Quixote, o maluco que inventou a liberdade
Resenha , Vida literária / 22/04/2016

Advertência: o fôlego deste artigo é pouco compatível com a brevidade internética. Ele foi escrito para a edição de papel da revista Veja que está agora nas bancas, como parte do material especial sobre os 400 anos da morte de Cervantes – completados hoje – e de Shakespeare, e dividiu as páginas com um texto igualmente extenso sobre o bardo assinado por Jerônimo Teixeira. Como se diz na Espanha: Vale. * A imagem é mais velha e sábia do que todos nós: o cavaleiro esguio em seu cavalo magro, ao lado do escudeiro gordinho montado num burro, contra uma paisagem árida onde se veem, ao longe, moinhos de vento. Foi atualizada nos últimos quatro séculos por tantos pintores e ilustradores, dos mais renomados aos mais chinfrins, que ocupa lugar de honra na galeria de clichês culturais à qual praticamente todos os seres humanos – letrados e não letrados – têm acesso. Se essa galeria não se destaca pela quantidade de obras, o bom gosto também não é seu ponto forte: nos varais de feira hippie, a apropriação pop da alta cultura costuma exibir o pôster da dupla ao lado daquele em que o mendigo de chapéu-coco encara a câmera com…

O inseto de Kafka era barata ou besouro?

A única resposta consistente para a dúvida enunciada no título acima, uma das mais resistentes de toda a literatura do século XX (e atualizada de forma fortuita por um imenso blatídeo que apareceu há pouco aqui no banheiro), é que não sabemos. O texto de “A metamorfose”, de Franz Kafka, simplesmente não nos fornece elementos suficientes para dizer. Foi mesmo uma barata, no entanto, o bicho que pousou no imaginário da maior parte dos leitores da novela que começa com o pobre Gregor Samsa acordando em sua cama transformado num inseto. Por quê? Provavelmente porque o destino de Samsa é asqueroso demais e não há nada, em todo o reino animal, que supere a barata na escala da asquerosidade. Elementar, meu caro Watson, poderia acrescentar neste ponto um amante do lugar-comum – uma frase que o detetive inglês Sherlock Holmes nunca pronunciou em nenhuma das histórias escritas por Arthur Conan Doyle, o que, juntamente com a “barata de Kafka”, prova que nem sempre o texto é soberano. Na esteira do êxito popular de um livro costuma vir uma certa aura, uma sobra de sentido contra a qual é difícil lutar. No caso de Holmes, a frase que não existe textualmente…

Piglia, Tchekhov e a arte de narrar

Em seu lapidar ensaio Teses sobre o conto, publicado no livro “Formas breves”, o escritor e crítico argentino Ricardo Piglia resume assim o ponto de partida de suas reflexões sobre as histórias curtas – ou, em inglês, simplesmente stories: Primeira tese: um conto sempre conta duas histórias. Numa linguagem límpida e legível que não esconde a generosa – e rara – intenção de conversar com o maior número possível de leitores, sem prejuízo do rigor do pensamento crítico, o autor passa então a discorrer sobre a tal duplicidade: a de uma história ostensiva, exterior, que contém em si uma história secreta, cifrada, elíptica. A história que ele chama de 1, a evidente, só aqui e ali deixa entrever ou pressentir “nos seus interstícios” a história 2, que ao irromper por fim na consciência do leitor provoca aquele efeito de surpresa, revelação ou epifania que se espera de todo conto. Piglia recupera uma deliciosa anotação rabiscada pelo russo Anton Tchekhov, mestre do conto moderno, embrião de uma história que ele jamais escreveu: “Um homem em Montecarlo vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa, suicida-se”. A história 1 – o jogo, a sorte, a euforia do enriquecimento – tem no…

Escrever bem é ter o que dizer. E vice-versa

“Fulano escreve bem, mas não tem o que dizer.” Não lembro onde li a frase, muito tempo atrás – provavelmente numa resenha ou quem sabe em duas ou três, pois a verdade é que se trata de um semiclichê crítico. Junto com seu autor ou autores, minha memória deixou de registrar também o alvo ou os alvos da diatribe. Foi a frase em si que passou a me assombrar de tempos em tempos em meus primeiros anos de escritor tateante, como se expressasse uma advertência severa e uma verdade terrível. Então não bastava aprender a escrever? Era preciso também ser possuidor de uma qualidade mais misteriosa, talvez inata, certamente existencial, quem sabe política, que parecia tão fugidia quanto assustadora? Eu acreditava levar jeito para aquela coisa de fazer literatura, sentia que as palavras me mostravam alguma obediência, mas… teria o que dizer? E como uma pessoa que não tem o que dizer descobre, inventa, encomenda, pega emprestado, vai à luta de algo para dizer? Levou tempo para que eu descobrisse estar diante de uma questão falsa. Saber escrever e ter o que dizer são rigorosamente a mesma coisa, ou melhor, não existe na literatura – ou em arte alguma –…

O que aprendi com Nelson sobre o diálogo

Este artigo é ao mesmo tempo o reconhecimento público de uma dívida pessoal e uma dica: talvez não haja lição mais importante que os escritores brasileiros do século 21 possam tirar da obra de Nelson Rodrigues (foto) do que o difícil aprendizado do diálogo. Falo de uma questão de forma. Isso não significa minimizar o famoso conteúdo rodriguiano, esse impressionante universo de tipos caricaturais da baixa classe média carioca às voltas com tramas folhetinescas de amor e morte, infidelidade e incesto, numa atmosfera farsesca em que pulsões primitivas estão sempre prontas a furar o verniz da civilização e vir à tona com uma ferocidade equilibrada entre o trágico e o cômico. Evidentemente, é o alcance cultural desse universo que torna Nelson um monstro, um daqueles raros autores sem os quais o país não seria o que é. Mas isso todo mundo sabe. Quando me refiro ao diálogo, falo de uma técnica que permite a dois ou mais personagens trocarem blocos de discurso direto no meio de uma narrativa sem que soem como bonecos de ventríloquo do autor ou oradores na tribuna da Câmara dos Deputados. Alguns escritores se saem bem da tarefa, a maioria não – e pode até ser…

Tempos e pessoas: viagem ao coração da literatura

Um dos conselhos literários mais importantes que já recebi – quase tão importante quanto aquele outro, o de desconfiar de todos os conselhos literários – me apareceu quando eu tinha vinte e tantos anos, lendo um artigo de Autran Dourado sobre seu método de trabalho. Se a memória não me engana mais do que o habitual, o escritor mineiro revelava, embora não com essas palavras, uma forma de dar vida nova a textos deficientes, insatisfatórios, capengas ou falsos: trocar seu tempo verbal ou a pessoa da narração – ou as duas coisas ao mesmo tempo. Ainda não era comum escrever em computador naquela época. O truque, se assim podemos chamá-lo, envolvia um bocado de trabalho pesado: rabiscar tudo com caneta era provavelmente o primeiro passo, mas no fim das contas, para ter um resultado apresentável, restava alimentar a máquina de escrever com papel novo e datilografar tudo outra vez. Da primeira à última palavra. Trocando, por exemplo, “fui” e “tinha” por “vou” e “tenho”. Ou por “vai” e “tem”. E “minha” por “sua”. Etc. É claro que, tendo feito tudo isso, e ainda que a princípio satisfeito com as mudanças, nada impedia o angustiado autor-datilógrafo de se arrepender no dia…

Como não começar um romance

As “franjinhas literárias” que foram tema de um post barthesiano aqui no blog – aqueles emblemas de literariedade que nada mais são do que uma manifestação do mau e velho clichê, da linguagem morta ou pelo menos artrítica – podem ser mais ou menos antiquadas. É claro que existem as franjinhas modernosas e até as vanguardistas, pois, nas palavras de Ricardo Piglia, “a modernidade é o grande mito da literatura contemporânea”. Estas são até mais perigosas, por disfarçarem melhor sua cafonice e vaziez. No entanto, é impressionante o número de pessoas que se lançam à aventura de escrever um romance tendo na mira, de forma consciente ou não, um modelo que já era velho há pelo menos cento e cinquenta anos. A franjinha preferida de todas essas é a descrição. Qualquer um que já tenha sido obrigado – como jurado de um concurso literário, por exemplo – a ler de enfiada um grande lote de romances contemporâneos sabe que, numa fatia em torno de um terço deles (estou chutando, mas não errarei por muito), a narrativa começa com uma longa descrição. Em alguns casos, de fenômenos atmosféricos, num eco certamente involuntário do mais famoso clichê literário da história – a…

‘Era uma noite escura e tempestuosa’: sobre o clichê

Conversando com uma amiga, romancista talentosa que tem ministrado oficinas literárias, ela dizia que uma de suas maiores dificuldades é explicar aos alunos o que vem a ser um clichê. Fazer o orgulhoso autor de uma frase como “as ondas lambiam voluptuosamente a areia”, que tanto o agrada por sua carga poética, compreender que ela é inaceitável. Não apenas ruim mas desclassificante, algo que um leitor mais exigente tenderá a interpretar como deixa para desistir do livro. Nessa hora, talvez seja didático mencionar o exemplo de Snoopy. E de Bulwer-Lytton. E de Urbano Loureiro. E de tantos outros que começaram ou se sentiram tentados a começar uma história com aquela frase imortal, emblema supremo do clichê literário em todos os tempos: “Era uma noite escura e tempestuosa.” Romancista, poeta, dramaturgo, político e barão, Edward Bulwer-Lytton (1803-1873) passou à história com a glória irônica de ter sido seu criador. Se alguém já tinha usado uma fórmula parecida, o que não acho improvável, a imensa popularidade da obra do nobre inglês em sua época garantiu à frase de abertura de seu romance Paul Clifford o privilégio de fixar a construção exata, a forma irretocável do clichê: “It was a dark and stormy…

McEwan, Zadie e o limite de quinze palavras por dia

Entre as muitas delícias da longa entrevista (em inglês, acesso gratuito) que Zadie Smith fez com Ian McEwan em 2005, publicada pela revista The Believer, minha preferida aparece já no texto introdutório da autora de “Sobre a beleza”. Zadie conta que, ainda universitária e aspirante ao mundo das letras, foi levada por uma amiga enturmada à festa de casamento de McEwan, já então um escritor estabelecido (embora ela confesse que, na época, estava ocupada imitando Martin Amis, também presente à festa). “Parece”, disse minha amiga com ar de entendida, quando observávamos McEwan rodopiar com sua nova esposa pela pista de dança, “que ele escreve apenas quinze palavras por dia.” Eis uma informação infeliz para se dar a um escritor aspirante. Eu era terrivelmente suscetível ao poder do exemplo. Se me dissessem que Borges corria três milhas toda manhã e depois plantava bananeira numa tina de água antes de se sentar para escrever, eu me sentiria obrigada a tentar isso. O espectro do limite de quinze palavras ficou comigo por um longo tempo. Três anos depois, quando estava escrevendo “Dentes brancos”, lembro-me de pensar que todos os meus problemas se originavam do excesso de palavras que me sentia impelida a escrever…

Poe e a filosofia da edição

Num debate na Biblioteca de São Paulo com a presença de outros finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura, ano passado, um rapaz na audiência nos perguntou – a Adriana Lisboa, Michel Laub e Flavio Cafiero, além de mim – o que pensávamos do “método” de escrita defendido por Edgar Allan Poe em seu famoso ensaio “A filosofia da composição”. Foi um prazer inesperado ver surgir numa conversa literária de hoje, e trazido por um leitor jovem, o texto de 1846 em que Poe explica passo a passo como escreveu o poema “O corvo”. Trata-se de um velho favorito meu, ode curiosa ao planejamento meticuloso e à intencionalidade como os melhores conselheiros do escritor – uma ode composta, o que é melhor, por um cultor de histórias fantásticas, sombrias, fantasmagóricas, normalmente associadas ao oposto do racionalismo solar que o ensaio defende. O fascínio que “A filosofia da composição” provocou em mim quando o li pela primeira vez, muitos anos atrás, está longe de morrer, mas faz tempo que foi temperado por ceticismo. Diz o escritor americano que “O corvo” foi escrito “com a precisão e a sequência rígida de um problema matemático”. E promete: “É meu desígnio tornar manifesto que…

Da arte de ‘acariciar os detalhes’

Então é só isso? Umas poucas palavras bem colocadas e pronto, ali está o leitor na ponta da linha, anzol cravado na bochecha? Sim, mas também pode ser só isso: uma única palavra em falso e o peixe desaparece nas profundezas para nunca mais passar perto do seu bote. O que vai ser? Em qualquer praia estética, esteja ele muito ou nada interessado em ser acessível a um grande número de leitores, acredito que esta preocupação habite a cabeça de todo escritor digno desse nome, isto é, qualquer um que escreva para ser lido por alguém e não apenas para expressar seu eu profundo: como dar às palavras, uma após a outra, uma certa ressonância de verdade? Estamos em terreno traiçoeiro. Em primeiro lugar convém deixar claro que a palavra verdade não tem aqui – não ainda – a menor fumaça filosófica, histórica ou mesmo emocional. Importa menos “a verdade” do autor ou da história que ele conta do que “uma certa ressonância de verdade”. Sim, é claro que uma dimensão está ligada à outra em algum nível profundo, mas vamos supor que ainda não mergulhamos o suficiente para chegar lá. Estamos na superfície do texto, mal equilibrados em nosso…

Dizer que escrever contos é mais ‘difícil’ é paternalismo

Você já encontrou a afirmação por aí: “É mais difícil escrever um conto do que um romance”. É possível até que a tenha encontrado tantas vezes que já a considere uma daquelas profundas verdades contraintuitivas da existência. Algo como o equivalente literário de “o café da manhã é a principal refeição do dia”, falso axioma que também costuma ser repetido sem que se leve em conta a motivação do publicitário que primeiro o imprimiu numa caixa de sucrilhos. Não, a ideia não é sugerir que o conto está para o romance como o café da manhã está para o almoço ou jantar. A questão é mais complexa, como veremos. Mas vamos começar pela motivação. Talvez a primeira pessoa que afirmou aquilo, seja quem for, tivesse um intuito nobre: combater a percepção popular, leiga e equivocada de que escrever uma história curta é moleza. Machado de Assis, magistral tanto no romance quanto no conto, jamais entrou, que eu saiba, nesse joguinho comparativo furado, mas também se sentiu obrigado a defender a narrativa breve da pecha de facinha: “É gênero difícil a despeito de sua aparente facilidade, e creio que essa mesma aparência lhe faz mal, afastando-se dele os escritores e não…

Notas sobre a vocação do ‘livro pequeno’ na ficção nacional

Não há nada no Brasil que se possa comparar à epidemia do tijolo que assola a ficção internacional, sobretudo a americana. Aqui “Viva o povo brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro, de 1984, com suas 640 páginas, é considerado um livro longuíssimo, quase uma aberração. Historicamente temos “Os sertões”, de Euclides, e é verdade que “O tempo e o vento”, de Erico Verissimo, daria um cartapácio para lá de exuberante se saísse num volume só. Alguém mencionou “A pedra do reino”, de Ariano Suassuna (756)? De todo modo parece que, depois de “Viva o povo” – concebido, segundo o próprio João Ubaldo, para ser antes de mais nada “um livro grosso”, em resposta a um desafio do editor Pedro Paulo de Sena Madureira –, o único a ir realmente longe nessa corrida é “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves (952!), um livro ímpar por outros motivos além deste. Atrás dele, no último quarto de século, há um vácuo de algumas centenas de páginas e só então começam a aparecer aqui um “Pornopopeia”, de Reinaldo Moraes (480), ali um “O paraíso é bem bacana”, de André Sant’Anna (456), acolá um “Barba ensopada de sangue”, de Daniel Galera (424). Há poucos…

Em defesa da trama: Vonnegut e uma freira em apuros

Na entrevista que Kurt Vonnegut (1922-2007) deu à “Paris Review”, lida há muitos anos, há um trecho que nunca me saiu da cabeça. Nele o escritor americano, autor de “Matadouro 5”, faz com a verve que lhe era característica uma defesa da boa e velha contação de histórias: Garanto a você que nenhum esquema narrativo moderno, nem mesmo a ausência de enredo, dará ao leitor satisfação genuína, a menos que uma daquelas tramas à moda antiga seja contrabandeada para dentro da história. Não defendo a trama como representação acurada da vida, mas como forma de manter o leitor lendo. Quando eu dava aulas de criação literária, costumava recomendar aos estudantes que fizessem seus personagens desejar alguma coisa imediatamente – mesmo que apenas um copo d’água. Personagens paralisados pela ausência de sentido da vida moderna ainda precisam beber água de vez em quando. Um dos meus alunos escreveu um conto sobre uma freira que ficou com um pedaço de fio dental preso entre os molares inferiores e não conseguia se livrar dele o dia inteiro. Achei isso maravilhoso. A história lidava com questões muito mais importantes do que fios dentais, mas o que mantinha os leitores presos era a ansiedade de…

O personagem só faz o que quer? Ah, conta outra!

A primeira referência que encontrei à autonomia dos personagens literários me impressionou muito. Era adolescente, começava a tentar pôr de pé o plano insensato de um dia escrever livros e fiquei boquiaberto ao descobrir que um escritor podia se declarar impotente diante do livre-arbítrio manifestado por criaturas que ele próprio tinha criado. Como assim – então não era o autor que mandava? A revelação constava de um dos prefácios que Erico Verissimo, meu primeiro ídolo literário, havia escrito para suas (ainda incompletas) obras completas, coleção de capa dura azul que ocupava lugar de honra na estante lá de casa. Não demorou para que meu estranhamento desse lugar a uma profunda reverência diante do supremo mistério da criação. Não registrei na memória o momento exato em que mudei de ideia, mas lembro-me de, poucos anos mais tarde, abrir um sorrisinho sarcástico toda vez que esbarrava – e esbarrava o tempo todo – num artigo ou entrevista em que um escritor evocava o supremo mistério da criação, alegando que seus personagens só faziam o que bem entendiam e tal. Pô, aqueles caras pensavam que estavam enganando quem? Tremendo caô, claro. Tentativa canhestra de mitificar e dar caráter quase divino a algo que…

A eloquência do silêncio

A importância do silêncio numa narrativa de ficção se manifesta de diversas formas, incluindo as óbvias elipses e subentendidos, pois, como disse Erico Verissimo (que cito de memória), “um dos segredos do romancista é nunca explicar demais”. Tudo aquilo que não é dito oferece à imaginação do leitor – coautor pouco comentado de qualquer obra literária – espaço para se espraiar, ligar os pontinhos, produzir e não apenas decifrar sentido. Embora geralmente esquecido, até mesmo o silêncio que vem antes da primeira frase do texto, como os milênios de não-ser que precedem o nascimento de qualquer bebê, é tão fundamental quanto o clímax de uma história. O silêncio que vem depois do fim, então… Vamos começar pelo começo. Entramos em “Viva o povo brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro, um dos grandes romances de nossa literatura, vendo o herói ser fuzilado. A sugestão de uma longa história passada, mas calada, insinua-se na estranha precedência de uma conjunção adversativa a adversar o ignorado: Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro…

Sobre a precisão

Lendo um texto literário, tento decifrar por que ele me agrada tanto e chego à ideia de precisão vocabular. Será isso? Não, claro que nunca é uma coisa só, mas será isso em primeiro lugar – a precisão na escolha das palavras? O fato de as palavras vestirem as ideias como uma malha justa, roupa de mergulhador, segunda pele através da qual a ideia exibe suas formas com perfeição, quase como se já não fosse a ideia de uma coisa, mas a coisa mesmo? * Um dos aspectos intrigantes da caça ao vocábulo preciso, aquilo que Gustave Flaubert chamava de le seul mot juste, é o fato de, sendo tão inerente ao bem escrever, ser tão difícil de ensinar. Para começar, não é nada fácil de definir, e a malha ou segunda pele é uma metáfora desesperada que reconhece essa dureza. Identificamos a precisão quando a temos diante do nariz, mas em que ela consiste exatamente? * Aqui talvez seja necessário afastar a ideia, folclórica mas nunca distante dessa conversa, da “palavra justa” como frescura e álibi para a paralisia do escritor – como parece ter sido muitas vezes para o próprio Flaubert. Se você está escrevendo um conto policial…

Escrever, cortar, escrever: a concisão e a clareza

“Escrever é cortar palavras”, disse Carlos Drummond de Andrade, mas talvez não tenha sido ele: parece que, na ânsia de enxugar, alguém acabou cortando o crédito. Importa pouco a autoria do conselho. Com essas ou outras palavras, o elogio da concisão é a lição mais ouvida por aprendizes das letras há mais de cem anos. Quer dizer que antes disso o poder de síntese não valia nada? Claro que valia. Os poetas da antiga Grécia cultivaram a brevidade do epigrama. No início do século XVIII, o poeta inglês Alexander Pope, tradutor de Homero, dizia que palavras são como folhas de árvore: quando são muito abundantes, diminui a chance de vislumbrarmos ali embaixo “o fruto do sentido”. No entanto, parece ter sido nas primeiras décadas do século XX que o relógio do mundo acelerou de vez e deixou com cara de obesa uma silhueta textual – a palavrosa – que até então ainda podia ser vista como atraente e saudável. Mais ou menos o que tinha ocorrido um pouco antes com as mulheres de Rubens. Pode-se relacionar esse aguçamento da implicância com o desperdício vocabular a uma série de fenômenos, como a industrialização e a vida urbana. Parece claro que um…

Entre Narciso e o suicídio, a literatura balança

A literatura é hoje um campo que se questiona de modo histérico, com resultados entre o suicida e o narcísico. O discurso literário parece sentir que perdeu o direito à existência. O que quer que o justificasse perante si mesmo não o justifica mais. Entre as atitudes que o discurso literário toma diante disso, destaco duas que me parecem especialmente significativas: deitar no caixão e declarar-se morto, como um personagem de Nelson Rodrigues, procedendo então à auto-autópsia; ou, feito uma drag queen de quermesse, se montar inteiro com maquiagem, bijuterias, próteses, piscando muito para o espelho e dizendo: “Eu existo, ói eu ali”. (Seria interessante – mas foge aos propósitos deste artigo, para não falar da minha competência – investigar o que haverá de analogia estrutural e especularidade simbólica entre duas crises culturais contemporâneas, a “do macho” e a da literatura de ficção.) A verdade é que, além daqueles que a fazem e da pequena seita que a consome sistematicamente, ninguém no mundo está prestando lá uma terrível atenção à ficcão literária, como diriam em inglês – literatura artisticamente ambiciosa, digo eu. A ficção comercial vai bem, mas o público da ficção dita séria míngua ao mesmo tempo que se…

Textos com franjinha

Num dos curtos ensaios de crítica cultural que escreveu entre 1954 e 1956, reunidos no livro “Mitologias” (Difel), o semiólogo francês Roland Barthes se detém com especial crueldade nas franjinhas exibidas por todos os personagens masculinos do filme “Júlio César”, de Joseph L. Mankiewicz, adaptação hollywoodiana da peça de William Shakespeare, com Marlon Brando (foto) no papel de Marco Antônio e James Mason no de Brutus. Declarando o cabeleireiro o “principal artesão do filme”, Barthes registra a variedade das franjas exibidas pelos atores, dizendo que “umas são frisadas, outras filiformes, outras em forma de topete, outras ainda oleosas, todas bem penteadas; os calvos não foram admitidos, embora abundem na história romana”. No entanto, encontra para todas elas um propósito único, que chama de “ostentação da romanidade”: A madeixa na testa torna tudo bem claro; ninguém pode duvidar de que está na Roma antiga. E esta certeza é constante: os atores falam, agem, torturam-se, debatem questões “universais”, sem que, graças à bandeirinha suspensa na testa, percam seja o que for da sua verossimilhança histórica. Mas o que Barthes tem contra franjas romanas, afinal, se nenhuma representação artística pode prescindir de artifícios desse tipo ao propor seu jogo de faz-de-conta? A resposta…

Adjetivos são legais
Vida literária / 22/08/2015

Sempre achei que a campanha de difamação movida contra os adjetivos, como se eles fossem responsáveis por toda a subliteratura do mundo, errou a mão e avançou alguns quilômetros pelo terreno da injustiça. “Quando conseguir agarrar um adjetivo, mate-o”, aconselhou Mark Twain, naquele que é um dos mais famosos na longa lista de insultos dirigidos à “palavra de natureza nominal que se junta ao substantivo para modificar o seu significado, acrescentando-lhe uma característica” (a definição é do Houaiss). Adjetivos colorem o texto: não à toa, todos os nomes de cores são também adjetivos. É possível criar um belo quadro em tons de preto e branco, mas ninguém no mundo das artes plásticas chegaria ao extremo de condenar as cores como pragas: “Quando conseguir agarrar uma cor, mate-a!”. Aprender a usá-las, explorar suas harmonias e desarmonias, isso sim. Mas para tanto é preciso que estejam vivas. * Entende-se de onde vem a má reputação dos adjetivos. Por definição, eles têm mesmo uma tendência maior à futilidade do que os substantivos que escoltam: pendurados nestes, que trazem a substância no nome, são no máximo adjuntos, nunca a atração principal. Certo discurso beletrista – que ainda hoje há quem identifique ingenuamente com a…

Sociologia é na loja ao lado: a ‘literatura feminina’ e os anões albinos
Vida literária / 18/07/2015

Será verdade que só o relato de um anão albino estrábico nascido em Arapiraca no último quarto do século XX tem valor como reflexão sobre a forma única e intransferível pela qual os anões albinos estrábicos nascidos em Arapiraca no último quarto do século XX vivenciam sua condição humana? E se a história envolver um anão albino estrábico nascido em Arapiraca no último quarto do século XX – e gay? Ou, reparando bem, anã? Devemos criar sempre novos nichos autorais – reservados a anões albinos estrábicos nascidos em Arapiraca no último quarto do século XX gays, mulheres etc. – ou será aceitável que um anão albino estrábico do sexo masculino e heterossexual nascido em Arapiraca no último quarto do século XX exercite sua imaginação para conceber personagens gays ou mulheres que compartilhem sua condição de anão albino estrábico nascido em Arapiraca no último quarto do século XX? Não é de hoje que me assalta a certeza de que certos desdobramentos rasos mas influentes dos estudos culturais, com sua supervalorização do “lugar de fala” como critério de avaliação literária, conduzem reto para o abismo da negação da literatura. Como se isso fosse pouco, terminam por boicotar o que tal perspectiva tem…

Cinquenta tons de ódio à leitura
Vida literária / 04/07/2015

Os vapores embriagantes da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que hoje chega ao clímax, são ótimos, mas não negam: o Brasil é um país que despreza a leitura. Entre obrigações escolares, bobagens de autoajuda, cordilheiras de livros para colorir e milhões de exemplares de uma bomba subliterária chamada “Cinquenta tons de cinza”, o brasileiro médio anda lendo 1,7 livro por ano – mais ou menos. Os números costumam variar um pouco, mas foi este que o ministro da Cultura, Juca Ferreira, em entrevista na última terça-feira, chamou de “uma vergonha”. Concordo inteiramente. Mais do que uma vergonha, um motivo de desalento quanto ao futuro do país. Ocorre que a proposta de Ferreira para atacar o problema – uma ampla campanha semelhante “à do Fome Zero e à da paralisia infantil” – não chega a empolgar quem conhece um pouco dessa história. Campanhas de incentivo à leitura são feitas regularmente pelo ministério da Cultura: a de 2012, com o bordão “Leia mais, seja mais”, foi lançada com previsão de investimentos de R$ 373 milhões (mais sobre isso aqui). Iniciativas desse tipo são tão bem intencionadas quanto limitadas. Em parte porque o imperativo costuma soar antipático: “Faça isso!”, diz o iluminado,…

O jogo do Rogério
Vida literária / 09/05/2015

Acredito ter sido, no fundo, o inconformismo com o fato de literatura e vida parecerem habitar duas dimensões tão separadas da existência o que nos levou a inventar um jogo intrincado que misturava folhetim com uma espécie primitiva de RPG – este, embora já existisse, estava longe de fazer sucesso no Brasil e não pode ser considerado uma influência. Estávamos na primeira metade dos anos 1980 e éramos quatro amigos formandos ou recém-formados em jornalismo. Todos apaixonados por literatura, estávamos meio perdidos e talvez assustados (eu pelo menos sim) com as promessas de tédio infinito e massacre cotidiano da criatividade e da alegria que o mundo do trabalho remunerado parecia estender horizonte adentro, a perder de vista. Houve um tempo em que, zeloso de uma coisa arcaica chamada vida privada, eu não nomearia – ou nomearia com pseudônimos – os outros três daquela turma. Hoje esse tempo parece distante, talvez porque eu esteja sob a influência da furiosa evasão de privacidade promovida por Karl Ove Knausgård. De todo modo, não há nada que comprometa ninguém nessas memórias: nem o professor Luiz Carlos Mansur, nem o roteirista David França Mendes, nem o crítico de cinema e escritor Rogério Durst (foto). Além…

Literatura brasileira contemporânea, um diálogo crítico
Sobrescritos , Vida literária / 11/04/2015

– A literatura brasileira contemporânea é uma imensa montanha de cocô. Não produz nada que chegue aos calcanhares da potência de Machado, Rosa ou Clarice. – Pra que ir tão longe? Vamos combinar que também não chega aos pés de Raduan ou do Rubem Fonseca dos bons tempos. – Exato. A literatura virou um espetáculo cheio de som e fúria, mas sem sentido. A tal vida literária tem mais importância do que a arte literária propriamente dita (e impropriamente exercida). Esse circo de festivais, feiras, prêmios, traduções, viagens, oficinas, blogs, networking e o diabo cria uma ilusão de movimento e um verniz de profissionalismo, entre aspas, que encobrem a irrelevância fundamental do ofício. – Eu diria mais: que mascaram um tédio de cemitério. Por que será assim? – Porque tudo já foi dito, ora. Como esperar algo revolucionário ou pelo menos renovador num cenário em que os escritores são robôs teleguiados pelo mercado, aprendem meia dúzia de truques, dominam uma técnica mas não comovem ninguém, não arriscam o pescoço, não incomodam, não acessam o novo? Não têm, em suma, nada a dizer? Não admira que o público ignore esses farsantes. – É o que eu sempre digo. A literatura brasileira…

Literatura de A a Z
Vida literária / 04/04/2015

Acorde pensando no livro. Banhe-se pensando no livro. Coma pensando no livro. Durma pensando no livro. Evite reler o resultado de um bom dia de trabalho mais de sete milhões de vezes. Fracassou? Se fracassou melhor do que antes (crédito para o Beckett), está no caminho certo. Guarde no fundo da gaveta os melhores elogios que receber, para esquecê-los meticulosamente no dia a dia – até precisar deles como agasalho quando vier (virá) a estação dos ventos hostis. Hostis são aqueles ventos que uivam nos ouvidos como as sereias e que, como elas, só matam os que lhes dão ouvidos. Ignore a dor de continuar: continue. Já não sabe por que começou? Bem-vindo ao clube. Avance dez casas. Kafka esteve aqui. Em frente. Leia tudo o que lhe faltava ler da literatura universal antes do jantar, parando para cotejar edições e tomar notas nas margens. Mapeie, por puro espírito lúdico, rotas de fuga imaginárias em direção ao silêncio, mesmo sabendo que é infinito o labirinto de palavras em que se meteu. Negue o que afirmou antes. Obtempere bem. Pode ir ao dicionário agora. Quaquaquá! Rir será, muitas vezes, a única salvação. Lembre-se de que o mesmo vale para o leitor….

ATÉ LOGO
Vida literária / 28/03/2015

Tirei umas breves férias desta coluna – e do Sobre Palavras – para participar do Salão do Livro de Paris, que este ano teve o Brasil como país homenageado, e atender a outros compromissos de lançamento da tradução francesa de “O drible”. Sábado que vem estarei de volta com novidades. Até lá!

Dica de leitura para Dilma: ‘Os sermões’ de Vieira
Vida literária / 07/03/2015

O imprescindível jornal mensal “Rascunho”, especializado em literatura, traz na edição que saiu esta semana uma entrevista minha na seção Inquérito, que reproduzo abaixo. Todo mês o jornal curitibano submete as mesmas perguntas – ou mais ou menos isso, pois o número delas cresceu com o tempo – a um escritor brasileiro. O espírito da inquirição é aquele do famoso Questionário Proust, levar o depoente a expor sua “personalidade” em respostas curtas a perguntas singelamente diretas, algumas delas brincalhonas ou excêntricas. Divertido, em suma. Para o arquivo dos Inquéritos, clique aqui. A edição de março ainda não está disponível no site do jornal, mas já pode ser lida em pdf. Destaque para a suculenta primeira parte do ensaio “Dom Casmurro: a obra-prima da reciclagem”, de João Cezar de Castro Rocha, na página 20. * • Quando se deu conta de que queria ser escritor? Aos 14 anos, quando concluí que escrevia melhor do que desenhava. Comecei imediatamente a escrever um conto atrás do outro. A ideia era estar consagrado aos 18, mas não deu certo. • Quais são suas manias e obsessões literárias? Nunca falar do que estou escrevendo ou planejando escrever, pelo menos até o trabalho estar bem adiantado….

Conselhos literários, conselhos de vida: dois decálogos
Vida literária / 21/02/2015

Esbarrei dia desses numa lista de dez conselhos – aqui, em espanhol – do romancista americano Richard Ford (foto) a jovens escritores e fiquei matutando sobre esse subgênero das dicas sobre o fazer literário, que sempre mereceu atenção do Todoprosa em seus quase nove anos de história. Embora sejam discutíveis em princípio, claro, simplesmente por serem conselhos, os de Ford têm lá sua graça. O que neles mais chamou minha atenção foi o fato de serem, em sua maioria, toques de vida, de comportamento, de postura diante do trabalho – e não de técnica, estilo, relação com as palavras, condução do ritmo narrativo ou composição dos personagens. Acredito que isso os faça mais úteis. “Case-se com alguém que ame e que ache uma boa ideia você ser escritor”, recomenda Ford já na abertura do decálogo. E mais à frente: “Não discuta com sua mulher”; “Não deseje mal a seus colegas”; “Tente pensar no sucesso dos outros como um estímulo para você”. O que pode parecer uma cartilha de bom-mocismo entra também por terreno íntimo e polêmico: “Não tenha filhos”. Puxa, será que um escritor com filhos deve desistir da carreira? Eu tenho dois. É claro que ninguém deve tomar ao…

1975: o ano em que a literatura explodiu

Nada a ver com saudosismo. Eu mal entrava na adolescência, e os livros que lia na época eram bem diferentes dos que vou citar aqui. Apenas aconteceu que, intrigado por uma coincidência flagrada casualmente, comecei a puxar um fio na estante e acabei com uma pilha de evidências de que a safra de 1975 foi gloriosa para a literatura brasileira – a última de nossas safras gloriosas, como se depois disso a terra tivesse secado, tornando as colheitas mais espaçadas. Antes de tentar explicar a generosidade literária daquele tempo – e a relativa sovinice dos anos seguintes –, convém justificar a tese. Para tanto basta dizer que 75 trouxe à luz, de uma só vez, duas obras-primas espantosas e cabais: “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca, e “Lavoura arcaica”, de Raduan Nassar (eis a coincidência em que reparei por acaso). Só isso já seria histórico. Tem mais. De saída, que tal juntar à pilha o “Zero” de Ignácio de Loyola Brandão? A qualidade é desigual, eu sei. Talvez o confuso “Zero” nem faça muito sentido lido fora da moldura de um regime autoritário, mas, censurado, converteu-se em livro-símbolo de um tempo. Ou seja: entre méritos literários e históricos, entre texto…

A lição de Ishiguro: quanto menos vida real, melhor
Vida literária / 10/01/2015

Entre os temas sobre os quais os escritores são chamados a responder com frequência, o da “rotina de trabalho” deve estar no topo da lista ou bem perto dele. São muitas as perguntas que cabem nessa categoria. Você escreve todos os dias? Tem uma meta de produção? Um número fixo de horas? Manhã, tarde ou noite? Observa algum ritual, alguma superstição? Desconecta-se da internet para escrever? Desliga o celular? Sim, o interesse por tal tipo de informação sobre os bastidores da escrita é em grande parte fetichista, uma forma de atribuir à criação literária uma aura mágica (“Como você consegue?”), recusando a ideia de que escrever é nada mais que um trabalho – com suas peculiaridades, claro, mas um trabalho. Como ocorre em todo ofício, cada trabalhador deve encontrar os métodos e rotinas que mais lhe convenham. O risco do fetichismo é levar os incautos a se fixar no acessório e descuidar do principal. Dizem que Ernest Hemingway gostava de descascar um certo número de laranjas antes de começar a escrever, mas pode-se afirmar com absoluta certeza que nenhuma atividade envolvendo frutas cítricas jamais levou ninguém a desenvolver um estilo tão cortante e conciso quanto o do autor de “Por…

Sobre línguas e catedrais: uma conversa com Amós Oz
Vida literária / 20/12/2014

“Não sou chauvinista com meu país, mas sou chauvinista com a língua hebraica.” Estou conversando com o escritor israelense Amós Oz num canto tranquilo de um dos amplos espaços vazios do segundo andar do aristocrático hotel Copacabana Palace. Depois de muitas perguntas sobre literatura e política (que renderam essa entrevista), o papo desagua com naturalidade na língua, como se fosse um rio que corresse para o mar. Conversamos em latim contemporâneo, isto é, inglês. Sei tanto de hebraico, clássico ou moderno, quanto Amós Oz sabe de português – talvez um pouco menos. No entanto, já tendo me deparado muitas vezes com a metáfora do idioma como instrumento musical que todo escritor precisa dominar, entendo o brilho nos olhos do homem quando ele se derrama todo por uma língua antiga que por pouco não ficou congelada nos textos sagrados, perfeita e morta como o latim num poema de Ovídio. Salva há pouco mais de um século de um declínio que parecia inexorável, a língua em que escreve Oz vem se firmando nas últimas décadas, como o próprio Estado de Israel, sobre um ato de vontade política. “O hebraico moderno é um instrumento tremendo, porque é ao mesmo tempo antigo e moderno”,…

Por que Sammy Davis Jr. não está no ‘Drible’
Vida literária / 13/12/2014

O Grande Prêmio Portugal Telecom conferido esta semana a meu romance “O drible” me deu vontade de compartilhar com os leitores, além da alegria por esse reconhecimento, algum tipo de presente que expressasse minha gratidão pelo carinho com que o livro foi recebido desde seu lançamento, em setembro do ano passado. Acabei indo buscar no almoxarifado aqui do computador uma cena que excluí da edição final e que, com um pouco de sorte, pode ter alguma graça como curiosidade para os leitores do livro, como uma faixa-bônus naquelas edições comemorativas dos discos de antigamente. Mais do que mera curiosidade, é possível que a cena seja também, no espírito das reflexões sobre o ofício de escrever que costumam frequentar este espaço, ilustrativa da importância de um certo desapego na hora da edição final de uma história. Eu gostava muito do personagem secundário que contracena com Neto, uma das figuras centrais de “O drible”, no trecho abaixo. Descrito como parecido com Sammy Davis Jr. ou Dom Pixote – o que é condizente com as imagens de cultura pop e lixo televisivo antigo que enchem a cabeça de Neto –, o pedreiro Sebastião surgiu para fazer uma ponta, mas chegou com força impressionante….

Soy latino-americano – e como me engano!
Pelo mundo , Vida literária / 06/12/2014

Leu-se no jornalão mexicano “El Excelsior” que a morte do comediante Roberto Bolaños deixou multidões de luto “em toda a América Latina, no Brasil e na Espanha”. Foi o adido cultural brasileiro no México, Gustavo Pacheco, quem me chamou a atenção para o detalhe, daquele tipo em que o diabo gosta de morar: pela lógica do jornal, que espelha uma percepção bastante comum, nosso país não está contido no conjunto “América Latina” e precisa ser nomeado à parte. À parte, pois é. Por acaso não será assim que gostamos de nos ver? Se é evidente que, histórica e politicamente, isso é só um erro de classificação, há vetores culturais poderosos que apoiam tal ideia. Isso ficou muito claro para mim na espetacular Feira do Livro de Guadalajara na última quinta-feira, quando me vi dividindo uma das mesas do programa Latinoamérica Viva com um escritor uruguaio, um argentino, um chileno e uma equatoriana. A língua é o que primeiro nos separa, claro – e certamente aquilo que mais dificulta a vida de um imprudente como eu, que decidi não levar nenhum texto pronto, ponderado e revisado para ler diante do público, como fizeram o chileno Nicolás Poblete e a equatoriana Maria…

A piada do Bad Sex Award perdeu a graça
Vida literária / 15/11/2014

O Bad Sex Award é um “prêmio literário” gozador criado pela revista inglesa “Literary Review” para eleger a pior cena de sexo do ano. O resultado de sua vigésima segunda edição (não que o mundo prestasse atenção nele em seus primeiros anos, antes do advento da chamada blogosfera) será anunciado na primeira semana de dezembro. A lista dos dez finalistas já pode ser consultada neste link do “Guardian” – que permite até que cada um vote em seu favorito. Que espirituoso, não? Hmm, not really. Fui um dos principais divulgadores do Bad Sex Award no Brasil desde 2008, quando publiquei o primeiro de diversos posts aqui no Todoprosa sobre o que me parecia uma brincadeira divertida – além de uma forma esperta de divulgar livros e, de quebra, pôr em debate sofisticadas questões de linguagem, o que funciona e o que não funciona na página e tal. Afinal, escrever sobre sexo apresenta mesmo desafios difíceis para qualquer escritor, certo? É por isso que me sinto obrigado a fazer agora um mea-culpa. Sim, escrever sobre sexo não é fácil, mas a resposta que o BSA dá a tal dificuldade – no fim das contas, a da simples interdição, a do silêncio…

Sobre a precisão
Vida literária / 08/11/2014

Lendo um texto literário, tento decifrar por que ele me agrada tanto e chego à ideia de precisão vocabular. Será isso? Não, claro que nunca é uma coisa só, mas será isso em primeiro lugar – a precisão na escolha das palavras? O fato de as palavras vestirem as ideias como uma malha justa, roupa de mergulhador, segunda pele através da qual a ideia exibe suas formas com perfeição, quase como se já não fosse a ideia de uma coisa, mas a coisa mesmo? * Um dos aspectos intrigantes da caça ao vocábulo preciso, aquilo que Gustave Flaubert chamava de le seul mot juste, é o fato de, sendo tão inerente ao bem escrever, ser tão difícil de ensinar. Para começar, não é nada fácil de definir, e a malha ou segunda pele é uma metáfora desesperada que reconhece essa dureza. Identificamos a precisão quando a temos diante do nariz, mas em que ela consiste exatamente? * Aqui talvez seja necessário afastar a ideia, folclórica mas nunca distante dessa conversa, da “palavra justa” como frescura e álibi para a paralisia do escritor – como parece ter sido muitas vezes para o próprio Flaubert. Se você está escrevendo um conto policial…

O bloqueio (e o bloquinho) do escritor
Vida literária / 25/10/2014

A ideia de “bloqueio de escritor” pode ter surgido junto com a de inspiração, irmãs gêmeas e inimigas geradas na barriga do Romantismo: ambas atacam quando bem entendem, sem que o pobre escritor possa fazer nada para controlá-las. A tese é exposta – não com essas palavras – por Joan Acocella, crítica da revista “New Yorker”, num alentado ensaio que estará no próximo número da revista “serrote”, semana que vem, sob o título “Por que os escritores param de escrever?”. Segundo Acocella, o poeta romântico inglês Samuel Taylor Coleridge (1772-1834) foi a primeira pessoa da história a deixar registrado em seus diários um caso do gênero. “Bloqueio de escritor é um conceito moderno”, observa ela. “É provável que os escritores tenham sofrido para trabalhar desde que começaram a assinar suas obras, mas apenas no começo do século 19 essa inibição criativa tornou-se uma questão para a literatura, algo que as pessoas levavam em conta quando conversavam sobre a arte.” A partir daí, a questão da angústia de não conseguir escrever é examinada pela autora sob diversos ângulos e em diversas épocas. Se, ao citar casos concretos, ela acaba falando quase exclusivamente de autores da língua inglesa (com uns poucos franceses…

Em defesa da trama: Vonnegut e uma freira em apuros
Vida literária / 18/10/2014

Na entrevista que Kurt Vonnegut (1922-2007) deu à “Paris Review”, lida há muitos anos, há um trecho que nunca me saiu da cabeça. Nele o escritor americano, autor de “Matadouro 5”, faz com a verve que lhe era característica uma defesa da boa e velha contação de histórias: Garanto a você que nenhum esquema narrativo moderno, nem mesmo a ausência de enredo, dará ao leitor satisfação genuína, a menos que uma daquelas tramas à moda antiga seja contrabandeada para dentro da história. Não defendo a trama como representação acurada da vida, mas como forma de manter o leitor lendo. Quando eu dava aulas de criação literária, costumava recomendar aos estudantes que fizessem seus personagens desejar alguma coisa imediatamente – mesmo que apenas um copo d’água. Personagens paralisados pela ausência de sentido da vida moderna ainda precisam beber água de vez em quando. Um dos meus alunos escreveu um conto sobre uma freira que ficou com um pedaço de fio dental preso entre os molares inferiores e não conseguia se livrar dele o dia inteiro. Achei isso maravilhoso. A história lidava com questões muito mais importantes do que fios dentais, mas o que mantinha os leitores presos era a ansiedade de…

Contra Kafka
Vida literária / 11/10/2014

Um artigo (em inglês) publicado pouco mais de um ano atrás pelo ensaísta americano Joseph Epstein na revista The Atlantic, lido dia desses com atraso, me fez pensar nas tensas, sutis relações entre crítica literária e literatura – e por extensão entre crítica e qualquer arte que seja seu objeto. O título é provocante, para não dizer sensacionalista: “Franz Kafka é superestimado?”. Uma pergunta feita para pegar o leitor de surpresa, pois dificilmente lhe terá ocorrido formulá-la mesmo em sonhos. O subtítulo responde depressinha: “Os críticos há muito tempo tendem a vê-lo como um mestre modernista em pé de igualdade com Joyce, Proust e Picasso. Reconsideremos isso”. Ou seja: transformemos Kafka num inseto monstruoso. Meu primeiro pensamento foi: bem, se vamos reconsiderar a turma dessa lista, Picasso não deveria ser o primeiro da fila? Mas Epstein não está realmente interessado no pintor espanhol, a não ser como símbolo de uma suposta grandeza incontestável, compartilhada por Joyce e Proust, em relação à qual o escritor tcheco deveria se apequenar. Sim, o truque é batido no jornalismo cultural e tem florescido como nunca em nossos tempos internéticos: pega-se uma unanimidade qualquer, alega-se com maior ou menor poder argumentativo que ela é boba…

Poe e a filosofia da edição
Vida literária / 20/09/2014

Num debate na Biblioteca de São Paulo com a presença de outros finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura, sábado passado, um rapaz na audiência nos perguntou – a Adriana Lisboa, Michel Laub e Flavio Cafiero, além de mim – o que pensávamos do “método” de escrita defendido por Edgar Allan Poe em seu famoso ensaio “A filosofia da composição”. Foi um prazer inesperado ver surgir numa conversa literária de hoje, e trazido por um leitor jovem, o texto de 1846 em que Poe explica passo a passo como escreveu o poema “O corvo”. Trata-se de um velho favorito meu, ode curiosa ao planejamento meticuloso e à intencionalidade como os melhores conselheiros do escritor – uma ode composta, o que é melhor, por um cultor de histórias fantásticas, sombrias, fantasmagóricas, normalmente associadas ao oposto do racionalismo solar que o ensaio defende. O fascínio que “A filosofia da composição” provocou em mim quando o li pela primeira vez, muitos anos atrás, está longe de morrer, mas faz tempo que foi temperado por ceticismo. Diz o escritor americano que “O corvo” foi escrito “com a precisão e a sequência rígida de um problema matemático”. E promete: “É meu desígnio tornar manifesto que…

Perda e recuperação de Cortázar
Vida literária / 13/09/2014

Deixei passar em branco de propósito o centenário de Julio Cortázar, dia 26 de agosto. Se tenho a esquisitice (admito que seja) de não gostar muito de efemérides, que me parecem pretextos meio preguiçosos para falar da obra de qualquer artista, no caso do escritor argentino um motivo especial me levou a não pular no bonde da comemoração coletiva. Cortázar foi importante demais na minha história de leitor e, por extensão, de escritor. Certo sentimento de posse e quem sabe até algum ciúme podem ter contribuído para motivar o silêncio, mas nem tudo é egoísmo. Se era para falar dele, que fosse algo significativo e não apenas uma fieira de dados biográficos temperados com adjetivos jornalisticamente corretos. Algo que me reconectasse com o prazer mágico que sua companhia me proporcionou, livro após livro, naquele início dos anos 1980 em que por algum tempo todos os demais escritores me pareceram pedestres e sem graça. Algo que explicasse por fim o fato de, passado o sortilégio, eu jamais ter voltado a ler o homem. Tarefa difícil, como se vê, principalmente em meio à barulheira do mundo. Mas agora o mundo voltou a se calar e eu não tenho mais desculpa. Cortázar foi…

Por que o Google Ads é coisa de psicopata
Vida literária / 06/09/2014

“O psicopata americano”, o romance mais conhecido do escritor americano Bret Easton Ellis, é um livro detestável na opinião de David Foster Wallace, com a qual concordo. Mas é um livro detestável que, de uma forma que seria até desonesto não considerar brilhante, conseguiu ficar na história como o melhor retrato de uma época e uma cultura detestáveis – o yuppismo dos anos 1980. A posição referencial que American psycho assumiu na recente ficção dos EUA pode ser constatada mais uma vez numa experiência curiosa: a “reescritura” do livro por meio do Google Ads, que resultou na publicação de um e-book chamado, justamente, American psycho, de BEE, mas cujo texto foi substituído por uma longa lista de notas de rodapé (ironicamente, recurso adorado por DFW) em que figuram os anúncios que cada naco de prosa gerou automaticamente ao passar pela correspondência de seus “autores” no Gmail. Ou seja, trata-se do retrato de uma época marcada pela fetichização da mercadoria comentado por uma época marcada pela onipresença da mercadoria. Seria forçado chamar de “literatura” o que fizeram Mimi Cabell e Jason Huff, não por acaso formados em design: sua experiência – sobre a qual se pode ler mais, em inglês, aqui…

‘O fim está próximo!’, disse o profeta antes de morrer
Vida literária / 30/08/2014

Leio em minha tela, no espaço de alguns dias, uma entrevista de Philip Roth em que o escritor americano repete sua ladainha de que a cultura literária chegará ao fim em poucos anos, assassinada pela cultura digital e pelo fascínio que as novas gerações sentem por engenhocas eletrônicas; um artigo da Salon.com em que os escritores Josh Weil e Mike Harvkey refletem com humor sobre a diferença entre o tratamento de astros do rock que os escritores da geração de Roth recebiam de editores e leitores ao viajarem para promover seus lançamentos e o esqueminha pobre e familiar que impera hoje; a notícia de que o Facebook vai combater a proliferação de chamadas caça-cliques, que substituem a apresentação minimamente honesta do assunto por uma provocação marota que sempre promete mais do que entrega; e uma infinidade de certezas antagônicas e inabaláveis expostas com agressividade nas redes sociais sobre todos os assuntos do mundo, em especial a campanha eleitoral brasileira. Em resumo: rotina, nada além de rotina. Como a dispersão da internet não é brincadeira, leio muitas outras coisas em minha tela nesses mesmos dias. Inclusive a notícia absurda de que a criadora da personagem infantil Hello Kitty negou que ela…

Da palavra à palavra inexistente
Vida literária / 23/08/2014

“Da cor à cor inexistente” é o nome do extraordinário livro sobre teoria das cores lançado em 1977 pelo artista plástico e pesquisador mineiro Israel Pedrosa (foto), hoje com 88 anos. Comprei-o em 1983, quando, levado por uma namorada de inclinações artísticas eclético-renascentistas, fiz um breve curso dado no Rio pelo autor sobre suas experiências fascinantes na fronteira entre a física e a arte. Aprendi então os rudimentos daquilo que Pedrosa chama de “cor inexistente”, a cor complementar que, ausente da superfície material do quadro, aparece na mente do observador como resultado de um entrechoque de cores calculado pelo pintor. Eu tinha 21 anos, idade em que os inumeráveis futuros de Borges parecem todos presentes em forma de potência, “secretos, atarefados e multiformes”. Em alguns daqueles futuros, embora eu já estivesse embicado resolutamente no sentido de escrever e não no de pintar, parecia evidente que os escritos de Israel Pedrosa me seriam de grande valia. Tenho o livro até hoje, gosto de folheá-lo de dez em dez anos, mas – da vocação à vocação inexistente – a valia nunca se manifestou. Até agora. No mesmo conto em que trata de forma definitiva do tema recorrente dos futuros inumeráveis, Borges abre…

Escrever bem é ter o que dizer. E vice-versa
Vida literária / 16/08/2014

“Fulano escreve bem, mas não tem o que dizer.” Não lembro onde li essa frase, muito tempo atrás – provavelmente numa resenha ou quem sabe em duas ou três, pois a verdade é que se trata de um semiclichê crítico. Junto com seu autor ou autores, minha memória deixou de registrar também o alvo ou os alvos da diatribe. Foi a frase em si que passou a me assombrar de tempos em tempos em meus primeiros anos de escritor tateante, como se expressasse uma advertência severa e uma verdade terrível. Então não bastava aprender a escrever? Era preciso também ser possuidor de uma qualidade mais misteriosa, talvez inata, certamente existencial, quem sabe política, que parecia tão fugidia quanto assustadora? Eu acreditava levar jeito para aquela coisa de fazer literatura, sentia que as palavras me mostravam alguma obediência, mas… teria o que dizer? E como uma pessoa que não tem o que dizer descobre, inventa, encomenda, pega emprestado, vai à luta de algo para dizer? Levou tempo para que eu descobrisse estar diante de uma questão falsa. Saber escrever e ter o que dizer são rigorosamente a mesma coisa, ou melhor, não existe na literatura – ou em arte alguma –…

Desculpe, mas vou falar de futebol

Será que já eu já posso voltar a falar de futebol? A pergunta é dirigida a mim mesmo, e a resposta acaba sendo – obviamente, ou você não estaria lendo este texto – sim, mas um sim relutante. Falar de futebol foi o que mais fiz nos últimos dez meses, desde que lancei um romance chamado “O drible”. A Copa do Mundo em que o falatório culminou, e que me fez voltar com prazer maior do que eu imaginava possível aos velhos tempos de jornalista esportivo, teve, porém, o fim que se sabe: o inominável 7 x 1 de Belo Horizonte, 8 de julho de 2014, foi um peixe estragado goela abaixo quando o banquete já se aproximava do fim. Todos os pratos anteriores, por mais gostosos que tivessem sido no momento, passaram a embrulhar o estômago em retrospecto. Aí veio Dunga e… dizer o quê? Melhor mudar de assunto mesmo. Claro que não havia como sustentar o silêncio por muito tempo. Aquela tarde, os alemães ainda se esforçavam para, conservadores e polidos, manter sua contagem em cinco gols e eu já sabia que teria de tratar do massacre. Que provavelmente estava condenado, na verdade, a revisitar o momento por…

O escritor de sobrancelhas de taturana
Vida literária / 02/08/2014

No momento em que o sol se põe em Paraty, exatamente às cinco horas e trinta e nove minutos, o escritor de sobrancelhas de taturana aparece fazendo festa e pergunta se pode puxar uma cadeira. Pode, claro, sinalizo, dizendo que o café é por minha conta, mas ele explica que cortou esse hábito, a cafeína andava lhe dando tremores nas mãos. – Quer dizer, talvez a culpa nem seja dela, mas alguém tem sempre que pagar o pato, certo? O sujeito diz isso erguendo muito as sobrancelhas de taturana, como se a frase tivesse algum sentido maior do que o evidente, uma camada de sabedoria escondida sob a platitude. Não me animo a especular o que tal substrato poderia ser. Ele ergue a mão, que realmente parece um tanto trêmula, para deter o garçom que passa apressado, e pede uma dose dupla de Maria Izabel envelhecida. – Como é boa a cachaça desta terra, não? O escritor de sobrancelhas de taturana tem a cabeça lisa feito bola de bilhar, como se seu cabelo tivesse iniciado uma migração para o sul e, detendo-se na divisa inferior da testa, receoso de atravessar a depressão dos olhos, decidido fixar residência ali. Entrelaça as…

Ariano Suassuna e a orfandade inesperada
Vida literária / 26/07/2014

Não é fácil dar conta da sensação – que é sobretudo de um certo vazio, mas eu não estaria exagerando se acrescentasse à mistura notas de luto e desamparo – provocada pela morte de Ariano Suassuna (1927-2014). Não que minha impressão tenha algo de original: é a mesma externada por muita gente em todo o país neste funesto mês de julho que já havia levado João Ubaldo, e principalmente por quem teve algum contato pessoal com o homem. Amigos confiáveis me dizem que Ariano era uma dessas criaturas iluminadas que despejam sabedoria e bondade sobre tudo e todos à sua volta. Acredito. No entanto, como o máximo de proximidade que tive com ele foi estar na plateia de uma de suas famosas “aulas-espetáculo”, a principal impressão que o autor de “Auto da Compadecida” sempre me causou foi a de um adversário no campo das ideias sobre arte e cultura. Seu agudo senso de humor suavizava, mas não chegava a desfazer o antagonismo. Afirmar que ele era um nacionalista e um conservador diz pouco. O sujeito era ultranacionalista e ultraconservador, uma espécie de versão nordestina do crítico e pesquisador musical José Ramos Tinhorão, inimigo do internacionalismo da bossa-nova. Como Tinhorão, Ariano…

Viva João Ubaldo Ribeiro (1941-2014)
Vida literária / 18/07/2014

Contudo, o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, que morreu esta madrugada no Rio de Janeiro, de embolia pulmonar, aos 73 anos, deixa uma obra-prima incontornável da literatura-brasileira: o romance “Viva o povo brasileiro”, tijolo de 673 páginas lançado em 1984. Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1993 e vencedor do Prêmio Camões em 2008, Ubaldo era “imortal” apenas no título honorífico. Seu principal romance – que tem um começo famoso, com a conjunção adversativa “contudo” introduzindo a frase de abertura, como neste artigo – é imortal literalmente. Épico da nacionalidade, com sua narrativa espalhada por quatro séculos de história do Brasil e amarrada com o fio mítico e lírico, mas também cômico e irreverente, da reencarnação dos personagens segundo a compreendem as religiões afro-brasileiras, “Viva o povo…” é provavelmente a última – e brilhante – tentativa feita por nossa literatura de dar conta do país como um todo, respondendo artisticamente à pergunta que instigou os grandes intérpretes do Brasil no século XX: o que vem a ser este país enorme, ao mesmo tempo fascinante e infantiloide, generoso e cruel? Foi o último relance que tivemos da imagem inteira. Depois disso veio a contemporaneidade, com o estilhaçamento das referências…

Dizer que escrever contos é mais ‘difícil’ é paternalismo
Vida literária / 24/05/2014

Você já encontrou a afirmação por aí: “É mais difícil escrever um conto do que um romance”. É possível até que a tenha encontrado tantas vezes que já a considere uma daquelas profundas verdades contraintuitivas da existência. Algo como o equivalente literário de “o café da manhã é a principal refeição do dia”, falso axioma que também costuma ser repetido sem que se leve em conta a motivação do publicitário que primeiro o imprimiu numa caixa de sucrilhos. Não, a ideia não é sugerir que o conto está para o romance como o café da manhã está para o almoço ou jantar. A questão é mais complexa, como veremos. Mas vamos começar pela motivação. Talvez a primeira pessoa que afirmou aquilo, seja quem for, tivesse um intuito nobre: combater a percepção popular, leiga e equivocada de que escrever uma história curta é moleza. Machado de Assis, magistral tanto no romance quanto no conto, jamais entrou, que eu saiba, nesse joguinho comparativo furado, mas também se sentiu obrigado a defender a narrativa breve da pecha de facinha: “É gênero difícil a despeito de sua aparente facilidade, e creio que essa mesma aparência lhe faz mal, afastando-se dele os escritores e não…

Por que o futebol é pouco presente na literatura brasileira?

A proximidade da Copa do Mundo e o fato de que publiquei um romance chamado “O drible” conspiram para tornar a pergunta acima a que mais ouço há meses. Tenho dado respostas múltiplas, como acredito ser uma exigência da questão, que não é simples. Este texto é uma tentativa – provavelmente condenada ao fracasso, mas fracassos também podem ser interessantes – de chegar a uma síntese que o bate-pronto das entrevistas não favorece. Em primeiro lugar é preciso descartar uma tese que encontra razoável apoio e que já vi formulada pelo antropólogo Roberto DaMatta: nossos escritores são elitistas e não admitem se rebaixar a tratar de um tema tão identificado com o povo. O raciocínio me parece furado. Há décadas convivo com um monte de escritores e jornalistas apaixonados por futebol, loucos pelo tema, e se essa fixação não se converteu em um punhado de obras memoráveis acho mais lúcido procurar a razão no oposto do esnobismo – um certo sentimento de intimidação, talvez, diante da gigantesca dimensão popular daquilo que velhos narradores de rádio chamavam de “violento esporte bretão”. Restam outras explicações. Acredito que uma das mais consistentes seja o fato de que o futebol e qualquer outro esporte…

Machado: ‘Reescrevam-me à vontade, mas…’
Vida literária / 09/05/2014

A imortalidade das letras é para poucos, escrevi certa vez com a pena prematura dos vivos, mergulhada naquela tinta mista de arrogância e candura a que chamamos sangue. Corrijo-me, leitor. As nuvens que nos servem de leito lembram alojamentos militares, o pé do insigne tribuno baiano no nariz do dramaturgo francês, o ironista irlandês a roncar junto da orelha peluda do romancista russo. É natural que tal aperto desande por vezes em altercações ríspidas e babélicas, afugentando o sono. Paciência. As condições insatisfatórias de nossa instalação no Olimpo não devem preocupar os vivos, e já constituímos uma comissão para redigir em três mil vias, todas adornadas com excelentes carimbos, um requerimento aos andares superiores da administração celeste. A menção ao relativo desconforto em que padecemos a eternidade tem o fito único de ilustrar a cena da chegada do boato. Boatos, ninguém ignora, são leves, rápidos, pouco menos que invisíveis, e guardam o condão de medrar no aconchego dos ambientes atarefados. Este me foi trazido por Alencar, um ponto de exclamação a lhe vincar a bela testa, e dava conta de um projeto grandioso ao qual se dedicam os lentes de nosso país: reescrever-nos de cabo a rabo. Tentei meter o…

Tradução, achados e perdidos
Vida literária / 03/05/2014

Vida de escriba, capítulo 345. Alguns anos atrás recebi de uma grande editora uma tarefa peculiar, que acabou se revelando tão desafiadora quanto divertida. Eles tinham um abacaxi na mão e queriam que eu o descascasse: haviam comprado de uma casa estrangeira os direitos de publicar em nosso país a autobiografia de um brasileiro (que vai ficar sem nome: além de sua identidade não ser fundamental para o que quero contar, o anonimato pode evitar alguns dentes rangidos em vão). O abacaxi se devia ao fato de que, ao contrário do que supunha inicialmente a editora nacional, a narrativa da vida do sujeito – em primeira pessoa, já foi dito que era uma autobiografia – só existia em inglês. Não havia nem sombra de um original em português que se pudesse usar. Descobriu-se então que por trás daquele livro de historinha simples, linear, havia uma trama um tanto intrincada. Os editores estrangeiros à frente do projeto tinham rejeitado inteiramente o manuscrito apresentado – não pelo próprio personagem, mas por um ghost writer, como é comum nesses casos – em português. Registre-se que ao agir assim estavam sendo apenas sensatos. Em vez de traduzir aquilo, haviam decidido contratar alguém para escrever…

Da arte de procurar no lugar errado

Nas entrevistas que tenho dado sobre “O drible”, meu romance mais recente, é comum que me perguntem – em geral de modo positivo, com admiração – sobre como cheguei à tese de que o estilo brasileiro de jogar futebol só se tornou o que é devido à ajuda involuntária dos velhos narradores de rádio, que com sua mania de embelezar exageradamente os jogos, fazendo “qualquer pelada chinfrim disputada em câmera lenta por perebas com barriga d’água” parecer “cheia de som e fúria”, obrigaram os atletas a fazer “um esforço sobre-humano” em campo para ficar à altura de suas mentiras. Não é tão simples responder a essa pergunta. Em primeiro lugar a tese não é minha: quem a expõe com entusiasmo, “parecendo satisfeito consigo mesmo”, é Murilo Filho, um dos personagens principais de “O drible”. Murilo é um velho e famoso cronista esportivo que, à beira da morte, busca se reaproximar de seu único filho, Neto, com quem brigou há um quarto de século. Trata-se de um excêntrico que Neto suspeita estar gagá e, mais do que isso, um personagem de princípios morais duvidosos (digamos assim, para evitar spoilers). Duvido que algum autor se sentisse confortável de escalar tal figura como…

Respostas grosseiras para perguntas idiotas
Vida literária / 29/03/2014

Eu nunca tinha ouvido falar de Chuck Wendig (foto). Fui parar em seu blog, Terrible Minds, atraído pela chamada de um post que cruzou meu caminho no Twitter: Stupid answers to common writing questions, “Respostas grosseiras para perguntas literárias comuns”. Bom, encontrei lá o que o título anunciava e um pouco mais. Descobri que Wendig, escritor americano de fantasia com uma carreira sólida como romancista, roteirista e designer de games, autor de livros como Blackbirds e Double Dead, conseguiu fazer uma crítica feroz – e às vezes hilariante – de uma certa mentalidade de autoajuda e de um certo visgo corporativo que vêm se infiltrando há anos, traiçoeiramente, no mundo florescente do aconselhamento literário. Como este blog sempre teve um pé em tal mundo, até por exigência dos leitores, recomendo a leitura da diatribe desbocada do sujeito. Concordo com quase tudo o que ele diz. “O monge e o escritor” não tem vez aqui. Quem puder deve ler o post completo (em inglês). Abaixo, na forma de filezinho aperitivo e em tradução caseira, alguns destaques: Como eu faço para escrever? Eu não sei como você faz para escrever. Eu sei como eu faço para escrever. E o que eu faço…

Amanhã eu escrevo: da arte de procrastinar
Vida literária / 15/02/2014

“Por que escritores são os maiores procrastinadores” é o título de um artigo da revista The Atlantic (aqui, em inglês) em que a autora, Megan McArdle, não prova o que diz. Permanece uma questão aberta se os profissionais da palavra escrita são realmente mais afeitos a adiar o trabalho – e depois adiar mais um pouco, e ainda outro tanto e mais outro – do que os representantes de outras categorias profissionais. Superlativo à parte, suspeito que quase todo mundo que escreve ou gostaria de escrever já tenha se deparado com o problema. Eu certamente já, e foi isso que me levou a continuar lendo o tal artigo, apesar do título bombástico. Quem sabe a autora revelaria uma fórmula mágica para acabar com a procrastinação? Acredito ser inegável: grande parte dos escritores canaliza pelo menos metade de seus poderes de fabulação para a manufatura de desculpas que expliquem para si e para os outros por que não está escrevendo naquele momento: “Agora não, daqui a pouco sem falta, mas agora não. Primeiro preciso limpar a mesa do escritório. Responder àqueles emails. Levar o cachorro pra passear. Deixar meu pitaco inestimável naquela polêmica facebookiana sobre os prós e contras de sediar…

Tempos e pessoas: viagem ao coração da literatura
Vida literária / 01/02/2014

Um dos conselhos literários mais importantes que já recebi – quase tão importante quanto aquele outro, o de desconfiar de todos os conselhos literários – me apareceu quando eu tinha vinte e tantos anos, lendo um artigo de Autran Dourado (citado aqui outro dia) sobre seu método de trabalho. Se a memória não me engana mais do que o habitual, o escritor mineiro revelava, embora não com essas palavras, uma forma de dar vida nova a textos deficientes, insatisfatórios, capengas ou falsos: trocar seu tempo verbal ou a pessoa da narração – ou as duas coisas ao mesmo tempo. Ainda não era comum escrever em computador naquela época. O truque, se assim podemos chamá-lo, envolvia um bocado de trabalho pesado: rabiscar tudo com caneta era provavelmente o primeiro passo, mas no fim das contas, para ter um resultado apresentável, restava alimentar a máquina de escrever com papel novo e datilografar tudo outra vez. Da primeira à última palavra. Trocando, por exemplo, “fui” e “tinha” por “vou” e “tenho”. Ou por “vai” e “tem”. E “minha” por “sua”. Etc. É claro que, tendo feito tudo isso, e ainda que a princípio satisfeito com as mudanças, nada impedia o angustiado autor-datilógrafo de…

Escrever e coçar é só começar?
Vida literária / 25/01/2014

Durante muito tempo, mantive neste blog uma seção chamada Começos Inesquecíveis, dedicada a aberturas especialmente brilhantes – sobretudo de romances, embora um ou outro conto tenha comparecido também. (Um desses começos, aliás, faz coro com as palavras iniciais deste post: “Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo”, escreveu Marcel Proust na primeira linha de “No caminho de Swann”.) A seção não tinha dia fixo, mas era atualizada com grande frequência por exigência dos próprios leitores, que a transformaram na mais visitada do Todoprosa. Nunca parei para contar, mas imagino que no fim das contas o número de começos contemplados se aproximasse da casa dos três dígitos. A popularidade dos grandes começos da literatura é um tema curioso. Parece existir em nós, leitores, e principalmente nos leitores que também escrevem ou gostariam de escrever, uma crença irracional no poder mágico das palavras de abertura de um livro. Como se elas já contivessem em miniatura tudo o que importa saber, um certo espírito geral da obra. Como se, acertando no começo, o resto viesse naturalmente ao autor. A realidade é mais complicada do que isso. Um bom início tem a responsabilidade de introduzir um certo tom, uma certa voz, e o desafio nada…

Em defesa do lugar-comum
Vida literária / 18/01/2014

Uma vez que este blog vem reincidindo nos últimos tempos – de forma não planejada e até meio misteriosa para mim, mas indiscutível – na discussão de aspectos técnicos do ofício de escrever, como se fosse uma espécie de oficina online, talvez não seja descabido supor que um texto se encaixe no outro para formar algum tipo de conjunto coerente. Ainda que possa ser cedo para dizer que tipo de conjunto e coerência. Para deixar isso claro puxo um fio do artigo da semana passada: o trecho em que, citando de memória um ensaio da escritora canadense Margaret Atwood, falo da capacidade que tem a literatura de “pintar cenários grandiosos com base em quase nada, a chaminha trêmula de um palito de fósforo passando por grande incêndio”. Quem enfatiza esse mesmo ponto com uma boa tirada é um escritor mineiro que estaria fazendo 88 anos hoje, se não tivesse morrido em 2012: em seu livro “Uma poética de romance” (Rocco), Autran Dourado afirma ser o romancista aquele que “com um tiquinho de pólvora faz uma girândola, com um gritinho apronta um escarcéu”. A ideia que Autran defende nesse trecho – e em todo o livro, uma reflexão sobre os bastidores…

Deus e o diabo na terra do ‘só’
Vida literária / 11/01/2014

Então é só isso? Umas poucas palavras bem colocadas e pronto, ali está o leitor na ponta da linha, anzol cravado na bochecha? Sim, mas também pode ser só isso: uma única palavra em falso e o peixe desaparece nas profundezas para nunca mais passar perto do seu bote. O que vai ser? Em qualquer praia estética, esteja ele muito ou nada interessado em ser acessível a um grande número de leitores, acredito que esta preocupação habite a cabeça de todo escritor digno desse nome, isto é, qualquer um que escreva para ser lido por alguém e não apenas para expressar seu eu profundo: como dar às palavras, uma após a outra, uma certa ressonância de verdade? Estamos em terreno traiçoeiro. Em primeiro lugar convém deixar claro que a palavra verdade não tem aqui – não ainda – a menor fumaça filosófica, histórica ou mesmo emocional. Importa menos “a verdade” do autor ou da história que ele conta do que “uma certa ressonância de verdade”. Sim, é claro que uma dimensão está ligada à outra em algum nível profundo, mas vamos supor que ainda não mergulhamos o suficiente para chegar lá. Estamos na superfície do texto, mal equilibrados em nosso…

A eloquência do silêncio
Vida literária / 04/01/2014

A importância do silêncio numa narrativa de ficção se manifesta de diversas formas, incluindo as óbvias elipses e subentendidos, pois, como disse Erico Verissimo (que cito de memória), “um dos segredos do romancista é nunca explicar demais”. Tudo aquilo que não é dito oferece à imaginação do leitor – coautor pouco comentado de qualquer obra literária – espaço para se espraiar, ligar os pontinhos, produzir e não apenas decifrar sentido. Embora geralmente esquecido, até mesmo o silêncio que vem antes da primeira frase do texto, como os milênios de não-ser que precedem o nascimento de qualquer bebê, é tão fundamental quanto o clímax de uma história. O silêncio que vem depois do fim, então… Vamos começar pelo começo. Entramos em “Viva o povo brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro, um dos grandes romances de nossa literatura, vendo o herói ser fuzilado. A sugestão de uma longa história passada, mas calada, insinua-se na estranha precedência de uma conjunção adversativa a adversar o ignorado: Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro…

Votos de lombada
Vida literária / 21/12/2013

O cartão de fim de ano do Todoprosa aos seus leitores é composto, acredito que apropriadamente, de lombadas de livros, uma brincadeira que vem fazendo a alegria de muitos bibliófilos mundo afora com o nome de spine poetry, “poesia de lombada”. A mensagem acabou saindo meio sombria, lamento, mas não houve nada que eu pudesse fazer: culpa das minhas estantes ou da própria literatura? Acredito que mesmo assim haja uma redenção no fim. Como diz a última frase, feliz 2014! . . .

O inseto de Kafka era barata ou besouro?
Vida literária / 14/12/2013

A única resposta consistente para a dúvida enunciada no título acima, uma das mais resistentes de toda a literatura do século XX (e atualizada de forma fortuita por um imenso blatídeo que apareceu há pouco no banheiro), é que não sabemos. O texto de “A metamorfose”, de Franz Kafka, simplesmente não nos fornece elementos suficientes para dizer. Foi mesmo uma barata, no entanto, o bicho que pousou no imaginário da maior parte dos leitores da novela que começa com o pobre Gregor Samsa acordando em sua cama transformado num inseto. Por quê? Provavelmente porque o destino de Samsa é asqueroso demais e não há nada, em todo o reino animal, que supere a barata na escala da asquerosidade. Elementar, meu caro Watson, poderia acrescentar neste ponto um amante do lugar-comum – uma frase que o detetive inglês Sherlock Holmes nunca pronunciou em nenhuma das histórias escritas por Arthur Conan Doyle, o que, juntamente com a “barata de Kafka”, prova que nem sempre o texto é soberano. Na esteira do êxito popular de um livro costuma vir uma certa aura, uma sobra de sentido contra a qual é difícil lutar. No caso de Holmes, a frase que não existe textualmente nos…

A chave do tamanho
Vida literária / 30/11/2013

“Ouviram dizer que a concisão é uma virtude e consideram conciso quem se demora em dez frases breves e não quem domina uma longa”, escreveu o argentino Jorge Luis Borges (foto), ele mesmo um mestre da concisão, cultor privilegiado da brevidade do conto. Leio isso e imagino um romance de 800 páginas em que se descreve à exaustão, por exemplo, uma única noite na vida de um personagem. As frases são todas curtas, soluçadas, mas ninguém seria louco de chamar o livro de conciso. Digamos que esse personagem principal não seja desinteressante, pelo contrário: é um médico, um plantonista de pronto-socorro numa grande metrópole latino-americana, de cujas decisões instantâneas – tomadas em meio à mais desoladora precariedade de condições de trabalho – depende muitas vezes a vida das pessoas estropiadas que lhe entram pela porta ao longo da comprida, interminável noite em que o vemos exercer seu desesperado ofício. Nosso romance não se contenta em descrever em detalhes – sempre com frases breves – o estado dos pacientes e o que faz o médico para tentar salvá-los ou aliviar sua dor. O homem sangrava copiosamente. Tinha perdido um olho, que pendia sobre a bochecha. O que houve?, perguntou o médico….

Como não começar um romance
Vida literária / 23/11/2013

As “franjinhas literárias” que foram tema do último post – aqueles emblemas de literariedade que nada mais são do que uma manifestação do mau e velho clichê, da linguagem morta ou pelo menos artrítica – podem ser mais ou menos antiquadas. É claro que existem as franjinhas modernosas e até as vanguardistas, pois, nas palavras de Ricardo Piglia, “a modernidade é o grande mito da literatura contemporânea”. No entanto, é impressionante o número de pessoas que se lançam à aventura de escrever um romance tendo na mira, de forma consciente ou não, um modelo que já era velho há pelo menos cento e cinquenta anos. A franjinha preferida de todas essas é a descrição. Qualquer um que já tenha sido obrigado – como jurado de um concurso de prestígio, por exemplo – a ler de enfiada um grande lote de romances contemporâneos sabe que, numa fatia em torno de um terço deles (estou chutando, claro, mas não errarei por muito), a narrativa começa com uma longa descrição. Em alguns casos, de fenômenos atmosféricos, num eco certamente involuntário do mais famoso clichê literário da história – a famigerada frase “Era uma noite escura e tempestuosa”, do romancista vitoriano Edward Bulwer-Lytton, que…

Textos com franjinha
Vida literária / 16/11/2013

Num dos curtos ensaios de crítica cultural que escreveu entre 1954 e 1956, reunidos no livro “Mitologias” (Difel), o semiólogo francês Roland Barthes se detém com especial crueldade nas franjinhas exibidas por todos os personagens masculinos do filme “Júlio César”, de Joseph L. Mankiewicz, adaptação hollywoodiana da peça de William Shakespeare, com Marlon Brando (foto) no papel de Marco Antônio e James Mason no de Brutus. Declarando o cabeleireiro o “principal atesão do filme”, Barthes registra a variedade das franjas exibidas pelos atores, dizendo que “umas são frisadas, outras filiformes, outras em forma de topete, outras ainda oleosas, todas bem penteadas; os calvos não foram admitidos, embora abundem na história romana”. No entanto, encontra para todas elas um propósito único, que chama de “ostentação da romanidade”: A madeixa na testa torna tudo bem claro; ninguém pode duvidar de que está na Roma antiga. E esta certeza é constante: os atores falam, agem, torturam-se, debatem questões “universais”, sem que, graças à bandeirinha suspensa na testa, percam seja o que for da sua verossimilhança histórica. Mas o que Barthes tem contra franjas romanas, afinal, se nenhuma representação artística pode prescindir de artifícios desse tipo ao propor seu jogo de faz-de-conta? A resposta…

Literatura: quanto mais inútil, melhor
Vida literária / 09/11/2013

Depois que escrevi aqui sobre o que chamo de literatura de autoatrapalhação – aquela que se opõe à autoajuda –, a questão do enfoque utilitarista da leitura não parou de atravessar meu caminho sob as mais variadas formas. Fez isso tantas vezes que me induziu à conclusão de que o tema está boiando no ar do nosso tempo. Primeiro foi uma pergunta do mediador Rosel Soares na Festa Literária Internacional de Cachoeira (BA), há duas semanas, sobre a capacidade que a literatura teria ou não teria de nos transformar em pessoas melhores. Em seguida, devido a uma série de viagens ligadas ao lançamento do meu novo livro, vieram os repetidos encontros com livrarias de aeroporto, essas lojas peculiares – e no meu caso praticamente inúteis – que tendem a concentrar seu estoque em autoajuda, elevação espiritual, gerenciamento, picaretagem explícita e outros gêneros com títulos imperativos: “Faça”, “Seja”, “Não faça”, “Não seja”… Finalmente, esta semana, dois golpes de misericórdia: dei uma entrevista por telefone a um programa da ótima TV universitária de Caxias do Sul (RS), sobre os prós e contras da autoajuda na formação de leitores, e tropecei num artigo imperdível da revista “New Yorker” chamado “Deve a literatura ser…

Piglia, Tchekhov e a arte de narrar
Vida literária / 02/11/2013

Em seu lapidar ensaio Teses sobre o conto, publicado no livro “Formas breves”, o escritor e crítico argentino Ricardo Piglia resume assim o ponto de partida de suas reflexões sobre as histórias curtas – ou, em inglês, simplesmente stories: Primeira tese: um conto sempre conta duas histórias. Numa linguagem límpida e legível que não esconde a generosa – e rara – intenção de conversar com o maior número possível de leitores, sem prejuízo do rigor do pensamento crítico, o autor passa então a discorrer sobre a tal duplicidade: a de uma história ostensiva, exterior, que contém em si uma história secreta, cifrada, elíptica. A história que ele chama de 1, a evidente, só aqui e ali deixa entrever ou pressentir “nos seus interstícios” a história 2, que ao irromper por fim na consciência do leitor provoca aquele efeito de surpresa, revelação ou epifania que se espera de todo conto. Piglia recupera uma deliciosa anotação rabiscada pelo russo Anton Tchekhov, mestre do conto moderno, embrião de uma história que ele jamais escreveu: “Um homem em Montecarlo vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa, suicida-se”. A história 1 – o jogo, a sorte, a euforia do enriquecimento – tem no…

O personagem só faz o que quer? Ah, conta outra!
Vida literária / 05/10/2013

A primeira referência que encontrei à autonomia dos personagens literários me impressionou muito. Era adolescente, começava a tentar pôr de pé o plano insensato de um dia escrever livros e fiquei boquiaberto ao descobrir que um escritor podia se declarar impotente diante do livre-arbítrio manifestado por criaturas que ele próprio tinha criado. Como assim – então não era o autor que mandava? A revelação constava de um dos prefácios que Erico Verissimo, meu primeiro ídolo literário, havia escrito para suas (ainda incompletas) obras completas, coleção de capa dura azul que ocupava lugar de honra na estante lá de casa. Não demorou para que meu estranhamento desse lugar a uma profunda reverência diante do supremo mistério da criação. Não registrei na memória o momento exato em que mudei de ideia, mas lembro-me de, poucos anos mais tarde, abrir um sorrisinho sarcástico toda vez que esbarrava – e esbarrava o tempo todo – num artigo ou entrevista em que um escritor evocava o supremo mistério da criação, alegando que seus personagens só faziam o que bem entendiam e tal. Pô, aqueles caras pensavam que estavam enganando quem? Tremendo caô, claro. Tentativa canhestra de mitificar e dar caráter quase divino a algo que…

E agora, José?
Vida literária / 28/09/2013

O poeta morreu no dia 17 de agosto de 1987. Do ponto de vista de um novo século, é tentador afirmar que a própria poesia – como a literatura em geral – não demoraria a seguir seus passos. Essa afirmativa, por conter um exagero, requer explicação. Uma reportagem de capa como a que VEJA fez quando da morte de Carlos Drummond de Andrade (foto) dificilmente será reeditada com um de seus colegas de ofício quando lhe chegar a “indesejada das gentes” (para usar a expressão de outro monumento poético brasileiro, Manuel Bandeira). Ou mesmo, para citar um gênero mais próximo do gosto popular, com um de nossos romancistas. Poemas e romances ainda são escritos, claro, em quantidade inédita e, em certos casos, com boa qualidade. Contudo, já não ocupam na cultura a posição central e ressoante que permitiu a Drummond entranhar imagens e bordões na linguagem comum de todo um povo: “Tinha uma pedra no meio do caminho”, “E agora, José?”, “Seria uma rima, não seria uma solução”. Ou elaborar, numa voz ambiciosa e menos acessível ao grande público, mas não menos impressionante, um poema filosófico como “A máquina do mundo”, do livro Claro enigma, de 1951. Nesse candidato ao…

Para ler os conselhos literários de Elmore Leonard
Vida literária / 24/08/2013

Listas de conselhos de escritores são um gênero jornalístico de qualidade duvidosa, apesar de sempre atraírem leitores aos magotes – o número de aprendizes das letras que há no mundo, muitos deles inseguros dos caminhos que começam a trilhar, garante seu sucesso. A morte do americano Elmore Leonard, na última terça-feira, aos 87 anos, rendeu grande exposição ao seguinte decálogo elaborado para o “New York Times” em 2001 pelo maior mestre dos romances policiais (e de faroeste, gênero no qual começou a carreira) da segunda metade do século XX: Nunca inicie um livro falando do tempo. Evite prólogos. Nunca use um verbo que não seja “disse” para os diálogos. Nunca use um advérbio para modificar o verbo “disse”. Mantenha seus pontos de exclamação sob controle. Nunca use as palavras “subitamente” ou “começou uma confusão dos diabos”. Use com parcimônia dialetos regionais e gírias. Evite descrições detalhadas dos personagens. Não entre em detalhes demais ao descrever lugares e coisas. Tente deixar de fora as partes que os leitores pulam. No fim, um décimo primeiro conselho aparece como o resumo de tudo: Se parece que foi escrito, eu reescrevo. A lista de Leonard – escritor que muito admiro e no qual fui…

Estamos de olho: Flaubert, Machado e as ‘janelas da alma’
Vida literária / 10/08/2013

No fascinante romance-ensaio “O papagaio de Flaubert”, lançado em 1984, o francófilo escritor inglês Julian Barnes dedica um capítulo aos olhos de Emma Bovary. Nele faz, em miniatura, uma grande e já célebre crítica à crítica acadêmica na pessoa de Enid Starkie, renomada biógrafa de Gustave Flaubert e professora de Oxford. “Flaubert não constrói seus personagens, como fazia Balzac, por meio da descrição objetiva de traços exteriores”, afirma Starkie, que já tinha morrido quando Barnes escreveu seu livro, lembrada pelo narrador Geoffrey Braithwaite. “Na verdade, ele é tão descuidado com a aparência deles que a certa altura atribui a Emma olhos castanhos; em outra, olhos profundamente negros; e numa terceira, olhos azuis.” Alter ego do autor, Braithwaite fica muito incomodado com isso. Como é possível que, obcecado pelo romance de Flaubert, nunca tivesse reparado em tão grosseira inconsistência? Voltando ao texto, sua irritação muda de endereço. No fim das contas fica evidente que o escritor francês queria que os olhos de Bovary fossem cambiantes: naturalmente castanhos, pareciam negros sob a sombra dos cílios e podiam adquirir um surpreendente tom de azul escuro quando a luz incidia neles de certa forma. Conclui Braithwaite/Barnes: “Seria interessante comparar o tempo gasto por Flaubert…

Nasce um campo de pesquisa: o dos estudos nasoliterários
Vida literária / 03/08/2013

A notícia do jornal inglês “The Guardian” foi publicada na editoria de livros, mas também poderia estar na de economia e negócios ou mesmo na de ciências – para não mencionar, em nota mais cínica, a de fait divers, onde se agrupam histórias soltas e bizarrices em geral. Trata-se da conclusão a que chegou uma pesquisa de consumo realizada na Bélgica com frequentadores de livrarias de rua: a de que o cheiro de chocolate deixa as pessoas significativamente mais propensas a comprar romances românticos – romance novels, um gênero que não tem identidade literária tão clara no Brasil, mas que é facilmente reconhecível pelas capas com heroínas suspirosas e pelas vendas expressivas. Manja Barbara Cartland? O aroma em questão, bem entendido, é espargido na livraria e não nos volumes em si (será esse o próximo passo das editoras em sua luta para injetar ânimo nos combalidos livros físicos?). Como se sabe, o estudo das relações entre o olfato e certas inclinações de comportamento, sobretudo quando se trata de abrir a carteira, não é exatamente novo. Lojas com variados perfumes estratégicos – de abaunilhados a frutados e florais, aromas supostamente acolhedores para estimular a permanência do cliente ou excitantes para fazê-lo…

Contra o romance
Vida literária / 27/07/2013

No apêndice de seu ensaio “O romance sob acusação”, o crítico e escritor italiano Walter Siti traz uma interessante coleção de provas documentais – algumas delas famosas – do escândalo moral ou político que trabalhos de ficção provocaram em seu tempo. Gosto especialmente da argumentação de Ernest Pinard em sua sustentação oral no processo de 1857 contra “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert. O advogado nega a certa altura que o fim trágico da protagonista possa servir de atenuante ao crime de “ofensa à moral pública e à religião”: Digo, senhores, que os detalhes lascivos não podem ser acobertados por uma conclusão moral, caso contrário poder-se-iam contar todas as orgias imagináveis, descrever todas as torpezas de uma mulher pública, fazendo-a morrer sobre uma miserável cama de hospital. Seria permitido estudar e mostrar todas as poses lascivas! Seria ir contra todas as regras do bom senso. Seria colocar o veneno ao alcance de todos e o remédio ao alcance de poucos, caso houvesse um remédio. Quem lê o romance do sr. Flaubert? Serão homens que se ocupam de economia política ou social? Não! As páginas levianas de ‘Madame Bovary’ caem em mãos mais levianas, nas mãos de moças, algumas vezes de mulheres…

Escrever, cortar, escrever: a concisão e a clareza
Vida literária / 20/07/2013

“Escrever é cortar palavras”, disse Carlos Drummond de Andrade, mas talvez não tenha sido ele: parece que, na ânsia de enxugar, alguém acabou cortando o crédito. Importa pouco a autoria do conselho. Com essas ou outras palavras, o elogio da concisão é a lição mais ouvida por aprendizes das letras há mais de cem anos. Quer dizer que antes disso o poder de síntese não valia nada? Claro que valia. Os poetas da antiga Grécia cultivaram a brevidade do epigrama. No início do século XVIII, o poeta inglês Alexander Pope, tradutor de Homero, dizia que palavras são como folhas de árvore: quando são muito abundantes, diminui a chance de vislumbrarmos ali embaixo “o fruto do sentido”. No entanto, parece ter sido nas primeiras décadas do século XX que o relógio do mundo acelerou de vez e deixou com cara de obesa uma silhueta textual – a palavrosa – que até então ainda podia ser vista como atraente e saudável. Mais ou menos o que tinha ocorrido um pouco antes com as mulheres de Rubens. Pode-se relacionar esse aguçamento da intolerância ao desperdício vocabular a uma série de fenômenos, como a industrialização e a vida urbana. Parece claro que um papel…

Todoprosa, ano 8: blog, eu?
Vida literária / 21/06/2013

No dia 8 de maio de 2006, um texto chamado “Futebol, literatura e caneladas” – comentário sobre a suposta dívida que, segundo muitos críticos, a literatura brasileira tem com o futebol – inaugurava este blog. Não que eu tivesse inteira consciência, àquela altura, do que significava começar um blog. Essa palavra, blog, ainda era mais empregada para nomear páginas marcadamente pessoais, de umbigo à mostra, e a ideia do Todoprosa era diferente: ser uma coluna jornalística que suprisse a lacuna da cobertura de livros na (finada) revista eletrônica NoMínimo, da qual eu era editor executivo. Sim, a coluna teria atualização diária, não se furtaria a trazer links nacionais e estrangeiros quando estes fossem pertinentes, seria aberta a comentários dos leitores – incorporaria tudo o que o meio digital pudesse acrescentar, em termos de calor e vibração, a uma coluna jornalística. Mas coluna jornalística seria, e foi mesmo. Nunca deixou de ser. Isso não quer dizer que não tenha sido também um blog. Formado na velha imprensa de papel (não peguei os lampiões a gás, mas ainda havia máquinas de escrever na redação do “Jornal do Brasil” quando lá cheguei como foca em 1984), acabei aprendendo aos trancos, mas depressa, que…

Em defesa de Alice Munro
Pelo mundo , Vida literária / 17/06/2013

Trata-se de uma espécie de “Sobre a arte de jogar pedra nos clássicos – parte 2”: na revista eletrônica Salon.com, o escritor Kyle Minor sai em defesa da contista canadense Alice Munro (foto), que foi esculachada dos pés à cabeça por uma resenha de Christian Lonrentzen na prestigiosa London Review of Books (os dois textos em inglês, acesso gratuito). Alice Munro atingiu um lugar de proeminência literária, e quando um escritor atinge um lugar de proeminência literária, pode acontecer que um crítico encarregado de resenhar seu novo livro se sinta tentado a transformar a encomenda numa oportunidade de fazer uma declaração bombástica sobre o tal escritor proeminente – e dessa forma fazer uma declaração bombástica sobre a literatura contemporânea, a cultura literária contemporânea ou a crítica literária contemporânea. Há dois caminhos comuns pelos quais esse tipo de declaração bombástica pode dar errado – o da santificação e o da iconoclastia. O crítico do tipo santificador despeja sobre o escritor uma ducha de elogios incondicionais, declara-o um gênio e ignora seus defeitos – ou diz que eles são virtudes. O outro tipo de crítico talvez decida que o modo mais seguro de esvaziar o balão de uma reputação hiperbólica não é…

Como Hilda Hilst virou Hilda Hilst, por Hilda Hilst
Vida literária / 22/05/2013

Foi assim: quando jovem, eu tinha uma vida muito tumultuada, turbulenta. Gostava muito das emoções. Gostava de me apaixonar muitas vezes (eu me apaixonei muitíssimas vezes). Gostava de viajar, essas coisas de que todo mundo gosta. Mas, aí, a vida foi ficando tão emotiva o tempo todo; aconteciam tantos dramas pessoais! Porque eu me apaixonava muito, mas, depois, me desapaixonava. Era uma coisa estranha. Às vezes a pessoa me via e dizia: “Puxa, eu encontrei a mulher da minha vida”. E eu repetia todas essas coisas que nós dizemos todos: “Eu te amo, meu bem”; “É para sempre?” “Para sempre”; “É até a morte?” “É, até a morte”. Mas então acontecia qualquer coisa química em mim. Eu ia, automaticamente, ficando tristinha. São Francisco diz que “o corpo é o nosso irmão burro”. Ele deseja uma coisa e, depois, deseja outra. Por causa dessa inconstância minha, as coisas iam ficando muito dramáticas: várias pessoas queriam me matar, era horrível. Não era algo que fazia para ofender a pessoa; era algo impossível mesmo de retomar. Quando eu estava com 33 anos, um querido amigo que morreu, Carlos Maria de Araújo, poeta português, me deu um livro de [Nikos] Kazantzákis: “Carta a El…

McEwan, Zadie e o limite de quinze palavras por dia
Vida literária / 20/05/2013

Entre as muitas delícias da longa entrevista (em inglês, acesso gratuito) que Zadie Smith fez com Ian McEwan em 2005, publicada pela revista The Believer, minha preferida aparece já no texto introdutório da autora de “Sobre a beleza”. Zadie conta que, ainda universitária e aspirante ao mundo das letras, foi levada por uma amiga enturmada à festa de casamento de McEwan, já então um escritor estabelecido (embora ela confesse que, na época, estava ocupada imitando Martin Amis, também presente à festa). “Parece”, disse minha amiga com ar de entendida, quando observávamos McEwan rodopiar com sua nova esposa pela pista de dança, “que ele escreve apenas quinze palavras por dia.” Eis uma informação infeliz para se dar a um escritor aspirante. Eu era terrivelmente suscetível ao poder do exemplo. Se me dissessem que Borges corria três milhas toda manhã e depois plantava bananeira numa tina de água antes de se sentar para escrever, eu me sentiria obrigada a tentar isso. O espectro do limite de quinze palavras ficou comigo por um longo tempo. Três anos depois, quando estava escrevendo “Dentes brancos”, lembro-me de pensar que todos os meus problemas se originavam do excesso de palavras que me sentia impelida a escrever…

Livros clássicos com capas cretinas: uma proposta
Vida literária / 13/05/2013

Não sei, mas acho que posso ter encontrado um jeito simples de aumentar os índices de leitura da população brasileira (clique na imagem para ter melhor resolução). A inspiração veio dessa seleção de piores capas de títulos famosos da literatura – sexistas, sensacionalistas, caras de pau, sem noção, comicamente literais ou todas as alternativas anteriores – feita pela Flavorwire. Atenção ao primeiríssimo lugar ocupado por uma capa da Record para “O iluminado”, já comentada aqui. A temporada de capas cretinas começa agora: se você tiver um Paint (ou programa melhor) na mão e uma ideia na cabeça, o Todoprosa está de portas abertas à sua criatividade pelo email sobrepalavras@todoprosa.com.br. Apenas arquivos em jpg, por favor. * Agora falando sério, é um primor de abrangência e lucidez o artigo “Literatura brasileira no exterior: problema das editores?”, de Felipe Lindoso, publicado em seu blog, aqui. Quem se interessa de forma profissional ou diletante pelo assunto tem muito a ganhar encarando a longa extensão do texto. Uma amostra: …seja através das editoras – ou, principalmente, dos agentes literários – as negociações internacionais usam, no maior limite do possível, a predominância do inglês nessa etapa atual da República Mundial das Letras precisamente para valorizar…

Réquiem para o ‘Sabático’ (à moda de Kleon)
Vida literária / 29/04/2013

Palavras na escuridão: numa imitação descarada do escritor americano Austin Kleon e seu intrigante projeto Newspaper Blackout, canetei o artigo (sobre os “finais inesquecíveis” da literatura) com que Sérgio Augusto se despediu sutilmente dos leitores do “Sabático” no dia 20 de abril – o último em que o suplemento literário do “Estadão” circulou. Clique na imagem para ter melhor leitura.

Boas leituras: Katie Roiphe, J.M. Coetzee
Vida literária / 17/04/2013

(…) Showalter presta menos atenção ao mérito artístico, ao que separa a boa da má ficção, do que aos seus significados culturais; está menos preocupada com nuances de arte ou estilo do que com as ramificações políticas do livro ou o comportamento intrépido ou aventureiro de suas protagonistas. Como outras acadêmicas feministas de seu time, não está interessada em saber se as escritoras que discute são boas escritoras, ou na questão de como seus melhores trabalhos funcionam, mas apenas se elas exploram temas feministas. Desse modo, acaba cavucando romances e poemas atrás de mensagens e significados que digam respeito à posição das mulheres na sociedade, tramas que critiquem a vida doméstica ou que exponham a estreiteza da vida das mulheres. (Certa vez cunhou o termo “ginocrítico” para críticos libertos do “dos absolutos lineares da história literária masculina”.) Essa exploração de tramas subversivas e heroínas da pá virada pode ser frutífera de um ponto de vista puramente histórico ou político, mas nem sempre parece ser crítica literária de um tipo sofisticado. Faz pensar numa frase de Joan Didion sobre as feministas: “Que a ficção tem certas ambiguidades irredutíveis parece nunca ter ocorrido a essas mulheres, nem deveria mesmo, porque a ficção…

Cachorros são analógicos, gatos são digitais
Mercado , Vida literária / 10/04/2013

O artigo parece uma piada a princípio, mas vai bem além disso. “A curiosa incidência de cães no mercado editorial – Se os gatos mandam na internet, por que os cachorros reinam nos livros?” é um pequeno ensaio que combina alguma pesquisa (e até gráficos) com boas sacadas sobre o tema que o título resume bem. Assinado por Daniel Engber e publicado na revista eletrônica Slate, deixa claro que não quer apenas fazer graça quando transforma caninos e felinos em metáforas intrigantes – respectivamente, do escritor à moda antiga e do “produtor de conteúdo” da era digital. O verdadeiro mistério, então, não é como os gatos ganharam precedência online, mas sim como conseguiram destronar o cachorro. Nossos meios de comunicação se dividiram em dois campos opostos, e cada um deles – o velho contra o novo – tem um animal adequado ao seu ethos. Estamos lendo cachorros e clicando gatos. Vale a pena ler o artigo completo, em inglês, aqui. Engber não se satisfaz com o recente sucesso de Marley. Entre os muitos exemplos literários que garimpa para ilustrar a velha paixão de escritores e indústria editorial pelos cães (o fascínio da internet por vídeos fofos de gatos, que confesso…

Wood e Tezza: enquanto o pulso pulsar
Vida literária / 03/04/2013

Alguém acreditou em Philip Roth quando (…) ele anunciou que estava se aposentando? De todos os romancistas contemporâneos, é ele quem fez a escrita parecer um ato necessário e contínuo, inseparável das continuidades e batalhas de estar vivo. Para Roth, a narração e a individualidade parecem ter nascido juntas; portanto, precisam morrer juntas também. Mais do que qualquer outro romancista moderno, ele usou a ficção como confissão e deslocamento da confissão: seus rabugentos, reclamões e alter egos, de Portnoy a Zuckerman e Mickey Sabbath, parecem todos rothianos, mesmo quando apenas atuam como substitutos do autor. Ele tornou sua infância em Newark, seus pais amorosos e irritantes, seu judaísmo, sua sexualidade, sua própria vida de escritor familiares e vívidos para milhões de leitores. Parecia precisar da ficção como uma espécie de incansável relatório performativo, e por essa razão, nos últimos anos, grandes romances (‘O teatro de Sabbath’, ‘Pastoral americana’) dividiram espaço com obras muito mais fracas e ele foi tão profícuo – a ficção ao mesmo tempo urgente e um tanto agressiva, tão necessária quanto a arte e tão desesperançada quanto a vida. Admiro Roth (…) por muitas razões. Porque ele não permaneceu igual (sua prosa despojada é hoje muito diferente…

Capas ‘melhoradas’, impossíveis de piorar e outros links
Pelo mundo , Vida literária / 01/04/2013

A capa ao lado (“Este é o primeiro livro que eu leio em seis anos”), nome alternativo de “A garota com tatuagem de dragão”, de Stieg Larrson, é a preferida de todos os tempos pelos leitores do blog de humor Better Book Titles, que desde 2010 imagina “títulos melhorados” para livros famosos. O nome que coube à obra do autor sueco, claro, caberia em vários outros sucessos. * E por falar em capa de livro: se esta aí embaixo, à direita – um legítimo produto brasileiro, de uma coleção popular da editora Record nos anos 1980 – não for a pior do mundo em todos os tempos, como a denominou Gabe Habash no blog da Publishers Weekly, será apenas porque as outras da coleção “Best of the best” não ficam atrás. * Michel Laub, oportuno, escreve sobre a forma mais garantida e socialmente aceita de assassinar um escritor: banalizá-lo em pílulas de auto-ajuda nas redes sociais. * A sempre provocante Laura Miller reflete na Salon.com sobre o direito que têm os escritores de ficção de puxar o tapete do leitor – e em que momento esse direito esbarra no direito do leitor de simplesmente abandonar o livro. * Um livro…

‘Conversas com escritores’: a arte do bom papo
Resenha , Vida literária / 20/03/2013

Estou lendo com muito prazer o recém-lançado “Conversas com escritores”, de Ramona Koval (Globo Livros, Biblioteca Azul, tradução de Denise Bottmann). É apropriado que o título chame de “conversas” (no original, conversations) as entrevistas feitas pela escritora e jornalista australiana especializada em literatura com 26 autores – entre eles Saul Bellow, Ian McEwan, Toni Morrison, Harold Pinter, Gore Vidal, Mario Vargas Llosa, Amós Oz e Martin Amis. “Há momentos em uma entrevista em que a gente prende a respiração, sem saber se o próximo passo vai trazer a humilhação pública ou um agradável alívio”, diz Koval na introdução. O risco faz mesmo parte de seu jogo. Não lhe falta informação sobre a obra dos autores entrevistados, mas tampouco falta coragem para se colocar diante deles em abordagens pouco convencionais. Fico pensando que talvez seja a oralidade do rádio, veículo em que ela apresentou durante anos um programa de sucesso em seu país, chamado The Book Show, a principal explicação para o fato de suas entrevistas se distanciarem do formato tradicional e virarem bate-papos propriamente ditos, com reticências, associações livres, apartes e epifanias. “Relendo estas entrevistas”, escreve Koval, “vejo que volto constantemente a perguntas sobre a maneira de avaliar uma vida,…

Mo Yan, Morrissey, Maura e outros links
Pelo mundo , Vida literária / 06/03/2013

O chinês Mo Yan (foto), Nobel de literatura do ano passado, se defendeu em entrevista ao Der Spiegel – a meu ver, bem – das acusações generalizadas de ser um escritor governista. Em inglês (melhor do que alemão, certo?), aqui. Como noticiou ano passado o vizinho “Veja Meus Livros”, Mo Yan é considerado por alguns especialistas ocidentais em assuntos chineses uma espécie de “via do meio”. * Morrissey, em momento de rara infelicidade (que o Guardian criticou aqui), disse que não haveria guerra se todos os homens fossem gays, porque “gays não matam”. Alguém aí dê ao Moz um exemplar de “As benevolentes”, por misericórdia. * Estou bem curioso para ler essa biografia da talentosa e atormentada escritora mineira Maura Lopes Cançado, que teve uma vida triste. Ainda no forno, mas promete. * Deve ser, disparado, a pauta preferida do jornalismo inglês que trata de literatura: por que é tão difícil escrever cenas de sexo, blablablá. Durante algum tempo dei trela para o assunto aqui no blog, mas confesso que estou cansado. A obsessão com o sexo na literatura me parece cada vez mais um problema de quem vive uma escassez de sexo fora dela. Reconheço que Daniel Galera discorreu…

Nem só o sertanejo é universitário. A literatura também
Pelo mundo , Vida literária / 25/02/2013

O segredo que Mark McGurl revela em ‘The Program Era: Postwar Fiction and the Rise of Creative Writing’ é o quanto a riqueza da cultura americana do pós-guerra (e aqui me atenho ao romance, por motivos que serão explicados) é produto de um sistema universitário e, o que é pior, do programa de escrita criativa como parte institucional e institucionalizada desse sistema. Não se trata apenas de uma questão de documentação e pesquisa histórica, abundantes no livro, mas de uma questão de vergonha: os escritores americanos modernos sempre gostaram de se imaginar livres do suplemento artificial à vida real que é a universidade e, sobretudo, dos cursos de escrita criativa. Quem sabe faz, quem não sabe ensina. Basta pensar no elogio que intelectuais europeus como Sartre e Simone de Beauvoir fizeram aos grandes escritores americanos que não deram aulas nem frequentaram a universidade, mas trabalharam como motoristas de caminhão, garçons, vigias, estivadores, enfim, em tudo menos como intelectuais, registrando “o fluxo constante de homens por todo o continente, o êxodo de toda uma cidade para os campos da Califórnia” – e por aí vai. Denso e recheado de provocações, o ensaio “O segredinho inconfessável da América”, do crítico marxista Fredric…

A crise de fé de McEwan e outros links
Pelo mundo , Vida literária / 20/02/2013

Essa apostasia se insinua no abismo largo que separa o fim de um romance do início do próximo. Não se trata de um bloqueio, não é uma longa noite, mas uma questão de profunda indiferença. A felicidade está em algum outro lugar. Passam-se os meses e lá vem uma virada, um realinhamento. Começa com um cutucão. Um detalhe, uma frase ou uma sentença pode dar início a esse retorno. Não precisa ser brilhante. Basta exalar um certo calor imaginativo. Em belo artigo no “Guardian” (em inglês, aqui), Ian McEwan fala sobre a crise de fé que costuma acometê-lo toda vez que termina um romance. Crise de fé na ficção, entenda-se. Por que perder tempo com narrativas inventadas se o mundo da ciência e da história está cheio de livros mais, digamos, relevantes para a compreensão do mundo em que vivemos? McEwan conta que a fé lhe volta sempre de forma meio fortuita, nunca a partir do plano geral de uma obra grandiosa e sim da leitura de uma frase solta, uma imagem bem sacada, um achado feliz – miudezas, os “divinos detalhes” de que falava Nabokov. * O desejo de escrever para o grande público está firmemente enraizado no peito…

‘Era uma noite escura e tempestuosa’: sobre o clichê
Vida literária / 15/02/2013

Conversando outro dia com uma amiga, romancista talentosa que tem ministrado oficinas literárias, ela dizia que uma de suas maiores dificuldades é explicar aos alunos o que vem a ser um clichê. Fazer o orgulhoso autor de uma frase como “as ondas lambiam voluptuosamente a areia”, que tanto o agrada por sua carga poética, compreender que ela é inaceitável. Não apenas ruim mas desclassificante, algo que um leitor mais exigente tenderá a interpretar como deixa para desistir do livro. Nessa hora, talvez seja didático mencionar o exemplo de Snoopy. E de Bulwer-Lytton. E de Urbano Loureiro. E de tantos outros que começaram ou se sentiram tentados a começar uma história com aquela frase imortal, emblema supremo do clichê literário em todos os tempos: “Era uma noite escura e tempestuosa.” Romancista, poeta, dramaturgo, político e barão, Edward Bulwer-Lytton (1803-1873) passou à história com a glória irônica de ter sido seu criador. Se alguém já tinha usado uma fórmula parecida, o que não acho improvável, a imensa popularidade da obra do nobre inglês em sua época – proporcional ao desprezo que lhe devotariam as gerações futuras – garantiu à frase de abertura de seu romance Paul Clifford o privilégio de fixar a…

Sobe o QI literário da imprensa brasileira
Vida literária / 04/02/2013

Eis que de repente (de repente, será?) sobe o quociente de inteligência literária da imprensa brasileira. A coluna do escritor gaúcho Michel Laub (de “Diário da queda”) na “Folha de S.Paulo”, sobre temas culturais e comportamentais variados, não é notícia nova, mas um texto refinado e anticlichê como este “Existe amor no FB” parece demonstrar que ele vai acertando cada vez mais a mão. Como tem acertado de saída, em sua aparente determinação de agarrar pelos chifres os temas literários diante de um público de massa, o também gaúcho Daniel Galera (de “Barba ensopada de sangue”) na coluna que estreou na última segunda-feira no Segundo Caderno do jornal “O Globo”. O texto de hoje trata do polêmico – especialmente no Brasil – uso de marcas registradas em textos de ficção. O quadro ganha novo reforço a partir do mês que vem, quando estreia no jornal curitibano “Rascunho” a coluna do crítico carioca João Cezar de Castro Rocha (de “Crítica literária: em busca do tempo perdido” e “Exercícios críticos: leituras do contemporâneo”). Professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Castro Rocha é um acadêmico que não teme – pelo contrário, busca – o front da imprensa e que tem…

As lições da senhora Ros, a ‘pior escritora do mundo’
Pelo mundo , Vida literária / 30/01/2013

É possível que a romancista e poeta Amanda McKittrick Ros (foto), uma professora nascida em 1860 na Irlanda do Norte, não tenha sido a pior escritora do mundo. Com certeza foi a escritora ruim que mais sucesso fez justamente pela ruindade de sua literatura. Esbarro em sua história fascinante no ebook Epic fail (Fracasso épico), de Mark O’Connell, que teve um trecho (em inglês) reproduzido há poucos dias na revista eletrônica Slate. O surrealismo involuntário da prosa absurdamente artificiosa de Ros já foi apontado por sua legião de admiradores-detratores – com hífen porque são as mesmas pessoas, a admiração sendo no caso uma forma de gozação. A novidade do enfoque de O’Connell é lançar a hipótese de que Ros também tenha inventado sem querer o pós-modernismo ou pelo menos um de seus traços mais marcantes, a elevação irônica da ruindade galopante a uma forma de arte. Não se trata de fenômeno isolado. Ros está para as letras como Ed Wood está para o cinema e Pedro Carolino, autor do hilariante “Novo guia da conversação em portuguez e inglez” (Casa da Palavra), para os estudos linguísticos. Mestre insuperável da purple prose, como os anglófonos chamam o estilo empolado típico da subliteratura,…

Sylvia Plath como ‘chick lit’ e outros links

“A redoma de vidro” (The bell jar), o único romance da poeta americana Sylvia Plath, foi lançado sob o pseudônimo de Victoria Lucas em 1963, poucos dias antes de sua morte. Está completando meio século, portanto, e para comemorar a data o editor teve a ideia de relançá-lo embalado na inacreditável capa chick lit aí ao lado. Como se Sylvia Plath e Sophie Kinsella não fossem antípodas, mas irmãs literárias. Tempos realmente estranhos: um dia vamos rir disso tudo? * Em compensação, como os tempos estranhos são os mesmos em que a informação flui com liberdade inédita, o áudio do famoso discurso de paraninfo feito por David Foster Wallace em 2005, chamado “Isto é água” (e lançado recentemente no Brasil na coletânea de ensaios “Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo”), pode ser ouvido na íntegra, em duas partes, aqui. * Para mim, a oficina foi essencial para, digamos, começar a escrever. Porque, na Oficina, uma das maiores revelações foi a de que o apelo sensorial é um dos maiores méritos que um texto pode ter. Dito assim – e de repente eu me leio –, parece uma platitude, uma banalidade, uma ociosidade. Mas, dentro…

Atenção, letrados do Brasil: está lá fora um Coelho
Vida literária / 21/01/2013

Em artigo publicado no caderno Ilustríssima de ontem, Fernando Antonio Pinheiro, professor de sociologia da Universidade de São Paulo, retoma com convicção uma pauta de sucesso emergente entre certos acadêmicos: a tentativa de trazer Paulo Coelho (foto) para o “domínio culto da literatura”, do qual “o escritor mais lido no mundo” teria sido excluído numa operação em que “a desqualificação [é] ostentada como troféu pelas camadas letradas”. Pinheiro recorre a um famoso ensaio do poeta José Paulo Paes sobre a incipiência da literatura de entretenimento no Brasil para dizer que Coelho é vítima de uma visão estreita e arbitrária do que cabe no campo literário, uma “definição literária do literário, típica do sistema brasileiro, que nega assento ao artesão competente no âmbito do entretenimento”. O artigo começa com a aplicação de cascudos. Escritores que têm uma fração ínfima do sucesso comercial do autor de “O alquimista”, mas são considerados “sérios”, Milton Hatoum e Marçal Aquino teriam tratado Coelho como invisível ao falar da pouca repercussão internacional da literatura brasileira num debate de 2010. Isso, afirma o articulista, seria “bastante representativo dos contornos que ganharam aqui [no Brasil] as relações entre literatura e mercado”. Escreve Pinheiro que… …os debatedores [Hatoum e…

Rubem Braga e a borboleta
Vida literária / 18/01/2013

Rubem Braga faz cem anos e recebe as honras merecidas como o maior cronista da literatura brasileira. O título é informal, mas justo. Machado de Assis? Não lhe falta primazia em outros gêneros, acredito que não se incomodasse de olhar o mais carioca dos capixabas de baixo para cima nesse quesito do monumental desfile do Grupo A das letras auriverdes. Mas então estamos falando de um concurso, de uma competição? Talvez seja meio constrangedor admitir, mas é bem disso que estamos falando. O cronista que estaria completando um século se tivesse seguido os passos de Niemeyer – em vez de morrer como um de seus queridos passarinhos em 1990 – é posto como todo mundo sob o duro escrutínio da posteridade. Os jurados somos nós, leitores, críticos, acadêmicos, jornalistas. Seriíssimos, sobrancelhas franzidas, pesamos sua obra, ponderamos os efeitos da passagem do tempo e rabiscamos a nota num papelucho. Chega o dia da apuração e descobrimos, a maioria sem surpresa, que Rubem Braga leva dez, nota dez! A festa na quadra não tem hora para acabar. Machado, nove vírgula nove. Sabino, nove vírgula sete. Etc. É aí que está o problema, aliás insolúvel. A louvação do que deve ser louvado é…

Destaques 2012 (III): cinco despedidas
Vida literária / 24/12/2012

Millôr Fernandes A morte de Millôr Fernandes – frasista, cronista, cartunista, artista plástico, dramaturgo, tradutor, pensador, poeta, filólogo, inventor do frescobol, gênio do humor e do pessimismo anarco-humanista – atacou a cultura brasileira na esquina da inteligência com a alegria. (Leia mais. E mais.) Antonio Tabucchi Dois cancelamentos seguidos nos impediram de ver na Flip o maior aliado da língua portuguesa nascido em um país não lusófono. Em sua novela “Os três últimos dias de Fernando Pessoa”, o poeta português que era o ídolo literário do escritor italiano adia a morte, dizendo: “Sempre há tempo”. Até não haver mais. (Leia mais.) Ivan Lessa Uma das burrices nacionais que levaram Ivan a virar um londrino de bengala e sobretudo foi a nossa mania, cada vez mais saidinha, de achar que a inteligência – inseparável do senso de indignação moral, embora isso muita gente não entenda – pode se subordinar a conveniências políticas sem virar burrice. (Leia mais.) Gore Vidal Vidal venerava as Letras com L maiúsculo a ponto de, mesmo sofrendo com seu declínio – como evidentemente sofria com o declínio americano – não admitir desistência: “Idealmente o escritor só precisa ter como audiência os poucos que o entendem. É cobiça…

Livro de presente é tiro certo. Se não sair pela culatra
Pelo mundo , Vida literária / 19/12/2012

Será ou não um preconceito pensar que não há exceções à regra segundo a qual nada de bom se pode esperar de quem responde ‘Fernão Capelo Gaivota’ à pergunta ‘Qual é o seu livro preferido?’. A disposição retrospectiva do fim do ano me leva longe: desencavei aqui o comentário que fiz em 2009 sobre um saboroso artigo (trechinho acima) publicado no jornal espanhol “El País” acerca dos riscos de dar livros de presente. Assinado por Leila Guerriero, o texto satiriza com humor afiado a tendência a um certo esnobismo que costuma atacar em maior ou menor grau todo mundo que se considera bom leitor. Trata-se de terreno pantanoso: para alguns, o nome desse esnobismo é simplesmente bom gosto, enquanto para outros é preconceito mesmo. De uma forma ou de outra, multiplicam-se as armadilhas no caminho de quem, inocente e bem intencionado, escolhe um título para dar de presente. Quando acerta na mosca, um livro provavelmente conta mais pontos do que qualquer outro regalo em sua faixa de preço. No entanto, o mesmo exemplar de “Cinquenta tons de cinza” que seria de bom tom dado a cinquenta pessoas pode reduzir seu filme a cinzas nas mãos da quinquagésima primeira. A verdade…

Destaques 2012 (II): o ano canônico
Mercado , Vida literária / 17/12/2012

O ano que está terminando foi feliz para quem ama livros propriamente ditos – de papel e tinta, cola e costura – e tem grandes buracos na estante que gostaria de preencher. O que significa dizer que também foi generoso com aqueles que tiverem disposição e fundos para investir num presentaço natalino que o personagem mencionado acima não esquecerá jamais. O grande acontecimento do fim do ano é o início do relançamento, pelo selo Biblioteca Azul da editora Globo, da famosa edição do gigantesco painel ficcional “A comédia humana”, de Honoré de Balzac, organizada pelo crítico húngaro-brasileiro Paulo Rónai. Em capa dura, com mais de 800 páginas em média, os quatro primeiros de dezessete volumes chegaram este mês às livrarias ao custo de R$ 74,90 cada um. Acompanha-os o volume mais magro (248 páginas, R$ 39,90) “Balzac e a comédia humana”, coleção de ensaios do próprio Rónai que traz em cada linha aquela combinação rara de erudição, legibilidade e gentileza que era sua marca e que faz dele o melhor cicerone que um leitor poderia desejar ao se aventurar pelo universo (poucas vezes a palavra foi tão apropriada a um conjunto de ficções) criado pelo escritor francês ao longo de…

Rowling provoca morte súbita da leitura – e outros links
Pelo mundo , Vida literária / 05/12/2012

Curioso pela migração de gênero e público, comecei a ler “Morte súbita”, o primeiro “romance adulto” de J.K. Rowling, a criadora de Harry Potter. Pouco mais de meia hora depois tinha parado de ler “Morte súbita”, o primeiro “romance adulto” de J.K. Rowling, a criadora de Harry Potter. A leitura teve morte súbita – e vale registrar que eu tinha optado pelo original, The casual vacancy, o que inocenta do crime a tradução brasileira recém-lançada pela Nova Fronteira – por doses cavalares de academicismo e clichê na trama e na linguagem. Não, claro que isto não é uma resenha. Só quem lê uma obra inteira, e com ponderação, pode se atrever a resenhá-la. Mas é um toque: a vida é curta para tanto livro, e “Barba ensopada de sangue” está aí mesmo. * Todos sabemos que juízos estéticos baseados em ideias como “belo” e “sublime” pertencem ao passado. Mas o que significa a predominância contemporânea de categorias como “fofo” e “interessante”? O recém-lançado livro Our aesthetic categories (Nossas categorias estéticas), da poeta e crítica literária Sianne Ngai, acha que significa muito. Resenha da Slate, em inglês, aqui. * A entrevista dada à “Folha de S. Paulo” pelo crítico Rodrigo Gurgel,…

Viva a tuiteratura: do concurso ao lado ao festival mundial
Pelo mundo , Vida literária / 03/12/2012

O blog vizinho “Veja Meus Livros” está recebendo até o próximo dia 9 inscrições para um concurso de microcontos no formato Twitter, em parceria com a editora Globo. Os vencedores receberão como prêmio uma pequena montanha de livros. O desafio é resumir, em até 140 caracteres, a saga de Sherazade, a contadora de histórias das “Mil e uma noites”. Tarefa dura: na verbosidade obrigatória da moça que noite após noite entretinha o sultão com suas narrativas para não morrer, 140 caracteres dariam conta de uns poucos segundos. Estarei entre os jurados. O microconto ultrassintético continua sendo, a meu ver, o maior desafio de quem pretende usar o Twitter para fazer ficção. É estranho que tenha sido um gênero definitivamente menor – com trocadilho, claro – no primeiro festival de ficção do Twitter, que durou cinco dias e terminou ontem. Há mais Sherazades do que Daltons no mundo. O Twitter Fiction Festival teve um grande e indiscutível mérito: reunir gente de todo o planeta em torno da hashtag #twitterfiction. O clima – exagerado, como é comum nesses casos – era de urgência e fervor. “A literatura nunca mais será a mesma depois disso”, chegou a dizer alguém. O que é cômico,…

Coisas do mundo, minha nega: o anti-Roth, Mãe, Hilda etc.
Pelo mundo , Vida literária / 28/11/2012

Não, Roth não abandonou sua arte, não enterrou sua varinha como Próspero. Foi a arte que lavou suas mãos diante desse escritor irremediavelmente trivial e constrangedor. Tomando de empréstimo o título do primeiro livro Roth, a coletânea de contos ‘Adeus, Columbus’: Adeus, Philip! E, olhe, a porta da rua é a serventia da casa. O artigo publicado pelo crítico americano Lee Siegel no “Estadão” de domingo, chamando de “absurdo sem tamanho” a comoção em torno da aposentadoria de Philip Roth, afoga um ou dois argumentos interessantes num caldeirão tão cheio de ódio e amargura que a coisa acaba por entornar inteira em seu colo. Siegel, vale lembrar, é um notório defensor da tese de que o romance está morto. Descobrir que o público ainda se importa tanto com o que um romancista faz ou deixa de fazer deve ser mesmo muito frustrante. * Ano passado, poucos dias depois de se tornar o maior fenômeno de popularidade instantânea da história da Flip, o escritor português Valter Hugo Mãe me disse, numa longa conversa que se transformou nesta reportagem: “Muitas coisas na vida são momentos. Eu não me admirava nada de vir aqui no próximo ano e saber que ninguém mais se…

Os dez mandamentos do escritor, segundo Zadie Smith
Vida literária / 21/11/2012

É praticamente impossível aprimorar a lista de dez conselhos a jovens escritores que a escritora inglesa Zadie Smith (foto), autora de “Dentes brancos” e “Sobre a beleza” – e do recente NW, ainda inédito por aqui – escreveu para o “Guardian” em 2010 (via Brain Pickings). Não há um único item dedicado ao que escrever tem de mais essencial e misterioso, aquilo que levou Somerset Maugham a dizer: “Existem três regras para escrever ficção. Infelizmente, ninguém sabe quais são elas”. Sábia, ZS se cala sobre os tesouros que cada um terá que descobrir por si mesmo, sem mapa e na mais completa escuridão – missão difícil mas não impossível, caso o caçador tenha vivido o tipo de infância mencionado no item 1 e goze do mínimo de talento citado no 3. Deixando de lado o indizível, esses conselhos cobrem de forma admiravelmente lúcida e sucinta os principais aspectos práticos que cercam a atividade, inclusive as muitas armadilhas ao longo do caminho. Mereciam ser gravados na pedra. 1. Ainda na infância, assegure-se de ler um monte de livros. Passe mais tempo fazendo isso do que qualquer outra coisa. 2. Quando adulto, tente ler seu próprio trabalho como um estranho o leria,…

Sobre Roth, Kertész e a hora de parar
Vida literária / 16/11/2012

Mal havia assentado a notícia de que Philip Roth (foto) parou de escrever, o húngaro Imre Kertész anunciou que também estava pendurando as chuteiras. Isso acrescentou um prêmio Nobel a um eterno candidato ao prêmio Nobel na lista dos desistentes da literatura e criou um campo fértil para piadas – nervosas, porque o tema toca em angústias mais profundas do que gostaríamos de admitir – entre escritores das minhas relações. Quem mais faria bem à própria obra se mostrasse a mesma clarividência e a mesma coragem de reconhecer que já disse tudo o que tinha a dizer, que o que resta agora é só um vício, um hábito besta e não muito diferente daquele que Alexander Portnoy exercita à exaustão num dos livros mais famosos de Roth? “Não vamos citar nomes”, disse o mais experiente e sábio da rodinha. O que não impediu, claro, que nomes fossem citados, de gente consagrada a um ou dois jovens autores da “Granta”. Estávamos entre amigos. A graça da maledicência descompromissada repousava no acordo tácito de que ninguém se viraria para o outro para dizer: “Você, por exemplo”. No máximo, num arroubo mais ousado de humor autodepreciativo (que também provocaria constrangimento), um de nós…

Literatura brasileira? E boa? Que danado esse tradutor!
Pelo mundo , Vida literária / 14/11/2012

Não há dúvida de que o leitor internacional é sempre um leitor inseguro e preocupado, como um histérico deitado num sofá. Quer dizer, não sei nada da língua em que esse conto chamado “Animais” foi escrito. E também não sei exatamente onde fica Porto Alegre – que é onde o conto de Michel Laub começa. O que eu digo é que isso faz um leitor ficar ansioso. Tenho que supor que fique no Brasil. E, no entanto, acho que é possível de alguma forma grosseira, em vez de ligar para esses problemas éticos, simplesmente prestar atenção no que está ali. (…) Porque a beleza dessa história – e essa beleza sobrevive a quaisquer ansiedades com as quais sua tradutora, Margaret Jull Costa, tenha se preocupado para produzir essa peça tão cuidadosa e bem organizada de prosa em inglês, da mesma forma que sobrevive agora às ansiedades de seu leitor internacional – é seu movimento ágil. Há algo de cômico e perturbador na breve resenha do conto “Animais”, de Michel Laub (foto), publicada pelo escritor inglês Adam Thirlwell no site da “Granta”, a propósito do lançamento internacional da edição da revista dedicada ao Brasil. Com as credenciais de quem foi selecionado…

A identidade do jurado C e a polissemia da palavra
Vida literária / 24/10/2012

Em um belo trabalho de Paulo Werneck e Raquel Cozer, a “Folha de S.Paulo” revela hoje a identidade do “jurado C”, que com suas notas esdrúxulas decidiu sozinho os três vencedores do prêmio Jabuti de romance. Trata-se, segundo o jornal, do crítico literário Rodrigo Gurgel, colaborador do jornal “Rascunho” e autor do recém-lançado “Muita retórica – pouca literatura” (Vide). A manipulação do resultado ocorrida na fase final, em que suas notas extremas transformaram em peças nulas as avaliações dos colegas de júri, não seria tudo. O jornal sustenta que o jurado – aparentemente determinado a explorar a polissemia da palavra – contrariou os juízos que ele próprio emitira na primeira fase do julgamento: o livro de Wilson Bueno ganhou dele média 8,67 na etapa eliminatória e 0,33 na final; o de Luciana Hidalgo caiu de 9 para 0,83. Em seu blog, está no ar neste momento uma entrevista em que Gurgel faz uma lista dos críticos literários que admira: “Samuel Johnson, Charles Moeller, Northrop Frye, Edmund Wilson, Lionel Trilling, Joseph Pearce e Marcel Reich-Ranicki. Entre os brasileiros, gosto de Álvaro Lins, Augusto Meyer, Lúcia Miguel-Pereira, Temístocles Linhares, Wilson Martins e, mais recentes, Alexandre Eulalio, João Alexandre Barbosa, Marisa Lajolo, Alcir…

Mais um atestado de óbito da literatura. Mas este é literário
Vida literária / 22/10/2012

Nu na banheira, encarando o abismo (um manifesto sobre o fim da literatura e dos manifestos) é o prolixo título de um ensaio apocalíptico de Lars Iyer publicado no 12º número da revista “serrote”, que chega às livrarias semana que vem. Trata-se aparentemente de mais um aborrecido atestado de óbito da literatura, como aqueles que críticos sem conta vêm emitindo – para um departamento onde logo lhe carimbam “arquive-se” – há pelo menos um século. No entanto, o ensaio de Iyer se destaca da produção habitual dos apocalípticos por dois motivos. O primeiro é que é bem argumentado e bem escrito, com paixão e verve, característica respeitada pela tradução de Thiago Lins e que só um verdadeiro amante de literatura (um necrófilo, segundo o argumento do autor) poderia lograr. O segundo motivo é mais interessante ainda: sendo também ficcionista – é professor de filosofia numa universidade inglesa e autor de dois romances – Iyer acaba deixando claro, na parte final do texto, que discute consigo mesmo. Sua preocupação principal é identificar aquilo que ainda pode ser escrito após a suposta morte da literatura, uma vez que, evidentemente, escrever continua sendo preciso, não apenas para ele como para muitos de nós….

Jabuti, o que será de ti?
Pop de sexta , Vida literária / 19/10/2012

Desta vez o prêmio Jabuti exagerou: a zebra que representou a vitória do estreante Oscar Nakasato na categoria romance, com “Nihonjin” (Benvirá), nem chegou a se impor como o que poderia ser – uma aposta corajosa e estimulante num autor novo, não apenas distante da glória oficial, mas praticamente desconhecido. Essa leitura otimista do resultado anunciado ontem em São Paulo foi imediatamente comprometida pelo fato de que Nakasato venceu graças à traquinagem de um único jurado – identificado por enquanto como “jurado C” – que o cumulou de notas 10 ao mesmo tempo que dedicava aos demais concorrentes uma chuva de notas entre zero (!) e 1,5. Algo semelhante ao que fez nos anos 1980 uma jurada do desfile das escolas de samba do Rio, decretando a vitória da Mocidade Independente. O nome disso é manipulação de resultado. A má fé explícita do “jurado C” – cuja identidade, de acordo com o regulamento, só pode ser revelada após a entrega das estatuetas, dia 28 de novembro – avacalha de vez um prêmio que vem se avacalhando nos últimos anos, emaranhado em escolhas discutíveis, regulamento trapalhão e uma incontrolável metástase de categorias (hoje são 29, com três prêmios para cada uma)…

Homenagem a Autran Dourado, ainda que tardia
Vida literária / 08/10/2012

Prêmios domésticos anunciados, Feira de Frankfurt à beira de começar, Nobel de literatura marcado para esta quinta, para mim não houve notícia literária mais importante enquanto eu estava de férias do que a morte, dia 30 de setembro, aos 86 anos, do escritor mineiro Autran Dourado. O autor de livros como “A barca dos homens”, “Ópera dos mortos” e “O risco do bordado” andava meio esquecido faz tempo. Como disse em um afetuoso artigo no último Sabático o crítico Silviano Santiago, que há alguns anos acompanhou o vencedor do Prêmio Camões de 2000 numa viagem a Sintra: “Pouco reconhecido no Brasil, Autran era recebido em Portugal com as honras merecidas”. O merecimento não se discute: trata-se (verbo no presente, pois certas coisas não morrem tão facilmente) de um romancista de peso, como não há de sobra na literatura brasileira. Sob a temática mineira interiorana que hoje corre o risco de parecer antiquada aos olhos de um país maciçamente urbano, havia um leitor crítico de clássicos e modernos e um ficcionista que refletia com lucidez sobre o seu ofício. Por isso, o livro que escolho para destacar aqui como homenagem póstuma não é um de seus romances, que li décadas atrás,…

Bret Easton Ellis x David Foster Wallace e outros links
Pelo mundo , Vida literária / 17/09/2012

É muito esclarecedor este artigo (em inglês) publicado na “Salon.com” por Gerald Howard, sob o título “Eu sei por que Bret Easton Ellis odeia David Foster Wallace”. Howard editou os dois autores americanos quando jovens, admira ambos e acredita que eles sejam os mais brilhantes representantes de dois lados antitéticos da mesma geração – com DFW na extremidade que acabaria por se provar culturalmente vitoriosa. Mesmo assim, reconhece que os tweets cheios de fel que o autor de “Psicopata americano” disparou em sequência, a propósito da biografia de DFW recém-lançada por D.T. Max, deixam-no na posição indigna de chamar um morto para sair no braço. Dois exemplos: A fajuta “sinceridade” do Meio-Oeste de David Foster Wallace, em que uma geração de bebês se reconhece, é a coisa que eu mais odeio como escritor. Tudo bem que David Foster Wallace seja mais esperto do que eu e um escritor melhor, mas ele era tão mais frio do que eu jamais fui. Ele era uma farsa. Quase. * Por falar em David Foster Wallace, cuja morte acaba de completar quatro anos: sai no mês que vem, pela Companhia das Letras, “Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo”,…

Entrevistas do ‘Rascunho’: o que é bom merece bis

RASCUNHO: Como você avalia a entrada do Paulo Coelho na Academia Brasileira de Letras? CARLOS HEITOR CONY: Tendo uma vaga, qualquer um pode entrar. O Paulo Coelho namorava a Academia havia bastante tempo. É uma figura polêmica, sua literatura é muito questionada. Mas há uma coisa que não se pode negar: ele é um homem de letras. Ele escreve letras. Escreveu letras para o Raul Seixas. Nunca li nada dele, realmente. Mas ele tem um sucesso comercial muito grande. Está entrando na Rússia. Já vendeu dois milhões de livros no Japão. É impressionante isso. Shakespeare não vendeu, até hoje, dois milhões de exemplares no Japão. Há outra coisa: o Paulo Coelho é uma pessoa muito fina, muito educada. Não responde ninguém, não agride ninguém. Não se vangloria por vender tanto. É muito cavalheiro. Agora, há as evidências. No Salão do Livro em Paris, em março de 1998, a homenagem foi ao Brasil. Havia lá uma réplica do 14-bis, um busto do Machado de Assis. Foram mais de cem figuras da literatura nacional. O (Jacques) Chirac era o presidente, na época. E ele entrou, para inaugurar o Salão do Livro, de braço dado com o Paulo Coelho. Disse que queria prestar…

Como escrever uma boa resenha má
Pelo mundo , Vida literária / 27/08/2012

Esse artigo (em inglês) de J. Robert Lennon na revista eletrônica Salon.com traz boas – e divertidas – reflexões sobre a ética da resenha literária negativa. Qual é o limite entre descer o malho com desassombro em livros que o resenhista julga merecedores de malho e aquele espetáculo sádico de espinafração em que o foco é transferido dos problemas da obra para a verve exibicionista do próprio resenhista? O autor parte do contraste entre sua própria crítica negativa do novo livro de Paul Auster, que ele acredita estar no primeiro caso, e uma resenha cruel assinada por um colega, que classifica no segundo, para elaborar sete regras que vale a pena conhecer. Elas estão aí embaixo, em versão condensada, traduzidas por mim. Não são poucos os pontos de contato entre as observações de Lennon e as seis regras de ouro de John Updike, que publiquei aqui em 2009. Em primeiro lugar, forneça um contexto. Isso significa ler o máximo possível da obra do autor, tomando notas sobre todos os livros e não só o que você está resenhando. Foi por isso que me senti justificado em malhar o livro de (Paul) Auster – nem sempre gosto dele, mas às vezes…

Nelson: cem anos de um mestre do diálogo brasileiro
Vida literária / 22/08/2012

Aproveito o centenário de Nelson Rodrigues, que se comemora amanhã, para reconhecer publicamente uma dívida pessoal e dar uma dica: talvez não haja lição mais importante que os escritores brasileiros do século 21 possam tirar da obra de um dos maiores escritores brasileiros do século 20 do que o difícil aprendizado do diálogo. Falo de uma questão de forma. Isso não significa minimizar o famoso conteúdo rodriguiano, esse impressionante universo de tipos caricaturais da baixa classe média carioca às voltas com tramas folhetinescas de amor e morte, infidelidade e incesto, numa atmosfera farsesca em que pulsões primitivas estão sempre prontas a furar o verniz da civilização e vir à tona com uma ferocidade equilibrada entre o trágico e o cômico. Evidentemente, é o alcance cultural desse universo que torna Nelson um monstro, um daqueles raros autores sem os quais o país não seria o que é. Mas disso não falta quem esteja falando. Quando me refiro ao diálogo, falo de uma técnica que permite a dois ou mais personagens trocarem blocos de discurso direto no meio de uma narrativa sem que soem como bonecos de ventríloquo do autor ou como oradores na tribuna da Câmara dos Deputados. Alguns escritores se…

Qual o melhor conselho literário que você já recebeu?
Pelo mundo , Vida literária / 20/08/2012

O Writer’s Digest lançou a pergunta acima (em inglês) a seus leitores em fevereiro. Algumas das respostas são boas, mas, pensando em qual seria a minha, descobri que a única honesta é: depende do momento. Nesta fase em que estou em luta corporal com um novo romance – apanhando mais do que batendo – o conselho que resolvi imprimir em corpo 72 para colar na parede em frente à mesa de trabalho, de autoria de Neil Gaiman (foto), me parece o mais útil de todos os tempos: “Termine o que está escrevendo. O que quer que tenha que fazer para terminar, termine.” * Fernando Pessoa que se cuide: Benjamin Black, heterônimo adotado por John Banville quando escreve romances policiais, vai incorporar o espírito de Raymond Chandler em livro que sai ano que vem. Missão duríssima. Como evitar o pastiche que faz a graça de textos como este da McSweeney’s? * E por falar em espíritos e cavalos, uma frescura chique: Jeffrey Eugenides (no papel de Henry James), Jonathan Safran Foer e Junot Díaz posam para Anne Leibovitz num superproduzido ensaio fotográfico sobre Edith Wharton para a “Vogue”. * Para quem estiver muito interessado em refletir sobre o futuro do livro,…

O Twitter, quem diria, pariu uma obra-prima: ‘Caixa preta’
Pelo mundo , Vida literária / 17/08/2012

É possível fazer literatura de qualidade no Twitter? Essa pergunta, que tem andado no ar há alguns anos, não teve até agora (terá um dia?) melhor resposta do que a que a escritora americana Jennifer Egan – autora do notável “A visita cruel do tempo”, resenhado aqui – deu em maio deste ano ao publicar no perfil da revista “The New Yorker” uma história de espionagem em forma de flood de tweets chamada Black box. Quem ainda não leu pode acessar o conjunto inteiro (em inglês) no site da revista. Ou acompanhar a tradução, “Caixa preta”, que a editora Intrínseca publicará a partir desta segunda-feira, dia 20, até o dia 30, sempre das 22h às 23h, em sua conta no Twitter (@intrinseca). Ao fim desse prazo, a narrativa completa será lançada como e-book. A iniciativa é oportuna: uma “Caixa preta” basta para redimir quaisquer “Cinquenta (ou até mais) tons de cinza”. Na Flip deste ano, em que dividiu uma mesa com Egan, o escritor inglês Ian McEwan não mediu elogios a Black box: “É uma das melhores coisas que leio em anos”. Os espectadores que não conheciam o texto podem ter pensado que o autor de “Serena” estava apenas exercitando…

Jorge Amado: aos cem anos, a solidão?
Vida literária / 10/08/2012

No centenário de Jorge Amado, comemorado hoje, a digestão do legado do escritor baiano ainda está longe de se completar. De um lado, sua obra de inédita popularidade sofreu uma espécie de canonização, com muito de kitsch como qualquer canonização. Basta ver o Bataclan ridiculamente luxuoso da nova adaptação de “Gabriela” na TV Globo: faz o Moulin Rouge parecer um bordel de província, como se as prostitutas de Ilhéus na época de ouro do cacau não fossem desdentadas, não tivessem pés cascudos, filhas destituídas da Idade Média brasileira que eram, e sim top models fazendo um bico para descolar uns trocados a mais. O outro lado da moeda é o da negação pura de Jorge Amado, que ainda é a postura dominante nos círculos literários – e não apenas acadêmicos, embora estes tenham exercido forte influência nesse sentido. Atropelado pela novidade dos estudos culturais em que desembocou o pensamento de esquerda no último quarto do século 20, Amado – que na primeira metade de sua carreira foi nosso escritor mais assumidamente político, “se não bispo ao menos monsenhor” do stalinismo, em suas próprias palavras – viu-se escalado no papel de porta-voz do patriarcalismo e do sexismo, como se fosse uma…

Quando escritores ganhavam medalhas olímpicas
Pelo mundo , Vida literária / 08/08/2012

Em vez de duplos mortais carpados, tetrâmetros iâmbicos cataléticos? Exatamente. Embora quase não se fale nisso, entre 1912 e 1948 os Jogos Olímpicos distribuíram medalhas de ouro, prata e bronze para escritores (mais especificamente, poetas), além de músicos, arquitetos, pintores e escultores, por obras inéditas que tivessem o esporte como tema. Não que faça muita falta saber. O fato de o primeiro vencedor da medalha de ouro olímpica na modalidade literatura, em 1912, ter sido o próprio Barão Pierre de Coubertin (foto), o grande ideólogo dos Jogos e o maior entusiasta da inclusão das artes entre as modalidades competitivas, torna tudo bastante suspeito. Curiosamente, ao inscrever sua obra “Ode ao esporte” nos Jogos de Estocolmo, Coubertin adotou um pseudônimo alemão duplo – “Georges Hohrod e Martin Eschbach”, talvez imaginando que o texto fosse bom demais para ter sido escrito por uma pessoa só –, o que fez sua medalha ser computada inicialmente no quadro da Alemanha. Se o panteão dos escritores com medalha de ouro não inclui nenhum grande nome da literatura, o que sugere uma baixa adesão dos maiores artistas da época à ideia de disputar uma medalha olímpica, nem todos são inteiramente obscuros. O nome de maior destaque…

Tezza, a universidade, o apocalipse e o conto do Laub
Vida literária / 03/08/2012

Nos anos 1970, a pauta literária nacional se refugiou na universidade. (…) Se criou ali de certa forma o ‘pior’ de dois mundos. Surgiu a figura do professor-escritor. Eu fui um. O discurso da universidade tem a pressuposição de verdade. A universidade é um lugar de organização do pensamento. A perspectiva de quem cria na literatura é substancialmente diferente. A verdade não interessa para a criação literária. A ligação com a universidade brasileira criou essa relação esquizofrênica entre o discurso da ciência e o da arte, como se fosse uma coisa só. Isso teve um efeito devastador sobre a prosa brasileira. A prosa romanesca se apagou ao longo dos anos 1970 e 1980. Achei boa e – mais uma vez – corajosa a entrevista do escritor e ex-professor universitário Cristovão Tezza à “Folha de S.Paulo” de ontem. Houve quem visse ali preconceito contra a universidade, mas fará algum sentido falar em preconceito quando quem emite tais juízos teve uma intensa vivência de mais de duas décadas no meio acadêmico? O autor de “O filho eterno” pode se enganar no diagnóstico, naturalmente, e um certo exagero argumentativo me parece inegável em suas afirmações, mas seus conceitos nada têm de predeterminados. E…

‘O espírito da prosa’: para apaixonados por literatura
Resenha , Vida literária / 25/07/2012

“O espírito da prosa – uma autobiografia literária”, de Cristovão Tezza (Record, 224 páginas, R$ 34,90), é um livro corajoso e único no cenário brasileiro: um longo ensaio em que um ficcionista de sucesso reflete sobre sua formação, sonda motivações ocultas, esmiúça referências, defende teoricamente suas escolhas no quadro histórico da prosa de ficção e, ao mesmo tempo, expõe as próprias dúvidas e pontos fracos com franqueza desconcertante. Ex-professor universitário e estudioso do linguista russo Mikhail Bakhtin, Tezza não facilita as coisas para o leigo menos ligado no tema: nem tanto pela linguagem – “Este não é um trabalho acadêmico”, avisa na primeira frase do livro – quanto por um tom singularmente fervoroso, “O espírito da prosa” dirige-se a um leitor no mínimo apaixonado por literatura. No trecho abaixo, depois de destroçar os três primeiros livros que escreveu – e que nunca publicou –, Tezza faz uma defesa enfática de algo que grande parte da inteligência literária brasileira tem gostado de tratar como defunto, muitas vezes com a superficialidade apressada de quem já não precisa reafirmar o óbvio: a ficção realista e seu lugar único, que obviamente não é o de uma linguagem em que o autor insufle uma verdade…

Já entrou no Concurso de Microcontos? Ainda dá tempo!

Faltam 48 horas para o encerramento das inscrições no II Concurso Todoprosa de Microcontos para Twitter, às 13h desta sexta. As micronarrativas inscritas – limitadas ao número máximo de três por autor – já são 345. O resultado será divulgado aqui na próxima segunda-feira, dia 16. Se você está tomando conhecimento do concurso agora, acesse o regulamento aqui. E boa sorte. * Por falar em concurso: parabéns aos vinte escritores brasileiros – ou novelists, “romancistas”, segundo a versão inglesa, embora nem todos o sejam – que integram a seleção da revista “Granta”, anunciada em Paraty. Não conheço todos os nomes, mas é evidente que há muito talento reunido ali, e escolhas são escolhas. No dia em que Deus lançar uma antologia em tabletes de pedra, talvez Suas opções sejam menos contestadas – não por serem indiscutíveis (“aposto que o Todo-Safado eliminou os ateus sem nem ler!”), mas devido à possibilidade de que raios fulminem os dissidentes antes que eles cliquem no botão de enviar. Enquanto isso não ocorre, temos que nos resignar com antologias falíveis e exibições dolorosas de ressentimento. Fazer o quê? Desde o lançamento trágico da “Grandpa” é assim. * A Flip consegue transformar a literatura em notícia,…

Flip 2012: o caso do gaúcho gauche
Vida literária / 09/07/2012

Será que a cena do poeta gaúcho Fabricio Carpinejar recitando entre berros, sussurros e gargalhadas de vilão de filme B o poema “Confidência do itabirano”, de Carlos Drummond de Andrade, enquanto caminhava entre as cadeiras no auditório da Tenda dos Autores, ficará na história como o momento mais explosivo e transgressor da Flip 2012, um evento de resto bem comportado e até morno (leia o balanço do blog vizinho Veja Meus Livros)? Ou será lembrada, a tal cena, apenas como um momento constrangedor, equivocado, desrespeitoso com o homenageado? Não é fácil escolher uma resposta. A favor da primeira existe o argumento de que só pode fazer bem à arte, inimiga do saber institucionalizado, o tratamento dessacralizante dispensado a um poeta tão consagrado que já virou estátua – e uma réplica da que mora na orla do Rio de Janeiro podia ser encontrada durante a Flip em frente à casa alugada pela Companhia das Letras em Paraty, sem dúvida a atração mais fotografada de todo o evento. O princípio modernista da iconoclastia justificaria assim a performance histriônica do gaúcho gauche, tão mais necessária quanto mais respeitosas e até solenes tiverem sido – como foram – as demais leituras de poemas drummondianos…

Stefan Zweig, Borges e Fernando Pessoa encerram a Flip
Vida literária / 08/07/2012

Por Raissa Pascoal Como já é tradição, a mesa de encerramento da 10ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) reuniu alguns dos autores convidados do evento para a leitura de seus livros favoritos. “Essa mesa celebra a razão de ser da festa: a literatura”, disse Miguel Conde, que apresentou a sessão Livro de Cabeceira, mediada pela criadora do evento, Liz Calder. Entre os escritores lidos, estavam o austríaco Stefan Zweig, o argentino Jorge Luís Borges, a brasileira Lygia Fagundes Telles e o português Fernando Pessoa. Ao todo, nove convidados emprestaram a voz ao encerramento. Os primeiros a ler foram os francófonos Amin Maalouf, libanês, e Dany Laferrière, haitiano. Maalouf selecionou um texto de Zweig, autor de Brasil, País do Futuro, e Laferrière optou pelo pedaço de um conto do argentino Jorge Luís Borges, Funes, O Memorioso, sobre um rapaz com uma grande memória. “Há 30 anos, quando era um operário, entrei numa livraria e escolhi o livro mais elegante e livre da prateleira”, disse o escritor, lembrando seu encontro com o conto de Borges. Depois de Laferrière, a portuguesa Dulce Maria Cardoso leu um excerto do livro Os Passos em Volta, de seu conterrâneo Herberto Hélder. Nos contos…

Shteyngart e Kureishi: diversão e arte
Vida literária / 08/07/2012

Gary Shteyngart, americano nascido na Rússia, e Hanif Kureishi, inglês de ascendência paquistanesa, protagonizaram uma das mesas mais divertidas da história da Flip – mas nem por isso destituída de seriedade. Numa divisão um talvez grosseira – mas não muito – pode-se dizer que coube ao histriônico Shteyngart fazer o auditório gargalhar, com seu humor judaico autodepreciativo à la Woody Allen (com quem tem razoáveis semelhanças físicas), enquanto o irônico Kureishi levou a conversa para campos graves como a relevância da literatura – que ele defende com ênfase – no mundo contemporâneo. Autor de romances satíricos como “Absurdistão” e “Uma história de amor real e supertriste”, Shteyngart apresentou o último como uma história passada num “futuro em que uma América completamente iletrada está prestes a desmoronar. Ou seja, terça-feira que vem”. Como o livro satiriza a cultura digital e as redes sociais, acrescentou, teve que contratar um jovem para lhe ensinar a usar essas coisas. “Foi quando passei a ter um iPhone. É uma troca. Aprendi a usar o iPhone, mas nunca mais li um livro. Não leio há cinco anos.” Afirmando que terceiriza para escritores indianos a tarefa de escrever seus livros e recebe direitos autorais em queijo parmesão,…

Drummond em alta voltagem emocional
Vida literária / 08/07/2012

O depoimento em vídeo de um poeta que conviveu com Carlos Drummond de Andrade e um poema inédito de outro poeta, mais jovem, que o chamou de “uma espécie de Buda” foram dois dos pontos de maior voltagem emocional de toda a Flip 2012. Ambos se deram em rápida sequência hoje à tarde, na mesa “Drummond – o poeta presente”. O depoimento em vídeo foi de Armando Freitas Filho, autor de “Raro mar”. O poema inédito, de Carlito Azevedo, autor de “Monodrama”. O também poeta Eucanaã Ferraz completou a tarde em tom mais sóbrio – o que o contido Drummond certamente aprovaria. “Era um homem muito carinhoso, eu às vezes achava até que ele tinha pena de mim”, contou Armando. “ Aquela cara litográfica, limpa, limpa, parecia que tinha saído do banho. Aqueles olhos azuis, duas bolas de gude azuis. Era um homem muito simples, mas escrevia aquelas coisas extraordinárias… Ele escre via como quem faz a barba a seco, sem água, sem espuma e sem sabão… Escrevia com o próprio fígado, tirava dele, mas aquilo se transformava num discurso geral. Drummond não escrevia para ninguém mas escrevia para todos, isso era o que mais me impressionava, como ele conseguia…

Engajamento versus panfletagem
Vida literária / 08/07/2012

Por Maria Carolina Maia A literatura social do carioca Rubens Figueiredo (do premiado Passageiro do Fim do Dia) e do sergipano Francisco J. C. Dantas (de Os Desvalidos) pautou a mesa A Imaginação Engajada, neste domingo, na Flip. Mas não só ela. Os escritores falaram da sua forma de retratar a realidade e fizeram o público rir contando causos e piadas. O falso tímido Dantas, 71, que debutou na literatura aos 50 com Coivara da Memória (Estação Liberdade), subiu ao palco com um calhamaço de anotações. Sua primeira fala foi tão prolixa e distante do tema proposto – ele agradeceu o convite da Flip e a boa hospedagem que vem recebendo em Paraty, para então relembrar episódios de viagens que fez – que o mediador pediu autorização para passar a palavra a Figueiredo. “Vamos ouvir agora Figueiredo, se o senhor deixar, é claro”, disse , o professor de literatura João Cezar de Castro Rocha, dando uma indireta a Dantas. “Uma vez, participei da Jornada Literária de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, e achei lindo como todo dia, debaixo do travesseiro, a camareira da pousada onde me hospedei deixava um chocolatinho”, contava Dantas antes de ser interrompido por Castro…

Jackie Kay e Carpinejar: poesia, piadas e… orgasmo
Vida literária / 08/07/2012

Por Raissa Pascoal A poesia abriu o domingo frio e chuvoso em Paraty, onde termina hoje a 10ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Mediada pelo jornalista João Paulo Cuenca, um dos 20 jovens autores do país selecionados entre os melhores da revista Granta, a mesa Vidas em Versos reuniu a escocesa Jackie Kay e o brasileiro Fabrício Carpinejar. Apesar de divertir o – agora já reduzido – público da tenda dos autores, a conversa não teve frescor literário. Entre leituras de textos seus, os autores falaram dos ecos entre sua vida e obra, contando histórias e piadas. Para explicar sua relação com o uso da voz, por exemplo, Carpinejar fingiu orgasmo para defender o recurso, que seria utilizado pelas mulheres para sinalizar prazer. “É uma pedagogia da sensibilidade.” O poeta gaúcho caiu no tema orgástico depois de Jackie Kay contar como presta atenção à voz e ao jeito de falar das pessoas. “Gosto de saber como as pessoas falam, sua sintaxe, a ordem das palavras. Uma vez que eu ouço a voz de um personagem, consigo criá-lo”, afirmou a escocesa. Carpinejar então disse que é filho do ouvido, porque cresceu com muito ruído em uma casa só de…

Angeli e Laerte, os novos, os velhos e os mesmos personagens
Vida literária / 07/07/2012

Por Maria Carolina Maia Coube aos brasileiros Angeli e Laerte a inserção de quadrinhos na programação da Flip, que nos anos anteriores recebeu os icônicos Robert Crumb e Gilbert Shelton (2010), de América e Freak Brothers, e Joe Sacco, do jornalístico Palestina (2011). Mas, ou por serem figuras bem conhecidas do público ou porque a mediação do jornalista Claudiney Ferreira deixou a desejar, o encontro de Laerte e Angeli não foi nenhuma surpresa para a plateia que encheu a tenda dos autores, junto ao centro histórico de Paraty. Exceto pela crítica de Angeli à comédia de tipo stand-up, que ele taxou de apelativa, para quem está habituado a ver entrevistas com os dois cartunistas a mesa-bônus na programação da festa, realizada a partir das 21h30 deste sábado, teve sabor de reprise. Os cartunistas falaram de seus velhos personagens, da necessidade que sentem de renovação do trabalho e de si mesmos – os mesmos personagens de sempre. Com um belo vestido colorido, Laerte contou mais uma vez como se percebeu transgênero. Foi a partir da publicação de uma tirinha com o personagem Hugo, que aparece travestido e dizendo, “Às vezes, um cara tem de se montar, ué”. “Eu me descobri transgênero. Eu tenho…

Lido, Enrique Vila-Matas é mais leve do que lendo
Vida literária / 07/07/2012

Uma emocionante homenagem ao recém-falecido escritor italiano Antonio Tabucchi em que é impossível demarcar com precisão a fronteira entre recordações verdadeiras e recordações inventadas; um breve ensaio poético de reverência aos radicais “escritores malogrados” que souberam diagnosticar e reagir a uma supostamente evidente ”morte da literatura”; e, por fim, um exame um tanto autocondescendente da própria obra em que seu último livro, “Ar de Dylan”, aparece como ápice. Na soma dos três passos, dos três textos lidos a partir de uma mesa no centro do palco, foi uma estranha atração – como não poderia deixar de ser, sendo Enrique Vila-Matas quem é – a que substituiu o desistente francês Le Clézio no horário nobre da Flip 2012, hoje à noite. Será verdade que o pequeno Vila-Matas, com apenas cinco anos de idade, foi vizinho de veraneio de um Tabucchi cinco anos mais velho, a quem dizia insistentemente que “os adultos são estúpidos”? Qualquer que seja a resposta, ela não tirará o brilho de uma frase como esta: “Um dia descobri que Tabucchi era a sombra de Fernando Pessoa e decidi me tornar a sombra de Tabucchi, para ser a sombra de uma sombra de uma sombra”. Da mesma forma, há…

Zoé Valdés, Laferriére e o sexo na literatura
Vida literária / 07/07/2012

Por Raissa Pascoal Exilados de suas terras natais por ditadores, o haitiano Dany Laferrière e a cubana Zoé Valdés foram buscar na literatura o veículo para dizer que a liberdade – negada em seus países e adquirida no exterior – é impagável. Liberdade não só na escrita – agora sem censura –, mas também nos temas utilizados, que chegam a politizar até o sexo, tratado como provocação histórica, no caso de Laferrière, e de força identitária, para Zoé. “Escrevi para dizer aos ditadores: ‘Pode ficar no seu palácio em Porto Príncipe, mas você nunca vai ter a liberdade de um jovem numa cidade aberta”, disse. O encontro dos dois aconteceu na mesa O Avesso da Pátria, mediada pela jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho. Há 30 anos, Laferrière escreveu o livro Como Fazer Amor com um Negro sem se Cansar, publicado agora no Brasil pela Editora 34. No romance, o escritor utiliza cenas de atos sexuais para denunciar o racismo – ele mostra que uma branca se permite entregar-se a um negro dentro de quatro paredes, mas em público jamais tomaria um café com ele. “Não existe cena de sexo no romance sem que haja um duelo de identidades cara a…

‘Em família’: sob o signo de Tolstoi
Vida literária / 07/07/2012

Todas as boas mesas se parecem; as ruins são ruins cada uma à sua maneira. A paródia da frase de abertura de “Ana Karenina”, de Leon Tolstoi – citação mais batida da Flip 2012 – deixa pendente a tarefa de entender por que não funcionou a mesa “Em família”, que reuniu hoje à tarde Zuenir Ventura, João Anzanello Carrascoza e Dulce Maria Cardoso, com mediação do crítico João Cézar de Castro Rocha. Este não conseguiu se desincumbir da tarefa, certamente ingrata, de dar liga a um trio heterogêneo demais. Até Zuenir, jornalista consagrado que está estreando no romance com “Sagrada família”, ressentiu-se do pouco tempo propiciado pelo recurso – de falência atestada há anos – de dividir o palco entre três autores. Com a simpatia e o carisma de sempre, encaixou algumas boas tiradas – “família unida, sim; reunida, jamais!” – mas deixou a impressão de que faltou tempo para dar seu recado. Menos conhecidos do público, Carrascoza e Dulce tiveram problemas maiores. Prestigiado pela crítica, o contista que está lançando “Aquela água toda” tentou uma autodefinição: “Tematizo a vida miúda, o cotidiano, o contrário deste momento aqui. A vida não é feita de Flips”. A festejada autora portuguesa acaba…

McEwan e Egan: viva a manipulação do leitor!
Vida literária / 07/07/2012

O fato de ambos serem escritores profundamente “literários” que recentemente incursionaram pelo gênero do romance de espionagem foi apenas um dos muitos pontos de contato entre o inglês Ian McEwan e a americana Jennifer Egan na mesa que se encerrou agora há pouco. O escritor e jornalista Arthur Dapieve, mediador de uma conversa fluida e variada à qual não faltaram elogios mútuos, talvez tenha arriscado um pouco ao chamar os convidados de “dois dos maiores escritores de língua inglesa da atualidade”. Se este é um título que McEwan carrega com enorme tranquilidade, Egan, mesmo com o talento que desfilou com clareza quase obscena no excelente “A visita cruel do tempo”, premiado com o Pulitzer, ainda parece precisar de mais estrada para confirmar o superlativo. O romance que Ian McEwan está lançando em primeira mão na Flip, “Serena”, é uma história de espionagem que, como todas do gênero, tem reviravoltas surpreendentes – inclusive uma, a mais decisiva, relativa à identidade do narrador, que o leitor descobre na última linha. Depois de, surpreendentemente, entregar essa surpresa de bandeja no palco da Flip logo no início da conversa, o escritor disse esperar ver surgir no Brasil, “agora que o país está virando uma…

Mediação prejudica debate de Suketu Mehta e DaMatta
Vida literária / 07/07/2012

Por Raissa Pascoal A mesa Cidade e Democracia abriu o quarto dia da Flip com uma discussão longa, com pontos interessantes, mas que perdeu em dinâmica e conteúdo pela falta de habilidade do mediador Guilherme Wisnik na condução da discussão entre o escritor indiano Suketu Mehta e o antropólogo brasileiro Roberto DaMatta. A partir do livro Bombaim: Cidade Máxima, de Mehta, lançado no país pela Companhia das Letras em 2011, a conversa abordou pontos como o nascimento das grandes metrópoles, suas transformações e as semelhanças entre as favelas do Rio de Janeiro e de Bombaim, hoje chamada de Mumbai. Apesar de promissores, alguns tópicos deixaram de ser desenvolvidos a contento, e o mediador, que poderia incitar os autores a falar, não o fez. Durante uma hora e 20 minutos, tempo que durou a mesa, Wisnik só lançou três perguntas aos convidados. Em lugar de promover um debate, ele deu espaço para que Mehta e DaMatta falassem longamente e sem destino – a conversa não tinha um norte. Parte do tempo também foi destinado à apresentação de músicas sobre grandes metrópoles, como a canção This is Bombay, My Love, da Bollywood da década de 1950, e New York, New York, clássico na voz de Frank Sinatra….

Franzen, o esquisitão sincero
Vida literária / 06/07/2012

O escritor americano Jonathan Franzen, uma das principais estrelas da Flip 2012, divertiu e intrigou o público em igual medida na mesa encerrada agora há pouco. Com uma mistura peculiar de respostas espirituosas, piadinhas sem graça, longos silêncios aparentemente dedicados à reflexão antes de emitir um simples sim ou não, tudo isso somado a um profundo desajeitamento corporal de nerd de anedota, Franzen conversou com o mediador Angel Gurría-Quintana e respondeu também às perguntas do público. Soou sincero, apesar de parecer caprichar na pose de esquisitão, ao admitir, por exemplo, que vivia com seu amigo David Foster Wallace uma relação extremamente competitiva. Mas deixou claro que nada o empolgou tanto em sua visita ao Brasil quanto o fato de ter observado pássaros. O elogio que fez à região de Paraty por sua riqueza ornitológica foi o momento mais empolgado da noite. Abaixo, uma seleção de suas falas propriamente literárias (as perguntas vão resumidas). Todas as famílias felizes se parecem, como disse Tolstoi? “Tolstoi estava dizendo algo bastante óbvio, que se está tudo certo com uma pessoa, por que você leria sobre elas? Nós exageramos tudo. Para uma pessoa que escreve romances, a vida comum não é interessante o suficiente. Você…

Adonis: Obama é uma máscara negra num rosto branco
Vida literária / 06/07/2012

Por Maria Carolina Maia A política voltou ao palco principal da Flip na noite desta sexta-feira, na mesa Literatura e liberdade, que reuniu os poetas árabes Amin Maalouf (do livro O Mundo em Desajuste, publicado pela Difel) e Adonis (que acaba de ter um primeiro livro, a seleta Poemas, lançado no Brasil pela Companhia das Letras). De gerações diferentes, Adonis, 82, e Maalouf, 63, falaram da situação dos países que passam pela chamada Primavera Árabe e da relação entre árabes e americanos. Para os dois poetas, embora em menor grau para o otimista Maalouf, o governo de Barack Obama foi uma decepção. “Obama é uma máscara negra sobre um rosto branco”, disse Adonis, pseudônimo de Ali Ahmad Said Esber. Sobre a chamada Primavera Árabe, o poeta sírio hoje radicado em Paris foi taxativo. “É apenas a troca de um fascismo militar por um fascismo religioso”, disse, sem esperanças de renovação. Segundo Adonis, para haver uma revolução de fato nos países árabes é preciso laicizar a sociedade e  libertar as mulheres do jugo do Islã. “Não podemos defender nenhum regime árabe”, afirmou Adonis. “Precisamos nos perguntar o que vamos fazer depois que esse movimento acabar. Se a mulher não tiver liberdade,…

Do ódio a Bush ao amor a Nova York
Vida literária / 06/07/2012

“Os anos Bush foram puro horror.” As declarações políticas do nigeriano-americano Teju Cole, autor do romance “Cidade aberta”, elevaram um pouco a temperatura da mesa “Exílio e flânerie”, que ele dividiu hoje à tarde com a argentina-brasileira Paloma Vidal, autora de “Algum lugar”. Numa conversa de resto morna, baseada no fato de ambos serem desterrados e condenados a uma certa estrangeirice crônica onde quer que estejam, o talentoso Cole – que nasceu nos EUA de pais nigerianos, mudou-se para a Nigéria ainda bebê e só retornou a seu país natal aos 17 anos – foi enfático: “Se você se opunha a Bush, se era contra os planos de guerra, podia ser perseguido nos EUA. Acabava tendo que carregar esse peso secretamente. Eu tive úlcera por causa da invasão do Iraque. A década depois do 11 de setembro foi um grande fracasso para os EUA. Mostrou que, diante de um desafio realmente sério, nós nos comportamos como tolos e descontamos nos outros, em gente que nada tem a ver com isso. Foi uma fase horrível e ainda não terminou por completo”, afirmou. Sobre o desterro, disse Cole: “Há algo que parece natural, decidido talvez no céu, no fato de carne de…

Nas lacunas, a genialidade de Shakespeare
Vida literária / 06/07/2012

Por Maria Carolina Maia Numa mesa rara na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), um finado autor brasileiro deu lugar a um finado estrangeiro. Shakespeare, que como bem lembrou o mediador Cassiano Elek Machado é um dos maiores, se não o maior escritor de todos os tempos, foi teve sua genialidade reconstruída pelos especialistas Stephen Greenblatt (de Como Shakespeare se tornou Shakespeare e do novo A Virada, ambos publicados no país pela Companhia das Letras) e James Shapiro (1599: Um Ano na Vida de William Shakespeare, lançado pela Planeta, e Quem Escreveu Shakespeare?, da Nossa Cultura). Para ambos, a força de Shakespeare se deve às lacunas que ele criou em suas obras. Homem da virada do século XVI para o XVII, Shakespeare (1564-1616) atuou num período em que o teatro era quase tão artesanal quanto o oficio de seu pai, um homem que fazia luvas no interior da Inglaterra. Trabalhou sobre o palco, como ator, e por trás dele, escrevendo peças quase sempre baseadas em enredos já existentes. O seu segredo, o que o tornava tão especial e popular, era, como chamou Greenblatt, o tipo de “reciclagem”que fazia dos textos dos outros. Ou, mais exatamente, o que ele sacava desses…

Espírito de Drummond baixa na Tenda dos Autores
Vida literária / 06/07/2012

Ambos poetas, críticos e professores de literatura com décadas de reflexão sobre a obra de Carlos Drummond de Andrade, Alcides Villaça e Antonio Carlos Secchin protagonizaram há pouco um dos melhores momentos da Flip 2012, na mesa “Drummond, o poeta moderno”. Cada um partiu da leitura detida e apaixonada de um poema – “O elefante”, no caso de Villaça, e “Áporo”, no de Secchin – para iluminar aspectos da obra do autor homenageado. Curiosamente, os dois poemas pertencem ao livro “A rosa do povo” (1945), da fase politicamente engajada do poeta, o mesmo em que Antonio Cícero foi buscar “A flor e a náusea”, que leu e comentou na conferência de abertura, quarta à noite. Encarregado da mediação da conversa de hoje, o ex-curador da festa Flavio Moura apontou essa coincidência aos dois debatedores, que no entanto não confirmaram a tese de uma suposta centralidade do título na obra drummondiana. Secchin, porém, observou que a costumeira leitura de “A rosa do povo”como um livro simplesmente “político” deixa de levar em conta que Drummond, mesmo tendo se aproximado do Partido Comunista, permaneceu um poeta complexo que cultivava, “ao lado da rosa pública, outras flores íntimas em seu jardim secreto”. Em suas…

Gabeira: Dilma tem relação autoritária com o Congresso
Vida literária / 05/07/2012

Por Raissa Pascoal Era de se esperar que uma mesa intitulada Autoritarismo, Presente e Passado, com mediação do jornalista Zuenir Ventura e a participação do ex-deputado federal Fernando Gabeira e do ex-secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro Luiz Eduardo Soares, fosse mais política que literária. E assim foi. Sem decepcionar expectativas, a mesa de Soares e Gabeira passeou pela história política do Brasil, tratando da tradição autoritária brasileira, que, para o político do PV, chega até o governo atual de Dilma Rousseff. VEJA Meus Livros: Jonathan Franzen é uma gracinha “A relação da presidente Dilma com o Congresso Nacional é um pouco de distância. Não porque o despreze, mas porque os marqueteiros disseram que era importante afastar a sua imagem da imagem dos congressistas. Hoje, você não vê projetos do governo ou a presidente chamando congressistas para convencê-los de uma ideia. O Congresso passou a ser carimbador e, nesse sentido, a relação é autoritária. Ela não fala com o Congresso nem com os partidos, mas direto com a população a partir de uma técnica marqueteira”, disse Gabeira. Ainda falando de autoritarismo, Soares e Gabeira apresentaram seus comentários sobre a Comissão da Verdade, instalada pela presidente no início do…

Cercas e Vásquez: história, histórias
Vida literária / 05/07/2012

Na mesa “Ficção e história”, no fim da tarde de hoje, na Tenda dos Autores, o espanhol Javier Cercas e o colombiano Juan Gabriel Vásquez, dois escritores com muito em comum, travaram uma conversa cordial em que sobressaiu uma determinação de concórdia, evidentemente fundada numa camaradagem já estabelecida (“na Austrália, aquela vez, dissemos que…”, mandou Cercas a certa altura). Ainda assim, foi curioso observar como, sob a superfície, algumas tensões estéticas acabaram por transparecer entre dois cultores do romance histórico. Vásquez, um sucesso de crítica desde sua estreia, com o romance “Os informantes”, é autor ainda de “História secreta de Costaguana” (ambos lançados no Brasil pela L&PM), e ganhou ano passado o prêmio Alfaguara com o ainda inédito por aqui El ruido de las cosas ao caer. Uma das vozes emergentes mais destacadas da literatura contemporânea em espanhol, afirmou, concordando com Milan Kundera, que “a única razão para escrever um romance é dizer algo que só um romance pode dizer. O romance como gênero não reproduz o mundo, deve recriar o mundo. O romancista pode distorcer os fatos conhecidos para chegar a uma outra verdade, uma verdade metafórica”, disse, lembrando que em “História secreta de Costaguana”, que recria a história…

Vila-Matas e Zambra: sobre livros sobre livros
Vida literária / 05/07/2012

Livros que falam de livros foram o tema da conversa entre o espanhol Enrique Vila-Matas e o chileno Alejandro Zambra, no meio da tarde de hoje, na mesa “Apenas literatura”. Isso tornou simpática, ainda que pouco surpreendente, a conversa entre dois autores que de resto têm diferenças significativas – inclusive de maturidade e prestígio, com Vila-Matas, nascido em 1948, representando o papel de autor solidamente estabelecido e Zambra, que é de 1975, o de jovem revelação. Vila-Matas, que está lançando pela Cosac Naify, sua editora habitual, o romance “Ar de Dylan”, provocou risos discretos ao dizer que a cena inicial do livro, embora poucos acreditem, foi inspirada numa história real ocorrida com ele. “Eu estava quieto na minha casa e recebi um convite para uma conferência na Suíça. Era uma conferência sobre o fracasso. Isso me surpreendeu bastante. Contei para alguns amigos, e todos ficaram com pena de mim. A verdade é que nunca fui ao congresso, porque tinha outro compromisso”, afirmou. Mas o episódio serviu de pontapé inicial para mais um romance metalinguístico, lúdico e irônico do autor de “O mal de Montano”. Zambra começou por fazer um esforço tocante para ler em português – “língua que desconheço amplamente”,…

A morte como musa inspiradora
Vida literária / 05/07/2012

Por Maria Carolina Maia A nova literatura brasileira, que aliás ganha uma edição especial da revista literária Granta nesta quinta-feira, marcou a primeira mesa da 10ª Flip. A nova literatura brasileira e a morte. O goiano André de Leones, o gaúcho Altair Martins e o mineiro Carlos de Brito e Mello se runiram no palco principal da festa em Paraty para falar da presença da finitude em seus livros. “Em A Passagem Tensa dos Corpos, eu parti da ideia de que, quando uma morte acontece, se inicia uma narrativa”, disse Brito e Mello, o último a falar e, apesar do carisma geral, um dos mais interessantes da mesa, que foi mediada pelo professor de literatura João Cezar de Castro Rocha. “Quando escrevia, eu lembrei da minha experiência de criança na casa dos meus avós em Visconde do Rio Branco, interior de Minas Gerais, onde a família se reunia aos fins de semana, especialmente na cozinha. Nessa cidade, os óbitos eram comunicados por um carro de som, na rua. Quando o carro anunciava um nome, todos na cozinha começavam a contar coisas da vida da pessoa, que então virava um personagem.” Brito e Mello, que teve o romance A Passagem Tensa…

Uma flor para Drummond
Vida literária / 04/07/2012

O poeta Antonio Cícero foi responsável pelos melhores momentos da mesa de abertura da Flip, a primeira das três previstas para homenagear Carlos Drummond de Andrade, encerrada agora há pouco. Ao fazer um inspirado exercício de close reading, isto é, de leitura detida, verso a verso, do poema “A flor e a náusea”, terminou por se aproximar mais – e ao público – do poeta mineiro do que o crítico Silviano Santiago conseguiu, com sua explanação de ambição totalizante, que ele mesmo se apressou a reconhecer como tarefa “inglória”, de uma obra extensa e multifacetada demais para tanto. A noite começou com uma breve crônica de Luis Fernando Verissimo, escalado para saudar a décima edição da Flip – festival ao qual, certa vez, escreveu que aceitaria vir “até para trocar uma lâmpada”, como lembrou o curador Miguel Conde ao apresentá-lo. O cronista tratou de divertir o público com sua verve, lembrando que em 2008, ao entrevistar, nervoso, o dramaturgo inglês Tom Stoppard no palco da Tenda dos Autores, confundiu-se a chamou o evento de “Clip”. “O público não entendeu, mas o C era de celebração”, brincou. Afirmando ter sido convidado para apresentar na Flip um “panorama da obra” de Drummond,…

Drummond, Vila-Matas, Franzen, McEwan: …5, 4, 3, 2, 1!
Vida literária / 04/07/2012

O homenageado – demorou – é Carlos Drummond de Andrade, mas a décima edição da Festa Literária Internacional de Paraty, que começa hoje à noite, promete ser dominada por outro tímido famoso: o escritor catalão Enrique Vila-Matas, que está no Brasil lançando seu novo romance, “Ar de Dylan”, topou na última hora dobrar seu tempo de exposição no evento para suprir a lacuna deixada pela desistência do francês J.M.G. Le Clézio. Além de dividir a mesa das 15h de quinta-feira com o chileno Alejandro Zambra, como estava previsto, Vila-Matas fará uma conferência no horário mais nobre de todos – 19h30 de sábado –, que havia sido reservado para o prêmio Nobel de 2008. Sob o título “Música para malogrados”, consta que falará sobre alguns dos temas que revisita obsessivamente em seus romances, entre eles o potencial redentor do fracasso e a recusa do ato de escrever como gesto artístico maior. “O momento em que a literatura se reduz a um produto de mercado é também o momento de sua irrevogável extinção. Este, afirma Enrique Vila-Matas, é o momento que vivemos hoje”, diz o programa da Flip. É ironicamente apropriado, bem ao gosto de Vila-Matas, que seu imprevisto protagonismo tenha sido…

Ser universal é um direito que se conquista

No auditório da Biblioteca Nacional, no centro do Rio, quarta-feira à noite, predominavam escritores, editores, tradutores e jornalistas culturais. Compondo a mesa estavam a inglesa Amy Webster, representante da Feira do Livro de Londres, e o escritor João Paulo Cuenca, além de mim. A propósito do lançamento carioca da revista literária londrina “Litro”, que em seu número 114, com edição da inglesa Sophie Lewis, reuniu autores brasileiros – Cuenca e eu entre eles – a ideia da noite era discutir as possibilidades de exportação de nossa literatura para o fechado mercado britânico num momento em que o cenário econômico mundial deixou o Brasil, por assim dizer, na moda. Por via das dúvidas, Amy começou tratando de jogar muitas pints de água gelada em qualquer fogueirinha que pudesse – tudo é possível – ter começado a arder no peito dos ufanistas. Com apenas 3% de seu mercado ocupado por traduções, uma fatia mínima que é abocanhada quase inteiramente por vendedores de peso como o sueco Stieg Larrson, o fato é que as brechas para a entrada de literatura brasileira no Reino Unido são virtualmente inexistentes. Membro de uma delegação de editores britânicos que está no Brasil neste momento para conhecer melhor…

Twitter: como ser conciso e prolixo ao mesmo tempo
Pelo mundo , Vida literária / 18/06/2012

O fato de escrever sobre literatura neste blog há seis anos, sem interrupções, me leva a ser convidado com frequência para tratar de um assunto que deve ter grande apelo para o público interessado em literatura, a julgar pela vaga cativa que os curadores lhe destinam na programação de feiras e congressos: o da convergência entre o velho mundo das letras e o novo mundo digital. Sempre que me perguntam em tais ocasiões se a internet mudou ou vai mudar nosso jeito de escrever, respondo que sim, claro que mudou, está mudando, mas não tão depressa nem tão inequivocamente quanto se costuma imaginar. Estamos, como é típico da contemporaneidade, apalpando o caminho numa sala escura. Este artigo (em inglês, via Arts & Letters Daily)) que acaba de sair no último número da revista literária americana “n+1” acende algumas luzes no breu, como se pode ver nos trechos abaixo: Nos seus melhores momentos, o Twitter diverte e instrui. Alguém, frequentemente alguém de quem você não esperaria isso, condensa o Espírito do Tempo numa ótima anedota, epigrama ou sacada. (…) Olhe para sua página do Twitter no momento errado, porém, ou mande você mesmo um tweet idiota, e de repente um infinito…

Uma ideia legal: o e-mail corporativo-literário
Vida literária / 11/06/2012

Incentivo à leitura e divulgação da literatura brasileira contemporânea parecem temas áridos, para não dizer inglórios? Que tal convocar os profissionais? A agência de publicidade Lew’LaraTBWA acaba de inventar uma utilidade cultural surpreendente para o espaço daquele “texto legal” que muitas empresas colam no pé dos e-mails de seus funcionários, em geral algo chato na seguinte linha: “Esta mensagem e seus arquivos anexados podem conter informações confidenciais e/ou legalmente protegidas etc.” “Por que o texto legal que aparece no final do e-mail não pode ser legal de verdade?”, pergunta o material preparado pela agência para apresentar a Biblioteca do Texto Legal, uma criação de Cesar Herszkowicz e Max Geraldo. Desde a semana passada, os e-emails dos funcionários da agência trazem no pé crônicas e minicontos de escritores brasileiros convidados. Tenho a honra de estar nessa primeira leva (com o conto “História do mundo em 13 tweets”, que pode ser lido por quem clicar na imagem acima), ao lado de Ignacio de Loyola Brandão, Xico Sá, Antonia Pellegrino, Elisa Andrade Buzzo e Milly Lacombe, entre outros autores. Se a moda pega, não sei não. Corremos até o risco de virar um país de leitores. * Ontem, no Sobre Palavras, me despedi…

Eagleton é mais um dos grandes críticos autocríticos
Pelo mundo , Vida literária / 06/06/2012

O crítico inglês Terry Eagleton (foto) acaba de dar uma interessante entrevista para a revista acadêmica “The Oxonian Review” (em inglês, aqui). Nela apresenta uma visão extremamente negativa do atual estado dos estudos literários acadêmicos e dá um conselho seco aos “jovens críticos”: “Não é um bom momento para estar nas universidades”. Vindo de um nome fundamental da teoria literária britânica, o desabafo tem impacto. Na sua opinião, os jovens estudiosos de literatura sabem “discorrer de forma muito inteligente sobre o contexto de um poema”, sem no entanto ter a menor ideia de como “falar dele como poema”. Marxista, Eagleton tenta dar a esse desejo de restauração dos valores tradicionais da literatura uma roupagem progressista: trata-se, a seu ver, de recuperar para os críticos a relevância cultural dos grandes “intelectuais públicos”, em oposição ao que considera o conformismo reinante com o fechamento da academia em si mesma. Reagindo a uma provocação dos entrevistadores, o crítico traça então um limite para a autocrítica: afirma não acreditar que a razão do problema deva ser buscada numa suposta overdose de teoria dentro da universidade. Ela estaria no mundo lá fora, num miasma em que entram “a mídia, o pós-modernismo, o status da palavra…

Um belo Poe, uma Flip tranquila e outros links
Pelo mundo , Vida literária / 04/06/2012

Conhece essas ilustrações de 1919, do inglês Harry Clarke, para os contos de mistério de Edgar Allan Poe? Eu não conhecia. Coisa finíssima. * Hoje, dez da manhã, quando se abriram os portões virtuais, tudo correu com suavidade na compra de ingressos para a Flip no site Tickets for fun. Agora, passando do meio-dia, as entradas para a Tenda dos Autores estão esgotadas na maioria das mesas, o que era previsível, mas ainda não ouvi – por email, telefone ou redes sociais – nenhum sinal do choro e do ranger de dentes que em outras edições do evento eram parte da paisagem, diante de conexões que caíam no meio do processo de compra, informações desencontradas etc.. Sim, está certo que cobrar 20% de “taxa de conveniência” é extorsivo, mas isso não é exclusividade da Flip. No décimo aniversário da festa, a bagunça da venda de ingressos parece ser uma herança maldita que ficou definitivamente para trás. * Você gostaria de viver para sempre? Tolinho. Um livro do filósofo Stephen Cave explica por que a imortalidade é uma daquelas ideias que parecem ótimas e na verdade são péssimas. Como champanhe no café da manhã. * Furo de Raquel Cozer na “Ilustrada”…

Chegou a hora de ler ‘Ulisses’? Talvez, mas sem estresse
Mercado , Vida literária / 23/05/2012

Se você for um daqueles que contemplam a obra-prima de James Joyce a certa distância, com um misto de fascínio e pavor, sem jamais se animar a encarar suas muitas centenas de páginas, saiba que seu nome é legião. Talvez você tenha passado batido pela tradução pioneira de Antonio Houaiss (Civilização Brasileira, 1966) porque ela tem fama de erudita demais – “será que ele usa todas as palavras do dicionário dele?” – e um estranho “Sims” como palavra final, quando o original é um simples Yes. (Millôr Fernandes, irreverente como o próprio Joyce, sugeriu a tradução “É”, como num grito de orgasmo.) Pode ser ainda que a versão mais coloquial da professora Bernardina Pinheiro (Objetiva, 2005), que procurou tornar o “Ulisses” menos intimidador, mais joycianamente brincalhão, e ainda restituiu o “Sim” de Molly Bloom à sua singularidade, também não tenha sido suficiente para levá-lo a encarar o tijolo. Nesse caso, quem sabe você está se sentindo finalmente tentado a dar uma chance a Leopold Bloom na recém-lançada tradução de Caetano Galindo (Penguin/Companhia), que consumiu dez anos de trabalho, contou com a “coordenação editorial” de um tradutor experiente como Paulo Henriques Britto e vem embalada numa capa elegante e cabeçuda como…

Dalton Trevisan ganha o prêmio Camões
Vida literária / 21/05/2012

Genial, genioso e muito mais recluso do que Rubem Fonseca jamais sonhou ser, o contista curitibano Dalton Trevisan é o vencedor do 24º Prêmio Camões 2012, o mais importante da literatura de língua portuguesa. O vencedor do Camões – que também já premiou os brasileiros João Ubaldo Ribeiro, Ferreira Gullar e o próprio Rubem Fonseca, entre outros – recebe 100 mil euros, em torno de R$ 260 mil. Presidido pelo crítico brasileiro Silviano Santiago, o júri tomou a decisão por unanimidade. O anúncio foi feito hoje de manhã em Lisboa por Francisco José Viegas, secretário de Cultura de Portugal. Leia aqui a reportagem do jornal português “Público”. O júri justificou assim a escolha: “Dalton Trevisan significa uma opção radical pela literatura enquanto arte da palavra. Tanto nas suas incessantes experimentações com a língua portuguesa, muitas vezes em oposição a ela mesma, quanto na sua dedicação ao fazer literário sem concessões às distrações da vida pessoal e social”. Dalton, que completa 87 anos no mês que vem, manteve em toda a sua carreira impressionante fidelidade a um estilo de prosa de crescente minimalismo e temática inconfundível, marcada em doses iguais por erotismo à flor da pele, provincianismo e uma espécie aguda…

Você decide: por que a literatura brasileira é assim?

No distante julho de 2007, impressionado com a capacidade que tinham os “debates críticos” sobre a literatura brasileira dos últimos 20 anos de descambar para lugar nenhum, publiquei aqui um Sobrescrito em forma de enquete chamado O problema é ‘o problema’, mais tarde compilado no livro “Sobrescritos” (Arquipélago Editorial, 2010). As respostas foram desenhadas de acordo com as metodologias mais avançadas de prospecção sociocultural da Universidade de Itaguaí, a fim de cientificamente dar conta de todos os vetores relevantes da nossa “cena”. O único problema com aquele experimento pioneiro é que a enquete era falsa, um mero simulacro literário de enquete: o internauta não votava. Será por isso que, cinco anos depois, ainda estamos mais ou menos no mesmo lugar? Por via das dúvidas decidi republicar a enquete, mas desta vez é diferente: ficamos interativos, docemente interativos. Vote, caro leitor, e ajude a descascar esse pepino. . [poll id=”61″]

Cachê de Gabriel o Pensador não incentiva a leitura
Vida literária / 23/04/2012

O poeta e frasista gaúcho Fabrício Carpinejar criou um fato cultural mais relevante e atual do que a polêmica entre Caetano Veloso e Roberto Schwarz ao cancelar ontem, por meio de uma carta aberta, sua participação na Feira do Livro de Bento Gonçalves (RS). Motivo: a organização do evento acertou um cachê de R$ 170 mil com o rapper e autor de literatura infantil Gabriel o Pensador, depois de, alegando limitações orçamentárias, fechar com Carpinejar e outros escritores um pagamento de apenas R$ 1 mil. A questão é relevante porque acende um raro holofote numa zona de fronteira típica do ambiente literário dos últimos anos: aquela em que os velhos valores cabeçudos, introspectivos e desprovidos de vintém da leitura se cruzam com os da sociedade do espetáculo, essa senhora rica, espalhafatosa e desmiolada. Uma espécie de metáfora coletiva do casamento de Arthur Miller e Marylin Monroe. A tentativa de transformar escritores em atores e livros em objetos cênicos da grande peça que hoje se encena mundo afora, chamada “Celebridades”, tem promovido a proliferação de feiras e “festas literárias” pelo país, na esteira do sucesso da Flip. Isso faz de escritores viajantes contumazes e lhes proporciona uma bem-vinda fonte alternativa de…

O não-Pulitzer, a não-política – e outros sim-links
Pelo mundo , Vida literária / 20/04/2012

Baixada a poeira, já dá para dizer: Laura Miller, ex-jurada do prêmio Pulitzer, publicou na Salon.com a melhor reflexão (em inglês) que vi por aí sobre a polêmica ausência de um representante da literatura de ficção entre os laureados deste ano, algo que não ocorria desde 1977. Miller explica o frequente atrito entre as deliberações do júri, formado por gente da área de literatura, e o aval do conselho do Pulitzer, que tem interesses variados e costuma levar as decisões para um terreno próximo do gosto médio – daí, aliás, a costumeira eficácia do prêmio como propulsor de vendas. Os conselheiros se comprometem a ler os finalistas, claro, mas é só. Qualquer manobra fora desse terreno é limitada. Miller sustenta basicamente que, como hoje em dia ninguém fora do gueto literário tem tempo nem vontade de se manter em dia com os lançamentos, por melhores ou mais comentados que eles sejam, o consenso em situações desse tipo tende a ser cada vez mais difícil: Segundo todos os relatos, o grupo (de conselheiros) não conseguiu construir uma maioria em torno de nenhum dos três títulos recomendados pelo júri. É certamente improvável que um número suficiente deles tenha lido ficção de forma…

Literatura? A minha com libido, por favor
Vida literária / 11/04/2012

Bem, vocês que são jovens corajosos, abram o ‘Grande sertão’ e leiam as 565 páginas. Isso para mim é um ato de coragem, ler ‘O jogo da amarelinha’, do Cortázar. Leia ‘Guerra e paz’. É um ato de coragem, transgressor, vai fazer bem para a sua vida, para a sua alma, para as conversas com a namorada. É um assunto e tanto. Já pensou, ‘Guerra e paz’? Três anos de conversa. Poucos momentos de silêncio e tédio. Chega o tédio, você fala: “tem uma cena no Grande sertão…”. É um casamento, uma vida inteira. Quando ele entra nas veredas mortas… sabe por que veredas mortas? Porque alguma coisa vai acontecer. É um lugar sombrio, obscuro. Conta isso para ela. Milton Hatoum, autor de “Dois irmãos” e “Cinzas do Norte”, saiu-se com a excelente tirada acima em seu bate-papo público na série de encontros Um escritor na Biblioteca, organizada pela Biblioteca Pública do Paraná, transcrita e publicada pelo jornal “Cândido”. Tocou num ponto nevrálgico que as campanhas pró-leitura, em geral chatíssimas, costumam deixar de lado por pudor ou caretice: o fato de que, em sua fase de formação, todo leitor é um aventureiro movido pela libido – nem mais nem menos…

A verdadeira máquina de escrever é o cérebro
Pelo mundo , Vida literária / 02/04/2012

Descubro sem surpresa, mas com algum pesar, que já existe alguém na internet declarando seu ódio a máquinas de escrever como peças de decoração moderninha – um tumblr dedicado à trollagem dos modismos do design chamado, significativamente, Fuck Your Noguchi Coffee Table. Não, é claro que isso não quer dizer muito. Tente imaginar qualquer coisa no universo que não mereça declarações de ódio em algum lugar da internet e você se verá em apuros. Mas achei curioso, porque não fazia ideia disso e nunca vi nada parecido nas casas que frequento, descobrir que uma paixão que alimento há anos vai, em alguma parte do mundo, entrando no terreno do clichê. Há dois anos e meio, quando rolou a notícia de que Cormac McCarthy estava leiloando sua velha Olivetti, saí do armário aqui no blog como amante e pequeno colecionador de máquinas de escrever. Na verdade, tenho só três peças, todas de valor afetivo, que na época apresentei assim: Tenho em casa um modesto museu da máquina de escrever. Além da portátil Hermes 2000 que já comprei velhinha nos anos 1980, num antiquário, mas ainda cheguei a usar, conservo a pesada Remington que herdei de meu pai, na qual batuquei meus…

Entre Narciso e o suicídio, a literatura balança
Vida literária / 30/03/2012

A literatura é hoje um campo que se questiona de modo histérico, com resultados entre o suicida e o narcísico. O discurso literário parece sentir, de alguma forma, que perdeu o direito à existência. O que quer que o justificasse perante si mesmo não o justifica mais. Entre as atitudes que o discurso literário toma diante disso, destaco duas que me parecem especialmente significativas: deitar no caixão e declarar-se morto, como um personagem de Nelson Rodrigues, procedendo então à auto-autópsia; ou, feito uma drag queen de quermesse, se montar inteiro com maquiagem, bijuterias, próteses, piscando muito para o espelho e dizendo: “Eu existo, ói eu ali”. (Seria interessante – mas foge aos propósitos deste artigo, para não falar da minha competência – investigar o que haverá de analogia estrutural e especularidade simbólica entre duas crises culturais contemporâneas, a “do macho” e a da literatura de ficção.) A verdade é que, além daqueles que a fazem e da pequena seita que a consome sistematicamente, ninguém no mundo de 2012 está prestando lá uma terrível atenção à ficcão literária, como diriam em inglês – literatura artisticamente ambiciosa, digo eu. A ficção comercial vai bem, mas o público da ficção dita séria míngua…

Millôr, a audácia de um pessimista anarco-humanista
Vida literária / 28/03/2012

Millôr Fernandes é um escritor de domínio linguístico invejável e ouvido perfeito. Em crônicas, frases soltas, poemas curtos, pastiches, peças de teatro originais e memoráveis traduções, deixa um legado textual variado que expressa com grande coerência, em meio à diversidade das formas, uma visão de mundo que se poderia chamar de, hmm, milloriana. O esquema é provisório, claro, traçado ainda sob o impacto de sua morte, mas acredito ser possível identificar quatro linhas de força principais em seus escritos: pessimismo, anarquismo, humanismo e uma quarta qualidade, mais difícil de definir, que ele mesmo chamou de audácia, mas que também se poderia chamar de irreverência, caso a palavra não estivesse tão gasta, ou mesmo de molecagem. Volto à versão bruta da entrevista que fiz com Millôr para a revista “Bravo!”, no dia 14 de novembro de 2008 (versão editada aqui), e descubro que os quatro pontos são cobertos de alguma forma em nossa conversa, embora eu ainda não os tivesse discriminado na época. O pessimismo de Millôr é uma das fontes evidentes de seu humor. Levado ao superlativo, dá em frases como estas: “Nunca ninguém perdeu dinheiro apostando na desonestidade”; “Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem” e…

Millôr, a generosidade do gênio
Vida literária / 28/03/2012

A perda de Millôr Fernandes (1923 ou 1924-2012, ele dizia haver controvérsia sobre o ano de nascimento) chega a ser, sob muitos aspectos, ainda maior que a de Chico Anysio para a cultura brasileira, mas as duas nos atacam na mesma esquina, a da inteligência com a alegria, o que basta para tornar este março de 2012 um mês inesquecivelmente funesto. Para mim, existe ainda um agravante: com Millôr eu tive a sorte de ter contatos profissionais que, se não me permitem falar propriamente em amizade, enchem este momento de um luto mais sombrio e mais sentido. Não é à toa que o céu hoje está enfarruscado sobre o mar de Ipanema, bairro que “o grande filósofo brasileiro” – nas palavras do jornalista Sérgio Augusto – adotou precocemente em 1954, quando aquilo mal passava de um areal, e cuja mitologia ajudou a construir. Pouco mais de três anos atrás, em novembro de 2008, quando, por encomenda da revista “Bravo!”, eu me encontrei com Millôr em sua cobertura-estúdio junto à hoje atarefadíssima praça General Osório, o gênio carioca já se movia com dificuldade, mas mentalmente conservava uma vivacidade e um fôlego que renderam muitas horas vertiginosas de conversa, piadas, maledicências, trocadilhos,…

Tabucchi (1943-2012) e as garatujas na areia
Pelo mundo , Vida literária / 26/03/2012

A vida não está em ordem alfabética como há quem julgue. Surge… ora aqui, ora ali, como muito bem entende, são migalhas, o problema depois é juntá-las, é esse montinho de areia, e este grão que grão sustém? Por vezes, aquele que está mesmo no cume e parece sustentado por todo o montinho, é precisamente esse que mantém unidos todos os outros, porque esse montinho não obedece às leis da física, retira o grão que aparentemente não sustentava nada e esboroa-se tudo, a areia desliza, achata-se e resta-lhe apenas traçar uns rabiscos com o dedo, contradanças, caminhos que não levam a lado nenhum, e você continua insistentemente no vaivém, que é feito daquele abençoado grão que mantinha tudo ligado… até que um dia o dedo resolve parar, farto de tanta garatuja, você deixou na areia um traçado estranho, um desenho sem jeito nem lógica, e começa a desconfiar de que o sentido de tudo aquilo eram as garatujas. E que belas garatujas! O trecho acima é de “Tristano morre” (Rocco, tradução de Gaetan Martins de Oliveira), romance em forma de monólogo de um moribundo que o escritor italiano Antonio Tabucchi (foto) lançou em 2004. Tabucchi morreu ontem, aos 68 anos,…

Escritor brasileiro bom é escritor brasileiro morto

Interessante com certeza, preocupante talvez: a enquete sobre o mais inesquecível personagem da literatura brasileira, que lancei aqui na quarta-feira, ainda está em andamento, mas com mais de oitocentos votos já permite traçar um padrão claro. Quanto mais velho o livro, mais ele ressoa junto aos leitores. Está certo que temos no século 19 um monstro chamado Machado de Assis (foto). Está certo também que o recuo no passado costuma ser um dos requisitos para a incorporação de uma obra literária ao cânone. No entanto, nada disso permitiria prever uma curva quase inteiramente linear: começando por Capitu e Brás Cubas, os líderes da corrida, e passando por Emília, Macunaíma, Capitão Rodrigo, Diadorim, Gabriela, a votação dos personagens vai minguando à medida que os livros em que eles surgiram se aproximam do presente. A tendência é tão forte que passa por cima até de algo que, à primeira vista, poderia parecer decisivo para a popularidade de personagens literários: o fato de terem ou não transcendido as páginas para ganhar adaptações de sucesso no cinema ou na TV. Emília e Gabriela são figurinhas manjadas na cultura audiovisual das últimas décadas, mas isso não foi suficiente para movê-las dos lugares que a linha…

Companhia das Letras anuncia reestruturação e outros links
Mercado , Vida literária / 16/03/2012

Principal editora de literatura do país, a Companhia das Letras anunciou há pouco – neste texto assinado pelo editor Luiz Schwarz em sua coluna no blog da casa – a criação escalonada, entre o mês que vem e março de 2013, de quatro novos selos que tornarão a empresa um “grupo editorial”. Os novos selos terão autonomia, “como se fossem novas editoras”, e para eles serão desviados inclusive autores que hoje são publicados pela Companhia. Os selos são Paralela (ficção comercial), Boa Companhia (antologias temáticas), Seguinte (infanto-juvenil) e Portfolio Penguin (negócios). * Não duvido que as fascinantes esculturas (como a da foto acima) do artista americano Brian Dettmer, que conheci no ótimo blog de Almir de Freitas, sejam a prova mais irrespondível de que, embora o mundo digital tenha muitos encantos, existem coisas que só um livro físico pode fazer por nós. * Momento egopress: meu romance “Elza, a garota” (Nova Fronteira, 2009) vai virar filme, anuncia hoje em primeira mão no “Globo” o colunista Ancelmo Gois. Os direitos de adaptação foram adquiridos pelo diretor e produtor Dodô Brandão, autor de “Dedé Mamata”, uma ficção que tem pontos de contato com a temática de “Elza”, e do documentário “3 Antônios…

Combinado: depois das baleias, a gente salva o Updike!
Pelo mundo , Vida literária / 12/03/2012

O ensaio do crítico americano Lee Siegel no décimo número da revista “serrote”, chamado John Updike ou A desimportância de ser sério, tem duas partes instigantes que, no entanto, não se encaixam muito bem. Ambas – e sua (des)conexão – vão comentadas abaixo. Na primeira parte Siegel defende John Updike (foto, 1932-2009) do que considera uma campanha sórdida – nem tão nova, mas acelerada à medida que sua vida se aproximava do fim – para desmoralizar um dos grandes escritores americanos da segunda metade do século 20. Os maiores inimigos de Updike seriam, pela ordem, o crítico James Wood e o escritor David Foster Wallace, mas o complô acabaria envolvendo Harold Bloom e a própria revista “New Yorker” em que Updike se consagrou – e que mesmo involuntariamente, nothing personal, teria aplicado no criador de Coelho Angstrom um golpe duro ao contratar Wood. O ensaísta é galhardo e até valente em sua defesa crítica de um escritor de inegáveis méritos, prolífico e generoso, que de alguma forma tornou-se uncool e anda necessitado de defesa em seu país. Deixa a sensação de que poderia ter feito um trabalho melhor em demonstrar por que Updike é importante, como eu acredito que seja…

Trailer de livro é um ‘conceito ridículo’: prova número 1

httpv://www.youtube.com/watch?v=EfzuOu4UIOU O Pop Literário de Sexta não viveria sem eles, mas trailers de livros partem, segundo uma boa tirada de Drew Grant na Salon, de “um conceito razoavelmente ridículo: tentar vender literatura para pessoas que prefeririam esperar pela adaptação cinematográfica”. Seja como for, o gênero está em ascensão (transparência total: eu mesmo já cometi um e dificilmente escaparei de outros) e tem até seu próprio prêmio no âmbito da anglofonia, o Moby Awards, que destaca os melhores e os piores exemplares do mercado no período de um ano. Nem sempre é fácil distinguir uns dos outros. Grande vencedor (sem ironia) do Moby 2011, o vídeo acima ilustra bem a observação de Grant sobre o ridículo do conceito. Feito para promover o último romance de Gary Shteyngart, já lançado no Brasil com o título “Uma história de amor real e supertriste” (Rocco, tradução de Antônio E. de Moura Filho, R$ 49,50), o trailer é quase uma superprodução. Tem participações especiais de colegas do autor – especialmente Jeffrey Eugenides, Edmund White e Jay McInerney – e até do astro hollywoodiano James Franco. Tudo para levar à estratosfera aquele manjado mandamento, “ria de si mesmo antes que os outros o façam”, caro a…

Literatura e ‘carreira’: marketing e sorte não surgiram ontem
Vida literária / 05/03/2012

As oficinas literárias costumam ser responsabilizadas pela crescente padronização e achatamento da narrativa contemporânea. Isso é injusto. É a ansiedade dos escritores temerosos de serem excluídos de sua carreira de eleição, ao lado da crença compartilhada de que nós sabemos o que é a literatura e como produzi-la, que encoraja as pessoas a escrever livros semelhantes. Não, o trecho acima não é de Saul Bellow (foto), que só será invocado algumas linhas abaixo: foi extraído deste artigo (em inglês), publicado por Tim Parks no blog do The New York Review of Books. O texto vem provocando boas conversas na blogosfera literária ao atacar, em busca de uma visão ampla, diversos aspectos polêmicos de um certo estado da literatura hoje – um balaio em que se engalfinham aspirantes e escritores “profissionais” em número inédito, cada um com seu agente e seu perfil no Facebook, todos fazendo mais ou menos a mesma coisa, segundo a avaliação pessimista do autor: Na verdade, ninguém está esperando nada muito novo. Apenas novas versões do velho. Muitas vezes, ao ler livros para resenhá-los ou talvez como jurado de um prêmio, esbarro em romances caprichados que “fazem literatura” como ela é conhecida. A literatura de ficção tornou-se…

Houaiss, Shakespeare e outros crimes
Pelo mundo , Vida literária / 02/03/2012

Envergonhado com a ação do procurador de Uberlândia contra o dicionário Houaiss, por suposto crime de racismo numa das acepções do verbete “cigano” (verbete que, por via das dúvidas, já foi tirado do ar na versão online do dicionário, tornando o caso ainda mais deprimente)? Console-se pensando no estado americano do Arizona, onde uma campanha de extremistas de direita do Tea Party contra os “estudos étnicos” na rede educacional acaba de botar na lista negra, entre outros autores, um tal de William Shakespeare. * O escritor Michel Laub esqueceu a reverência no banco do táxi, pegou a crônica A um jovem, de Carlos Drummond de Andrade – publicada no livro “A bolsa & a vida”, de 1962 – e editou os 31 conselhos literários que o poeta dá a um certo Alípio para transformá-los num decalogozinho mais ao gosto da era digital. O resultado contém alguns toques de atualidade perfurocortante: Se sentir propensão para o ‘gang’ literário, instale-se no seio de uma geração e ataque. Não há polícia para esse gênero de atividade. O castigo são os companheiros e depois o tédio. * Jonathan Franzen está sendo – de novo – bombardeado por acusações de misoginia, desta vez devido às…

Se conselho fosse bom…
Vida literária / 20/02/2012

Gosto dessa lista de conselhos literários de Henry Miller (1891-1980), que encontrei pela primeira vez duas décadas atrás e nunca esqueci por completo, embora só tenha voltado a esbarrar nela há poucos dias, por acaso, num corredor do hipermercado internético. “Esqueça os livros que quer escrever. Pense apenas no que está escrevendo” é um bom toque, não é? Coisa de quem já esteve no coração desse torvelinho e conseguiu sair de lá com um livro decente. Gosto de Henry Miller. Tive naquele tempo uma fase de encantamento com a trilogia “Sexus”, “Plexus” e “Nexus”, memória que prezo com devoção suficiente para preferir não revisitar seus escritos. Cada coisa tem seu tempo no mundo da leitura, e acho que há sabedoria em reconhecer e respeitar isso. O fato é que, envelhecendo bem ou não, Miller é um escritor de verdade e sua listinha de conselhos, algo que pode trazer benefícios de verdade a quem vem depois. O que é bem mais do que se pode dizer da maior parte dos exemplares do gênero. Listas de conselhos literários andam na moda. Mais até do que isso: listas de conselhos literários andam hiperinflacionadas. Tanto que este site resolveu fazer uma antilista (em inglês)…

Pop de sexta: os cartuns literários de Reinaldo
Vida literária / 17/02/2012

O humorista Reinaldo, mais conhecido por seu trabalho no grupo Casseta & Planeta, já era cartunista muito antes de sua encarnação televisiva. São de seu livro “Noites de autógrafos” (Desiderata, 2010) os cartuns literários – uma ilustre tradição da “New Yorker” – que, em clima mais escrachado que o dominante na revista da Condé Nast, fazem deste Pop de Sexta um abre-alas do carnaval. Evoé! .

Erico no IMS, McCarthy no Twitter, Franzen na TV
Vida literária / 25/01/2012

Amanhã à noite terei uma conversa íntimo-pública com Luis Fernando Verissimo sobre “Incidente em Antares”, o último romance do pai dele, diante de uma plateia de bolso no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. Lançado em 1971, o divertido livro em que Erico Verissimo (foto) cutucava a ditadura no auge da repressão e flertava com o “realismo mágico” latino-americano pela via do humor rasgado – além de passar bem perto de antecipar a moda moderninha dos zumbis – já tem um pouco mais de quatro décadas, mas a comemoração do aniversário atrasou. Fiquei tão honrado quanto surpreso ao ser convidado para o evento por Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, que detém o acervo do maior nome da literatura gaúcha. Como podia ela saber, se quase nunca falo disso, que em minha adolescência quem me enfiou na cabeça que eu ia ser escritor foi justamente Erico, que tinha presença imponente na biblioteca de meus pais e que eu li de forma compulsiva entre os 12 e os 14 anos? Pois é, ela não sabia. O que me deixa com a sensação – nada desagradável, devo reconhecer – de ter feito algumas escolhas certas na vida. Não é só…

Machado em hipertexto
Vida literária / 02/01/2012

Que tal abrir o ano com uma boa notícia? Então lá vai: com a entrada no ar da edição em hipertexto de “Memorial de Aires”, o último romance de Machado de Assis, no site machadodeassis.net, a Casa de Rui Barbosa cumpre a promessa de disponibilizar nesse formato toda a obra romanesca do maior escritor brasileiro. O espírito didático das notas, que se abrem em caixinhas na tela quando se passa o cursor sobre uma palavra marcada, é explícito: a ambição declarada é fornecer “explicações sobre todas as citações e alusões do texto: tanto as de natureza simbólica (autores, obras de arte, personagens, fatos históricos referidos por Machado de Assis), como as menções a lugares e instituições não-ficcionais (bairros e ruas da cidade do Rio de Janeiro, lojas, teatros, cafés que as personagens machadianas frequentam)”. É possível que, não sendo um marciano recém-desembarcado neste planeta, o leitor estranhe entradas como esta, logo a primeira do “Memorial”, que começa com a seguinte frase: “Ora bem, faz hoje um ano que voltei definitivamente da Europa“: A Europa é um dos cinco continentes da Terra, onde, desde a Antiguidade Clássica, até o século XIX, a civilização ocidental alcançou o maior desenvolvimento. Para os países…

Um Vargas Llosa panorâmico e coloquial
Vida literária / 19/12/2011

O recém-lançado “Conversas com Vargas Llosa – Antes e depois do Nobel” (Panda Books, 232 páginas), de meu vizinho de blog Ricardo Setti, é um livro que tem a ambição de, sem perder o tom de bate-papo, dar conta de tudo que diga respeito ao mundo do entrevistado – vida literária, política, politicagem, sexo, visão de mundo, rotina de trabalho. A meta é atingida com folga. Admirador e conhecedor da obra de Vargas Llosa, Setti, jornalista do primeiro time, se vale dessa condição para deixar o entrevistado à vontade, mas não permite que ela lhe exclua da pauta nenhuma pergunta embaraçosa. Nem mesmo sobre a famosa briga com o ex-amigo Gabriel García Márquez – o único tema que leva Vargas Llosa a desconversar. Ampliação de um volume lançado em 1986 pela Brasiliense, com a inclusão de conversas que os dois tiveram no fim do ano passado, o livro traz uma visão panorâmica da cabeça do escritor peruano e é cheio de passagens preciosas para quem escreve ou gostaria de escrever – como na amostra abaixo: Como começa um livro? – Bem, primeiro de tudo é um ‘fantaseo’, uma espécie de especulação em torno de certo personagem ou certa situação, algo…

Borges e eu, o não memorioso: a próxima pista
Vida literária / 08/12/2011

Como não tenho a memória perfeita de Irineu Funes, sei apenas que estava no México a trabalho, cobrindo para um jornal brasileiro a Copa do Mundo que seria vencida de forma acachapante pela Argentina de Maradona, quando recebi a notícia da morte de Jorge Luis Borges. Lembro-me de ter ficado triste, o que é uma memória óbvia. Se tivesse uma fração do dom de Funes – personagem de Funes, o memorioso, um dos melhores contos de “Ficções” (1944), provavelmente o melhor livro de Borges –, estaria escrevendo agora sobre tudo o que tornou aquele 14 de junho de 1986 um dia sem igual, como todos são: temperatura, forma das nuvens, quanto tempo se passou – certamente uma vida, mas isso também é óbvio para quem conhece o México – entre a encomenda da ensalada de guacamole e sua chegada à mesa; a cor do cardápio, o comprimento da saia da morena sorridente na mesa ao lado, as letras de todas as canções com que os mariachis torturaram o jantar. Tudo isso está perdido para sempre. Só sei que estava no México, me esforçando para falar espanhol dia e noite, quando o argentino que era meu herói literário naquele tempo morreu….

Otimista com a internet, eu?
Vida literária / 21/11/2011

Michel Laub foi o primeiro a me chamar a atenção, via Twitter, para uma tensão de ideias entre o ensaio publicado este mês por Bernardo Carvalho na “piauí”, intitulado “Em defesa da obra”, e um post mais alentado que apareceu aqui no início do mês, assim que voltei das férias: Os indies, a morte da crítica e o caleidoscópio. Os dois textos têm aspirações e fôlegos diferentes, mas tratam, no fundo, do mesmo tema, aliás quente demais para que se possa manuseá-lo sem queimar os dedos: o que muda nos velhos paradigmas da literatura – e da crítica – na era da internet. Nessa arena, segundo Laub, Bernardo é “pessimista” e eu, “+ ou – otimista”. Pouco habituado a ver tal adjetivo associado a mim, fui procurar com interesse o texto antípoda, que passei então a recomendar a todo mundo. Bernardo Carvalho confirma mais uma vez ser um dos nossos autores mais antenados, além de talentosos. A certa altura diz o seguinte: Numa entrevista recente ao “New York Times”, apresentado como modelo de escritor para os novos tempos, por saber se servir da gratuidade da internet para vender ainda mais livros, Paulo Coelho declarou que Borges foi a sua maior…

Os indies, a morte da crítica e o caleidoscópio
Vida literária / 02/11/2011

Mesmo de férias – que decidi, num lance ousado, estender às redes sociais e parcialmente ao email, pois do contrário não seriam bem férias – eu não pude evitar que me chegassem ecos de uma polêmica cultural paulistana moderadamente interessante, aquela deflagrada pelo jornalista Álvaro Pereira Júnior ao criticar o clima de compadrio que ele acredita dominar a cena musical dita indie da cidade. Sim, eu sei que o assunto ficou velho, que o jornalista já bateu e apanhou o suficiente. E não, o Todoprosa não voltou das férias transformado em blog de música. Acontece que comecei a pensar no que o episódio revela, por afinidade ou por contraste, sobre nossa província das letras. O mote para essa ampliação de foco é dado pela professora universitária Ivana Bentes, que, num breve artigo sobre o caso, tomou enfaticamente o partido das bandas atacadas: O debate e a polêmica (se tem uma) é a própria crise da onipotência da critica tradicional. Por que hoje o que ‘qualifica’ não é ‘a critica’ é o processo todo. Quanto mais bandas iniciantes, mais circuitos indies, mais gente pensando o ‘processo produtivo’ mais chances de surgir uma nova cena e grupos realmente interessantes. Só que agora…

Piglia, o vingador da seleção argentina
Vida literária / 30/09/2011

A palestra que o ficcionista e crítico argentino Ricardo Piglia deu esta semana em São Paulo (segunda-feira) e no Rio (quarta) durou pouco menos de uma hora. Pareceu durar dez minutos. Foi a primeira vez que as palavras do autor de “Respiração artificial” me chegaram pelos ouvidos, em vez de pelos olhos, e o ineditismo dessa experiência foi em si um princípio de revelação. Deu vontade de reler seus ensaios – como os de “Formas breves” e “O último leitor” – para investigar o papel do coloquialismo no peculiar embaralhamento pigliano de casos e anedotas com observações críticas penetrantes, que resulta numa espécie de milagre: um texto crítico que não precisa se refugiar no hermetismo ou na chatice para parecer profundo porque, ora, sabe que é. Naquela noite de quarta, enquanto tínhamos, eu e a Heloisa, o privilégio de jantar com o casal Piglia e usufruir de piadas que não haviam entrado na palestra, a seleção brasileira venceu a argentina por 2 a 0. Mas para mim ficou claro que, no campo da crítica literária, qualidades como clareza, humor e generosidade impõem ao Brasil uma derrota de goleada. Intitulada “Romance e tradução”, a conferência do maior escritor argentino vivo (vídeo…

Uma baleia chamada Melville e outras bizarrices
Vida literária / 19/08/2011

Uma baleia – aliás extinta – batizada Livyatan melvillei (o bicho maior aí ao lado) em homenagem a Herman Melville, autor de “Moby Dick”, parece algo bastante lógico, não? Mas o que tem Leon Tolstoi a ver com a cratera de Mercúrio que leva o seu nome? O mesmo que figuras tão díspares quanto Homero, Cervantes, Shakespeare, Balzac, Rimbaud, Proust, Neruda e Calvino (o Italo, ele mesmo), entre muitos outros escritores, todos homenageados em algum buraco daquele pequeno planeta que dizem ser mais quente que Manaus. Véspera de fim de semana, não poderia haver leitura literária mais amena do que este post (em inglês) do “PWxyz”, blog do Publishers Weekly, sobre escritores que dão nome a coisas bizarras. Coisas bizarras como a síndrome de Stendhal, fenômeno psiquiátrico caracterizado por uma série de sintomas físicos e emocionais (palpitações, agitação, desorientação espacial e temporal, sudorese) provocados pela exposição à beleza de grandes obras de arte. A síndrome, que me parece longe de ser das piores que existem, ganhou esse nome porque coube ao autor de “O vermelho e o negro” a mais famosa descrição de um desses episódios, em visita a Florença em 1817. Quebrei a cabeça por algum tempo tentando encontrar…

I Concurso Todoprosa de Resenhas: Brasil, século 21
Vida literária / 12/08/2011

Pelo menos num ponto concordam os que acham a literatura brasileira contemporânea saudável e os que a consideram um lixo: espelhando o próprio mundo da informação na era da internet, vivemos uma síndrome que é ao mesmo tempo de excesso e de carência. Um dos traços marcantes da literatura brasileira no século 21 é a sensação de que há mais gente escrevendo do que lendo. Se é evidente que existe exagero nessa impressão (mas não muito), parece indiscutível que há mais gente escrevendo do que lendo criticamente e resenhando de forma inteligente, inteligível e íntegra a produção de nossos escritores. Resultado: a vida literária parece um organismo em que a quantidade de alimentos ingeridos supera em muito a capacidade digestiva. Com perdão do desdobramento escatológico – mas lógico – da metáfora, o bolo fecal gerado no processo é gigantesco, mas, caramba, como se desperdiçam nutrientes! O I Concurso Todoprosa de Resenhas está sendo lançado para suprir parte dessa falta. REGULAMENTO: 1. Serão premiadas as três melhores avaliações críticas de livros nacionais de ficção – romances ou coletâneas de contos – lançados desde 2001 (inclusive). 2. Cada autor pode inscrever uma única resenha, que deve ser enviada por arquivo Word para…

Fitzgerald bebum e outros drinques
Vida literária / 20/07/2011

O homem que ganhava 4 mil dólares por artigo do Saturday Evening Post em 1930 agora recebia da Esquire apenas 150 por história. Os direitos autorais de seus livros totalizaram em 1936 cerca de 80 dólares. Logo ele estaria em Hollywood como roteirista fracassado, completando sua queda. A terrível decadência movida a álcool de F. Scott Fitzgerald é comentada (em inglês) por Jimmy So no “Daily Beast”, a propósito de uma recém-lançada coletânea de escritos do “cronista da Era do Jazz” chamada On booze, algo como “Sobre a birita”. Está para o borbulhante “Meia-noite em Paris”, de Woody Allen, como a ressaca para a euforia etílica. * Trata-se, como se vê, de uma antologia problemática e bastante desigual, para dizer o mínimo. Mas o problema principal que se manifesta em ‘Geração Zero Zero’ nem é esse. É que mesmo a leitura dos melhores contos dos melhores autores deixa na boca um gosto de anos 70, de repetição de procedimentos característicos daquela época, mal transplantados para um contexto social, cultural e político totalmente diferente – contexto este que pede novas respostas (e novas perguntas) dos escritores. Luciano Trigo escreve sobre “Geração Zero Zero”, a nova antologia de Nelson de Oliveira. *…

Vai-se a Flip, fica o toque: falar sobre escrever não é escrever
Vida literária / 13/07/2011

Estou ciente de que há escritores que evitam com sucesso jamais ter que escrever uma linha. Qualquer energia criativa que eles possam ter foi completamente absorvida por atividades substitutas. Tais atividades costumam incluir vestir-se, soar e posar (quando não beber – na verdade, normalmente beber) como um autor, de modo que esses indivíduos conseguem ser muito mais convincentes como artistas da frase bem torneada do que muita gente que de fato já publicou. Quando eu estava começando a escrever, esses tipos me deixavam bastante confusa. Em casa, eu (…) não sabia o que queria dizer, ou se realmente gostaria de dizê-lo, ou se alguém queria que o dissesse. No mundo lá fora, havia todas essas fantásticas desculpas para nunca mais me preocupar com tais coisas. Eram tentações. Mas consegui compreender que eram também um horrível beco sem saída. Terminada a Flip, vistoso buquê de “becos sem saída”, é hora de sentar e escrever. Mas talvez valha a pena ler primeiro esse artigo (em inglês, acesso gratuito) da escritora escocesa AL Kennedy no blog do “Guardian” sobre a eterna tentação do adiamento, disfarce da covardia, que me lembrou aquele toque lapidar do americano E.L. Doctorow: Planejar escrever não é escrever. Traçar…

Balanço: a palavra errada (nazista) e o homem certo (Mãe)
Vida literária / 11/07/2011

Se o curador da Flip 2011, o crítico literário Manuel da Costa Pinto, tivesse optado por outra palavra negativa para qualificar a participação constrangedora do cineasta francês Claude Lanzmann (foto), responsável pelo pior momento da festa, teria prestado um bom serviço à história do evento. Pode-se argumentar que esse não era seu papel como curador, mas o fato é que Lanzmann merecia uns cascudos. E o vocabulário da crítica é suficientemente vasto para que alguma palavra justa fosse encontrada. Ao optar por chamar de “nazista” um judeu que foi combatente da Resistência Francesa e realizou o referencial documentário “Shoah”, sobre o Holocausto, Costa Pinto viu-se obrigado a pedir desculpas e levou para uma penosa prorrogação o constrangimento inaugurado pela truculência com que Lanzmann humilhou repetidamente seu entrevistador, Márcio Seligmann-Silva, e desrespeitou o público na mesa de sexta-feira chamada “A ética da representação”. Não faltariam adjetivos mais adequados para seu desempenho: deselegante, arrogante, prepotente, desagradável, descortês, indelicado, grosseiro, ofensivo, rude, desrespeitoso, mal-educado, intratável, truculento, tirânico. Com um pouco de ironia, quem sabe até funcionasse uma fórmula politicamente incorreta como “profundamente francês”. Não é de hoje que se vem banalizando entre nós o uso das palavras nazista e fascista, equiparadas, em discursos…

Restrepo e Abad: violência e generosidade
Vida literária / 10/07/2011

Os escritores colombianos Héctor Abad e Laura Restrepo, que participaram da mesa “Em nome do pai”, iniciada às 14h30, disseram não ser amigos. Talvez não fossem até então, mas dificilmente poderão dizer o mesmo após a mesa de hoje. Com mediação do jornalista Ángel Gurría-Quintana, os dois travaram uma conversa cheia de elogios mútuos sobre como a literatura se relaciona com suas histórias de vida marcadas pela violência de seu país e pela militância política. Abad está estreando no mercado brasileiro com o premiado livro de memórias “A ausência que seremos”, em que fala do pai, um médico famoso, também chamado Héctor, defensor dos direitos humanos e assassinado por paramilitares colombianos em 1987. Laura lança o romance “Heróis demais”, a história de uma mãe que vai com o filho adolescente para a Argentina em busca do pai, militante político que os abandonou quando ela estava grávida. Há muito de autobiográfico no romance. “Eu e meu filho, Pedro, que veio comigo a Paraty, tivemos através dos personagens do romance o diálogo que nunca pudemos ter sobre o pai dele, que o abandonou quando tinha dois anos”, disse. Abad levou vinte anos para escrever sobre seu pai, e justificou a demora dizendo…

Antropofagia e ressaca
Vida literária / 10/07/2011

Coube aos acadêmicos de literatura João Cezar de Castro Rocha e Eduardo Sterzi a ingrata missão de entreter o público da Flip no primeiro horário deste domingo, a partir das 10h, quando a maioria ainda dorme em suas pousadas ou se recupera da ressaca de sábado à noite. Para tornar a missão mais difícil, o tema de sua mesa, chamada “Pensamento canibal”, era uma questão teórica – o que o homenageado deste ano, Oswald de Andrade, queria dizer ao falar de antropofagia e o que ela deixou de herança para a cultura brasileira. Resultado: uma Tenda dos Autores com menos de metade dos assentos ocupados. A verdade é que o viés oswaldiano, ainda que a homenagem seja merecida, não chegou a penetrar nas rodinhas de conversa flípicas e dar um arremedo de argamassa a uma festa marcada num extremo pela simpatia baiana de João Ubaldo Ribeiro e no outro pela antipatia francesa de Claude Lanzmann, com o fenômeno de popularidade instantânea do português Valter Hugo Mãe ocupando a maior parte do meio-de-campo. Castro Rocha está lançando no Brasil a edição brasileira ampliada de “Antropofagia hoje? – Oswald de Andrade em cena”, coletânea de ensaios publicada em 2000 nos EUA. “A…

Ubaldo: ‘Meu santo não cruza com o de Rosa’
Vida literária / 09/07/2011

Na mesa mais divertida da Flip, como estava previsto, João Ubaldo Ribeiro, 70 anos, contou histórias, cunhou frases de efeito, fez piadas consigo mesmo e com o entrevistador – seu amigo e também escritor Rodrigo Lacerda – e, de forma surpreendente, ousou falar mal do intocável Guimarães Rosa, que já foi apontado como influenciador de “Sargento Getúlio”, um de seus livros mais conhecidos. Em compensação, furou também o balão mitológico em torno de sua própria obra-prima, o romance “Viva o povo brasileiro”, ao dizer que a motivação para escrevê-lo foi apenas a de “fazer um livro grosso”. A última pergunta da noite, encaminhada por alguém do público, foi um anticlimax que, paradoxalmente, funcionou: “Qual é a importância da literatura na vida das pessoas?” Resposta: “Longos anos de afeto nos unem, Rodrigo Lacerda, pra que eu possa lhe dar uma resposta apropriada”. Seguiram-se aplausos de pé numa Tenda dos Autores lotada, com uma chuva de assobios e gritinhos pontuando a evidência de que, tendo passado anos brigado com a Flip, um dos maiores escritores brasileiros vivos estava fazendo falta em Paraty. Abaixo, uma lista de seus melhores momentos: “Em primeiro lugar, acredite se quiser, eu jamais tinha chegado nem perto de…

Joe Sacco e a autonomia artística dos quadrinhos
Vida literária / 09/07/2011

“O cinema não é uma arte superior aos quadrinhos”, disse Joe Sacco, astro solo da mesa iniciada ao meio-dia, que terminou por ser tão informativa quanto agradável. Onde se lê cinema, pode-se ler também literatura, jornalismo e fotografia, linguagens com as quais ele dialoga em sua importante, ambiciosa e original obra de HQ. Nascido em Malta em 1960 e criado nos Estados Unidos, Sacco é hoje o maior nome do jornalismo em quadrinhos, autor de livros como os que escreveu sobre a questão palestina, entre eles “Notas sobre Gaza” e “Palestina: uma nação ocupada”. Entrevistado pelo jornalista Alexandre Agabiti Fernandez, que conduziu bem a conversa, apesar de certa tendência à prolixidade, Sacco não fugiu de nenhuma das perguntas e falou sobre seu método de trabalho, suas influências e até da ocasião em que, intimidado pelo peso do jornalismo americano tradicional, se autocensurou ao fazer um trabalho para a revista “Time”. “Pensei demais em como a ‘Time’ diria certas coisas e acabei insatisfeito com o resultado”. Abaixo, um apanhado de suas declarações: Vantagens e desvantagens dos quadrinhos como veículo de jornalismo: “O que eu faço é jornalismo, e como tal precisa ter precisão. Mas com quadrinhos você pode viajar no tempo…

Lanzmann ataca Spielberg e dá show de descortesia
Vida literária / 08/07/2011

Mal-humorado e repetidamente descortês com seu entrevistador, o cineasta francês Claude Lanzmann, 85 anos, autor do referencial documentário “Shoah”, disse na última mesa de hoje que Steven Spielberg brinca em “A lista de Schindler” com algo que não admite brincadeiras. “O que significa representar a morte de milhões de pessoas? É uma questão muito complicada. Não existe representação possível, alguma coisa proíbe, e não sou eu quem o faz: é Adolf Hitler. Tentar essa representação é cometer a mais grave das trangressões. Spielberg usou subterfúgios desonestos.” “Shoah”, filme de nove horas e meia de duração lançado em 2005, custou a Lanzmann, judeu francês, doze anos de trabalho e, segundo ele, escapa dessa armadilha da representação por não ser “sobre a sobrevivência, mas sobre a morte, sobre a radicalidade da morte naquelas câmaras de gás dos campos de extermínio nazistas”. Afirmou ele: “Os homens que me deram seus depoimentos testemunharam a morte de seu povo. Nenhum deles deveria ter sobrevivido para contar: um número muito reduzido sobreviveu por uma conjugação de coragem, inventividade, sorte e milagre. Não contam como sobreviveram, não abrem o jogo, não revelam suas histórias pessoais. São porta-vozes dos mortos e assim queriam ser considerados”. Além de falar…

Tabucchi ausente, presente
Vida literária / 08/07/2011

Ignacio de Loyola Brandão e Contardo Calligaris declararam solidariedade ao escritor italiano Antonio Tabucchi, que deveria ter sido a principal atração da mesa de hoje às 17h15, mas cancelou sua participação em protesto contra a posição do Supremo Tribunal Federal – e do governo brasileiro – no caso Cesare Battisti. O psicanalista e cronista Calligaris, italiano como Tabucchi, fez questão de dizer que sua situação é diferente, por viver no Brasil: “Dizer não ao convite da Flip seria apenas dizer não à Flip. Se eu morasse na Itália, provavelmente tomaria a mesma posição que Tabucchi, fico completamente solidário e acho bom ter tido essa oportunidade (de dizer isso)”, discursou. Ignacio de Loyola Brandão apoiou o parceiro de mesa, lembrando que Tabucchi foi o tradutor de “Zero”, romance que, por ter sido proibido pela censura nos anos 1970, tornou-se seu título mais famoso. “Quero dizer que sou amigo de Antonio Tabucchi desde 1973, quando foi entregue a ele a tradução de ‘Zero’ e começou uma amizade que se solidificou ao longo dos tempos. Eu faria a mesma coisa que ele fez, não poderia ter outra atitude. E a tradução de ‘Zero’ para o italiano foi a mais perfeita de todas”. Pouco…

A musa e o xodó: Pola Oloixarac e Valter Hugo Mãe
Vida literária / 08/07/2011

A Flip teve finalmente seu momento de emoção explítica na mesa de hoje ao meio-dia, chamada “Pontos de fuga”, que reuniu o português Valter Hugo Mãe e a argentina Pola Oloixarac. Surpreendentemente, os papeis tradicionais se inverteram: Pola, que antes mesmo de pisar em Paraty já carregava o título (merecidíssimo) de musa da Flip, foi o lado racional da conversa, e coube a Mãe, que chegou às lágrimas ao ler um simpático texto sobre a importância do Brasil em sua geografia emocional, arrebatar o público que lotou a Tenda dos Autores e ser aplaudido de pé. “Foi a mesa dos baixos instintos”, comentou uma velha raposa da Flip, referindo-se tanto àqueles instigados em parte da audiência pelas longas pernas envoltas em meias pretas da escritora argentina quanto aos que, de natureza diferente , o autor de “a máquina de fazer espanhóis” despertou ao falar de sua infância marcada por telenovelas e vizinhos vindos do Brasil, todos envoltos em certa aura de magia, e agradecer no fim, com voz embargada, o convite para visitar o país como escritor. “Sinto que fazem de mim um homem de ouro”, disse, referindo-se a um episódio de sua infância em que o fato de ser…

Triunfalismo científico x pessimismo filosófico
Vida literária / 07/07/2011

O neurocientista Miguel Nicolelis (foto) e o professor de filosofia da religião Luiz Felipe Pondé protagonizaram hoje à noite, numa Tenda dos Autores lotada, uma das mesas mais cabeçudas da história da Flip, chamada “O humano além do humano”, com mediação da jornalista Laura Greenhalgh. Como água e azeite, não se misturaram, apesar dos esforços da mediadora, nem poderiam: o triunfalismo científico (não sem razão) de Nicolelis e o pessimismo filosófico (idem) de Pondé acabaram criando um curioso espetáculo de claro-escuro. “Se a palavra milagre não tivesse sido adotada por outro ramo de negócios, deveria ser usada pela neurociência, porque estamos fazendo algumas coisas até melhores do que os velhos milagres hoje”, disse o primeiro. “O ser humano mata porque gosta”, afirmou o segundo. Foi divertido. Autor do recém-lançado “Muito além do nosso eu” e apontado pela revista Scientific American um dos vinte pesquisadores mais importantes da atualidade, o paulista Nicolelis falou primeiro, caminhando de um lado ao outro do palco e ilustrando seu discurso com imagens no telão. Era claramente um discurso ensaiado, com floreios poéticos (“as linhas de poesia elétrica desses bilhões de compositores que formam a única orquestra conhecida”, disse, falando do cérebro). A mensagem, porém, era…

‘Antropofagia era uma vanguarda política’
Vida literária / 07/07/2011

Na mesa “Marco zero modernista”, diante de um auditório com cerca de 80% de ocupação, hoje à tarde, os pesquisadores acadêmicos Marcia Camargos e Gonzalo Aguilar deram continuidade às homenagens a Oswald de Andrade, iniciadas ontem à noite na mesa de abertura. Não era fácil a tarefa de trazer novos ingredientes ao banquete antropofágico proposto pela Flip, após o prato principal representado pelo venerável Antonio Candido, e dela saiu-se melhor o argentino Aguilar, que morou no Brasil e é autor de um livro ainda sem tradução em português chamado Por una ciencia del vestigio errático – ensaios sobre a antropofagia de Oswald de Andrade. Falando em português com forte sotaque portenho e algumas recaídas no espanhol, que não prejudicaram a compreensão do público, Aguilar partiu do quadro “Abaporu”, de Tarsila do Amaral, para falar da principal “inversão” que inspirou Oswald a criar o movimento antropofágico: a subversão da hierarquia tradicional representada por uma figura de pé enorme e cabeça minúscula. “Isso tem a ver com a literatura de Oswald, que é uma literatura do corpo, muito erótica. O pé fala da mobilidade, que, como disse ontem Antonio Candido, define sua obra. Ir caminhando e inventando no caminho, essa ideia está…

Minc anuncia programa de apoio à tradução
Vida literária / 06/07/2011

Foi bem recebido em Paraty o anúncio do novo programa de apoio à tradução de autores brasileiros no exterior, feito no fim da tarde de hoje, na Casa da Cultura pela ministra da Cultura, Ana de Hollanda. Ele prevê a concessão de bolsas de tradução no valor de 7,6 milhões de dólares até 2020 – do total, 635 mil dólares ja este ano, o triplo do que vinha sendo investido. Falta fazer muita coisa, mas Frankfurt 2013 começa a ganhar forma. Se “o Brasil acorda”, como disse Oswald de Andrade (post abaixo), para um certo protagonismo econômico e político mundial, eis um indício de que pode estar finalmente percebendo o óbvio: que a cultura precisa ir junto.

Na mesa de abertura, um Oswald brigão e profético
Vida literária / 06/07/2011

Na morna mesa de abertura da Flip 2011, hoje à noite, o crítico literário e ensaísta Antonio Candido, 93 anos, não foi nem crítico nem ensaísta ao falar de Oswald de Andrade, o escritor homenageado da festa este ano. Foi memorialista, contando casos para ilustrar a personalidade marcante do poeta e provocador cultural modernista. “Hoje eu sou um sobrevivente”, disse. “Só eu posso falar como era Oswald de Andrade.” Coube a José Miguel Wisnik, que dividiu a mesa com Candido, abordar o legado de Oswald, sintetizado no “Manifesto antropófago”, e tentar dar sustentação à tese de que, além de ter influenciado movimentos artísticos como o concretismo e a tropicália, ele permanece atual no século 21. Candido pintou o retrato de um Oswald brigão mas generoso, sarcástico mas de candura infantil, agressivo mas carente de carinho, que gostava de “brigar e desbrigar, xingar e elogiar”, e que jamais guardava rancor. Uma personalidade tão forte e tão propícia à criação de lendas – como a de que tinha um filho chamado Lança-Perfume, à qual muita gente dava crédito – que, acredita Candido, acabou por prejudicar a recepção de sua obra. “Era muito difícil encontrar um livro dele para comprar”, disse o crítico….

Flip, ano 9: como ir da importação à exportação de literatura?
Vida literária / 06/07/2011

Em sua nona edição, que começa hoje à noite com uma palestra do crítico Antonio Candido e sob o signo da “antropofagia” de Oswald de Andrade, o homenageado do ano, a Festa Literária Internacional de Paraty dá sinais de amadurecimento como grande evento do mercado literário brasileiro, inspirador de uma série de festas espalhadas pelo país – como mostrou a boa reportagem de Beatriz Souza aqui em VEJA.COM. Essa posição central a Flip ocupa há anos, é verdade, mas vejo indícios de amadurecimento em pelo menos uma das atrações que ocorrerão no entorno da Tenda dos Autores: as duas conferências do projeto Brazilian Publishers, na noite de quinta-feira, em que editores e agentes literários nativos e estrangeiros discutirão diante da plateia da Casa da Cultura modos de divulgar a quase secreta literatura brasileira no exterior – questão crítica num momento em que o Brasil ensaia para ser o país homenageado em 2013 na Feira de Frankfurt, principal vitrine do mercado editorial no mundo. A esperança de que o encontro possa ir além do bate-papo para influir na definição de uma política cultural baseia-se na presença, entre os debatedores, de Galeno Amorim, presidente da Biblioteca Nacional e encarregado de preparativos, que,…

Woolf, Sábato, Mitchell e eu: uma sexta cheia de links
Vida literária / 01/07/2011

Em 1927, num debate transmitido pelo rádio, perguntaram a Virginia Woolf se não estavam sendo escritos e publicados livros demais – sim, já naquele tempo. A resposta da autora de “Orlando” foi espirituosa: “Por que não publicar a primeira edição em algum material perecível que se desfaça num montinho de pó perfeitamente asseado no prazo de seis meses? Se uma segunda edição fosse necessária, esta sim poderia ser impressa em papel bom, com boa encadernação… Não se desperdiçaria espaço e não se acumularia lixo”. A mordaz profecia finalmente pode se cumprir, e com evidentes vantagens sobre o “montinho de pó”, na era digital. Mais sobre Woolf, a crítica literária, em inglês, aqui. * “Um homem pode fugir e não ser um covarde, pode abandonar um movimento e não ser um traidor, pode matar e não ser um criminoso.” O “Babelia” publicou um fragmento inédito de La fuente muda, romance que Ernesto Sábato abandonou. O escritor argentino, que morreu no último 30 de abril, teria completado cem anos há uma semana. * “Esse livro de ensaios é na verdade divertido – e isso é algo que eu fico muito surpreso de escrever sobre teoria literária.” No blog do “Guardian”, Sam Jordison…

Pamuk na ‘Serrote’: o romance como ato de fé
Vida literária / 17/06/2011

A convicção de que o romance tem um centro faz sentir que um detalhe supostamente irrelevante pode ser substancial e que o significado de tudo que está na superfície pode ser bem diferente. Romances são narrativas abertas a sentimentos de culpa, paranoia e ansiedade. A sensação de profundidade que nos dá a leitura de um romance, a ilusão de que o livro nos faz mergulhar num universo tridimensional, vem da presenca do centro, seja ela real ou imaginária. O que basicamente separa um romance de um poema épico, ou de uma tradicional narrativa de aventura, é a ideia do centro. Romances apresentam personagens bem mais complexos que os de poemas épicos; focalizam pessoas comuns e exploram todos os aspectos da vida diária. Mas devem essas qualidades e esses poderes à presenca de um centro em algum lugar ao fundo da cena e ao fato de lermos com essa esperança. Como os romances revelam detalhes triviais da vida e nossas pequenas fantasias, hábitos diários e objetos familiares, o leitor lê com curiosidade – a rigor, com assombro –, sabendo que tudo aponta para um sentido mais profundo, para um propósito em algum lugar ao fundo da cena. Cada característica da paisagem…

James Ellroy é o melhor da Flip
Vida literária / 15/06/2011

Revitalização da boa e velha arte narrativa. Capacidade de prender o leitor na história que se desenrola nas (muitas e muitas) páginas de um romance-tijolo sem fazer concessões às fórmulas do best-seller. Ambição de dar conta de um momento histórico em seus diversos aspectos por meio de personagens fortes dotados de apetites que o leitor reconhece, a começar pelo apetite propriamente dito. Tudo isso poderia ser dito – e vem sendo dito – de Jonathan Franzen, autor do mais-que-festejado “Liberdade”. Tudo isso pode ser dito com mais propriedade de James Ellroy, a principal atração da Flip que começa daqui a três semanas. Isso não quer dizer que eles sejam parecidos. Nem de longe, embora ambos se declarem fãs e devedores do grande mestre do romance oitocentista, Leon Tolstoi. Quer dizer apenas que mérito e reconhecimento são curvas independentes, que se encontram e se desencontram de modo imprevisível. Ellroy é mais fragmentado, nervoso, experimental, paranoico, sujo e desbocado que seu compatriota que vem sendo chamado de gênio. Em vez de aspirar a um romance redondo, produz narrativas prismáticas e cheias de arestas que incorporam personagens da vida real, notícias de jornal e relatórios de legistas. Despreza a classe média “normal” que…

A resposta do teste Naipaul: erro goleia com 86% dos votos
Vida literária / 06/06/2011

Tenho o prazer de informar que os leitores deste blog se desincumbiram gloriosamente mal da tarefa de adivinhar o sexo dos escritores a partir de pequenos trechos de sua prosa, na brincadeira proposta aqui sexta-feira passada. Naturalmente, era essa mesmo a ideia: demonstrar a estupidez de uma declaração de VS Naipaul sobre o suposto abismo (de qualidade, ainda por cima) que separa homens e mulheres na hora de escrever. Num universo de 293 participantes, a resposta certa – “mulher, homem, homem, mulher” – foi apenas a quarta mais votada, com 14% das preferências. Mais interessante do que isso foi o fato de a resposta campeã, que levou 33% dos votos, ter sido “homem, mulher, mulher, homem”, que é simplesmente a mais errada de todas – o negativo perfeito da correta. O resultado completo ficou assim: . [poll id=”21″] . Vamos aos autores: O trecho 1 foi extraído do bom romance “Esperando Zilanda”, da autora estreante Tamara Sender. O 2 é a abertura do conto O rapaz mais triste do mundo, do livro “Os dragões não conhecem o paraíso”, de Caio Fernando Abreu. O 3 saiu do romance “Olhos secos”, de Bernardo Ajzenberg. O 4 faz parte do romance “As pernas…

O teste Naipaul: qual é o sexo desses escritores?
Vida literária / 03/06/2011

Será que o sexo de um autor, além de inscrito em seus genes, também sai impresso na página entre vírgulas e verbos, de forma inconsciente e sem que ele possa fazer nada para evitar? A discussão, notoriamente inconclusiva, é velhinha, mas acaba de pegar fogo como nunca na Inglaterra. Tudo começou com uma declaração repulsiva dada esta semana por VS Naipaul (foto), prêmio Nobel de Literatura em 2001: a de que não vê nenhuma mulher na história da literatura que possa rivalizar com ele. “Não são minhas iguais”, disse. E, numa tentativa de demonstrar que sua tese não era apenas fruto de um cruzamento teratológico de misoginia com egolatria, acrescentou: “Leio um trecho e, em um parágrafo ou dois, sei se é de uma mulher ou não”. Hmm, sei. O “Guardian” aproveitou a deixa para bolar um certo “teste Naipaul”, pedindo aos leitores que identifiquem o sexo dos autores de alguns trechos literários. É o que estou imitando descaradamente aqui com quatro autores brasileiros, dois de cada sexo. O resultado sai na semana que vem. 1. Eu disse que ateus e crentes fazem parte do mesmo grupo. Todos acreditam em algo. Todos podem dormir e roncar tranquilos, amparados no estofado…

Sérgio Sant’Anna polêmico, Caio Fernando anglófono etc.
Vida literária / 01/06/2011

Quem gosta de estar em dia com o pulso das discussões literárias deve ir correndo comprar “O livro de Praga” (Companhia das Letras, R$ 37,50), a aguardada contribuição de Sérgio Sant’Anna à coleção Amores Expressos. Ali aos sussurros, acolá aos gritos, a polêmica vem dominando a semana nos meios letrados brasileiros: o livro é muito bom, muito ruim ou mais ou menos? Por enquanto, fica o registro do zunzum em torno de um dos escritores brasileiros mais respeitados por seus pares. Comecei a leitura ontem à noite e, como ainda estou no terceiro de sete episódios – quase contos autônomos, quase capítulos de um romance – a hora é de guardar silêncio. * Uma tradução para o inglês do conto “Sargento Garcia”, de Caio Fernando Abreu, aparece no número de junho da revista eletrônica Words Without Borders, bíblia americana do que se poderia chamar de world literature. O tema da edição é ficção gay. * No post anterior, sobre a maioridade dos blogs literários, faltou mencionar um jeito de, num clique só, ter uma vista panorâmica do que rola em parte significativa dessa província virtual: o capítulo Literatura do site agregador as últimas. É verdade que, contrariando seu nome, ele…

‘Todoprosa’, 5 anos: a internet já cumpriu sua promessa
Vida literária / 30/05/2011

Antes que acabe maio, mês de aniversário do Todoprosa, faça-se o registro: este espaço de discussão de literatura acaba de completar cinco anos. Desde sua estreia no extinto site “NoMínimo”, no início de maio de 2006, foram 1.253 posts, todos ainda acessíveis, e um número de comentários arquivados – 24.312 – que deveria ser maior, não fosse a perda de memória de seis ou sete meses ocorrida numa das migrações de servidor, em 2008. Muita coisa mudou em cinco anos na paisagem da blogosfera literária. As caixas de comentários, por exemplo, que chegaram a ser transformadas pela turma da literatura em salas de chat animadas – e muitas vezes até perigosas, com garrafas e ferros de passar riscando o ar – perderam importância com a ascensão das redes sociais. Hoje a repercussão de um post é medida muito mais por meio do Twitter e do Facebook. Mas a mudança mais significativa se deu no próprio formato: blogs que, como este, baseiam seu cardápio em informação e num tipo de opinião mais analítica que idiossincrática eram raridade em 2006. De lá para cá, o processo que talvez se possa chamar de profissionalização – embora ainda inclua franco-atiradores de comovente amadorismo –…

O que a canonização de Franzen diz sobre a literatura atual
Vida literária / 27/05/2011

A revalorização da ficção como arte narrativa por excelência, em ligação direta com a tradição romanesca do século 19, parece ser o pano de fundo para o curioso fenômeno de canonização do escritor americano Jonathan Franzen, um tsunami que varreu o mundo ano passado, quando ele publicou o romance Freedom, e que agora vem inundar a costa brasileira com a previsibilidade dos maremotos a pretexto do lançamento de “Liberdade” (Companhia das Letras, tradução de Sergio Flaksman, 608 páginas, R$ 46,50). O livro é bom? É. Maravilhoso? Longe disso. Em contraste com a maioria da humanidade, não me encantei com ele e expliquei minhas razões aqui, sob o título Freedom: Obama no conteúdo, Bush na forma, pouco depois do lançamento americano. Vejo até algo de cômico num superlativo como “o livro do século” que o sério “The Guardian” pespegou no tijolo: se o epíteto abrange o século inteiro, trata-se de uma leviandade; se a ideia é falar do século até agora, decorrido um décimo dele, o correto seria usar uma medida de tempo mais sóbria. Fica evidente, porém, que elogios desse tamanho vão além de questões menores como coerência numérica. Méritos literários à parte, o que o hype franzeniano parece indicar,…

Vila-Matas e o paradoxo de Hanna-Barbera
Vida literária / 18/05/2011

E o Brasil finalmente acerta o passo com o escritor catalão Enrique Vila-Matas. O lançamento do romance “Dublinesca” (Cosac Naify, tradução de José Rubens Siqueira, R$ 55,00), hoje à noite, em São Paulo, com a presença do autor, marca o momento em que sua obra tão prolífica quanto festejada passa a chegar aos leitores brasileiros em tempo real ou quase isso: o livro saiu ano passado na Espanha e ainda nem está disponível em inglês. É verdade que Vila-Matas, o anti-Bartleby por excelência, já enfileirou outros dois títulos (recapitulando escritos antigos) desde então, mas sobre isso, tradução simultânea à parte, não há nada que se possa fazer. É a primeira vez que a defasagem entre lançamento original e edição brasileira fica tão curta desde que, em julho de 2004, com “A viagem vertical” (de 1999), a mesma Cosac Naify começou a introduzir os leitores brasileiros à obra daquele que é um dos principais autores da literatura contemporânea e talvez o mais desavergonhadamente metaliterário – de uma metalinguagem lúdica que é o oposto da pompa e da sisudez – da história. Dois meses depois da publicação de “História abreviada da literatura portátil” (tradução de Júlio Pimentel Pinto, R$ 39,00), o mais…

Sabato morreu em baixa. Borges e Kirchner venceram?
Vida literária / 02/05/2011

A morte do escritor argentino Ernesto Sabato (1911-2011) no último sábado, a menos de dois meses de completar cem anos, motivou os elogios fúnebres de praxe. Pena que o necrológio, esse gênero cheio de superlativos que precisa dar ao leitor a ilusão de que o redator tem os olhos marejados, não seja bom condutor de inteligência e senso de perspectiva histórica. É porque Sabato merece ambos que o artigo publicado ontem no jornal espanhol “El País” pelo escritor argentino Jorge Fernández Díaz, sob o título “Os claro-escuros do túnel” (em espanhol, acesso gratuito), se torna mais notável na exposição dos fatores que levaram o autor de “Sobre heróis e tumbas” a morrer com seu prestígio literário em queda livre. Para resumir os argumentos de Díaz, enunciados no trecho abaixo, são dois os inimigos da reputação de Sabato. Um é estético-mundano, o outro é político. Um é de direita, o outro é de esquerda. Ambos são poderosíssimos: Jorge Luis Borges e o kirchnerismo. Literária ou não, jagunçagem é sempre um assunto triste, mas mantê-la na sombra do não-dito só lhe agrava o potencial de injustiça. Quem pode garantir saber o que dirá a posteridade, que para Sabato mal começou? Como Díaz,…

O melhor amigo do escritor é o cão ou o gato?
Vida literária / 22/04/2011

Em clima de feriado, o Todoprosa entra firme numa discussão de vital importância tanto para a compreensão do passado quanto para o bom desenvolvimento futuro das letras universais: se você é um escritor, é melhor ter em casa a companhia de um gato ou de um cachorro? No blog de livros da revista “New Yorker”, Elizabeth Minkel dá os links de dois ótimos acervos visuais de escribas com inclinação canina e felina: um fotolog chamado Writers and kitties (Escritores e bichanos), que compila imagens de qualidade variada e de onde saiu o fantástico autorretrato de Julio Cortázar aí ao lado, e o trabalho autoral de Jill Krementz sobre escritores e seus cães. No entanto, percebe-se logo que a parte informativa do post de Minkel soa como pretexto e que suas intenções são proselitistas: ela defende a incontestável superioridade dos gatos como animais de estimação em casas literárias, usando o velho argumento de que felinos combinam mais com pessoas solitárias e ensimesmadas – como são sem dúvida os escritores, pelo menos enquanto estão escrevendo. Pode ser, pode não ser. Entre gatos e cachorros, eu fico em cima do muro. E não porque seja um agente duplo como Stephen King, que aparece…

‘Clarice? Uma adolescente aprendendo a escrever’
Vida literária / 13/04/2011

Os leitores habituais deste blog sabem que raramente conto aqui histórias pessoais. Sei que desse modo contrario o que, a julgar pela evasão de privacidade cultivada por grande parte dos colegas, é uma vocação do meio. Prefiro ser fiel a uma vocação minha e dosar a primeira pessoa. Todo esse nariz de cera é para abrir uma baita exceção e contar que um dia tive uma namorada inglesa que odiou – ou talvez eu devesse carregar no verbo e escrever abominou, execrou – nossa grande Clarice Lispector. Foi um episódio marcante. Eu tinha vinte e cinco anos e morava em Londres, como correspondente de um jornalão brasileiro. Ela tinha no trato afetivo um pragmatismo anglo-saxônico que eu, acostumado ao ronronar dos namoros brasileiros, via como distância emocional. Incomodado com a dissociação entre corpo quente e alma fria, julguei necessário corrigi-la. Como? Ah, mas é claro. Quem disse que a literatura não serve para nada? Minha namorada inglesa (mas talvez ficante, palavra que eu não conhecia na época, caiba melhor) era uma ardorosa leitora. Tínhamos papos animados, eu mais ouvindo que falando, sobre escritoras que a faziam vibrar: Isak Dinesen, Jean Rhys, Angela Carter. Hmm, pensei, julgando-me perspicaz: todas mulheres. Achei…

Literatura brasileira e o complexo de vira-lata
Vida literária / 08/04/2011

Num artigo do escritor gaúcho Antonio Xerxenesky, encontro esta citação – que não conhecia – retirada de uma entrevista do chileno Roberto Bolaño, um dos grandes renovadores da prosa de ficção nos últimos vinte anos, morto em 2003. Bolaño esboçou uma instigante tese de fumaças marxistas sobre a quase total ausência de uma ficção de gênero no cenário da literatura latino-americana: o subdesenvolvimento não deixa. O que ele diz sobre o fantástico pode ser transposto sem dificuldade para a ficção científica, o policial, o terror e qualquer dessas províncias onde moram as obras “menores” que, embora passem nos últimos anos por uma efervescência inédita no Brasil, a chamada grande crítica costuma desprezar: Escritores que cultivaram o gênero fantástico, no sentido mais restrito do termo, temos muito poucos, para não dizer nenhum, entre outras coisas porque o subdesenvolvimento não permite a literatura de gênero. O subdesenvolvimento só permite a obra maior. A obra menor é, na paisagem monótona ou apocalíptica, um luxo inalcançável. Claro, isso não significa que nossa literatura esteja repleta de obras maiores, muito pelo contrário, mas sim que o impulso inicial só permite essas expectativas, que logo a mesma realidade que as propiciou se encarrega de frustrar de…

Quer odiar literatura? Estude Letras
Vida literária / 06/04/2011

Outra questão que eu acho muito grave é que os cursos de Letras rejeitam a Literatura e rejeitam aquele que faz literatura. Mais facilmente um autor sai de qualquer outro curso do que de um curso de Letras. O estudo de literatura é absolutamente culpado pela esterilização da literatura, pela incompetência do autor literário e inclusive pelo leitor e pelo mercado. A verdade é que é muito difícil um jovem interessado em literatura passar num vestibular para Letras e sair dali gostando de literatura. Isso é o que eu acho mais lastimável entre nós. Essa realmente é a nossa grande falência. As palavras de Beatriz Rezende, crítica literária formada e ainda abrigada na universidade (é coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro), não trazem novidade para quem tem alguma vivência nesse campo, mas são marcantes pela contundência e pela clareza com que expressam um fenômeno esquisito que parece exclusivo das letras: não consta que cursos de teatro, cinema, arquitetura, artes visuais ou dança fomentem de forma sistemática o desprezo por seu objeto de estudo. (É isso mesmo, aspirantes a letrados de todo o Brasil: na hora de escolher um curso universitário, talvez não…

Máquinas de escrever, gaúchos, Jennifer Egan e outros links
Vida literária / 04/04/2011

Charmoso estudo fotográfico de uma era extinta: escritores famosos e suas máquinas de escrever. Na amostra ao lado, John Cheever em 1979, quando, diga-se de passagem, não andava nada bem – mas essa é outra história. * No capítulo galeria de fotos, achei simpática essa que o blog Mundo Livro, do jornal “Zero Hora”, montou só com retratos de escritores… gaúchos, claro. Destaque pessoal para o olho direito de Manoela Sawitzki e para os óculos que escondem os olhos de Cláudia Tajes. * Pelo sensacional placar de 9 a 8, o romance A visit from the goon squad, de Jennifer Egan, derrotou Freedom, de Jonathan Franzen, na final do Tournament of Books, competição mata-mata que serviu de inspiração para a Copa de Literatura Brasileira. Os dois livros são inéditos no Brasil. Resenhei o de Franzen aqui, e o de Egan me olha agora da estante com ar de cobrança. * O poeta americano Joseph Wood escreveu um artigo ponderado – e, principalmente, sem traço de antiintelectualismo – sobre o mal que décadas de crítica literária empapuçada de teoria fizeram à poesia. E à prosa, não? * A palavra sonhada é a crônica que publiquei ontem em minha outra coluna, a…

#**}%#!!! Uma história escabrosa e sua lição inestimável
Vida literária / 30/03/2011

Acendam uma vela por Jacqueline Howett, autora autopublicada e autodestruída em público, numa das histórias mais pungentes – e, para bom entendedor, didáticas – que a selva cheia de novos perigos da internet já propiciou nos domínios da literatura. Os personagens principais do caso são praticamente anônimos. Ou eram anônimos até poucos dias atrás, quando começou a guerra internética que se espalhou feito um vírus de gripe suína pela blogosfera literária de língua inglesa. Jacqueline Howett, nascida em Londres e radicada nos EUA, autopublicou no Kindle um romance chamado The Greek seaman. BigAl, blogueiro de literatura, fez uma resenha do livro em que lamenta os inúmeros erros sintáticos e ortográficos que atravancam a leitura, cotando-o em duas estrelas. Até aí, tudo normal. O problema é que a autora começou a bater boca com o crítico na caixa de comentários. Qualquer pessoa que já tenha acompanhado um desses acalorados “debates” online – e haverá alguém que não, a esta altura do furdunço virtual? – sabe como eles, por alguma razão que parece ter a ver com a própria atmosfera do meio, tendem a degenerar rapidamente num espetáculo muito, muito feio. Quem estiver interessado nas minúcias do vale-tudo pode ler aqui, em…

Pequena antologia online: contos brasileiros de carnaval
Vida literária / 04/03/2011

Folião cerebral, do tipo que sempre valorizou mais uma virada de enredo que uma virada de bateria, fiz um garimpo na grande rede instigado pela aposta de que seria possível montar uma boa antologia de contos de carnaval só com textos disponíveis online, de preferência na íntegra. Deu certo. A meia dúzia de contos abaixo – todos acessíveis a quem clicar sobre os títulos, sem necessidade de baixar arquivos – deixa claro que as relações entre a folia momesca e a literatura brasileira, com perdão do clichê, sempre deram samba. Destaque absoluto para o aterrorizante O bebê de tarlatana rosa, obra-prima de João do Rio, imbatível na captação do lado negro de uma festa solar. De resto, tons sombrios se fazem presentes – o que, pensando bem, não chega a ser surpresa – em praticamente todas as histórias. Pena que o conto Caprichosos da Tijuca, de Marques Rebelo, e a crônica A batalha do Largo do Machado, de Rubem Braga, não estejam online. Presenças obrigatórias em qualquer antologia analógica sobre o tema, espero que esta menção compense de alguma forma sua ausência. O conto de Rubem Fonseca tem apenas um trechinho disponível, mas sua qualidade me levou a incluí-lo na…

Moacyr Scliar (1937-2011)
Vida literária / 27/02/2011

Moacyr Scliar, um dos mais importantes escritores brasileiros contemporâneos, morreu à 1h desta madrugada, aos 73 anos, em Porto Alegre, cidade onde nasceu e viveu por toda a vida. Ele estava internado numa unidade de tratamento intensivo do Hospital de Clínicas da capital gaúcha desde 17 de janeiro, após sofrer um acidente vascular cerebral quando se recuperava de uma cirurgia no intestino. Médico sanitarista, gaúcho e judeu – seus pais chegaram ao Brasil fugindo de perseguições na Rússia –, Scliar construiu desde sua estreia na literatura, em 1962, com “Histórias de um médico em formação”, uma obra vasta e premiada que reflete sobre essas facetas de sua identidade. Ao longo de oito dezenas de títulos, entre a narrativa e o ensaio, firmou um estilo em que a erudição se alia ao humor, com toques de fantástico. Foi também um prolífico autor de literatura infanto-juvenil. Entre seus livros de maior projeção internacional estão “O centauro no jardim”, “Exército de um homem só”, “A estranha nação de Rafael Mendes” e “Max e os felinos” – este, sobretudo devido à polêmica com o canadense Yann Martel, que, após ser acusado de plágio, admitiu ter se “inspirado” em seu ponto de partida narrativo (um…

O personagem abre os olhos em sua cama e… nasce!
Vida literária / 21/02/2011

Minha recente experiência como jurado de um concurso nacional de contos rendeu há cerca de um mês a formulação, aqui no blog, do Princípio da Incerteza de Rodrigues. Achei que ficaria nisso, mas estava enganado. Da exaustiva tarefa de ler mais de 900 contos em dois meses pode-se destilar também um alerta que me parece útil a aprendizes do ofício literário: cuidado com histórias que começam com o personagem abrindo os olhos em sua cama de manhã. Por quê? Acaso será impossível escrever algo bom com esse início? Claro que não, como prova “A metamorfose” de Kafka. Mas aqui não estamos tratando da exceção – que, no caso, é notável justamente pela brutalidade com que estilhaça o clichezão do despertar antes mesmo do fim da frase, por meio do “inseto monstruoso” – mas de uma regra. Uma regra ridiculamente difundida. Deve-se evitar que a narrativa comece com o personagem abrindo os olhos em sua cama porque, em primeiro lugar, narrativas desse tipo são legião – e que escritor quer se confundir desde a primeira linha com o tumulto indiferenciado do mundo? Não é só isso. Na grande maioria das vezes, fica evidente que não há uma boa razão para que…

Picaretagem indômita, ou como forjar um best-seller
Vida literária / 11/02/2011

Advertência: esta história é um conto amoral que diz mais sobre os mecanismos do sucesso editorial do que o estudo aprofundado das obras completas de Paulo Coelho. No fim do ano passado, aparentemente julgando prescrito seu crime, o veterano produtor de Hollywood Bob Rehme recordou um episódio pitoresco que vivera em 1969 como executivo da Paramount. Rehme estava encarregado de promover o filme “Bravura indômita” (True grit) – o primeiro, que valeu o Oscar a John Wayne e que não deve ser confundido com a obra dos irmãos Coen que estreia hoje nos cinemas brasileiros. Ocorre que a Paramount havia comprado os direitos do livro homônimo, de autoria de Charles Portis (no qual se baseiam os dois filmes e que está sendo lançado aqui pela Alfaguara), antes mesmo de sua publicação. Apostava num sucesso de vendas, sobre o qual erguera toda a estratégia comercial do filme: “baseado no best-seller” era uma frase fundamental nos cartazes. Mas, embora o livro tivesse colhido boas resenhas, o aguardado sucesso se recusava a vir. E agora? Fácil: aproveitando-se do fato significativo de que uma pequena fração da verba promocional à sua disposição era suficiente para comprar milhares de exemplares de qualquer livro do mundo…

Walser, Shakespeare e a importância de revisar
Vida literária / 09/02/2011

A notícia é excelente para a cultura brasileira, mas a tradução do escritor suíço Robert Walser (1878-1956) que a Companhia das Letras promete para o mês que vem – do romance “Jakob von Gunten”, de 1909 – não será a primeira na história deste país, não. A Arx lançou em 2003, com tradução de Zé Pedro Antunes, o romance “O ajudante” (Der Gehülfe, de 1908). O livro fez pouco barulho por aqui na época, mas hoje os exemplares que caem na Estante Virtual custam uma nota. É que de lá para cá, graças sobretudo a Enrique Vila-Matas e seu “Doutor Pasavento”, Walser – um cara genial e literalmente muito louco, de estilo personalíssimo, vida infelicíssima e bizarríssima mania de escrever a lápis em letras que tendiam ao microscópico, tudo no superlativo – virou nome-chave a ser citado por qualquer um que queira ser ou parecer um escritor cool nesta terra quente. Acredito que “cultuado” seja a palavra preferida pela imprensa cultural nesses casos. * Cai por terra o velho mito espontaneísta – especialmente caro aos escribas de nossa era internética – de que William Shakespeare, gênio do bate-pronto, nunca revisou seus textos, nunca reescreveu um verso, conseguindo ser genial de…

A Flip melhorou de musa e outros links
Vida literária / 26/01/2011

A vinda da argentina Pola Oloixarac (furo de Manya Millen e Miguel Conde no “Globo”) deixa a Flip 2011 mais bem servida de “musa” que a do ano passado, em que a cubana Wendy Guerra teve que quebrar o galho no papel. “Acho graça nesse negócio de ser bonita”, diz nesta entrevista a autora de “As teorias selvagens”. Fica mais engraçado ainda quando se sabe que o livro sairá aqui pela Benvirá, a mesma editora de Wendy. Um novo nicho de mercado? * Um conto inédito de Dashiell Hammett – para quem não sabe, o cara – vai ser publicado na edição da revista americana de mistério “Strand” que sai dia 28 de fevereiro. Chama-se So I shot him (Aí eu atirei nele). O zunzum é que é, redonda e acabada, a história de 12 páginas é boa demais, embora pertença a um lote de uma dúzia que o autor de “O falcão maltês”, morto há 50 anos, optou por não publicar nem em revistinhas pulp. * “O que se chama de experimental envelhece cada vez mais facilmente, ou se converte em algo tradicional, ou se incorpora aos usos normais. Há uma flexibilidade maior. Sempre houve uma enorme capacidade de…

Concursos literários e o Princípio da Incerteza
Vida literária / 17/01/2011

Sempre recusei convites para ser jurado de concursos literários (a brincadeira da Copa de Literatura Brasileira era até agora a única exceção). No fim do ano passado, porém, por razões de amizade, disse sim a uma dessas propostas e logo me vi enfiado até o pescoço na tarefa de ler, e ler criteriosamente, quase mil contos em menos de dois meses. A experiência não é algo que eu deseje a ninguém, nem a – eventuais, ainda que ignorados – inimigos. Das coisas que esse trabalho tem me feito pensar, a mais inquietante é uma espécie de equivalente literário do Princípio da Incerteza de Heisenberg, aquele que enuncia a impossibilidade de medir ao mesmo tempo a velocidade e a posição de uma partícula subatômica, uma vez que a medição altera a realidade observada. De modo análogo, poderíamos formular aqui o Princípio da Incerteza de Rodrigues, que enuncia a impossibilidade de medir talentos em concursos literários. Se você é um jurado ético e preocupado com a justiça dos seus pareceres, como não se angustiar com os efeitos danosos que exercem sobre sua fruição de leitor o ritmo acelerado e nada natural do trabalho, o embotamento advindo da pura quantidade e a irritação…

A volta da Copa de Literatura Brasileira
Vida literária / 05/01/2011

A Copa de Literatura Brasileira, o mais divertido, democrático e desencanado dos prêmios literários nacionais, está de volta. Abertamente inspirada na competição americana Tournament of Books, a brincadeira foi lançada em 2007 com regras de torneio esportivo: os livros se enfrentam aos pares em esquema de mata-mata, cada partida decidida por um único juiz, até a final em que todos os árbitros votam. Houve três edições consecutivas, vencidas respectivamente por Assis Brasil, Cristovão Tezza e Carola Saavedra. Ano passado, porém, silêncio – a Copa parecia ter se tornado mais uma vítima do ambiente efêmero da internet. Felizmente, foi apenas um hiato que a tabela deste ano, recém-divulgada, dá um jeito de compensar: os 16 títulos concorrentes foram eleitos entre os lançamentos de 2009 e 2010. Liderados pelo economista e preparador editorial Lucas Murtinho, os organizadores prometem que o resultado da primeira partida sairá no dia 28 de fevereiro. Nessa data, juntamente com o anúncio do vencedor, será publicada a resenha de justificativa do voto e estará aberta a temporada de comentários dos leitores, que em certos momentos dos anos anteriores atingiram níveis polêmicos de virulência. De modo geral, é quando começa para valer a diversão – ou o estresse, ou…

Quantos livros você leu em 2010?
Vida literária / 03/01/2011

O critério quantitativo tem limitações severas, como provam as vendas do padre Marcelo Rossi, mas é o que costuma ser usado para medir índices de leitura. Por ele, o Brasil vai passando nos últimos tempos do péssimo ao muito ruim, obrigado, com 4,7 livros lidos por habitante/ano, segundo o último – e talvez um tanto otimista – levantamento oficial, divulgado ano passado. Fora da frieza indiferenciada dos números se estende o mundo inteiro. Nessa região confusa, pode-se ficar triste ao descobrir que “Pornopopéia”, de Reinaldo Moraes, o grande injustiçado entre os romances nacionais de 2009 na recente rodada de premiações literárias (não levou nada), vendeu apenas 3.500 exemplares – teto habitual e medíocre da ficção nacional. E também se pode ficar intrigado, como Joan Acocella na “New Yorker”, com o sucesso da trilogia “Millennium”, do sueco Stieg Larsson, que se tornou um arrasa-quarteirão mundial apesar de seus muitos defeitos: …há violações flagrantes de lógica e consistência. (…) As piadas não têm graça. O diálogo não podia ser pior. O fraseado e o vocabulário são consistentemente banais. Um espírito mais afeito ao cinismo diria que a série de Larsson vendeu justamente por isso, e não apesar disso, mas para tais camadas…

Livros de 2010: Bolaño e Cuenca são os vencedores
Vida literária / 17/12/2010

“O único final feliz para uma história de amor é um acidente”, de João Paulo Cuenca, na ficção nacional, e “2666”, de Roberto Bolaño, na ficção estrangeira, foram escolhidos os livros de 2010 pelos leitores do Todoprosa, numa disputa que mobilizou 1326 votos (veja abaixo). Logo após o início da votação, no último dia 8, o tijolão de Bolaño disparou na frente e deixou claro que “Solar”, de Ian McEwan, o segundo colocado, teria poucas chances de alcançá-lo. Chegou ao fim com 41% dos votos, contra 20% do principal concorrente. A disputa nacional foi mais animada. Evidentemente turbinados por campanhas de caça ao voto na internet, João Paulo Cuenca e Elvira Vigna, de “Nada a dizer”, monopolizaram a competição até o fim, deixando Cristovão Tezza, Dalton Trevisan e Adriana Lisboa – esta, minha favorita pessoal com o belo e maduro “Azul-corvo”, seu melhor livro – com uma magra votação de coadjuvantes. A arrancada de Cuenca nas últimas 24 horas de votação lhe deu a vitória com 40% dos votos, contra 34% de Elvira. Pode-se discutir, claro, a validade de uma eleição que deixa em pé de desigualdade tão flagrante livros que contam com fãs interneticamente ativos e livros que apenas…

Livros do ano? E por que não da década?
Vida literária / 15/12/2010

Livro do ano é pouco, vamos falar do livro da década! A sanha das listas de fim de ano levou o programa “Espaço Aberto Literatura”, da Globonews, a promover em seu site uma interessante enquete com a intenção de fechar uma lista dos melhores títulos literários nacionais e estrangeiros (predominantemente de ficção e poesia, embora apareçam algumas obras de outros gêneros) nesses primeiros dez anos do século 21. Tem graça? Claro que tem. Listas são bobagens, mas isso não as condena à inutilidade. Tentar recapitular uma década inteira é ainda melhor – porque envolve uma luta mais difícil com a memória fugidia – do que escolher os destaques de um único ano. Naturalmente, o grau de risco da tarefa também é maior. O “Espaço Aberto” tomou como ponto de partida para sua enquete as listas pessoais de dez profissionais ligados de formas variadas à literatura: André Seffrin, Claufe Rodrigues, Edney Silvestre, Flávio Carneiro, Heloisa Buarque de Hollanda, Humberto Werneck, Livia Garcia-Roza, Lucia Riff, Luciana Savaget e Ricardo Costa. No site, é possível consultar os dez títulos de cada um, embora, de forma meio confusa, apenas três de cada relação tenham se classificado para a votação final, que fica a cargo…

Os livros de 2010: está aberta a votação
Vida literária / 08/12/2010

Agora é com você, leitor. Está aberta aí embaixo a votação dos livros de 2010 – um de ficção nacional, um de ficção estrangeira. Foram considerados apenas títulos publicados este ano no Brasil – no caso dos estrangeiros, o critério permite a inclusão de um lançamento de 1963, como o de Natalia Ginzburg, ao mesmo tempo que exclui (porque ainda sem tradução) o romance que mais marolas provocou no cenário internacional em 2010, o superestimadíssimo Freedom, de Jonathan Franzen. A seleção de candidatos é responsabilidade minha. Agradeço aos leitores que deixaram suas sugestões na caixa de comentários. A campanha pela inclusão do romance brasileiro “As almas que se quebram no chão”, de Karleno Bocarro, despertou minha curiosidade para a leitura, que pretendo satisfazer em breve. No entanto, sem a experiência do texto em primeira mão e sem referências independentes, decidi não incluí-lo na lista. Outros títulos lembrados, como “A passagem tensa dos corpos”, de Carlos de Brito e Mello, e “A morte de paula d”, de Brisa Paim, não foram lançados em 2010 – um ano discreto para a ficção brasileira, aliás, apesar da qualidade dos cinco concorrentes abaixo. [poll id=”2″] [poll id=”4″]

Se é para consertar o Jabuti, valeu
Vida literária / 29/11/2010

Bons ou ruins, antenados ou sem noção, criteriosos ou politiqueiros, todos os grandes prêmios literários têm um vício de origem. Estão para a literatura como a decoração de shopping está para um certo espírito de Natal: têm visibilidade e movimentam a ciranda dos interesses comerciais, mas passam longe de captar a essência da coisa. Tal convicção sempre levou este blog, em seus quatro anos e meio de existência, a oscilar entre o comentário breve e o silêncio significativo diante dos prêmios nacionais, mesmo reconhecendo seu papel na divulgação de livros e autores. Ocorre que essas cerimônias já fazem os tambores soar em alto volume por toda parte, restando assuntos mais relevantes a tratar se o seu negócio é literatura, esse nicho rarefeito, e não mercado editorial ou outros temas periféricos. O Jabuti, então, pouco deu as caras por aqui. O mais tradicional de nossos galardões vem sendo também, de forma consistente, o menos artisticamente sério. Mas a celeuma em torno da premiação de “Leite derramado”, de Chico Buarque, que a princípio julguei conveniente submeter ao mesmo tratamento, chegou tão longe que altera a equação. Não porque tenha algo a ver com mérito literário: o último romance do grande compositor –…

Sobre o artigo de Italo Moriconi no ‘Prosa’
Vida literária / 22/11/2010

Ao longo de três décadas, dos anos 60 aos 90, o ensino universitário da literatura desconstruiu o fetiche da “boa literatura” em nome de uma ciência/política geral dos discursos e da noção do texto como objeto do desejo estético, autorizado por disciplinas que iam desde a psicanálise e a antropologia até os marcos existenciais e estéticos de um contexto favorável ao anticonvencional, às experimentações, às vanguardas tardias ou pós-modernas, aos minimalismos antinarrativos. Tudo isso mudou. As sucessivas levas de novos escritores surgidas nos últimos anos, com algumas exceções, não têm estado nem um pouco interessadas em desconstruir o signo literário ou questionar convenções de qualquer tipo, até porque esse questionamento já se tornara ele próprio convencional e repetitivo. Elas têm se mostrado interessadas em recuperar e praticar o valor positivo do fetiche literário enquanto algo pragmático. Sobretudo estão interessadas em buscar seu público não através da mediação da academia (como ocorrera em parte no caso da geração 70) e sim na relação direta com as clássicas instituições do mercado e da vida literária extra-acadêmica. O imperdível artigo “A reinvenção do fetiche literário”, de Italo Moriconi, publicado no Prosa & Verso do último sábado, faz a necessária – ainda que tardia…

O dia em que a ‘New Yorker’ não falou da literatura brasileira
Vida literária / 15/11/2010

Há pouco mais de dois anos recebi em casa uma ligação incomum: do outro lado da linha, uma simpática repórter da “New Yorker” queria saber minha opinião sobre Paulo Coelho, que seria tema de uma longa reportagem naquela que considero a melhor revista do mundo. Animado pela vaidade de ter minha opinião requisitada pela “New Yorker”, ainda que sobre um tema pelo qual tenho reduzido interesse, falei longamente sobre nosso representante solitário no jet-set literário internacional. A conversa começou a degringolar quando a entrevistadora me perguntou por que, com seu enorme sucesso, PC não tinha franqueado as portas do mercado internacional para outros escritores brasileiros – por que, em suma, não contava com um mísero seguidor. – Ah, porque seu trabalho é algo à parte, mais relacionado com Carlos Castañeda ou Richard Bach do que com qualquer coisa feita aqui – respondi. – Não tem ligação absolutamente nenhuma com a tradição da literatura brasileira. Foi quando ouvi a pergunta singela, ofensiva, espantosa: – Mas a literatura brasileira tem uma tradição? Passado o choque que a arrogância imperialista sempre provoca, especialmente quando distraída, espontânea, simpaticíssima (“sua casa tem água encanada, jura?”), a entrevista virou um curso intensivo e meio atropelado de…

Votação dos livros do ano: indique os concorrentes
Vida literária / 12/11/2010

Eleger os livros do ano é um clichê jornalístico, mas um clichê incontornável, além de salutar. Como os prêmios literários, e muitas vezes com mais eficácia do que estes, as listas de highlights que pipocam em torno do Natal – e que proliferam em todas as áreas, claro, não só na literatura – nos ajudam a imprimir uma certa sensação de ordem ao fluxo das novidades que, sempre excessivas, inundam o ano inteiro. Recapitular, eleger destaques e hierarquizá-los são atividades próximas de arrumar aquele armário cheio de entulho e conservar só o que interessa. Até que vem o ano novo e o entulho começa a se acumular outra vez. Este ano decidi inovar na retrospectiva anual do Todoprosa, o que explica ter entrado mais cedo no assunto. Os destaques de 2010 na ficção nacional e estrangeira – sempre levando-se em conta livros lançados no Brasil – serão escolhidos pelos leitores, em votação que vai rolar aqui no blog em dezembro. A lista final dos dez livros concorrentes, entre brasileiros e estrangeiros, será preparada por mim, mas levando em consideração mais uma vez, ao lado de critérios pessoais, a participação do público. Fica então o convite, caro leitor: use a caixa…

A tinta eletrônica colorida e a derrota de Chico Buarque
Vida literária / 10/11/2010

Surge na China o primeiro leitor eletrônico com tela de e-ink colorida, que até aqui era considerada uma tecnologia comercialmente inviável. Começa a ser aterrado o fosso separa o Kindle e similares, excelentes para a leitura de livros, do iPad, genial para ver imagens. * E quando já davam o paciente como desenganado, o baixo custo do meio digital está provocando uma explosão de novas revistas literárias. Na Inglaterra. * Por fim, reproduzo uma carta de Adolfo Pinho Rosa, o crítico recluso, com um ponto de vista original sobre os prêmios literários que chovem sobre Chico Buarque: Caro Sérgio, Como você não ignora, os códigos de comunicação do mundo literário são frequentemente sutis. Parece-me que, em meio ao burburinho de satisfação, desagrado ou tédio provocado pelos prêmios concedidos recentemente ao autor de “O que será”, vem passando despercebido o cerne da questão. Vejamos: o homem lançou quatro romances e ganhou o Jabuti por três deles. Isso não lhe parece significativo? Pois garanto que o é. Ocorre que a conta não fecha. “Benjamin” não ganhou o Jabuti – com ênfase no “não”. E agora com exclamação, por favor: “Benjamin” não ganhou o Jabuti! Mera casualidade? Ora, não é preciso ser um…

O leitor está morto?
Vida literária / 08/11/2010

Muito interessante o ensaio do crítico argentino Damián Tabarovsky publicado ontem no bom caderno Ilustríssima da “Folha de S. Paulo”, sob o título “O escritor sem público”. Melhor avisar logo que se trata de coisa cabeçuda, cheia de frases como esta: “Nessa comunidade negativa, a leitura não se impõe sob o modo da distribuição (como no mercado) nem no da circulação (como na academia), mas como generalidade imaginária da particularidade”. O interesse do texto, apesar da opacidade, reside no fato de o autor buscar declaradamente uma superação do impasse em que parece ter empacado o debate literário das últimas décadas: a oposição frontal e pouco inteligente entre literatura “de mercado”, com sua ênfase na narrativa, e literatura “acadêmica” (isto é, valorizada por acadêmicos, não necessariamente e na verdade quase nunca escrita por eles), com sua apologia do trabalho de linguagem. Essa busca de síntese tem valor em si. O problema é que, se entendi o que Tabarovsky quis dizer, sua proposta de um novo radicalismo – que ele chama de literatura “de esquerda”, tomando o cuidado de ressalvar que o rótulo não coincide com o de posições político-partidárias – desemboca na exclusão sumária do leitor: “Em troca, é preciso pensar…

Concurso Todoprosa de Microcontos: os vencedores
Vida literária / 29/10/2010

A caixa de emails da mulher aberta diante de si. Dali mesmo gritou perguntando se demoraria no banho. Acabei de entrar, ela respondeu. O texto acima, de autoria de Denival Fernandes Moreira, é o vencedor do Concurso Todoprosa de Microcontos para Twitter, que recebeu mais de 600 inscrições ao longo de uma semana. A disputa foi dura. Cerca de 10% dos inscritos se classificaram para a fase final, em que todos se enfrentaram em sistema de pontos corridos. O juiz solitário – que tentou amenizar a solidão colhendo algumas opiniões respeitáveis entre amigos – sabia que não adiantava lutar contra o caráter subjetivo de suas decisões, mas tinha um critério em mente: marcava mais pontos o microconto que mais se aproximasse do efeito produzido por um conto redondo, completo. O despojado texto de Denival venceu pelo bom uso da técnica do iceberg, em que a maior parte da história – no caso, o passado de desconfianças e o futuro incerto do casal – fica oculta abaixo da linha das palavras, sem que isso pareça um truque narrativo, mas apenas natural. Em segundo lugar veio este triste monólogo de Dilson L.D., exemplar na concisão e na contenção emocional: Todos estão mais…

Concurso Todoprosa de Microcontos para Twitter
Vida literária / 22/10/2010

Expandindo a experiência iniciada aqui esta semana, em busca do que por enquanto é pouco mais que uma miragem – uma literatura forte no Twitter – lanço o Concurso Todoprosa de Microcontos para Twitter. Por trás do nome que as iniciais maiúsculas ajudam a tornar (ironicamente, combinado?) pomposo, uma brincadeira simples: estimular a produção de micronarrativas em formato de tweet, com 140 toques no máximo, mas que consigam atingir alguma densidade literária. A tarefa é mais difícil do que parece à primeira vista. Para começar, esse papo de twitteratura já rola por aí há algum tempo, o suficiente para que até a conservadora Academia Brasileira de Letras, pulando alegremente no bonde digital, organizasse este ano seu concurso, vencido por esta historinha de Bibiana Da Pieve: Toda terça ia ao dentista e voltava ensolarada. Contaram ao marido sem a menor anestesia. Foi achada numa quarta, sumariamente anoitecida. Daí decorre que a maior dificuldade do microcontista-tuiteiro é que, sinal dos tempos, seu formato mal nasceu e já está superexplorado. Não faltam microcontos por aí, como se pode conferir na profusão de links reunidos nesta página. Some-se a isso a vasta produção de aforismos no Twitter – que também são uma forma de…

História do mundo em 13 tweets
Vida literária / 20/10/2010

Será que o Twitter, com sua famosa limitação de 140 caracteres por mensagem, é um bom lugar para a literatura? Foi sem dúvida um excelente lugar para os calouros da Universidade de Chicago que ano passado venderam à editora Penguin a ideia do livro “Twitterature”, em que clássicos universais são recontados em “vinte tweets ou menos”. Como ferramenta para o ensino de habilidades literárias em sala de aula, segundo reportagem desta semana, também está sendo descoberto. Mas… Onde anda a boa literatura original do Twitter? Quase todo mundo que sigo lá, onde atendo por @sergiotodoprosa, é dessa área. E não vejo ninguém se animando a ir além daquela mistura de notícias breves, links, comentários e piadinhas que dá o tom inconfundível do meio. No máximo, pintam uns aforismos menos esquecíveis. Aí fiquei pensando: e se a barreira imposta à literatura pelo Twitter não vier da limitação de espaço (Dalton Trevisan, afinal, já era tuiteiro antes do tempo), mas do pH do solo? De um certo prisma de leitura que ele cria, necessariamente leve, ansioso, volátil? Alguém quer mesmo ler literatura ali? Foi com essas ideias na cabeça que resolvi fazer uma experiência: publiquei ontem a série “História do mundo em…

Quem não gosta de sexo na literatura gosta de sexo?
Vida literária / 13/10/2010

Lendo o artigo de Jojo Moyes no “Telegraph” sobre a dificuldade – ou a impossibilidade, segundo Martin Amis – de escrever boas cenas literárias de sexo, me dou conta de que o tema virou uma pequena obsessão dos ingleses. Sim, o Bad Sex Award, coberto com alguma atenção aqui no blog, tem sua graça. Mas aí veio o post de Sarah Duncan, e agora esse artigo. Será que a pauta é mesmo tão boa assim? Vamos admitir logo que a dificuldade existe e é interessante. Como escrever – ou optar por não escrever – o que acontece quando dois personagens, fazendo avançar a narrativa, resolvem transar sempre foi uma questão relevante e talvez seja especialmente escorregadia para o escritor de hoje. As fórmulas que um dia funcionaram tendem a nos soar canhestras, tudo resvala perigosamente no clichê. As decisões a tomar por linha são mais numerosas do que o habitual e cada uma contém seus riscos. Nomear, por exemplo, os órgãos sexuais, as ações? Usar termos técnicos ou chulos? Ou quem sabe poéticos, derivativos e metafóricos, em busca de um certo clima? Com a irresponsabilidade dos chutadores, mas sem muita dúvida de acertar o gol, eu diria que a literatura…

Euclides, o campeão da falta de humor
Vida literária / 29/09/2010

Hora de dar o resultado do pequeno concurso que lancei aqui na semana passada, valendo um exemplar de “Sobrescritos” para o primeiro leitor que citasse um grande escritor “inteiramente tapado para a graça, uma porta em termos de senso de humor”. A ideia era submeter ao teste da interatividade internética uma conclusão provisória com a qual eu andava brincando: a de que só escritores medíocres podem ser inteiramente desprovidos de humor. A participação dos leitores foi brilhante e, no meu entendimento, provou acima de qualquer dúvida que eu estava errado. Sim, é possível fazer grande literatura e ao mesmo tempo ser a menos espirituosa das criaturas. Raro, sem dúvida, mas possível. Uma das provas disso é Euclides da Cunha, nome com o qual Luis Nascimento, o primeiro a sugeri-lo, assegurou o prêmio. Não vou dizer que reli “Os sertões” de ponta a ponta para chegar a tal conclusão, mas acredito ter folheado páginas suficientes para confirmar o que a memória já sugeria: não existe a mais pálida sombra de sorriso ali. (O curioso exercício de desclassificação do autor ensaiado por Rafael Souza, substituindo a figura de Antônio Conselheiro pela de Lula, tem sua graça, mas ela provém de Rafael e…

Busca-se grande escritor sem senso de humor: vale prêmio
Vida literária / 20/09/2010

O último Babelia é dedicado a um tema recorrente aqui no Todoprosa, que volta e meia aponta o que julga ser uma desvalorização do ingrediente nos cozidos literários brasileiros dos últimos tempos: o humor. Recomendo a edição inteira, mas adianto um palpite entre os muitos que a equipe do suplemento literário do “El País” foi buscar. É do escritor colombiano Daniel Samper Pizano e não é muito original: Humor e literatura… Mas por acaso haverá muita literatura sem humor? De Homero a John Irving e de Cervantes a García Márquez, passando por Aristófanes, Petrônio, Chaucer, Juan Ruiz, Boccaccio, Shakespeare, Quevedo, Rabelais, Sterne, Balzac, Gógol, Wilde, Twain e Borges – sem mencionar “As mil e uma noites” e mil e um outros autores – todos recorreram ao humor para construir sua literatura. Seria interminável a lista de escritores a quem devo sorrisos e risadas. Pizano lista grandes autores que têm no humor um traço central ou pelo menos marcante. Mas isso não é difícil, pensei. Então fiquei imaginando o exercício contrário, este sim dureza: uma lista de grandes escritores inteiramente desprovidos do sentido de humor. De Dostoiveski a Cormac McCarthy, de Graciliano Ramos a Clarice Lispector, me ocorreram muitos nomes que…

Essa incômoda sensação de que os zumbis somos nós
Vida literária / 15/09/2010

Não é fácil a vida de um humorista – ou de um escritor com inclinação satírica, o que no caso dá no mesmo – no país da piada pronta. Em janeiro deste ano, impressionado com o número de lançamentos internacionais surgidos na esteira do arrasa-quarteirão “Orgulho e preconceito e zumbis” (aqui lançado em março pela Intrínseca), que enxerta mortos-vivos no clássico de Jane Austen, fiz um post no Todoprosa jogando algumas ideias para autores e editores brasileiros que quisessem vampirizar esse escracho do mashup, coisas como “Dom Casmurro na máquina do tempo” e “Grande sertão: aliens”. E perguntei: “Quando será que o Brasil, sempre atrasadinho, vai pular no bonde dessa vibrante forma de vanguarda literária?” A resposta teve que esperar apenas oito meses – menos que uma gestação completa. A editora Leya está lançando este mês, pelo selo Lua de Papel, quatro títulos claramente inspirados nessa tendência: “Dom Casmurro e os discos voadores”, “O alienista caçador de mutantes”, “Senhora, a bruxa” e “Escrava Isaura e o vampiro” (sei não, mas minhas sugestões pareciam melhores). A Leya leva seu lote ao mercado depois da Tarja Editorial, que atua no nicho fantástico e tem nas prateleiras “Memórias desmortas de Brás Cubas”, mas…

O velho escritor não lê as notícias
Vida literária / 01/09/2010

O velho escritor, sobrevivente de incontáveis guerras de panelas fumegantes, é um cara tão descrente que, quando lhe recomendaram a engraçadíssima resenha do novo livro de Jonathan Franzen feita em vídeo pelo crítico do “Washington Post”, Ron Charles, disse apenas: “Grunf”. O velho escritor, com seus diplomas de escolas estéticas opostas empilhados no fundo da gaveta de baixo da cômoda do quarto de empregada, anda tão desiludido com esse papo de literatura que não se animou a tomar conhecimento da lista dos dez finalistas do principal prêmio nacional da categoria. Só resmungou: “Hmpf”. O velho escritor já foi um inflamado – e incompreendido – defensor do hibridismo entre gêneros populares e eruditos como o melhor caminho para o novo, mas não demonstrou interesse sequer quando lhe informaram que jovens escritores de fantasia, terror e ficção científica estão brotando país afora feito cogumelos alucinógenos. Limitou-se a grunhir: “Ahgã”. O velho escritor, que aos 25 anos foi saudado por um importante crítico hoje esquecido como “nossa maior promessa pós-regionalismo”, está inteiramente surdo e oitenta por cento cego. O sinal mais significativo de que ainda não morreu é o estremecimento que sente na alma ao recordar o modo como Quincas, o vira-lata que…

O gosto de contar
Vida literária / 30/08/2010

“Não defendo a trama como representação acurada da vida, mas como forma de manter o leitor lendo”, disse Kurt Vonnegut. “Se você exclui a trama, se elimina o desejo de alguém por alguma coisa, exclui o leitor, o que é uma coisa muito feia de fazer.” Também acho feio excluir o leitor. No entanto, o enredo, a trama, o plot – a história, enfim, de preferência envolvendo gente – é um fundamento clássico que foi perdendo valor para boa parte da literatura escrita do século 20 para cá. Disseminou-se nesse período a crença de que “escritores sérios” devem antes de mais nada achatar ou desidratar a dimensão da fábula, que seria coisa de autor popular ou populista, se quiserem voar alto nas questões mais relevantes da forma. Hoje há mesmo literatos cascudos – conheço dois ou três – que chegam ao extremo de odiar intrigas, peripécias, escolhas, surpresas, que têm alergia a coincidências e abominam detalhes habilmente sonegados pelo narrador, que espumam de raiva com cartas que são abertas e mudam o rumo das coisas (ou não são abertas e mudam o rumo das coisas), pois para eles é inferior qualquer literatura que utilize o enredo de modo mais sedutor,…

Franzen, Bolaño e o hype literário
Vida literária / 27/08/2010

Faz muitas décadas que a literatura propriamente dita, artisticamente ambiciosa, não é terreno fértil para comoções de massa. É cem vezes mais fácil construir uma atmosfera de hype, o que um dia se chamou de badalação, no âmbito do cinema ou da música pop. Isso torna ainda mais interessantes os casos recentes de dois livros cercados de histeria: Freedom, do americano Jonathan Franzen, que antes mesmo de sair (será lançado terça-feira nos EUA) já vem sendo chamado de “romance do século”, e “2666”, o tijolão do chileno Roberto Bolaño, que foi unanimemente saudado como sua obra-prima e que, chegando ao Brasil com atraso há poucos meses, virou também por aqui aquele tipo raro de livro que todo mundo lê predisposto a elogiar. Hype, palavra que os moderninhos brasileiros adotaram com um sentido intensamente positivo que está ausente do original, quer dizer em inglês publicidade excessiva e a comoção que ela provoca, exagero marqueteiro em torno de um produto e até mesmo, em casos extremos, fraude. Pode ser que falar em hype seja impróprio quando se trata de escritores tão talentosos quanto Franzen e Bolaño. Por outro lado, os dois casos de sucesso parecem ter, pelo menos em certa medida, algo…

Notícia da atual literatura brasileira: instinto de internacionalidade (II)
Resenha , Vida literária / 23/08/2010

Falávamos das respostas que a literatura brasileira ensaiou ao longo da história para a velha charada de produzir arte relevante num país situado na periferia econômica e cultural do mundo. Como já deixei sugerido, acredito que o novo livro de João Paulo Cuenca, “O único final feliz para uma história de amor é um acidente”, possa trazer um ou dois elementos novos para a conversa. Um deles é o de, roubando novamente a ideia de Machado de Assis com sinal trocado, nos fazer pensar que boa parte da literatura brasileira contemporânea pode estar sofrendo de uma “internacionalidade de vocabulário”. Par oposto do nativismo de Alencar e Gonçalves, em que o índio é enfiado numa forma europeia sem alterá-la significativamente, a “internacionalidade de vocabulário” seria a propensão de soar cosmopolita (todos queremos ser universais, certo?) por meio da citação, do adorno, da ostentação de cultura, sem que isso altere de modo significativo o que está sendo narrado e como. Às vésperas da Copa de Literatura de 2009, o jurado e blogueiro que se assina Doutor Plausível escreveu um artigo curioso afirmando ter contado um a um os casos de name-dropping, de citação de pessoas ou objetos culturais – nacionais e estrangeiros…

Notícia da atual literatura brasileira: instinto de internacionalidade
Vida literária / 20/08/2010

Quem examina a atual literatura brasileira reconhece-lhe logo, como primeiro traço, certo instinto de internacionalidade. A frase que você acaba de ler é uma cópia quase perfeita daquela que abre o mais famoso texto crítico de Machado de Assis, chamado “Notícia da atual literatura brasileira: instinto de nacionalidade”, de 1873. A troca da nacionalidade pela internacionalidade não tem uma intenção rasa de paródia: com sorte, será o ponto de partida para uma tentativa de jogar luz sobre as respostas novas que a literatura brasileira do século 21 – sim, esta mesmo, que contava com 4.203 leitores na última pesquisa – possa estar formulando agora para o velho problema de produzir arte relevante num país situado na periferia econômica e cultural do mundo. Há também, reconheço, uma forma menos benevolente de encarar este parágrafo: como nariz-de-cera (que em jargão de jornalista quer dizer prólogo enfadonho) para uma resenha do recém-lançado romance “O único final feliz para uma história de amor é um acidente” (Companhia das Letras), do escritor carioca João Paulo Cuenca. Espero ser capaz de desmentir essa impressão. O livro de Cuenca é mesmo o gancho deste texto – para insistir no jargão jornalístico – e vai ser abordado na…

Dez escritores brasileiros abrem o jogo da ‘má influência’
Vida literária / 13/08/2010

Num bom momento da Flip, Salman Rushdie disse que Jorge Luis Borges foi uma “má influência” em sua juventude. Apaixonado por “Ficções”, passou a tentar escrever daquele jeito, embora sua “inclinação natural como escritor não fosse borgiana”. Deu trabalho, segundo ele, aprender a não escrever como Borges. O Todoprosa aproveitou a deixa para perguntar por e-mail a dez escritores brasileiros quais foram suas “más influências”: MILTON HATOUM, autor de “A cidade ilhada”: “Acho que a obra de J.L. Borges influenciou várias gerações de escritores. Lembro que na década de 70 eu também imitava Borges. Mas joguei fora esse péssimo plágio deliberado. No começo de sua carreira, todo escritor imita seus antecessores. A imitação faz parte do processo de aprendizagem de qualquer atividade humana. Borges dizia que imitava Macedonio Fernandez ‘até plagiá-lo’. Os contos de ‘História universal da infâmia’ devem muito às narrativas do francês Marcel Schwob (‘Vidas imaginárias’ e ‘A cruzada das crianças’). Acho que Salman Rushdie é um escritor marqueziano. Certa vez ele me disse que adora a obra de García Márquez. Este, por sua vez, já afirmou que lia Borges para aprender a escrever. Na infinita biblioteca do universo, todos podem ser influenciados por todos, mas um bom…

Flip, um balanço (e alguns solavancos)
Vida literária / 09/08/2010

Os rumores sobre a substituição do diretor de programação da Flip dominaram as últimas horas do domingo em Parati, aquelas em que a cidade esvaziada ganha um ar meio deprimente de quarta-feira de cinzas, mas deixaram no ar uma falsa questão. Flávio Moura, com três edições no currículo, já é o mais longevo dos quatro curadores da Flip. Permanecendo ou não no cargo – e ontem à noite o diretor geral do evento, Mauro Munhoz, afirmou que ele permanece –, já ficou claro que uma correção de rumo será necessária. O problema mais grave é o evidente esgotamento da linha de trazer estrelas midiáticas internacionais como carro-chefe da programação. O mundo literário é vasto, mas os astros que aceitam convites do gênero – universo que não inclui Philip Roth e um monte de gente – estão acabando. Uma prova disso é a volta de Salman Rushdie, que ainda assim foi um dos pontos altos de 2010. Se tiver que vir de novo em 2013, porém… Por outro lado, a ideia de afrouxar os critérios propriamente literários para abarcar astros de outros céus, testada este ano com Lou Reed e Robert Crumb, deu no que deu. Reed nem veio e Crumb,…

Literatura brasileira como (fraco) produto de exportação
Vida literária / 08/08/2010

O alemão Berthold Zilly, tradutor de Euclides da Cunha e Machado de Assis, e o americano Benjamin Moser, de recente sucesso com sua biografia de Clarice Lispector, chamada “Clarice,”, discutiram por que a literatura brasileira tem presença relativamente discreta no cenário internacional. O penúltimo encontro da Flip, numa Tenda dos Autores esvaziada pela debandada de domingo, foi simpático, com os dois falando um português mais que decente. E levou a uma conclusão de ululante obviedade: o Brasil investe muito pouco, em termos institucionais, na divulgação de sua literatura no exterior. Até chegar a esse lugar comum, entretanto, a conversa trilhou caminhos interessantes, que incluíram uma “defesa” de Paulo Coelho feita por Moser (o que lhe valeu um incompreensível princípio de vaia) e a informação, dada por Zilly, de que foi convidado – mas ainda não aceitou – a fazer uma nova tradução de “Grande sertão: veredas”. Abaixo, alguns trechos do debate: BERTHOLD ZILLY “Uma importante editora de Munique me pediu para fazer uma nova tradução do ‘Grande sertão: veredas’, mas ainda estou pensando se quero me enfurnar por dois ou três anos. É um tempo em que eu não poderia aceitar um convite como este da Flip, por exemplo.” “A…

Pensamento de Freyre pode ser arma contra o racismo?
Vida literária / 08/08/2010

Na mesa “Gilberto Freyre e o século 21”, a última da série de homenagens ao autor de “Casa grande & senzala”, o historiador Peter Burke, o sociólogo José de Souza Martins e o antropólogo Hermano Vianna confessaram sentimentos ambivalentes diante das ações afirmativas, como a política de cotas para estudantes negros: se por um lado há a evidente necessidade de corrigir desigualdades, por outro criam-se novos problemas para uma sociedade que, em parte graças a Gilberto Freyre, aprendeu a duras penas a se orgulhar de ser mestiça. “A obrigação que tem o estudante de se declarar branco ou negro significa a perda de uma poderosa arma de luta contra o racismo na sociedade brasileira”, disse Vianna. Cada um a seu modo, os três falaram sobre como o pensamento de Freyre pode ser atualizado para a realidade de um novo século. Para Burke, “é preciso ir além de Gilberto Freyre, que usa um vasto vocabulário para falar de hibridismo cultural, mas não menciona a ideia de ‘tradução cultural’, que é fundamental para compreender as sociedades multiculturalistas de hoje”. Mesmo assim, acrescentou, Freyre tem “muito a nos ensinar” no desenvolvimento de ferramentas de tradução cultural. Martins enfatizou a questão racial como um…

Crumb e Shelton: uma noite para esquecer
Vida literária / 07/08/2010

Os cartunistas americanos Robert Crumb e Gilbert Shelton foram os protagonistas da página mais constrangedora da história da Flip, na mesa “A origem do universo”, que terminou há pouco, com mediação do jornalista Sérgio Dávila. Conversa mole e entrecortada de dois hippies velhos, pontuada de fracas e recorrentes piadas sobre o tamanho dos glúteos das mulheres brasileiras, bastaram dez minutos para deixar claro que a escalação dos cartunistas, por mais importantes que seus nomes sejam na cultura underground americana, tinha sido um equívoco. E tudo piorou quando, com metade do tempo transcorrido e numa aparente tentativa de salvar a noite, a organização do evento fez subir ao palco a mulher do astro principal, a também cartunista Aline Crumb. Foi quando o mediador e Shelton – que, apesar de meio surdo, ainda tentava timidamente dirigir o papo para algum lugar menos desprovido de sentido – se viram excluídos do que virou um bate-boca doméstico. Doses maciças de vergonha alheia no sábado à noite, o “horário nobre” do evento. Ei, pessoal: talvez não seja má ideia escalar apenas escritores, afinal.

Eagleton cobra de Rushdie posição firme contra islamofobia
Vida literária / 07/08/2010

O crítico literário inglês Terry Eagleton não fugiu da polêmica com Salman Rushdie (veja o texto abaixo), mas minimizou o papel do autor de “Os versos satânicos” no time de intelectuais liberais que, segundo ele, teve reação de “pânico” ao desafio imposto pelos radicais islâmicos e vem descambando para a islamofobia. Um time que ele escala com Christopher Hitchens e Martin Amis no ataque, reservando a Ian McEwan e Salman Rushdie papeis secundários. “Não me entendam mal, o Islã radical é um fenômeno muito, muito feio, que explode crianças em nome de Alá”, disse Eagleton, crítico literário de formação católica e marxista, na mesa “Andar com fé”, mediada pelo jornalista Silio Boccanera hoje de manhã. “Há obviamente diferenças individuais no grupo que eu mencionei, mas o que me deixa alarmado é que a linha que separa a crítica ao radicalismo islâmico da islamofobia ficou muito tênue e tem sido cruzada com frequência, especialmente no caso de Martin Amis e Christopher Hitchens. Gostaria que Salman Rushdie e outros dissessem em voz mais alta e clara que veem uma distinção entre o Islã e os radicais do Islã, em vez de agirem como se a tradição ocidental fosse absolutamente livre de barbaridades.”…

Salman Rushdie para cabeças e corações
Vida literária / 06/08/2010

E a Flip teve sua primeira mesa propriamente flípica. Ao fim da entrevista concedida por Salman Rushdie ao jornalista Silio Boccanera, agora há pouco, o público que lotou a Tenda dos Autores estava cheio de sorrisos. Ali estava, enfim, um peso-pesado da literatura mundial, o homem que ganhou recentemente o Booker dos Bookers por seu livro de estreia, “Os filhos da meia-noite”. Ali estava também um personagem político importante (ainda que à sua revelia), no cenário da relação conflituosa entre o Islã e o Ocidente. E ali estava ainda um pai fazendo o lançamento mundial do livro infanto-juvenil que escreveu para seu filho mais novo, “Luka e o fogo da vida”, com direito a uma breve – e constrangida, mas certamente terna – presença do filho no palco. Resultado: um show redondo, do tipo que faz o público correr para os restaurantes com a cabeça excitada e o coração aquecido. No contexto da Flip, não dá para ser melhor que isso. Rushdie falou do livro que está escrevendo sobre o período em que esteve ameaçado de morte pela fatwa, criticou pesadamente o filme “Quem quer ser um milionário” e não se aborreceu sequer quando, lendo a última pergunta enviada por…

Nada de Gilberto Freyre: na mesa do Oriente Médio, quem apanha é Lula
Vida literária / 06/08/2010

Eles evitam o rótulo de escritores politicos – ela diz que sua literatura é “existencial” e ele, que seu foco é a moral humana –, mas a verdade é que a política foi tema quase onipresente na mesa “Promessas de um Velho Mundo”, que reuniu a iraniana Azar Nafisi e o israelense Abraham B. Yehoshua, sob a mediação de Moacyr Scliar. A política e o presidente Lula, alvejado de ambos os lados com críticas e ironias. “O conflito entre Israel e Palestina é o mais antigo do mundo moderno, tem 120 anos. Precisamos de ajuda da comunidade internacional para resolver a questão e poder ajudar tanto palestinos como israelenses. Talvez Lula… Ele já esteve lá, em Israel, ele estava sorrindo, estava todo feliz”, disse Yehoshua, lembrando a viagem feita por Lula este ano a Israel, quando o petista deixou de visitar pontos considerados importantes para a história israense, por lembrarem o Holocausto. Antes, Azar havia lembrado a hesitação de Lula em intervir na questão de Sakineh Ashtiani, iraniana condenada à morte por apedrejamento por um suposto adultério. Lula acabou oferecendo asilo politico – negado pelo Irã – após uma campanha para que tomasse uma attitude a respeito do caso. Eu…

A hora dos desenraizados
Vida literária / 06/08/2010

A mesa “Chá pós-colonial” reuniu hoje à tarde dois escritores britânicos assumidamente desenraizados: Pauline Melville, nascida na Guiana, e William Boyd, nascido na África (no que mais tarde seria Gana), concordaram sobre o valor que tem para quem faz literatura a sensação de não pertencer a lugar nenhum. “Quando me perguntam de onde eu sou, dá vontade de responder: ‘Bem, de quanto tempo você dispõe’?”, disse Boyd, autor de “Tempestades comuns”. “Meus pais são escoceses, nasci na África, morei na França, não me sinto inglês. Isso é uma benção para um escritor, porque você olha para o mundo com mais distanciamento, mais curiosidade e talvez com mais desconfiança também.” Além disso, o elogio do humor e da sátira como ingredientes legítimos e desejáveis na receita da chamada literatura séria contribuiu para aproximar os dois autores. Mesmo assim, a mesa transcorreu morna – para o que certamente contribuiu o fato de ambos serem pouco conhecidos do leitor brasileiro – até Pauline, ex-atriz e autora de “A história do ventríloquo”, contar, a pedido do mediador Ángel Gurria-Quintana, o episódio real em que foi atacada por um psicopata em sua casa, em Londres, passando cerca de três horas de mãos amarradas e sob…

Acadêmicos relembram controvérsias de Gilberto Freyre
Vida literária / 06/08/2010

O homem que defendeu a miscigenação brasileira, dando a ela um valor positivo, foi também o homem que elogiou Salazar, ditador que impôs um regime autoritário de mais de 30 anos a Portugal. Essa e outras controvérsias foram relembradas na mesa “Além da casa grande”, que reuniu, na Flip, o africanista Alberto da Costa e Silva, a historiadora Maria Lucia Burke e socióloga Angela Alonso, sob a mediação da antropóloga Lilia Schwarcz. “Freyre parecia ter uma visão romantizada da abolição da escravatura, como se ela tivesse ocorrido sem conflito social nenhum”, disse Angela Alonso. Para justificar a admiração de Freyre por Salazar, Costa e Silva disse que o ditador português sabia conquistar os intelectuais pela vaidade: ele se preparava, lendo a respeito da produção de um pensador, antes de se encontrar com ele. A conversa também foi temperada por menções ao estilo único de Freyre, que escrevia como um romancista e pesquisava como um bisbilhoteiro, nas palavras do próprio. “Ele enumera imagens para transmitir ao leitor a sensação da mudança da sociedade colonial para a moderna, no Brasil. Entram aí receita de bolo, jazigos, anúncio de chapéu, anúncio de dente de ouro, modinhas”, afirmou Angela. “É o que ele chama…

O Darnton analógico e o Darnton digital
Vida literária / 06/08/2010

A ideia de dividir a participação do historiador Robert Darnton na Flip em duas – nas mesas “O livro: capítulo 1”, ontem à noite, e “O livro: capítulo 2”, hoje de manhã – parecia boa, não só como forma de organizar a grande massa de informação trazida pelo convidado mas também como espelho de uma linha histórica que a presente revolução tecnológica quebra inevitavelmente em pré e pós: a primeira conversa foi dedicada à história do velho códex, o livro de papel, e a segunda voltada para os desafios impostos pela cultura digital. Bem, funcionou exatamente assim. O único problema é que os espectadores podem ter saído com a impressão de que o tempo do livro de papel era uma chatice e que toda a diversão vai começar agora, tal foi a disparidade de temperatura entre a primeira mesa, uma conversa de ares acadêmicos mediada pela historiadora Lilia Schwarcz, e a segunda, uma entrevista conduzida pela jornalista Cristiane Costa. Diretor da Biblioteca de Harvard e pesquisador especializado no Iluminismo francês, Darnton teve ontem à noite a companhia de outro historiador dedicado à investigação da leitura, Peter Burke. Não por acaso, os dois estavam loucos por fazer pontes entre o passado…

Isabel Allende se defende da fama de best-seller
Vida literária / 06/08/2010

“Se meus livros vendem, é porque escrevo pensando no público, herança do jornalismo.” Foi assim que Isabel Allende, 68, justificou, sem que tivesse sido questionada a respeito, sua fama de best-seller. Vender muitos livros, num mercado difícil como o literário sempre levanta suspeitas sobre a qualidade da obra. Na mesa “Veias abertas”, realizada nesta quinta na Flip, com mediação do jornalista Humberto Werneck, Isabel evocou o jornalismo para explicar seu desempenho comercial e a ditadura de Augusto Pinochet, que tirou da direção do Chile o primo do pai, Salvador Allende, para narrar sua investida na literatura. ”Escrever foi uma maneira de recuperar memórias do Chile e ressuscitar os mortos”, disse, referindo-se ao seu livro mais famoso, “A Casa dos Espíritos”, baseado nos horrores da ditadura do Chile, país que teve de abandonar em 1973. Apesar de o livro, que marcou sua estreia como escritora, ter se tornado um fenômeno, com direito a adaptação em Hollywood, ela não se sente pressionada por ele. Antes, afirma se sentir grata pelas possibilidades que ele lhe abriu. O que a oprime, isso sim, é a solidão do trabalho de escrever. “É um trabalho solitário e inseguro, cheio de dúvidas, e sinto que as minhas…

O caso das três ‘linhas de força’: Reinaldo, Ronaldo e Beatriz
Vida literária / 05/08/2010

Falar sobre literatura não tem nada a ver com escrever, da mesma forma que ouvir escritores falando sobre literatura passa muito longe da experiência de ler. Eis o drama ou o pecado de origem de qualquer evento como a Flip: o que há de mais importante ou vital no objeto que se propõe celebrar sempre escapa entre os dedos. O que não é novidade nenhuma. Mas às vezes ocorre um caso como o da mesa “Fábulas contemporâneas”, hoje à tarde: mais na forma que no conteúdo de suas falas, Reinaldo Moraes (“Pornopopeia”), Ronaldo Correia de Brito (“Galileia”) e Beatriz Bracher (“Antonio”) conseguiram dar a uma plateia menos que lotada uma boa ideia do trabalho de cada um. Reinaldo foi a presença mais engraçada e provocadora, Ronaldo a mais solene e “literária”, Beatriz a mais tímida e tateante. A homogeneidade nunca foi o forte da “mesa dos autores brasileiros” da Flip (sim, trata-se de política de cotas mesmo), que rola sempre às quintas-feiras, mas esta foi especialmente heterogênea. No papel de mediadora, a crítica Cristiane Costa fez o possível para encontrar um fio que desse coesão ao trio. E encontrou uma fórmula engenhosa: a de que os três autores a seu…

Patrícia Melo: crítica brasileira é ‘simplista e pobre’
Vida literária / 05/08/2010

A americana Lionel Shriver, autora de “Precisamos falar sobre o Kevin”, e a brasileira Patrícia Melo, autora de “O ladrão de cadáveres”, protagonizaram uma mesa simpática. Chamada “De frente pro crime”, a segunda conferência da quinta-feira foi recheada de declarações de cortesia mútua e surpreendentemente suave, tão focada em temas afeitos a certos clichês de feminilidade, como casamento e maternidade, quanto na crueza da violência que ambas tematizam em suas obras. O que se deve em parte ao cavalherismo explícito da mediação do jornalista e escritor Arnaldo Bloch e, pelo lado da surpresa, não pode ser considerado exatamente um defeito. No entanto, foi preciso chegar à parte final da mesa, quando a plateia envia suas perguntas, para que se desse o momento mais revelador da conversa. Perguntada sobre a já repisada questão de fazer uma literatura que nunca conseguiu se libertar da influência excessiva de Rubem Fonseca (com o que concordo em grande parte, a ponto de achar que, considerando-se apenas os livros lançados nos últimos dez anos, a decadência do mestre a tornou um Rubem melhor que Rubem), Patrícia Melo fez um pequeno discurso em tom de desabafo: “Infelizmente, a crítica literária no Brasil ainda é muito simplista, muito…

Mais pancada: Scliar bate no Freyre ficcionista
Vida literária / 05/08/2010

Personagem central da 8.ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o pernambucano Gilberto Freyre voltou a receber críticas no evento, durante a primeira mesa de discussão, que contou com os professores universitários Edson Nery da Fonseca e Ricardo Benzaquen e o escritor Moacyr Scliar, hoje de manhã. As palmadas iniciais vieram do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que na conferência de abertura da festa, como sempre fez, não poupou adversativas ao antropólogo. “Eu não fico entusiasmado com o romance de Freyre”, disse Scliar, se referindo a “Dona Sinhá e o filho padre”. “A grande contribuição dele está em outra área, em livros como ‘Casa grande & senzala’.” O escritor afirmou, no entanto, que o estilo do pensador pernambucano tem sotaque literário. “Seu texto está muito mais para a literatura do que para a ciência.” O também pernambucano Edson Nery concordou com Scliar. Freyre, disse ele, evitava ao máximo usar termos científicos em seus textos, e preferia até palavras chulas a eles. “Ele dizia que havia contextos em que a palavra chula como que se impunha..” Reconhecidamente um admirador de Freyre, o professor da Universidade de Brasília (UnB) lembrou que “Dona Sinhá” foi bem recebido pela crítica nos Estados Unidos…

FHC espanca Gilberto Freyre: homenagem é isso
Vida literária / 04/08/2010

Quem esperava o tom reverente e meio anódino que é típico das homenagens festivas deve ter levado um susto com a palestra de Fernando Henrique Cardoso sobre Gilberto Freyre, a primeira da Flip 2010, encerrada há pouco. Ponto para a Flip. “É muito fácil estraçalhar Gilberto Freyre”, disse o ex-presidente da República na mesa intitulada “Casa grande & senzala”, ao lado do quase mudo historiador Luiz Felipe de Alencastro. Falando de improviso, sem consultar em momento algum o calhamaço que tinha nas mãos e que disse ter escrito para a ocasião, FHC chamou o sociólogo pernambucano de racista, contraditório, conservador, pouco rigoroso como cientista social – “muitas vezes ele nem conclui o raciocínio, se perde, e você continua a ler porque ele escreve muito bem e o leva no embalo” – e defensor imperdoável do colonialismo português em plena vigência do regime salazarista. Passou perto de dizer que seria melhor a organização do evento ter homenageado Sérgio Buarque de Hollanda, autor de “Raízes do Brasil”, contemporâneo de Freyre. De toda forma, deixou o pai do Chico como sugestão para o futuro. Isso lá é homenagem? Por incrível que pareça, é, pela razão simples de que ideias que não provocam controvérsia…

Estou a caminho, mas a “Serrotinha” me alcançou
Vida literária / 04/08/2010

Pego daqui a pouco a estrada rumo a Parati (sem ípsilon, só aqui) e volto a escrever ainda hoje, assim que der, direto da Flip. Uma novidade importante: vou dividir a cobertura da festa com minha vizinha de Veja.com Maria Carolina Maia, responsável pela coluna Veja Meus Livros. Notícias e entrevistas também vão rolar lá, mas os posts sobre as mesas que a Carol acompanhar sairão aqui no Todoprosa, que assim, pela primeira vez em mais de quatro anos de história, tem o orgulho de anunciar uma blogueira convidada. E a possibilidade de cobrir um maior número de mesas. Ganham os leitores. Por enquanto, não me sai da cabeça um artigo escrito em 1903 pela americana Edith Wharton, chamado “O vício da leitura”. Uma das atrações da charmosa “Serrotinha”, edição especial de Flip da revista “Serrote”, o primeiro item flípico a me alcançar ainda em casa, o texto de Wharton é uma diatribe assumidamente elitista – de um elitismo, digamos, espiritual e não econômico ou mesmo cultural – contra o que ela chama de “leitores mecânicos”, aqueles que medem os livros pela quantidade e, incapazes de se deixar afetar profundamente pela leitura, estão preocupados apenas em “acumular conhecimento”. Depois dessa,…

Autores brasileiros, ausências e repetições
Vida literária / 02/08/2010

O caderno Prosa & Verso do “Globo” publicou uma polêmica reportagem de capa, sob o título “Olha a gente aqui outra vez” (todos os textos estão reproduzidos no blog do caderno), questionando o “alto índice de repetições” de autores nacionais no elenco da Flip este ano. O repórter Miguel Conde fez as contas e descobriu que “dos dez escritores brasileiros que participarão das mesas literárias até o encerramento no dia 8 de agosto, nove estiveram em edições anteriores do evento – a romancista Carola Saavedra é a única estreante do grupo”. Uma respeitável estreante, pelo menos isso, pode-se argumentar. Entrevistado pelo jornal, o diretor de programação da Flip, Flávio Moura, optou por outro caminho. Declarou que os brasileiros estreantes no evento concentram-se fora das áreas de ficção e poesia, pois a programação tem “um peso maior que de costume na parte de não-ficção, o que se deve à homenagem a Gilberto Freyre”. Como alguém que tem a deformação profissional de atribuir mais importância à ficção do que a qualquer outra forma de escrita, eu já vinha lamentando que a Flip 2010 não seja uma das mais cintilantes nesse aspecto, e não só no caso dos brasileiros. Menos ainda se tornou…

Flip, cada um faz a sua
Vida literária / 30/07/2010

Se você está indo à Flip pela primeira vez, talvez não saiba que quando ela nasceu, em 2003, a graça era sentar no banco da praça ao lado do Julian Barnes e puxar um papo de papagaio. Eu não estava lá, o que até hoje lamento de modo amargo. Contam que a caipirinha de Maria Izabel jorrava em fontes, as pousadas estavam repletas de vagas e as plateias contavam-se em dezenas, todo mundo confortavelmente abrigado na intimidade de um auditório de província. Era grande a lista do que ainda não existia: megatendas, setecentos programas paralelos, restaurantes lotados, multidões serpenteando pelas vielas noite adentro atrás de uma mítica Festa Perfeita, gente à beça que nunca leu nem Paulo Coelho em busca de alguma forma de diversão. Parati era pacata como sempre tinha sido, aquelas pedras inacreditáveis tentando torcer seu tornozelo a cada dois passos, mas de repente você podia topar, sei lá, com um coroa americano tentando vender uma bola de beisebol usada e você olhar e o cara ser o Don DeLillo, mas ele estava pedindo alto demais pela bola de beisebol e você seguia em frente – gringo metido a esperto. Naquela primeira Flip, tão pré-historicamente romântica que até…

Para escrever uma boa resenha
Vida literária / 12/07/2010

Pensando em como ajudar os leitores que quiserem participar do concurso de resenhas promovido aqui no vizinho “Veja Meus Livros” (saiba mais), lembro-me das cinco regras para uma boa crítica jornalística formuladas há décadas pelo escritor americano John Updike, que morreu ano passado. Uma resenha no fundo é um gênero fundamentalmente livre. Ressalvada a obrigação de trazer informações básicas sobre o livro em questão, vai ser tão boa quanto a leitura de quem a escreve. Isso quer dizer que não se trata de uma receita a ser seguida passo a passo, mas vale pelo menos refletir sobre os toques do autor do recém-relançado (pela Companhia de Bolso) “As bruxas de Eastwick”: 1. Tente entender o que o autor quis fazer, e não o culpe por não conseguir fazer aquilo que não tentou. 2. Transcreva trechos da prosa do livro em extensão suficiente – pelo menos uma passagem mais longa – para que o leitor da resenha possa formar sua própria impressão. 3. Confirme sua descrição do livro com uma citação do próprio, mesmo que só uma frase, em vez de fazer apenas um resumo vago. 4. Vá devagar com o resumo da trama, e não entregue o fim. 5. Se…

Bom-mocismo nas letras
Vida literária / 02/07/2010

O post de hoje é um texto longo – longuíssimo, para os padrões da internet. Foi publicado em maio na revista “Veja Especial Mulher”, que retomou o fio de uma edição de 1967 – apreendida por ordem do Juizado de Menores – da extinta “Realidade” para investigar quatro décadas de mudanças na situação da mulher na sociedade brasileira. No caso das letras, a parte que me coube, a pauta acabou virando uma reflexão sobre o tratamento do sexo na literatura, tanto a feminina quanto a masculina. Assunto de Todoprosa, portanto. Então lá vai. * “Sempre fomos o que os homens disseram que nós éramos. Agora somos nós que vamos dizer o que somos.” O grito de guerra de uma personagem de Lygia Fagundes Telles no romance “As meninas”, de 1973, ecoou em milhares de “quartos só delas” – aquilo que a escritora inglesa Virginia Woolf, em um célebre ensaio de 1929, declarou ser fundamental para que as mulheres pudessem escrever, isolando-se dos outros papéis sociais que a sociedade lhes impunha. Por trás de suas portas fechadas, enquanto soprava na janela a ventania do feminismo, as escritoras brasileiras lançaram-se nas últimas quatro décadas à tarefa de contrapor sua própria voz a…

Pelé e a aura do livro

O mais famoso ensaio do pensador alemão Walter Benjamin, A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, pode ter algo a nos dizer sobre este momento em que o povo do livro se divide em tribos, todas em pé de guerra, diante do avanço do livro digital. Há os que acham que o livro de papel logo estará extinto – entre estes, uns festejam, outros choram – e há os que apostam a reputação em sua eternidade, dividindo-se, por sua vez, entre moderados que acreditam numa partilha do mercado e radicais que zombam dos e-books como fogo de palha ou frescura para poucos. Penso em Benjamin enquanto folheio – e desfolho, e desdobro, entre outros verbos que não me ocorrem agora – o recém-lançado “Pelé – Minha vida em imagens” (Cosac Naify, tradução de Bernardo Ajzenberg, R$ 140,00). E se à “aura” da obra de arte original, única, sobre a qual Benjamin teorizava no ensaio de 1936, corresponder em nossa era de reprodutibilidade digital uma aura, não mais de coisa original, mas de coisa-coisa, material, tangível? Nada a ver com a turma que suspira por aí pelo “cheiro do papel”. O apelo sensorial aqui vai muito além do…

O Grande Romance do Futebol e outras lendas

Onde está o Grande Romance do Futebol Brasileiro? Por que nossos escritores perebas não conseguem fazer justiça a essa porção tão risonha e límpida da alma nacional? A questão vive rondando a fronteira entre a crítica literária e o departamento de vigilância da auto-estima brasileira. A cada Copa do Mundo, ressurge com ares de grande sabedoria para rechear cadernos literários, blogs e seminários. Convocados a explicar o fenômeno, os sábios de plantão costumam se dividir em dois times: o dos que consideram os escritores brasileiros elitistas demais para dar bola para o tema e o dos que consideram os escritores brasileiros competentes de menos diante da magnitude do tema. De uma forma ou de outra, culpados. Mas será que o Grande Romance do Futebol Brasileiro (daqui em diante GRFB, para facilitar) é essa grande lacuna porque, como diz o antropólogo Roberto DaMatta, os elitistas intelectuais brasileiros “detestam o futebol” – logo eles, com sua forte corrente populista encabeçada por ninguém menos que Jorge Amado? Ou seria porque, nas palavras do crítico Silviano Santiago, “o imaginário sobre futebol no Brasil é um espaço tão complexo, tão amplo e tão multifacetado” que provoca a falência dos projetos estéticos que dele se aproximam…

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