernos corretos, mas a força deles repousa na relação atônita que mantêm com uma tradição mais antiga, dostoievskiana, em que sentimos a marca do autor confessional, por mais recôndita e velada que seja. O texto, que faz uma análise brilhante do Formidável – mas sempre um tanto Enigmático – Sr. C., é leitura recomendável para…

Palavras Sem Fronteiras
NoMínimo / 03/01/2008

A excelente revista eletrônica americana Words Without Borders se dedica à tradução para o inglês de escritores do mundo inteiro. Mereceria uma recomendação aqui de qualquer jeito, mesmo que a edição de janeiro de 2008, “Os sete pecados mortais”, não trouxesse um conto meu (brilhantemente traduzido por Fernanda Abreu), The Man Who Killed the Writer.

Que tal uma lista de piores listas?
NoMínimo / 29/12/2007

“Estes são os autores americanos mais importantes de todos os tempos”, proclamou há alguns Natais a revista francesa Lire: “Raymond Chandler, Faulkner, John Fante”. Há poucas semanas, Michel Tournier (que não tinha até agora reputação de idiota) elegeu como livro do ano em The Times Literary Supplement o novo romance de Amèlie Nothomb, Ni d’Eve ni d’Adam, que já havia proposto, naturalmente sem sucesso, para o Prêmio Goncourt. Em certo jornal italiano, um célebre crítico de cujo nome não quero me lembrar coroou como melhor livro de 2007 a obra completa de Dario Fo, “o Shakespeare do século 20”, juízo que, se exato, faria de Shakespeare o Dario Fo do século 17. “Sobre gostos não há nada escrito”, escreveu alguém que nunca abriu um suplemento literário. Oscar Wilde argumentou que fazer listas do que se deve ler é uma tarefa inútil ou perniciosa, uma vez que um autêntico apreço pela literatura é sempre questão de temperamento e não pode ser ensinado. Propôs, em vez disso, listas do que não se deve ler: as obras teatrais de Voltaire, a Inglaterra de Hume, a História da filosofia de Lewes… Seguindo seu exemplo, Mark Twain opinou que a melhor forma de começar uma…

Para fechar um bom ano: leituras, desleituras etc.
NoMínimo / 27/12/2007

Flowerville é um condomínio de luxo, com arquitetura e infra-estrutura modernas, mas comandado por senhor que age como um grande patriarca, um caudilho. O empreendimento só foi possível por causa de uma escusa troca de favores feita durante o governo militar, lembrando de como o capital no Brasil esteve vezes demais ligado ao Estado. Essa mistura de moderno e antigo integra toda a narrativa e, apesar do esforço da cúpula de Flowerville em continuar “saltando à frente” e ignorar os problemas ainda abertos, é o passado que ditará os rumos do enredo. A epígrafe do livro sobre a “máscara de puro sonho” é tirada da série de quadrinhos Sandman, de Neil Gaiman. Mais do que uma citação, a referência simultânea aos quadrinhos e ao universo onírico é incorporada profundamente na linguagem e na história. O grotesco e o absurdo não aparecem como uma exceção, mas como parte do modus operandi de Flowerville. Mais uma vez, tal como a mistura do moderno e arcaico, essa é uma abordagem que serve muito bem para o Brasil em geral, um lugar em que, hora ou outra, recebem-se notícias como uma adolescente encarcerada com homens. Enfim, o absurdo é produto da nossa “maquinaria nacional”,…

Mais um conto de Natal
NoMínimo / 24/12/2007

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Ano passado, o conto natalino do blog foi o insuperável “Natal na barca”, de Lygia Fagundes Telles – quem perdeu pode clicar aqui. Este ano é a vez de O peru de Natal, de Mario de Andrade, que já seria ótimo se não tivesse nada além da frase acima.

Livros? Me vê meia dúzia
NoMínimo / 20/12/2007

Prólogo: peço desculpas se esta nota vem meio em cima do laço, mas, caso seja tarde para municiar as compras de Natal, acredito que pelo menos as listas de livros para as férias ainda estejam, no geral, abertas à negociação. Não sei se os seis romances abaixo são “os melhores do ano” – existirão mesmo tais coisas? Só posso garantir que são, em minha imodesta opinião, os melhores que li e comentei no blog. Nessa retrospectiva 2007 garimpada nos arquivos do Todoprosa, basta clicar no título para ler uma pequena resenha, publicada aqui na época do lançamento, além de, na maioria dos casos, um trecho da obra. O filho eterno, de Cristovão Tezza. Na praia, de Ian McEwan. As Benevolentes, de Jonathan Littell. A cada um o seu, de Leonardo Sciascia. O sol se põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho. Arthur & George, de Julian Barnes.

Esse passatempo esotérico
NoMínimo / 18/12/2007

Não há razão alguma para pensarmos que a leitura e a escrita estão à beira da extinção, mas alguns sociólogos especulam que ler livros por prazer será um dia o território de uma “classe leitora” especial, em grande medida como ocorria antes do advento do letramento em massa, na segunda metade do século XIX. Mas, eles advertem, a leitura provavelmente não mais recuperará o prestígio que vinha com a exclusividade; poderá acabar se tornando “um passatempo cada vez mais esotérico”. … Numa visão mais ampla, não é o abandono da leitura que precisa ser explicado, e sim o fato de que sejamos sequer capazes de ler. “O ato de ler não é natural”, Maryanne Wolf escreve em “Proust and the Squid” [“Proust e a Lula”, atenção para o artigo feminino], um relato sobre a história e a biologia da leitura. Amantes da leitura que tenham problemas cardíacos ou qualquer tipo de hipersensibilidade nervosa devem evitar este artigo (em inglês, acesso gratuito) de Caleb Crain na revista “New Yorker”, a propósito de um livro sobre a história da leitura. Não pela platitude de que “o ato de ler não é natural” (o mesmo pode ser dito de escovar os dentes, usar…

Eles são os caras
NoMínimo / 12/12/2007

Ao trazer o mineiro Luiz Vilela no entrevistão do Paiol Literário e o gaúcho Sergio Faraco na seção Dom Casmurro, com a íntegra do conto “O céu não é tão longe”, a edição de dezembro do “Rascunho” junta dois dos maiores contistas brasileiros vivos. Ambos são leitura mais recomendável que nunca neste momento de vale-tudo estético e inflação contística galopante, em que qualquer texto cotó vem tirando onda de “conto”. Nenhuma palavra dos editores indica que, ao juntar os dois mestres, o jornal curitibano quis fazer uma homenagem a essa brilhante geração de contadores de histórias – Faraco nascido em 1940, Vilela em 1942. Mas fez, e isso basta.

Começos inesquecíveis: Javier Cercas

Foi no verão de 1994, já faz agora mais de seis anos, que ouvi falar pela primeira vez do fuzilamento de Rafael Sánchez Mazas. Três importantes acontecimentos tinham então acabado de se produzir em minha vida: meu pai havia morrido, minha mulher me abandonara e eu abandonara minha carreira de escritor. Minto. Dessas três ocorrências, as duas primeiras eram exatas, exatíssimas; a terceira não era tanto assim. Na verdade, minha carreira de escritor nunca decolou; portanto, dificilmente poderia tê-la abandonado. Grande parte do apelo do romance “Soldados de Salamina”, sucesso internacional do espanhol Javier Cercas (Francis, 2002, tradução de Wagner Carelli), está no seu jeito – despretensioso só na aparência – de alternar constantemente o foco entre a História (mundial) e uma história (pessoal). O efeito ganha profundidade ao longo de 240 páginas, com outro par de opostos – realidade e ficção – para complicar. As primeiras linhas do livro expõem todo o projeto como miniatura.

E a Copa, hein?
NoMínimo / 03/12/2007

A primeira edição da Copa de Literatura Brasileira terminou hoje com a vitória de “Música perdida”, de Assis Brasil, sobre “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, por 9 x 5 – placar de futebol de areia. É que, pelas regras da final, todos os jurados das rodadas anteriores têm direito a voto. Confiram lá. Entre os muitos temas de discussão que a brincadeira deixa no ar, um dos mais interessantes é esta (aparente) contradição: a vitória de um romance clássico, para muita gente até conservador (não o li), numa competição off-off organizada por jovens blogueiros. Será que daqui a pouco surgirão teorias sobre os romances “copeiros”, aqueles que por terem uma personalidade menos agressiva, menos crivada de arestas, acabam se dando bem numa competição mata-mata? Quaisquer que sejam as conversas que a Copa já inspirou e ainda vai inspirar, das mais relevantes às mais tolinhas, não tenho dúvida de que estamos diante de uma das melhores notícias surgidas ultimamente no front sonolento do debate literário brasileiro. Vida longa a ela.

De onde você é?
NoMínimo / 30/11/2007

Cansado de experiências de criação literária online? Eu também, um pouco, mas isso não quer dizer que não haja formatos novos por descobrir. Um dos mais curiosos estreou esta semana: o site Estrangeiros, uma idéia da escritora brasileira Daniela Abade, reúne sete autores – além da própria Daniela, a argentina Florencia Abbate, a austríaca Claudia Chibici-Revneanu, o italiano Max Mauro, o canadense David McGuire, o australiano Matt Rubinstein e o mexicano Gonzalo Soltero. Em cinco idiomas, cada um com o seu, e sem tradução, eles escrevem posts fictícios sobre cidades situadas no país de um dos colegas. Cidades que nunca visitaram. Daniela, autora do romance “Crônicos” (Agir), tem experiência nesse tipo de invenção. Ficamos amigos em 2004, durante a ambiciosa, divertida (para nós com certeza, mas acho que também para os leitores que entraram no clima) e absurda Cadeia de Palavras.