Começos (ainda) inesquecíveis: Franz Kafka

17/08/2008

E já que falamos no homem… Post publicado em 23/9/2006:

*

Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado, viu que se transformara, em sua cama, numa espécie monstruosa de inseto.

Eis o primeiro parágrafo de “A metamorfose” (Civilização Brasileira, tradução de Brenno Silveira, 5.a edição, 1988), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Sem comentários.

10 Comments

  • Fábio Pachêco 17/08/2008 at 10:57

    Se me permite, aqui vai uma tradução que julgo mais interessante:

    “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.”

    (Companhia das Letras, tradução de Modesto Carone, 2a. edição, 1997, 15a. reimpressão)

    Acho estranho que sempre traduzam o título – Die Verwandlung – como “metamorfose”, mas na primeira frase quase todos traduzam o verbo “verwandeln” como transformar-se.

    Outra coisa interessante na tradução do Carone é a preservação da idéia de “encontrar-se a si” em sua cama metamorfoseado como se “tivesse vindo” de sonhos INtranqüilos (tradução bem melhor de UNruhigen do que “agitado”) Aliás, os sonhoS foram escritos por Kafka no plural.

    Segue o original para cotejar:

    Als Gregor Samsa eines Morgens aus unruhigen Träumen erwachte, fand er sich in seinem Bett zu einem ungeheueren Ungeziefer verwandelt.

  • Fábio Pachêco 17/08/2008 at 11:00

    E há, claro, os efeitos que nenhuma tradução é capaz de verter, como a seqüência UNruhigen, UNgeheueren, UNgeziefer, uma escolha de palavras que certamente não foi casual.

  • Saint-Clair Stockler 17/08/2008 at 18:36

    Pra mim não há melhor tradutor da obra do Kafka pro brasileiro que o Modesto Carone.

  • Paulo 17/08/2008 at 20:43

    É incrível como uma história cujo começo parece a introdução de uma redação de criança de 10 anos ganha, nos parágrafos seguintes, e quase imediatamente, a marca evidente de uma obra-prima. Hehehe, e o cara

  • Paulo 17/08/2008 at 20:45

    mandei a mensagem antes do fim (estúpido!)

    e o cara ainda era chegado num XXX, como bem evidenciado por nosso anfitrião. Que figura!

    Abs.

  • Mr. WRITER 18/08/2008 at 17:49

    Sem comentários mesmo. Um começo inesquecível, uma história inesquecível… E concordo com o Fabio, essa tradução do Modesto nas eições da Cia das Letras soa bem melhor.

  • Xandão 19/08/2008 at 18:48

    Ninguém vira adjetivo à toa. O Kafka é o cara.

  • Cezar Santos 19/08/2008 at 19:44

    Paulo,
    “… começo parece a introdução de uma redação de criança de 10 anos ganha,…”
    Uau, onde há crianças de 10 anos escrevendo assim?

  • Outro Paulo 20/08/2008 at 09:34

    Cezar Santos, tá bom, uma criança de 10 anos quase poderia escrever essa introdução. E é isso o intrigante. Não há nada de literariamente excepcional na introdução em si; ela só mostra a que veio quando a obra começa a se distanciar, logo em seguida, de um devaneio infantil para se assemelhar, mais e mais, a um pesadelo fantástico.

    Aliás, acho que quase sempre é assim. Não lembramos de começos inesquecíveis em obras medíocres – e, por deus, deve haver alguns. Lembramos, sim, dos começos que introduziram obras inesquecíveis.

    Abs!

  • Cezar Santos 20/08/2008 at 15:27

    Ok, Outro Paulo…
    Quase…aceito suas excusas…quase diz tudo.

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